KIT FRIENDS CENTRAL PERK: O LIVRO OFICIAL DE RECEITAS

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FAMÍLIA

VIAGEM

GASTRONOMIA

MÚSICA

& OUTRAS LOUCURAS

CRIATIVIDADE



FOREVER Aquele sobre os episódios

GARY Susman, JEANNINE Dillon & BRYAN Cairns

Tradução Carolina Caires Coelho

4ª reimpressão/2021


Publicado mediante acordo com a Harper Design, uma divisão da HarperCollins Publishers Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, armazenada ou transmitida para fins comerciais sem a permissão do editor. Você não precisa pedir nenhuma autorização, no entanto, para compartilhar pequenos trechos ou reproduções das páginas nas suas redes sociais, para divulgar a capa, nem para contar para seus amigos como este livro é incrível (e como somos modestos). Este livro é o resultado de um trabalho feito com muito amor, diversão e gente finice pelas seguintes pessoas: Gustavo Guertler (edição), Fernanda Fedrizzi (coordenação editorial), Germano Weirich (revisão), Celso Orlandin Jr. (adaptação da capa e projeto gráfico) e Carolina Caires Coelho (tradução) Obrigado, amigos. Todas as imagens são cortesia da Warner Bros. Entertainment Inc. 2020 Todos os direitos desta edição reservados à Editora Belas Letras Ltda. Rua Coronel Camisão, 167 CEP 95020-420 – Caxias do Sul – RS www.belasletras.com.br

Dados Internacionais de Catalogação na Fonte (CIP) Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer Caxias do Sul, RS

S964

Susman, Gary Friends forever: aquele sobre os episódios / Gary Susman, Jeannine Dillon e Bryan Cairns; tradução Carolina Caires Coelho. Caxias do Sul, RS: Belas Letras, 2020. 260 p.: il.

ISBN: 978-85-8174-532-9

1. Friends (Programa de televisão). 2. Cultura popular. I. Dillon, Jeannine. II. Cairns, Bryan. III. Coelho, Carolina Caires. IV. Título.

20/16

CDU 791.43

Catalogação elaborada por Cássio Felipe Immig, CRB-10/1852


Sumário 7

Aquele sobre o programa

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Temporada Um

60

Temporada Dois

78

Temporada Três

98

Temporada Quatro

116

Temporada Cinco

138

Temporada Seis

160

Temporada Sete

182

Temporada Oito

204

Temporada Nove

226

Temporada Dez

251

Aquele no qual reunimos tudo



Aquele sobre o programa “É SÓ UM SERIADO”

Isso era o que os cocriadores de Friends, Marta Kauffman e David Crane, diziam um ao outro, rindo do tsunami da cultura pop que eles tinham criado, além das tentativas feitas por estudiosos para explicar seu impacto cada vez maior e o que tudo isso significava. Claro, se Friends fosse só um “seriado de TV”, você não estaria lendo este livro. Sério, nunca foi só um seriado de TV. Desde o dia de sua estreia, há 25 anos, em 22 de setembro de 1994, foi um sucesso sem precedentes. Transformou seu elenco pouco conhecido em astros e estrelas perseguidos por paparazzi, ajudou a NBC a criar o bloco de programação imbatível “Must See TV”, nas quintas à noite, expandiu a variedade de conteúdo adulto permissível na grade do horário nobre da televisão, influenciou dezenas de outros seriados e se tornou uma das séries mais amadas de todos os tempos. Um quarto de século depois, longe da história e do rebuliço, as dez temporadas e os 236 episódios de Friends ainda formam uma das séries mais populares e lucrativas já criadas – um trabalho que segue conquistando novas gerações e fãs em todo o mundo, incluindo muitos fãs nascidos depois de o seriado ser tirado do ar, em 2004. Também rendeu uma década de piadas com uma música folk a respeito de um gatinho fedido. Certo, talvez seja só um seriado de TV. Este livro é uma celebração daquele seriado. Nestas páginas, você vai saber como o seriado foi criado – tudo, desde encontrar os atores perfeitos para interpretar cada um dos seis personagens principais, passando pela decoração do apartamento improvavelmente grande de Monica e o

confortável café-oásis que era o Central Perk. No guia de episódios, você vai ler tudo sobre os bastidores para saber como seus momentos preferidos de Friends aconteceram. E, sim, você vai ler sobre o impacto cada vez maior do seriado. Então, encontre um lugar confortável para se sentar e prepare um latte quentinho e fumegante. Temos muito sobre o que conversar. COMO O SERIADO FOI CRIADO

