UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO DEPARTAMENTO DE PUBLICIDADE ANDRÉ PORTO SOARES OLIVEIRA MATEUS TEIXEIRA ROCHA
R.U.A.
Realidade Urbana Ambulante
Brasília - DF 2017
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO DEPARTAMENTO DE PUBLICIDADE ANDRÉ PORTO SOARES OLIVEIRA MATEUS TEIXEIRA ROCHA
R.U.A.
Realidade Urbana Ambulante
Monografia apresentada ao Curso de Comunicação Social da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Publicidade e Propaganda.
Brasília - DF 2017
Esta monografia, intitulada “R.U.A. - Realidade urbana ambulante” foi apresentada ao Curso de Comunicação Social da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília.
André Porto Soares Oliveira Mateus Teixeira Rocha
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Professora Dra. Selma Regina N. Oliveira Orientadora
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Professor Dr. Wagner Rizzo Examinador
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Professor Dr. Edmundo Brandão Dantas Examinador
Brasília - DF 2017
AGRADECIMENTOS Aos imponderáveis caprichos que sempre me acompanharam, na genética, nos amigos e nos amores, tão presentes em tudo desde sempre. Às viagens, às inspirações e às sortes, que aprendi a sempre procurar e absorver. Ao desconhecimento, às descobertas, às frustrações e a todos os sentimentos que transformaram esses cinco anos e meio num vulcão em constante erupção. Ao Flamengo, ao samba e à resenha, matérias tão bem estudadas ao longo da universidade Ao meu parceiro de longa data, que antes já demonstrava talento insubstituível dividindo mesa de bar e assim continua, dividindo comigo dessa vez a experiência do último ato da faculdade. À magia do Laboratório de Publicidade, personificada nos dois donos do lugar mais místico que conheci na UnB. À rua e ao povo, que tanto me educaram nos últimos tempos, me fazendo muito mais vida real. A toda essa mistura, que se combinam e me ensinam todos os dias. Nunca cheguei em lugar algum desacompanhado, nem mesmo quando estou sozinho. Por isso, qualquer muito agradecimento ainda é pouco. Àqueles que já (ou ainda) não posso dizer diretamente o quanto foram inspiração: meus avôs, Hot e Maju. A todos os outros, nomes aos bois. A carapuça vem sempre sob medida. Marcio, Cecília, Bruno, Elgita, Odézia, Luanna, TX, Igor, Pedro, Kaique, Gabriel, Felipe, Rafael, Guga, Gustavo, Victor, Chica, Adriana, Maristela, Renata, Julia, Lais, Claudia, Kleber, Selma, Wagner, Flávia, João Pedro, Gabriel, Rogério, Isaías, Jaciara, Renato, Enrica, Guillermo, Jão, Gabriel, Gabriel, Felipe, Isadora, Thiago, Vinícius, Breno, Kadu, Guto, Molusco, Rodrigo, Ornélio, João, Raphael, Isabella, Giovanna, Bárbara, Jarbas, Dirce, Alice, Bárbara, Bárbara, Fernanda, Tonho, Baristas, Dylan, Clandestino, Seu Patrício, Paulinho, Hamilton, Roberta, Arlindo, João, Diogo, Angenor, Martinho, Martinália, Jorge, Toninho, Maria, Marisa, Armando, Cássia, Danilo, Vitor, Nicolas, Marcelo, Abel, Garcia Marquez, Milan, Antônio, Zico, Paolo, Diego, Alê, Bruno, Leonardo, Jorge.
Chego ao final dessa intensa jornada que é a faculdade com mais perguntas que respostas. Acreditava piamente que, quando chegasse aonde estou agora, meu caminho na vida seria claro. Não foi assim. E, por isso, devo agradecer imensamente aos mestres Selma e Wagner. Vocês mudaram não só a forma como encaro o campo da comunicação mas como encaro o mundo ao meu redor. Se cheguei até aqui, foram vocês que me motivaram a ir até o fim. Quero ser que nem vocês quando eu crescer. Obrigado Adriana, vulgo mamãe, pela inabalável fé em mim; nem eu mesmo acreditaria tanto assim no meu potencial. Obrigado por me escutar e me aconselhar, você faz isso melhor do que qualquer um. Obrigado Leonel, o velho pai, por me ensinar a lição mais valiosa possível: o conhecimento salva. Não trocaria a capacidade de questionar por nenhuma esperança barata desse mundo. Obrigado Cici, por uma lista de coisas que, caso fosse escrever, eu levaria uma eternidade. Mas, principalmente, obrigado pelo amor incondicional e irrestrito. Eu acredito cegamente que você é um dos melhores seres humanos que já existiram. Obrigado Edna, pelo carinho imenso. A sua força é algo incrível, que me inspira todos os dias. Obrigado ao meu irmão e comparsa – e agora colaborador acadêmico. Sou grato por dividir essa trajetória maluca contigo. Obrigado aos meus amigos. Todos. Os de dentro e os de fora da faculdade. Nunca conseguirei expressar suficientemente o quanto vocês são essenciais na minha vida. Quando eu falar que vocês são minha família, podem acreditar. Obrigado Flávia, minha fiel escudeira. Obrigado Lua, a melhor companhia desse mundo. Obrigado Pips, tu é raio de luz. Obrigado Thaísa, meu oráculo e porto seguro. Obrigado Rosa, Rogério e Seu Isaías, a FAC não seria nada sem vocês. Obrigado Garotinha! Obrigado Phedu! Obrigado Tonho! E, principalmente, obrigado aos protagonistas deste trabalho: Maikon, Neri, Chiquinha, Marinho e Ari. São pessoas como vocês que mantém a esperança desse país.
SUMÁRIO Resumo................................................................................................................ 7 Capítulo 1 - Introdução ...................................................................................... 8 1.2 Problema de Pesquisa............................................................................. 9 1.3 Justificativa.............................................................................................. 11 1.4 Objetivos.................................................................................................. 12 1.4.1 Objetivo Geral....................................................................................... 12 1.4.2 Objetivos Específicos........................................................................... 12 1.5 Referencial Teórico ................................................................................. 13 1.6 Metodologia de Pesquisa........................................................................ 15 1.6.1 Metodologia de Trabalho ..................................................................... 15 Capítulo 2 - O Espaço......................................................................................... 16 2.1 A cidade e os espaços............................................................................. 16 2.2 As origens do Plano Piloto....................................................................... 18 2.2.1 Patrimônio Cultural da Humanidade..................................................... 22 Capítulo 3 - A INFORMALIDADE........................................................................ 25 3.1 O setor informal do trabalho.................................................................... 25 3.2 Trabalho informal em Brasília.................................................................. 28 Capítulo 4 - A Publicidade.................................................................................. 34 4.1 As Mídias centrais da Publicidade........................................................... 34 4.1.1. A publicidade........................................................................................ 34 4.1.2 Suas principais mídias.......................................................................... 35 4.2 As Mídias alternativas da Publicidade..................................................... 37 4.2.2. A publicidade e o espaço urbano......................................................... 39 Capítulo 5 – Estudo de Caso.............................................................................. 41 5.1 Primeiras Impressões.............................................................................. 41 5.2 Estrutura Fixa.......................................................................................... 42 5.3 Estrutura Desmontável............................................................................ 46 5.4 Estrutura Móvel........................................................................................ 50 Capítulo 6 – Conclusão....................................................................................... 53 Referências bibliográficas.................................................................................. 58 Anexos ................................................................................................................ 60
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RESUMO Uma cidade de espaços urbanos sistematizados desde a sua recente concepção, uma atividade comercial que depende diretamente do livre usufruto do espaço público e uma publicidade vernacular como possível solução dessa contradição. Neste trabalho pesquisamos os mecanismos comunicacionais utilizados pelos comerciantes de rua em Brasília. A partir de entrevistas narrativas, nos aprofundamos no mundo dos comerciantes de rua para descobrir se os desafios inerentes ao trabalho informal e recorrentes mundo afora ganham novas perspectivas na capital do país. Com base em referências arquitetônicas, antropológicas e comunicacionais, mapeamos e analisamos a comunicação dos comerciantes de rua da quadra modelo de Brasília, berço da singularidade da cidade elaborada por Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Palavras-chave: Brasília; trabalho informal; comunicação; vernacular. ABSTRACT A city of systematized urban spaces, since it’s conception, a commercial activity that directly depends on the free usage of public space and a vernacular advertising as a possible solution for this contradiction. In this work we searched for the communicational mechanisms utilized by street vendors in Brasília. Using narrative interviews, we have gone deep into the world of street vendors to find if the challenges inherent to informal work, and recurrent worldwide, have got new perspectives in Brazil’s capital. Based on architectonic, anthropological and communicational references, we have mapped and analyzed the way to communicate of the vendors at the model block of Brasília, cradle of the singularity of the city planned by Lucio Costa and Oscar Niemeyer. Keywords: Brasília; informal labour; communication;
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CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO A rotina da faculdade nos aproximou e revelou várias afinidades, nos mais diversos interesses. O prazer em contar e ouvir boas histórias merece destaque. Talvez influenciados pelas origens familiares, enraizadas em lugares de fortíssima cultura regional – Rio de Janeiro, Goiás, Minas Gerais, Bahia –, a criatividade e originalidade tipicamente brasileiras sempre receberam muita atenção Essa afinidade também se fazia valer dentro do universo da publicidade. Era notável a preferência mútua e o maior interesse em aplicações dos conceitos aprendidos na sala de aula em situações alheias às agências de publicidade e a tudo o que acontece protocolarmente em seu dia a dia. Assim, conhecer os diversos formatos alternativos da publicidade motivou e guiou a nossa busca por um tema principal para abordar no trabalho de conclusão de curso. Obedecendo essa antiga vontade, percebemos que o nosso olhar se aguçava ao notar a criatividade do brasileiro comum, estampada pelas ruas, calcada na improvisação cotidiana. Enquanto nos admirávamos com algumas estratégias engenhosas, só nos restava concluir que o brasileiro já nasce com diploma de publicidade. Seja no exercício de imaginar como foi o processo criativo do nome de um salão de beleza ou do letreiro de uma borracharia de beira de estrada, éramos atraídos pela vida de quem fazia publicidade dessa forma rústica e artesanal. Assim, passamos a prestar atenção nas vozes, nas cores e nas formas de se fazer notar nas ruas, para enfim vender determinado produto – de água de coco à brinco, de amendoim a carregador de celular. Aqueles métodos e abordagens nos encantavam e, quando pensávamos que aquela arte de vender era marginalizada e pouco discutida na academia, nos assustávamos. Um universo tipicamente brasileiro, que acabava excluído do currículo. Não muito depois de escolhido o tema do projeto, percebemos que a realidade dessas pessoas certamente era influenciada por seu ambiente de trabalho. “Será que tentar vender frutas na Avenida Paulista é a mesma coisa de vender frutas na entrada de uma superquadra em Brasília?” A partir daí, passamos a ver que Brasília e todas as suas singularidades – arquitetônicas, urbanísticas e culturais – influenciavam a realidade desses trabalhadores. Certificar essa suposição só seria possível indo às ruas e conversando com essas pessoas. Acima de tudo, queremos dar a luz a quem se vê obrigado a trabalhar em calçadas cuidadosamente planejadas para abrigar o comércio formal; queremos ouvir as histórias de quem muitas vezes passa despercebido na capital do modernismo. No centro do Brasil, na cidade planejada por Oscar Niemeyer e Lucio Costa há 57 anos para ser o futuro do país, queremos conhecer a vida dos verdadeiros arquitetos da vida urbana e corriqueira de Brasília.
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1.2 Problema de Pesquisa O fim da graduação trouxe a oportunidade que tanto queríamos para poder falar de algo que já nos provocava desde o início do curso. O privilégio intelectual que tivemos ao frequentar a Universidade nos inseriu no universo da publicidade, prática comunicacional intrinsecamente ligada a produções de orçamento opulento e a um sentimento de exclusividade, sentido e transmitido por aqueles que fazem essas produções acontecerem. A academia, por sua vez, dedica-se constantemente a teorizar as formas mais usuais desse fazer publicitário, geralmente atreladas a grandes quantias de dinheiro. Entretanto, apesar de uma intimidade forjada ao longo do curso com campanhas publicitárias glamourizadas, víamos uma realidade diferente nas ruas de Brasília. A situação era contraditória: aprendíamos a apreciar, na sala de aula, aquilo que raramente era visto nas ruas. Começamos então a questionar o fazer publicitário corriqueiro, originário do “intermédio entre a necessidade de transmitir algo e uma carência de conhecimento mais apurado, construído a partir da restrita bagagem cultural de indivíduos que desconhecem os postulados das técnicas acadêmicas e escolarizadas.” (FINIZOLA, 2010).
Nesse momento nos sentimos verdadeiramente provocados a investigar essa comunicação vernacular1 e o que existia na vida daquelas pessoas que faziam uso desse tipo de comunicação. Apesar de não trabalharem em escritórios claustrofóbicos, mostravam-se bem sucedidos. A vontade de melhor entender esse meio supre um natural fascínio por aplicações pouco usuais dos contextos básicos da comunicação ensinados na universidade – em outras palavras, ir além do mundo das agências e seus clientes. Percebemos, enfim, uma satisfação pessoal ao tentarmos compreender um grupo muitas vezes ignorado, mas não menos presente no cotidiano das cidades, que escapam dos postulados e verdades acadêmicas. Os ambulantes e vendedores de rua revelam muito sobre o nosso país, efervescente culturalmente, altamente miscigenado e produtor das mais diversas formas de expressão. Nossa pesquisa se inspira em estudos da cultura, já que fazemos uso da comunicação como canal de entendimento da realidade e cotidiano daquelas pessoas. Além disso, é um estudo que transpassa o circunstancial: existem inúmeras razões para se estudar a realidade do comércio de rua de Brasília, que acaba expondo nuances imprevisíveis e reveladoras acerca dos seus autores/emissores. O comércio informal é produto de diversas variáveis socioeconômicas presentes no Brasil, tornando isso um traço enraizado em nossa identidade. A criatividade, o poder de superar as adversidades, o “jeitinho brasileiro”: nosso perfil genérico está Adotamos aqui a definição de Publicidade Marginal, conceituada neste trabalho como Comunicação Vernacular, a partir do trabalho de Guerra (2015, p. 64) 1
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fortemente desvelado no ambiente do comércio de rua. Nesse contexto, Brasília surge como um ponto fora da curva. As retas de Niemeyer deram à capital do país configurações especiais, que afetam as mais diversas searas do dia-a-dia de quem vive aqui. O projeto original do desenho urbano da cidade prevê espaços específicos para as atividades comerciais, o que, na realidade, não se sustentou. Na prática, o comércio informal adaptou-se às peculiaridades da cidade. A singularidade urbanística de Brasília confere detalhes únicos à maneira como os trabalhadores informais se comunicam, dentro de um espaço hostil à sua presença. A setorização, o modernismo e o planejamento revestem de qualidades singulares o comércio informal praticado aqui, que se vê obrigado a enfrentar, por exemplo, as ruas carentes de pedestres. O recorte espacial deste estudo foi escolhido propositadamente, a fim de tentar flagrar a comunhão das principais características dessa troca em um lugar especial para Brasília. A área que abriga as quadras 107, 307, 108, 308 da Asa Sul foi por nós batizada como “Quadrilátero Modelo”. O simbolismo dessa região é fortíssimo por seguir o que Lucio Costa, urbanista do Plano Piloto, adotou como padrão no período da construção da capital, desejando que aqueles conceitos modernos à época fossem replicados em toda a cidade. Apesar de não ter sido realizada em sua totalidade, a intenção de Lucio Costa está enraizada naquela região, sobrevivendo e sendo celebrada até os dias de hoje. A arquitetura da cidade, entre outras marcas da identidade brasiliense, acaba permeando o mundo do comércio informal e provocando alterações em seu funcionamento quando comparado ao resto do Brasil. E são esses aspectos identitários que queremos entender, a partir das palavras dos nossos protagonistas: os vendedores de rua. Por fim, nossa pergunta problema foi formulada da seguinte maneira:
“De que forma a cidade/o espaço urbano do Plano Piloto de Brasília modela as práticas e estratégias comunicacionais dos vendedores de rua?”
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1.3 Justificativa Uma breve busca por uma bibliografia em que o objeto de estudo fosse algo em torno dessas manifestações comunicacionais vernaculares – carentes de embasamentos teóricos – nos permitiu concluir que a temática não é tão frequente nas produções acadêmicas. Nesse cenário de escassez, o doutorado de Antonio Lemes Guerra Junior surge com grande destaque, pela proposta de produzir construtos teóricos que deem conta desse contexto raro. Publicidade Marginal: Funcionamento e Efetividade Argumentativa, produzido em 2015, oferece uma extensa base de consulta didáticoteórica. “Publicidade Marginal” é o termo cunhado pelo autor para representar esse universo vernacular, abordando diretamente tal modo de expressão comunicacional que é relegado à posição de inferior ou ineficiente, por evitar o caminho tradicional de se fazer publicidade. Publicidade Marginal é “aquela veiculada à margem das grandes mídias, por meio de recursos como panfletagem, exposição de placas e cartazes, locuções em lojas ou carros de som, entre outros suportes.” Por meio da oposição com a Publicidade Central, criam-se conceitos e delimitações acerca do que queríamos explorar neste estudo. Apesar de considerarmos a ausência de produções acadêmicas que abordem esse tema específico relevante, nossa escolha não se justifica apenas por isso. O Brasil é um país que carece de representações, dentro e fora da academia, da verdadeira face de seus habitantes. As manifestações culturais que ocorrem pela e para as classes economicamente desfavorecidas sofrem um processo de invisibilização devido à preferência por aquelas que contemplem a “alta arte” ou façam parte da mídia de massa. Essa questão é levantada por outra produção que aborda esse aspecto vernacular da publicidade. Sthael Fiabane diz que “o vernacular é a língua local que vai fugir à hierarquia ou regras de enunciações impostas do que é “estrangeiro”, estabelecendo semelhanças com o tático, já que este consiste em procedimentos que estão nas brechas das relações de poder. “ A discussão do vernacular e marginal, dentro e fora da publicidade, promove uma busca por um maior entendimento do brasileiro, como povo, estimulando uma compreensão menos limitada das relações sociais no País. Uma análise como essa idealmente seria feita considerando a totalidade de demonstrações culturais sem distinção socioeconômica, geográfica ou de qualquer outro viés, a fim de enfatizar a inerente desigualdade que assola a realidade brasileira.
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1.4 Objetivos 1.4.1 Objetivo Geral • Investigar as práticas e estratégias publicitárias dos vendedores ambulantes de Brasília, a partir da investigação da realidade dos vendedores da 108/308 Sul. 1.4.2 Objetivos Específicos • Mapear os anunciantes do comércio de rua da Quadra Modelo de Brasília; • Levantar dados qualitativos sobre as estratégias de comunicação aplicadas pelos comerciantes ambulantes das quadras 108/308 Sul; • Verificar se existem características particulares nas estratégias de venda/ comunicacionais dos comerciantes de Brasília, em específico das quadras 108/308 Sul; • Identificar as estratégias, práticas e características típicas.
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1.5 Referencial Teórico Para compreendermos os processos sociais que acontecem em nosso ambiente de pesquisa dividimos o construto teórico em três pilares: Comunicação, Informalidade e Urbanismo. Primeiramente resgatamos as mais introdutórias postulações da Teoria de Comunicação, a fim de explicar o funcionamento básico do processo comunicacional. Nosso aliado nessa empreitada foi Armando Sant’anna, que esmiúça todo esse processo em Publicidade: Teoria e Prática, oferecendonos uma visão ampla para definirmos o que é comunicação publicitária – base primordial deste trabalho. Seguindo nessa linha, Massimo Canevacci explora a publicidade como linguagem social inerente à conjuntura capitalista em Antropologia da Comunicação Visual, importante para analisarmos a prática publicitária dentro de um ambiente criado a partir da lógica do sistema econômico. Para satisfazer a necessidade de compreender detalhadamente o uso das mídias centrais, quanto a sua diversidade e a frequência em que aparece no espaço publicitário do Brasil, consultamos a Kantar Ibope, que ofereceu a distribuição atualizada de quais plataformas são mais usadas. Além disso, foi fundamental para que pudéssemos ter a dimensão do investimento financeiro em publicidade no país. Esses números foram importantes para verificarmos que de fato existe uma discrepância no que diz respeito a duas categorias de publicidade: a Central e a Marginal. Enquanto a primeira recebe altíssimos investimentos, a segunda sobrevive a partir de técnicas menos elaboradas, concedendo sobrevida ao trabalho informal. Tal categorização é oriunda da obra de Antonio Lemes Guerra Junior, Publicidade Marginal: Funcionamento e efetividade argumentativa. A tese de Guerra avança nos estudos sobre a comunicação dos comerciantes de rua, apresentando conceitos e embasamentos teóricos fundamentais para nossa pesquisa. Sobre a marginalidade das produções publicitárias e das técnicas usadas pelos vendedores de rua, o trabalho de Fátima Finzola também foi importante. Apesar de focado no design gráfico, seu livro nos deu condições de entender melhor os conceitos de “vernacular”, “popular” e “regional”, que foram base do seu estudo sobre os letreiramentos populares em Recife e relevantes para o nosso projeto. As reflexões acerca das produções publicitárias alheias ao universo da Publicidade Central e seus grandes investimentos ganharam mais consistência a partir da análise dessas obras. Em seguida abordamos o cosmos do trabalho informal. As pesquisas de Márcia Melo Kuyumjian – em seus artigos Dissonância Cultural? O trabalho em Brasília, Vivências do cotidiano do trabalho em Brasília e Brasília e a representação do meio ambiente na encenação cotidiana – foram ideais pois refletiam sobre o tema relacionando-o com a cidade de Brasília. Além dos artigos, Kuyumjian foi fundamental a partir de seu livro, Brasília Informal, ao contextualizar o cenário da
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informalidade em Brasília de forma ampla. Criando relações com a arquitetura, fotografia, antropologia e até religião, o livro foi o primeiro indício concreto da gama de possibilidades que o estudo sobre a informalidade brasiliense nos proporcionaria. Para uma compreensão geral da realidade do trabalhador informal invocamos João Batista Pamplona, que nos apresenta um olhar estatístico sobre o tema. Mesmo que focado na cidade de São Paulo, o autor oferece inúmeros insumos que podem ser refletidos no resto do país. Utilizamos ainda o trabalho de Bhowmik, que desenha a realidade global do comércio de rua. Por fim, visamos entender as relações (tanto físicas quanto subjetivas) do sujeito com o meio urbano. De Certeau nos introduz ao conceito de cotidiano e revela como o transeunte – em especial o pedestre – rearranja a configuração de uma urbe, sendo protagonista de sua metamorfose. Encontramos também em Massimo Canevacci, em seu livro “A Cidade Polifônica” (1993), a inspiração e o embasamento da nossa presença nas ruas ao longo da pesquisa de campo. Apesar da curta experiência como “antropólogos da comunicação visual”, o fato de morarmos longe do centro da cidade colaborou para a nossa vivência do dilema da “máxima internidade e máxima distância”2, fundamental para nossa investigação. Ao falarmos especificamente de Brasília, elencamos Giselle Mascarenhas que nos provê entendimento sobre as relações urbanísticas no comércio de Brasília em sua tese O Comércio Local de Brasília. O IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a partir da sua cartilha sobre as Superquadras de Brasília, complementou a compreensão dos princípios que regem a arquitetura da cidade, desde a “Unidade de Vizinhança” ao “Movimento Modernista” e o tombamento de Brasília.
