UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO ATELIÊ DE PROJETO VIII ORIENTADORA: MARIA DE LOURDES NÓBREGA ALUNAS: ALLANA XAVIER, CAMILLA SASSI, CATARINA TAI E SUÍVINI ROCHA
apresentação
“
O referente trabalho, elaborado pelas as alunas Allana Xavier, Camilla Sassi, Catarina Tai e Suívini Rocha para a disciplina de Atelier de Projeto VIII, busca apresentar considerações metodológicas, analisar os dados urbanísticos coletados da área histórica do bairro da Soledade em Recife, Pernambuco, e ainda, exibir o projeto arquitetônico elaborado no lote escolhido. Será exemplificado relações com o sítio histórico e como elas dialogam entre si, de acordo com a dissertação de mestrado de Nivaldo Vieira de Andrade Júnior denominado “Metamorfose Arquitetônica“.
sumário 2 1 introdução pg. 4
1.1 1.2 1.3 1.4 1.5 1.6
apresentação da área breve histórico legislação identidade fluxos gabarito
metodologia pg. 16
4 aspectos técnicos
3 estudo preliminar pg. 20 3.1 3.2 3.3 3.4 3.5 3.6
implantação volumetria escala ritmo densidade cores e texturas
pg. 27
5 perspectivas pg. 35
6 estudo de caso pg. 41
1 introdução
1.1
apresentação da área O território em estudo, localizado em Recife - PE, encontra-se no centro da cidade no bairro da Soledade, situado na Região PolíticoAdministrativa 1 (RPA 1), com área equivalente a 32,4 hectares e uma população de 2.495 habitantes, nos quais tem sua maioria do sexo feminino com faixa etária de 25-59 anos de idade. O bairro tem predominância de uso de comércio e serviço, ocupando quase 50% referentes a suas atividades. Pode-se notar também, uma grande quantidade de instituições de ensino na área, o que faz o bairro ser muito frequentado por jovens estudantes, além de abrigar os principais corredores de transporte público da cidade que facilitam o deslocamento para outras regiões, como o eixo metropolitano da Av. Conde da Boa Vista.
O bairro de caráter histórico, possui diversos patrimônios históricos materiais importantes para história do Estado, entre eles: Igreja da Nossa Senhora da Soledade, Palácio da Soledade, o Santuário de Nossa Senhora de Fátima, o colégio Nóbrega, o prédio da Autarquia de Urbanização do Recife (URB), a Casa de Oliveira Lima e o Museu Arqueológico da Universidade Católica de Pernambuco. A área de intervenção da proposta de projeto no bairro da Soledade, está delimitada entre a Avenida Conde da Boa Vista e o cruzamento da Rua do Príncipe com a Avenida João de Barros, sendo estudadas nessa área a Rua da Soledade e partes da Rua João Fernandes Vieira e da Rua Nunes Machado.
1.2
breve histórico O bairro da Soledade surgiu no começo do século XVIII, tanto é que em 1716 a Igreja de Nossa Senhora Da Soledade já estava construída, tendo em sua frente a praça com o mesmo nome. Houveram outras grandes construções importantes para a história de toda a cidade, como o Palácio da Soledade construído entre os anos de 1739 e 1769, que teve vários usos ao longo de sua existência, atualmente é a Sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Já no início do Século XX, em 1917 o Colégio Nóbrega foi fundado, sendo considerado por muito tempo como um dos mais tradicionais da região. Outra construção importante é o Santuário Nossa Senhora de Fátima, que foi
inaugurado um pouco mais tarde em 1935. Porém, apenas no ano de 1988 que o bairro ganhou a sua independência do bairro da Boa Vista. Além de edifícios de grande porte, também vale mencionar a casa onde nasceu e viveu o diplomata, sociólogo, ensaísta e historiador Manoel de Oliveira Lima, onde desde 1971 abriga o Conselho Estadual de Cultura. Como podemos notar o bairro mesmo com sua pequena dimensão contando com cerca de pouco mais de mil domicílios e 2,5 mil habitantes ele contém um teor histórico muito forte e diverso, contendo museus, edifícios históricos, tantas outras igrejas e até casas que lutam para se manter preservadas e presente até os dias atuais.
