Ocupação Experimental, o bairro a partir de um sistema de espaços livres

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IAU USP Ocupação experimental: O bairro à partir de um sistema de espaços livres trabalho de graduação integrado II Cristiana Monteiro Torres Professores CAP: David Moreno Sperling Francisco Sales T. Filho Lucia Zanin Shimbo Luciana Bongiovanni M. Schenk Orientador de gt:: Prof Dr Renato Luis S. Anelli

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UNIVERSO PROJETUAL AÇÕES PROJETUAIS DE RURAL A URBANO PROPOSTA DE INTERVENÇÃO CONCLUSÃO BIBLIOGRAFIA

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UNIVERSO PROJETUAL No âmbito das discussões contemporâneas sobre arquitetura e cidade, é essencial para este trabalho analisar e partir das discussões acerca da produção espacial urbana contemporânea, seus mecanismos e agentes. A forma urbana visível segundo Grosjean (2009, p. 238) é produto da coexistência entre o urbanismo planificado e as operações autônomas espontâneas dentro da sociedade restando investigar como eles se articulam. Os agentes da dinâmica do espaço urbano são a esfera pública, privada e a sociedade civil organizada. Sendo que o estado atua de forma direta de por meio da produção de habitação social e outros prédios públicos, mas segundo Villaça (1998), na cidade tipicamente capitalista o estado atua principalmente de forma indireta, através da legislação urbanística que supostamente regularia a iniciativa privada, e no entanto um dos agentes privilegiados das transformações físicas das cidades é o mercado imobiliário. Dentro dessa dinâmica de mercantilização das terras e expansão desenfreada das cidades os proprietários fundiários são também agentes nesse processo pois têm interesse na conversão de suas propriedades rurais em terra urbana, visto que esta possui valor maior do que terra rural Segundo Salgueiro (1998, p.40, 41 e 42), o resultado

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das ações dos diversos envolvidos resulta em uma fragmentação sócio-espacial com regionalismos e regionalizações, caracterizada por policentrismo, o que é meramente um reflexo da forma como é constituída, estabelecendo com a cidade existente "contiguidade sem continuidade”. Ainda segundo Salgueiro apresenta também mistura funcional, desconexão com o entorno próximo, tomando como exemplo os enclaves fortificados e os "shoppings", cujo contato que estabelecem com o local da cidade em que se insere é essencialmente e em alguns casos exclusivamente por meio da utilização da rede viária. E além disso gerando a atribuição de valor simbólico à áreas da cidade, como por exemplo a atribuição de um status de bairros periféricos (não somente no sentido espacial, mas como um estigma de bairros de população de baixa renda), e bairros “nobres”. O resultado dessas ações e respectivos atores no território urbano é a fragmentação da cidade, especulação das terras, segregação territorial e social, surgimento de vazios urbanos. Mas além de tudo isso, resulta invariavelmente na devastação dos remanescentes florestais, assim como a degradação de zonas importantes para os ecossistemas e para a conservação da estabilidade ambiental, que devem ser preservados por si só mas além disso são essenciais para a preservação da

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qualidade de vida das ocupações humanas nas cidades. Além disso podemos dizer que se aplica às dinâmicas atuais de expansão das cidades brasileiras a noção de que a cidade-território suplantou a oposição cidadecampo. Segundo Lencioni (2011), o meio rural paulista por exemplo não pode mais ser caracterizado somente como agrário, visto que o comportamento do emprego nessa áreas já não corresponde mais ao calendário agrícola, mas a uma nova dinâmica populacional. O que quer dizer que a cidade contemporânea não mais se caracteriza como o oposto do rural: ela se extende até as zonas rurais, ocupando-as. Assim, como o rural já não mais representa o que era antes, mesmo as regiões tradicionalmente agrícolas que mantiveram seu uso, passaram também elas para uma agricultura capitalizada, e normalmente voltada para a monocultura (não mais à produção de comida, que foi, durante muito tempo, a relação essencial entre o ser humano e a agricultura). A cidade-território segundo o Schéma de Cohèrence Territoriale de Montpellier (2014), SCoT plano territorial) não reconhece fronteiras ao seu desenvolvimeto que não sejam aquelas do “custo do tempo” de deslocamentos e do investimento em novas estruturas urbanas.