“Estar sempre o mais próxima possível do interior dos múltiplos, confusos e sobrepostos complexos de tráfegos-miasmas-engarrafamentos [...] e, simultaneamente, afastar-se teoricamente o mais possível de tudo isto, movimentando-se nos territórios de abstração, para dissolver a especificidade empírica urbana. [...] A máxima distância e a máxima internidade são dois processos mutuamente contraditórios, separados mas vinculados, e que constituem as bases metodológicas da observação antropológica nos territórios urbanos e das suas possíveis representações. (CANEVACCI, 1993, p.20) 2
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1.6 Metodologia de Pesquisa Para confeccionarmos este trabalho, utilizamo-nos de uma variedade de métodos a fim de buscar dados qualitativos que nos ajudassem no cumprimento dos objetivos dessa pesquisa. Essa espécie de coleta de dados foi escolhida baseada na natureza desse projeto, um estudo de caso. Encontramos em Gil (1997) a justificativa para tal escolha, pois ele sugere que “os procedimentos analíticos [no estudo de caso] são principalmente de natureza qualitativa” e que “não há fórmulas ou receitas predefinidas para orientar os pesquisadores”, abrindo a possibilidade de um modelo que melhor representasse nosso objeto de estudo. “Dentre as pesquisas descritivas salientam-se aquelas que têm por objetivo estudar as características de um grupo”, trecho encontrado ainda em Gil (1997), que instrumentaliza nossa busca pelo cumprimento de nossos objetivos. A análise dos dados coletados nos permitiu avançar para a parte explicativa da pesquisa, posterior à pesquisa descritiva, pois baseia-se em seus dados para chegar a uma conclusão. Por fim, definimos essa pesquisa também como exploratória, uma vez que, como Gil (1997) afirma, “são as que apresentam menor rigidez no planejamento. Habitualmente envolvem levantamento bibliográfico e documental, entrevistas não padronizadas e estudos de caso”
1.6.1 Metodologia de Trabalho Adotamos no presente trabalho o modelo de entrevista narrativa, em que fazemos o menor número de intervenções possíveis – somente quando é necessário reconduzir o tópico da fala. A proposta era simular uma conversa coloquial, para que os entrevistados se sentissem à vontade e contassem, com naturalidade, sobre sua jornada. Utilizamos apenas um gravador para registro, seguido da transcrição dos áudios e tabelamento das partes de relevância para a coleta de dados. Nosso maior objetivo era escutar e aprender com seus relatos, resgatando as memórias da quadra e de Brasília em geral.
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CAPÍTULO 2 - O ESPAÇO 2.1 A cidade e os espaços Na contemporaneidade, a cidade ganha status de centro decisor da aglomeração humana, naturalmente acompanhada de contradições discursivas; enquanto conceito, provém de um discurso utópico que é reescrito pelos indivíduos que nela transitam. Acaba tornando-se, ela mesma, um “sujeito universal e anônimo”, em constante mutação. “A cidade, à maneira de um nome próprio, oferece assim a capacidade de conceber e construir o espaço a partir de um número finito de propriedades estáveis, isoláveis e articuladas uma sobre a outra” (DE CERTEAU, 1998, p. 173). A transformação da circunstância urbana no conceito de cidade traz consigo uma série de vantagens: moradia, saneamento, sociabilidade, organização social e infraestruturas de saúde e seguridade social. Contudo, com a acelerada proliferação no número de povoados, muitos dos quais se tornaram cidades, começa-se a notar desvantagens, muitas das quais hoje nos empenhamos em resolver, ao planejarmos os espaços de uma urbe. A maioria dessas desvantagens surge de forma antagônica às próprias soluções que criaram: falta de moradia, saneamento insuficiente, distanciamento social e escassez de serviços necessários para o funcionamento da estrutura urbana. O nascimento das primeiras cidades aconteceu a partir de movimentos espontâneos. Na maior parte das vezes, o desenvolvimento de áreas de intenso comércio gerou esse tipo de expansão, dando à atividade comercial a responsabilidade de pulsar a cidade, “dando vida social à cidade” (MASCARENHAS, 2013, p. 25). “Para os gregos, era a ágora que se prestava ao discurso e às trocas, para os árabes eram os bazaar, e no império romano o forum era o espaço público do comércio e da vida pública.” (MASCARENHAS apud VARGAS, 2001, p. 97). A ideia de um processo de planejamento urbano, projeção do que espera-se que a cidade se torne, gerou diversas questões, em várias searas diferentes. Na arquitetura, o Movimento Moderno abordou essas indagações, como veremos na segunda parte deste capítulo. Na antropologia, De Certeau discutiu essa temática, abordando tais efeitos na relação das pessoas com o cotidiano: Lugar é a ordem segundo a qual se distribuem elementos nas relações de coexistência”, ou seja, é o arranjo espacial das coisas. [...] “só há lugar quando freqüentado por espíritos múltiplos ali escondidos em silêncio, e que se pode evocar ou não [...] (MASCARENHAS apud DE CERTEAU, 1998, p. 189)
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Em resumo, o arranjo espacial dos fatos urbanos3 – elementos arquitetônicos e urbanísticos de uma cidade – combinado à vivência experienciada nas ruas, caracteriza o lugar. O espaço torna-se lugar, portanto, a partir das memórias e lembranças que dele fizeram parte, e influenciam sua identidade. Criam-se as narrativas urbanas, usadas por De Certeau (1998) para simbolizar o espírito de constante mudança engendrado nos locais de coexistência humana. “Em outras palavras, o lugar é o espaço imbuído de valores” (MASCARENHAS, 2013, p. 30). A divisão dos espaços entre público e privado deu-se como uma distribuição de funções para cada local. Na esfera privada são as necessidades biológicas do ser humano que regem as ações. É o local em que fazemos as coisas mais íntimas, em segurança, cotidianamente. A esfera pública é justamente o contrário: local em que nos expomos, que colocamos à vista e que vemos o que colocam os outros. A ação do homem transforma o espaço em construção, configurando-o. É essa ação que constrói a realidade, e esta só pode acontecer no espaço público, uma vez que o espaço privado diferencia-se do público por estar restrito às necessidades biológicas do ser humano como repousar, comer, amar. São suas experiências íntimas, subjetivas e pessoais, aquelas que ninguém vê. A rua e a via são espaços públicos, onde o indivíduo se reconhece e reconhece as ações coletivas. (MASCARENHAS, 2013, p. 31)
Portanto, a realidade só é construída a partir do público. Essa afirmação abstrata é, em realidade, um conceito simples, resumido por Mascarenhas (2013): “Se algo mais aconteceu e eu não presenciei, então não aconteceu.” A principal das ações transformadoras dos espaços é o caminhar. De Certeau (1998, p. 177) faz uma analogia entre o efeito do ato de caminhar no sistema urbano e o ato de enunciar – falar – na linguagem. O autor define esse caminhar como “processo de apropriação” do espaço pelo pedestre, uma “realização espacial do lugar”. [...] se é verdade que existe uma ordem espacial que organiza o conjunto de possibilidades [...] e proibições, o caminhante atualiza algumas delas. Deste modo, ele tanto faz ser como aparecer. Mas também as desloca e inventa outras, pois as idas e vindas, as variações ou improvisações da caminhada privilegiam, mudam ou deixam de lado elementos espaciais. [...] faz outras coisas com a mesma coisa e ultrapassa os limites que as determinações do objeto fixavam para o seu uso. (DE CERTEAU, 1998, p. 178) [grifo nosso]
Nas cidades não-planejadas, a atualização e a construção de seus espaços é concomitante, porém não se pode dizer o mesmo das cidades planejadas. O planejamento das cidades, como apontado antes, visa a melhoria das desvantagens intrínsecas ao desorganizado processo de urbanização tradicional. Todavia, esse delineamento nunca funcionará exatamente como foi projetado; ele será transformado pelos personagens que transitam em seus espaços, reescrevendo essa narrativa urbana a cada passo dado. 3
Fatos urbanos – igrejas, casas particulares, monumentos, praças, etc. – são singulares, únicos, pedaços de cidades que formam esta. Rossi divide estes fatos em área-residência e elementos primários, ou seja, esfera particular e esfera privada. (Alcântara apud Rossi, 1996)
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Mas se os transeuntes reescrevem a cidade com sua caminhada, como é reescrita Brasília? Numa cidade em que o movimento pedonal4 é submetido ao desenho urbano e em que o sistema de transporte coletivo é insuficiente, causando gigantesca demanda por veículos automotivos, inferimos que essas relações se constroem de maneira diferente. 2.2 As origens do Plano Piloto Nossa vontade de falar sobre publicidade feita de forma não autenticada pelos conceitos estabelecidos dentro da academia – e renegada por esse motivo – encontrou o primeiro obstáculo quando foi necessário fazer um recorte espacial para tornar possível tal pesquisa. Explorar esse universo nas beiras de estradas pelo Brasil, imergir nas cidades satélites que circundam Brasília, focar apenas no Plano Piloto: todas as alternativas possuíam infinito potencial. Por fim, percebemos que o Plano Piloto continha características especiais e singulares, que poderiam oferecer uma série de nuances para o estudo. Na busca por um lugar onde esses atributos aparecem condensados, encontramos as primeiras superquadras do Plano Piloto de Brasília, que abarca a SQS 107, 108, 307 e 308. Por ter sido construída anteriormente a todas as outras que compõem o Plano Piloto, essa região é chamada de “Quadra Modelo”, sendo berço do plano arquitetônico original feito para a capital do país. A promessa feita pelo presidente Juscelino Kubitschek de transferir a capital do país para o interior do Brasil encontrou no urbanista Lucio Costa os ideais necessários para fazer Brasília sair do papel como uma cidade diferenciada. Adepto de conceitos arquitetônicos modernos, Costa conseguiu alcançar um nível de realização do Movimento Modernista inédito no resto do mundo e que se apresenta de diversas formas nas ruas de Brasília. A proposta dos blocos de superquadras remete tanto às concepções de seu autor, Lucio Costa, como deixam expor diversas características da nova arquitetura moderna quanto aos preceitos que resultaram em sua forma. [...] Esta pode ser evidenciada pela concepção das fachadas – faixas contínuas de esquadrias, peitoris em concreto, elementos de proteção solar fixos –, pela relação entre cheios e vazios, pelo aspecto estrutural, pela diversidade na combinação de cores e materiais. (MAGALHÃES, 2009)
Em sua tese de mestrado, Giselle Moll Mascarenhas resgata o processo de construção de Brasília ao explorar a história da Rua da Igrejinha, comércio local das quadras 107 e 108 Sul. A partir desse estudo, nota-se que Lucio Costa aplica a estética moderna, mas experimenta, antes de mais nada, outro conceito fundamental do Movimento Modernista: a setorização. O princípio do zoneamento propõe intervenção 4
Referente ao pedestre
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e controle urbano, e acaba ganhando fôlego a partir do cenário de instabilidade política do início do século XX. Executar esse conceito tinha como objetivo harmonizar as três principais atividades humanas definidas pelos modernistas na Carta de Atenas5: “recrear, habitar, e trabalhar [...] organizadas para promover a máxima funcionalidade da cidade e integradas por uma quarta ação, ‘circular” (MASCARENHAS, 2013, p. 40). Esses conceitos desenham o cotidiano da capital na prática. A proposição urbanística de Lucio Costa estruturava a cidade ao longo de dois eixos ortogonais: o Monumental e o Rodoviário. Ao longo do Eixo Rodoviário, dividido em Sul e Norte, a escala de setorização caberia às Unidades de Vizinhança, “as quais incluem quatro superquadras residenciais, equipamentos públicos de educação e lazer, e quatro áreas destinadas ao comércio de apoio denominadas comércios locais, cada uma vinculada a uma superquadra.” (Mascarenhas, 2013, p. 13). Todas as superquadras guardam características que se repetem invariavelmente. A intenção de separar os espaços reservados para o comércio e para a moradia já estava presente no artigo 60 da Carta de Atenas: “Já é tempo de remediar, por meio de medidas apropriadas, uma situação que caminha para ao desastre. A primeira medida útil seria separar radicalmente, nas artérias congestionadas, o caminho dos pedestres e o dos veículos mecânicos”. Em Brasília, essa proposta torna-se literal quando percebese a diferenciação entre as vias de acesso ao comércio ou às moradias. Elas se entrelaçam, mas não se misturam. O isolamento da área residencial tinha um propósito: Sua concepção [da superquadra], [...] dizia respeito à reaproximação do habitante com o seu lugar de morada, reconectando aspectos bucólicos às edificações a partir de uma relação do ambiente construído com os espaços circundantes, livres e arborizados, nos quais o morador se veria em condições de desfrutar simultaneamente das qualidades da cidade e do campo. A relativa separação das funções do habitar dos demais fluxos urbanos, livraria as áreas residenciais das densidades e pressões mais intensas e indesejáveis da vida urbana. (BISPO; GIANNECCHINI; CASCO, 2013)
O ar bucólico pretendido por Lucio Costa foi posto em prática e passou a ser um dos traços de identidade mais fortes de Brasília e das superquadras. Além dos aspectos urbanísticos, com a intensa presença de áreas arborizadas por exemplo, esse propósito se fez valer na estrutura da cidade como um todo, que evita ao máximo aglomerações de pessoas. A imagem de uma calçada cheia de gente, de uma faixa de pedestre muito movimentada, típica de uma grande metrópole, não é comum em Brasília. “A Carta de Atenas [...] apresenta proposições para os novos rumos da “cidade funcional”[...]. Tratase de resoluções relacionadas ao momento histórico em que se vivia, ou seja, de grande crescimento urbano mundial, que tiveram influência decisiva do pensamento de Le Corbusier – arquiteto francosuiço, considerado um dos maiores arquitetos do século XX e grande influência para a formação da geração modernista de arquitetos brasileiros. Assim, a Carta de Atenas de 1933 apresenta formulações para a organização das cidades, definidas em funções básicas: habitar, trabalhar, circular e lazer. (BISPO; GIANNECCHINI; CASCO, 2013) 5
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Nesse aspecto, identificamos a tentativa de estruturar Brasília de modo a não orientar as direções do pedestre a partir de grades, a não delimitar seus caminhos em razão de muros. Observamos a abertura de possibilidades de trânsito livre sobre a calçada ou mesmo pela grama, podendo-se caminhar em contato próximo com a vegetação. Uma cidade que deveria se apresentar aberta, marcada pela fluidez e pela permeabilidade espacial. (BISPO; GIANNECCHINI; CASCO, 2013)
O trânsito livre é incentivado a partir de um dos elementos mais marcantes dos prédios do Plano Piloto: os pilotis6, recurso frequentemente usado pelo modernismo. A coluna de Severino Francisco7, publicada em janeiro de 2017 no Correio Braziliense, resgata a principal função dos pilotis: o chão livre. Esse acesso permissivo já tinha sido testado por Lucio Costa em 1940, no Rio de Janeiro, na construção do Parque Guinle, erguido com a limitação de seis andares, chão livre e larga área verde. Tal modelo foi replicado na maior parte dos edifícios do Plano Piloto. Hoje em dia, há uma discussão sobre os direitos desse “chão livre”. A coluna de Francisco supracitada discute a permissão para crianças brincarem livremente nesse local. “A tentativa de privatizar o espaço público é um retrocesso inaceitável. Fere a lei maior do princípio urbanístico que rege o Plano Piloto formulado por Lucio Costa e é um atentado ao espírito inovador e generoso de Brasília.” Não são só as crianças que sofrem com a rejeição num espaço público teoricamente não especificado para tal atividade. Márcia de Melo Kuyumjian, em seu artigo “Dissonância Cultural”, destaca essa relação conturbada entre ambulantes, como representantes desse não pertencimento ao espaço público e ao urbanismo brasiliense. “São vozes, cores, cheiros e formas que destoam dos traçados arquitetônicos, mas que também dizem a cidade e a faz respirar e transpirar” (KUYUMJIAN, 2011, p.15). Essa discussão é um dos problemas mais comuns para os ambulantes, que será tratado com maior profundidade no Capítulo 4. Em defesa das crianças, resta o relato de Lucio Costa: “Creio que houve sabedoria nessa concepção: todos os prédios soltos do chão sobre pilotis [...], as crianças brincando à vontade ao alcance do chamado das mães”.
Pilares ou sistema de colunas que suportam um edifício e o elevam acima do nível térreo. (https:// www.engenhariacivil.com/dicionario/pilotis) 6
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2017/01/31/interna_cidadesdf,569624/ impedir-criancas-de-brincarem-embaixo-do-bloco-e-atentado-a-brasilia.shtml 7
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Figura 1: Parque Guinle, Rio de Janeiro. Leonardo Finotti. 8
Figura 2: Pilotis no Plano Piloto9
A padronização do Plano Piloto, tanto na Asa Sul quanto na Asa Norte, nos deu liberdade para definir o cenário da pesquisa. Entretanto, o pioneirismo da Quadra Modelo transforma essa superquadra em um símbolo da cidade, por sua história e originalidade.
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Obtido em http://arqguia.com/obra/parque-guinle-edificios-residenciais/?lang=ptbr Obtido em http://brasiliaconcreta.com.r/pilotis/
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2.2.1 Patrimônio Cultural da Humanidade As características urbanísticas específicas de Brasília acabaram conferindo novas dinâmicas para o cotidiano da cidade. Entre os objetivos deste trabalho está a verificação do nível de influência dessas singularidades arquitetônicas brasilienses na experiência do comércio de rua. A setorização, entre outras vivências modernistas, é um dos principais fatores de interferência nesse contexto. Entretanto, há um fator posterior que também participa em grande escala: o tombamento de Brasília. Aos 27 anos, Brasília foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. Na grande obra-prima do Movimento Modernista e “última utopia, [...] porque depois toda conceituação de urbanismo a partir de 1968-70 foi modificada” (BISPO; GIANNECCHINI; CASCO, 2013), foram tomadas as medidas para que o conjunto urbanístico original de Brasília fosse tombado. O status arquitetônico da capital brasileira é ampliado quando colocado como uma das duas únicas cidades no mundo concebidas a partir dos conceitos modernistas, junto com Chandigarh, no norte da Índia. E assim passou a ser reconhecida, a partir de 1987, nas escalas local, nacional e mundial: A manutenção do Plano Piloto de Brasília será assegurada pela preservação das características essenciais de quatro escalas distintas em que se traduz a concepção urbana da cidade: a monumental10, a residencial11, a gregária12 e a bucólica.13 (Art. 2º da Portaria nº 314/92 do IPHAN)
A partir desse momento, Brasília passou a ser encarada com outra perspectiva. Além de símbolo, agora passava a ser um lugar sacramentado. O tombamento avançava em diversas esferas – “bens de natureza material de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental, etnográfico, paisagístico, arqueológico e também de valor afetivo para a população”14 –, fazendo do espaço urbano um espaço normatizado. No ano em que se completa 30 anos do tombamento, é possível discutir até que ponto ele alcançou seus objetivos. O Plano Piloto apresenta diversas situações discordantes do que fora proposto, como os “puxadinhos” ou as garagens externas privatizadas. “A escala monumental, [...] é associada aos lugares de representação da função de Capital da República. Espacialmente, corresponde ao Eixo Monumental, desde a Praça dos Três Poderes até a Praça do Buriti.” (BISPO; GIANNECCHINI; CASCO, 2013) 10
“A escala residencial, esta inovadora experiência de moradia coletiva que é própria de Brasília, em que se imaginou o cotidiano da capital.” (BISPO; GIANNECCHINI; CASCO, 2013) 11
“A escala gregária aparece no Plano Piloto, nos setores onde ocorre o encontro da população, ou seja, onde as pessoas circulam em grande aglomeração. É a porção central da cidade.”(BISPO; GIANNECCHINI; CASCO, 2013) 12
“A escala bucólica é compreendida como um elemento que, a um só tempo, serve de moldura, atribui força e leveza ao conjunto urbanístico de Brasília, distinguindo a capital como uma cidadeparque.” (BISPO; GIANNECCHINI; CASCO, 2013) 13
http://www.brasiliapatrimoniodahumanidade.df.gov.br/index.php?option=com_ content&view=article&id=6&Itemid=8 14
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Outra questão consequente do tombamento é a normatização dos lugares que podem receber publicidade ao longo da cidade. Um exemplo são as faixas que ocupam os canteiros das vias mais movimentadas e anunciam os mais diversos produtos – de apartamentos a aulas de inglês, visadas pela AGEFIS15 por serem proibidas; acabam recolhidas pelos fiscais. As faixas oferecem riscos aos motoristas caso sejam instaladas em lugares inadequados; em Brasília, essa proibição ganha relevância devido ao tombamento e à necessidade de manter a ordem do espaço público. Porém, continua sendo uma opção frequentemente preferida pelos comerciantes, já que o baixo custo de produção, muitas vezes, compensa o risco de apreensão ou multa. Em 2014, foram mais de 52 mil faixas recolhidas16. Atualmente, é possível encontrar pelas ruas uma nova estratégia para driblar tal fiscalização. A solução é a fixação dos anúncios em veículos, como caminhões e carretas, concebendo uma espécie de outdoor móvel, livre de pagamento de taxas e com liberdade para se locomover. Os principais pontos escolhidos para serem instalados são os acostamentos de vias movimentadas. Durante o período da pesquisa de campo, conseguimos flagrar essa mesma estratégia na CLS 107/108. O curioso foi perceber quem era o anunciante: uma gráfica de banners. Figura 3: CLS 107.
