DOIS RIOS, UM CANAL | DO TRANSPORTE À CULTURA - DALMER ORDONTIS

Page 1







Introdução

Cidade entre rios

7

13

Da várzea à metrópole Canal, o articulador da rede

17 21

Catalisadores eletrolíticos

35

A estratégia da cultura

44

Cidade e lugar

52

Ensaio projetual

66

Uma questão chave

83

Considerações

102

Anexos

108

Bibliografia

116





introdução

01

A arquitetura parte da materialidade para a construção do imaterial. O vazio e a experiência espacial que ela proporciona eleva-a além da ciência, atribuindo-lhe status de palco das relações entre os homens e destes com o próprio espaço no decorrer do tempo. Pressupondo vivência, a arquitetura toma para si a responsabilidade de interagir com a produção da cidade contemporânea que se desenvolve numa escala e com uma velocidade muito além da capacidade que, como arquitetos, temos para responder à chamada "cidade informal", sem plano, “caótica”, global. A cidade que cresce trazendo junto a obsolescência das infraestruturas urbanas e clamando pelo aproveitamento dos espaços residuais, passíveis de se tornarem pontualmente urbanidades compositivas de um sistema que vai além de meros valores funcionais. 9


introdução

São Paulo já possui números relevantes no que tange às possibilidades culturais, com aproximadamente 90 museus, 260 salas de cinema, 160 teatros, 39 centros culturais, 7 casas de espetáculos, além de parques, clubes e estádios¹. A questão maior que envolve o vasto complexo urbano é o acesso de todos a esses serviços, já que a maior parte dos equipamentos localiza-se nas regiões centrais e oeste da cidade, gerando assim uma falsa impressão de uma cidade ideal, no que diz respeito ao suporte à cultura, pois, assim como sua vasta mistura de povos e expressões culturais, os suportes para os mesmos estão desconexos e heterogeneamente alocados no território. «A teorização da cidade como fluxo, e como território atravessado pelos fluxos globais da economia, as comunicações e o turismo, contribuiu para afastar qualquer aspiração a gerir a totalidade urbana». ²

O objetivo desse trabalho não é discutir as questões gerais da cidade e tampouco concluir qual a melhor solução para os problemas. Como um trabalho final de graduação sua única proposição é sugerir uma conversa sobre o que me pareceu mais importante durante os anos na escola: o binômio homem-cidade, no que ele diz respeito à apropriação dos espaços e à dimensão pública da experiência urbana. Sendo a cidade expressão do tempo e da memória, traz junto de si as marcas do pensamento e dos anseios do homem. E em uma dessas marcas, à porta de saída dos bandeirantes, que encontrei o que, a meu ver, é a maior das potencialidades na malha urbana paulistana, o complexo viário do "Cebolão". 10


introdução

O memorial que segue, está apresentado cronologicamente, como se deu o processo de desenvolvimento do mesmo, com uma aproximação da cidade no que tange os rios, as questões das artes como catalisadoras de mudanças, a experiência do lugar e as questões de projeto e, por fim, como resultado disso no fazer diário do arquiteto, apresento o ensaio projetual desenvolvido ao longo do último ano.

1

Dados da São Paulo Convention & Visitors Bureau, disponíveis no site

www.visitesaopaulo.com 2

CASTELLS, Manuel. La ciudad informacional. Madri: Alianza, 1995.

_ FRANCO, Fernando de Mello; et. al. São Paulo. Redes e lugares. Arquitextos, São Paulo, 07.077, Vitruvius, out 2006. _ MMBB. Vazios de água. Ensaio Publicado na Revista Eletrônica de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Judas Tadeu. São Paulo. _ CORRÊA, Roberto Lobato. Estudos sobre a rede urbana. Rio de Janeiro, 2006.

IMAGENS: Capa. Luiza M. Sigulem 01. Paulo Sacramento 11





cidade entre rios

Desde que o homem decidiu se estabelecer em um local, toda aldeia, vila ou urbe relaciona-se com algum veio d’água. A necessidade natural que temos dos recursos hídricos é o principal fator do "surgimento" dos rios urbanos, que atualmente encabeçam as listas de questões de infraestrutura urbana e gestão ambiental das megalópoles em desenvolvimento. VALE A PENA Em 2008, o Estadão fez uma série de reportagens sobre megacidades. Com infográficos que partem da mesopotâmia até os dias atuais, as reportagens mostram e tentam entender as questões urbanas e ambientais que envolvem as grandes cidades contemporâneas. 01

http://www.estadao.com.br/megacidades

15


cidade entre rios

Dada a importância primeira da sobrevivência e posterior do desenvolvimento, os rios permeavam o imaginário coletivo sempre marcados por um certo respeito e admiração. A partir do domínio de novas técnicas de irrigação do solo, transporte de cargas e de pessoas, a relação do homem com os rios foi alterada, transformando todo o imaginário positivo apenas em lembranças. Atualmente, as maiores cidades do mundo estão nos chamados países emergentes, que movidos pelo rápido desenvolvimento econômico dos últimos anos, crescem de maneira ainda mais desordenada, acentuando claramente a dificuldade técnica de seus administradores para lidar com a nova demanda de infraestrutura urbana. Essa incapacidade administrativa, reflete por questões de ordem social, ao lançar os mais desfavorecidos economicamente em locais menos qualificados infraestruturalmente. Nesse jogo de mais e menos o que se vê é a baixa ou nenhuma condição de saneamento, a ocupação irregular das margens e as mudanças físicas nos canais; acarretando ao longo de todo o curso, alagamentos, enchentes e problemas de saúde pública. O caso de São Paulo não poderia ser diferente. Além da ocupação irregular gerada por todos os problemas sociais, disparidades econômicas e má administração urbana da cidade, o próprio poder público ignora, desde a época da Vila, o fato de que os rios possuem seus tempos de cheia; ocupando suas margens, com o que eles julgam ser, a prioridade das infraestruturas: as vias marginais.

16


cidade entre rios

DA VÁRZEA À METRÓPOLE PELOS RIOS Em um território marcado por duas tipologias geográficas, surge no topo do planalto, a vila de São Paulo de Piratininga. Essa configuração de vales e planícies favoreceu o estabelecimento do povoado em uma cota que proporcionava certa segurança e, ainda assim, proximidade com a água, já que as cotas mais elevadas, encontram-se normalmente entre rios, no caso o Tamanduateí e o Anhangabaú. Curiosamente depois de séculos, São Paulo ainda se vê postada entre dois rios, que apesar de já terem sido topograficamente superados, delimitam a maior parte do território onde se concentra o dia-a-dia da metrópole. A cidade se expandiu superando as dificuldades topográficas que o território oferecia para a conformação de um tecido urbano, saltando por sobre o Rio Tietê e seu principal afluente, o Pinheiros.

02 Gráficos de desenvolvimento 03 populacional das 04 metrópoles.

Nesse meio, entre rios, a capital ainda se viu regada por uma vasta rede de veios d’água. Sem se importar com as barreiras, a cidade se aproveitou desses momentos, de planos - baixos e altos - para estabelecer o que hoje é parte integrante do sistema de estruturação da cidade: as avenidas de grota e as de fundo de vale, construídas sobre veios canalizados. 17




cidade entre rios

O processo de transformação de São Paulo de vila em metrópole passa impreterivelmente por seus rios. Nas planícies mais baixas viu-se a retificação de rios sinuosos e a ocupação de suas várzeas. As terras que a princípio eram rejeitadas pelo constante incomodo das cheias, tornaram-se palco principal do processo de desenvolvimento econômico e espacial da cidade. Na várzea foram implantados os principais escoadores das riquezas da capital: primeiro a ferrovia e posteriormente as marginais. De forma fragmentada e desforme, a ocupação do território, em parte forçada por sua geografia, é constituída por ruas e lotes baseados na propriedade da terra. A cidade que renegou seus rios, supera seus desníveis das formas mais variadas e descabidas, forçando os canais naturais e as águas pluviais a circularem entre as existências estabelecidas pelo poder do capital, que subjuga o território, as pessoas e a produção do espaço público; acarretando questões de segurança e saúde, como as enchentes que assolam São Paulo periodicamente nos período das chuvas, deixando um rastro de caos, miséria e doenças. Ignorado a principal de todas as preexistências, a cidade é produzida muitas das vezes por quem a enxerga, não sob um olhar moldado pelo conhecimento teórico, mas pela vivência. Ao longo dos anos, talvez por um distanciamento ou mesmo por incapacidade, a arquitetura não tem respondido às questões de infra-estrtura da cidade, abdicando de algo que a compete e permitindo a implementação de soluções meramente funcionais, baseadas em paradigmas políticos de definições rápidas e "agaranhadoras" de votos. 20


cidade entre rios

CANAL, O ARTICULADOR DA REDE

«A velocidade da urbanização das metrópoles brasileiras tornou inócua grande parte das tentativas de se ordenar a produção do ambiente construído, o que mantém como pauta a delimitação do campo possível de ação dos arquitetos.»¹

São recorrentes as tentativas de solucionar uma questão urbana através de um recorte parcial do território. A cidade com suas costuras, por mais frágeis que possam ser, é passível de ser lida de forma rizomática, onde 05 Conformação topográfica do território central de todas as intervenções são sentidas pra além dos pontos trabalhados. 06 São Paulo.