Antiga Fábrica Fratelli Vita Fonte: Lugares Esquecidos - Luis Carvalheira
Av. Conde da Boa Vista, 1959 Fonte: Arquivo/DP/D.A Pres
Igreja Nossa Senhora da Soledade, século XX Fonte: Gustavo Arruda
1.3
legislação Recentemente, a área em estudo sofreu alterações significativas quanto à regência da legislação atuante, tendo em vista a aprovação do Plano Diretor de 2020. A atualização do Plano veio com o propósito de aperfeiçoar os parâmetros da cidade, visando um melhor desenvolvimento sustentável e a sucessiva preservação das devidas áreas históricas recifenses, a qual inclui o sítio em estudo. Criou-se, portanto, a Zona Centro (ZC) que “tem por objetivo promover um desenvolvimento urbano que priorize o pedestre e a ocupação de áreas vazias ou subutilizadas de seu parque edificado, em consonância com suas características ambientais, culturais e disponibilidade de infraestrutura instalada” (PLANO DIRETOR, 2020). Correspondem, assim, à região central do Recife que abriga elementos do patrimônio cultural, oferece uma gama de serviços e comércios e apresenta grande diversidade morfológica. É, de fato, um acréscimo bastante significativo na legislação urbana que ajudará na volta da ocupação do centro e de sua vitalidade, juntamente com a preservação de suas características históricas. Evidencia-se outra zona caracterizada como ZEPH - Zona Especial de Patrimônio Histórico
Cultural - que é formada por áreas de sítios, ruínas e edifícios que são consideradas importantes para a memória cultural, artística e paisagística e são regidas por leis de ocupação específica, para que não haja uma grande modificação da pré-existência. No recorte o Conjunto de Edificações da Escola Liceu de Nóbrega e o conjunto que atualmente é usado como a sede da URB são classificadas como ZEPHs. Ainda, existem quatro edifícios na área de estudo que são definidos como IEP Imóvel Especial de Preservação -, sendo “caracterizado por exemplares isolados de arquitetura significativa para o patrimônio histórico, artístico ou cultural da cidade” (PLANO DIRETOR, 2020), possibilitando devida preservação. O edifício da CELPE, duas construções localizadas no conjunto da Autarquia de Urbanização do Recife (URB) e um sobrado que fica na esquina da Av. Conde da Boa Vista com a Rua da Soledade (Figura 1) são os imóveis regidos por essa legislação no sítio de estudo. Essas construções devem ser preservadas por causa da sua singularidade, além de serem importantes para a história, paisagem e memória local.
(Figura 1): IEP na esquina da Av. Conde da Boa Vista com a R. da Soledade fonte: Google Earth
1.4
identidade arquitetônica A identidade é determinada considerando as tipologias arquitetônicas similares presentes e, em conjunto com a coerência visual, a área passa a ter a capacidade de ser reconhecida por parte de seus usuários e visitantes por meio dessa tipologia. Na análise de identidade é possível encontrar tipos semelhantes ou distintos e determinar o grau de identidade da área, sabendo que quanto maior a frequência de repetição, maior a chance dos indivíduos associarem a área em questão. A partir disso, na área geral de estudo, foram identificadas 11 tipologias. O tipo que aparece com maior frequência é a “casa de porta e janela”, que representa 26.47% dos imóveis (Figura 2), seguido pelas tipologias caracterizadas como “outros” e “casa solta no lote”, que demonstram respectivamente,
a presença em 15.29% e 13.56% dos imóveis (Figura 3). Já na R. da Soledade, além de casas de porta e janela, compreende-se uma forte presença de sobrados (Figura 4). Dessa maneira, entende-se que, numericamente, a área em estudo não possui um tipo arquitetônico predominante com mais de 30% dos imóveis e apresenta uma considerável diversidade construtiva. Entretanto, fica evidente que ao caminhar pelo sítio, existe uma certa sensação de identidade oriunda das diversas edificações de cunho e estilo históricos, as quais remetem a uma memória local. Conclui-se então que não se pode analisar uma área apenas com base em dados estatísticos, sendo importante também levar em consideração as sensações que o sítio transmite para quem o transita.