Foto: André Porto
O Plano Diretor de Publicidade de Brasília é o responsável por determinar todas as especificidades para as peças publicitárias expostas dentro deste espaço urbano especial. Tal discussão ganha novas proporções sob a ótica de manifestações publicitárias de vendedores ambulantes. Como estão imersos e limitados ao espaço público para realizar todo o processo de venda, essas normatizações de uma cidade 15
Agência de Fiscalização do Distrito Federal
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http://www.jornaldebrasilia.com.br/cidades/faixas-irregulares-sao-vistas-em-todo-o-df/
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tombada passam a ser mais um fator especial e agregam outras perspectivas para a experiência de venda do comércio de rua em Brasília. No subcapítulo 4.2, entraremos em mais detalhes sobre as condições das peças publicitárias nesse meio. As características típicas de Brasília, planejadas por Lucio Costa e concretizadas por Niemeyer, receberam atualizações ao longo do tempo mas resistem até hoje como marca fundamental de Brasília. Tais particularidades são louvadas por arquitetos e pelos brasilienses em geral; viver e conviver num espaço tão inusual é motivo de orgulho para os locais. Porém esse contexto ganha outro aspecto quando questionado sob a perspectiva dos que precisam desse espaço público para trabalhar e tirar seu sustento. Em que nível as especificidades de Brasília influenciam na experiência de comércio nas ruas? Em um espaço urbano teoricamente setorizado, com cada lugar reservado para uma atividade específica – onde o vazio e o bucólico são patrimônios da humanidade – como os ambulantes dependentes do fluxo constante de pessoas sobrevivem? Num ambiente hipoteticamente desfavorável, os vendedores ambulantes estão enraizados no cerrado e já podem ser considerados parte da memória de rua das superquadras de Brasília. As adversidades vivenciadas por eles acabam ganhando outras proporções na capital do país. No berço da cidade-monumento, iremos explorar seu cotidiano e as formas de se fazer notar desses vendedores ambulantes.
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CAPÍTULO 3 - A INFORMALIDADE 3.1 O setor informal do trabalho Com a chegada do século XXI presenciamos uma queda no status do trabalho na vida social. A produção abundante, herança do capitalismo, é responsável pelos “delírios do mercado detrator humano e estimulador do impulso compulsivo do consumo vazio”, citando Kuyumjian (2011), que nos relembra o processo de alteração das relações do indivíduo com o trabalho. No século XIX tivemos as clássicas críticas de Marx ao sistema de produção industrial capitalista, que privilegiava os donos do capital ao explorar os operários; no século XX, a divisão entre “profissionais superespecializados e uma massa precária de trabalhadores”. Hoje, Kuyumjian (2011) aponta, somos levados a crer – por meio da maneira quase automática que consumimos – que a produção e o produto são desvinculados, causando uma dissonância17 na percepção do papel do trabalhador no processo produtivo. Define-se, então, trabalho como: “o ato de realizar, produzir, tendo por referência o conhecimento sociocultural acumulado e a habilidade de conectar o ato de pensar com o de realizar” (KUYUMJIAN, 2011, p. 347). O trabalho é um dos campos essenciais da realidade social, assumindo papel central na ordem da sociedade capitalista, porém também ameaçando-a ao abrir “novos campos representacionais por apropriações e ressignificações da produção e do consumo” (KUYUMJIAN, 2011). Nesse ponto devemos nos atentar para a progressão da conjuntura da atividade laboral com o passar do tempo. Houve a substituição das oficinas artesanais pelas atividades industriais. Estas, mais tarde, transformadas em profissões, que seguem determinada hierarquia conforme a especialização e domínio da produção virtual (KUYUMJIAN, 2011, p. 349). Na busca pela melhor definição para explicar o setor informal da economia, parafraseamos Lopez e Monza (1995): o setor informal urbano, da mesma forma que as bruxas, não é definido de forma rigorosa, mas que existe, existe. A heterogeneidade desse universo dificulta a delimitação do “setor informal”. A OIT, Organização Internacional do Trabalho, passou a debater o assunto no começo da década de 1970, quando desenvolveu uma pesquisa sobre o trabalho no Quênia e na América Latina. A popularização do termo, além da sua natural complexidade, passou a dificultar essa delimitação. Em 1993, a OIT estabeleceu uma definição que é usada até hoje:
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Kuyumjian define o termo dissonância segundo o verbete do dicionário Caldas Aulete online
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O setor informal pode ser caracterizado abrangentemente como consistente de unidades engajadas na produção de bens e serviços com o objetivo primário de gerar emprego e renda para os indivíduos envolvidos. Essas unidades operam tipicamente em um baixo nível de organização, com pouca ou nenhuma divisão entre labor e capital como fatores de produção, e em uma baixa escala. As relações de trabalho – onde existem – são baseadas majoritariamente em emprego casual, parentesco ou relações pessoais e sociais ao invés de arranjos contratuais com garantias formais18
Apesar disso, não há um consenso entre os autores sobre o conceito. Além disso, alguns marcos teóricos se desenvolveram ao longo do tempo e passaram a guiar essa temática. Segundo Pamplona (2013), esses marcos podem ser divididos em três momentos: O primeiro marco conceitual do termo “informal” — o “informal como setor informal” — foca a natureza do processo produtivo, a natureza da empresa, da unidade produtiva, da baixa produtividade e da pobreza; o segundo marco — o “informal como economia informal” — dá destaque para o problema da ocupação, da baixa qualidade do emprego e da falta de proteção social; o terceiro marco — o “informal como processo de informalidade” — enfatiza a questão das mudanças estruturais da economia e da sociedade, que criam e recriam formas do informal, limitam as possibilidades de regulação da atividade econômica por parte do Estado e estimulam a não aceitação desta regulação por parte dos agentes produtivos.
Incluímos, enfim, os dois sentidos que trabalho assume: trabalho-emprego e trabalho-cultura. O trabalho-emprego se curva a uma lógica de funcionalidade econômica e significa “assalariamento com regulação estatal”. Já o trabalho-cultura: [...] se configura como uma prática cultural, da apropriação do habitus familiares e comunitários. São atividades que permitem também localizar as práticas cotidianas familiares, tais como aprender a cuidar da casa, o ofício do pai, e ainda lidar com situações corriqueiras. Por conseguinte, oferece a oportunidade aos jovens das camadas populares de apreender valores e significados que funcionam como aprendizagem para a vida em sociedade (KUYUMJIAN, 2003b, p. 248).
Ao libertar-se da lógica de emprego, o labor como cultura persiste em atividades simples, com uma pedagogia calcada na tradição e herança familiar. São os trabalhos ditos informais. Esses são responsáveis por manter “a dinâmica da cidade [...] diariamente assegurando o funcionamento” do tecido social (KUYUMJIAN, 2011, p. 355). São atividades que se apresentam como uma estratégia de sobrevivência das classes mais pobres. É fascinante constatar a multiplicidade de vínculos sociais – redes de colaboração, ajuda mútua, reciprocidade, solidariedade – que se encontra nessas relações (AGUIAR, 2003). Com o êxodo rural, a cidade tornou-se cenário para os sonhos de ascensão social, prometidos pela sociedade de indústria. Porém, a realidade que não se “the informal sector may be broadly characterized as consisting of units engaged in the production of goods or services with the primary objective of generating employment and incomes to the persons concerned. These units typically operate at a low level of organization, with little or no division between labour and capital as factors of production and on a small scale. Labour relations — where they exist — are based mostly on casual employment, kinship or personal and social relations rather than contractual arrangements with formal guarantees” 18
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equivale às expectativas e à falta de emprego forçou toda uma população, de baixo nível educacional e renda, a inventar atividades que os inserissem em um grupo social ao mesmo tempo em que provessem sustento às suas famílias (AGUIAR, 2003). No Brasil, a discussão perpassa vários âmbitos. Economicamente, existe a necessidade de institucionalizar o setor informal, considerando a falta de regulamentação e, consequentemente, o cumprimento de funções fiscais, previdenciárias ou trabalhistas. Num ponto de vista da antropologia, há a preocupação em relação a esses trabalhadores expostos constantemente às mudanças drásticas e mesmo às dificuldades em encontrar sua própria identidade, a partir do trabalho. O fato é que “nesse espaço de sobrevivência ou ascensão social” (PAMPLONA, 2013), de marcante diversidade de motivações e perfis, uma parte desses trabalhadores são vendedores de rua, definidos por Bhowmik (2005, p. 2256) como “street vendors”: Um vendedor de rua é amplamente definido como uma pessoa que oferece bens para venda ao público sem possuir uma permanente e concentrada estrutura pela qual vende. Vendedores de rua podem ser imóveis no sentido que ocupam espaço nas calçadas e outros espaços públicos/privados ou podem ser móveis no sentido que se movem de um lugar a outro carregando seus aparatos em carrinhos ou cestas em suas cabeças.19
Com a crise econômica do Brasil do começo da década, o trabalho informal passa por um momento de ascensão. Em março de 2017, o PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), indicador do IBGE sobre características socioeconômicas do país, revelou alguns dados sobre a situação da informalidade no Brasil. Se considerarmos trabalhadores informais todos aqueles ativos economicamente sem carteira de trabalho assinada (“empregados no setor privado sem carteira de trabalho assinada” e “trabalhadores por conta própria”), são mais de 32 milhões de pessoas, o que equivale a 36% da população de trabalhadores ocupados no Brasil. Com o aumento da quantidade de trabalhadores nessa situação, a informalidade ganha uma relevância ainda maior no cenário econômico do país. Porém, é necessário avançar para além dos números e perceber que, no cenário atual, as dificuldades inerentes ao trabalho informal ganham uma relevância ainda maior. Como disse Pamplona (2013): O comércio de rua é um fenômeno vigoroso, que resiste há séculos de mudanças econômicas e urbanas e, ao contrário do que se imaginava, não sucumbiu à modernidade capitalista, mas foi alimentado por ela, por suas iniquidades. Nas grandes cidades brasileiras, o comércio de rua envolve diretamente uma quantidade de pessoas — vendedores e clientes — grande demais para ser ignorada. “a street vendor is broadly defined as a person who offers goods for sale to the public without having a permanent built-up structure from which to sell. Street vendors may be stationary in the sense that they occupy space on the pavements or other public/private spaces or, they may be mobile in the sense they move from place to place by carrying their wares on push carts or in baskets on their heads.” 19
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3.2 Trabalho informal em Brasília “Evoco [...] Brasília, patrimônio cultural da humanidade e síntese política do Brasil. Embora representação modelar do mundo futuro, essa cidade não se liberta de velhas práticas ocupacionais que se imiscuem no seu cenário arquitetônico. Das tendas de artesãos, do perambular de ambulantes, dos lugares cativos de chaveiros, sapateiros e vendedores de frutas, inúmeras manifestações proliferam nos seus contornos nada convencionais.” (KUYUMJIAN, 2011) [grifo nosso]
O trabalho informal possui características genéricas e comuns, independentemente de onde acontece. Um dos fatores mais notáveis e frequentes são as interferências do poder público, que tomam medidas a fim de retirar vendedores ambulantes dos seus pontos de venda. Tais medidas podem ser interpretadas como parte de um processo de higienização social, tendo como exemplo o início do governo de João Dória20 , prefeito da cidade de São Paulo desde janeiro de 2017: parte da operação “Cidade Linda” consistia na retirada de ambulantes e vendedores informais das ruas. Mas não é necessário nos aprofundarmos nesse mérito para discutirmos a sensação de pertencimento à cidade de um vendedor ambulante. No trecho supracitado, “imiscuir”21 consegue resumir bem uma sensação comum nesse universo: ser invasor, intruso. Há nove anos, em Brasília, o governo José Roberto Arruda foi uma demonstração das típicas práticas governamentais que se dedicam a essa tentativa de retirar o trabalho informal das ruas. Partindo da intenção de regularizar atividades comerciais, Arruda colocou em prática um choque de ordem22, expulsando ambulantes das áreas públicas. Teoricamente, o principal destino dos comerciantes seria o Shopping Popular, projeto de Arruda. A realocação dos pontos de venda tinha como propósito oferecer infraestrutura, segurança e status de legalidade aos vendedores informais, que convivem com a ausência de todos esses elementos. Entretanto, até hoje, o novo centro comercial não se consolidou. Atualmente, dos 1596 boxes disponíveis, apenas 339 estão em funcionamento23. Esses números sugerem o insucesso das medidas do poder público ao propor políticas públicas que alteram o funcionamento do comércio informal. A frustração do plano do Shopping Popular se alicerça em uma multitude de http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/vendedores-ambulantes-irregulares-serao-retirados-dapaulista-diz-doria.ghtml 20
“Participar de ou emitir opinião sobre (algo) que não lhe diz respeito; ingerir-se, intervir, intrometerse”; definição Michaelis. 21
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https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/409985/noticia.htm?sequence=1 http://www.chicovigilante.com.br/governo-e-lojistas-discordam-sobre-ppp-do-shopping-popular/
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razões. Apesar do suposto fácil acesso – estando próximo do centro da cidade – localiza-se em uma via expressa e acaba sofrendo com baixo fluxo de pedestres na região. Além disso, não funciona aos fins de semana. Mas é possível ir além e investigar outros fatores que contribuíram para a situação atual. Há, em Porto Alegre, um caso semelhante, análogo ao que acontece em Brasília. Todo o processo de transposição dos vendedores de rua para um lugar predeterminado foi relatado por Moisés Kopper em sua tese de mestrado De Camelôs A Lojistas: A Transição Do Mercado De Rua Para Um Shopping. A inauguração do Camelódromo de Porto Alegre (como o “Centro Popular de Compras” ficou conhecido) foi contemporânea à abertura do Shopping Popular de Brasília. Os ambulantes porto alegrenses foram realocados para o novo centro comercial, saindo das ruas do centro da cidade e tendo à disposição mais de 800 boxes. Entretanto, apesar da boa infraestrutura e boa localização, o Camelódromo também não vingou. Podemos inferir uma das principais evidências que levam os Shoppings Populares a terem dificuldades em se estabelecer, seja em Brasília ou em Porto Alegre. A capacidade de identificação de necessidades específicas, pontuais e locais, nas ruas e espalhadas por toda a cidade é uma habilidade necessária para o sucesso do comerciante de rua. A partir do momento que são alocados em um espaço fixo são impedidos de buscarem ativamente o melhor local para venderem seus produtos e são prejudicados. O poder público, na tentativa de oferecer melhores condições a esses trabalhadores – e satisfazer a necessidade de limpeza do espaço urbano –, acabam influenciando direta e negativamente o negócio desses trabalhadores. Honório de Oliveira, 60 anos, trabalha durante a semana no centro comercial e, em finais de semana e feriados, leva suas mochilas para vender novamente nas calçadas de Porto Alegre. — Hoje (uma segunda-feira) não vendi um real ainda aqui, mas ontem consegui vender R$ 180 trabalhando na rua. Assim consigo me manter — revela Oliveira. (http://zh.clicrbs.com.br/rs/porto-alegre/noticia/2017/04/ ex-camelos-de-porto-alegre-sofrem-com-a-concorrencia-dos-novosambulantes-9763525.html)
A situação problemática de Porto Alegre, relatada por Moisés Kopper, ganha caráter global e de correlação com Brasília quando o autor resume essa realidade. Parafraseando Kopper, a concentração diária de comerciantes num mesmo espaço colocou em risco as relações entre eles, introduzindo uma condição de concorrência já que, por estarem em um “shopping”, passaram a estar submetidos a outra lógica mercadológica. Em consequência disso, um segundo problema surge: Essa nova ordem entre sujeito, lugar e coisa pressupunha igualmente uma nova gramática das relações sociais que estava fundamentada na perda de autonomia do sujeito camelô diante de seu produto e de seu cliente: um novo perfil de comerciante, arrojado, atento às tendências da moda e do consumo atuais, preocupado com as oportunidades do momento e em estar à frente de seus colegas, vistos como concorrentes ou até inimigos, parecia insistir em se estabelecer no lugar do “ser camelô” – para quem o comércio, necessário tão somente à subsistência, era uma consequência não premeditada das
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relações sociais que se estabeleciam na rua. (Kopper, 2012, p. 184)
Voltando à Brasília, a mais recente tentativa de fazer o Shopping Popular prosperar foi conduzida pelo deputado distrital Chico Vigilante, em abril de 2017, numa audiência pública com os feirantes, representantes do governo e empresários do setor para discutir a proposta de aderir à parceria público-privada. Entretanto, a maior parte dos envolvidos não concordou com a proposta, simbolizando a dificuldade em resolver o problema. Como já foi visto na conexão com a situação de Porto Alegre, Brasília está longe de uma solução imediata. Além disso, a complexidade do tema ganha outras perspectivas quando falamos sobre a capital do país, cidade que carrega características singulares. A relação entre Brasília e comerciantes informais acaba extrapolando as condições impostas por leis e decretos governamentais. As medidas práticas existem, mas outros elementos acabam tendo forte influência no caráter infértil de Brasília no que diz respeito ao desenvolvimento do trabalho informal. As características urbanas da cidade e as suas origens descrevem as raízes dessa complexa conjuntura. A setorização da cidade é capaz de imputar, de forma indireta, dificuldade no estabelecimento de condições mínimas desse tipo de trabalho. Além do Shopping Popular, o consentimento governamental para as atividades informais só existe em espaços pré determinados, como feiras (do Guará e dos Importados). Em relação ao centro da cidade, local de maior movimento e maior circulação de renda, a anuência à presença de comércio informal é concedida a partir de uma lei de autoria do governo Arruda. A Lei nº 4.25724 de 2 de dezembro de 2008 instrumentalizou o “Termo de Permissão de Uso” como o documento necessário para a regulamentação dos comerciantes; além disso, conferiu às administrações regionais a responsabilidade da criação do Plano de Ocupação25. Contudo, em 2015, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), por meio da Promotoria de Justiça de Defesa da Ordem Urbanística (Prourb), encaminhou um Termo de Recomendação às administrações regionais a fim de “investigar se as ocupações de áreas públicas por mobiliários urbanos em todo o território do Distrito Federal estão em conformidade com as normas urbanísticas”26. A recomendação movida pelo MPDFT alega que, ao longo dos sete anos que separam os dois acontecimentos, abriu-se exceções na concessão do Termo de Permissão de Uso. Assim, o Ministério Público assume “Estabelece critérios de utilização de áreas públicas do Distrito Federal por mobiliários urbanos do tipo quiosque e trailer para o exercício de atividades econômicas e dá outras providências” http://sider. der.df.gov.br/modelostermos/Leis/Lei_DF_4257.pdf 24
“Documento resultante do procedimento que definirá os espaços destinados à instalação dos mobiliários urbanos do tipo quiosque e trailer” 25
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http://www.mpdft.mp.br/portal/pdf/recomendacoes/prourb/2015/Recomendacao_Prourb_2015_018.pdf
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que “todas as ocupações de áreas públicas por quiosques e trailers ocorridas sem licitação pública [...] padecem de vício de ilegalidade”, além de determinar “que a falta de elaboração do Plano de Ocupação não pode servir de pretexto à ocupação desordenada e desenfreada das áreas públicas”. Assim, de forma geral, o poder público continua assumindo como ilegal a presença dos comerciantes de rua em Brasília, colocando-os à mercê de uma fiscalização mais rígida que em outras metrópoles brasileiras. A origem dessa situação de exclusão do centro vem da época da construção da cidade, na década de 1960. Brotando no centro do país, Brasília surgiu como o Eldorado, a terra das novas oportunidades para as pessoas de todos os cantos do Brasil: Quando a construção foi iniciada a propaganda governamental obteve sucesso ao divulgar a ideia de Brasília, atraindo milhares de pessoas para o Planalto Central em busca de emprego e oportunidades. Em 1958, antes da construção das primeiras superquadras no Plano Piloto, a Cidade Livre já contava mais de 2.600 estabelecimentos comerciais,[...] responsáveis pelo suprimento das necessidades dos habitantes, que em maio de 1959 alcançaram mais de 64.000. (Mascarenhas, 2013, p. 57)
O sonho de uma nova vida acabou quando os prédios e monumentos ficaram prontos. Assim que a cidade foi inaugurada, em abril de 1960, os habitantes originais da área – os candangos, responsáveis por sua construção – foram convidados a se retirar do centro da cidade. A proposta de construir uma nova cidade com esperança de vida melhor, de uma casa e fartura de trabalho e alimento foi, aos poucos, desfazendo-se. [...] Novos habitantes chegaram, ocupando os espaços nobres da cidade. Os trabalhadores foram acusados de invadirem áreas públicas e convidados a retornarem às suas terras. Contudo, eles já haviam fincado território, já estavam impregnados pelos desejos e esperanças prometidas e sentiam-se parte integrante daquilo que construíram. (KUYUMJIAN, 2011, p. 351)
Além de retratar as origens da seletividade da população que frequenta o Plano Piloto, esse relato consegue avançar e desvelar uma realidade ainda mais cruel. Tal perspectiva faz-nos pensar nos impactos provocados pelo rompimento abrupto das teias de relações que constituíam o cotidiano dos candangos e ainda compreender os sentimentos que seus filhos nutrem, hoje, pela capital que os pais construíram. Fora das redes hegemônicas de privilégio, certamente representam parte do contingente que vai, diariamente, ganhando trocados no trabalho informal. (KUYUMJIAN, 2011, p. 355)
Em menos de seis décadas do seu nascimento, Brasília ainda guarda o espírito de Eldorado. O contato mais próximo com o poder político mistifica as relações existentes na capital. No artigo “Vivências Cotidianas do Trabalho” (2001), Kuyumjian cita Paviani, que revela a presença de um imaginário peculiar em Brasília: Fica aberta a chance de ter acesso a algum político e sensibilizá-lo para a fragilidade individual e, quem sabe, a sorte de ter um emprego garantido. Às vezes esse imaginário é informado pelo sucesso de algum vizinho, amigo ou parente, que afirma orgulhosamente os benefícios dos contatos com algum “figurão”, dando-lhe mais status, mais crédito e mais respeitabilidade no seu
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círculo de convívio cotidiano. (PAVIANI, 1989)
A realidade financeira de Brasília é capaz de demonstrar o outro lado da moeda, tão desigual e severo quanto os outros fatores. Capital do país e centro do funcionalismo público nacional, a cidade carrega a benção e o fardo de ter uma altíssima média salarial, se comparada com o resto do país. Segundo dados de 2015 da Codeplan (Companhia de Planejamento do Distrito Federal), mais de 70% da massa salarial do Distrito Federal vem do setor público, revelando uma grande diferença na média dos pagamentos em comparação com outros setores: R$9.440, para o setor público, contra R$2.044 dos outros setores. Essa é a realidade de outro ecossistema, mas que afeta indiretamente a vida e o cotidiano dos trabalhadores informais. Em um artigo publicado em 2011, Márcia Kuyumjian usa dessa discrepância para expor uma realidade impiedosa. Apesar da variação nos valores literais que a autora usa, o abismo que separa os dois lados da capital segue valendo. [...] o Brasil não realizou a passagem do operariado-produtor para o assalariado-consumidor. A informalidade é o reflexo do desejo de compartilhar bens e produtos que são inacessíveis para as camadas mais pobres, com salário mínimo na razão de R$ 510,00, o que equivale a aproximadamente 32 vezes menos que a renda média do brasiliense, isto é próximo a R$17.000,00. (KUYUMJIAN, 2011, p. 358)
Essa sequência de fatores desemboca no questionamento sobre a identidade desses trabalhadores informais. Segundo Eleonora Zicari Costa de Brito, em artigo publicado no livro Brasília Informal (2012), além de ser responsável por dar inteligibilidade ao mundo, “a identidade é uma construção simbólica de sentido capaz de produzir não apenas coesão social, mas também demarcações de fronteiras”. Entretanto, pela pouca idade, Brasília ainda não consegue imprimir traços identitários relevantes em quem nasceu aqui. Sobrevive a relação, ainda que distante, com o estado de origem da família. Se nascidos aqui, os filhos dos candangos que construíram a cidade vivem a dissonância de trabalharem sob marquises e sobre calçadas levantadas pelas mãos dos próprios pais de uma cidade que não lhes pertence. Caso busquem uma identidade a partir de laços criados pelo trabalho, são expostos constantemente à incerteza do futuro e aos desafios de perder toda a mercadoria, base de sua subsistência, se a fiscalização aparecer. Não existe chão firme para se estabelecer. Os imigrantes que vieram para a capital são, na maioria, oriundos dos estados de Goiás, Minas Gerais, Tocantins e Mato Grosso. A influência dos “hábitos rurais” trazidos por essas pessoas caracteriza uma generalização do centro-oeste brasileiro, incluindo o Distrito Federal. Ao longo de gerações, foi concebida uma estrutura comercial que “lembra um pouco cada lugar do Brasil” (KUYUMJIAN, 2011, p. 351). Brasília vive, segundo Kuyumjian (2011), um dilema que a diferencia de outras cidades: centro administrativo do país, é regida pela burocracia da administração
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pública ao mesmo tempo em que seus habitantes – sobretudo os que pertencem a camadas socioeconômicas desfavorecidas – a ressignificam e inovam dentro de seus espaços regidos pela ordem. Em geral, utilizando-se de hábitos familiares ou comunitários para compor seu ofício: Na capital do país, [...] os vendedores de frutas, de doces, de verduras, de churrasquinho, modo geral, vêm de linhagens familiares nas quais essas atividades já eram praticadas. Normalmente, referem-se a outros pontos de vendas que são ocupados pelo pai, irmão ou tio. Encontramos situações em que três gerações se revezam nos pontos de vendas, constituindo a principal atividade remunerada da família.
