Especial Mês da Consciência Negra

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Especial Mês da Consciência Negra - Novembro de 2013

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ONDE ESTÃO AS ENTIDADES DO MOVIMENTO NEGRO? Hoje, este movimento vem se dando sem ação prática e sem ação política através dos negros que estão dentro da academia, com palestras, seminários e atividades do mesmo gênero, é preciso, multiplicar o número de novas lideranças, elevando a consciência crítica para que possam ir nas periferias organizar os negros dentro de um ambiente político da luta de raça e classe.

perseguição dos militares aos setores democráticos atingiu também as organizações do movimento negro na época da ditadura. As entidades foram para a clandestinidade e muitas desapareceram do cenário da luta contra o racismo.

No fim dos anos 70, aparecem entidades como MNU, tendo como proposta organizar as lutas contra o racismo tendo como elemento principal a defesa da cultura negra em busca da afirmação do homem e da mulher de descendência africana.

As entidades do movimento negro que evoluíram foram aquelas que estão no campo cultural e que cotidianamente levam a consciência de raça para os negros através de suas canções, mesmo dentro de um ambiente mercadológico.

Em 1988, surge a União de Negros pela Igualdade, com uma proposta muito mais ofensiva afirmando que a luta dos negros no Brasil era de raça e consciência de classe, já que os negros deveriam elevar a sua consciência crítica e política para dar início à sua libertação e não bastava só a consciência de raça, outras entidades do movimento negro na época jogaram um papel fundamental na luta contra o racismo e a discriminação. Com a chegada da chamada esquerda brasileira ao poder as entidades que permaneceram se transformaram em organização não governamental, e suas lideranças foram para os governos e passaram a ter outros inte-

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resses que não a defesa dos negros, que no cotidiano estão à mercê da violência , desemprego, falta de habitação e outros males sociais nos bairro periféricos.

O NEGRO E A QUESTÃO DA EDUCAÇÃO

educação pública no Brasil, não foi implantada para negros e nem para os pobres, e sim para os ricos. A decadência desse ensino se dá a partir do momento em que a concepção educacional no Brasil muda, daí os pobres e os negros começaram a ter acesso a educação. Mesmo sem a qualidade que o ensino requer, os negros passaram a se instruir, mesmo com muitos obstáculos, em função do medo das classes dominantes as ameacem. As camadas mais baixas, através da educação, alteram o panorama conquistando um conhecimento histórico da escravidão. Inegavelmente a classe dominante brasileira sempre dificultou a educação do negro no Brasil, para continuar mantendo a dominação. Mas é a educação que pode dar o pontapé inicial para que os negros encontrem o caminho da libertação. Muitos cursinhos bem intencionados que existem no Brasil, organizados e dirigidos por organizações negras e financiadas por brancos reacionários não propõem uma educação libertadora, mas sim uma educação que mantém o status quo, onde os negros vão para o mercado disputar, com todas as dificuldades, vagas de trabalho.

Fotos: GFXTRA

Mas estas entidades jogam um papel de grande importância na elevação da autoestima na comunidade negra, o orgulho de ser negro ultrapassa qualquer limite a partir do momento em que o homem negro assume a sua negritude, a mulher negra assume a sua negritude e isso se deve às entidades que lidam com a parte cultural.

Diante de nossa concepção de ensino a educação de qualidade no âmbito do atual sistema educacional não existe por mais requintada que seja. Para nós a educação de qualidade é aquela que se propõe a fazer mudanças estruturais na sociedade no sentido de ajudar construir um novo tipo de homem, desprovido de egoísmo.

Quando os negros ingressam na escola pública, as condições dadas são as piores possíveis, sem o mínimo necessário para o professor aplicar as aulas, além dos métodos medievais de ensino e dificuldades de aprendizagem. Esse tipo de educação que aprendemos nas escolas públicas e privadas, é da natureza do sistema capitalista, ensina nosso povo a ser individualista, ao priorizar uma educação de competição.

Nivaldino Felix Escritor, Diretor de Imprensa da APLB-Sindicato Coordenador do DEFE-BA

Nivaldino Felix Escritor, Diretor de Imprensa da APLB-Sindicato Coordenador do DEFE-BA

A Educação dos Negros e Negras no Brasil

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pesar de todas as lutas do Movimento Negro e de outros setores da sociedade pelo acesso à Educação no Brasil, os jovens negros e negras ainda são minoria nas faculdades e universidades em todos os estados da Federação.