(Figura 2): Forte tipologia de casa de porta e janela na Av. Conde da Boa Vista Fonte: Google Earth
(Figura 3): Casa solta no lote na R. Riachuelo Fonte: Google Earth
(Figura 4): Sobrado na R. da Soledade Fonte: Suívini Rocha, 2021
3.3
fluxo e hierarquia de vias O recorte que em estudo se encontra em uma área de que pode ser considerada como privilegiada na cidade do Recife, pois ela possuem um a Avenida Conde da Boa vista, uma via considerada como eixo metropolitano, que possuem grande tráfego dos mais diferentes tipos de modais, desde ônibus que ligam a região metropolitana ao centro da cidade, até ciclofaixas recentemente instaladas, aumentando ainda mais a quantidade de modais nessa via de grande importância. Sendo assim ela suporta um grande fluxo de meios de transportes públicos, particulares, individuais e de transeuntes, sendo a via mais utilizada em nosso recorte, justamente pelo fato de abrigar esses diferentes modais (Figura 5). Nele também há 6 vias de eixo urbano, onde apenas a Avenida João de Barros e a Rua do Príncipe são usadas como percurso de linhas de transporte público, e também possuem um fluxo grande de pessoas. Das demais restantes, apenas a Rua João Fernandes Vieira
e a Rua do Riachuelo possuem uma ciclofaixa, que é bastante usada, tanto pelos moradores do bairro, como pelos os estudantes da própria Unicap. Porém, é importante ressaltar que o outro modal que usa essas duas vias são os carros particulares, e elas não são muito utilizadas por pedestres (Figura 6). Ainda existem também quatro vias locais e todas elas são utilizadas por bicicletas e carros particulares, porém, apenas a Rua Joaquim Felipe também é utilizada como via de transporte público, e por ser uma rua que tem um eixo educacional muito forte, suas calçadas são bastante utilizadas por pedestres principalmente durante o ano letivo. Devido à oferta de atividades, a área apresenta intenso fluxo de pedestres durante o dia, de trabalhadores à estudantes e a Praça da Soledade se torna importante para tal deslocamento por se encontrar entre importantes eixos viários e campo atrativo (Figura 7).
(Figura 5): Via de Eixo Metropolitano - Av. Conde da Boa Vista Fonte: Google Earth
(Figura 6): Presença de ciclofaixa na R. João Fernandes Vieira Fonte: Suívini Rocha, 2021
(Figura 7): Pedestres utilizando-se da calçada da Praça da Soledade Fonte: Google Earth
3.6
gabarito A análise do gabarito de uma área consiste na identificação da altura dos edifícios - elemento que pode ser definidor de uma paisagem -, a fim de perceber se existem medidas constantes e similares que possam ser utilizadas como base nas propostas de intervenções futuras, com o intuito de garantir maior correlação entre as novas construções e as preexistências. Por se tratar de de um sítio histórico, percebeu-se que cerca de 83% das edificações possuem gabarito de até 2 (dois) pavimentos e evidenciam a continuação dos parâmetros construtivos de sua época de ocupação (Figuras 8 e 9). Essa realidade é principalmente observada na parte sul da área de estudo, onde, ainda, é evidenciada tipologias históricas da cidade do Recife, como o edifício sede da Autarquia de Urbanização do Recife (URB). Todavia, identificou-se algumas construções que fogem desse padrão, como o Edifício Modernista Módulo na Avenida Conde da Boa
Vista, o Edf. San Benito e a mais recente implantação no local, o edifício de esquina com a R. João Fernandes Vieira e a R. Nunes Machado que ultrapassa dos 20 (vinte) pavimentos (Figura 10). Essas construções, apesar de serem minoria no sítio, geram enorme impacto visual e sensorial em seu entorno, devido aos seus gabaritos que excedem dos 11 (onze) pavimentos e a sua grande área de ocupação. Nesse sentido, pode-se afirmar que, numericamente, o gabarito da área é uniforme. Entretanto, se levar em consideração as sensações dos transeuntes e as repercussões sociais e ambientais, vê-se uma certa discrepância. Os edifícios excessivamente altos se impõem no sítio e quebram a uniformidade da paisagem, sendo necessário maior atenção e respeito na proposta de intervenção quanto a esse parâmetro construtivo.