07 Fundação de São Paulo, 1913. Antônio Parreiras 08 Rio Pinheiros prestes a ser 05 retificado, 1929. Época de cheia no Rio 09 Pinheiros. 10 Encontro dos rios Tietê e Pinheiros, e a Ferrovia Sorocabana, 1937.

Planos baseados em conceitos como os de rede, espraiamento e eixo vêem se tornando uma das melhores possibilidades de intervenção na metrópole. A implementação de infra-estruturas que, além de cumprir seu papel funcional, possuem caráter local e ainda fazem sentido dentro de um sistema estruturador difuso na cidade, gera possibilidades de transformação ao longo de todo o sistema. 21


cidade entre rios

Esse momento que alterna entre as escalas da cidade, aproximando e distanciando do território, transforma o paradigma da infra-estrutura funcional em uma escala metropolitana, para uma escala local gerando urbanidades ao considerar território, pessoas e possibilidades. Com esse novo padrão, as infra-estruturas deixam de ser desagregadoras em uma escala local, para se tornarem articuladoras de espaços adequados à vida pública, redesenhando a paisagem e possibilitando uma relação afetiva da população que com ela convive. «A implantação dos grandes sistemas de engenharia em um sítio colinoso convergiu para a transformação estratégica das várzeas da Bacia de São Paulo, onde se associaram os fluxos viários aos recursos hídricos e à disponibilidade de terra plana e barata. A passagem da "cidade industrial" para a "cidade contemporânea" ampara-se na preexistência dessa mesma base técnica, reforçando sua importância. Porém, o processo de urbanização descontrolada impôs uma impermeabilização excessiva do solo urbano, e em especial às várzeas, outrora operando como espaços de regulação hidrológica. O resultado é o problema crônico das enchentes que atinge toda a população. Os habitantes das áreas desvalorizadas próximas aos cursos d`água convivem reincidentemente com situações de risco. Os demais sofrem com a dificuldade imposta à mobilidade associada ao sistema viário estrutural implantado em paralelo ao caminho das águas.»¹ 22


cidade entre rios

Assim como o curso dos rios já foi usado no passado como linha-guia para implementação do sistema viário estrutural, podemos entendêlos - Tietê e Pinheiros - como um único canal que possibilitaria a estruturação de um sistema que iria além, do imaginário imediato, do transporte de cargas e passageiros, mas que também exerceria papel fundamental na reconstrução da paisagem urbana das suas margens, transformando-as de barreiras urbanas em locais de "sociabilidade e pertencimento".¹ De forma impensada e nada agradável as margens maiores (as várzeas) já foram ocupadas, criando verdadeiros obstáculos e distanciando a cidade dos seus rios. São Paulo precisa se reconciliar com seu principal canal hídrico e uma das possibilidades que potenciaria esse processo é o uso consciente das margens imediatas que o canal ainda preserva, implementando as infra-estruturas para o transporte, mas também inserindo novos espaços públicos ao longo do mesmo.

«O reconhecimento do espaço público inicia-se pela acessibilidade e conformação de seus limites, a serem garantidos pela construção de uma rede de circulação que lhe margeie. A associação desses espaços à passagem do transporte público, à transposição dos canais, à integração das suas margens e à conectividade com o tecido urbano lindeiro o reforçarão.»¹

23


cidade entre rios

Em um primeiro momento essa leitura a respeito do canal TietêPinheiros, pode parecer distante e impossível. Mas como um trabalho crítico, que visa uma conversa sobre as questões atuais da cidade, vamos aqui nos ater um pouco ao trabalho, recém publicado, pelo grupo de pesquisa Metrópole Fluvial, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo; que nada mais é do que um estudo de pré-viabilidade do projeto para o Hidroanel Metropolitano de São Paulo. A proposta vai além dos dois maiores rios da região metropolitana, mas permeia os meandros do território com o objetivo de aproveitar todo e qualquer veio d’água possível de ser navegado ou de se tornar navegável. O projeto prevê, principalmente, a utilização do canal TietêPinheiros e das represas Billings e Taiaçupeba, além da implantação de um canal artificial que fecharia o novo cinturão hídrico. Como o objetivo não é explanar a respeito do trabalho do grupo, colocarei a seguir parte do texto convite para a apresentação oficial do projeto, que ocorreu em março deste ano no auditório da FAU-USP, que resume de forma clara os objetivos e algumas ideias do projeto e alguns trechos do memorial de desenvolvimento da pesquisa, a fim de caracterizar como plausível a proposta projetual desenvolvida ao longo do último ano e que será apresentada mais adiante.

24


cidade entre rios

VALE A PENA Todo o trabalho desenvolvido pelo Grupo Metrópole Fluvial, incluindo pranchas, mapas da região metropolitana, desenhos técnicos e memoriais, estão disponíveis no site: http://metropolefluvial.fau.usp.br

HIDROANEL METROPOLITANO DE SÃO PAULO Nem sempre é bossa o balanço das águas que fecham o verão. Sobretudo, quando tratamos das cidades brasileiras, o saldo é na maioria das vezes, infelizmente, devastador. Apenas nos últimos anos vimos três grandes estados do país protagonizarem as manchetes dos noticiários com relatos de enchentes históricas – e perdas humanas e materiais inestimáveis. As águas tomaram conta de Santa Catarina, em 2009, do Rio de Janeiro, no começo de 2011 e, no fim deste mesmo ano, vimos bairros inteiros da capital mineira submergir. Mais recentemente, o Acre entrou em estado de emergência. Em São Paulo a inimizade entre as águas e a cidade é estrutural e suas razões profundas vêm do crescimento rápido, desorganizado e cego da cidade sobre um território rico em potencial hídrico. Os desdobramentos dessa desorganização os moradores das cidades conhecem muito bem e sentem na pele a cada estação de chuvas. [...]. Os estudos para a implantação do Hidroanel Metropolitano, realizados durante o ano de 2011, pretendem reafinar o tom e retomar a melodia entre a estrutura urbana e os inúmeros rios e córregos que 25


cidade entre rios

habitam a região – sanando assim, um dos problemas mais antigos e recorrentes na grande são Paulo: as enchentes. Para tanto o projeto articula o potencial de navegação que reside nos rios da grande São Paulo ao transporte e tratamento dos resíduos sólidos urbanos, tocando assim num outro ponto crítico da região metropolitana: a produção de lixo. A proposta é estabelecer uma rede de vias navegáveis, composta pelos rios Tietê e Pinheiros, pelas represas Billings e Taiaçupeba além de um canal artificial ligando essas represas, totalizando 170km de hidrovias urbanas. A função fundamental dessas hidrovias será a do transporte dos resíduos sólidos urbanos que, além do lixo, nossa referência mais imediata, são também o entulho bem como a terra movimentados por obras da construção civil, o lodo das estações de tratamento de água e esgotos e os sedimentos da dragagem dos próprios rios. Não apenas o transporte dessas cargas públicas foram pensadas como também se propõe, ao longo do anel hidroviário, “tri-portos”, ou seja, estações onde os resíduos são tratados – reciclados, bio-digeridos e, em última instância, incinerados – e, posteriormente possam vir a ser matéria prima para a indústria. A perspectiva do projeto do hidroanel, ao reorganizar o metabolismo infra-estrutural da região metropolitana, além de aliviar a malha rodoviária – meio pelo qual é feito o transporte dessas cargas hoje – é restabelecer os rios como elementos vivos na paisagem urbana. Uma série de parques e praças d’água são concebidas ao longo do trajeto dos rios e represas de modo que as águas já não sejam um entrave ou uma barreira mas sim um ambiente de convergência e encontro. 26


