Construtivismo, arte minimal e a obra de dan flavin

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Caroline Silva – 14173 História da Arte Contemporânea Licenciatura em Artes Plásticas e Multimédia

No ano de 1917 “um novo mundo”1 estava a nascer na Rússia. A revolução bolchevique estava prestes a destituir de vez o regime czarista que vinha oprimindo a população e colocando em risco a vida de centenas de soldados que embarcavam completamente despreparados para a guerra contra a Alemanha. Na efervecência deste novo governo, popular e socialista, os artistas reuniam-se para refletir suas ações enquanto apoiantes do novo regime e desejavam encontrar maneira de não só representarem esta nova realidade, mas, e principalmente, para aliarem-se na construção desta nova pátria. Suas ideias conduziram a uma nova percepção sobre os campos da engenharia e arquitetura, que neste momento já estavam colocadas lado a lado com a pintura e a escultura. Os materiais industriais e as formas no seu estado mais primitivo e puro constituiam os elementos fundamentais para esta construção do novo mundo, já que simbolizavam e impunham sobre a sociedade o sentido de ordem e progresso que os artistas entendiam como fundamentais neste período da história russa. Embalados por essas ideias, um grupo de artistas norte americanos, entre as décadas de 60 e 70, desenvolveram uma série de objetos artísticos que se reduziam a formas primárias, literais e industriais. Os materiais utilizados por eles refletiam a proximidade com o Contrutivismo Russo, pois eram industriais e seriados, elementos típicos da engenharia e arquitetura, utilizados para a construção de novos espaços e realidades. Apesar de não serem arquitetos ou engenheiros, estes artistas reconheciam o valor de uma arte que estivesse longe da ideia de representação da realidade, pois desejavam por uma produção artística disposta a contruir ao invés de representar. “A arte era uma força pela qual a mente podia impor sua ordem racional às coisas”, escreveu Suzi Gablicik sobre o minimalismo. 2 A literalidade do objeto tornou-se primordial no que significava um abandono completo da expressividade subjetiva dos Expressionistas Abstratos e também de qualquer sentido ilusório que a tradição artística pudesse imputar sobre as obras artísticas. Para alcançar tal objetivo os artistas minimais escolhiam materiais quotidianos, industriais, daqueles que se utilizam nas construções arquitetónicas, a fim de expurgarem da arte qualquer sentido estético que tenha sido criado ou manipulado pelo artista. O material em si é estéticamente aceitável. Existe aqui uma relação intíma com Duchamp, cujos ready-made aprovavam uma nova concepçao de arte, na qual o significado é dado ao objeto artístico pela mente do artista e espectador e não pelo trabalho manual do artífice e por sua perícia técnica. 3 Sendo assim, na Arte Minimal o objeto de arte perde qualquer áurea que o faça pertencer a um patamar superior que os demais objetos do mundo real. A obra tansforma-se em simples artefato, sem metáforas ou referências externas. Esta leitura da obra de arte 1

SCHARF, A. (1991). Construtivismo. In: STANGOS, N.(1991). Conceitos da Arte Moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda, p. 117. 2 GABLIK, S. (1991). Minimalismo. In: STANGOS, N.(1991). Conceitos da Arte Moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda, p. 174. 3 Idem, p. 177.