(Figura 8): Edifícios de até 2 (dois) pavimentos na R. da Soledade Fonte: Google Earth
(Figura 9): Gabarito uniforme na R. Riachuelo Fonte: Google Earth
(Figura 10): Contraste entre o gabarito existe da Igreja da Soledade com o novo edifício pódio de esquina Fonte: Google Earth
2 metodologia
metamorfose arquitetônica nivaldo vieira de andrade júnior
“De fato, a forma arquitetônica de um edifício (…) não é jamais percebida de forma independente, mas sempre em relação com as demais partes do mesmo edifício, com os edifícios vizinhos, com o contexto em que se insere, com a vegetação do entorno e com os demais elementos que a cercam fisicamente. (JUNIOR, Nivaldo Vieira de Andrade, 2006, p.192)”
Antes de definir esses elementos mencionados na citação acima, ele apresenta a nós dois conceitos: o de consonância e o de dissonância. O primeiro conceito diz que a edificação e seus elementos são considerados em consonantes quando eles conseguem ser inseridos em um contexto preexistente de forma que não venha a ser destoante dos aspectos originais, quebrando assim a paisagem existente no sítio. O segundo acontece quando o edifício
implantação
A implantação equivale à localização do novo objeto arquitetônico com relação ao espaço urbano e às preexistências com as quais se encontra em relação visual – o edifício original que foi ampliado, as ruínas complementadas ou o conjunto em que se insere a nova edificação, respectivamente, e quando não levada em consideração pode gerar uma certo estranhamento por parte das pessoas que habitam o local. No texto ele apresenta Conjunto de edifícios do grupo The Economist, Londres (Figura 11), Inglaterra como sendo um exemplo
ou os elementos dissonantes não conseguem estabelecer pouca ou nenhuma relação com o contexto preexistente no qual ele está sendo inserido, provocando um estranhamento proporcional a quanto mais desconexo ele está do seu entorno. A Partir disso, Nivaldo começa a definir e classificar uma série de construções segundos os elementos constituintes da forma arquitetônica que será apresentado abaixo.
de implantação consonante, pois o novo volume respeita as lógicas do traçado urbano e da implantação das preexistências no tecido urbano, se colocando na esquina de forma que não interfira negativamente na paisagem. Já o Centro Comercial Haas Haus, Viena (Figura 12), se mostra dissonante pois a nova construção subverte a lógica de implantação que caracteriza as preexistências construídas no contexto urbano, optando por usar uma forma curva em meio às outras construções prismáticas que encontram ao seu redor.
dissonante consonante
Figura 11: The Economist, Londres
Figura 12: Centro
Viena
Comercial Haas Haus,
volumetria A volumetria corresponde a uma parte importante, sendo relacionada apenas a forma, ou seja, a morfologia do edifício. Nivaldo segue apresentando exemplos de intervenções para então classificar como consonante ou dissonante. Um dos exemplos foi o da Ampliação da Embaixada da Suíça em Berlim (Figura 13), um edifício histórico pode estar em consonância com a preexistência, criando uma relação harmoniosa com o entorno, usando da mesma forma da parte pré- existente sendo classificado como consonante. A ampliação está em dissonância quando a nova volumetria ganha um anexo de forma distinta das preexistentes, além de ser construída com materiais de acabamento diferentes do contexto original. O outro exemplo Sede da Seguradora Swiss Re (Figura 14) é o outro exemplo, dessa vez de um edifício onde a sua forma por ser circular é totalmente dissonante dos edifícios do seu entorno, o que acaba não criando uma falta de relação com o seu contexto, não só na morfologia como na sua materialidade.