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de cima para baixo, projeto de desenvolvimento de rede de espaços naturais e agrícolas, redes de transporte público e de dinâmica urbana e áreas estratégicas de projeto - SCOT de Montpellier

O SCOT (Schéma de Coherence Territoriale) é um documento de planejamento urbano adotado por regiões na França que determina na escala metropolitana um projeto para todo o território, visando colocar em coerência o conjunto de políticas setoriais, relativas à habitação, mobilidade, desenvolvimento comercial meio ambiente e paisagem. Pode-se analisar as ações dos SCOT em, organizar uma armadura urbana e suas hierarquias de redes e polaridades, prover de um matéria que constitua a intervenção, como a densidade urbana e a sua repartição pelo território, e os limites que a definem, perímetros e divisão das competências de cada região. A aglomeração urbana de Montpellier constituída por 31 cidades e vilas se constitui como um “mosaico” de diferentes regiões, cujo crescimento tem se dado de modo contínuo . No entanto, essa expansão causou, em 20 anos, a urbanização de 3000 hectares de terras agrícolas, o que é incondizente com o desenvolvimento sustentável almejado pela aglomeração urbana. Segundo o SCOT, cultivar o valor do meio ambiente vai além de uma abordagem puramente regulatória em termos de interdições e restrições: trata-se de inscrever todos os territórios envolvidos em uma mesma política. Serve como referência ao passo que tratando da aglomeração Montpellierana, coloca em marcha uma série de estratégias para conter o espraiamento.

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O Internationale Bauausstellung (IBA), é uma ferramenta de engenharia urbana e arquitetura para mostrar os novos conceitos em termos sociais, culturais e idéias ecológicas, durante um tempo limitado, em um território. Trata-se de inventar o futuro de uma metrópole. Para a implantação dessa estratégia, o IBA conta com os atores: governo, coletividades locais, representantes da sociedade civil, e a partir disso constrói-se uma estratégia, e então selecionam-se projetos pertinentes à estratégia. Por exemplo no IBA de Escher Park, 1989-1999 os eixos estratégicos foram o desenvolvimento de um parque, restabelecendo a atratividade das bordas do rio Emscher, assim como devolvendo-o à natureza; a restauração ecológica do sistema fluvial; proporcionar novas atividades com a reestruturação do antigo parque industrial e habitar no parque, propondo nesse caso de compensar o declínio demográfico da região. É interessante analisar o IBA como uma ferramenta de estrutura leve e flexível que é colocada à serviço das cidades e associações locais, facilitando o projeto, e a implementação desse projeto, ajudando aqueles que podem se beneficiar dos projetos propostos a encontrar o financiamento necessário para sua implantação e valorizá-los na escala regional e internacional. Além disso, a escolha de eixos estratégicos no IBA considera a capacidade de iniciar e sustentar ações decorrentes. O princípio adotado é de colocar em

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sinergia iniciativas locais para beneficiar uma estratégia metropolitana. O custo de implementação conta com linhas orçamentárias governamentais existentes ou em parceria com o setor privado. A dinâmica engendrada pelo IBA permite juntar projetos diferentes dando uma coerência que excede à escala local. Pode ser analisado, por sua vez, como um urbanismo de projetos. Interessa a esse projeto ter como referência o IBA, pois propõe-se como modelo que não serve apenas à Ribeirão Preto. Pode ser pensado como um sistema que não servirá a ser replicado em sua forma ou tipologia identicamente em vários locais, mas relaciona-se à uma problemática recorrente nas cidades brasileiras atualmente. É interessante ressaltar sobre o Plano Diretor Estratégico (PDE) de São Paulo as medidas que tangem à ampliação de áreas verdes propondo um fundo municipal de parques, a favor da conservação da biodiversidade, incentivo ao uso sustentável e principalmente interessa para esse projeto como contenção da expansão urbana. Jean Claude Nicolas Forestier, no entanto, ainda que em um contexto de urbanismo higienista na França, já defendia a proposta dos espaços livres como um instrumento de controle urbano e também de "reserva de território” para se opor à especulação. Em seu livro " Grandes cidades e sistema de

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parques” de 1908 no qual além de fazer um estudo comparativo com o modelo americano de Park System, debruçava-se sobre as questões da cidade, da aglomeração urbana e das periferias. Considerava que o plano de uma cidade não é o suficiente se não for complementado por um planejamento do conjunto e um plano especial dos espaços livres interiores e exteriores, como um sistema hierarquizado de reservas de terras a partir de diferentes tipos de espaços livres mas que não poderão ser envolvidas na especulação.