acaba por refletir-se numa crítica ao mercado artístico, no qual os comerciantes aproveitavam-se deste estatuto elevado da Arte (com “A” maiúsculo), para elevarem também seus preços e, automaticamente, transformar a produção e apreciação artística em atividades puramente elitistas. O Construtivismo Russo também lutou por uma arte popular, feita por e para a sociedade onde se instalava. Apesar de na arte minimal não haver nenhum conteúdo político ou filosófico, como havia entre os construtivistas, a produção encara o público de forma mais direta e pessoal, abrange sua totalidade e serve ao espaço comum. Sabemos hoje, que nenhum dos dois movimentos foi capaz de alcançar tamanho feito, pois a arte continua sendo produzida, contemplada e comercializada por um grupo bastante seleto, nem mesmo a arte Pop foi capaz de popularizar-se o tanto que desejava. Entretanto a Arte Minimal conseguiu colocar o espectador na posição de participante da arte, quando lhe imputa a tarefa de dar significado à obra. Deste modo, o trabalho do artista é apenas o de um construtor que oferece ao espectador um objeto em um determinado espaço e convida-o a relacionar-se com todas as estruturas ali presentes. A obra ganha sentido, quando se conecta de fato com seus espectadores, que agora, podem transitar em volta das obras e se aproximarem delas, já que não se encontram mais emolduradas ou postas em pedestais, mas apresentadas na sua simplicidade, e muitas vezes colocadas no chão.4 Sobre o espaço, é importante comentar que na arte minimal o meio ambiente onde o objeto artístico se insere é ele próprio lugar pictural.5 No construtivismo, a arte estrutural da realidade acreditava que deveria ser útil na elaboração de espaços capazes de representarem as novas composições de governo. No espaço se encontravam todas as relações entre estruturas e pessoas e era também no espaço, que os novos ideais encontrariam formas para existirem. Para os artistas minimais o espaço é onde a obra acontece, onde ela se manifesta e se torna parte integrante da realidade. Este lugar, como já referido, não é ilusório, mas é o espaço real, onde verdadeiras conexões podem ser criadas entre a obra e o espectador. Dan Flavin, um dos artistas integrantes do movimento minimal, chega a uma maturidade no seu trabalho quando passa a utilizar lâmpadas fluorescentes como materiais, por volta de 1960, e com elas cria diferentes relações entre o espaço e o espectador. Como seu trabalho depende da interação entre a luz e o espaço onde ela se propaga, todas elas se desenvolvem no sentido que o espaço é capaz de acomodar. Uma obra exposta em determinado lugar, pode ter interações diferentes quando levada para outro espaço. Assim, a obra se desenvolve no espaço, mas não se torna dependente dele. Para exemplificar temos a obra “Alternating pink and gold”, de 1967, que consiste inicialmente em uma instalação de 54 lâmpadas fluorescentes que alternam entre as cores amarela e rosa. Em cada espaço de exposição existem mudanças na colocação da obra, podendo até serem retiradas algumas de suas lâmpadas.6

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JUVENAL, R. V. (2008). Sobre o espaço e a percepção no minimalismo. In: AISTHE, nº3, p. 99. Disponível em: http://www.aisthe.ifcs.ufrj.br/vol%20II/VIGNOLI.pdf. Consultado em 14 de novembro de 2016. 5 GABLIK, S. Op. Cit., p. 180. 6 VILLARES, F. (2011). A construção do espaço através da luz: uma leitura da obra de Dan Flavin sob o aspecto do design da iluminação. São Paulo: Universidade de São Paulo, p.47.


Dan Flavin

Alternating pink and gold Lâmpadas fluorescentes Aproximadamente 2,4 metros de altura

