Boletim ADUFS 04

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A Ano 2 Número 4 Maio/Junho 2013

SINDICATO

ANDES NACIONAL

Boletim

Central Sindical e Popular - CONLUTAS

Gestão Autonomia na Luta 2012-2014

especial adufs São João Cultura e tradição

Leia Mais

HU

Votação Com 97% dos votos, UFS rejeita EBSERH P. 3

Carreira

Artigo

Medida Provisória mantém distorções na carreira docente P. 6

A burocracia, a pesquisa e o SIGAA na UFS P. 7


Boletim ADUFS

ditorial É tempo de São João, de luta e de recomeço de aulas. Neste boletim junino, nossa capa não poderia ser outra senão a do mestre Luiz Gonzaga, um dos símbolos do Nordeste e das comemorações juninas. Na página 5 do boletim, temos uma entrevista com o professor Zezinho do CODAP, um estudioso da cultura em torno dos festejos juninos. São João é época de festa, mas também é época de luta. Em mais um capítulo da batalha dos professores das instituições federais pela reestruturação da carreira, o governo remendou a Lei 12.772/2012, que não permitia que as instituições exigissem títulos de mestre ou doutor dos candidatos a professor e, em virtude disso, tinha paralisado a realização de novos concursos. O remendo foi feito através da Medida Provisória 614/2013, que, assim como a Lei 12.772/2012, não levou em conta a proposta de carreira

apresentada pelo ANDES-SN. Nossa matéria da página 6 discute em mais detalhes a MP 614/2013 e as suas consequências. A o c o n t rá r i o d a l u t a p e l a reestruturação da carreira docente, há algumas lutas que não deveriam ser lutadas. Uma delas é a “briga” que os professores da UFS vêm travando com o SIGAA, como discutido no artigo do professor Fernando Sá, do DHI. Diante das inúmeras dificuldades com o novo sistema relatadas por colegas professores, e da inevitável sensação de perda de tempo após passar horas brigando com o sistema, fica a pergunta: será que o tempo dos docentes da UFS deveria ser gasto assim? O início do período 2013.1 também marcou o início de uma outra luta que não deveria ser travada: a luta para dar aula. Em que consiste essa luta? Consiste em conseguir dar aula em condições

bastante inadequadas, como salas sem quadro e com cadeiras para apenas metade dos alunos matriculados na disciplina. Consiste também em ter sorte de não ter que dividir a sala, uma vez que há salas de aula que foram alocadas para mais de um professor no mesmo horário. Há casos, ainda, de alunos com dificuldade de locomoção e cujas disciplinas foram alocadas em salas de aula do primeiro andar das didáticas. Como esses alunos vão pra aula se os elevadores das didáticas não funcionam? Será que todos os professores deveriam ter suas disciplinas em salas de aula acessíveis, com quadro e cadeiras para todos os alunos? Ou será que isso não é necessário e é perfeitamente normal começar um semestre letivo do jeito que a UFS começou 2013.1?

Viva São João!

5 horas depois, Ainda preenchendo o sigaa... vambora curtir o sao joao!!! o persigaa nao deixa!

EXPEDIENTE DIRETORIA 2012-2014 - GESTÃO AUTONOMIA NA LUTA Presidente: Brancilene Santos de Araújo; Secretário: Jailton de Jesus Costa; Diretor Administrativo e Financeiro: Elyson Nunes Carvalho; Diretor Acadêmico e Cultural: Sérgio Queiroz de Medeiros. Suplentes: Noêmia Lima (DSS/CCSA); Carlos Franco Liberato (DHI/CECH) Boletim produzido pela ADUFS - Seção Sindical dos Docentes da Universidade Federal de Sergipe do Sindicato Nacional dos Docentes de Instituições de Ensino Superior Endereço: Av. Marechal Rondon, s/n, bairro Rosa Elze, São Cristóvão-SE Jornalismo e Fotografia: Raquel Brabec (DRT-1517) / Design Gráfico e Ilustrações: Fernando Caldas O conteúdo dos artigos assinados é responsabilidade dos autores e não corresponde necessariamente à opinião da diretoria da ADUFS Contato ADUFS: Tel.: (79) 3259-2021 / E-mail: adufs@adufs.org.br / Site: http://www.adufs.org.br N° de Tiragem: 1300 exemplares