Tais condições são de suma importância para a compreensão do funcionamento da comunicação publicitária dentro de um espaço urbano em constante ressignificação, como veremos a seguir.
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CAPÍTULO 4 - A PUBLICIDADE 4.1 As Mídias centrais da Publicidade 4.1.1. A publicidade Antes de nos aprofundarmos no estudo das diversas manifestações da publicidade dos vendedores de rua, devemos definir no que consiste o ato da comunicação publicitária. Segundo Armando Sant’anna (1996) a comunicação “é, pois, o processo de transmitir ideias entre indivíduos”. Essas ideias, expressas por meio de signos, somente terão significado se o destinatário da mensagem souber interpretá-los, tornando possível que haja transmissor, mensagem e receptor, constituintes básicos do processo comunicacional. A influência para modificar atitudes, uma das mais primordiais funções da comunicação, se baseia justamente nessa ideia. O receptor somente será persuadido caso o transmissor consiga convencê-lo, o que só será possível se a comunicação ultrapassar a “censura e normas opostas dos grupos visados” (SANT’ANNA, 1996). É preciso, portanto, que o receptor e o transmissor utilizem um código consensual. Publicidade, ainda segundo Sant’anna (1996), significa “o ato de vulgarizar, de tornar público um fato, uma ideia”. O termo se confunde com propaganda que consiste em “implantar, incluir uma ideia, uma crença na mente alheia” e, atualmente, ambos são usados sem distinção: Comercialmente falando, anunciar visa promover vendas e para vender é necessário, na maior parte dos casos, implantar na mente da massa uma ideia sobre o produto. Todavia em virtude da origem eclesiástica da palavra, muitos preferem usar publicidade, ao invés de propaganda; contudo hoje ambas as palavras são usadas indistintamente. (Sant’anna, 1996, p.75)
Ao justapor esses dois conceitos, percebemos que um faz parte do outro: a publicidade é uma forma de comunicação específica do campo da venda comercial. Existe ainda uma sucessão de níveis pelos quais o consumidor (receptor da mensagem publicitária) é captado: “o conhecimento da existência do produto, a compreensão de suas características e vantagens; a convicção racional ou emocional de seus benefícios e, finalmente, a ação que conduz a uma venda” (SANT’ANNA, 1996). Logo, a comunicação publicitária pode ser entendida como o ato de transmitir uma mensagem a fim de convencer o receptor para que, idealmente, este realize a compra de um produto ou serviço. Esse conceito é importante para a compreensão deste projeto uma vez que engloba tanto fenômenos da comunicação de massa quanto de outros tipos e, em específico, nosso objeto de estudo: a comunicação publicitária vernacular.
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Em Antropologia da Comunicação Visual, Canevacci (2001) amplia a visão sobre o papel da publicidade, para um entendimento de que atualmente ela extrapola seu caráter mercadológico sendo capaz de firmar-se como representação, sintetização e antecipação de tendências culturais e comportamentais. Isso denota o caráter científico da publicidade. Estudá-la faz-se necessário a partir do momento que nela encontramos “estilos de vida atuais, hierarquias de valores e modelos de comportamento”. O autor descreve o modelo comunicativo da publicidade da seguinte maneira: [...] resultado complexo de muitas linguagens parciais fundidas numa síntese suja [...] Com efeito, o emissor seleciona algumas linguagens entre outras, enquanto o destinatário traduz o todo com uma sensibilidade que varia com base naquelas características, próprias de cada camada de público, que se diferencia de possuir ou não os novos alfabetos visuais (CANEVACCI, 2001, p. 155)
Canevacci afirma que as linguagens parciais listadas por ele – montagem, sonora, verbal, corporal, cromática, gráfica e visual – são recebidas de maneira descentralizada e seletiva, devido à “multiplicidade de sinais presentes e do papel ativo da localização [...] em tensão com os processos de mundialização”. Seguindo o tema do livro, a pesquisa atém-se ao entendimento da comunicação visual, porém ao categorizar importantes elementos do jogo publicitário ele nos deixa uma teoria inclusiva dos fenômenos deste campo.
4.1.2 Suas principais mídias Figura 4: Tabela Kantar Ibope 2016
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A Kantar Ibope Mídia 2016 é a edição mais recente de uma pesquisa, realizada todos os anos, que revela o rendimento anual das principais mídias publicitárias. Segundo ela, a televisão segue sendo a mais rentável plataforma, concentrando mais de 70% do investimento, que em totalidade beira os R$130 milhões. O rádio, o jornal e a revista representam juntos cerca de 20%. Menos de 5% do bolo é composto pelas novas mídias digitais. O restante, equivalente a 2,2%, é representado pelos OOH, Out of Home, nome dado às mídias externas – como mobiliários urbanos e outdoors. Os números impedem qualquer tipo de contestação em relação a quem ocupa o cargo de principal mídia publicitária. Ainda que a televisão pertença a um patamar superior, todas as outras mídias também compõem o que chamaremos de Mídias Centrais da Publicidade. Sendo o nosso enfoque aqui o outro lado do espectro – as mídias que fogem desses conceitos tradicionais – usaremos o mesmo método de comparação usado por Antonio Lemes Guerra Junior, que define “Publicidade Marginal” em comparação à “Publicidade Central”: [...] Esboçamos a possibilidade de considerar a existência de um tipo de publicidade específico, susceptível, em virtude de suas características, a um processo de adjetivação que instituiria o seu status marginal. Com base nessas reflexões, foi possível construirmos a seguinte distinção inicial: a Publicidade Marginal seria aquela veiculada à margem das grandes mídias, por meio de recursos como panfletagem, exposição de placas e cartazes, locuções em lojas ou carros de som, entre outros suportes; já a Publicidade Central constituiria aquela veiculada nas grandes mídias, como a televisão, o rádio, a internet (em computadores e telefones), os jornais, as revistas, entre outras. (GUERRA, 2015, p. 63. ) [grifo nosso]
Assim, introduzimos essa distinção entre a Publicidade Marginal e a Publicidade Central para fins de delimitação teórica e para deixar claro as ferramentas publicitárias às quais dedicaremos mais espaço: as técnicas usadas pelos comerciantes informais. Apesar de díspares, pelo investimento necessário e por diversos outros fatores, existe, ainda segundo Guerra, uma diferença e uma semelhança básica entre os dois modelos: “são equivalentes, pois estão centradas no objetivo de persuadir, sua meta é o convencimento do consumidor. São diferentes, porém, devido à natureza de suas condições de produção e circulação, sensivelmente distintas”.
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4.2 As Mídias alternativas da Publicidade Para progredirmos é necessário definir o termo comunicação publicitária central, uma vez que, somente por meio da comparação conseguiremos obter uma formulação adequada para o que seria a comunicação alternativa. Atualmente a publicidade tradicional ou institucionalizada possui um modelo estruturado de funcionamento, baseado no consumo. Esse modelo é composto por uma rede organizada de elementos, parte da comunicação de massa, que segue determinado planejamento e possui o objetivo de estímulo ao consumo, atrelado ao domínio da economia capitalista. (FIABANE (2016) apud GOMES (2008), p. 4) Tomando o modelo citado como representativo da atividade publicitária central podemos caracterizar a ideia de sua versão alternativa. O fenômeno publicitário alternativo, conhecido também como vernacular, se mantém embasado na atividade comercial, porém acontece em esferas informais da economia, geralmente de baixa renda. As soluções comunicacionais nesse âmbito são atividades do próprio comerciante, que acumula funções em seu negócio. Oposta à publicidade central (GUERRA, 2015), a publicidade alternativa não é veiculada nos grandes meios de massa. A falta de acesso à televisão, ao rádio, ao impresso e ao digital dão lugar a formas econômicas, acessíveis e, em seu mérito, efetivas: panfletagens, locuções, cartazes, carros de som; sua mídia é o que tem à mão para preencher os espaços da cidade. Finizola (2010) ao referir-se ao design gráfico, define vernacular como um termo utilizado para descrever “artefatos autênticos da cultura de determinado local”, imputando assim o crucial aspecto cultural da expressão. Logo, é a linguagem urbana que constituirá essa publicidade alternativa/vernacular, já que ela não pode contar com os meios midiáticos tradicionais (FIABANE, 2016). É notável a proximidade entre o vernacular, o popular e o regional, como define Finizola (2010): são três situações culturais que envolvem vínculos a determinado território, classe social ou ausência de formação acadêmica. No caso da publicidade vernacular, a ausência de formação acadêmica, pertencimento a um determinado local e integração à atividade econômica cotidiana das classes sociais mais baixas. Assim conclui Fiabane (2016): “O que a publicidade vernacular e a publicidade oficial têm em comum é exclusivamente o objetivo de estimular o consumo de determinado produto ou serviço”. Antonio Lemes Guerra Júnior (2015) define ainda o termo Publicidade Marginal, ao analisar as manifestações publicitárias dos espaços e indivíduos marginalizados. Ele o define da seguinte forma: Publicidade veiculada à margem do grande circuito publicitário, de forma escrita/visual ou oral/sonora, marcada por relativa informalidade e simples caráter estético, decorrentes de um reduzido investimento técnico ou financeiro, para a divulgação de produtos direcionados a públicos específicos
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(de baixa renda ou consumidor de serviços eventuais), em ambientes igualmente recobertos por traços de marginalidade, não necessariamente periféricos. [grifo do autor]
Neste trabalho adotamos o termo Publicidade Alternativa, para englobar todas as manifestações caracterizadas como comunicação publicitária que sejam criadas fora do circuito central da publicidade, ligadas, não exclusivamente, ao mercado informal. Definimos no início deste capítulo quais seriam os meios que pertencem à Publicidade Central. Uma vez que a própria definição de “central” é baseada, primeiramente, na natureza do veículo em que acontece, é necessário definir seus opostos que são os chamados meios alternativos. Além das mídias exteriores, há a mídia alternativa, chamada também de mídia extensiva, caracterizada por peças instaladas em locais públicos, sendo dependentes de concorrência pública para suas exposições.[...] É mobiliário urbano toda mídia que não pertence ao meio de comunicação tradicional e à mídia exterior. (SILVA, 2007)
Essas mídias incluem panfletagem, locuções em lojas, carros de som, cartazes, pinturas, placas ou qualquer meio de comunicação usado com o intuito de influenciar e vender, que requer pouco investimento financeiro e técnico para se realizar – pois geralmente é feito pelo próprio comerciante. A publicidade alternativa, mesmo à margem dos grandes veículos, ainda encontra terreno para prosperar nos grandes centros urbanos brasileiros. Como toda forma de comunicação publicitária, ela se “alimenta de necessidades sociais” enquanto os indivíduos/consumidores se alimentam de “promessas materializadas em produtos”. Isso explicita seu intrínseco caráter comercial, apesar de surgir da exclusão socioeconômica do consumo de massa. É, acima de tudo, uma “publicidade de subsistência”, feita por aqueles que não conseguiram (ou não quiseram) adequarse à vida regida pelo mercado. A falência de um negócio se torna uma situação mais crítica quando em ambientes marginalizados, já que o anunciante “passa a depender da venda dos produtos que oferece, de forma crucial para (sobre)viver” (Guerra, 2015). Outro importante fator a ser abordado quando falamos de publicidade alternativa é o consumidor. Em suma, o consumidor é o receptor que pretende-se atingir por meio da mensagem publicitária; é quem comprará ou não o produto. Ao analisar o público que consome os produtos da informalidade – e portanto quem pretende-se atingir na publicidade de tais produtos – Guerra (2015) os define como “um público popular, geralmente de camadas sociais menos favorecidas, que mantêm contato com produtos e ambientes excluídos do repertório social da elite”. É a população comum, o brasileiro em busca do pertencimento dentro da sociedade pautada pelo consumo. Apesar de pertencerem, em grande maioria, à parcela com menos poder de consumo do país, essas pessoas conservam desejos, são capazes de analisar e comparar produtos e serviços e, mais importante, os compram, sempre dentro de suas possibilidades (GUERRA, 2015).
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Além do consumidor e do meio, o produto27 também tem um papel na caracterização da publicidade como alternativa. Este produto surge da necessidade – real ou social – de seu público e tem como característica um “caráter imitativo” das tendências de consumo da elite. São os produtos falsificados, cópias de versões mais bem produzidas, caras e, principalmente, os que simbolizam status (GUERRA, 2015), a fim de ressignificar e conceder valor a quem consome.
4.2.2. A publicidade e o espaço urbano
Combinando reflexões anteriores, conseguimos avançar no pensamento sobre a presença de expressões publicitárias no espaço urbano do Plano Piloto. Nesse momento, essas expressões publicitárias que interferem no espaço público serão representadas principalmente pelo outdoor e o mobiliário urbano. Considerando alguns elementos fundamentais para compreender essa combinação, como o potencial das perspectivas acerca da cidade, da rua e da sua relevância antropológica; ou as especificidades do espaço urbano brasiliense, graças às suas características urbanas e suas consequências, conseguimos, assim, oferecer perspectivas diferentes à realidade de Brasília. As consequências da junção desses dois elementos tão presentes no cotidiano, como a arquitetura e a publicidade, é reforçada por Di Monte e Pacheco (2006 apud SILVA, 2007): na atualidade, a arquitetura e a publicidade são os setores de maior contato direto com o homem nas ruas” e, portanto, são estes que em vez de trabalharem juntos, como na Europa em que exposições de cartazes são realizadas em praças com a ajuda de arquitetos e designers, no Brasil, estes são rivais, levando ao Estado problemas que somente diz respeito a eles, como o que os urbanistas alegam, a poluição visual causada pela publicidade, e não pela sociedade e “miopia” do governo para os problemas sociais diversos. (p. 20), [grifo do autor]
Os atores desse debate apresentam argumentos para os dois lados. Em Rachel Silva (2007), encontramos essas posições conflitivas. Pelo lado do urbanismo, Cândido Malta Campos Filho (2006 apud DI MONTE e PACHECO, 2006, p. 86), compara as mensagens com reproduções sonoras, afirmando que a cidade estava em uma gritaria que ninguém suportava. Dessa forma, concorda com arquiteto Jorge Wilheim (2000 apud SILVA, 2007, p.21): (...) a atual comunicação visual é extremamente caótica, com excesso de informações expostas que se sobrepõem, o que dificulta a compreensão das mensagens, resultando em um empobrecimento da paisagem urbana, em uma diminuição de sua função informativa e na geração de desarmonia e confusão psicológica do cidadão, bombardeado por esse excesso caótico de mensagens e apelos. “Os produtos são definidos como ‘qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial” (Guerra, 2015 cita Brasil, 1990) 27
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Silva ainda nos proporciona uma visualização do outro lado do espectro. Francesc Petit (2006 apud DI MONTE e PACHECO, 2006, p. 98) defende o outdoor, afirmando que é um veículo de impacto imediato, se bem redigido e com uma imagem criativa, e diz que: (...) a beleza e criatividade do outdoor são fatores fundamentais para ele não poluir a cidade, ao contrário embeleza e alegra as ruas e pode ser um fator cultural da cidade.
Por fim, encontramos o diretor e jornalista responsável do Jornal Propaganda e Marketing, Arnaldo Ferrentini (2006 apud DI MONTE e PACHECO, 2006, p. 103) – defensor da criatividade e da execução de qualidade como requisitos mínimos para a presença da publicidade na rua – diz que essas manifestações ornamentam São Paulo, ao mesmo tempo em que condena os anúncios mal feitos, dizendo que “o que deve ser combatido é a breguice, o mau gosto, o emporcalhamento do nosso campo visual”. Os quatro depoimentos levantam pontos importantes para a discussão, e embora sejam discordantes em certos momentos são concordantes em um aspecto: em nenhum momento a Publicidade Alternativa é considerada componente relevante do espaço urbano. Quando citada, é entendida como poluição visual, publicidade irregular, “degradação”. Publicitários e urbanistas se encontram quando assumem como necessidade básica a beleza, a criatividade e a boa execução, sob os conceitos acadêmicos já estabelecidos como Centrais. Dessa forma, acabam descartando cerca de 70% a 90% do que está nas ruas: publicidades irregulares e marginais. A desconsideração com esse tipo de produção é comum na academia. No entanto, sabemos que a valorização do vernacular é essencial, e o desdém com essas produções revela uma concepção míope do cotidiano. Assumir um universo dessa magnitude como poluição visual, num país tão diverso e desigual economicamente é rejeitar um traço de profunda identificação cultural com o Brasil. Em Brasília, o tombamento confere uma situação ainda mais delicada. A saída da marginalidade e a adequação ao que é aceito como regulamentado, como os outdoors, por exemplo, implicaria investimento irreal para os trabalhadores informais. Dessa forma, além da marginalização dos seus próprios anúncios publicitários, também acabam marginalizados socialmente. Resumidamente, não podemos admitir a ideia de que [a Publicidade Marginal] se trata de um modelo ineficiente de se fazer publicidade. O que se configura é apenas um campo diferenciado de atuação do discurso publicitário, que deve sempre se adequar aos reveses do universo social, sofrendo a ação de algumas condições específicas. (GUERRA, 2013)
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CAPÍTULO 5 – ESTUDO DE CASO: A PUBLICIDADE ALTERNATIVA DOS TRABALHADORES INFORMAIS DA QUADRA MODELO
5.1 Primeiras Impressões
O conhecimento prévio sobre a rotina da Quadra Modelo veio por meio da convivência na região, antes mesmo da decisão sobre o projeto. Nossas idas às quadras pré determinadas como recorte espacial para a pesquisa se intensificaram, e conseguimos comprovar algumas suspeitas que já tínhamos antes mesmo de nos aprofundarmos nesse contexto. O fato de ser original do início de Brasília – e ter sido destino de boa parte das primeiras famílias de imigrantes de várias partes do Brasil em 1960, principalmente do Rio de Janeiro, devido à transferência dos órgão públicos ligados à União – tornou possível o surgimento de características marcantes, que perduram até os dias de hoje. Entre elas está a alta média de idade da população que habita as quadras. As manhãs ao redor da Igrejinha são ideais para as caminhadas daqueles que moram ali. E é nesse contexto, de proximidade e convivência vicinal, que os habitantes entram em contato com os comerciantes de rua. Uma Unidade de Vizinhança tem como traço identitário os serviços públicos básicos do cotidiano. Alguns deles, como as escolas, tornam-se foco do comércio ambulante devido ao fluxo de pessoas, principalmente nos momentos finais das aulas. Para fins de organização deste estudo de caso, dividimos os comerciantes em três categorias, a partir da natureza de sua estrutura: móvel, desmontável ou fixa. A maior parte dos vendedores possui estruturas completamente móveis – de carrinhos de pipoca até caixas térmicas, levadas no ombro ou apoiadas também em carrinhos, para a venda de pamonhas ou de sacolé. Outros possuem estruturas físicas móveis, categorizada neste trabalho como desmontáveis. Tendas, varais, bancadas de madeira ou carretas são exemplos. Há, entre os comerciantes de estrutura desmontável, uma notável preferência pelo posicionamento na entrada das quadras, justificada pela visibilidade em meio ao fluxo de movimento. Por fim, aqueles que possuem estruturas físicas fixas, como pequenas construções de alvenaria ou estruturas semelhantes a um container – como costureiras, chaveiros, pequenas lanchonetes (cigarreiras) e vendedores de água de coco. Nossos primeiros contatos aconteceram a partir de rondas, realizadas com o propósito de verificar a maneira como se configurava o comércio de rua daquelas quadras e mapear os principais comerciantes, seus horários e posicionamento na quadra. Além da intenção de reservarmos um horário para entrevistá-los, o intuito também era se aproximar dessas pessoas, para que a entrevista fosse o menos burocrática possível.