Não foram poucas as lutas e não estamos minimizando as conquistas, mas é de fundamental importância continuar na luta, organizados, imbuídos de ousadia para exigir dos governantes, deputados e vereadores. Afinal, votamos e elegemos empunhando a bandeira de uma educação pública, laica e de qualidade para todos e todas. Estejamos atentos para se fazer cumprir as leis que garantem aos jovens negros e negras o acesso e a permanência nas escolas, com a inclusão na educação em todos os níveis desde a pré-escola até a universidade. A Lei 10.639, que esta completando 10 anos e ate os dias atuais não foi implementada na maioria dos estados brasileiros, ficou à mercê e à disposição dos professores que se identifiquem com o assunto. A transversalidade no currículo escolar precisa estar na prática diária das nossas escolas com materiais adequados e professores comprometidos. Assim, teremos alunos participativos, valorizados e inseridos na história como cidadãos e cidadãs. Na construção desta nação e não amarrado no tronco - sendo chicoteado como aparece na maioria dos livros didáticos que são distribuídos nas escolas publicas para alunos de maioria negra. Por que os alunos e alunas das escolas públicas não têm interesse em estudar e permanecer na escola? Gercy Rosa Diretora do Departamento Social da APLB-Sindicato


Dieese ressalta racismo brasileiro no mercado de trabalho

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Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) divulgou na quarta-feira (13) a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) com o tema Os Negros no Trabalho. Esse é o 13º ano consecutivo que o PED analisa questões referentes ao desenvolvimento do mundo do trabalho no país. “A dinâmica do mercado de trabalho expressa padrões vigentes das relações raciais que se apresentam na sociedade brasileira”, diz trecho da apresentação do estudo. Na apresentação foi explicado que essa é uma pesquisa contínua, ou seja, feita todos os dias, pelas quais são entrevistadas cerca de 600 mil pessoas. Como este levantamento refere-se ao biênio 2011-2012, dá um total aproximado de 1,2 milhão de entrevistados, o que por si só apresenta a dimensão da situação dos cidadãos e cidadãs brasileiros no mercado de trabalho. Os Negros no Trabalho (veja pesquisa nesse link: http:// www.dieese.org.br/analiseped/2013/2013pednegrosme t.pdf) derruba o mito de que essa parcela da população brasileira tem salário menor por possuir menos escolaridade. O estudo constatou justamente o contrário, pois quanto maior a escolaridade a diferença salarial entre negros e não negros cresce. No período avaliado, comprovou-se que com o aumento dos anos de estudo, cresce o fosso salarial entre os brasileiros de cores diferentes. Na indústria de transformação a desigualdade de rendimento por hora entre negros e brancos era de 18,4% no ensino fundamental incompleto e 40,1% para as pessoas com ensino superior completo. Já no setor do comércio, os índices ficaram em 19,7% para os que não completaram o fundamental e 39,1% para aqueles com diploma universitário. Na construção civil, onde a presença de negros é muito maior do que a de brancos, a diferença salarial registrada foi de 15,6% sem fundamental completo e 24,4% para quem já saiu da universidade.

EU SOU Eu sou o que sou em minha própria certeza de não ter tido a incerteza de considerar-me como moreno, cabo-verde ou clarinho. Eu sou o que sou por causa da memória de ter vivido a história das lutas quilombolas deturpadas pela mão branca.

Também comprovou-se que os trabalhadores negros têm menos escolaridade. Entre 2011 e 2012, 27,3% entre os negros ocupados não tinham ensino fundamental completo e somente 11,8% contavam com diploma universitário. Já na parcela dos não negros os índices eram 17,8% e 23,4% respectivamente. Outro dado fundamental refere-se à diferença salarial entre negros e brancos. Já entre a sete regiões metropolitanas pesquisadas, Salvador apresentou a maior disparidade. A capital baina lidera o ranking onde os negros recebem 40,14% a menos do que os brancos, seguida por São Paulo (38,95%) e em último vem Fortaleza onde os negros ganham 24,34% a menos. No total da pesquisa, o negro brasileiro ganha salário 36,11% menor do que os brancos no país. A pesquisa do Dieese ressalta a dissimulação do racismo brasileiro. Mesmo com a Abolição aos negros couberam os cargos de menor remuneração no mercado de trabalho, os ex-escravos foram jogados à própria sorte, abandonados pelo Estado. Essa realidade se reflete na pesquisa no sentido pelo qual, “a questão racial interfere par designar lugares para trabalhadores negros na estrutura produtiva, passíveis d serem traduzidos por situações de discriminação não determinadas pelos critérios objetivos da produção, que acarretam desvantagens aos afro-brasileiros”, concluem os responsáveis pelo levantamento. Os dados da pesquisa mostram o traço racista da sociedade brasileira - que vem desde o Brasil colônia -, onde os empresários contratam seus funcionários com base na aparência física, levando menos em conta a capacidade de trabalho apresentada pelo candidato. Com esse critério e com um padrão europeu de aparência,

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ovembro de 2013. Um convite à reflexão. Presença de Zumbi dos Palmares, e a marca de 10 (dez) anos da Lei 10.639, que introduz obrigatoriedade de ensino da cultura da África e dos africanos nas escolas.