Quem teve a ideia para criar Friends? Depende para quem você perguntar. O então executivo da NBC, Jamie Tarses, disse que a ideia de criar um seriado a respeito de um grupo de jovens amigos de vinte e poucos anos já existia há um tempo. Seu colega na época, Warren Littlefield, disse que vinha pensando em fazer um seriado a respeito de jovens adultos na cidade grande.

“Claro, se Friends fosse só um ‘seriado de TV’, você não estaria lendo este livro”. Não se esqueça, 1994 também foi o ano em que a onda da Geração X chegou ao ápice e começou a diminuir. Você se lembra da Geração X? Se não se lembra, tudo bem; as pessoas que nasceram entre 1965 e 1980 meio que esperavam ser esquecidas. Uma nota de rodapé demográfica entre os baby boomers e os millennials, a Geração X era o filho do

O elenco principal de Friends é interpretado pelos seguintes atores, da esquerda para a direita: Matthew Perry, Jennifer Aniston, Lisa Kudrow, David Schwimmer, Courteney Cox e Matt LeBlanc. NA OUTRA PÁGINA

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Desde a primeira temporada, o elenco de Friends posou para dezenas de fotos de publicidade, como esta, conhecida entre os fãs como “foto do milk-shake”.

meio ignorado, a Jan Brady das gerações. Diferentemente dos outros grupos, a Geração X nem sequer teve um nome, apenas um marcador algébrico. A Geração X entrou na mira da cultura pop em 1994 – por todos os motivos errados. Foi o ano em que o líder do Nirvana, Kurt Cobain, morreu, quando o filme Caindo na Real foi recebido sem entusiasmo nos cinemas, e quando a biografia de Elizabeth Wurtzel, Geração Prozac, sugeriu que sua experiência com a depressão e os estabilizadores de humor era uma característica de sua geração inteira. Qualquer que fosse a janela de oportunidade que a Geração X teve para causar um impacto na cultura de sua era parecia estar se fechando. O último legado duradouro que seus membros tinham conseguido foi fazer com que se tornasse popular passar tempo com amigos bebendo café em uma cafeteria – antes de vermos um Starbucks em cada esquina. Em relação a como tudo começou, Friends foi ideia de Marta Kauffman e David Crane. Os dois escritores/produtores tinham criado a comédia Dream On (1990-96) juntos, mas tiveram proble8

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mas em criar outro sucesso depois dela. The Powers That Be durou uma temporada (1992-93) na NBC, e a CBS cancelou Family Album de 1993, depois de apenas seis episódios. O período resultante de incerteza na vida deles fez com que eles se lembrassem da própria experiência, uma década antes, quando eram nova-iorquinos de vinte e poucos anos tentando se dar bem como dramaturgos fora da Broadway. Relembrar isso levou a uma premissa de outro programa: seis jovens de vinte e poucos anos passando tempo em um café, trocando apoio moral conforme entravam na vida adulta cheia de incertezas no mundo real. Por que seis? Porque depois de Dream On, um programa que dependia muito de um protagonista, Kauffman e Crane queriam tentar algo novo quase desconhecido na televisão: uma comédia em grupo com seis papéis igualmente importantes. Crane relembra em uma entrevista de 2019 coisas sobre as primeiras conversas a respeito do DNA da série e onde eles queriam chegar: “Havia alguns elementos práticos em um programa que tínhamos feito anteriormente, o Dream On, que