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Nº 4

V otação Eleição define nova gestão de Centro da UFS

Como parte do cronograma eleitoral estabelecido desde o início de abril, ocorreu, no dia 05 de junho, a eleição para Diretor(a) e Vice-Diretor(a) de Centro da UFS, para o quadriênio 2013-2017. O processo foi coordenado pela Comissão Eleitoral, composta por representantes da ADUFS, do Sindicato dos Trabalhadores da UFS (Sintufs) e do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Cerca de 2.700 pessoas participaram dessa eleição, que contou com presença maciça de estudantes: 80% do total de votos são atribuídos aos discentes. Os votos de cada chapa foram computados pelo voto ponderado percentual, de acordo com a fórmula apresentada no regulamento eleitoral. Participaram da eleição professores, servidores técnico-administrativos e estudantes matriculados na UFS. O CCET foi o único Centro a apresentar disputa de duas chapas, da qual saiu vencedora a nova gestão “Por um CCET integrado e consolidado”, dirigida pelo professor Pedro Leite, por 51,9% dos votos. Foram mais de 1.400 votantes nesse Centro.

Professor vota na eleição de Centro da UFS

Para o técnico-administrativo Antônio José dos Santos, um dos membros da Comissão Eleitoral, o processo permite que a comunidade acadêmica exerça a democracia. “Mesmo que na maioria dos centros a votação seja de chapa única, o eleitor tem três opções: votar no candidato, anular ou votar em branco. O importante é a participação”, afirma. A eleição para Diretor(a) e Vice-Diretor(a) de Centro da UFS tem como objetivo fortalecer a autonomia da instituição universitária e ocorre através de um processo participativo da comunidade universitária.

Chapas vencedoras: CCET - “Por um CCET integrado e consolidado”. Diretor (a): Pedro Leite de Santana Vice-Diretor (a): Fábio dos Santos CCSA - “Social Aplicada”. Diretor (a): Débora Eleonora Pereira da Silva Vice- Diretor (a): Valéria Aparecida Bari CECH - “Diálogo, diversidade e transparência”. Diretor (a): Iara Maria Campelo Lima Vice- Diretor (a): Maria Lêonia Garcia Costa Carvalho CCBS - “Consolidando a integração”. Diretor (a): Antônio Carvalho da Paixão Vice- Diretor (a): Charles dos Santos Estevam.

Com 97% dos votos, comunidade acadêmica da UFS rejeita EBSERH A apuração do plebiscito ocorrido na ADUFS sobre a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) nos Hospitais Universitários (HU) revela que a maioria da comunidade acadêmica da UFS não concorda com a implantação desse novo modelo de gestão. De um universo de 744 votantes, 720 foram contrários à EBSERH, representando 97% do total. Apenas 24 dos votantes se posicionaram a favor. Nacionalmente, o número de pessoas contrárias à implantação da EBSERH chegou a 60 mil; segundo os organizadores do plebiscito, apenas três mil pessoas foram favoráveis à adesão. O resultado local e nacional do plebiscito mostra de forma clara o posicionamento da comunidade acadêmica sobre a EBSERH. O plebiscito ocorreu em todo o Brasil de 02 a 19 de abril, promovido pelas entidades ligadas à educação e saúde federais. O objetivo foi informar e mobilizar a comunidade universitária contra a privatização dos HUs e do Sistema Único de Saúde (SUS). Os votos foram coletados junto à comunidade acadêmica e entre os usuários dos HUs das Instituições Federais de Ensino (IFE).

Campanha ADUFS Com o slogan “Aderir à EBSERH é privatizar a saúde e educação ao mesmo tempo”, a ADUFS iniciou, em abril deste ano, uma campanha para divulgar os riscos e prejuízos da EBSERH. Foram confeccionados banners, adesivos e bótons para distribuição entre a comunidade universitária e a população em geral. Após a etapa inicial de disseminar os efeitos da EBSERH na universidade, a ADUFS está se empenhando em fortalecer a adesão de professores, técnicos e estudantes na mobilização contra a empresa, como forma de pressionar a reitoria da UFS a não aprovar o projeto de privatização da saúde. A implantação da EBSERH vem recebendo críticas e gerando amplas discussões por propor uma lógica que inclui privatização e mercantilização do sistema hospitalar público e da educação como um todo. As entidades ligadas ao ensino superior federal afirmam que a EBSERH traz uma série de prejuízos, entre eles retirar o caráter público dos HUs, ferir a autonomia universitária e prejudicar a população usuária dos serviços assistenciais prestados pelos hospitais-escola.

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Boletim ADUFS

C ultura

São João Cultura e tradição de Almeida, do Colégio de Aplicação (Codap), na qual ele aborda seu tema de estudo: Luiz Gonzaga, o cantador do sertão. Segundo José Augusto, Luiz Gonzaga influenciou várias gerações de músicos e foi o maior representante da música popular brasileira, em especial a música do Nordeste, por divulgar ritmos alegres e contagiantes como o xaxado, o baião, o xote, o coco, entre outros.