cidade entre rios

RELATÓRIO CONCEITUAL DO HIDROANEL METROPOLITANO DE SÃO PAULO «O sistema de rios de São Paulo é naturalmente o principal estruturador da metrópole: a cidade se estabeleceu em volta dos rios e depende deles para a sua manutenção. No entanto, no processo de rápida expansão urbana, as transformações necessárias na Bacia Hidrográfica do Alto Tietê foram colocadas em segundo plano e as intervenções executadas em seus leitos não atenderam às necessidades que o crescimento da cidade impõe. As consequências desse processo são cotidianamente sentidas em São Paulo: enchentes, dependência excessiva do transporte rodoviário e desarticulação dos rios com a cidade, do ponto de vista logístico e urbanístico. Os rios se tornaram um problema urbano – ou seja, mais do que um problema hidráulico os rios de São Paulo são um problema social.»¹ «Atualmente em São Paulo os principais rios e córregos já se encontram reformados, tendo sido retificados e canalizados - diferentemente da sua condição natural de rio de planície,caracterizados pela ampla área de várzea e pelos meandros que se transformam naturalmente a cada ciclo de cheias e estiagens.»¹ 27


cidade entre rios

«A implementação do Hidroanel Metropolitano se justifica pelo transporte de Cargas Públicas: sedimento de dragagem, lodo, lixo, entulho e terra. As Cargas Públicas são de responsabilidade do Estado e seus gerenciamentos são imprescindíveis para o funcionamento adequado da cidade. Esses cinco tipos de cargas são transportados e processados ao longo do Hidroanel. [...] O programa de transporte associado ao modal hidroviário faz com que as águas tenham um papel essencial na logística da metrópole, contribuindo para reverter definitivamente a percepção do rio como um problema urbano. Ao colocar a hidrovia como cerne da transformação, o rio se torna um elemento funcional da cidade, cuja manutenção configura um investimento em uma atividade importante.»¹ «Cargas comerciais, como material de construção civil, engarrafados e hortifrutigranjeiros, poderão ser transportadas via fluvial em um segundo momento [...]. O mesmo se pode concluir a respeito do transporte de passageiros, sobretudo com finalidade turística e de travessia lacustre. Essas "cargas secundárias" viriam usufruir do sistema hidroviário implantado sem interferir no transporte de Cargas Públicas, assim otimizam o funcionamento da hidrovia sem prejuízos às prioridades de navegação.»¹ 28


cidade entre rios

Para gerir e possibilitar o transporte das cargas citadas nos trechos anteriores retirados do relatório conceitual do projeto, o estudo ainda prevê a implantação eclusas, barragens móveis e fixas, além de diversos tipos de portos que objetivam a correta destinação dos materiais transportados, até mesmo com postos de compostagem, trituração e compactação do resíduos, conforme diagrama que segue.


cidade entre rios

Apesar de extremamente minucioso e gerido por um grupo de arquitetos, o estudo pouco se propõe a ir além das soluções técnicas de infra-estruturas para os problemas de cargas, sedimentos e lixo. No memorial é possível notar a preocupação com uma qualidade de estrutura ambiental urbana, ao proporem a requalificação das orlas dos canais através de parques e bulevares fluviais.

30


cidade entre rios

Depois de discutirmos o papel dos rios na cidade de São Paulo, como transformadores das relações do homem com o território; a possibilidade de implantação de um sistema de infra-estruturas que gerem possibilidades de urbanidade e por último, um estudo de viabilidade de um projeto de uma rede neural de infra-estruturas, cabenos, como estudantes de arquitetura, aproveitar o momento de discussão de um projeto desse porte para questionar como não deixar que se torne em mais uma solução meramente técnica. A fim de gerar mudanças significativas no viver urbano dos habitantes de São Paulo, acredito que a possibilidade seja aproveitar a implantação desse sistema e agregar aos parques fluviais e às orlas dos canais, equipamentos que propiciem os já ditos locais de sociabilidade e pertencimento, restabelecendo a relação afetiva que os paulistanos tinham com os seus rios ainda no século passado. Pode-se imaginar um ciclo em que o princípio de mudança da paisagem dos rios geraria maior aproximação e por conseqüência uma maior preocupação e cuidado da população, que cobraria mais os administradores públicos, gerando mais mudanças e potencializando a transformação. O canal passaria a levar mais do que cargas públicas e comerciais, mais do que pessoas que necessitam se locomover na cidade; seria um canal de cultura e de lazer e tornaria a população dependente e desejosa desses locais, às margens do canal, ao oferecer possibilidades que antes poderiam ser desinteressantes ou até mesmo ausentes no âmbito local em que convivem.

31


cidade entre rios

1

MMBB. Vazios de água. Ensaio Publicado na Revista Eletrônica de Arquitetura e

Urbanismo da Universidade São Judas Tadeu. São Paulo.

_ GORSKI, Maria Cecília Barbieri. Rios e cidades: ruptura e reconciliação. Editora Senac, São Paulo, 2010. _ MONTEIRO, Peter Ribon. São Paulo no centro das marginais: a imagem paulistana refletida nos Rios Pinheiros e Tietê. São Paulo, 2010. _ MMBB. Vazios de água. Ensaio Publicado na Revista Eletrônica de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Judas Tadeu. São Paulo. _ AB’SÁBER, Aziz NaciB. Geomorfologia do sítio urbano de São Paulo. Ateliê Editorial, Cotia - SP, 2007. _ http://aguasclarasdoriopinheiros.org.br _ http://www.estadao.com.br/megacidades _ http://www.metropolefluvial.fau.usp.br IMAGENS: 01. Fernando Stankuns 02, 03 e 04. Infográficos em www.estadao.com.br/megacidades 05 e 06. Geomorfologia do sítio urbano de São Paulo 07. Fundação de São Paulo, 1913. Antônio Parreiras - Imagem da internet 08, 09 e 10. Imagens Rio Pinheiros. Imagens da internet 32



11

78

H Hospital

Lr

4

Laundromat

26

Be

77

Cc

Cs

Child Care

Co

8

Com. Center

Hospital

41

Clothing Str.

39

16

19

Pd El

Mo Bt 38

Post Office

Police Station

Bus Terminal

Elementary S.

Mu Museum

24 37

42

Bu P

Ts

22

St

Park

Townsquare

Bus Stop

1

Fi

Ci

40

City Hall

Nu Nursery Sch.

Elderly House

25

Sf Single F. Res.

3

Post Office

Eh

Cutural Cent.

55

Public Art

Po

76

Library

Pa

23

Cu Li 12

Streetscape

21

Fire Station

20

57

Tr Train Station

27 43

Hb Ph Historic Stru.

To

Pharmacy

Townhomes

87

Sp Ma 56

72

Marina 89

Ap Airport

75

74

Hi Mi Bg Cm

Seaport

88

73

High School

Middle School

Botanical G. Condominium

104

105

106

107

Wo Lm Pv Cg Zo As 58

Landmark

Place of Wshp

90

He Heliport

Zoo

Com. Garden

Private Sch.

Apartments

59

Pg

60

61

Ce Gc Hs

Parking

College

62

Golf Course

91

Jl Jail

Hom. Shelter

92

93

U

La Ce

University

94

Landfill

Cemetery

95


2

O

51

Ap Amusement

Office

6

52

Fm Ca 7

Rv

Farmers Mkt

Rec. Vcl. Park

Cinema 5

13

Gs Cf

Sr Sp

Grocery Store

Skating Rink Sports Cmplx

29

28

Coffe Shop 30

31

Dell

Restaurant 46

47

Bakery

48

33

32

Re De By S 45

15

14

Shop

49

10

B

9

Re Recycling Ctr

Bookstore

Music Store 79

Supermarket

80

81

Swim. Pool

Hotel

109

110

Garden Shop

111

112

113

Clinic 36

Warehouse 53

Dpt. Store 114

Dental Clinic 54

In Lb

Theater

Industry 83

84

85

Sa Fl Gd Dp Tp V Florist Shop

Sg Cl

At Sw Ho W Dt Amphitheater

82

Beauty Salon

18

35

50

Candy Shop

17

Storage 34

Os Bk Ms Cy Sm Th Office Sup.

Bank

Laboratory 86

Ei Bp

Theme Park

Visitors Cntr.

Eco-Ind Park Business Park

115

116

117

118

Dc As Fs Hc Hs Fg Aq Cv Pw Bs Dry Cleaner

Antique Store Furnture Str.