1967 Foto da Galeria Zwirner

“Flavin criava sistemas de montagem que pudessem ser reproduzidos sem modificar seu sistema intrínseco. Nesses trabalhos, estabelecia algumas regras que permitiriam a progressão infinita da obra em outros espaços, deixando uma espécie de manual para adaptação do conceito espacial a fim de que pudessem ser remontadas em outros lugares.”7 As cores e formas criadas pela luz das lâmpadas constituem parte integrante da obra de Flavin, pois elas transformam o espaço e integram uma nova realidade óptica no meio em que o público circula. Flavin utiliza apenas as cores de lâmpadas disponíveis no mercado (pink, amarelo, azul, vermelho, verde, ultravioleta e quatro tons de branco – morno, branco frio, luz do dia e branco suave), mas compreende que a junção destas cores podem gerar as mais diversas composições quando sobrepostas ou quando o tamanho das lâmpadas diferenciavam entre si.8 Para Batchelor, a obra de Flavin é “linear e atmosférica” 9, linear porque segue os traços propostos pela própria forma da lâmpada, atmosférica porque envolve todo o ambiente a sua volta. A luz da lâmpada, nestes casos não deve ser sentida em uma forma mística, como pretendiam Newman ou Rothko com as cores de suas pinturas. Flavin utilizava-as com a mesma literalidade de qualquer outro material corrente nas obras de artistas minimais. Ela era apenas um elemento. Nas palavras do próprio artista: “A luz da lâmpada deve reconhecer-se e utilizar-se de uma forma simples, directa e rápida, ou então não se deve usar. Este constitui o espírito contemporâneo, sensível e artístico. Não há tempo para o simbolismo, ou para o mistério.”10 Quando Flavin apresenta uma série de oito obras, intituladas Icons, fica claro que não pretende usar de misticismo ou simbolismos em seu trabalho. Apesar de ter um passado religioso, imputado por seu pai, Flavin abandonou a fé em sua juventude, e seus ícones, ainda que possam fazer referências a este passado, são, nas palavras do artista, exatamente o oposto. Para Flavin o ícone, longe de referenciar uma personagem sagrada, ou mesmo de ser um símbolo para um referente qualquer, é um lugar vazio. Em entrevista ao New York Times, o filho do artista, Stephen Flavin, relembra alguns escritos de seu pai onde ele diz: “My icons do not raise up the blessed savior in elaborate cathedrals. They are constricted

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VILLARES, F. Op. Cit., p. 48 Idem, p. 20 e 53. 9 BATCHELOR, D. (1998). Movimentos de Arte Contemporânea: Minimalismo. Lisboa: Editorial Presença, p. 51. 10 FLAVIN, D. In: BATCHELOR, D. (1998). Movimentos de Arte Contemporânea: Minimalismo. Lisboa: Editorial Presença, p. 57. 8


concentrations celebrating barren rooms. They bring a limited light”.11 A luz de seus Icons é tão efêmera e limitada quanto qualquer outro objeto e imagem criados. Cada uma destas obras apresenta na parte de trás um manuscrito onde o artista referia que cada peça havia sido feita em seu atelier e enumerava os materias utilizados para tal trabalho, inclusive referia onde os tinha comprado. Este pormenor das obras reafirma a objetividade com que o artista tratava a obra.12

Icon VIII (the dead nigger´s icon) (to Blind Lemon Jefferson) Dan Flavin Óleo sobre Masonite, recipientes de porcelana, lâmpadas incandescentes vermelhas. 1963 Foto DIA Art Foundation

Icon VII (via crucis) Dan Flavin Acrilico sobre Masonite, lâmpada fluorescente dayligth 71.1 x 71.1 x 25.7 cm 1962-64 Foto DIA Art Foundation

Além do conceito de ícone, Dan Flavin explora a palavra monumento, em uma série de obras dedicadas ao artista construtivista Vladimir Tatlin13, que havia projetado uma obra arquitetónica intitulada “Monumento à Terceira Internacional”, de 1920. Tatlin projetou a arquitetura de um prédio que deveria marcar a nova fase socialista do governo russo. Era tão grandiosa em seus ideais quanto em sua estrutura. Infelizmente a obra só existiu realmente em maquete. Dan Flavin recria as formas progressistas de Tatlin com suas lâmpadas em uma série de “Monumentos” à V. Tatlin, que ao total somarão 39 obras. Sua intenção é ironizar o próprio sentido que a palavra monumento carrega ao sugerir uma construção que recordará alguém ou algum feito na posteridade. O fato da obra de Tatlin nunca ter se concretizado, retira dela qualquer sentido de monumento, assim como, nos monumentos de Flavin, palavra que ele faz questão de pôr entre aspas em seus títulos, o sentido de recordação memorável é também posta em causa. Em um seminário no Museu da Coleção Berardo, o crítico e curador de arte português João Pinharanda fala sobre as obras de arte de Dan Flavin e refere a própria efemeridade da lâmpada como incapacitadora da transformação destas obras em monumento. A lâmpada fluorescente, como sugere Pinharanda, pode tornar-se obsoleta a qualquer momento, de maneira que manter “acesa” a obra de Flavin poderá se tornar tarefa impossível.14 “Flavin deixou claro que a curta existência das obras fazia parte do caráter finito de qualquer outro objeto de uso comum. A realidade factual de que as lâmpadas vão queimar e a obra vai se acabar também participa da poética que buscava.”15