Nesse contexto da cidade contemporânea, necessitase pensar em como refrear esse processo de expansão das bordas urbanas, em prol dos últimos fragmentos do nosso patrimônio natural e paisagem, assim como do bem-estar urbano atual e no futuro. E pensar um projeto em uma zona limítrofe implica pensar também em lidar com a questão da agricultura, para boa parte das cidades. COMO O PROJETO URBANO PODE SE AGIR COMO DISPOSITIVO DE CONTROLE DO ESPRAIAMENTO URBANO E ARTICULAR O TERRITÓRIO LIMÍTROFE E DIVERSO EM QUE É PROPOSTO?

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AÇÕES PROJETUAIS O projeto propõe um sistema experimental de bairro que pretende ESTRUTURAR a intervenção a partir de um SISTEMA DE ESPAÇOS LIVRES DE DIFERENTES QUALIDADES, dando a essa ocupação uma característica de PRESERVAÇÃO dos recursos ambientais, assim como a RESTAURAÇÃO de zonas ambientais. É importante ANCORAR as novas urbanidades às existentes, reforçando eixos importantes da cidade e prolongando-os até a intervenção TORNAR VISÍVEL o patrimônio natural, assim como recuperar áreas de risco. Propor uma DENSIDADE que seja coerente com as áreas do projeto. Ter a agricultura urbana como o eixo estruturador da proposta.

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DO RURAL AO URBANO

A cidade de Ribeirão Preto teve seu núcleo original fundado com o declínio do ciclo do ouro em Minas Gerais. No entanto, seu verdadeiro desenvolvimento veio com o sucesso da cultura cafeeira lá implantada e com a construção da ferrovia Mogiana em 1883, para escoamento da produção cafeeira, que contribuiu extraordinariamente para tornar a cidade um polo econômico e político regional. A crise de 29, contudo, afetou a economia cafeeira de forma devastadora com a queda internacional do preço do café, o que teve impactos na constituição da forma da cidade, com a erradicação de extensos cafezais e a divisão de grandes fazendas dando lugar às propriedades de pequeno e médio porte. Segundo a justificativa do plano diretor de Ribeirão Preto, o setor da agropecuária somente recuperou o poder que possuíra anteriormente com o desdobramento industrial agroprocessado, ocorrido a partir de 1970, acarretando em um aumento considerável da população entre os anos de 1950 a 1970; ainda coincide nessa época a inauguração do campus da USP, que trouxe um aumento populacional permanente e flutuante para a cidade. O momento de reestabelecimento da economia agrária teve impacto inverso àquele posterior à crise, re-concentrando as terras agrícolas, mecanizando-as e expulsando o homem do campo. Nas últimas décadas, com a substituição da mão de

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fonte: justificativa técnica do plano diretor de Ribeirão Preto

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O mapa mostra à partir da EERP em um raio de 10km, o predomínio do cultivo da cana de açucar, a quase ausência de vegetação original, e o crescimento da mancha urbana sem continuidade física com a cidade existente em direção à Bonfim Paulista. Fonte: Plano de Manejo EERP


Na região sudoeste da cidade, próximo à EERP condomínio de chácaras e ocupação irregular, separados pelo muro do condomínio Fonte: Google Earth

obra permanente no campo pela temporária com residência na cidade, a Região Administrativa teve expressiva urbanização, chegando em 2010 a 97,52%. Em 1980, o desenvolvimento da cidade foi perceptível no eixo norte e de forma não contígua ao centro da cidade. Nesse mesmo período, houve a implantação da política de produção de habitação social na cidade de Ribeirão Preto e, ainda hoje, a cidade conta com boa parte dos conjuntos habitacionais na parte Norte, ou se não, majoritariamente na periferia de outras zonas. Em 1995, o vetor de crescimento de Ribeirão Preto foi definido como o eixo Sul em direção ao distrito de Bonfim Paulista. Tal distrito, fundado em 1894, era antes um povoado que surgiu da implantação de uma estação da ferrovia Mogiana para aliviar as estações de Cravinhos e Ribeirão Preto e hoje possui uma população de 27.000 habitantes. A intervenção parte da leitura de Ribeirão Preto como um centro regional, que se mantiver o desenvolvimento na região Sul semelhante ao que teve nos últimos anos, corre o risco de conurbar com seu distrito Bonfim Paulista à 16km de distância, e de acordo com os projetos de loteamentos já à venda, a tendência é continuar se expandindo até o limite de município com Cravinhos. Ribeirão Preto desenvolveu-se acentuadamente nesse eixo Sul com um perfil de habitação de alto padrão, e quase que exclusivamente de condomínios fechados. A