Home Inp Ct

64

65

67

66

Ac Pr Ga A Animal Care 96

Printer 97

Gas Station 98

Auto Service 99

Hospital

68

Fitness Gym

69

Cw F Carwash 100

Fast Food 101

Aquarium

70

Conv. Center Power Station Brod. Studio

71

Sv Cn Street Vendor 102

Casino 103

Ni Ba Pb Ls Wi Ps Tt Tp Nightclub

Bar

Pub

Liquar Store

Winery

Pawn Shop

Tattoo Partor

Treatment P



catalisadores eletrolíticos

A forma como percebemos o mundo está diretamente atrelada às nossas experiências, que se acumulam, se anulam e transformam nossa sensibilidade, levando-nos a questionamentos, proposições e investigações. Essa forma de entender a produção própria do conhecimento foi defendida por Aristóteles, sendo conhecida como "O mundo da experiência"¹, onde o mesmo é único e se resume ao mundo em que vivemos, «Só nele encontramos bases sólidas para empreender investigações filosóficas. Aliás, é o nosso deslumbramento com este mundo que nos leva a filosofar, para conhecê-lo e entendê-lo.»²

01

ao contrário do que dizia Platão, acerca do mundo em constante mutação induzindo, por consequência, mudanças em nossa percepção. Esse processo de conhecimento e de experiência é diferente para diferentes grupos sociais, varia de lugar para lugar; a partir das diferenças culturais. A imagem que temos das coisas é única e 36


catalisadores eletrolíticos

construída no nosso consciente pela junção de nossas apreensões do mundo concreto e aplica-se também à construção da cidade de cada um, como dito por Luis García Montero, 1972, ao discorrer sobre sua cidade, Genebra: "cada pessoa tem uma cidade que é uma paisagem 3 urbanizada de seus sentimentos". “A rua implica um contato físico, o distrito um conhecimento e a cidade um contato intelectual” , todos comunitários . (SMITHSON, manual do team 10, 1966, p.19). É na cidade que criamos senso civil e de vida social. Nela construímos uma experiência que agrega modo de produção, ocupação do território e multidão (HARDT e NEGRI, 2005). O ano de 2007 ficou marcado como o primeiro na história da humanidade em que a maior parte das pessoas passou a viver nas cidades e em que se atingiu um número ainda maior de núcleos urbanos 4 com mais de 10 milhões de habitantes. Mais do que nunca as cidades precisam ser lidas, discutidas e imaginadas. Dentro dessa necessidade e diante do novo “paradigma” das chamadas cidades globais, a cultura tem papel fundamental, talvez como resistência, e vem se destacando na tentativa de responder às necessidades de outra experiência urbana, em que vigorem as “horizontalidades” colocadas por Milton Santos e o espaço da apropriação e ação humanas. Objetivamente, o processo de produção do conhecimento - tanto individual quanto o coletivo e a cultura - aqui entendida como o conjunto "que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem 37

02


catalisadores eletrolíticos

como membro da sociedade”5, tem influência direta na construção da cidade. Em “A Arquitetura da cidade”, Aldo Rossi discorre sobre o processo "evolutivo" da conformação da paisagem da cidade sob quatro perspectivas: as questões tipológicas, a estrutura das partes, o "locus" ou a história urbana e por fim a dinâmica urbana. Cada elemento de formação, seja ele visível como as arquiteturas ou menos notável como o desenho das quadras e dos lotes que a compõem, conforma marcas da história urbana e social. No que se refere às cidades brasileiras, pode-se dizer que,

«As cidades brasileiras são hoje a expressão urbana de uma sociedade que nunca conseguiu superar sua herança colonial para construir uma nação que distribuísse de forma mais eqüitativa suas riquezas e, mais recentemente, viu sobrepor-se à essa matriz arcaica uma nova roupagem de modernidade “global” que só fez exacerbar suas dramáticas injustiças. Pesquisas de várias instituições indicam que as grandes metrópoles brasileiras têm em média entre 40 e 50% de sua população vivendo na informalidade urbana, das quais de 15 a 20% em média moram em favelas (chegando a mais de 40% em Recife). E não seria exagero afirmar que a questão do acesso à propriedade da terra está no cerne dessa enorme 6

desigualdade sócio-espacial.»

38




catalisadores eletrolíticos

Outra importante observação que deve ser feita é a de que a cada parte da cidade é na verdade parte de um tempo da cidade e a mesma é formada por muitos tempos. Ela pode ser entendida como um organismo vivo e mutante [e o faz ao longo do tempo - a quarta 7 dimensão] e um mesmo indivíduo pode vivenciar vários tempos da cidade sem que necessariamente se desloque fisicamente, mas pela alternância da produção do coletivo sobre os elementos básicos de conformação do território. Para Rossi, 2001, a concepção da cidade por elementos primários é a única forma racional de extrair um princípio lógico para sua continuação e também a melhor maneira de lê-la posteriormente. «A cidade é a memória coletiva dos povos; e como a memória está ligada a fatos e a lugares, a cidade é o 8

“locus” da memória coletiva.»

Como já dito anteriormente, a arquitetura pressupõe vivência e é no "locus", nas permanências somadas à história, que podemos tentar compreender as transformações do espaço público da cidade através da memória coletiva. O valor histórico, como memória coletiva, é o que pode gerar significado, ou seja, o fato urbano agrega em si e ao seu redor sentido histórico e de lugar para a porção do território em que está ancorado, tornando-o singularmente representativo dentro do contexto de construção e reconstrução dos tempos da cidade. Assim, para entendermos a construção da cidade e planejarmos sua continuidade devemos dialogar com a própria, entendendo seus fatos urbanos, seus monumentos e a ideia que criamos deles durante nossa 41

03


catalisadores eletrolíticos

experiência temporal do mundo concreto, considerando a impossibilidade de visualizarmos todos os aspectos da cidade, dada a tensão entre as partes e o todo - discutida por Ítalo Calvino em As cidades invisíveis. «Como os fatos urbanos são relacionáveis às obras de arte? Todas as grandes manifestações da vida social têm em comum com a obra de arte o fato de nascerem da vida inconsciente, esse nível é coletivo no primeiro caso e , individual no segundo, mas a diferença é secundária, porque umas são produzidas pelo público, as outras para o público, mas é precisamente o público que lhes fornece um denominador comum»

9

Ilustração da cidade de Pirra, descrita em por Ítalo, 1990. Onde as partes se destacam ao serem cortadas mas se perdem no todo da cidade 42


catalisadores eletrolíticos

Assim como a cidade é formada por elementos primários, todo o universo também o é. Quimicamente tudo é composto por pequenas partículas que se organizam dando origem a compostos, simples ou não. O importante para a nossa questão é que tais partículas podem se rearranjar gerando um ou mais compostos. As reações químicas podem ocorrer de maneira espontânea ou induzida, mas em ambos os casos pode-se alterar o tempo e até controlar o tipo e a quantidade de produtos e sub-produtos. O catalisador é uma substância sem a qual a reação ocorreira, mas que provavelmente demandaria um tempo maior que na presença do mesmo. Apesar de haver catalisadores que retardam o tempo da reação mas que, por questões óbvias, não são os de maior interesse. Ao contrário de uma catálise na eletrólise, a reação só ocorre de forma induzida, já que o processo parte da fragmentação dos compostos existentes, obtendo elementos ionizados, para posterior junção e obtenção dos novos compostos. Como estudantes de arquitetura que pensam e vivem a cidade, cabenos a missão de discutir e projetar as possibilidades de apropriação dos elementos primários, a fim de extrair dos mesmos todo o potencial urbano, dando a eles caráter específico, compondo uma rede estruturadora da paisagem e dos fatos urbanos. Podemos nos atentar ao fato de que se queremos ver a mudança acontecer, temos que nos mover em direção a ela e interferir de modo a acelerar o processo de mutação e não apenas pontual, mas de maneira sistêmica, funcional e democrática, na tentativa de "caracterizar o urbano levando em conta também os processos culturais e os imaginários dos que o habitam." 8