acontecia na cabeça de um cara. Ele era o protagonista e estava em todas as cenas, o que é muito difícil de fazer. Então, pensamos ‘Vamos fazer um programa que de fato seja um conjunto’, o que é difícil de fazer. Não há muitos conjuntos de fato nos quais as pessoas não acompanhem um personagem em especial. Em Cheers, obviamente acompanhamos diversos personagens, mas Sam e Diane eram o gancho. Sim, tivemos Ross e Rachel, mas não sabíamos que teríamos Ross e Rachel naquele nível. Por isso, voltamos aos nossos vinte e poucos anos. Marta e eu nos conhecemos na faculdade. Vivíamos em Nova York nos anos 1980. Tínhamos um grupo de amigos que não eram muito diferentes dos Friends. Nosso lema era ‘Estamos naquela fase da vida em que os amigos são nossa família. Agora é o momento da família que formamos, não da que ganhamos’. E era bem isso. Assim, criamos seis personagens de que gostávamos muito. Nem sei se, hoje em dia, seria possível criar um programa com um conceito tão simples. A premissa é muito básica. É apenas a vida dessas seis pessoas e – para onde vamos? Aquela era a graça. Entramos, apresentamos a ideia e foi isso, basicamente”. Kauffman e Crane escreveram um resumo de sete páginas para sua ideia. O trecho explicando a premissa dizia que “Tem a ver com sexo, amor, relacionamento, carreiras, uma época da vida em que tudo é possível. E tem a ver com amizade porque, quando se é solteiro e se vive na cidade grande, seus amigos são sua família”.

“Se você nos colocar nas noites de quinta”, Bright disse, “pode até nos dar o nome Kevorkian, não estou nem aí.”

“Não era um programa para uma geração. Era para todo mundo”, disse Crane em 2004. “Sinceramente, estávamos todos tentando fazer um programa que gostaríamos de assistir”, acrescentou Kauffman. Até mesmo a escolha de um café como ponto de encontro do grupo foi aleatória, Kauffman e Crane relembraram em 2012. Não foi uma tentativa de entrar no clima da Geração X. Mas foi prática. Seinfeld já tinha um restaurante, e Cheers tinha um bar, então eles precisavam de outro lugar. “Literalmente, estávamos descendo a rua e vimos o Insomnia Cafe e pensamos: Ah, seria um lugar legal para colocar essas pessoas”, Kauffman disse. Insomnia Cafe se tornou o título do programa. Kauffman e Crane tinham conseguido certo interesse da rede Fox para outra ideia, uma ideia de programa de que eles próprios não gostavam muito; até temiam que as emissoras escolhessem os programas errados e ficassem presos. Mas quando chegaram à NBC, o nome Insomnia Cafe era exatamente o tipo de programa para pessoas de vinte e poucos anos que Tarses e Littlefield disseram estar procurando. O que convenceu Littlefield foi a especificidade bem clara de cada um dos seis personagens. “Eles sabiam muito bem quem eram seus personagens”, ele relembra. O programa não foi difícil de vender. Em uma entrevista em 2019, Kauffman disse: “Tínhamos ofertas competitivas, mas [a NBC] levou. A única mudança que eles queriam que fizéssemos era acrescentar um personagem mais velho no café, a quem chamávamos, de brincadeira, de Pat, o Policial. Mas explicamos que achávamos que o programa funcionava com pessoas jovens, e que se as histórias fossem universais, o programa seria assistido e as pessoas sentiriam algo por ele, ainda que não tivessem vinte e poucos anos. Com certeza funcionou assim. Claro, antes de o piloto ser transmitido, ocorreriam outras mudanças de título: Six of One, Across the Hall, Friends Like Us e, por fim, Friends. Houve certa intranquilidade em relação a isso, já que a ABC estava prestes a lançar um programa parecido – outra comédia a respeito de jovens adultos passando tempo juntos e procurando romance –