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cidade configura-se, portanto, por um vetor Norte, de habitação popular e com grande presença de núcleos de favelas; e Sul, com uma proliferação de condomínios fechados de casas e de prédios. A zona Sul da cidade, assim como a Sudeste e Sudoeste são os locais em que se encontram boa parte das nascentes de água da cidade, que devido à pressão da expansão urbana e mesmo para plantio possuem sua mata ciliar degradada. Justamente nessa área, logo após o anel viário, encontra-se a Mata de Santa Tereza, como é chamada pelos moradores da cidade, ou a Estação Ecológica de Ribeirão Preto (EERP), com 154 ha e com uma biodiversidade de mais de 300 espécies inventariadas de acordo com o "plano de manejo da Estação Ecológica de Ribeirão Preto" e que no entanto, começa a ser cercada de condomínios. A EERP foi definida em 1957 e desde então nenhuma outra área foi reconhecida como estação ecológica em Ribeirão Preto e mesmo esta área, única no sentido de sua extensão, está sobre o efeito de pressão de borda pelos condomínios.

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EERP

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Segundo o jornal "A cidade" de Ribeirão Preto, essa seria a área de 65 km² tombada como área rural, e portanto não passível de edificação fonte: Jornal A cidade, 03/10/2015

Recentemente em outubro de 2015, a Justiça tombou através de uma liminar uma área de 65 quilômetros quadrados, na zona Leste de Ribeirão Preto. A ação foi movida pelo GAEMA (Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente) e esta medida foi tomada a fim de preservar o Aquífero Guaraní, visto que esta é uma das áreas de recarga. De acordo com a medida, a área permaneceria permanentemente rural. No entanto, o Tribunal de Justiça de São Paulo, menos de um mês depois da decisão, suspendeu a liminar após a administração municipal entrar com recurso. A suspensão da liminar é, até o momento que este texto foi escrito, próvisória até que o mérito seja julgado. O Ministério Público se manifestou contrário à decisão da suspensão da liminar. Esse embate demonstra a dificuldade em agir no sentido de barrar a expansão da cidade, mesmo que manter a expansão da cidade signifique prejudicar ainda mais a recarga de um dos aquíferos mais importantes do Brasil.

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Proposta de Intervenção À partir desta leitura, identifico na cidade de Ribeirão Preto uma amostra muito significativa das discussões que iniciaram esse projeto sobre a fragmentação da cidade e suas consequências. Em sua tendência a se conurbar com as cidades limítrofes particularmente em uma área correspondente à partes das zonas Sul e Sudoeste, com o agravante de ameaçar o patrimônio natural que representa a Mata de Santa Tereza pondo em risco a estabilidade ambiental do fragmento de Mata Atlântica, e dos corpos d’água de toda a cidade, cujas nascente encontram-se em sua maioria nessa macro-zona. Ainda, como a questão do consumo das terras agrícolas para extensão da cidade.

Me proponho a pensar uma alternativa de ocupação nesse território que consiga fazer uma transição entre as áreas rurais e urbanas ao mesmo tempo que sirva como marco do fim de uma zona e começo de outra, estabelecendo finalmente um limite para a expansão desse território por meio do estabelecimento de um sistema de espaços livres como reserva de terras públcas não ocupadas.

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esquema de situação

A área escolhida para essa proposta dista do centro consolidado da cidade aproximadamente 4 quilômetros, e dessa área até a Mata Santa Tereza mais 4 quilômetros; de um lado conecta-se com o bairro existente passando por sobre o Córrego Vista Alegre e do outro vislumbra os campos de plantações, pertencentes à fazenda experimental da USP, ao norte, encontra-se o campus USP, cujo acesso à partir da área escolhida para o projeto se dá pela Avenida Bandeirantes. Considerando a singularidade da região, e segundo a proposta de refrear o consumo da terra, estabeleço assim no projeto uma gradação, no sentido longitudinal, centro-estação ecológica, que implica numa diminuição da densidade de ocupação desse território à medida que se distancia do centro da cidade. O córrego Vista Alegre que separa o bairro existente da área escolhida é um dos córregos da região cuja vegetação encontra-se bem devastada, torna-se essencial portanto pensar a recuperação de suas margens ao mesmo tempo não se deseja fechar completamente a vista dele, e isolá-lo da cidade ou da proposta, ele participa como um dos eixos estruturantes da proposta, logo a outra gradação que proponho refere-se à variação da densidade de vegetação, que por sua vez segue a seguinte lógica: mais rarefeita no bairro (como existente), densa às margens do córrego, numa área correspondente à APP, e mais rarefeita ou