Foto: Flávio Monteiro

José Paulino da Silva Graduado em Filosofia e Educação. Possui Mestrado em Filosofia e História da Educação pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro e Doutorado em Educação pela UNICAMP/SP. Foi coordenador do curso de Mestrado em Educação, no Departamento de Educação da UFS; Pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa, Pró-reitor em Assuntos Estudan s e Vice-reitor (Gestão 92 a 96). Possui trabalhos publicados na área de Educação, História – especificamente a Guerra de Canudos e Cultura Popular. Livros publicados: “I nerários de Libertação” (2004, Ed. Sotaque Norte), “Elogio da Amizade” (2012, Ed. Sotaque Norte). Foi um dos par cipantes da fundação da ADUFS.

Beatriz Gois Dantas Formada em Geografia e História pela Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe, Mestra em Antropologia Social pela UNICAMP, é professora emérita da UFS, ins tuição na qual desenvolveu sua vida acadêmica. Pesquisadora nas áreas de folclore, cultos afrob ra s i l e i ro s , e t n o - h i s t ó r i a i n d í g e n a e artesanato. Algumas de suas obras publicadas são: Vovó Nagô e Papai Branco: usos e abusos da África no Brasil (1988), A Taieira de Sergipe: pesquisa sobre uma dança tradicional do Nordeste (1972) e A renda de Divina Pastora. Catálogo de exposição (2001). Par cipou em várias obras cole vas e tem ar gos publicados em revistas especializadas.

Luis Alberto dos Santos Graduou-se em Serviço Social pela UFS em 1972, tornou-se Especialista em Planejamento da Dimensão Social do Desenvolvimento em 1976, Mestre em Educação pela FGV em 1983. Foi admi do por concurso público para trabalhar como professor da UFS em 1975. Foi presidente do PT, diretor do Centro de Educação e Ciências Humanas, pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários. Possui grande conhecimento em militância e na luta da classe trabalhadora.

Foto: divulgação

Aglaé D' Ávila Fontes Licenciada em Filosofia pela UFS, com Pós-Graduação em Educação Infan l (UFS) e Especialização em Educação Musical (UFBA). Par cipou da gestão de vários órgãos públicos municipais e estaduais. É professora adjunta da UFS, pesquisadora da Cultura Popular, folclorista, escritora, consultora em Arte-educação em diversos países e estados brasileiros, presidente da Comissão Sergipana de Folclore e vice-presidente da Comissão Nacional de Folclore. Possui diversos livros publicados, entre eles, “O folclore e a educação musical”, “Danças e Folguedos”, 'Eu não tenho onde morar' e 'Menino tangedor de sonhos'.

Foto: divulgação

Perfil dos homenageados

José Augusto de Almeida Licenciado em Matemá ca pela Universidade Federal de Sergipe, em 1979. Possui Pós-Graduação em Metodologia do Curso Superior pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Maceió-AL (1992). A carreira profissional envolve ensino na rede estadual, municipal, par cular e universidades par culares. No Colégio de Aplicação da UFS, leciona Matemá ca e Informá ca. Acredita que a vinculação matemá ca à realidade sociocultural é de grande importância para o sucesso de sua aprendizagem. Par cipa do programa Aquarela Nordes na da Rádio Aperipê há 20 anos.

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Origem do São João! Segundo artigo publicado pelo professor José Augusto, a festa de São João foi introduzida no Brasil pelos portugueses em 1538, sendo bem aceita pelos indígenas devido às brincadeiras, adivinhações, batizados, tudo em volta da fogueira. No Brasil, foram incorporadas as comidas típicas como canjica, pamonha, manaué, pipoca, milho verde assado e cozido, quase todas de origem indígena. O São João no Brasil coincide com o inverno, numa homenagem simples que é dedicada ao santo. Mesmo numa era em que as culturas se globalizam, a festa de São João persiste culturalmente e se constitui num dos períodos mais alegres do ano.