LEVERE, J. (2015, 13 de agosto). Dan Flavin´s “Icon” constructions on display in Bridgehampton. The New York Times. Dísponível em http://www.nytimes.com/2015/08/16/nyregion/dan-flavins-iconconstructions-on-display-in-bridgehampton.html?_r=1 . Consultado em 12 de novembro de 2016. 12 VILLARES, F. Op. Cit., p. 71. 13 Vladimir Tatlin (1985 – 1953) foi um pintor, escultor e arquiteto ucraniano. 14 Museu Coleção Berardo/Vídeos. (2014, 6 de junho). As escolhas dos críticos: Dan Flavin por João Pinharanda [Video File]. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=2zx5VIuUvFs . Acessado em 14 de novembro de 2016. 11

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VILLARES, F. Op. Cit., p. 59.


Sem título (Monument to Vladimir Tatlin) Dan Flavin Lâmpadas fluorescentes brancas (244 cm, 183 cm,122 cm, 61 cm) 244 x 72 x 12 cm 1962-64 Museu Coleção Berardo

O trabalho de Flavin com as lâmpadas fluorescentes tornou-se o ponto alto de seu trabalho artístico, e sua pesquisa neste campo estendeu-se até a sua morte em 1996. Suas obras continuaram literais e voltadas para o espaço onde se inseriam, mantendo os principais principios da Arte Minimal. É inevitável perceber que Dan Flavin evoluiu muito na utilização da luz através de suas lâmpadas, conseguindo atigir um espaço cada vez mais inundado pela irradiação da luz.

BIBLIOGRAFIA BATCHELOR, D. (1998). Movimentos de Arte Contemporânea: Minimalismo. Lisboa: Editorial Presença. CAMPOS, D. A. (2015). Arquitetura no contexto do Construtivismo Russo. Lisboa: Universidade Lusíada de Lisboa. Disponível em http://repositorio.ulusiada.pt/handle/11067/2248. Consultado em 12 de novembro de 2016. GABLIK, S. (1991). Minimalismo. In: STANGOS, N.(1991). Conceitos da Arte Moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda. JUVENAL, R. V. (2008). Sobre o espaço e a percepção no minimalismo. In: AISTHE, nº3, p. 99. Disponível em: http://www.aisthe.ifcs.ufrj.br/vol%20II/VIGNOLI.pdf. Consultado em 14 de novembro de 2016. LEVERE, J. (2015, 13 de agosto). Dan Flavin´s “Icon” constructions on display in Bridgehampton. The New York Times. Dísponível em http://www.nytimes.com/2015/08/16/nyregion/dan-flavins-icon-constructions-on-display-inbridgehampton.html?_r=1 . Consultado em 12 de novembro de 2016. Museu Coleção Berardo/Vídeos. (2014, 6 de junho). As escolhas dos críticos: Dan Flavin por João Pinharanda [Video File]. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=2zx5VIuUvFs . Acessado em 14 de novembro de 2016.


ROSAS, F. (2014, 30 de agosto). Guerra e revolução na Rússia de 1917. Público. Dísponível em https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/guerra-e-revolucao-na-russia-de-19171668056. Consultado em 12 de novembro de 2016. SCHARF, A. (1991). Construtivismo. In: STANGOS, N.(1991). Conceitos da Arte Moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda VILLARES, F. (2011). A construção do espaço através da luz: uma leitura da obra de Dan Flavin sob o aspecto do design da iluminação. São Paulo: Universidade de São Paulo. Disponível em https://issuu.com/spescoladeteatro4/docs/af_fecarvalho_miolo_2_smallpdf.com_. Consultado em 15 de novembro de 2016.


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