Figura 13: Ampliação da Embaixada da Suíça em Berlim
dissonante consonante
Figura 14: Sede da Seguradora Swiss Re
escala A escala se refere à relação entre as dimensões da nova arquitetura e aquelas da preexistência na qual a intervenção ocorre. Esse parâmetro é de extrema importância para manter uma paisagem coesa e harmônica, de modo que a nova construção respeite os parâmetros e a relevância histórica da arquitetura existente. De exemplo consonante, tem-se o Carré d’Art em Nimes, França (Figura 15), cuja escala respeita o entorno e não ultrapassa dos 4 (quatro) pavimentos ao possuir pavimentos subterrâneos que suprem as necessidades projetuais. Já a Companhia Sul Americana de Vapores, no Chile (Figura 14), está em completa dissonância por ultrapassar, consideravelmente, o gabarito do local existente.
dissonante consonante
dissonante consonante
Figura 16: Centro Galego de Arte Contemporânea de Santiago de Compostela
Figura 14: Sede da Seguradora Swiss Re
Figura 15: Carré d’Art em Nimes, França
densidade ou massa A densidade corresponde à massa, densidade ou peso aparente do objeto arquitetônico. Por isso, pode ser vinculada ao volume, dependendo dos materiais de construção utilizados. Por exemplo, se imaginarmos uma mesma massa arquitetônica de 5 x 5 x 5 metros construída em pedra e em seguida, o imaginarmos em vidro, teremos dois edifícios com sensações de densidade completamente distintas. Dessa maneira, a consonância acontece quando se é buscado utilizar, na nova arquitetura, materiais construtivos ou de revestimento que seja igual ou se assemelhe com os das edificações
vizinhas, como visto no Centro Galego de Arte Contemporânea de Santiago de Compostela (Figura 16). A dissonância é quando acontece exatamente o oposto, isto é, a utilização de materiais mais contemporâneos em um local de sítio histórico, como o vidro e o metal. Exemplifica-se isso no projeto do edifício sede do escritório de arquitetura Cepezed (Figura 17). Sendo assim, a densidade nada mais é do que a relação entre os cheios e vazios, o peso e a leveza e quais sensações ela transmitirá para o observador.
Figura 17: Escritório Cepezed
ritmo “O ritmo se refere à cadência estabelecida pela repetição de determinados elementos utilizados na composição das superfícies-limite do objeto arquitetônico e que configuram a sua aparência: fenestração (aberturas), estrutura (quando aparente e distinguível dos demais elementos que compõem o objeto arquitetônico), elementos de decoração salientes ou escavados na fachada, mudança de materiais ou de cores de acabamento, etc.” (JÚNIOR, 2006). Para que a nova edificação esteja em consonância, ela
deve repetir o ritmo das preexistências, como visto no Chase Manhattan Bank, Milão (Figura 18), onde as marcações das esquadrias na fachada remetem o entorno de forma coesa. Por outro lado, o Museu Judaico de Berlim, projetado pelo arquiteto Daniel Libeskind (Figura 19), está em completa dissonância ao apresentar aberturas demasiadamente finas e inclinadas, o que difere, por inteiro, do ritmo das fachadas de seu entorno.