Foto: Arquivo ADUFS

Ao ouvir essa música, uma das mais conhecidas de Luiz Gonzaga, fica impossível não sentir a magia do mês junino, com todas as duas tradições, crendices, brincadeiras, comidas e danças. Nesta edição do Boletim ADUFS, a equipe editorial traz para os leitores um material especial sobre o São João. A Diretoria da ADUFS homenageia 5 professores que são verdadeiros símbolos para a cultura Sergipana, seja por suas carreiras acadêmicas de contribuição para a sociedade, seja pelo repertório literário ou pelas pesquisas que engrandecem o Estado. Você também pode conferir neste especial uma entrevista com o professor José Augusto

especial

Foto: Arquivo ADUFS

‘’Olha pro céu, meu amor Vê como ele está lindo Olha praquele balão multicor Como no céu vai sumindo Foi numa noite, igual a esta Que tu me deste o teu coração O céu estava, assim em festa Pois era noite de São João Havia balões no ar Xóte, baião no salão E no terreiro O teu olhar, que incendiou Meu coração.’’ (Olha Pro Céu, Luiz Gonzaga)


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E ntrevista

Luiz Gonzaga o Rei do Baião Quando se trata de estudos sobre Luiz Gonzaga, a primeira pessoa a quem recorrer na UFS é o professor José Augusto de Almeida, também conhecido como Zezinho. Ao longo dos anos, esse professor de Matemática do Colégio de Aplicação (CODAP) reuniu um acervo que inclui livros, peças e discos do músico que considera uma inspiração: o compositor, instrumentista e cantor Luiz Gonzaga. Em entrevista, José Augusto fala sobre o significado dos festejos juninos, a influência de Luiz Gonzaga na música popular brasileira e o legado que deixou para a cultura do Nordeste. Boletim ADUFS – Como surgiu o interesse pelo tema Luiz Gonzaga? Prof. José Augusto – Comecei a trabalhar nos estudos sobre Luiz Gonzaga na época em que José Paulino era vice-reitor da UFS, na década de 90. Mas já comprava os discos dele nos anos 60 e 70. Tenho, mais ou menos, 40 livros no acervo de Luiz Gonzaga. Ele era tema de estudo em Universidades do Sul e Sudeste do país, tema para mestrado, doutorado, artigos e pesquisas, mostrando sua trajetória. Outro ponto é que toda criança que foi criada em fazenda recebeu uma influência muito forte de Luiz Gonzaga. Eu mesmo, com dois ou quatro anos, quando vivia no Povoado Gameleira, em Campo do Brito, lembro as músicas no rádio. “Noites Brasileiras”, “Olha pro Céu”, “Fogueira de São João”, são algumas famosas dele. Na época junina, havia uma festa simples, onde todo mundo se misturava. Existiam as brincadeiras, as crendices, as danças, o batizado na fogueira, tudo isso só depois eu fui entender melhor o significado: elas aumentavam os laços entre a família e os moradores da cidade. Quando vim para a cidade grande, tomei um choque. A festa não era genuína. Infelizmente, parece que a cultura e o material didático ensinados na sala de aula vêm do Sul. A capital está perdendo sua identidade cultural, deixando suas raízes, assimilando a modernidade que vem de outros Estados. Com uma orla bonita como essa que temos, deveria ter forró e apresentações folclóricas o ano todo. Em Campina Grande e Caruaru, o São João dura 30 dias; aqui já diminuíram para 10. É preciso haver um resgate nesse sentido. Boletim A D U F S – Quais são as

peculiaridades da vida e da musicografia de Luiz Gonzaga? Prof. José Augusto – A musicografia de Luiz Gonzaga é extensa e conta toda sua história. Ouvindo “Noites Brasileiras”, por exemplo, você percebe como era feito o São João. Interessante é a mudança que o São João sofreu depois de Luiz Gonzaga, como ele criou uma nova imagem para o Nordeste e divulgou suas festas. Em “A Dança da Moda”, por exe m p l o, o u v i m o s “ N o R i o t á t u d o mudado/Nas noites de São João/Em vez de polca e rancheira/O povo só pede, só dança o baião”, que mostra essa mudança. Para interpretar uma música de Luiz Gonzaga, você precisa conhecer um pouco da história e do contexto dela. Por exemplo, a música “Boi Bumbá”, de 1968, fala sobre as partes de um boi. Um momento da música diz “Pra onde vai a barrigueira?/Vai pra Miguel Pereira/E a vassoura do rabo?/Vai pro Zé Nabo”. Quem é esse Zé Nabo? Ele era prefeito de Miguel Pereira. 20 anos depois, Luiz Gonzaga grava outra música, chamada “Cabo a Rabo”, e Zé Nabo aparece nela de novo. Luiz Gonzaga cita nomes conhecidos em suas músicas com frequência. Quando Luiz Gonzaga começou a gravar, ele sempre procurava pessoas que tivessem nível superior e que conhecessem o Nordeste para enriquecer suas músicas. “Asa Branca” foi uma delas: é uma música de origem folclórica e ganhou mais beleza com a contribuição de Humberto Teixeira, como no trecho “Quando o verde dos teus olhos/Se espalhar na prantação/Eu te asseguro não chore não, viu/Que eu voltarei, viu/Meu coração”. Outro exemplo foi Zé Dantas, que era médico e é um dos compositores de “Samarica Parteira”, que conta a história de um parto. Luiz Gonzaga foi uma pessoa única. Você não pode estudar a cultura nordestina sem citar ele. Não só no Nordeste, onde ele ajudou a criar igreja, fundar hospital, mas também na região Sudeste, na cidade de Miguel Pereira, Rio de Janeiro, sua influência é forte. Se você chegar lá e perguntar quem é Luiz Gonzaga, todo mundo sabe. Alguns discos sofreram censura. Em 1968, ele gravou “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, e o disco só pode voltar a circular em 1980. Há a música “Paulo Afonso”, que mostra quem deu a ideia da