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chamada These Friends of Mine. (Cerca de um ano depois, quando Friends se tornou um enorme sucesso, o sitcom da ABC decidiu mudar seu título, rebatizando-o com o nome de sua protagonista, que tinha o mesmo primeiro nome que a atriz que a interpretava: Ellen.) O parceiro de produção de Kauffman e Crane, Kevin S. Bright, não se importou com o fato de o nome Friends parecer genérico, já que o programa tinha reservado o horário de exibição mais requisitado da TV: 20h30min de quinta-feira, entre Mad About You e Seinfeld. “Se você nos colocar nas noites de quinta”, Bright disse, “pode nos dar o nome Kevorkian, não estou nem aí”. Não demorou muito para que esse programa novo encontrasse seu espaço. A cocriadora Kauffman disse, em uma entrevista de 2019: “Mais ou menos no quarto ou quinto episódio, começamos a entender o que fazia o programa funcionar melhor. A lição que tivemos que aprender e reaprender foi de que era sempre melhor deixá-los juntos do que com outros personagens externos. Os personagens de fora tinham que entrar no mundo deles. Isso foi uma lição que tivemos que aprender algumas vezes antes de finalmente entender. É engraçado. Pelo menos até onde me lembro, a segunda temporada foi um pouco mais turbulenta. Precisamos pegar embalo para entender”. O cocriador David Crane diz: “Com certeza, houve desenvolvimento na primeira temporada. Houve descoberta. Diria que houve um momento no programa do primeiro Dia de Ação de Graças em que vimos que a Monica podia ser bem engraçada. Não só atenciosa e incentivadora, mas engraçada, de verdade. Depois disso, soubemos o que escrever”. OS CRIADORES

Kauffman e Crane eram da região de Philadelphia e tinham estudado na Brandeis University no fim dos anos 1970. Eles escreveram algumas peças juntos até estrearem na televisão com Dream On. Depois do lançamento bem-sucedido de Friends, a NBC naturalmente quis mais deles, e levaram a rede Veronica’s Closet (um veículo de su10

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cesso para Kirstie Alley, de 1997 a 2000) e produziram Jesse (1998-2000, com Christina Applegate como protagonista, interpretando uma mãe solo com vida difícil). Por fim, eles se separaram. Crane e seu marido, Jeffrey Klarik, cocriaram a comédia Episodes (Showtime, 2011-17), uma paródia a respeito da indústria da TV estrelando Matt LeBlanc, pós-Friends, interpretando a si mesmo. Kauffman e Howard J. Morris cocriaram Grace and Frankie (Netflix, 2015-), uma comédia que reuniu as estrelas de Como Eliminar seu Chefe, Jane Fonda e Lily Tomlin, como duas mulheres de setenta e poucos morando juntas. Uma pessoa importante no sucesso de Dream On foi o produtor Bright. Ele havia produzido especiais de comédia de TV para comediantes, desde George Burns a Robin Williams, assim como para boa parte da primeira temporada do inovador sketch de comédia da Fox chamado In Living Color. Em 1993, ele se tornou parceiro de negócios com Kauffman e Crane em produções de Kauffman/Crane/Bright, por isso ele entrou em Friends como produtor executivo antes de o programa ter uma emissora. Ele produziu a série toda e dirigiu sessenta episódios, incluindo o final. Anos depois, também produziria Veronica’s Closet e Jesse, de Kauffman e Crane, além do spin-off Joey, de Friends. O último membro-chave da equipe inicial de criação foi o lendário diretor de comédias de TV James Burrows. Ele dirigiu a maioria dos episódios de sitcoms clássicos, como Taxi e Cheers (um programa que ele também cocriou). Burrows podia ser desconhecido para o público da televisão, mas para roteiristas, produtores e atores, era bem conhecido por seu leve toque cômico, a complexa direção de atores, o olhar aguçado para a iluminação, a expansão do tradicional do sitcom de três para quatro câmeras e a capacidade de lidar com material adulto (raramente crianças aparecem ou participam de um programa de Burrows). Burrows também tinha uma boa noção de estrutura dramática – importante em um programa não ortodoxo como Friends, com seus roteiros igualmente compartilhados. (Por exemplo, um episódio normal de sitcom intercala um roteiro