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A região correspondente aos bairros próximos à área de projeto é diversa, à medida que reúne uma certa configuração de cidade, com infra-estruturas, e a questão da agricultura co pequenos canteiros cultivados (agricultura urbana) mas também algumas poucas propriedades produtoras de gêneros alimentícios.

ainda não tão escassa, mas presente com um registro mais artificializado no parque e avenida à medida que avança em direção a área construída, onde mesclase com a agricultura, concebida aqui também como elemento de composição da paisagem, seguindo as curvas de nível do terreno, pelo escalonamento dele, formam-se os canteiros . Oito são as conexões estabelecidas entre o bairro e a cidade, cinco pontes que comportam veículos e pedestres e três passarelas, partindo essencialmente de eixos que já eram estruturadores dessa região, como avenidas importantes, conexões com equipamentos públicos ou passarelas improvisadas pelos habitantes. Os elementos de composição da intervenção são:

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O esquema sintetiza as diretrizes de intervençao, criar no bairro proposto urbanidades conectadas com equipamentos e eixos de importância do bairro existente, propor uma gradação dos espaços livres mais naturalizados ou artificializados, e estruturar a habitação a partir dos jardins de agricultura

um sistema de espaços livres, composto por uma APP, um parque linear ao longo do córrego, jardins de agricultura urbana e pomares e 2 praças. Edifícios de habitação, propostos como habitação de interesse social, e de habitação de mercado popular, mas em casos específicos, nos locais onde chegam as pontes, essas construções abrigam equipamentos públicos, criando uma conexão direta com equipamentos da cidade, e propondo também um uso misto dentro do bairro.

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Esquema dos diferentes espaços livres, um caminho longitudinal percorre esses diferentes espaços em alternância, proporcionando uma sucessão de diferentes experiencias, e por toda a intervenção é possível acessar um espaço à partir do outro na transversal.

Esquema das conexões viárias ao bairro existente, a Rua Rangel pestana é a única excessão, que não possui nenhum equipamento público significativo, no entanto representa uma importante rua comercial da região.

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o corte transversal indica a diminuição gradual da vegetação, assim como a mudança na sua forma de apresentação.

Os equipamentos são uma sede para o Centro de Estudos e Extensão florestal da usp, na parte mais próxima à reserva, visto que segundo o "plano de manejo da EERP" seria necessário um maior contato entre a população e a estação ecológica e com a problemática relativa à sua degradação, e portanto a necessidade da aproximação com o público assim como uma extensão da sua sede física. Um centro comunitário, onde se propicia o espaço para a organização dessa comunidade em torno do cultivo em cada jardim no centro das quadras para agricultura, assim como podem se desenvolver projetos de produção de outros produtos à partir das colheitas, agregando valor aquilo que se produz nessa terra, podendo vir a ser uma fonte de renda para mantimento dessa organização comunitária. O terceiro equipamento público é um posto de saúde, localizado na região mais central da proposta, tornando seu acesso mais facilitado, e diminuindo a necessidade de deslocamentos motorizados. Uma escola é proposta numa das áreas mais densas da proposta. E à proximidade da sede da Fazenda experimental da USP, propõe-se um anexo à sede original, que poderá propiciar o contato entre pesquisadores e população, utilizando da tecnologia e conhecimento que a universidade pode prover em prol dessa comunidade em relação ao sistema de agricultura urbana. Também se apresentam alguns comércios no