dissonante consonante
Figura 18: Chase Manhattan Bank, Milão
Figura 19: Museu Judaico de Berlim
cores e texturas Esse é o último aspecto analisado por Nivaldo em sua pesquisa de mestrado, e ele analisa as características dos materiais e texturas que venham a ser usados na superfície ou “pele” da nova arquitetura, sempre relacionando com as dos prédios pré existentes no local. A Casa Cicogna, Veneza (Figura 20), é apresentado como um edifício consonante nas cores e materiais de acabamento e mesmo sendo uma nova edificação ela usa materiais e técnicas construtivas mais modernas que se assemelham à aparência dos edifícios originais. O Centro Científico de Pesquisas Sociais, Berlim (Figura 21) é considerado dissonante porque as novas edificações são feitas com materiais e cores totalmente distintas dos edifícios pré existentes sendo totalmente coloridos e gerando um grande contraste com as cores mais cinzas que já estavam no local, dessa forma não pretendem dialogar com as preexistências do entorno.
dissonante consonante
Figura 20: Casa Cicogna, Veneza
Figura 21: Centro Científico Pesquisas Sociais, Berlim
de
3 estudo preliminar
3.1
implantação Com base na identificação dos tipos de implantação no sítio, percebeu-se existências de tipologias de casas soltas no lote, com recuo posterior, nulo ou frontal e casas tipo pátio. Sendo assim, escolheu-se desenvolver a proposta com base no tipo pátio de modo que fosse possível melhor permeabilidade no térreo, devido aos comércios propostos, proporcionar ventilação cruzada e iluminação natural suficiente e, ainda, permitir espaços sociais conectores agradáveis. Essa consonância quanto à implantação se tornou imprescindível para manter a morfologia histórica das edificações, de modo a continuar o caráter de corredor das fachadas alinhadas e contínuas da R. da Soledade, sem espaços entre as unidades; realidade essa, que enfatiza o traçado urbano original.
LEGENDA: 1 - recuo nulo 2 - recuo posterior 3 - solto no lote 4 - pátios 5 - recuo frontal
1
2
3
4
5
3.2
volumetria Como visto no estudo do sítio, existe uma significativa predominância por edifícios tipo sobrado e casa de porta e janela, as quais são caracterizadas pela utilização de platibandas - após a descaracterização do sobrado inicial no centro do Recife - e pelo telhado inclinado de duas águas em telha colonial. Tornouse importantíssimo, dessa maneira, dar continuidade às preexistências e por isso foi incrementada a inclinação no telhado e, ainda, uma pele externa que funciona como uma platibanda ao esconder a vista da inclinação e permite, do olhar do observador, uma fachada retilínea no topo.
3.3
3.4
escala Ao analisar o gabarito da R. da Soledade e seus eixos principais, entende-se que as escalas são relativamente baixas com predominância de edificações térreas e térreas mais um e destaque para o eixo da Igreja da Soledade, edificação de enorme importância histórica e cultural. Apesar do Edf. Módulo ter ultrapassado
ritmo excessivamente o gabarito médio do entorno, a proposta teve como princípio não ultrapassar a escala da Congregação de Santa Dorotéia - a qual é a mesma do corpo da Igreja - com o intuito de respeitar e estar em consonância com as preexistências e tal realidade pode ser observada no skyline ao lado.
As aberturas existentes nas demais edificações da R. da Soledade seguem um ritmo regular, onde geralmente são pequenas comparadas à parte cheia da edificação, isso porque a maior parte das casas existentes encaixam-se na tipologia casa de porta e janela. Percebe-se que até mesmo edificações de maior porte como o Convento de Santa Doroteia, possuem suas fachadas seguindo um ritmo semelhante às demais construções da área. A partir do estudo do ritmo das fachadas por meio dos skylines da Rua da Soledade, foi desenvolvido um ritmo para a edificação proposta para a disciplina. Aplicando a mesma lógica de aberturas e fechamentos que foram encontradas nas fachadas preexistentes, porém ao longo do desenvolvimento do projeto, estas aberturas foram sofrendo algumas alterações para se adequarem à disposição dos ambientes ou à
própria estrutura da construção. Dessa forma, usando como base as dimensões das aberturas existentes nas casas vizinhas, foi gerada uma disposição variada de vazios na fachada, de forma que hora apresenta uma abertura com o mesmo tamanho da padrão, hora encontramos outras com o tamanho duplicado criando grandes vãos. Com estas modificações feitas, a fachada da construção gerou um ritmo distinto às demais edificações do entorno. Logo, essas alterações acabaram tornando o aspecto de ritmo da edificação proposta dissonante das demais. Apesar da grande influência das fechadas preexistentes na sua concepção, foi de grande importância criar uma proposta contemporânea para adequar a nova construção ao conceito de distinguibilidade aplicado por Nivaldo Andrade Júnior em sua metodologia.