Personagens de Friends Joey, Chandler e Monica sentados no sofá confortável de Monica, na temporada 2, episódio 1, “Aquele com a nova namorada do Ross”.

primário “A” com um subroteiro “B”, mas como Friends tinha seis personagens igualmente importantes, um episódio de 22 minutos costumava ziguezaguear entre roteiros “A”, “B” e “C” de peso parecido.) E Burrows também era mestre em criar pequenos momentos que revelavam personagens. (Lembre-se da cena no piloto na qual Ross e Rachel dividem um biscoito Oreo enquanto ele reúne coragem para perguntar se pode chamá-la para sair, às vezes. O biscoito foi ideia de Burrows.) Friends teve a sorte de ter Burrows dirigindo seu piloto e catorze outros episódios durante suas primeiras quatro temporadas. Anos mais tarde, depois de Burrows ter passado a dirigir Will & Grace e Mike & Molly, e depois de Friends ter saído do ar, os jornalistas sempre perguntavam aos atores de Friends se e quando eles se reuniriam de novo. A resposta sempre variava de “Nunca” para “Por que estragar algo bom?”. Mas em 2016, depois de doze anos de perguntas desse tipo, cinco dos seis (todos, menos Matthew Perry) se reuniram para um especial de TV: uma homenagem da NBC a Burrows.

Burrows assinando para dirigir o piloto de Friends foi um sinal de que o programa tinha uma chance quase certa de se tornar um sucesso de crítica e comercial. Agora, só precisava dos atores certos para integrar o grupo principal de seis pessoas. ELENCO E EQUIPE

Imagine uma versão de Friends com… bem, qualquer pessoa além dos seis praticamente desconhecidos que os produtores escolheram. Não consegue imaginar, não é? De fato, é um milagre que eles tenham escolhido exatamente os seis astros certos, atores que se deram bem não apenas com seus papéis, mas como grupo. Poderia ter dado errado em qualquer momento durante a escolha de elenco, devido aos outros esperançosos e talentosos que tinham feito testes, a disponibilidade incerta de alguns dos atores escolhidos de primeira e a concepção original dos personagens por parte dos roteiristas, que foi um pouco diferente da que os seis astros acabaram empregando em cada papel.

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O processo de seleção para integrar ao elenco seis protagonistas com ótima química de interpretação não seria moleza para os criadores do programa. “Foi demorado, foi difícil. Sempre é difícil. Procuramos uma espécie de magia. Isso sempre vai ser desafiador”, Crane disse em uma entrevista em 2019. “Conhecíamos alguns dos atores de antemão. Por exemplo, chegamos muito perto de colocar David em um piloto que fizemos no ano anterior. Sempre soubemos que ele era incrível. Desde o começo, enquanto criávamos o Ross, nós pensamos nele. Acho que provavelmente acabamos analisando algumas outras pessoas só porque acredito que David tinha perdido a fé na televisão naquela altura do campeonato. Ele sempre esteve no topo da nossa lista.” Crane prossegue explicando o processo de seleção: “Meu marido, Jeffrey Klarik, estava trabalhando como roteirista em Mad About You, na época. Ele disse: ‘Você precisa ver a Lisa Kudrow. Ela é a Phoebe, sem tirar nem pôr’. Quando ela chegou e fez o teste, foi meio ‘Ai, meu Deus, ele tem razão. Ela é a Phoebe’.” Kauffman e Crane tinham trabalhado com Matthew Perry em Dream On, em que ele fez uma participação especial. Crane disse: “Mas ele já tinha um piloto para o ano, então não estava disponível. Nenhum diretor quer contratar alguém que já tem algo engatilhado porque, se essa outra coisa der certo, o diretor se ferra. Então, alguém viu as outras coisas que ele estava fazendo – um programa chamado LAX 2194, que basicamente era sobre carregadores de malas do futuro – e disse: ‘Acho que você não precisa se preocupar, aquela coisa não vai para a frente’. Nós o deixamos como segunda opção, correndo o risco de os carregadores de mala do futuro darem certo.” Quem foi o mais difícil de escolher? “Monica e Rachel.” Crane explica: “Rachel, nas mãos erradas, poderia ser um personagem detestado. Ela é egoísta, mimada. Nós a conhecemos fugindo do próprio casamento. Ela recorre a Monica, a quem ela nem sequer convidou para o casamento. Pedimos para