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Em um momento inicial, era perceptível uma barreira quando percebiam que não estávamos ali para comprar. Era sensível a desconfiança, estimulada pela frequência de fiscalizações, às quais estão diariamente expostos. Após uma breve explicação sobre o projeto, a maioria dos entrevistados passou a demonstrar mais conforto com a situação. Uma das primeiras características percebidas foi o domínio que têm sobre os horários de sua clientela, indicando o momento de menor fluxo para que a entrevista fosse realizada. O contraste entre as histórias dessas pessoas foi motivador. Ora, se alguém está no mesmo ponto de venda há mais de 25 anos, outro iniciou suas vendas há apenas um mês. Um mesmo cenário para uma diversidade de atores, promovendo nuances excepcionais à pesquisa. Decidimos adotar o modelo de entrevista narrativa, em que fazemos o menor número de intervenções possíveis – somente quando é necessário reconduzir o tópico da fala. A proposta era simular uma conversa coloquial, para que os entrevistados se sentissem à vontade e contassem, com naturalidade, sobre sua jornada. Nosso maior objetivo era escutar e aprender com seus relatos, resgatando as memórias da quadra e de Brasília em geral. 5.2 Estrutura Fixa Dentro do Quadrilátero Modelo, identificamos quatorze comerciantes que se encaixam na categoria de estrutura fixa. A maioria oferece serviços que são viabilizados devido a essa permanência – as costureiras, os sapateiros, os chaveiros, as bancas, além das lanchonetes, do paneleiro e do vendedor de coco, modelaram seus empreendimentos levando em conta a infraestrutura necessária para a prestação de seu serviço. Em outras palavras, para que possam oferecer o conserto do sapato ou o coco gelado, foi necessário fixar-se em certo local e obter, gradualmente, equipamentos que melhorassem a qualidade do que vendem. Outra observação diz respeito à localização desses comerciantes. A maioria encontra-se concentrada na calçada entre a porta principal do Clube Vizinhança e a Igreja Nossa Senhora de Fátima, onde há maior fluxo pedonal. Os demais escolheram pontos estratégicos, nos vãos da comercial local ou cercanos à via W3, com o mesmo propósito de estar aonde passam as pessoas. Somente as bancas tiveram seu local preestabelecido – na entrada de cada superquadra – pelo planejamento da cidade, o que não os exclui da categoria de comerciantes informais.
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Ari, vendedor de coco, em frente ao Clube Vizinhança “Com dois milhões no bolso? Rapaz, eu ia investir bem! Ia virar o shopping do coco: o Cocomel Shopping!”
Logo com nosso primeiro entrevistado conseguimos confirmar uma das características do trabalho informal apresentadas por Kuyumjian em Brasília Informal e citadas por nós no capítulo 3.2. De família baiana, Ari faz parte daqueles que vieram pouco depois da inauguração de Brasília, em 1966. Seu pai veio ser servente e pedreiro das muitas obras que ainda aconteceram na cidade ao longo da década de 60. Ari é uma das vítimas da marginalização dos candangos e exclusão do centro da cidade após a conclusão da construção de Brasília. Nunca conseguiu estabilidade, sempre morando de aluguel em diversas cidades satélites. Apesar disso, Ari se apresentou como uma pessoa simpática e disponível para contar os detalhes do seu negócio. Desde o início, quando dividia o ponto com um ex-sócio cortando cocos em um toco de árvore até os dias de hoje já se passaram 25 anos. Hoje em dia já se sente estabilizado, “já passei a gostar daqui, já peguei amor por aqui”. Mas nem sempre foi assim. Desde o alcoolismo do ex-sócio, passando pelas fiscalizações da AGEFIS e pelas tentativas de fazer carreira em outros ramos, foram alguns percalços que fizeram Ari duvidar do futuro do Cocomel. Mas hoje em dia já consegue fazer planos de curto e médio prazo para a sua banquinha. Entre as mudanças prometidas, uma garantia: “Cocomel eu não mudo não!”. A criação do nome da banquinha é um dos momentos em que deixa evidente o orgulho que tem sobre tudo relacionado ao seu negócio. Rapaz, isso eu ouvia dos caras que me vendiam coco. Na época era o Luiz. [...] Ele e o pessoal dele diziam que tinha uma barraca no Guará que o cara só comprava coco doce, só coco com doce lá, aí eu fui e botei o nome aqui! Botei, registrei e tudo! Tá registrado! [...] Como firma, tá lá o nome: “Cocomel”. Coco selecionado! Eu digo que é o melhor coco do mundo!
A candura que foi presente no período da criação do nome se repete em outros momentos. Além da expansão do seu espaço físico – que depende da autorização da AGEFIS, que já causou alguns problemas no passado –, pintar a parte exterior da banquinha está entre os principais planos de Ari. Atualmente, o Cocomel tem faixas horizontais nas cores verde e amarelo, e Ari justifica o porquê da manutenção das cores: Pintar a gente pode. Eu quero pintar tudinho, já tenho até a tinta lá em casa. Mas vou deixar sempre verdinho e amarelo, que é a cor do Brasil e até mesmo que é área verde né, meu irmão, chama mais atenção pra quem vende essas coisas. [...] Eu to com ansiedade de mudar!
Ari demonstra muita clareza e coerência na lógica que usa para todos os tipos de relação, até mesmo quando o tema extrapola o Cocomel. O zelo com o
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visual da banquinha e a ciência das consequências positivas que isso pode causar é análoga à preocupação que tem sobre as relações que estabelece com os vizinhos. A banquinha não tem energia elétrica; a solução imediata para o problema seria uma ligação com o clube Vizinhança, que fica a poucos metros de distância. Contudo, essa relação já foi negada no passado e Ari prefere não insistir: “não quero ter rabo preso com ninguém.” A impressão de lisura que Ari deixava transparecer foi confirmada por André, antigo conhecido que chegou durante a entrevista, quando disse que “o irmão é um cara digno”. Ex-morador da 108 Sul, onde passou a infância, e atual residente do Jardim Botânico – cerca de 20 km de distância –, André chegou na banquinha por volta das 16h como de costume: sempre que possível, visita Ari e compra um coco para reviver os tempos de Asa Sul, que foi sua casa por tanto tempo. As relações de André comprovam a potência dos laços gerados no ambiente das superquadras: o vínculo com o espaço da superquadra ultrapassa as distâncias, assim como acontece na sua ligação com Ari. Além da influência da cultura de superquadras na criação desses vínculos, o próprio ambiente da banquinha é favorável para esse fim: a disposição de algumas mesas e cadeiras criam essa atmosfera de proximidade e informalidade. Se a energia elétrica não foi condicionada pelo clube, todo o resto da estrutura disponível foi conquistada graças à sua rede de contatos. Não esquece do advogado que ajudou no orçamento do piso, do professor que doou a cobertura, dos familiares que ajudaram a fazer o cercado de ferro: para superar os obstáculos do comércio de rua, é necessário manter boa relação com todos. Não há noção de concorrência com as outras banquinhas ao redor; durante a entrevista, Ari indica o comércio vizinho, que vende lanches. Sabe que seu ponto não tem um grande fluxo de pessoas, mas nem por isso desqualifica o Cocomel: Em São Paulo tinha um amigo meu, que ia pra lá levando uma carreta de abacaxi, e era rapidão [as vendas]! Diz que é muita gente. Tudo isso vai depender do local né. Mas esse local aqui é estratégico pra mim, é um negócio bem natural.
Dessa forma, Ari conduz o seu negócio. Usa sua personalidade e seu carisma como maior ferramenta de fidelização com os clientes. Sua preocupação com a qualidade dos produtos é evidente quando conta sobre a proximidade com os fornecedores. Segundo ele, “se não colocar coisa boa pra vender, vou ser desmascarado!”. A preocupação em investir no negócio e deixar o Cocomel sempre com uma boa aparência é uma das prioridades, mas que não vem acima da manutenção da boa relação de todos com ele e com o “o melhor coco do mundo”.
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Neri, sapateiro, na marquise da CLS 308 “Um cara que conserta calçados toda hora Deixa ele brilhando do jeito que o dono adora Esse cara sou eu Esse cara sou eu.”
Essas palavras pintadas artesanalmente numa superfície de madeira nos chamaram a atenção e nos fizeram abordar Neri. Diferentemente dos outros entrevistados, não tínhamos localizado sua sapataria na primeira ronda feita. Assim, não havíamos feito um primeiro contato nem marcado um melhor horário para entrevistá-lo; mas a surpresa ao encontrá-lo e a grande curiosidade despertada pelo seu anúncio foram suficiente para iniciarmos a conversa. Da mesma forma que fica por grande parte do tempo que está na sapataria, Neri ficou sentado o tempo todo. Não se incomodou com a nossa chegada e nem exibiu qualquer tipo de desconfiança. O grande efeito da nossa súbita chegada foi a pausa no preenchimento da Lotomania. De resto, Neri exibiu muito conforto e tranquilidade ao contar sua história, recheada de percalços e muitas dificuldades. Durante todo o tempo da pesquisa, não encontramos nenhuma manifestação publicitária tão singular quanto a de Neri. Entretanto, a sua história de vida conseguiu ter tanta relevância quanto a paródia da música de Roberto Carlos. Ao longo da entrevista, Neri demonstrou profundo conhecimento em diversos âmbitos: política, economia, religião, psicologia, sobre o mundo do trabalho. Acima das demonstrações de conhecimentos específicos, suas histórias eram de superação. Foi morador de rua por 10 anos, passou pela morte de um filho, trabalhou por muitos anos para que, agora, tenha algum tipo de estabilidade com o serviço de sapateiro. Já está no mesmo ponto há 35 anos, mas agora já define sua atividade como “hobby”. Além disso, mantém a sapataria viva porque sabe da importância daquele ponto em específico, para ele e para seu falecido amigo, o ex-proprietário da sapataria. O moço que ficava aqui frequentava a mesma comunidade que eu frequento como espírita. Aí ele ia parar, porque tava com problema de saúde. Ele ficava aqui, como sapateiro também. Ele sustentou uma família com esse ponto aqui. Os filhos dele se formaram[...] com esse trabalho aqui. Os filhos dele vinham aqui, ajudavam também… e ele criou uma família lindíssima, pessoal de intelecto, pessoal sabido, que trabalha, que não é metido no crime, nas drogas… E ele criou, deu educação através dessa banquinha. Essa banquinha tem muito mais… Pra mim ela tem 35 anos, pra ele ja tinha uns 20.
Ser comerciante de rua é motivo de orgulho para Neri. Além da relação de longa data com os moradores da quadra, faz questão de pregar o respeito por todos que trabalham em condições semelhantes a dele: “independentes” e sobreviventes da falta de oportunidades em empregos formais.
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Eles ficam ali no anonimato, jogado ali no canto mas são importantes. É a mesma coisa que essas prestadoras de serviço. Ninguém liga porque tá tudo varridinho aqui, tudo bacana. Passa uma semana pra você ver: fica tudo fedendo! Aí que você vê o valor que o lixeiro tem.
Neri não vê necessidades urgentes de investimento na sua sapataria. Caso ganhasse a Lotomania que estava preenchendo no início da entrevista, diz que faria caridade e ajudaria quem precisa de verdade. Seus princípios, principalmente a noção de solidariedade e de vida em comunidade, ficavam evidentes, o que certamente colaborou para a construção da sua credibilidade na quadra. – O chaveiro tá aí? – Saiu pra almoçar. – Posso deixar aí? É o pai da Vírginia, avisa pra ele. – É uma cópia só? – Uma cópia. – Passo pra ele assim que ele chegar.
A espontaneidade presente em todas as histórias de vida, mesmo quando dramáticas, é a mesma de quando conta sobre a criação da placa com a letra da música de Roberto Carlos. Tinha uma novela da Globo. Eu não sou nem de assistir novela mas como essa falava de um tema tão importante… [...] tava tratando de pessoas que estavam sendo escravizadas e sendo levadas para a prostituição. Salve Jorge. Aí na música, o Roberto Carlos botou uma música que aparecia no meio dos trem da novela. “Um cara que pensa em você toda hora...”. Então eu peguei a letra dessa música. Eu tava em casa e pensei “sabe que eu vou fazer uma sacanagem com essa música?” Ai eu fiz.... Aí peguei e montei essa frasezinha da música da novela. Aí de vez em quando vendem ingresso de jogo aqui na quadra né, fazem fila aqui. E aí eu ia até apagar a frase, porque tudo tem seu tempo né. Mas como a coisa foi tão bacana, em termos de publicidade, chegava alguém e dizia “não cara, não tira isso ai não”, ai eu deixei. Era uma brincadeira…
5.3 Estrutura Desmontável Os comerciantes de estrutura desmontável possuem estratégias únicas quando comparados às outras categorias. Há, ainda, uma necessidade de certa infraestrutura imóvel – mesas de plástico, tabuleiros e tendas – para o andamento do negócio. Apesar dessas estruturas serem mais simples que as de seus colegas fixos, esses comerciantes contam com a liberdade da escolha do ponto. Alguns deles, principalmente os fruteiros, montam seus pontos no Quadrilátero Modelo somente uma vez na semana; durante o restante dos dias comercializam seus produtos em outras quadras. A adaptação ao melhor horário e local acaba sendo a grande vantagem de ser desmontável.
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No local analisado nesta pesquisa, pudemos perceber que a escolha do ponto de venda dos comerciantes de estrutura desmontável era diferente dos demais – visam locais de fluxo pedonal intenso, porém não se aglomeram, preferindo as entradas das superquadras. Essa escolha se relaciona com o tipo de produto comercializado, uma vez que a maior parte pertencente a esta categoria vende alimentos in natura – ovos, frutas, verduras e legumes – geralmente comercializados nas primeiras horas da manhã. Os demais membros deste grupo consistem em um vendedor de cachorro-quente, uma vendedora de cosméticos, um vendedor de espelhos e uma vendedora de balas e doces.
Chiquinha, vendedora de cosméticos, em frente ao Clube Vizinhança “Eu já tenho até CNPJ, acha que eu sou boba?”
Duas mesas plásticas e vários produtos expostos sob a sombra da árvore, em frente à entrada do clube. Intenso fluxo de clientes – em sua maioria, já cientes que iriam encontrá-la ali –, as várias sacolas espalhadas com outros cosméticos que não conquistaram espaço nas mesas e todos os preços decorados, sem hesitar. Esse é o dia de folga de Chiquinha, responsável pelos serviços gerais do clube e, no tempo que resta, vendedora de cosméticos. Se a rotina do emprego fixo só disponibiliza a instalação das mesinhas na quinta-feira, nos outros dias encontra espaços na agenda e outros métodos para seguir com as vendas. Não existe lugar ou hora errada para vender. A vendedora quando é focada nunca sai sem nada na bolsa. Dentro do ônibus, a mulher tava “ah eu tava precisando de um batom da Mary Key”. Ele já tava na minha mão. [...] O vendedor tem que tá sempre atento. Se eu não tenho, eu vou trazer.
Assim como adapta seus momentos de venda, Chiquinha também adapta seus produtos. Além da variedade entre os próprios cosméticos e suas marcas, também vende Capital Cap (cartela de sorteio de prêmios) e faz recarga de celular. Oferece o pagamento com cartão de crédito e débito, além de cozinhar: “eu trabalhei 10 anos como cozinheira, sei fazer todo tipo de salgado”. A pluralidade de serviços combina também com as várias atividades que mantêm regularmente. Chiquinha encontra tempo para malhar, fazer pilates, estudar a sétima série do supletivo e ajudar na comunidade da igreja. Um currículo tão extenso é motivo de muito orgulho. Chiquinha é o retrato da versatilidade como característica fundamental para quem depende de renda extra, a partir do trabalho informal. Tanto no campo profissional quanto no pessoal, faz questão de demonstrar a sua determinação em melhorar sua condição de vida.
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Na fase que a gente tá hoje, na dificuldade que aumentou, por causa da crise que a gente tá... Muitas vezes, eu não tenho dinheiro pra comprar um remédio. Eu acho que as pessoas se acomodam, mas eu nunca me acomodei com nada.
Mas a variedade não é o único segredo de Chiquinha. No período da entrevista, tivemos a oportunidade de presenciar apenas uma parte da sua fiel clientela. Em vários outros pontos da cidade, a presença de compradores também é grande. Segundo ela, no cartório de Taguatinga, sua clientela chega a 250 mulheres. Tudo isso é graças ao “carisma e a vontade” e “ter humildade pra conversar com as pessoas”. Tantos fatores importantes combinados acabam justificando seu sucesso. O cartão de visita, que encomendou numa gráfica, é um outro mecanismo usado frequentemente por Chiquinha; é sempre distribuído para os novos clientes e garantem o contato facilitado: “quando elas querem, elas me ligam”. Em outras situações, a ligação nem se faz necessária. Chiquinha já prevê as necessidades da clientela, graças à individualidade e ao avançado nível de intimidade que já construiu com boa parte da clientela, que permite uma boa noção das suas preferências. Vou também no Banco Santander, onde é minha conta. Saio daqui na hora do almoço, nem almoço, chego lá, aviso que cheguei, já sei as cores que elas gostam, o que elas gostam e falo: – Tô com esse, esse e esse. – Ah era esse mesmo que eu queria! Você passa cartão? – Sim a maquininha tá aqui.
Clientela, sabedoria sobre os processos de venda, determinação de sobra e produtos de qualidade e sempre disponíveis. A experiência de Chiquinha já permite construir planos para o futuro, como vendedora. O CNPJ foi conquistado graças a amizade com um policial; assim, conseguiu se cadastrar como microempreendedora e possibilitou a oferta de pagamento em cartão. A loja já tem lugar e nome definidos: Fran Cosméticos e Acessórios, “porque eu vendo de tudo”. Contudo, se estabelecer como lojista no futuro não significa abandonar o passado. Quando eu for pra loja, não vai mudar nada. Tem minha afilhada que tá desempregada, eu vou botar ela pra trabalhar pra mim, lá na loja. E eu continuo aqui. To perto de me aposentar. E aí quando acontecer isso, eu fico aqui e ela fica lá.
Marinho, vendedor de orgânicos, na entrada da SQS 307 “Quando eu comecei aqui, era só uma tábua dessas.”
O cenário da entrevista com Marinho foi a sua feira de alimentos orgânicos na entrada da quadra. Imaginar aquele mesmo lugar, há cinco anos, com apenas uma mesa improvisada para apoiar as caixas de fruta foi um exercício de imaginação. Atualmente, a feirinha já oferece um espaço bem maior, com uma grande variedade de alimentos orgânicos.
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A gente tinha alguns fregueses, mas era bem pequeno. A gente começou conversando com o pessoal. Aí foi divulgando. O pessoal gostava do produto, no boca a boca ia espalhando também. De cinco anos pra cá, cresceu bem. Ai agora já tem mais variedade também.
Marinho é mais um exemplo dos vendedores de rua que acabaram exercendo essa atividade graças ao imponderável. Sempre trabalhou com plantação de alimentos, mas, no início, fazia parte do extremo oposto do universo que fomenta hoje em dia. Trabalhava numa plantação “convencional”, como ele mesmo diz, onde o uso de agrotóxico é a base do plantio. Mas outras oportunidades foram surgindo, até que começou a trabalhar no Ceasa, numa banquinha de orgânicos. Desde de então, se comprometeu com a venda dessa categoria de alimentos. A falta de intenção premeditada não tira seu envolvimento com a qualidade dos alimentos. Tem na qualidade dos produtos como principal elemento fidelizador, além da variedade de produtos. A gente tem que manter o padrão, pra atender o pessoal é importante. Aqui o pessoal não gosta de andar, tudo é longe. Não gosta de ir pra outra feira ou ir pra mercado pegar fila. O que a gente tenta melhorar aqui é só a qualidade mesmo.
Os anos de experiência de Marinho contribuem diretamente para o sucesso do seu negócio. No contato com os clientes que pudemos presenciar, demonstrou muito conhecimento sobre os produtos; a noção que possui sobre o mercado que atua era evidente. Essa credibilidade, junto com a sua habilidade de receber bem todos os clientes – apesar do movimento sempre intenso –, acabam tomando lugar de manifestações publicitárias. Marinho não tem nenhum elemento que pudesse ser considerado publicitário. A presença visual da própria banquinha, grande e logo na entrada da quadra, é o grande cartão de visitas da feirinha. Além disso, deixa a divulgação nas mãos da clientela fiel. Apesar de não ter uma grande margem de lucro, não vê necessidade em mudar o modus operandi que já mantém há cinco anos. A divulgação foi mais no boca a boca mesmo. Produto fresquinho sempre. O pessoal mesmo que divulga por aí. Convivência é de boa. Pessoal vem pra cá, conversa, troca receita. Quando a gente não vem, o pessoal sente falta. [...] O movimento no Ceasa era melhor. [...] Mas aqui eu acho melhor. Lá já tem gente demais. Lá nao dá tempo de conversar, muita correria.
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5.4 Estrutura Móvel A última categoria que identificamos diz respeito aos comerciantes que são, literalmente, ambulantes. Esses trabalhadores dependem do movimento e da circulação por uma grande área para vender, o que os torna mais propensos a utilizar qualquer técnica de comunicação publicitária – é necessário chamar a atenção de possíveis compradores. Sua condição de transitoriedade os obriga também a limitar sua gama de produtos. Dentre os vendedores móveis identificados no Quadrilátero Modelo, todos comercializam alimentos de pronto consumo. Pamonha, tapioca, suco, coco e “din din” (conhecido também como “sacolé”) foram os produtos mapeados durante a observação para esta pesquisa. Não obstante, esses profissionais compartilham características com seus colegas de outras categorias. Percebem as necessidades de cada local que passam e não deixam de lado a fidelização da clientela – fator de suma importância para todos os comerciantes analisados. Maikon, vendedor de pamonhas, entre a 108 Sul e 116 Sul Em uma de nossas caminhadas, sondando o Quadrilátero Modelo, por volta das 16h, fomos surpreendidos por um grito inconfundível: “OLHA A PAMONHA, OLHA A PAMONHA, OLHA A PAMO...NHA!”. A notícia da chegada da pamonha reverberava por todo o Quadrilátero. Sem pestanejar, corremos atrás do dono daquela voz: seu nome era Maikon, um jovem de 27 anos, vestindo uma camiseta verde e levando consigo uma caixa térmica acoplada a um carrinho de mão. Diferentemente da maioria dos entrevistados, Maikon não demonstrou desconfiança ao ser abordado por nós. Não demorou a contar-nos sua história. Logo nos primeiros minutos acompanhando-no em seu trajeto, percebemos que Maikon não era um simples vendedor de pamonha; mais parecia um deputado, cumprimentando quem passasse por ele. Foi perceptível já naquele momento o quanto era conhecido por ali. A popularidade de Maikon pode ser explicada pelo jeito que faz negócios, priorizando efusivamente o contato direto com seus clientes. Para ele, a maneira com que trata as pessoas é seu diferencial: Eu tô aí já vai completar três anos. Comigo já aconteceram várias coisas. Tem quadra que cliente...poxa...eu me sinto como se fosse filho de cliente. Tem cliente que me chama pra ir pro apartamento, conversa comigo, me oferece lanche...”Maikon pro que precisar pode contar comigo”.