43


catalisadores eletrolíticos

A ESTRATÉGIA DA CULTURA

A cidade deixou de ser definida apenas por suas questões físicas, como um local de concentração de indivíduos, para se caracterizar como o local do imaginário dos que a habitam e também pelos processos culturais que a transformam (CANCLINI, 2008). Novamente nos esbarramos na questão da experiência, da vivência; porque mesmo o campo do imaginário está permeado pelo que ouvimos, lemos e idealizamos para nossas cidades. Sendo assim não temos como definir um ideal de cidade, mas vivemos no conflito entre o que ela realmente é, com o que gostaríamos que fosse. É impossível analisar ou imaginar a cidade por todos os aspectos que a compõem. Nesse momento voltaremos nossos olhos para a questão da cultura como agente transformador do território e o seu papel na produção das cidades ao longo dos últimos anos, sob a força do capital, que infelizmente, se colocou como regulador das novas configurações urbanas; não por julgar ser o mais importante, mas por abordar questões enfrentadas e imaginadas no processo de projeto. 44


catalisadores eletrolíticos

A proposta de analisar desta forma o momento global das cidades pode nos induzir a pensar apenas nas grandes, mas não podemos esquecer que tudo isso começa nas pequenas porções do território, nas quais intervimos ou como disse CANCLINI,2008, nos "fragmentos que elegemos para ancorar nossa subjetividade, e a ação de grupos pequenos". Com a grande ascensão do capitalismo, pós crise fordista-taylorista nos anos 70, ARANTES, 2000, discorre a respeito do surgimento de um novo paradigma no planejamento urbano, não por acaso, enraizado em um mercantilismo às avessas, que transportou a administração urbana das necessidades básicas de qualidade de vida dos cidadãos, ao "gerenciamento" dos retomados planos estratégicos para as novas cidades-empresa. Conduzidos pelo poder do capital, governantes, empreendedores e urbanistas se juntam em uma associação pró cidade-empresa; em que o plano estratégico prevê a transformação das cidades em empreendimento, ou seja, um produto a ser vendido e ao mesmo tempo desejado. Na maioria das vezes, para se inserir no competitivo mercado global, a criação da imagem dessa nova cidade passa pela "festivalização" do urbano (VENTURI IN MUNÕZ, 2010), onde o desenvolvimento das políticas públicas são concebidas, tendo como pano de fundo, grandes acontecimentos - físicos-espaciais ou eventos que visam criar a imagem de uma cidade capaz de atrair o capital internacional.

45


catalisadores eletrolíticos

No novo paradigma empresarial da administração das cidades, pensadas sob o aspecto do custo-benefício, a cultura surge como chamariz para as transformações orientadas à revitalização urbana, ou como ARANTES defende, pelo processo hierarquizador de mão única onde é impossível que todos saiam ganhando, sendo por ela classificado, como gentrificação de áreas degradadas, a fim de torná-las atraentes aos investidores. Nesse novo paradigma a estagnação econômica acaba por induzir as cidades a se tornarem tais empresas, dada a venda da auto-imagem de que novos e bons tempos hão de vir. Em um período em que arquitetos e planejadores "assumem" o papel dos empreendedores, o novo mercado cultural, vê no espetáculo urbano uma "forma de controle social", deturpando seu anterior posicionamento de resistência. Ao propagar a participação e o sentimento de pertencimento, esse novo negócio urbano-cultural, engendra a ideia de que com o desenvolvimento gerado através da espetacularização e das "possibilidades econômicas dos lugares" (solo como mercadoria), aumentarão as ofertas de emprego, negócios e possiblidades, a fim de conquistar um lugar permanente no competitivo mercado das cidades atraentes. Nesse ponto as cidades se colocam através da massificação das possibilidades de aprendizado, em geral de acesso de alguns, com a popularização de museus e a "importância" dada aos momentos da cidade pelo processo da gentrificação, que no caso de São Paulo, iniciou-se na cidade pós-industrial. Na verdade vivemos em uma nova cidade industrial, não de produtos mas da industrialização da cultura. Como colocado na 46


catalisadores eletrolíticos

introdução deste trabalho, São Paulo possui dados impressionantes desse novo "mercado" cultural. Uma questão que podemos levantar a respeito desses novos tipos de cidades, é o de como deveriam ser geridas. Afinal essa prática urbana se caracteriza pelo novo paradigma da cidade-empresa-cultural. Nesses moldes, impostos pelo atual momento global, as cidades têm que dar conta do papel articulador do desenvolvimento e em como a maioria da população acessará esse novo "mercado", mesmo em cidades cada dia mais fragmentadas. O problema é que o negócio da cultura estratifica, alguém sai para que o outro entre. ARANTES chama a atenção, com certa estranhesa, para o envolvimento de arquitetos e urbanistas em um processo "autodestrutivo", que se propaga em larga escala nos paises em desenvolvimento, como a fórmula mágica de transformação que elevará suas cidades aos patamares do culturalismo de mercado global. A experiência de Bilbao, apesar de não ser inovadora, representa o consolidar da difusão do processo de gentrificação através dos megaequipamentos culturais, que teve início, segundo ARANTES, com Nova Iorque e Paris, e tendo atingindo seu ápice na grande ação de marketing de Barcelona. Com os mesmos traços das demais que salientaram a lista das mais famosas cidades-empresa, Bilbao se viu degradada no fim dos anos 80, logo após uma década de "desindustrialização" e próxima ao limite da crise econômica-social.

47


catalisadores eletrolíticos

O primeiro passo dado pelos administradores da cidade, foi a ingênua e bem intensionada elaboração do plano estratégico de desenvolvimento, que segundo ARANTES, não havia causado o efeito desejado. Pronto, Bilbao se encontrava a um Guggenheim de ascender à lista das cidadesempresa-cultual. Com o projeto ainda em desenvolvimento o próximo passo era criar e vender a imagem da Nova Bilbao, requalificada e pronta para receber incontavéis números de turístas a passeio e, por que não, para os novos centros empresariais a serem construídos. Diante o posicionamento de Bilbao, ao responder as exigências do novo paradigma da "máquina urbana de produzir renda", ARANTES conclui: "À vista de uma "sonda cultural" como esta [...], uma agência internacional de avaliação de risco concluiria que no Páis Basco os governantes finalmente resolveram "pensar global para agir local", como manda a boa gramática gerencial." «[...] o aproveitamento das oportunidades residenciais e terciárias de vazios urbanos ou espaços obsoletos conformava o núcleo do plano que, embora mantivesse a estrutura formal de proposta global para a cidade, constituía de fato pouco mais que um marco geral no qual inserir algumas grandes operações urbanas singulares, polarizadas nas bordas da zona central da cidade com uma notória falta de atenção aos bairros alheios, em sua maioria, às iniciativas dinamizadoras e de regeneração urbana.»

12

48


catalisadores eletrolíticos

A consideração com a vida cotidiana dos habitantes é o que pode tornar São Paulo numa cidade de possibilidades. Mais do que arquiteturas assinadas, devemos promover urbanidades como centralidades locais, que atentem para o que está à sua volta sem perder o diálogo com o sistema ou rede a qual pertence. Em um território fragmentado e com momentos desconexos, a administração sistêmica ou de redes gera a possibilidade de equalizar as diferenças socioculturais a que nossa cidade está sujeita. « Às vezes, busca-se reinventá-las ao modo das europeias: se Bilbao foi revitalizada por um museu Guggenheim, consigamos um para o Rio de Janeiro ou Guadalajara. Como as tentativas de reconverter as urbes deterioradas em cidades do conhecimento, os projetos de dignificá-las como capitais da cultura devem ser avaliados não só pelos arquitetos estrelados que assinam os novos edifícios, mas por sua inserção na trama histórica, a vida cotidiana dos habitantes e a capacidade de resolver contradições e 10

desigualdades do desenvolvimento.»

Quando paramos para analisar o território da cidade, nos deparamos com espaços que "sobraram" durante sua formação; áreas residuais, muitas das vezes, inacessíveis ou que por elas mesmas conformam uma barreira no território. Essas "sobras" são essenciais, juntamente com as preexistências, para a composição do sistema; garantindo-lhe sentido de lugar e interação local. 49


catalisadores eletrolíticos

Devemos nos lembrar dos imaginários de seus habitantes, em como os pequenos grupos, tribos e indivíduos utilizam as arquiteturas para as quais, ditatorialmente, determinamos os fins. Independente de qual tipo de cidade imaginamos querer ter, devemos nos conscientizar de que o fim da arquitetura é o próprio homem, suas necessidades e anseios. Em um tempo em que as mudanças ocorrem a todo o instante, em que as possibilidades são sempre infinitas; será que ainda temos espaço para o plano?

_ ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes, 2000. _ ARANTES, Otília Beatriz Fiori. Uma estratégia fatal: A cultura nas novas gestões urbanas in A cidade do pensamento único: desmanchando consensos. Petrópolis, RJ. Vozes, 2000. _ CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. Companhia das Letras, São Paulo; 1ª edição, 1990. _ HARDT, Michael; NEGRI, Antônio. Multidão: guerra e democracia na era do império. Tradução: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2005. _ MAGEE, Bryan. História da Filosofia. Edições Loyola, 2001. _ MUÑOZ, Francesc. Urbanalización. Editorial Gustavo Gili S.A.; Ed.1, 2010. _ Downtown Brooklyn Plan, in www.nyc.gov/html/dcp/pdf/dwnbklyn2/dwnbklyn.pdf , abril de 2008. 50





cidade e lugar

[instinto] ¹ Na luta pela vida, dispara a correria pelas ruas e pelos becos arde a chama do fogo, da força, do desejo de viver.

Sem o todo é impossível entender as partes e sem elas o todo não existe. Como já dito anteriormente, não é objetivo desse trabalho se debruçar apenas sobre um dos nós da malha urbana paulistana, mas sim entender o eixo estruturador formado pelo canal composto pelos rios Tietê e Pinheiros. Dada a necessidade que, como arquitetos, temos de propor soluções - além de uma exigência do rito - para as questões com as quais nos deparamos, é neste momento que nos aproximaremos do território escolhido para o desenvolvimento do exercício projetual.

01

O desenvolvimento que a metrópole alcançou se deve ao sacrifício das várzeas da vila. O que deveria ser considerado nobre, por sua proximidade com o veio d'água, foi encarado como problema, já que durante as cheias, esse território por hora inundado, trazia consigo a inapropriação das terras e doenças que basicamente eram de ordem 54


cidade e lugar

sanitária. A necessidade de solucionar os problemas implicou na retificação dos rios e na ocupação das várzeas, não da forma que denominaríamos como ideal, mas com projetos que não passavam de infra-estruturas solucionadas pela engenharia, visando apenas o fim dos problemas e obviamente lucros, alcançados com o escoamento das riquezas descobertas ou produzidas no interior do Estado. No entroncamento geográfico do Cebolão estão a várzea, os rios retificados e a estrada de ferro, além das marginais, que sustentam o caráter histórico de um lugar de passagem. O acinzentamento da paisagem urbana, desenvolvida ao longo do tempo sobre si mesma, deixou marcas e apagou outras que deveriam ser respeitadas e reestruturadas, para o fortalecimento de um território moldado às novas necessidades sociais e em que transparecessem os diversos tempos da cidade.

«A cidade de São Paulo é um palimpsesto - um imenso pergaminho cuja escrita é raspada de tempos em tempos, para receber outra nova, de qualidade inferior no geral. Uma cidade reconstruída duas vezes sobre si mesma, no século XIX.» ²

Justamente a quantidade de cicatrizes e a complexidade do nó são os maiores desafios que saltam aos olhos de qualquer um que possa se debruçar sobre essa porção do território. Além da aparente superficialidade do cenário, para a maior parte das pessoas que apenas 55

02


cidade e lugar

se desloca pelas marginais, a localização junto ao rio enriquece ainda mais a relação - não percebida por todos - com seu entorno não imediato, ou seja, pra além das marginais, que abarca equipamentos metropolitanos e até continentais, como o caso da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (CEAGESP), e pontos de extrema importância social, cultural e econômica, como o Centro de Detenção Provisória de Pinheiros e mais oito favelas. Os rios são os primeiros e os principais fatores que conformam o cenário, a princípio naturalmente, mas depois juntamente à força do desenvolvimento e do domínio do homem sobre as técnicas de

56


cidade e lugar

manipulação do solo, que alteraram a paisagem da várzea, marcando o período preliminar da indústria paulistana, articulada às atividades agrárias que ainda sustentavam a economia do século XX. Apesar de a várzea oferecer terreno plano e a baixo custo que facilitava a ocupação através da linha férrea, ainda havia a barreira das águas e da topografia do território a serem vencidas. As soluções adotadas para viabilizar o transporte ferroviário possibilitaram desbravar as terras mais distantes e escoar para a capital toda a produção de insumos do oeste paulista. Anos mais tarde, viriam a se repetir com as estradas que se conectam ao restante do país com o mesmo objetivo, previsto no plano rodoviarista de Juscelino Kubitschek, como a solução para vencer as longas distâncias que separam os pólos produtores dos grandes consumidores e ainda mais dos escassos pontos de saída para o mercado externo. Ao longo da linha férrea conformou-se uma extensa malha industrial que se servia da estrada de ferro para manter o vetor de produção em ascendência e para sua própria manutenção. Foi em meio a essa malha, às portas de entrada da industrializada São Paulo, que se instalou o maior entreposto de abastecimento agrário da América Latina e o terceiro maior do mundo³. A CEAGESP atende a diversos tipos de produtores e consumidores, da larga à pequena escala; de caráter local ao âmbito continental. Apesar do desejo de governantes em retirar o entreposto do seu atual sítio, sobre a prerrogativa de minimizar o impacto do transporte de cargas na cidade, fato que também fundamentou o processo de implantação do Rodoanel Metropolitano, 57

03


cidade e lugar

o mesmo ainda se mantém e em processo de desenvolvimento. Também contrário à pressão feita pelo mercado imobiliário, que requer para si a grande área de solo ocupada pelo entreposto, sua manutenção próximo à área urbanizada se faz defender dadas as possibilidades que o mesmo pode gerar, desde empregos até novos planos de desenvolvimento para os rios e comunidades carentes que estão à sua volta, além é claro do aumento do número de pequenos caminhões, que em tese substituirão os de grande porte. Como funcionará o abastecimento da capital em relação aos produtos que chegam ao CEAGESP? Vamos trocar os caminhões grandes por pequenos, mas um grande por quantos pequenos? Será mesmo justificável a retirada total do CEAGESP de seu atual sítio? (Ver anexos 2 e 3)

TABELA 1. Ranking populacional das favelas de São Paulo 58



cidade e lugar

Não muito distante da área de intervenção está uma das maiores favelas da região metropolitana, que, ao longo dos últimos dois anos, enfrentou catástrofes, mas renova-se a cada dia. É na força de seus 4 moradores, que lutam por sua sobrevivência, que a Favela do Jaguaré a quinta maior de São Paulo - busca forças pra se renovar e se reafirmar como uma área que necessita da atenção da sociedade, governantes, arquitetos e urbanistas. Por mais impressionante que possam ser os momentos vividos pelos moradores da Jaguaré, após o segundo incêndio em menos de um ano, a comunidade tem a esperança de um novo futuro através dos novos projetos de habitação que vêm sendo desenvolvidos no local. Mas ainda mais próximo do sítio, encontram-se 5 outras quatro comunidades, a favela Do Areião que se conecta à do 6 Jardim Wilson - na margem esquerda do rio Pinheiros, e as favelas 7 8 Humaitá II e do Jardim Haddad à margem esquerda do Tietê.

04 05

Fruto da grande desigualdade sócio-econômica ainda marcante em nosso país, as favelas guardam histórias de luta e força mas, também, de criminalidade e extrema pobreza. Sem solucionar de forma humana tais problemas, o poder público investe apenas em repressão; lançando os infratores em unidades prisionais que não alcançam os objetivos que dizem pretender - punir e também educar - para que os mesmo possam se reintegrar à sociedade ao saírem. Gerando revolta e situações como as que a antiga Casa de Detenção de São Paulo - o Carandiru protagonizou, novas unidades são construídas e colocadas pra funcionar, em pleno século XXI, baseadas no mesmo sistema implementado em 1920, ano de inauguração do Carandiru. Enquanto a sociedade, mídia e governo celebravam a demolição do símbolo maior 60


cidade e lugar

do "antigo" sistema que daria lugar ao Parque da Juventude completado em 2007, um novo complexo prisional era construído próximo à área a que hoje nos voltamos. Inaugurado um ano depois do Parque, o conjunto de blocos, bem parecidos com o do demolido Carandiru, já abriga uma população três vezes maior que a inicial idealizada (ver imagem 05). Com tantas histórias é fácil perceber quantas vidas dependem e estão ligadas àquela unidade, basta passar pela Marginal Pinheiros nos fins de semana e ver mulheres e crianças dividindo o pequeno espaço com os ambulantes (que aproveitam a situação para tentar uma sorte diferente da dos que estão do outro lado dos altos muros), para poder ver pais e maridos. Assim, com tantos elementos importantes próximos ao sítio, o objeto do exercício projetual surge como resposta para as necessidades e as proposições colocadas, a partir da análise do território numa macro escala e ancorando-se, posteriormente, na porção direita da margem do Rio Pinheiros, não só como um simples objeto arquitetônico; mas essencialmente como uma infra estrutura urbana, que se dispõe a dar um sentido de lugar ao que hoje é apenas passagem.