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térreo desses quarteirões especiais que possuem equipamento público, no sentido de prover a esses locais uma certa urbanidade. Os jardins de agricultura compõe um dos eixos de implantação do projeto, a linha condutora dessa urbanização é o espaço livre, nesse caso definido pelos formato da quadra, e dos prédios. Esse formato de quadra também delimita sem fechar as áreas de plantio, atribuindo para cada conjunto de cidadãs o de um mesmo bloco a responsabilidade por esses jardins. A área continua sendo pública e aberta, mas o cultivo dessa área passa a ser responsabilidade de cada quadra. Nas unidades de HIS e HMP, cada caixa de escadas dá acesso a quatro unidades, distribuidas de forma mista entre os prédios de habitação, e a planta se organiza ao redor de uma parede hidráulica. Os apartamentos de HMP, são duplex, o que explica a preferência por colocá-los normalmente no térreo, visto que somente áreas menos privadas da casa estarão ao nível do solo. A estrutura é metálica, que entre outras vantagens é praticamente cem por cento reciclável, o fechamento de tijolo de barro, pois é uma matéria facilmente encontrada, e placas de concreto nas paredes hidráulicas para facilitar a manutenção desse sistema.

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A

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CORTE AA 32


Vista de denro de uma quadra de habitação, à partir do caminho principal

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Trilhas, caminhos e passarelas de diferentes características e experiências, juntamente ás ruas e pontes compõem esse território e interligam os diferentes ambientes nos possíveis percursos dentro da intervenção. O projeto se compõe de três caminhos principais, o primeiro deles estrutura a proposta construída do projeto, faz a ligação entre os jardins de agricultura no centro dos blocos, esse caminho, comporta a utilização por pedestres e de ciclistas. Sua inclinação aumenta de forma constante durante quase todo o trajeto, e não ultrapassa dez por cento de inclinação, sendo que na maioria de seu trajeto fica bem abaixo disso. A experiência que ele proporciona é da convivência com essa diferente urbanidade, pois passa pelos centro dos blocos, local pensado como o local de convívio dos habitantes, seja pela utilização dos espaços públicos, e comércio ou pela própria questão dos jardins de agricultura. A agricultura que se propõe nesses jardins não é a do sustento desses habitantes, pois isso exigiria um extensão muito grande de terras, e o projeto se propõe a pensar cidade e produção agrícola de formas diferentes das usuais, mas assim como identificado no bairro existente, é pensada como local que pode comportar uma atividades paralela ao seu sustento. Esses jardins, são geridos pelos próprios habitantes, como comunidade organizada. Planejando quais culturas, lhes são interessantes, como pode se dar a distribuição, e ainda como podem-se pensar formas de valorizar a sua produção podendo em algum momento prover-lhes alguma fonte de renda, ainda que isso não seja o essencial da proposta, por exemplo com a feitura de algum produto que possa agregar valor aos frutos de suas plantações e pomares. Para

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poder abrigar uma organização comunitária, proponho como primeiro equipamento um centro comunitário, esse centro fica bem em frente à uma das praças da intervenção, e nessa praça bem em frente ao centro comunitário uma grande marquise oferece um espaço livre e coberto que pode vir a servir para uma pequena feira aberta à comunidade. Para cultivar essa terra, da forma mais eficiente possível, é interessante estabelecer uma conexão entre moradores e a comunidade universitária da USP, a fazenda experimental da USP faz fronteira com a intervenção e é por isso que foi proposto um equipamento público dedicado à Fazenda Experimental da USP. O segundo caminho atravessa toda a extensão do parque, este por sua vez possui um apelo mais recreacional, e em alguns locais contemplativo, assim como um maior contato com biodiversidade restabelecida ali, ele proporciona acesso à áreas que comportam atividades ao ar livre, como esportivas por exemplo. Este caminho também possui forte apelo contemplativo da densa vegetação da Área de Proteção Permanente ao percorrê-lo. À partir desse caminho, acessam-se, os viveiros de mudas, que podem servir para o reflorestamento da própria área assim como outro recurso a ser explorado de forma sustentável em prol da própria comunidade. Acessa-se também o deck que proporciona um estar no limite do parque antes de adentrar a APP, logo, à partir dele, toda a estrutura é de madeira construindo uma passarela de pedestres por sobre o córrego tocando de forma mínima o solo, para reduzir o risco de impermeabilização do mesmo.