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São necessários poucos minutos de caminhada ao lado de Maikon para perceber que sua estratégia funciona. Seu grito característico parecia invocar amigos – a maioria crianças – que o cumprimentavam com beijos e abraços. Em certo ponto conhecemos Penélope, seis anos, que fez questão de correr para os braços de seu amigo pamonheiro. Maikon afirma que situações como essa são frequentes. Pois é...meu orgulho...é ver uma criança dessas me abraçando, que nem me conhece...só de andar aqui, da convivência. Tipo assim, isso pra mim não tem preço. Igual umas menininhas que descem aqui, vem me abraçar. Faz o pai deles voltar, pra descer, pra vir dar uma abraço em mim. Tem algumas quadras que é mais...ali na 107 tem mais...tem um lá que quer ficar no meu colo, quero colocar ele no chão ele encurva a perna e nao quer ficar no chão...quer ir embora comigo. Então tipo assim pra mim isso nao tem preço...isso é uma coisa muito gratificante. Não tem preço, dinheiro nenhum que paga se eu ver as crianças me abraçando, brincando, conversando comigo. Tem uns que reclamam quando eu não passo...”porque você não passou hoje tio? Tava na janela te esperando mó tempão. Queria ver você tio. Cê tá bem? Vendeu tudo hoje?” Então é uma satisfação muito grande, um carinho...tem hora que dá vontade até de chorar.
Porém, nem todos por ali veem como positiva sua presença. Maikon narra episódios em que sofre agressões verbais e físicas por parte de uma moradora de uma das quadras, o que já lhe acarretou problemas com a polícia. [...] o policial veio “Ei rapaz...você fica fazendo barulho aí, tem morador falando que você tá enchendo o saco...que enchendo saco...eu falei eu sei até quem é...falou “não importa rapaz...se eu ouvir reclamação de novo aqui eu vou te levar pra polícia”...falei “é engraçado né...to trabalhando o senhor ta vindo aqui...o senhor tinha que ta correndo atras de vagabundo, que ta roubando, vendendo droga...”Cala boca que você tá me desrespeitando”... falei engraçado que a corda só arrebenta pro lado mais fraco...mas se o senhor quiser me levar preso, pode me levar...eu sou preto mesmo, sou pobre mesmo...não nego minhas origens não...só porque o senhor tá fardado…
Gostando ou não, o grito de Maikon é uma das formas mais efetivas de comunicação publicitária que vimos pelo Quadrilátero Modelo. Foi ele mesmo que o criou, após falhar na tentativa de copiar o mesmo grito do dono da pamonharia onde pega seu carregamento. Durante o tempo em que estivemos com Maikon pudemos presenciar moradores hostis à sua presença, aos gritos de “Tem gente querendo dormir”, mesmo antes das sete horas da noite. [...] aí eu queria imitar igual a ele, pra ver se chamava a atenção do povo pensando que era ele...”Olha a pamonha quentinha...pamonha de doce, de sal, temperada” aí quando acabasse assim...acabou a pamonha de sal...aí falava “Olha a pamonha de doce e temperada”...aí tipo ia acabando e ele ia excluindo. Aí uma vez eu tentei e não dei conta. Aí eu falei “vou inventar”. Na hora eu dei um gritão aí foi…
Em relação a concorrência, Maikon acredita que seja positiva. Ele conta que, no começo, sentia-se ameaçado e não gostava da presença de seus concorrentes – um casal que circula de carro pela mesma área. Porém, acredita que, atualmente, ambos possuam sua própria clientela fidelizada; e vê a cooperação como parte essencial da boa convivência.
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A concorrência...eu gosto. Ela tem a clientela dela, eu tenho a minha. Por exemplo, eu não vendo cural...alguém pergunta se tem cural eu vou lá nela, pego cural e vendo pra ela. Antes eu ficava com raiva...No começo eu ficava bufando de raiva. Mas espaço tem pra todo mundo, a quadra não é minha...o local é público.
Por mais que goste dos laços que construiu durante seu tempo como ambulante, Maikon tem grandes planos para o futuro. Ele considera seu trabalho algo temporário, necessário para ajudar a família – sua mãe tem câncer e seu pai é alcoólatra. Assim que puder, vai cursar Educação Física para retornar a seu ofício como professor de dança, o qual teve de abandonar devido a um atropelamento que sofreu, causando uma série de sequelas. Mesmo assim, Maikon continua esperançoso. Eu quero fazer Educação física, que eu mexo com dança...dou aula de dança. Eu quero fazer uma coisa que eu gosto, depois que eu fizer isso posso pensar numa coisa pra me dar dinheiro.
Maikon faz questão de frisar os benefícios da presença de seus amigos – moradores das quadras por onde passa – em sua vida. Em dia de chuva, pode contar com a solidariedade dos moradores, que chegam a emprestar roupas a ele. Outros o convidam para lanchar em suas casas ou pelo menos para tomar um copo d’água e um café. Após o episódio em que quase foi encaminhado à delegacia, um advogado ofereceu seu apoio irrestrito; outro morador da 309 está em busca de vagas de emprego para Maikon.
Tem gente que eu conheço, que eu convivo 24h...que não é tão gente boa quanto o pessoal [daqui]…
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CAPÍTULO 6 – CONCLUSÃO A objetividade esperada de uma entrevista é reiterada por uma das definições do termo segundo o Dicionário Michaelis: “reunião entre duas ou mais pessoas, em local determinado, com objetivo de esclarecer assuntos pendentes, expor ideias ou obter opiniões dos presentes”. Nossa escolha de como esclarecer tais assuntos pendentes – por meio de uma entrevista narrativa – já implicava diferenças em comparação com uma entrevista convencional e seu foco na busca pelas “opiniões dos presentes”. Os relatos que colhemos alcançaram uma profundidade ainda maior do que a esperada. Certamente, alguns fatores contribuíram para isso: além da estrutura natural da entrevista narrativa, usamos apenas um celular para o registro e dispensamos o uso de equipamentos mirabolantes, sendo possível oferecer mais conforto aos comerciantes de rua no momento da entrevista; nosso estudo prévio sobre a realidade do trabalho informal no Brasil e em Brasília nos forneceu uma boa noção do que iríamos encontrar; a grande maioria dos entrevistados eram eloquentes e se sentiram à vontade para esclarecer tudo que precisávamos. Mas, acima de tudo, a qualidade e quantidade de informações obtidas se deve à própria experiência de vida de todos: são pessoas especiais e batalhadoras, que se assemelham na quantidade de histórias para contar, tanto quanto possuem trajetórias individuais singulares. Cada um, ao seu modo, provou que a rua proporciona muito aprendizado. Só alcançamos um nível tão satisfatório de respostas graças a eles. Apesar de já prevermos surpresas, ficamos admirados com alguns detalhes vistos na prática. O principal deles foi constatar a sensação de cidade interiorana que Brasília oferece. De fato, as superquadras alcançaram o objetivo de Lucio Costa e o ar de “um grande quintal28” pretendido prevalece em boa parte do dia. A partir disso, os objetivos do trabalho foram, aos poucos, sendo alcançados. Conseguimos, por fim, investigar o tema com profundidade. Por exemplo no que deduzimos sobre a relação da arquitetura com o comércio informal. Antes, o desenho original do Plano Piloto e seu propósito de implantar a escala bucólica na parte central de Brasília era tido, por nós, como algo prejudicial, já que debilitaria o fluxo de pessoas, afetando negativamente o comércio de rua. Por outro lado, concluímos com a pesquisa de campo que esse fator não os prejudica e, ousamos dizer, contribui para seu sucesso, devido à facilidade de formação de laços sociais dentro desse contexto. O baixo fluxo de pessoas – inerente ao “bucólico” – foi comprovado e desvilanizado. Os comerciantes de rua quebram a rotina mansa das superquadras. A “Toda a área poderia ser apropriada como um imenso quintal, compartilhado por todos” (Cartilha do IPHAN) 28
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simples presença deles já desfaz a expectativa pré-estabelecida. Antes mesmo de alguma manifestação intencional e publicitária para vender seus produtos, estar ali já representa o acréscimo de algo novo no cenário da quadra; chamam a atenção simplesmente por estarem em um lugar, teoricamente, inesperado. Como definido no capítulo 4, a comunicação publicitária tem como objetivo fazer comprar. Para obter sucesso nessa empreitada é necessário que o anunciante esteja atento aos comportamentos e hábitos dos consumidores que desejam atingir. Logo, a hierarquização de prioridades ao estrategizar sua comunicação será baseada em uma necessidade comunicacional de primeira instância, definida pelo modelo de negócios proposto. É notável o acúmulo de conhecimento empírico por esses indivíduos. Um exemplo é a percepção de Ari sobre as cores de sua banca. Ele associa a cor de seu produto, o coco verde, a adjetivos como “natural” e “fresco” além de notar a harmonização com o ambiente que o cerca – uma extensa área verde. Isso denota a maneira como essas pessoas constroem conhecimento sobre os significados associados às cores, o que pode ser observado sobre outras práticas comunicacionais. Boa parte aposta na surpresa das pessoas, ao repará-los ali, como o convite para a compra. Esse fator é latente nos comerciantes de estrutura fixa ou desmontável; os comerciantes móveis – devido à estrutura de venda mais simples e, consequentemente, menos impacto visual, tem que recorrer a outras formas de chamar a atenção. Maikon, o vendedor de pamonha que entrevistamos, comprovou essa necessidade: para ele, depender apenas do visual não é suficiente, tendo que recorrer aos gritos para se fazer notar no espaço da quadra. Vemos, portanto, certo padrão: os vendedores móveis têm a necessidade de serem notados constantemente, já que transitam em uma diversidade de lugares. Utilizam-se de táticas sonoras para informar a possíveis clientes de sua presença, sobre qual é seu produto; visam a segunda função da comunicação publicitária, persuadir, ao criarem marcas sonoras que representem seu produto e a eles mesmos. Os comerciantes de estrutura fixa apostam em impacto visual; sua condição imóvel torna necessária a diferenciação de seu negócio frente a outras opções concorrentes. Por sua vez, os vendedores de estrutura desmontável apontam, primariamente, a importância de habilidades interpessoais na hora da venda – por exemplo, informar seu telefone de contato é comum, uma vez que circulam em uma multitude de locais ao longo de uma semana. Independentemente de qual categoria se encaixam, todos concordam que o atendimento é o fator de maior importância no sucesso de seus negócios – revertem o baixo fluxo de pedestres em uma experiência individual para cada cliente, situação análoga a tendências do setor de serviços, próprio do universo publicitário central. Enquanto a personalização se torna prática constante entre marcas de luxo, ela já
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estava presente nas pequenas ações promovidas pelos comerciantes informais. Seu empirismo, mesmo que marginal, consegue visualizar as necessidades de seu público, pertencente à esfera central do consumo. Essa afirmação encontra exemplos em situações como quando Maikon disponibiliza o número de seu telefone para os clientes, para que possam fazer encomendas ou pedir para que ele entregue o produto em suas casas. Isso não se difere muito de empresas que oferecem atendimento individual a cada cliente, e evidencia a habilidade desses vendedores em perceber e emular práticas mercadológicas com as quais seus clientes se identificam. Acontece uma ressignificação do produto informal, que passa a possuir certo valor agregado. Portanto, é possível afirmar que, dentro do Quadrilátero Modelo, esses comerciantes se apropriam e subvertem a lógica do central ao dialogar com os compradores. Brasília provou-se possuidora de características especiais que escapam das definições dadas pelo estudo feito por Antonio Lemes Guerra Junior. Guerra assume, em Publicidade Marginal: Funcionamento e efetividade argumentativa, que: O público consumidor marginal, basicamente, define-se como um público popular, geralmente de camadas sociais menos favorecidas (não apenas as miseráveis), que mantêm contato com produtos e ambientes excluídos do repertório social da elite. O rosto desse consumidor, na maior parte dos casos, é o da população comum, que compara preços, que pede desconto, o consumidor do “pague dois e leve três”, que diz “só estou dando uma olhadinha”, que participa de um quase-eterno movimento de busca de “pertencimento”. (GUERRA, 2013, p. 71)
Entretanto, a configuração do Plano Piloto cria contexto para outro tipo de “público consumidor marginal”: são pessoas de renda elevada, moradoras de regiões nobres da cidade. Em contrapartida, comprovamos que a maioria dos comerciantes de rua são de baixa renda. Logo, podemos concluir que existe um distanciamento social entre o comerciante e o cliente, diferentemente do que Guerra assume. Testemunhamos tal contato em situações excepcionais, que nos convenceram que é possível ir muito além da cordialidade e da diplomacia entre duas pessoas de diferentes grupos socioeconômicos. O momento da venda proporcionou a criação de laços de amizade, fator no qual a arquitetura brasiliense tem decisiva influência. Podemos concluir, portanto, que as quadras dificultam o fluxo de movimento frequente; por outro lado, oferecem uma moeda de troca valiosa: todos os entrevistados assumem que a proximidade com a clientela, proporcionada pela configuração da quadra, é algo que não seria sacrificado em nome de mais vendas e, consequentemente, mais renda. Não há sensação de prejuízo de estar nas quadras ao invés de outro ponto da cidade. Entretanto, o valor dos vínculos não é tido como mais importante que o lucro no final do mês – uma vez que o motivo de seu trabalho é justamente a subsistência. A escolha do Plano Piloto como ponto de venda não é um consenso entre os comerciantes. Enquanto alguns herdaram seu ofício e não tiveram muita escolha,
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como Ari e Neri, outros alegam que estão ali pelo ambiente favorável tanto econômica quanto relacionalmente. O verdureiro Marinho, por exemplo, tem consciência que o Ceasa29 seria um ponto mais interessante, devido ao movimento e o consequente maior lucro; entretanto, não abandona a entrada da SQS 307 em função da boa convivência vicinal – ele considera sua renda satisfatória. De todos os comerciantes que entrevistamos, Guilherme foi o mais objetivo neste ponto. Portoalegrense e vendedor de produtos de couro, disse que sua escolha pelo estacionamento da Igrejinha era estratégico, já que, segundo ele, quem mora ali tem dinheiro para gastar. A oportunidade de acompanhá-los in loco proporcionou uma aproximação do que é a vivência que acontece cotidianamente. Presenciamos amostras da realidade vivida por eles; momentos que provam a força dos vínculos criados com a vizinhança ao longo do tempo. Penélope, quando pula no colo de Maikon; André, quando se senta na banquinha de coco de Ari como se tivesse chegado em casa, mesmo tendo se mudado da quadra há um bom tempo. Todas essas demonstrações tiveram como catalisador a atmosfera das quadras e suas características marcantes de calmaria, silêncio e espírito de cidade interiorana. Alguns temas foram recorrentes em todas as entrevistas, como as dificuldades vividas por estarem em uma difícil condição financeira. Não há lamento; todos apostam no trabalho duro e na fé religiosa para não se deixar abalar com a desigualdade social. Contudo, uma frase dita por dois vendedores em momentos distintos, usando as exatas mesmas palavras, revela a infeliz realidade que é viver sob tais condições: “a corda sempre arrebenta pro lado mais fraco”. A reincidência da frase não pode ser tratada apenas como coincidência; a injustiça social é participante ativa da construção do cenário em que se encontra o trabalhador informal. Boa parte dos entrevistados lembra da fiscalização como o exemplo perfeito daquilo que os assombra no ambiente de trabalho; Ari, por exemplo, nos contou com detalhes dos dias que temeu pela aparição da AGEFIS e a provável destruição da sua estrutura à época recém construída. O fantasma da fiscalização foi além do medo constante dos vendedores e da desconfiança com que nos recebiam com frequência. Apesar de ter sido uma única ocorrência, não conseguimos conversar com um dos ambulantes encontrados no Quadrilátero Modelo, que preferiu “não comentar sobre o trabalho”. Deduzimos que tivesse pensando que fôssemos fiscais – mesmo que não aparentássemos sê-lo – pela rapidez na recusa em falar conosco. Além disso, destacam também a política e a religião como tópicos pertinentes a sua realidade. Da mesma forma que ressaltam a importância da fé e o quanto é fundamental na manutenção da esperança, não deixam de criticar a situação política e econômica. Ser a capital do país proporciona tal proximidade com o tema, frequentemente pautado como tópico de conversas informais desse tipo. 29
Centrais de Abastecimento do Distrito Federal
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Nesse ponto, verificamos algumas noções da antropologia específica da cidade, obtidas principalmente a partir da obra de Márcia de Melo Martins Kuyumjian. Em seu artigo Vivências cotidianas do trabalho (2001), Kuyumjian cita Paviani, que relata um sentimento corriqueiro entre os brasilienses: a esperança de obtenção de vantagens a partir de contato com os “figurões”. Na pesquisa de campo, testemunhamos duas situações distintas, mas que, ainda que discordantes, comprovam essa afirmação. Em sua entrevista, Neri fez críticas às maneiras de se conseguir empregos atualmente em Brasília. Segundo ele, “a elite repassa cargos”, o que representa a dificuldade de pessoas de baixa renda para conquistarem tais vagas. “Já tem o dono da vaga. O dono da vaga é o filho do deputado, do advogado, da elite… É carta marcada”. Se para Neri essa proximidade com o poder é nociva, Chiquinha conseguiu tirar proveito desse convívio com o poder. A conquista do seu CNPJ e, assim, a possibilidade de fazer seu negócio crescer, aconteceu graças ao contato com um amigo, funcionário da Polícia Militar de Brasília. Enquanto diversos fatores os aproximam, alguns pormenores provam que não é possível tratá-los de forma generalizada. A heterogeneidade desse grupo social vai além do tipo de produto ofertado ou das estratégias comunicacionais utilizadas. As diferentes histórias, necessidades e objetivos, ouvidas de uma pequena quantidade de entrevistados, comprova as nuances que esse universo contém. Se é do interesse dos agentes do poder público oferecer melhores condições para o convívio com os vendedores de rua, tratar a situação de forma míope e homogeneizadora não é a solução; a tentativa e o insucesso do Shopping Popular é prova desse cenário. Por fim, assim como no início desta conclusão, recorremos ao dicionário. O termo “ambulante”, tão presente ao longo deste trabalho, tem como uma das definições “que se locomove, anda ou está em posição de andamento”. O ponto chave do trabalho – as entrevistas – nos mostraram a resiliência que compartilham entre si. Em terreno adverso e sem nenhuma espécie de garantia, conseguem criar raízes e formar laços. Apesar de estarem inseridos em uma realidade urbana cambiante, fugaz e ambulante, se adaptam e provam seu valor. A verdade dos seus relatos nos revelou a dureza da vida real; a rua fala! O sucesso desses empreendedores informais foi comprovado. Teoricamente, quanto menor o orçamento para investir na produção dos anúncios, menor seria o alcance e, em consequência, menor seria a conversão em vendas, já que o públicoalvo seria dificilmente atingido. No lugar desse raciocínio, vimos muita dedicação, trabalho árduo e diário, superação de vários obstáculos, honestidade e qualidade dos produtos. Os vendedores de rua são fundamentais para a rotina do brasileiro e do brasiliense. Depois de todas as leituras e da pesquisa de campo, do envolvimento com a
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temática e com as pessoas entrevistadas, um trecho de Pamplona sintetiza tudo que vivenciamos nas ruas; um trecho que, para nós, é o mais irrestrito, universal e verdadeiro: “Nas grandes cidades brasileiras, o comércio de rua envolve diretamente uma quantidade de pessoas — vendedores e clientes — grande demais para ser ignorada.”
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ANEXOS Transcrição das entrevistas 1) ARI 0’ - 17’ Vamos voltar em 92. Eu cheguei aqui em 92. Eu sou da Bahia em Brasília; convivi desde criança. Vim com 10 anos. De lá pra cá, meu pai veio primeiro para trabalhar. Veio quase na construção, 65, 66 por aí. Deixou família la na Bahia. Seis filhos e veio pra cá. 11 dias pra chegar aqui. Veio de pau de arara. Aquele monte de menino deixou na Bahia, veio embora, deixou minha mãe lá e veio embora. Não lembro muito bem mas demorou um tempo pra ele mandar buscar minha mãe. Arrumou dinheiro. Veio ele e o primo dele, mas o primo dele desistiu na estrada. Depois de quatro dias pegando pau de arara, entrando em um e saindo em outro, aí diz que o primo dele desesperou. Adão o nome do primo do meu pai. Disse que esse lugar nao vai chegar nunca! Meu pai disse “não vou desistir nao, vou até o fim”. Ai meu pai veio embora. Diz que o primo do meu pai viu um caminho de volta, montou no caminhão e voltou. Mas meu pai continuou e veio embora. Chegou aqui começou a trabalhar de servente, passou a ser pedreiro e depois de um tempo mandou buscar minha mãe. Aí minha mãe veio com a minha irmã mais velha, e deixou mais cinco menino la com os meus avós lá. Dividiu os meninos! Eu morava na roça e os outros dois moravam na fazenda. E ai minha mãe veio com a minha irmã, que começou a trabalhar de babá, minha mãe de doméstica e meu pai de pedreiro. Três anos depois que minha mãe foi buscar o resto dos meninos lá. Quando minha mãe foi buscar, já tinha mais três irmãos nascidos aqui. Ai agora eram nove irmãos. Meu irmão já morreu, com 31. Mas aí que que acontece: chegou la grávida da minha irmã caçula. Minha mãe ficou lá uns seis meses e aí que veio com mais cinco. Eu e meus irmãos e meus primos; nove menino veio de lá, os menino e minha vó. Já tinha 10 anos. Trazia os menino menor no colo. E assim meu pai construiu a vida aqui. Meus irmãos tudo mora aqui. Em Brasília eu trabalhei de garimpo, corretar pedra.. (E onde é que vocês moravam nessa época?) Na QNH. Depois mudamos pra QNG e depois pra QND depois pra Ceilândia e depois pro P Sul. Parou lá. Mas eu ficava com dó do meu pai, com aquele monte de menino. Quando a gente mudava de um lugar pro outro, ele sofrendo pra caramba ali, e eu ficava com dó, só ali olhando, não podia fazer nada. Mas eu gostava de mudança.
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Quando mora de aluguel não dá pra ficar num lugar só, tinha que seguir mudando né. Eu ficava com dó dele mas eu gostava.