criação da usina, “Vozes da Seca”, que ensina o nordestino a conviver com a seca. Há também uma, chamada “Apologia ao Jumento”, que é um protesto contra a venda da carne de jumento para a França. Ele criou uma composição instrumental com o grave e o agudo, a zabumba e o triângulo, algo que não existia antes. Foi ele quem primeiro criou um trio especificamente nordestino, que saia mais barato do que viajar com uma banda composta por violão, violino, e outros instrumentos de orquestra. Ele também sofreu preconceito, assim como outros artistas da música popular brasileira, como Noel Rosa, Pixinguinha, Ari Barroso, Augusto Calheiro, todos eles sofreram dificuldade na carreira. Por outro lado, deixou muitos seguidores, os chamados gonzaguianos, que, por exemplo, repetiram a ideia do trio nordestino. Maria Inês é um deles, considerada até como Luiz Gonzaga de saia. Hoje nós temos um contingente expressivo de músicos nordestinos. Nós temos Mestrinho, que tocava com Dominguinhos, o filho postiço de Luiz Gonzaga, Erivaldinho do Acordeon, o próprio Erivaldo de Carira, Luiz Paulo, nós temos todos esses artistas que seguiram a ideia da festa junina iniciada por Luiz Gonzaga. Boletim ADUFS – Os festejos juninos estão sofrendo um processo de mudança que muitas vezes gera polêmica. O que o senhor tem a falar sobre o assunto? Prof. José Augusto – Com a morte de Luiz Gonzaga, surgiram bandas variadas, mas nesse ponto entra a parte política. Se você contratar um sanfoneiro bom, ele cobra entre 3 a 4 mil reais; já se você contratar uma banda famosa, vai sair de 200 mil reais para cima. Isso dá margem para desvios, e a cultura se perde nessa seleção musical. Muitas vezes, chamam gente que não tem nada a ver com a festa junina. Algo inquestionável é que a cultura está sempre em movimento. Não sou um daqueles saudosistas que acham que nada deve mudar, pelo contrário. Agora, a partir do momento em que você começa a mudar muito, botar lambada no São João, você está perdendo a identidade cultural. As mudanças têm que vir, mas sem perder as características. Você não pode perder suas raízes, o estilo de música, o xote, o xaxado, a marchinha junina, conhecer a importância do São João.

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Boletim ADUFS

Carreira Docente Medida Provisória mantém distorções na carreira docente

Em um ato que vem provocando polêmica entre os setores ligados ao ensino superior federal, o governo publicou no Diário Oficial a Medida Provisória 614/2013, que reabre o debate sobre o conteúdo da Lei 12.772/2012, que trata da estruturação do Plano de Carreiras e Cargos de Magistério Federal. A medida, publicada em 15 de maio, foi criada para dar resposta às intensas críticas que surgiram após a entrada em vigor da Lei 12.772, em março deste ano, principalmente no que diz respeito ao ingresso de docentes com titulação nos quadros das universidades federais. Na visão do ANDES-SN, a MP 614/2013 é mais uma atitude unilateral e autoritária do Poder Executivo, que apenas maquia a solução de falsos problemas e não traz nenhum aspecto que trate de reverter a desestruturação da carreira dos docentes das Instituições Federais de Ensino (I F E), consolidada pela Lei 12.772. MP 614/2013 Uma das principais alterações que a medida aponta no texto original da Lei 12.772 é a mudança na classificação da carreira de magistério superior, que passa a ser estruturada em classes A, B, C, D e E, e respectivos níveis de vencimento, de acordo com a titulação do ocupante do cargo. Outro ponto de destaque foi que se retomou a exigência do título de doutor na área do concurso como requisito de ingresso na Universidade, reconhecendo que são as Universidades que devem decidir as condições e exigências para preenchimento dos cargos docentes, conforme prevê a Constituição Brasileira. O texto aponta ainda redução no tempo de doutoramento ou experiência exigido para a prestação de concurso de Titular Livre para 10 anos, ao invés de 20 anos, assim como também se alterou a redação do artigo que regulamenta as parcelas remuneratórias que os docentes em regime de Dedicação Exclusiva podem receber.