A marcante participação desse povo e seus descendentes na construção do Brasil desnuda o flagrante desrespeito aos direitos humanos. Foram 350 anos de escravidão e nada mais hediondo do que o RACISMO perpetrado pelo europeu opressor e presente hoje às vezes sutil e tantas vezes acintoso. A falta de oportunidade a desigualdade é o retrato dessa violência.

Eu sou o que sou porque liberto estou com minha alma pura de todos os preconceitos humanos e inferiorizados. Eu sou o que sou porque liberto estou de toda leviandade que corrompe o pensamento humano.

Quanto a escolaridade 50,5% tem ensino fundamental incompleto, 14% alfabetizados, 6,1% analfabetos, contra 0,9% que chegaram à Universidade mas não concluíram e apenas 0,04% concluíram o superior, enquanto 0,03% chegaram a um nível acima do superior.

Eu sou o que sou porque sou da raiz afro dos frutos mestiço da árvore humana.

Nas prisões brasileiras os jovens de 18 a 24 anos são maioria cerca de 30% e de 25 a 29 anos 25%, entre 30 e 34 anos 19%. O perfil do preso brasileiro vem sendo mantido ao longo dos anos, o que demonstra falta de políticas públicas para inclusão do jovem na sociedade.

Marcelo Araújo – Diretor do Departamento Social da APLB-Sindicato

Acesse: www.aplbsindicato.org.br

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Fonte: Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB

Educação e população carcerária

Uma das formas de perceber a violência do racismo no Brasil é analisar a população carcerária. A impressão é que pessoas brancas e ricas não cometem crimes. No Brasil, segundo dados do Ministério da Justiça de 2008 a 2012, houve um crescimento de 21% na população carcerária onde os pardos (43%) são maioria, os que declaram-se negros 17%, perfazendo um total de 60%, contra 35% de brancos.

Eu sou o que sou porque não sou medo.

aos negros ficam os trabalhos de menor prestígio e de menos rendimentos. Esse estudo pode subsidiar os setores do movimento sindical interessados na luta pela igualdade de direitos para todos os brasileiros.

Alguns estudos dão conta de que um presidio federal gasta com um detento (R$ 40 mil) enquanto com um aluno de nível superior (R$ 15 mil) um terço do valor gasto com um detento. Em nível estadual a diferença é bem maior: são R$ 21 mil (ano) com cada preso e com um aluno de ensino médio é gasto R$

2,3 mil, o que evidencia o baixo investimento na educação, daí a necessidade do cálculo custo aluno qualidade. Registra-se que o gasto com o sistema prisional está longe de tornar o sistema eficiente e sem dúvida um investimento maior em educação diminuiria a despesa com presídios. É sabido que a perspectiva de sucesso afasta o ser humano da violência e do crime. A Bahia, em que a concentração do afrodescendentes é das mais acentuadas, os números estão bem acima da média nacional. As prisões provocam a mesma indignação retratada por Castro Alves em Navios Negreiros, apesar da existência de uma escola esta não é suficientemente atrativa, menos de 20% da população carcerária a frequenta, as atividades laborais não alcançam 10% dos presos, apesar da Lei de Execução Penal, prever a ressocialização tal não ocorre. Como não são dadas as condições para facilitar ao preso o convívio social, ele volta a reincidir, 72% vivem em total ociosidade. Na esteira da violência assistimos também a um grande extermínio da população negra, com a estatística da Secretária de Segurança Pública apontando semanalmente um contingente substancial de jovens negros vítimas de homicídios. O racismo é uma violência gerada pela desigualdade, portanto a luta precisa ser contínua contra o capitalismo gerador de todo tipo de opressão e esse combate deve ser no dia a dia e enquanto educadores e educadoras precisamos perseguir uma sociedade igualitária sem oprimido e opressor, exploradores e explorados buscando suprimir a desigualdade social transformando de forma radical essa sociedade e “que os negros adquiram a consciência revolucionária articulada em uma perspectiva de raça, classe e consciência de classe”, como defendido pelo escritor Nivaldino Félix em Flexão e Reflexão no Contexto Racial. Olívia Mendes, Diretora de Educação da APLB-Sindicato e professora regente na Escola Estadual da Penitenciária Lemos Brito

aplbsind@gmail.com www.aplbsindicato.org.br lb i di b


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