Mas meu pai trabalhou um tempão, começamos a trabalhar, vai levando vai levando, mas quando eu vim pra cá, eu ja tinha 31. To com 56. Meu pai, depois de trabalhar de pedreiro, começou a trabalhar pro governo, era guarda noturno aqui na biblioteca. Trabalhava um dia sim um dia nao, e ai ele tomava água de coco aqui. Eu acho que ele vinha tomar água de coco aqui com um rapaz, o Chiquinho, que era o dono daqui. Aí meu pai disse que esse Chiquinho ele queria um sócio pra cá. Ai meu pai disse: “vou trazer um pra se associar contigo”. Aí trouxe eu. “Quer ir pra lá arrumar um trabalho lá, com um camarada que vende uns cocos la? Ta querendo um sócio.” Pensei: “irmão, não tenho dinheiro…”. Meu pai meu emprestou um dinheiro pra virar sócio, pagou umas dividas que ele tinha, aí fiquei de sócio com ele. Mas ele bebia demais. Saia de manhãzinha, chegava uma hora dessa tava bebão, caindo. Chegava e dividia o dinheiro. O côco ficava no chão. Quando chegava a tarde, a gente guardava o côco ali no quiosque do Anísio e a caixa de isopor aqui no bloco. E aí ele chegava aqui tomadão, ai ele começou a reclamar que o dinheiro tava pouco, “cadê o dinheiro….”. Aí eu disse: “você lembra que você trabalhava aqui sozinho, o dinheiro ficava só pra você, mas agora você tem que dividir, o dinheiro é pra dois!” “É verdade, é verdade...” “Pois é, você tem que dividir o dinheiro pra dois. Quando você trabalhava sozinho, o dinheiro era só seu, agora to vendendo aqui. Você sai de manhã chega a tarde bêbado e quer o dinheiro todo? Não! Você vai ter que dividir comigo, nós somos sócios!” Aí ele concordou… Aí toda vez que ele chegava, chegava meio bravo. Bebão, né? E achava que o dinheiro era pouco… claro! O cara tinha que dividir pra dois. Tinha que comprar as coisas tudinho pra cá, ai ele pensava que os menino aqui tava roubando. Não, os menino nao tavam roubando nada não! O dinheiro era pouco mesmo, você tá trabalhando agora com um sócio, tem que dividir comigo. Eu almoço todo dia, você leva o dinheiro, bebe cachaça. Se bem que nem ganhava essas coisas também não, era mixaria. Era de vez em quando que o pessoal aparecia. A gente ficava no meio do tempo aqui né? A chuva aqui, quando chegava junho, nao vendia nada. (Atrapalhava o movimento, né?) É… Aí chegou um dia que ele ficou meio bravo. Disse “não vai dar pra gente ficar de sócio nao”. Ai eu disse “então tá. Quem arrumar o dinheiro primeiro compra a parte do outro, já que voce nao quer mais sócio né…”. Rapaz, quando eu cheguei lá em casa, falei “pai arruma uma grana pra mim ai, pra pegar minha parte lá. Aquele cara
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bebe de cachaça e tá nervoso, dizendo que o dinheiro tá pouco…”. Aíi meu pai pegou com vizinho emprestado, agiota até! Mas era amigo dele do trabalho, emprestou pra ele. Foi duzentos cruzeiros.
[...] Seu Itamar deu aquele pacotao de dinheiro pro meu pai. Deu duzentos! Nao sei nem quanto valia hoje. [...] Quando eu comprei, cheguei com um pacote de dinheiro. [...] “Era pra mim mesmo” Antes disso tudo, o fiscal já tinha chegado aqui e mandado arrancar tudo. Tinha o gradeado que tinha a caixa de isopor e o côco. Chegou a japonesa, que era a fiscal, todo mundo tinha medo dela. Chegou aqui um dia, olhou aqui e perguntou “quem mandou você colocar esse negócio aqui? Você sabe que nao pode, aqui é area verde!”. Isso foi antes do Chiquinho passar isso aqui pro meu nome. Foi quando ele cresceu o olho e viu que eu tava transformando isso aqui num negócio. Dia seguinte nao veio ninguém! Só veio a advertência, e aí o Cristóvão chamou a gente pra legalizar isso aqui. Deu o documento pra ocupar a área. 17’ Quando eu cheguei aqui, eu tinha medo do presidente do clube… 18’17 De repente, o caminhão de lixo do Russo começou a recolher os côcos também. Foi ai que eu vi que o negocio tava melhorando. Ai foi acabando o medo! Foi estabilizando, pagando uma taxa… 19’ Ai o Arruda legalizou os quiosques, mas vacilou e foi preso. O cara tinha brasilia na mão! O Arruda não foi ruim pra gente nao. 19’40 “Só saio daqui quando deus quiser”. 20’40 Trabalhei de corretor de esmeralda; tentei trabalhar de vendedor em Brasília mas me rejeitaram., Não deram credibilidade nenhuma. Ja trabalhei de tudo que você imaginar aqui em Brasília.
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21’30 Abusei do lugar, deixei com a Maria José, com o menino que lava carro…
Depois de tudo, acabava voltando pra cá! Muitas idas e vindas. “Eu tenho que tá aqui mesmo” 22’50 “Prego a palavra de deus” ... passei por muitas provações. 23’20 O professor me deu a cobertura, um advogado fez o orçamento pra fazer o piso 24’10 Eu cortava côco no toco 25’40 O dinheiro do garimpo parecia que era amaldiçoado 26’ Trabalhei em lanchonete, fiquei gordo 26’30 Aqui tem coisa pra melhorar, em nome de Jesus um dia eu quero melhorar. Eu queria um balcãozinho. Fazer dos lados aqui, é a minha intençao… Não tem energia… Boto no gelo. Mas futuramente se for da permissão de deus, vou fazer melhorar. Estabilizou pelo fato de ter uma ordem do gdf de nao poder fazer nada enquanto nao legalizar tudo. Pintar a gente pode. Eu quero pintar tudinho, já tenho até a tinta lá em casa. Mas vou deixar sempre verdinho e amarelo, que é a cor do Brasil e mesmo que é area verde né meu irmão, chama mais atenção pra quem vende essas coisas. (Como foi pra pintar isso aqui?) Eu mesmo pintando! Eu mesmo faço as pinturas ai. Eu tenho que manter a área verde. Os balcãozinho quero fazer mais alto, pra fora. Vai ficar muito bonito. Rapaz, eu tenho vontade de arrumar tudo direitinho, dar uma melhorada, só to esperando a oportunidade. Por enquanto nao ta dando certo.
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(Falando isso da pra ver que você tá preocupado com a aparência disso tudo...) O que eu to mais preocupado é com isso aqui. Tem hora que me dá até tristeza. “Ô meu deus queria tanto alargar mais um pouco, deixar aquela coisa bem bonita né. Pra ficar mais assiado(?). Eu demorei demais pra pintar isso aqui. Por causa de dívida. Rapaz eu vinha da feira da ceilândia. 29’ Começo das compras… Abacaxi, ceasa, frete… Aprendendo sobre o fornecimento. 29’30 Minha escassez maior é porque eu comprei um carro. 30’24 Eu to com ansiedade de mudar! (Só não pode mudar o nome né?) Cocomel eu não mudo nao! Rapaz, isso eu ouvia dos caras que me vendiam coco na época era o luiz, morreu até, e ele me vendia um coco. Ele e o pessoal dele diziam que tinha uma barraca no Guará que o cara só comprava côco doce, só côco com doce lá, aí eu fui e botei o nome aqui! Botei, registrei e tudo! Tá registrado!!! No microempreendedor. Como firma, ta la o nome “cocomel” Coco selecionado! Eu digo que é o melhor côco do mundo! Mudar a estrutura quando a grana aliviar. Não quero mudar, não quero sair da regra que eles tem. O que eu puder fazer… ainda tenho que pagar o que eu tenho atrasado com eles. Vou passar pelo estreito! 32’40 (Você nem pensa nem em ir pra outro lugar né? Não faz nem sentido!) A questão aqui, irmão, é que eu não tenho mais isso nao. Até meus 40 eu corria atrás, de um lado pro outro. Mas quando eu vi que tudo indicava e voltava pra cá, eu resolvi parar. Hoje eu tô com 56, eu não duvido que eu não vá conseguir outras coisas, eu sou baseado nas escrituras eu sei que tudo tem um tempo. Mas aqui pra mim tá bom. Eu já passei a gostar daqui, já peguei amor por aqui. 34’10 Já tem clientela, os meninos do colégio aqui, amanhã é dia de ter um bocado de
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menino aqui. Do mesmo jeito que eu comecei, tá igual. Os grandão vão embora mas continua tendo outros aqui. Fazem bagunça…
35’ Aí dentro do clube tem gente que vende côco também. Quando eu cheguei, já tinha gente que vendia ai dentro do clube. Não dá problema porque o dia que eles vendem no clube é sábado e domingo. O cara que vendia lá dentro comprava na minha mão. 36’10 No começo eu trabalhava sábado e domingo. Já vendi 300 cocos num fim de semana. 36’40 Já tenho fornecedor fixo. Já escolhe pra mim direitinho “é o cocomel!” 37’40 [Noções de mercado; melancia.] 39’ Aqui o pessoal vai comer na hora, meu irmão. Vou ser desmacarado na hora (se nao colocar coisa boa pra vender) 39’30 Os caras indicam no fornecimento; [Confiança no produto] 41’ Se chegar cliente perguntando se a melancia tá boa e nao tiver, eu digo que não tá. 42’ Eu quero coisas que sejam vendáveis. Ai eu coloco ai na frente. E coisa que vende! (caso da pêta) 45’ Cada um vende uma coisa. Tem que ter harmonia. 46’ Lugares mais movimentos? Não sei se seria o mesmo produto assim, mas no setor
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comercial, taguatinga centro, ceilândia centro… onde tem movimento de gente. O movimento aqui não anda disparadamente não, não é toda hora não. Tem hora que fecha a bancada aqui de tanta gente. Não é aquele movimento de toda hora. De manhã passa, de tarde volta. Não é o dia todo que nem o setor comercial. Setor comercial é que nem formiga! É gente que passa toda hora. Bebe água, come doce, come sanduíche. Agora você tem que ter a visão do produto que vende nesses lugares. O que você poderia vender. No meu caso, eu to vendendo isso aqui porque tem clube e academia. Tem a ver. Coloco água de coco, melancia, fruta natural, pessoal gosta. 47:50’ (Brasília tem essa coisa de nao ter esse movimento forte toda hora) É, não é que nem São Paulo. Diz que São Paulo tem um amigo meu que ia pra lá levando uma carreta de abacaxi, era rapidão! Diz que é muita gente. Tudo isso vai depender do local ne. Esse local aqui é estratégico pra mim, é um negócio bem natural. Se eu colocar uma açaí aqui, arrebenta! Mas não tem energia… Tem que ter um lugar mais preparado. Um caldo de cana é meu sonho… [Energia…. Ceb….] Tinha que ser gratuito! 100 reais… o minimo…. Transporte publico tinha que ser gratuito… 52’ [A midia… a internet ] 54’ Deus alegra meu coração… 54’30 André chega Conheço ele desde os 17 Morei a vida inteira aqui, fui professor de judo aqui. Nascido e criado…
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58’ [Cultura de quadra… Malandragem.... Amizade debaixo de bloco]
59’20” [Pilotis] 1:02’ Tudo girava no bloco F, Renato Russo… [Politicagem do clube….] 1:04’40” Complicações nas relações na quadra: o cara do vizinhança que nao queria dar energia pro irmao. 1:06’00” Malafaia… ajuda corrompida, propina. “Por isso que eu não peço nada a ele” 1’08 O advogado que ajudou a fazer o piso nunca cobrou nada! 1:08’40” Não quero ter rabo preso com ninguém! 1h16 … com dois milhoes no bolso, fazia o que ari? Rapaz, eu ia investir bem! Ia virar o shopping do coco! Cocomel shopping! 1h19’ [André contando de quando vendeu jornal] 1:20’50” “olha ai o correioooo” 1:22’30” Fui um cara que curti a asa sul.
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1:25 Shopping popular 1:26:30 Não tem nem lógica mudar de lugar rouba milhoes mas nao ajuda as pessoas que querem trabalhar 1:27:10 Legalização do trabalho informal 1:33:00 Só o pobre pé de chinelo que vai preso. A corda só arrebenta pro lado do mais fraco. 1:34:22 Irmaozinho é digno. 2) NERI 0’ É quase um trabalho artesanal que tá pra se extinguir com o passar do tempo. A crise e tudo isso ajuda. Mas eu mantenho mais por questão de hobby. Não é nem por padrão financeiro. Um ser humano que fosse viver só disso aqui nao conseguiria nao. 51” (E o senhor já viveu só disso?) Não, isso aqui era só um complemento. Eu trabalhava de segurança. Aí pra criar renda, eu passei a trabalhar com isso. 01’10” (E como foi lá no começo? 35 anos atrás…) Meu pai morava lá no Guará e um amigo dele trabalhava com isso. À noite ele guardava as ferramentas lá em casa. Ai eu gostei, comecei a lixar sapato com ele, a engraxar, a passar a tinta, fazer pintura. Aí eu aprendi, acabou acontecendo. 01’55” Inclusive, eu tenho meus filhos hoje e eu falo pra eles: essas funções assim, pintor
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engraxate, sapateiro, chaveiro… São funções coadjuvantes porque pra você entrar hoje nessas empresas, ainda mais no desemprego que tá, são funções que você pode exercer independente de governo. É independente! 02’29” Pra você atravessar um período de crise! Porque hoje, a rotatividade no campo do trabalho tá muito grande. Eles falam ai em aposentadoria em 30, 40 anos de serviço como? Numa rotatividade dessas, tudo hoje é rotativo. Você já vai ficando muito antigo lá. Daqui uns dias ele não entra mais no mercado de trabalho. Então ele vai ser descartado, vai ficar esperando 65 anos pra se aposentar? Não dá. 03’15” Esse negócio de aposentadoria, isso aí é uma sacanagem do governo. Porque com essa rotatividade no campo do trabalho ninguém fica nem 10 anos trabalhando de carteira assinada. 03’42” (Aprendeu o ofício da parada e aí, como foi o passo adiante?) Eu comecei a montar minhas ferramentas, porque ele era alcoólatra. E comecei a trabalhar com isso, até antes de entrar no exército. Não tinha um posto fixo, era ambulante. Aí trabalhava assim ambulante, de porta em porta e isso é chamativo. Porque isso aqui, tipo encanador, ele pode ficar ali embaixo de uma árvore ali, coloca a placa ali encanador ou sapateiro daqui a pouco neguinho chega porque todo mundo quer ter o sapato bem arrumado, quer reformar sem comprar um novo, tem gente que prefere um sapato velho do que um novo… 05’20 (Essas pessoas são fundamentais! Foi isso que a gente percebeu…) É! Eles ficam ali no anonimato, jogado ali no canto mas são importante. É a mesma coisa que essas prestadoras de serviço. Ninguém liga porque ta tudo varridinho aqui, tudo bacana. Passa uma semana pra você ver! Fica tudo fedendo! Aí que você vê o valor que o lixeiro tem. 06’10” Passa o dia no sol quente pra ganhar um salário. E tem gente que menospreza e “ah, isso é só lixeiro, gari, sapateiro”. Mas não tem nada disso. O foco tem que ser pro outro lado. Todo mundo é único, a sociedade é uma peça de encaixe.
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07’ [Educação dos filhos, tem que estudar, tá dificil…] 07’45” Quem é pobre, com muita luta, uma minoria consegue entrar nesse meio, nessa caixinha apertada. O pobre fica até a oitava série na marra. Depois daí, ele pára porque o estado não fornece condiçõees e os pais também nao tem condicao de patrocinar. 08’44’’ “tamo aqui precisando de auxiliar administrativo” mas ja tem o dono da vaga que é o filho do deputado fulano. 09”40 A política é essa sacanagem. País corrupto… 11’’ (Mas e essa placa aqui, foi você que pintou essa placa aqui?) Fui eu. Há muito tempo atrás… Acho que todo mundo tem um dom, seja no campo profissional, na literatura, na música… Eu, quando era pequeno, quando tinha uns 7 anos, já fazia música, já escrevia sobre problemas sociais, sobre poesia. Então, tinha uma novela da Globo. Eu não sou nem de assistir novela mas como essa falava de um tema tão importante... Quando a coisa não tem bestialidade no meio eu vejo. Futilidade você deleta. Na Globo tava tendo essa novela. Ela começou com um índice bom de audiência e tava tratando um tema bom, de pessoas que estavam sendo escravizadas e sendo levadas para a prostituição. Salve Jorge. Aí na música, o Roberto Carlos botou uma música que aparecia no meio dos trem da novela. “Um cara que pensa em você toda hora...”. Então eu peguei a letra dessa música. Eu tava em casa e pensei “sabe que eu vou fazer uma sacanagem com essa música?” Ai eu fiz.... Ai peguei e montei essa frasezinha da musica da novela. Ai de vez em quanto eles vendem ingresso de jogo aqui na quadra né. Aí eles fazem fila aqui. E aí eu ia até apagar a frase, porque tudo tem seu tempo né. Mas como a coisa foi tão bacana, em termos de publicidade, chegava alguém e dizia “não cara, não tira isso ai não”, ai eu deixei. Era uma brincadeira, uma coisa… 14’25 (E esse ponto aqui, como que surgiu?)
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Esse ponto aqui. O moço que ficava aqui frequentava a mesma comunidade que eu frequento como espírita. Aí ele ia parar, porque tava com problema de saúde. Ele ficava aqui, como sapateiro também. Ele sustentou uma família com esse ponto aqui. Os filhos dele se formaram… O Edgar! Com esse trabalho aqui. Os filhos dele vinham aqui, ajudavam também… e ele criou uma família lindíssima, pessoal de intelecto, pessoal sabido, que trabalha, que não é metido no crime, nas drogas… E ele criou, deu educação através dessa banquinha. Essa banquinha tem muito mais… Pra mim ela tem 35 anos, pra ele ja tinha uns 20… 15’40 Antes eu trabalhava como segurança, fiz um curso, trabalhava armado… 16’50 Eles pegam esse povo mais humilde que não é formado nessa área e repassa o conhecimento. [Convivência no hospital como segurança…] 17’30 O chaveiro tá aí? Saiu pra almoçar. Posso deixar aí? É o pai da Vírginia, avisa pra ele. É uma cópia só? Uma cópia. Passo pra ele assim que ele chegar. Ok. Daqui a pouco eu passo e pego. 20’ Morei 10 anos na rua… Conheço esse mundão todo ai. Barra pesada. Meu pai vendeu a casa do Guará. Morei na rua. Servi o exercito. Rua....
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Um faz um turno, outro faz o outro... 24’20 Hoje em dia eu fui um cara milionário! Hoje eu tenho casa carro meu trabalho. Eu tô aposentado mas eu trabalhei 17 anos ai nos órgãos no governo. 27’ Senhora entrega o sapato e deixa sacolinhas pra ajudar na entrega dos sapatos. Rede de colaboradores, moradores por perto, retribuiçao, ajuda... 3) MARINHO O começo: eu comecei trabalhando com o rapaz lá da fazenda, porque fazia o frete pra ele. Ele tinha uma banca lá no ceasa. Lá no ceasa vendia bem. Há uns oito anos atrás. Ai eu ajudando ele, ele vendeu a banca e eu continuei ajudando mesmo assim. Eu já tinha mais conhecimento. As vendas tavam meio devagar. Começou aqui era só uma tábua dessas aqui. Eu trabalhava com ele lá. Ai a gente começou aqui, onde ele já fazia uma feirinha. A gente tinha alguns fregueses, mas era bem pequeno. A gente começou conversando com o pessoal. Aí foi divulgando mesmo. O pessoal gostava do produto, no boca a boca ia espalhando também. De cinco anos pra cá, cresceu bem. Ai agora já tem mais variedade também. Tomate era difícil, nem achava pra comprar. E pra plantar também é difícil. Depois que eu saí da fazenda lá, arrendei um outro espaço e ai tenho uns parceiros também que ajudam a gente também. A gente compra de outros fornecedores. Tudo orgânico. A gente cresceu muito em Brasília, o pessoal procura mais e é mais acessível (os produtos orgânicos). Antes era caro, bem mais caro. Hoje tem algumas coisas caras, principalmente fruta, porque vem de fora. A gente faz uma feirinha na 3 também. O melhor mesmo é vir na quarta e no sábado. Nos outros dias, a gente dedica na roça, arrumando as coisas pra fazer a feira. Tem época que é só gasto, agora nessa época tá fraco. Mas a gente tem que manter, não pode desistir. Acaba investindo mais também. Tem que girar. A gente investe, às
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vezes perde, as vezes nao dá. Tem planta que não nasce, quando vai colher não tá bom. É um trem complicado. Trabalhou mais tempo com convencional, que usa agrotóxico. Sempre envolvido com isso, mas nunca com área de vendas. Cada quadra dessa aqui tem uma ferinha. A fazenda é em Alexânia, a gente vem só duas vezes por semana porque mais que isso fica muito. Temos outros fornecedores de outros produtos pra manter a variedade. A gente tem que manter o padrão, pra atender o pessoal é importante. Aqui o pessoal nao gosta de andar, tudo é longe. Nao gosta de ir pra outra feira ou ir pra mercado pegar fila. Então eles acharem tudo num lugar só…. A divulgação foi mais no boca a boca mesmo. Fresquinho sempre. O pessoal mesmo que divulga por aí. Pra melhorar aqui não tem como, não pode passar do que pode aqui. O que a gente tenta melhorar aqui é só a qualidade mesmo. Convivência é de boa. Pessoal vem pra cá, conversa. Troca receita. Quando a gente nao vem aqui, o pessoal sente falta. O movimento no ceasa era melhor. No sábado, era muita banca. Aqui eu acho melhor. Lá já tem gente demais. Lá não dá tempo de conversar, muita correria. Às vezes você nem grava o rosto da pessoa, é sempre muito rápido. Tinha gente que comprava lá muito tempo, mas olhava assim e nem sabia quem era. Pessoal gostou que eu vim pra cá porque não precisa tirar o carro da garagem pra comprar as coisas. 4) MAIKON AUDIO 1 00:00’01” Olha a pamonha, olha a pamonha, olha a pamo...nha! Eu vou completar 28 [anos] (como você começou?) Eu comecei pq eu fui mandando embora da empresa onde eu trabalhava…[inaudível] prestava serviço pra câmara do deputados e essa empresa perdeu a licitação. Eu era feirista e todos os feiristas foram mandados embora. Eu até tava encostado pela empresa pq eu tenho um problema de tornozelo, que os meus dois tornozelos viram...eu andando normal. Os ligamentos do meu tornozelo são rompidos. Tem vezes que eu não consigo fazer nada…Oi minha princesa, tudo bom? 00:01’30” Aí nesse período eu fui mandando embora...e as coisas foram apertando em casa eu tinha que ajudar minha mãe, meu pai...de qualquer forma eu tinha que ajudar eles.