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Pontos conflitantes Para o sindicato nacional, uma análise preliminar da MP 614/2013 comprova que a medida não aborda os elementos centrais da desestruturação e limita-se a aplicar novas roupagens em torno de antigos problemas. “A medida não enfrenta a falta de critério evolutivo nos degraus de ascensão na carreira, a discrepância na valoração dos regimes de trabalho e da titulação, e muito menos aborda a pseudo-estratificação da estrutura. Ao contrário, aumenta a confusão ao denominar as classes com letras e a estas impor denominações secundárias, que teriam efeito qualificador”, argumentou Marinalva de Oliveira, presidente do ANDESSN. A presidente ainda critica a fragilização do regime de Dedicação Exclusiva e o fato de a MP não tratar da ambiguidade de se ter duas

figuras de Professor Titular na mesma carreira com critérios e formas de ingresso distintas, o que a simples redução das exigências para concurso ao chamado Titular Livre não minimiza. Quanto às condições para participação em concursos de ingresso na carreira, o sindicato entende que esta é uma questão que sempre foi resolvida no âmbito da autonomia universitária. Também questiona por que o governo não exige as mesmas condições para as instituições privadas, nas quais o percentual de doutores é mais baixo. O sindicato nacional, juntamente com as seções sindicais, está avaliando os próximos passos da sua intervenção para conquistar avanços efetivos em termos da reestruturação da carreira dos professores federais, tendo como referência o projeto construído no debate nacional pelos próprios docentes. Com informações do ANDES-SN

Entrevista Recém-chegado das discussões acerca da MP no sindicato nacional, em Brasília, o professor e diretor financeiro da ADUFS, Elyson Carvalho, aborda suas impressões sobre o tema: ADUFS - Na visão do ANDES, a nova medida não modifica a essência da lei, ou seja, mantém as distorções na carreira docente. Qual o propósito do governo em manter o mesmo discurso, mesmo depois de todas as propostas de reestruturação apontadas pela categoria docente? Prof. Elyson - As ações do governo têm sempre apontado para uma desestruturação das universidades federais, tornando-as pouco atra va para novos professores, bem como para a sociedade. A falta de inves mentos nas IES públicas e o financiamento por parte do governo federal das IES privadas deixam claro que as distorções na carreira docente não são mo vadas apenas por questões orçamentárias, retomando a ideia de priva zação das universidades federais. ADUFS - A MP está na Câmara dos Deputados para apreciação, e de lá seguirá para o Senado. Entre os parlamentares, já existe uma indicação do que eles pensam sobre a medida? São favoráveis ou contrários? Prof. Elyson - Ainda não sabemos qual o opinião dos deputados e senadores, no entanto, muitos parlamentares têm procurado o ANDES-SN para saber qual a opinião do nosso sindicato sobre a MP. Dessa forma, foi elaborado e divulgado entre os parlamentares um texto enfa zando que a MP 614/2013 não resolve a desestruturação trazida com a Lei 12.772/2012. ADUFS - Quais são as ações em andamento no sindicato nacional no sen do de promover um embate contra a MP 614/2013, e qual a par cipação das seções sindicais - incluindo a ADUFS - nesse processo? Prof. Elyson - Na verdade, os esforços do ANDES-SN estão focados em aproveitar a publicação da MP para reabrir as negociações com o governo, uma vez que sua publicação é a prova de que as discussões e alterações na carreira docente federal não foram encerradas com a Lei 12.772/2012.