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O terceiro caminho é um elemento importante dentro do projeto, constituído por um eixo serpenteante que costura os dois extremos do projeto. Passando por APP, parque, rua, agricultura e praça e retornando, esse eixo é demarcado por árvores de floração exuberante, como o Ipê roxo (Handroanthus impetiginosos), esse eixo às vezes é acompanhado de caminho, às vezes não e quando florido, acende aos olhos dos observadores essa conexão. Ele é proposto como um marco efêmero da proposta de conexão e transição desse projeto. Esse eixo proporciona um único caminho de entrada dentro da APP, por meio de uma trilha de seixo rolado, permitindo adentrar um pouco à APP, mantendo o solo permeável, essa mesma trilha manterá o seixo rolado durante todo seu trajeto mesmo quando adentra à parte mais urbanizada da intervenção, mantendo assim uma riqueza de materialidaes diferenciadas por toda a intervenção. Essa inserção dentro da APP, é proposta à partir a identificação de uma ponte improvisada pelos moradores do bairro existente, o que demonstra por parte deles um interesse nessa região que o projeto ocupa, além disso a proximidade com o Conjunto habitacional Adão do Carmo Leonel com o qual faz conexão torna dessa área de APP, apesar da vegetação mais densa uma zona que não ficará longe do olhar do público , reduzindo o risco da não utilização do caminho por medo da população de ser um local sujeito à criminalidade. Essa proximidade com zonas habitadas, assim como o caráter de passagem da passarela o que indica uma certa frequência de pessoas passando pela região, reduz a sensação de insegurança que poderia provocar. Os outros caminhos de pedestres propostos se dão no sentido transversal e conectam cada quarteirão com o caminho principal do parque, sempre sombreado por árvores frutíferas introduzindo até o parque essa cultura

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caminho dos ipĂŞs, ao passar pela APP, onde uma das passarelas liga bairro novo e antigo

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Centro de estudos e extensão florestal USP

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Centro comunitário

posto de saúde


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ensino fundamental

anexo da fazenda experimental da USP

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que aparece no projeto com um registro mais artificializado. O reflorestamento da APP, assim como o plantio em todas as áreas do projeto, seguem as orientações de espécies presentes no Plano de Manejo da estação ecológica de Ribeirão Preto. A variedade de espécies é benéfica não apenas para o equilíbrio ecológico da APP, e para o sucesso do reflorestamento, mas também contribui na composição dessa paisagem, por meio de suas diferentes copas e troncos, ajudam a constituir uma paisagem variada. O documento: Plano de Manejo da Estação Ecológica de Ribeirão Preto (Fundação Florestal do Estado de São Paulo, em conjunto com o Instituto Florestal e equipe de elaboração), é uma ferramenta interessante para essa intervenção, visto que visa, segundo José Amaral Vagner Neto, diretor executivo da Fundação Florestal, para a recuperação dessas áreas “reduzir a pressão imobiliária, adequar o atendimento ao público em projetos de educação ambiental e pesquisa, com infra-estrutura, recursos humanos, (…) conservação da biodiversidade em parceria com a população, (…) enfim, conciliar o desenvolvimento urbano em seu redor à conservação do patrimônio natural." No ultimo prédio portanto da intervenção, o mais próximo ao acesso da rodovia que leva à Estação Ecológica, será destinada ao Centro de estudo e extensão florestal da USP, tanto para o desenvolvimento de suas pesquisas, como espaço para contato dos profissionais responsáveis pela reserva com a população residente.

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Fonte das fotos de árvores: LORENZi, Harri; Árvores Brasileiras: Manual de Identificação e Cultivo de Plantas Arbóreas Nativas do Brasil, volumes 1, 2, 3


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Duas praças introduzem nesse eixo construído um pouco do ambiente do parque, a praça mais ao centro do bairro proposto é maior, em primeiro lugar pois devido à sua localização é mais facilmente acessada por todo o conjunto e em segundo lugar, para comportar dentro de si um micro reservatório para captura de água pluvial, esta decisão se deu à partir da percepção de uma depressão nas curvas de nível, e à presença de curvas de nível típicas de fundo de vale conduzindo até o córrego. Propõe-se então ao invés de deixar as aguas pluviais irem diretamente ao córrego, aproveitando o perfil topográfico encontrado fazer neste local o micro reservatório, e conduzindo parte das águas até ele, um espelho d'água, escalonado bem no centro da praça, iniciando no ponto mais alto, e “desaguando” na micro bacia ou área alagável, quando receber uma quantidade de água acima de sua capacidade. Além de diminuir o impacto de chuvas intensas no volume do córrego Vista Alegre, essa micro bacia também pode servir como reservatório de água para a atividade de plantação. Além disso, traz para esse setor mais denso de habitações, o contato com a água, que não é possível de ocorrer com o córrego. Nessa praça, predominam os espaços verdejados, na parte mais próxima ao parque linear, e na parte mais alta do terreno, onde fica o espelho d’água predominam espaços mais acessíveis, com plano de piso de concreto, mas com eventuais buracos para o plantio de árvores, à partir da micro bacia predominam campos somente cobertos por grama ou vegetação mais rasteira e agrupamentos de árvores de tamanhos variados. Duas passarelas vencem a micro bacia, conectando os dois lados da praça. 46