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Aí um colega meu que é dono da fábrica me sugeriu começar a vir e vender pamonha, a primeira vez. Vim umas três vezes com ele e no começo eu fiquei com vergonha... com vergonha não, mas acanhado porque não sabia como que lidava com esse negócio de ter que sair gritando no meio da rua 00:02’02” Eu não tenho condições de comprar um carro no momento. Então eu tinha que sair gritando igual ele no meio da rua. E ele é o dono da fábrica e trabalha até hoje, pra tu ver. E era doloroso ver, tipo assim, alguma coisa em casa e tu não poder ajudar. Doía muito então eu pensava “tem que trabalhar, tem que trabalhar… 00:02’30” Deixa eu parar aqui. OLHA A PAMONHA OLHA PAMONHA OLHA A PAMO...NHA. E aí meu rei? [espera aí embaixo] Oi? Tá bom...alguém quer…hoje deu bom 00:03’10” Aí foi isso...tinham vezes que eu queria ter uma coisa, queria sair...eu gosto de ser muito independente, não gosto de depender dos outros. Mesmo que seja um colega “ah vamo lanchar” eu me sinto mal. E tinham vezes que eu não tinha condição de pagar um lanche, comprar um pão, comprar nada...e eu tinha que me virar. Foi a hora que eu comecei a vender. Oportunidade mesmo. 00:03’32” Eu tô aí já vai completar três anos. Comigo já aconteceram várias coisas. Tem quadra que cliente...poxa...eu me sinto como se fosse filho de cliente. Tem cliente que me chama pra ir por apartamento, conversa comigo, me oferece lanche...”Maikon pro que precisar pode contar comigo”. Aí nesse período que eu comecei a trabalhar minha mãe ficou doente, ficou com câncer. Aí começou a apertar...Meu pai e alcoolatra. E eu sou o caçula dos homens, são duas mulheres depois de mim...aí antes de mim tem mais três homens...e as coisas foram apertando. Mas não perdendo a fé! Tem muitas vezes que eu saio daqui chorando, que eu falo meu deus do céu. Mas eu acho que quando você ta no foco, ta no limite do negocio, tu ter que ir de qualquer forma… 00:04’48” é um serviço digno, honesto. Que eu prefiro trabalhar num serviço honesto que ficar aí...usando droga, vendendo droga...igual uns aí...eu já perdi vários amigos de infância. Hoje em dia uns tão presos, uns escolheram o caminho errado...tem uns também que tao bem sucedidos na vida. Aí eu penso assim nada é impossível. Hoje
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eu tô aqui e amanhã...eu posso ta em algo melhor. E eu quero esse algo melhor. Eu nao quero ficar por baixo, no pior...eu quero alcançar meus limites. Pq nao adianta nada, eu nao sei ate onde eu posso chegar. Se eu ficar nessa aqui eu vou falar pô... isso aqui é massa...mas eu quero construir um sonho, quero ter uma família, quero ter um curso superior. Quero dar uma educação boa pros meus filhos...quero ajudar minha mãe meu pai...poder ajudar meus irmãos...poder me ajudar! Nao adianta pensar em ajudar os outros e nao me ajudar. Primeiramente eu tenho que me ajudar financeiramente, psicologicamente. Meu foco é esse. 00:06’03” Tem muitas vezes que eu saio chorando, triste...as coisa arrocha. Tinha vez que tinha festinha aqui, a Agefis tava aqui...se pegasse nós, pegava nossa mercadoria... nós corria muito risco. E era um risco assim de...tinha vezes que...nós tinha que meter a cara. Aí era onde eu quis chegar: o dono nao tava nem aí. Se vendeu ou não. Ele quer o dinheiro dele. Então a mercadoria ficava toda pra mim...lá em casa nos cansou de comer pamonha 00:06’58” [CLIENTE] [Eu acerto meu relógio pelo teu grito. Quando ele passa aí]…(todo dia o gritão né?)...[num horário rígido] 00:07’10” Tem muita gente que fala “Maikon eu desço penso que tu tá na quadra tu ta na quadra de cima…teu grito vem aqui no apartamento.” Tem moço que reclama. Tem gente que me fala maikon porque voce nao anda de megafone...minha voz já é assim
00:08’38” Quando você quiser pode ligar nesse número aqui, de segunda a sábado. Eu só nao tenho whatsapp porque nesse celular aqui nao tem condicao de colocar whatsapp. Se o senhor nao gostar quinta feira eu passo e você me diz “Maikon tava ruim” 00:09’10” Tem dia que com duas quadras eu termino de vender pamonha. Tem dia que eu vou até a 16 andando.
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(MAIKON AUDIO 2) 00:00’13” (cê roda só na asa sul Maikon?) Só na Asa Sul! (Ce roda do começo até a 16?) Eu começo aqui da 7 até a 16. Que da 6 pra lá é o dono da pamonharia que faz. Aí já tem mais de 15 anos que ele faz aquelas quadras lá, então os clientes dele já sao clientela fixa. Cada parte tem um da pamonharia quer roda, nao pode entrar na quadra do outro. É uma norma, é o certo né. Imagina nós três trabalhando e eu entrar na sua quadra pegar seus clientes. (e da mesma forma você conduz com a outra moça de manhã né?) É, pq tipo assim ela não é da minha fábrica nao. Eu comecei primeiro e eles entrou na minha quadra (mas a convivência e tranquila?) Convivência é tranquila...é bom ter concorrente sabia? Porque quando você tem concorrente quem gosta da sua pamonha vai comprar na tua mão, quem gosta da pamonha dela compra na mão dela. Ela agora tem a clientela dela. No começo eu achei ruim, ficava chateado no início. Mas dps eu coloquei na cabeça velho eu não tenho que achar ruim nao. Pq quando você tem concorrentes você sempre tem que dar o melhor de si pra mostrar pros seus clientes que o seu produto é bom. Pq nao adianta nada, quando você não tem concorrente...igual aqui, você monta uma loja e abre sua loja 8h da manhã. Ai arruma um concorrente que abre 7. O cliente que ia as 8 vai no de 7. Ai o que que vai acontecer...opa eu to perdendo meus clientes. O que eu vou fazer? Vou ter que acordar mais cedo pra abrir a loja um pouco mais cedo. A concorrência...eu gosto. Ela tem a clientela dela, eu tenho a minha. Por exemplo, eu não vendo cural...alguém pergunta se tem cural eu vou lá nela, pego cural e vendo pra ela. Antes eu ficava com raiva...No começo eu ficava bufando de raiva. Mas espaço tem pra todo mundo, a quadra não é minha...o local é público. 00:04’10” Tem cliente meu que compra na mão dela, pq eu nao passo no dia. Mas os que tem meu número, se eu tiver aqui na quadra de cima e alguém lá da 108 me ligar eu deixo meu carrinho aqui “é quantas pamonha” e eu levo pra eles. Acontece direto. É clientela. 00:05’38” [FALANDO COM O PORTEIRO] E aí mano? Pode ir lá? [SOBE NO APARTAMENTO DO CLIENTE] 00:13’45”
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(Maikon, eu ia te perguntar...você é daqui mesmo de Brasília?) Sou sou daqui. (E sua família?) Minha mãe é de Unaí e meu pai da Bahia. (E eles vieram pra cá já faz tempo?) Já...minha mãe foi criada aqui no colégio das freiras 00:14’10” Meu pai foi praticamente criado aqui. Que ele perdeu a mãe dele desde cedo. E uma tia dele que criou ele...aí eles vieram pra cá! 00:14’36” (E quando você começou com essa parada..conheceu lá o dono da fábrica…e aí ele te botou pra...) Foi...ele me chamou (Aí no começo, você falou, que tava meio acanhado e tal…mas por causa do grito, da convivência?) É...tipo assim...eu nunca... não é igual eu, se vocês me colocarem numa loja pra mim vender...eu nunca trabalhei de vendedor...nunca. Então tipo assim, primeira vez você vai ficar assim acanhado. Depois de um tempo você vai tendo convivência, tu vai saber com aquilo e vai saber lidar com o povo. É assim...é assim 00:15’19” (E o grito mesmo? Como é que foi? O cara que te sugeriu como é que tinha que vender ou você que inventou?) Eu que inventei! Olha como que foi…eu com ele vendendo na quadra dele lá na 106...ele foi levar pamonha lá em cima pra uma cliente, no apartamento. Ai disse assim “Maikon, grita aí! Pro pessoal descer”. Que que aconteceu...aí eu queria imitar igual a ele, pra ver se chamava a atenção do povo pensando que era ele...”Olha a pamonha quentinha...pamonha de doce, de sal, temperada” aí quando acabasse assim...acabou a pamonha de sal...ai falava “Olha a pamonha de doce e temperada”...aí tipo ia acabando e ele ia excluindo. Aí uma vez eu tentei e não dei conta. Aí eu falei “vou inventar”. Na hora eu dei um gritão aí foi… 00:16’31” Oi minha princesa! Oi meu amor! Tudo bom? // Aí eu fui...aí [ele disse] “Caramba Maikon parecia que tu tava gritando lá na porta do quarto andar…que vozeirão é esse?” No começo muita gente ria de mim, vixe. E eu ficava com uma vergonha [inaudível] depois foi virando uma coisa normal...hoje em dia pra mim é uma coisa que tipo assim...muita gente ri...ri da minha cara...me conhece, conhece a primeira vez, começa a vir. Uns pensam que eu to vendendo é maconha! O negócio é assim... oi menina, dando uma voltinha né? 00:17’28”
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(Mas aí desde o início ele veio nesse formato aí né?) Foi! Eu vim nessa mesma pegada...até hoje! E agora eu to querendo outros caminhos pra mim…[inaudível] po entrar no mercado de trabalho de novo…(porque tem uma galera que a gente andou trocando ideia aí que acaba criando um vínculo muito muito forte com o próprio produto né...tipo o senhor ali debaixo que vendo coco ele tá nesse negócio há muito tempo...25 anos. Não que você não esteja...você disse que tava há quanto tempo mesmo?) Três anos! (Um bom tempo! Mas num sentido de comparação com o seu você já tá pensando em outras perspectivas, em outras coisas…) Porque tipo assim...pra tu saber se um negócio vai dar certo...na época que ele vendia côco, acho que quase ninguém vendia côco...então assim, ja fez um pezinho de meia dele já bacana. (Cada negócio tem as suas peculiaridades né…) E também tu tem que ir com foco...mesmo se tiver concorrente ou não, tu tem que ir no objetivo...eu vou, vai dar certo e ir num pensamento positivo. Mas eu quero montar meu próprio negócio pra eu parar de ficar gritando, acabando com as minhas cordas vocais...pegar até um câncer. Um problema sério...é disso que eu tenho medo. 00:19’13” OLHA A PAMONHA, OLHA PAMONHA, OLHA A PAMO...NHA!...OI MEU AMOR! Cadê meu abraço? Vem aqui me dar meu abraço! Quer pegar na minha careca? Pega então na minha careca! Ó os coleguinhas do tio..essa daqui é minha princesa, olha a mamãe dela…[eu vou buscar a Tetéia…] e vai deixar o tio sozinho? [Você me espera aqui que eu vou lá buscar a teteia] 00:21’12” Então dá um beijo no tio...dá um abraço...bem forte! Ai que abraço gostoso Penelope! Pega na minha careca. Toda vez cê pega na minha careca [ela adora essa careca].... essa é a grande Penélope! 00:21’34” Pois é...meu orgulho...é ver uma criança dessas me abraçando, que nem me conhece...só de andar aqui, da convivência. Tipo assim, isso pra mim não tem preço. Igual umas menininhas que descem aqui, vem me abraçar. Faz o pai deles voltar, pra descer, pra vir dar uma abraço em mim. Tem algumas quadras que é mais...ali na 107 tem mais...tem um lá que quer ficar no meu colo, quero colocar ele no chão ele encurva a perna e nao quer ficar no chão...quer ir embora comigo. Então tipo assim pra mim isso nao tem preço...isso é uma coisa muito gratificante. Não tem preço, dinheiro nenhum que paga se eu ver as crianças me abraçando, brincando, conversando comigo. Tem uns que reclamam quando eu não passo...”porque você não passou hoje tio? Tava na janela te esperando mó tempão. Queria ver voce tio.
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Cê tá bem? Vendeu tudo hoje?” Então é uma satisfação muito grande, um carinho... tem hora que dá vontade até de chorar. Dá vontade de chorar mesmo...tem gente que chega em mim e fala “Maikon você tem um carisma tão grande com criança...tu já é pai?” Eu falo não. “Praticamente parece que tu é pai já”. Muitas crianças aqui, não brincam com ninguém...vai no seu colo, te abraça. 00:25’26” Teve uma que me falou “eu tenho que te chamar pra festa da minha filha”. Fui pra uma festa, trabalhei na festa...porque a filha queria a pamonha, pamonha, pamonha...aí me pediu pra comparecer. Não tem preço. 00:27’26” Porque lá é 24 horas...a primeira fornada de pamonha sai meio dia. Então libera as caixas de pamonha umas 14h30, quase 15h. Daí até eu chegar aqui...é o horário que eu chego. (MAIKON AUDIO 3) 00:00’01” Eu quero fazer o curso que eu gosto (qual que é?) Eu quero fazer Educação física, que eu mexo com dança...dou aula de dança. Eu quero fazer uma coisa que eu gosto, depois que eu fizer isso posso pensar numa coisa pra me dar dinheiro. 00:00’45” (Como é o esquema da aula de dança?) Eu dou aula lá na Santa Maria...eu dou axé, funk, forró, sertanejo. Aí eu sofri o acidente. Quando eu sofri o acidente fiquei na cadeira de rodas quatro meses...perdi o movimento da perna esquerda todinho...um ônibus me pegou...por isso que eu tenho uma dor de cabeça forte (e onde foi isso?) dentro da rodoviária do Gama 00:06’22” [falando com uma cliente] [a gente reza por ele, pela mãe dele] eu rezo pela Cecília, ela reza por mim, pela minha mãe…[a gente tem um relacionamento a mais...o Maikon é muito trabalhador, muito esforçado...teve um dia que o Maikon passou sábado, de noite...] 00:08’00” [e eu comprei pra ele a capa de chuva...gente ele é muito esforçado e tava vendendo na chuva]
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00:12’36” Tem uns que brigam comigo...”Cala a boca porra!”...”Eu vou meter tiro em você”...o pessoal mora aqui, ta acostumado com silêncio...aí vem alguém fazendo isso, é incômodo...demais.
00:13’42” Quando eu tiver uma condição boa e eu ver um ambulante na rua...eu não vou querer comprar em mercado, eu vou dar um apoio pra ele...porque eu sei o sufoco que eu passei no período que eu trabalhei na rua. Muita gente não dá valor e diz “ah é vagabundo”...vagabundo é a minoria! Quando eu tenho um dinheiro a mais... vou juntando, juntando...eu gosto de levar lanche pros moradores de rua. O que eu tenho, eu posso ajudar. Queria fazer todo final de semana, mas não tenho condiçoes no momento...mas vou ter! Eu trabalho de segunda a sexta, aí no sábado...hoje é só dedicado a levar lanche, levar umas roupas...conversar um pouco. Igual vocês não tão conversando aqui comigo? Dialogar...saber um pouco da história deles. 00:15’08” Tem dias que você acorda com o baixo astral lá embaixo. Mas só duma pessoa apertar sua mão, te dar um abraço e fala Jesus te ama!...ou uma palavra emotiva... positiva! Velho...aquele baixo astral que você tá...você tira forças da onde você não sabe...pra você vencer no dia. Teve um dia que eu tava tão ruim, tão ruim...um mulher que nunca me viu na vida...ela falou “meu filho to vendo que voce ta ruim que que foi?”...ela falou um versículo da...não quero focar muito no negócio de Deus não... mas ela falou um versículo da Bíblia...marcante...que eu comecei a chorar na frente dela! Eu só precisava ouvir alguma coisa daquela...e me deu coragem pra ir à luta... pra mim vencer. Então, nesse dia a caixa tava abarrotada de pamonha...depois que eu falei com ela foi questão de tempo...pra eu conseguir vender tudo! 00:17’53” OLHA A PAMONHA, OLHA A PAMONHA, OLHA A PAMO...NHA! [tem gente querendo dormir!] 00:18’28” Te falar uma coisa...a corda só arrebenta pro lado mais fraco. Infelizmente é o Brasil...o Brasil não, é o mundo...nós tá tão chateado com nosso país que a gente fala o Brasil mas é o mundo…a corda só arrebenta pro lado mais fraco...E o dia em que o policial
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ameaçou me levar pra delegacia...desse postinho aqui ó…(e foi por quê?) Que eu tava gritando...e uma mulher quer veio de São Paulo pra cá...falou que eu enchi o saco. Queria silêncio...falou que eu tava enchendo o saco...aí o policial veio falar um monte de coisa...beleza, tá certo...agora vamo lá no bloco que eu sei quem é a pessoa...aí o policial já começou a gaguejar...eu sei quem é a pessoa, essas mulher já fica me xingando já faz tempo...e eu nunca tinha visto ela pessoalmente...então nisso ela só me xingava...”Cala a boca...desgraçado! Pra não completar a frase... Fica com Deus senhora...nesse dia eu no bloco lá em cima, eu quase terminando a quadra...o policial veio “Ei rapaz...você fica fazendo barulho aí, tem morador falando que você tá enchendo o saco...que enchendo saco...eu falei eu sei até quem é...falou “não importa rapaz...se eu ouvir reclamação de novo aqui eu vou te levar pra polícia”... falei “é engraçado né...to trabalhando o senhor ta vindo aqui...o senhor tinha que ta correndo atras de vagabundo, que ta roubando, vendendo droga...”Cala boca que você tá me desrespeitando”...falei engraçado que a corda só arrebenta pro lado mais fraco...mas se o senhor quiser me levar preso, pode me levar...eu sou preto mesmo, sou pobre mesmo...não nego minhas origens não...só porque o senhor tá fardado… 00:24’04” Eu fiquei um dia mal vei...e toda vez que eu passava lá...eu olhava assim...eu pedia muito a Deus, pra me dar força...foi indo. Aí teve um dia que eu conheci ela pessoalmente...eu senti racismo, na hora...na hora que ela tava comendo pão de queijo, ela na minha frente assim...comendo pão de queijo e andando..comecei a gritar, ela pegou o pão de queijo assim e pow...como você consegue vender pamonha?...ficou me olhando com aquela cara assim de racismo, de nojo...como que você consegue vender pamonha? Eu poderia até comprar mas você é um inferno na minha vida...aí eu falei “Vai com Deus viu”...aí ela “Você ta zombando da minha cara?” falei “Não... to falando pra senhora ir com Deus”...aí ela foi falar com o porteiro e o porteiro disse “Rapaz...o menino tá trabalhando”, “você é da mesma laia que ele...seus pobres. Eu já levei ovada dela. Já aconteceu tanta coisa que só nós que trabalha na rua sabe... isso são pequenas coisas que acontece… 00:28’07” Tem gente que eu conheço, que eu convivo 24h...que não é tão gente boa quanto o pessoal… 5) CHIQUINHA 0’ Às vezes, as pessoas falam “você tem que descansar!”. Mas na fase que a gente
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tá hoje, na dificuldade que aumentou, por causa da crise que a gente tá... Muitas vezes, eu não tenho dinheiro pra comprar um remédio. Eu acho que as pessoas se acomodam, mas eu nunca me acomodei com nada. Eu já passei necessidade de fome, fui embora pra São Paulo. 01’40” Quando eu chego na minha casa, eu ainda vou fazer entrega na rua. Eu conheço muita gente. Eu levo os batons, tenho uma sala reservada lá no cartório de Taguatinga, onde eu conheço 250 mulheres. 02’ No Correios, conheço muita gente também. No Banco Santander, onde é minha conta, saio daqui na hora do almoço, nem almoço, chego lá “fulano, cheguei”, já sei as cores que elas gostam, o que elas gostam e falo: “tô com esse, esse e esse”. “Ah era esse mesmo que eu queria! “Você passa cartão?” “Sim a maquininha tá aqui.” Se eu não tivesse a maquininha, eu tava tomando prejuízo. 03’20 E eu ainda estudo! To fazendo supletivo. Já to na sétima série. 05’30 Eu quero montar uma microempresa pra mim, já sou microempreendedora. Quero montar uma lojinha de cosmético. Ou uma coisa de salgado porque eu trabalhei 10 anos como cozinheira. Eu sei fazer todo tipo de salgado. 06’50” Participação ativa na igreja 07’ Tem reunião dos produtos, porque eu quero conhecer mais do produto. Quero me aprofundar no produto. O pessoal pergunta, eu tenho que saber explicar o que eles perguntam. O carisma e a vontade. Saio quatro e meia da manhã de casa. E ainda faço academia. 08’30 Hoje eu to de folga, mas ja to aqui. 12’50
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Vou fazer um curso de computador, porque to precisando também. Porque às vezes eu fico precisando me aprofundar nas coisas da internet. Ter um básico do que acontece com meus produtos.
“Chiquinha, quanta coisa hein?” “E isso não é nem a metade!” 15’20’’ Todo mundo me conhece aqui. Eu só tenho uma hora de almoço, mas eu dou o toque e aviso “fica ai embaixo do prédio que eu vou correndo” ou então fico até nos buracos do alambrado aqui do clube. “Ainda tem tempo pra isso? Sim!!” 18’ [Tempo morando em Santos…] 20’45’’ [Briga com a vizinha...] 22”30 Comecei a vender com 10 anos. 27’05” O vendedor tem que tá sempre atento. Se eu não tenho, eu vou trazer. Eu fiz um curso de atendimento no Sebrae. Eu já tenho até CNPJ, acha que eu sou boba? 30”35 Uma outra coisa que eu faço pra chamar a atenção do cliente: eu também coloco crédito no celular. Já tenho o preço decorado de todos os produtos. 35’ Já conheço a quadra todinha. 35’20 Batom vermelho não vai ter porque eu já vendi tudo.
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Pra chamar a atenção do cliente? Ter o produto pra entregar, pra não comprar com outra pessoa. Já sei o produto que a pessoa usa, ja vou pedindo porque eu sei que já deve tá acabando. Você tem que ter humildade pra conversar com as pessoas. No começo eu saia só com a sacola. 39’20” Eu pretendo arrumar, eu até já arrumei o lugar, lá na Ceilândia. Eu moro no Setor O. Eu vou botar lá e já tá tudo no esquema. Eu já tenho a minha clientela lá também. Tem gente que vem do Sudoeste que vem comprar Mary Key. Lá onde eu moro, tem gente que me liga “ah eu to precisando disso”. 40’25 Eu fiz aqueles catões de visita. Quando elas quiserem, elas me ligam. Vendo Capital Cap também. Ja mandei até fazer outro cartão diferente. Mandei fazer na gráfica. Ajudou muito. O nome da minha empresa eu já coloquei Fran Cosméticos e Acessórios. Porque eu vendo de tudo. 41’ 52 Eu gosto das coisas certas. Pra eu conseguir montar minha empresa, eu tenho que ter meu CNPJ. Eu conehço um amigo meu, que é da polícia. 43’15 A vendedora quando é focada nunca sai sem nada na bolsa. Dentro do ônibus, a mulher tava “ah eu tava precisando de um batom da Mary Key e ele já tava na minha mão. 44’10 Quando eu for pra loja, não vai mudar nada. Tem minha afilhada que tá desempregada, eu vou botar ela pra trabalhar pra mim, lá na loja. E eu continuo aqui. To perto de me aposentar. E aí quando acontecer isso, eu fico aqui e ela fica lá. As clientes falam “você tá ai embaixo do pau?”; eu falo sim!