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A rtigo A BUROCRACIA, A PESQUISA E O SIGAA NA UFS

Quando cheguei à Universidade Federal de Sergipe, em 1991, percebi que pouco se produzia do ponto de vista da pesquisa universitária e a pós-graduação não era prioridade no reitorado. O ensino era o meio e o fim da UFS em meio às mudanças ideológicas e políticas experimentadas com o avanço do neoliberalismo na política educacional no Brasil, apesar da intensa resistência dos funcionários públicos federais. Abnegados docentes se desdobravam entre inúmeras tarefas e a infraestrutura do campus era muito precária, sem muitas possibilidades de permanência nos departamentos e laboratórios. Mesmo assim publicávamos num esforço hercúleo de produzir ciência na periferia da periferia universitária. Muita coisa mudou e vemos que hoje nossa universidade avançou, consideravelmente, na direção da integração do ensino, pesquisa e extensão. Contudo, a extensão continua não sendo prioridade nas universidades brasileiras hoje. Pior ainda é que o processo de burocratização da universidade pode prejudicar as conquistas duramente levadas a cabo pelo conjunto de professores e técnicos administrativos nas últimas décadas. Foram implantados múltiplos mecanismos de controle social do trabalho docente e técnico-administrativo, estabelecendo um novo paradigma para se pensar a universidade. Moldou-se uma concepção hegemônica de Universidade em que o conhecimento constitui-se no principal fator de produção, o que o torna produto, mercadoria. Desde o governo Collor, a Universidade passou a ser o alvo preferencial dos grupos hegemônicos do mercado, apoiados pelas políticas de governo, na medida em que, no capitalismo globalizado, educação e conhecimento são tidos como eixos da transformação produtiva e do desenvolvimento econômico. As inúmeras avaliações que temos vivenciado desde os anos 1990 devem ser i n s e r i d a s n e s s e c o n tex to, te n ta n d o consolidar uma “pedagogia” da concorrência, da produtividade e da eficiência. Isso tem levado o trabalho docente para além do campus da universidade, imiscuindo inclusive no nosso parco tempo de lazer com seus pareceres e processos administrativos. Isso

tem impedido o saudável exercício do ócio criativo, fundamental como a liberdade para a produção intelectual. Sobre esse assunto, recordo-me de um livro que marcou minha vida intelectual nos idos dos anos 1980 e que pode nos ajudar a interpelar essa burocratização da universidade brasileira. O Direito à Preguiça, de Paul Lafargue, lançado em 1980, pela editora Kairós, trazia certa simpatia pela ideologia do progresso e que o avanço tecnológico poderia ampliar nosso tempo livre, possibilitando aos trabalhadores usufruírem a cultura e o lazer. A grande repercussão deste libelo no movimento operário do século XIX, superado apenas pelo Manifesto Comunista, de K. Marx e F. Engels, pode nos ajudar a refletir para um debate que reputo como atualíssimo: a dialética entre o direito ao trabalho e o direito à preguiça. Na universidade brasileira, vivemos atualmente um processo massacrante de intensificação e precarização do trabalho docente, tendo como foco o produtivismo defendido como política de Estado, que, ao invés da libertação que o desenvolvimento tecnológico poderia nos proporcionar, o que vemos é um aprisionamento do nosso tempo livre ao mundo do trabalho. Nos anos 1990, Milton Santos já denunciava esse processo, afirmando que a universidade não pode se preocupar apenas com a produtividade, mas criar a sua capacidade de gerar subversão e indignação. Cada vez mais os governos de todos os m a t i ze s i d e o l ó g i c o s t ê m a t a c a d o a autonomia universitária, garantida pela Constituição Federal de 1988, no seu artigo 207. Talvez a nossa incompetência em exercer esse direito tenha favorecido ações estatais de controle do processo de trabalho dos profissionais que atuam nas universidades públicas brasileiras. Esse é um processo de adequação da instituição universitária ao processo de globalização neoliberal. A implantação do SIGAA na UFS foi uma imposição política e burocrática da reitoria sem o devido diálogo com a comunidade universitária. Não quero aqui ser confundido com algumas opiniões “ludditas” de rejeição absoluta à tecnologia e ao “sistema”, mas entendo que temos a obrigação de denunciar os problemas que sua implantação tem