Análise do ritmo das aberturas das fachadas:
3.5
densidade No estudo da densidade das fachadas do entorno, percebeu-se que os cheios correspondem a 77% do skyline. Dessa maneira, decidiu-se desenvolver uma pele de cobogó em argamassa na fachada com desenhos de triângulos que remetem à paginação da proposta da Praça da Soledade e que mantém a sensação dos cheios, além de proporcionar, ainda, permeabilidade e ventilação. Já as aberturas, que correspondem
Análise do ritmo do parcelamento do solo:
Vaios: 23%
Cheios: 77%
aos vazios, foram baseadas no ritmo encontrado na Congregação de Santa Dorotéia e ocupam menos de 40% da fachada. É importante ressaltar que as aberturas propostas no térreo também procuraram seguir essa característica encontrada nas demais fachadas, as quais se originam da descaracterização por causa dos comércios existentes.
3.6
cores e texturas
CORES
TEXTURAS
As cores identificadas no entorno são predominantemente mais claras - beges, cinzas, brancas -, com algumas edificações de cor roxa, vermelha e azul devido às descaracterizações arquitetônicas fortes. Quanto às texturas, a maioria dos edifícios têm fachada de textura devido aos acabamentos dos rebocos, mas vale destacar que a Igreja da Soledade possui as demarcações e a textura do pó de pedra - seu
revestimento exterior -, o edf. Stella é revestido com ladrilhos brancos e o edf. Módulo se destaca pelos tijolos expostos. Sendo assim, a fachada da proposta buscou dar continuidade à cor clara da rua ao propor uma pele branca com molduras laranjas de aço em suas aberturas, enquanto sua textura é dissonante devido ao design do cobogó utilizado.
4 aspectos técnicos
CORTES PAISAGISMO
5 perspectivas
6 estudo de caso
Q10 house / studio 8 distrito 10, vietnã A casa Q10 se encontra localizada no Vietnã, no Distrito 10, em uma alameda predominantemente residencial no coração do bairro. Nessa região a maioria das casas são históricas ou novas construções que, como a residência do Studio 8, se encaixam no conceito de distinguibilidade de Nivaldo Andrade Junior. Devido à sua localização, suas decisões projetuais, estrutura e fachada, a Q10 HOUSE se tornou grande referência para a proposta na Soledade.
implantação A malha urbana da rua onde se encontra localizada a residência, possui lotes estreitos e profundos, em consequência desse desenho a maioria das construções seguem sua forma, dispondo edificações sem recuo frontal e lateral, além de criar pátios internos para ventilação e iluminação natural. A construção teve sua implantação seguindo a lógica das demais, pois ela não usa tais recuos, usando todo seu perímetro como área construída. Dessa forma, a residência é consonante em mais um aspecto, segundo a metodologia abordada por Nivaldo de Andrade Junior.
volumetria A volumetria se encontra consonante com o entorno, uma vez que ele segue a forma prismática e estreita das edificações vizinhas, ocupando todo o perímetro frontal e lateral do lote. Usando de artifícios construtivos para transformar a residência num ambiente ventilado e iluminado, apesar da sua medida estreita de profundidade que não permite a criação de pátios internos. A ideia do Studio8 foi criar um vazio de um metro na lateral de toda edificação para favorecer a ventilação, esse vazio na fachada seria protegido por uma pele vazada, que esconderia esse ‘’rasgo’’ e manteria o volume da construção em consonância com as demais.