61


cidade e lugar

1

2

Versos escritos após o incêndio na favela do Jaguaré. São Paulo, 2011. TOLEDO, Benedito Lima de. São Paulo: três cidades em um século. 3ª Edição. São

Paulo: Cosac&Naify. Duas Cidades, 2004. p.77 3

Site da CEAGESP - http://www.ceagesp.gov.br/institucional/histor/

4

A Favela Nova Jaguaré, também conhecida como Favela Jaguaré, situada na Avenida

José Maria da Silva, Subprefeitura Lapa na Regional Centro ocupa um terreno de propriedade pública com uma área total de 168.359,9 m². Estima-se que existam aproximadamente 4.070 imóveis nesta favela. 5

A Favela Do Areião, também conhecida como Favela Andries Both, situada na Rua

Andries Both, Subprefeitura Lapa na Regional Centro ocupa um terreno de propriedade particular com uma área total de 18.037,21 m² . Estima-se que existam aproximadamente 307 imóveis nesta favela. 6

A Favela Humaitá II, situada na Rua Galileu Emendabili, Subprefeitura Lapa na

Regional Centro ocupa um terreno de propriedade particular com uma área total de 3.662,95 m² . Estima-se que existam aproximadamente 200 imóveis nesta favela. 7

A Favela Jardim Wilson, também conhecida como Favela Antônio de Sousa Nochese,

situada na Avenida Antônio de Sousa Nochese, Subprefeitura Lapa na Regional Centro ocupa um terreno de propriedade pública com uma área total de 6.631,17 m² . Estima-se que existam aproximadamente 200 imóveis nesta favela. 62


cidade e lugar

_ MONTEIRO, Peter Ribon. São Paulo no centro das marginais: a imagem paulistana refletida nos Rios Pinheiros e Tietê. São Paulo, 2010. _ BRAGA, Milton Liebentritt de Almeida. Infra-estrutura e projeto urbano. São Paulo, 2006. _ TOLEDO, Benedito Lima de. São Paulo: três cidades em um século. 3ª Edição. São Paulo: Cosac&Naify. Duas Cidades, 2004. p.77 _ http://www.ceagesp.gov.br/institucional/histor/ _ http://www.habisp.inf.br _ http://www.sap.sp.gov.br IMAGENS: 01. Foto do incêndio na Favela do Jaguaré, novembro de 2011 www.globo.com 02. Mapa das ferrovias do Estado de São Paulo. Indicador Geral de Viação do Brasil, Paris 1898. 03. Tabela 1. Ranking das favelas de São Paulo - http://www.habisp.inf.br 04. Mapa das favelas próximas ao Cebolão - http://www.habisp.inf.br 05. Dados do Centro de Detenção Provisória de Pinheiros http://www.sap.sp.gov.br 63






ensaio projetual

Assim como na literatura, um ensaio de projeto, se coloca entre o rigor técnico e a permissividade de expor ideias e incitar a discussões. Na tentativa de abordar de forma prática, as proposições dos textos anteriores e me posicionar em relação a elas, é que conduzi o exercício de projeto. Sem me pautar em formalidades, como os planos diretores e tratados ambientais, peço licença para apresentar um projeto que busca, como um exercício acadêmico, não apenas demonstrar uma capacidade mínima do fazer diário do arquiteto, mas mais do que isso colocar espacialmente a capacidade crítica que a escola me aquinhoou. 68


ensaio projetual

ANÁLISE DO TERRITÓRIO A primeira análise do território se deu a partir do relevo e a conformação do mesmo em relação aos rios Pinheiros e Tietê; sendo possível assim, sobrepor e analisar como a malha ferroviária de São Paulo se relaciona com a parte alta da cidade (espigão da Paulista) e o baixio, às margens dos rios.

Encontro dos Rios Pinheiros e Tietê. Os pontos vermelhos representam as Abaixo vemos o Pinheiros e a raia da USP, estações da CPTM. e na parte superior o Rio Tietê.

Estações do METRÔ, onde podemos notar: ao centro - a linha verde no espigão da Paulista, acima - duas estações da linha vermelha e mais em baixo, quatro estações da linha amarela. 69

A sobreposição das malhas no território e a relação das mesmas entre si - com dois pontos de interligação, com o relevo e com os rios, destacando três pontos de transposição.


ensaio projetual

Após o estudo através da maquete, elaborei os mapas que seguem, afim de condensar no plano bidimensional as informações já analisadas no modelo e cruzá-las com o levantamento de pontos de interesse metropolitano, assim como o curso dos rios, as linhas de trem e metrô e o sistema viário das marginais.

70


ensaio projetual

PROPOSIÇÃO METROPOLITANA Com essas informações colocadas, iniciei o estudo de possíveis áreas de intervenção no trecho compreendido entre as pontes do Limão, no Rio Tietê e a Eusébio Matoso, no Rio Pinheiros. Os pontos levados em consideração para a escolha foram, principalmente: os espaços residuais junto às margens dos rios e a possibilidade de integração com a malha ferroviária da metrópole.

71


ensaio projetual

PROPOSIÇÃO TERRITORIAL


ensaio projetual

Dentre os pontos levantados e determinados no mapa anterior, o escolhido foi o situado no encontro dos dois rios. Além da importância natural deste ponto, a história também o destacou com a passagem da linha férrea e do complexo viário do Cebolão. Do ponto de vista mais humano, o sítio abarca a sua volta algumas favelas, o cadeião (SEAP) e a CEAGESP. Dentre as diretrizes destaca-se a transposição do rio e das marginais para os pedestres, caracterizar o sítio com um lugar (urbanidade), dar suporte a ONG Tietê Vivo e a Associação dos Trabalhadores de Distribuição da CEAGESP que moram nas favelas vizinhas, dar suporte as mulheres e crianças que ficam na fila do cadeião para visita e implementar um equipamento que proporcione cultura e lazer para os que vivem nas proximidades do território e facilitar o acesso à área - nova estação de trem que possibilita a mudança de linha. 73


ensaio projetual

PRIMEIROS ESTUDOS Já com o suporte do levantamento dos dados e das diretrizes da proposta urbana, os primeiros desenhos do objeto pretendia solucionar os problemas e propor uma nova urbanidade a partir de dois blocos distintos e uma nova ponte para a transposição do trem que também solucionaria a questão do pedestre. Um edifício, com decks e piscinas, abrigaria o programa cultural - próximo ao programa de um SESC, o outro a parte social do programa - ONG, Associação e o recebimento dos produtos trazidos pelos rios.

74


ensaio projetual

Proposta da ponte para o trem e passarela de pedestre.

A nova ponte, permitiria que os pedestres que hoje utilizam a linha do trem, fizessem isso de forma adequada e com acesso às margens e por conseqßência o projeto. 75


ensaio projetual

EDIFÍCIO CULTURAL


ensaio projetual

EDIFÍCIO DE SUPORTE A ONG, ASSOCIAÇÃO E RECEBIMENTO DE PRODUTOS


PROPOSTA

Apesar de atender as necessidades do local e as proposições que eu havia imaginado, o resultado alcançado não foi exatamente o que eu queria propor, algo que fosse além do simples objeto que abriga o programa, mas sim algo que desse sentido para o território escolhido. O croqui, feito por minha orientadora durante uma de nossas conversas, é a tentativa de tirar o negativo da proposta anterior, criando uma nova cota, um plano onde aí sim estariam abrigados os usos.


ensaio projetual

Maquete, afim de estudar como seria o desenho da nova cota e suas relações com o sistema viário, suas alças e conexões e os braços que buscariam os acontecimentos do entorno - presídio, favelas, novas habitações e os trabalhadores. 79


ensaio projetual

80


ensaio projetual

AlĂŠm da linguagem poĂŠtica do farol, a torre vertical visa contrapor, juntamente com o plano Ă sua direita, a horizontalidade da nova cota, assim como os vazios e rasgos. 81



ensaio projetual

UMA QUESTÃO CHAVE Após o desenvolvimento durante o TFG I, identificou-se uma questão estrutural: como sustentar o «balanço» que se lança sobre a arquibancada voltada para o canal e garantir a visibilidade do que será apresentado.

Teatro do Mundo, 1980. Aldo Rossi, para Bienal de Veneza. Imagem da internet.