causado nos dois últimos anos. Quando do seu início no ano de 2012, o “sistema” causou uma série de transtornos aos pesquisadores que tentavam preencher o formulário de registro de projetos para o Programa de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) e persistiu durante o corrente ano. O autismo da burocracia universitária da UFS impede um diálogo mais profundo sobre os prejuízos impingidos aos docentes por essas intempéries do “sistema”. Alguns inspirados estudantes que já experimentaram o “sistema” na Universidade Federal do Ceará chamam-no de “persigaa”. Não por acaso. Interessante observar que os atuais responsáveis pela pesquisa na UFS afirmaram, pessoalmente, que o problema foi apenas comigo, mas consultando outros professores percebi que atingiu cerca de 70 professores desta instituição. Talvez o problema de comunicação entre a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação ( P O S G R A P ) e os pesquisadores se restrinja ao meu e-mail institucional, que, aliás, não funciona como deveria numa instituição que se quer universitária. O erro, segundo a burocracia universitária, é sempre do professorpesquisador e não do “sistema”. Confesso que me sinto desestimulado a prosseguir num processo seletivo que não oferece alternativa quando o “sistema” não funciona. Apesar de algumas funcionalidades, aliás, muito interessantes para o exercício do trabalho docente, não podemos deixar de registrar os inúmeros problemas advindos da implantação do “sistema”, como podemos identificar no e-mail enviado pelo DAA, datado de 21 de maio último, adiando o início do próximo semestre 2013.2, devido aos “problemas na preparação da oferta e durante o processo de matrícula, ambos envolvendo o novo sistema eletrônico de gerenciamento (SIGAA)”. Na minha modesta opinião, devemos informar aos dirigentes das instituições federais de ensino superior que eles não são apenas “gerentes” da crise universitária e sim partícipes da luta por uma universidade pública, gratuita e de qualidade. Afinal, qual universidade queremos? Prof. Dr. Antônio Fernando de Araújo Sá Departamento de História Universidade Federal de Sergipe

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S indicato Começa a 2ª etapa da Campanha de filiação do ANDES A campanha de sindicalização do ANDES-SN, com o slogan “Um a mais é muito mais!”, entrou em sua segunda fase no mês de junho. A novidade desta etapa é que cada Seção Sindical poderá incluir sua própria marca nas peças, como a que se vê no banner ao lado. A nova marca do ANDES-SN e a nova campanha de filiação foram lançadas durante o 32º Congresso e disponibilizadas às seções sindicais de todo o Brasil. A campanha ANDES-SN 2013 tem a formiga como seu elemento-chave, escolhida por simbolizar a sociedade organizada, onde cada uma tem um papel único e importante, a comunicação inteligente, a força, o espírito coletivo, a individualidade dentro da coletividade e o grande número. Filiação ADUFS O maior compromisso da ADUFS é lutar pela qualidade da educação pública e pela valorização do trabalho docentes. A ADUFS oferece aos professores associados vários serviços, entre eles o convênio de saúde com a Unimed e assessoria jurídica para defender os direitos dos docentes, disponibilizada todas as quartas-feiras no período das 15h

Seção

às 17h. Há, ainda, os Grupos de Trabalho, abertos a todos os

ADUFS

docentes, que cumprem importante papel na formulação

Sindical

das políticas da ADUFS.

www.adufs.org.br

Para se filiar, dirija-se à ADUFS para preencher a ficha de

ANDES - CSP CONLUTAS

sindicalização, autorização do débito e entregar uma cópia do seu contracheque. Nossa luta é conjunta e você faz parte dela!

Campanha pela anulação da Reforma da Previdência coleta assinaturas Durante os meses de maio e junho o Fórum Nacional das En dades dos Servidores Públicos Federais e pelo Espaço de Unidade e de Ação promoveu uma campanha de coleta de assinaturas com o obje vo de anular a Reforma da Previdência de 2003 e seus efeitos, entre eles o Funpresp (Fundação De Previdência Complementar do Servidor Público Federal). Em Sergipe, a lista de coleta das assinaturas ficou disponível na sede da ADUFS. No abaixo-assinado, reivindica-se o reconhecimento da nulidade da Reforma da Previdência de 2003 (Emenda Cons tucional 41), devido à comprovação de compra de votos que viabilizou sua aprovação no Congresso Nacional, conforme decidido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em julgamento do processo in tulado “mensalão”. O julgamento do STF condenou vários ex-integrantes do governo e par dos de sua base aliada. Para as en dades envolvidas na campanha, a reforma não pode con nuar em vigor.

www.adufs.org.br facebook.com/adufsse.secaosindicalandes

ADUFS atualiza dados de professores filiados

Desde o dia 03 de junho, a ADUFS iniciou o recadastamento dos professores filiados ao sindicato nacional. O obje vo da ação é atualizar os dados dos docentes a fim de garan r a comunicação com os filiados e o registro de informações per nentes ao trabalho da associação. Para se recadastrar, basta abrir a página da ADUFS na internet e acessar o link “Recadastramento”, na parte superior do site. Lá, há um formulário on-line onde deve redigir seus dados pessoais, como endereço, contato, lotação e dados bancários. Todas as informações são protegidas pelo sistema da ADUFS. Encontre o site da ADUFS no seguinte endereço: http://adufs.org.br/


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