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espelhos d'água

A outra praça propicia através de sua maior extensão de vias calçadas, de sua marquise e pista de skate procura por sua vez resgatar um caráter mais urbano da intervenção e ser um local atrativo para a população de todo o bairro, enquanto espaço construído para convívio humano e estabelecimento de atividades sob a marquise. As duas praças têm papéis complementares, a última ativando e atraindo urbanidade no ultimo trecho do projeto que já apresenta uma menor densidade habitacional e a primeira inserindo a natureza nos primeiros trechos mais densos do projeto. Além dessas duas grandes praças, outras 11 de dimensões bem menores são criadas à partir das empenas cegas dos edifícios criando uma ambiência diferente dos outros espaços da intervenção, esse espaço é respaldado pelos dois muros, e seu calçamento de cimento como o das ruas ao redor, conta com bancos, mas o que é o seu maior elemento de composição desse espaço é a própria empena cega.

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pista de skate

canteiros de ervas aromáticas

faixa com vegetação mais rasteira de grama e arbustos percorrendo toda a intervenção, acompanha o caminho de seixo rolado

caminho de seixo rolado

marquise

pavimento intertravado permeável


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CONCLUSÃO Pensar um sistema de ocupação de zonas periféricas da cidade que imponha uma barreira no avanço da extensão física da cidade implicou necessariamente que o projeto do novo loteamento se desse à partir dos espaços livres, sendo que foi de especial importância as áreas de proteção ambiental, como a APP e a presença da estação ecológica à sua proximidade. Com o plano de manejo da Estação Ecológica podemos perceber uma crescente preocupação das organizações governamentais responsáveis com o avanço da expansão urbana de Ribeirão Preto sobre os últimos fragmentos de recursos naturais da cidade, o que reforça a proposta de espaços livres e apresenta um dos potenciais agentes que poderiam sustentar e apoiar essa proposta, assim como programas governamentais de habitação popular, e é fato que já existe no bairro a questão da agricultura urbana, portanto contando com parte dessas pessoas que ali habitam O projeto é dotado de duas densidades graduais, uma relativa à massa arbórea e de vegetação, que procura fazer uma transição suave da APP até chegar no bairro, e a outra que é a densidade urbana, sendo ela maior quanto mais próxima ao centro, e vai diminuindo e se tornando mais artificializda à medida que avança em direção à zona rural. Os percursos, com suas diferentes qualidades, são

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essenciais na estruturação dessa rede de espaços livres, conduzindo dentro da intervenção aos diferentes ambientes proporcionados por esses espaços livres, os dois percursos principais, um entre as construções e outro no seio do parque podem parecer antagônicos, mas fazem sentido nessa proposta de compor o tecido urbano à partir de um convívio mais harmonioso entre o artifício humano da construção e os espaços naturais, ainda que os últimos também tenham que ter sido reconstituídos pela mão humana, um terceiro eixo serpenteia entre esses dois, em alguns momentos como caminhos, mas em toda sua extensão como um eixo de ipês roxos, marcando ainda que de forma intermitente esse eixo. As praças por sua vez oferecem nos locais onde são implantadas uma variedade àquilo que está no entorno, e um "respiro" nessa ocupação que não quer se propor de forma muito severa. O bairro proposto pode servir de um modelo a ser replicado em outras áreas fragilizadas ambientalmente dentro da própria cidade, aumentando a possibilidade de estabelecer corredores ecológicos que seriam essenciais para reduzir a fragilidade desses ecossistemas e fortalecê-los como estratégia de contenção da expansão urbana, que além de eliminar os malefícios da última, melhorariam muito a qualidade de vida nas cidades. No entanto o sistema de áreas livres na urbanização de zonas limítrofes não funciona somente para Ribeirão Preto, poderia ser replicado em tantas outras cidades que apresentam o mesmo problema de espraiamento urbano, devastação de seus recursos naturais, e consumo de terras urbanas e agricultáveis por meio da sua mercantilização.

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