83

Desde o inicio do projeto uma das questões colocadas era a transformação urbana através de incentivos socioculturais. Antes mesmo de me debruçar sobre toda a questão urbana, influenciado pela ideia do Teatro do Mundo, Aldo Rossi, o primeiro espaço imaginado foi o da arquibancada voltada para o canal, onde as balsas que serviriam de palco se ancorariam. Como o projeto macro-urbano propõe um sistema de entrepostos de cultura, diferente do caso de Rossi, o que se deslocaria pelo canal seria apenas o palco.


ensaio projetual

Além de servir de abrigo para a arquibancada, o andar superior ainda agrega a função poética de um mirante para a paisagem urbana do canal e a função técnica de dar suporte às apresentações feitas nas balsas luzes, som e possíveis projeções. Sendo assim, a viabilidade estrutural desse trecho do edifício se fez mais do que necessária, não só pelo desejo ou obrigação do desenvolvimento, mas pelas possibilidades e o valor que o mesmo agrega ao projeto.

O primeiro passo foi levantar, através de croqui, qual as forças atuantes sobre os planos e qual deveria ser a resposta da estrutura; além de reforçar as funções de mirante e passarela técnica. 84


ensaio projetual

A primeira hipótese estudada era de um pilar em concreto e laje cogumelo. A vantagem dessa opção era a de proporcionar a questão das visuais, mas em contrapartida exigiria uma laje muito espessa e um pilar de diâmetro considerável, além do necessário pelas cargas, mas pra diminuir a punção no encontro pilar-laje.

Com a elaboração do modelo físico, foi possível notar a aparente leveza e transparência, dada a pouca interferência da estrutura no espaço; porém ressaltou a exigência de uma laje mais espessa que a proposta, já que o plano da laje começou a flambar, salvo também a resistência do material escolhido - PVC.

85


ensaio projetual

No segundo estudo, a opção foi a retirada do pilar inclinado de concreto que também sustentava a última laje; isso pra solucionar o problema da flambagem. Como o vão entre os dois pilares é muito grande, aprox. 35m, uma solução seria adotar uma viga que travasse o sistema, e no caso se transformaria em uma parede estrutural.

Apesar de possibilitar tecnicamente o funcionamento da estrutura, a opção da grande viga em concreto, segregaria o espaço da passarela impedindo o usuário de visualizar os dois lados. Como os espaços ficariam completamente segregados e diminuiria a quantidade de luz esta não foi a opção escolhida.

86


ensaio projetual

No terceiro estudo, o objetivo era aproveitar os pontos positivos dos dois anteriores, combinando a estabilidade da viga com a visibilidade dos poucos pilares. Sendo assim a opção foi adotar uma solução mista com pilar e treliça plana metálica, permitindo um espaço mais continuo na passarela.

No modelo físico a treliça está com 5m de espaçamento entre eixos dos montantes, mas foi possível perceber que poderia ser pelo menos uma vez e meia maior.

87


ensaio projetual

88


ensaio projetual

PLANTA TÉRREO DESENHO DA BORDA DURA DO CANAL

89



ensaio projetual

PLANTA 1ยบ PAVIMENTO

91



ensaio projetual

PLANTA 2ยบ PAVIMENTO NOVA COTA PARA A CIDADE

93



ensaio projetual

PLANTA COBERTURA NOVA ESTAÇÃO DA CPTM

95



ensaio projetual

B

C A

A

C

CORTES

97

B


CORTE AA

CORTE BB

CORTE CC







considerações

Engana-se quem pensa que o trabalho final de graduação é só um rito ou que o aluno não tem mais o que aprender e só precisa mostrar o que sabe. Falo isso porque foram comentários que ouvi pelos corredores e salas da escola; mas a essa altura do campeonato afirmo que aprendi muito com todo esse rito, inclusive pra além da arquitetura. Por lidar com um tema de conhecimento de todos, que são os rios de São Paulo, e pelo projeto não parecer, a primeira vista, o que chamaríamos de convencional, um dos aprendizados que fica desse processo é o de fundamentação para auxílio da argumentação. Tendo que convencer alguém a cada dia da possibilidade e da pertinência das soluções, somos obrigados a pensar cada possível brecha que exista no projeto, o que no fim o deixa mais consistente.

01

Saio feliz desse processo, não só pelo trabalho, mas por toda a caminhada dentro da escola. É certo que como arquitetos somos eternamente estudantes de arquitetura, e é aí que mora o fascínio dessa profissão, poder aprender algo novo a cada dia e ter a consciência de que não sabemos resolver todos os problemas, mas sabemos como buscar as soluções. 104


considerações

Sem uma proposta exclusivamente experimental, mas sim provocativa, esse trabalho busca um diálogo a respeito do que queremos e fazemos como cidade. Nela nos ancoramos e atuamos, mas para tal, é necessário desenvolver uma capacidade crítica e propositiva do espaço urbano, a fim de entendê-lo para só então nos posicionarmos. Num primeiro instante a proposição se colocou distante dos acontecimentos do território no qual se inseria. Em uma ilha, cercada de uma lado pelo rio e do outro pela marginal, a solução , agora óbvia, foi aproveitar a dualidade geográfica do entorno, para possibilitar a interação com as questões do lugar, privilegiando o lado humano do binômio a qual me referi na introdução deste trabalho. Ao me deparar com pessoas que transitavam por sobre os trilhos do trem, ao saírem de seus barrocos com o simples objetivo de garantir a sobrevivência, na tentativa de superar as barreiras físicas e sociais impostas à elas, me vi responsabilizado por levantar as questões aqui colocadas. Não adianta planejarmos uma cidade que está a mercê de um capital corrupto e conduzida por administradores corruptíveis, sem considerar os habitantes que fazem, a máquina urbana de produzir renda, funcionar perfeitamente. Em um país de disparidades e dissonâncias sociais como o Brasil, somos privilegiados por participarmos de uma classe acadêmica que tem por base o pensamento crítico; e é aí que não podemos falhar, pois, é nesse instante que começa a responsabilidade de como utilizar, para o bem de todos, a dádiva do saber. 105


considerações

IMAGEM: 01. Fabrício Belote

106




anexos

anexo 1

109


anexos

110


anexos

anexo 2

111


anexos

112


anexos

anexo 3

113






bibliografia

_ ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes, 2000. _ AB’SÁBER, Aziz NaciB. Geomorfologia do sítio urbano de São Paulo. Ateliê Editorial, Cotia - SP, 2007. _ ARANTES, Otília Beatriz Fiori. Uma estratégia fatal: A cultura nas novas gestões urbanas in A cidade do pensamento único: desmanchando consensos. Petrópolis, RJ. Vozes, 2000. _ BRAGA, Milton Liebentritt de Almeida. Infra-estrutura e projeto urbano. São Paulo, 2006. _ CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. Companhia das Letras, São Paulo; 1ª edição, 1990. _ CORRÊA, Roberto Lobato. Estudos sobre a rede urbana. Rio de Janeiro, 2006. _ FRANCO, Fernando de Mello; et. al. São Paulo. Redes e lugares. Arquitextos, São Paulo, 07.077, Vitruvius, out 2006. _ GORSKI, Maria Cecília Barbieri. Rios e cidades: ruptura e reconciliação. Editora Senac, São Paulo, 2010. _ HARDT, Michael; NEGRI, Antônio. Multidão: guerra e democracia na era do império. Tradução: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2005. 118


bibliografia

_ MAGEE, Bryan. História da Filosofia. Edições Loyola, 2001. _ MMBB. Vazios de água. Ensaio Publicado na Revista Eletrônica de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Judas Tadeu. São Paulo. _ MONTEIRO, Peter Ribon. São Paulo no centro das marginais: a imagem paulistana refletida nos Rios Pinheiros e Tietê. São Paulo, 2010. _ MUÑOZ, Francesc. Urbanalización. Editorial Gustavo Gili S.A.; Ed.1, 2010. _ TOLEDO, Benedito Lima de. São Paulo: três cidades em um século. 3ª Edição. São Paulo: Cosac&Naify. Duas Cidades, 2004. p.77

_ http://aguasclarasdoriopinheiros.org.br _ http://www.estadao.com.br/megacidades _ http://www.metropolefluvial.fau.usp.br _ Downtown Brooklyn Plan, in www.nyc.gov/html/dcp/pdf/dwnbklyn2/dwnbklyn.pdf , abril de 2008. _ http://www.ceagesp.gov.br/institucional/histor/ _ http://www.habisp.inf.br _ http://www.sap.sp.gov.br

119


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Issuu converts static files into: digital portfolios, online yearbooks, online catalogs, digital photo albums and more. Sign up and create your flipbook.