escala Assim como os demais edifícios, o nosso objeto de estudo apresenta um gabarito de térreo mais dois pavimentos, mantendo a sua altura bem próximo a dos prédios localizados próximo a ele, e também ao gabarito médio da alameda onde foi construído, tornando-o consonante com seu entorno.
ritmo Nesse aspecto, a edificação estudada se demonstra dissonante das suas construções vizinhas, pois além de usar uma pele, as aberturas nela não aparentam seguir nenhum ritmo apresentado pelas suas edificações mais próximas, seguindo uma uma disposição de aberturas feitas apenas para o projeto.
densidade Apesar da edificação fazer uso de uma pele de cobogó de concreto que apresenta uma materialidade que a torna com um aspecto pesado, parecido com as edificações preexistentes, ela não consegue transmitir a mesma proporção de cheios e vazios que as vizinhas. Enquanto as residências do entorno possuem grandes vãos contínuos em sua fachada, a Casa Q10 apresenta pequenas aberturas espalhadas de forma aleatória em sua pele. Dessa forma a densidade e proporção da nova construção acaba não ficando em harmonia com a preexistência e se encontra dissonante neste aspecto da análise.
ESCALA
cores e texturas Analisando as paletas de cores dos prédios vizinhos, percebe-se que a maioria deles possuem tons pastéis coloridos, apesar de apresentarem detalhes em branco a cor predomina as construções. Já a Casa Q10 apresenta em toda sua fachada um tom branco vivo,que acaba chamando atenção da vista do observador no meio das demais casas. Dessa forma podemos considerar no aspecto cores e texturas a residência dissonante das preexistentes, já que ela se destaca e não entra em harmonia com a paleta de cores das demais construções.
referências
AMORIM, Ceci do Eirado. O Santuário de Nossa Senhora de Fátima num Diferenciado Roteiro Turístico Cultural/Religioso da Cidade do Recife. Unicap.br, 2020. Disponível em:<http://www. unicap.br/coloquiodehistoria/wp-content/uploads/2013/11/5Col-p.1285-1304.pdf>. Acesso em: 12 de março de 2021. COLAÇO, Camila Farias. Caminho Cidadão da Soledade: Anteprojeto Paisagístico para Trecho no Bairro da Soledade, Recife - PE. 2020. 116. Trabalho de conclusão de Curso - Universidade Católica de Pernambuco, Recife, 2020. JUNIOR, Nivaldo Vieira de Andrade. Metamorfose Arquitetônica: Intervenções Projetuais Contemporâneas Sobre o Patrimônio Edificado. Dissertação de Mestrado – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2006. LEGISWEB LTDA. LEGISWEB, 2021. Apresentação de variadas Leis Brasileiras online. Disponível em: https://www.legisweb.com.br/legislacao/?id=407224#>. Acesso em: 10 de março de 2021. SPECK,Jeff. Cidade Caminhável. Tradução de Anita Dimarco, Anita Natividade. 1°. edição - 1º reimpressão. São Paulo: Perspectiva, 2019. PREFEITURA DO RECIFE. Plano Diretor do Recife 2020, 2021. Revisão do Plano Diretor da Cidade do Recife. Disponível em: <https://planodiretor.recife.pe.gov.br/plano-de-ordenamentoterritorial>. Acesso em: 10 de março de 2021. PREFEITURA DO RECIFE. Prefeitura do Recife, 2021. Características do Bairro da Soledade . Disponível em: <http://www2.recife.pe.gov.br/servico/soledade>. Acesso em: 10 de março de 2021. VIA ESTAÇÃO CONHECIMENTO. VIA, 2021. Um post sobre o livro: Cidade Caminhável. Disponível em: <https://via.ufsc.br/os-10-passos-para-uma-cidade-caminhavel/>. Acesso em: 16 de março de 2021.