muitas mulheres talentosas realizarem o teste e ninguém nem chegou perto. Até que Jennifer chegou e foi fabulosa. Nós dissemos: “Meu Deus, você a adorou”. O problema era que ela também tinha outro programa. E este seria lançado. Corremos o enorme risco apostando que acabaria sendo cancelado. Era um programa de verão. Gravamos quatro episódios e o programa dela foi cancelado. Foi um risco enorme. Mas todo mundo estava muito otimista, e todo mundo adorava a Jennifer. Se o programa dela tivesse vingado, teríamos que regravar quatro episódios.” Quando perguntaram quais foram algumas das características desenvolvidas nos personagens com o decorrer da série, Kauffman explicou: “Muitas delas têm a ver com quando um ator dá vida a um personagem [como a competitividade de Monica]. Você começa a descobrir coisas. É quando o personagem começa a se tornar tridimensional. Por exemplo, quando falamos sobre Joey pela primeira vez, ele era um cara durão e mulherengo. Como Matt LeBlanc o interpretou de modo doce, como um cara sensível, isso deu dimensão ao personagem. Também tenho que dizer que ele fazia papel de bobo muito bem. Não era bobo, mas interpretava um cara bobo muito bem.” Então, como os criadores inventaram os nomes dos personagens? Em uma entrevista em 2019, Crane explicou: “Havia um amigo de Marta na faculdade chamado Chandler. Tínhamos o personagem de Joey. Sabíamos que ele seria ator. Queríamos algo que fosse simples. Quando eu era criança, uma amiga de meus pais se chamava Phoebe, que eu considerava um nome muito bizarro. Acho que os outros não se basearam em pessoas da vida real. Nós seguimos procurando até achar um que parecesse certo e que pegasse.” Ele Estava Dando um Tempo

O primeiro e mais fácil papel a ser escolhido foi o de Ross Geller, pois Kauffman e Crane tinham escrito o papel pensando em David Schwimmer

O relacionamento ioiô entre Ross e Rachel se tornaria o maior arco da série. Essa imagem é da temporada 2, episódio 1, “Aquele com a nova namorada do Ross”. NA OUTRA PÁGINA

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depois de ele ter feito um teste sem sucesso para outro programa deles. Aos 27 anos, Schwimmer havia participado com papéis pequenos recorrentes em Anos Dourados e Nova York Contra o Crime, e havia participado também de um sitcom chamado Monty que foi cancelado depois de seis episódios. Depois disso, ele deixou de gostar de sitcoms e voltou à companhia teatral que havia fundado em Chicago, a Looking-glass Theatre Company. Mas seu agente o convenceu a ler o roteiro do piloto de Six of One, dizendo se tratar de um papel para integrar um conjunto. A palavra “conjunto” chamou a atenção do ator de teatro dentro dele e ajudou a conquistar a simpatia de Schwimmer pelo projeto. Outros atores tinham feito testes para interpretar Ross, incluindo Mitchell Whitfield, que ganharia o prêmio de consolação para fazer uma participação especial como o noivo abandonado de Rachel, Barry, e Eric McCormack, antes da fama, que ganharia o papel de Will alguns anos depois em Will & Grace, dirigido por Burrows. Mas Schwimmer sempre foi a primeira opção dos criadores. Em 2019, quando perguntaram qual era, para Crane, o melhor momento cômico físico de Schwimmer, ele disse: “Dois que me ocorrem com mais intensidade são aquele em que ele levou o sofá escada acima e aquele da calça de couro. Vou acrescentar outro à lista. Na primeira temporada, durante o blecaute, quando o gato pula nas costas dele, não consigo me lembrar de outro momento em que tenha dado tanta risada na vida. A propósito, o que vocês veem na televisão, tivemos que reduzir. A plateia ficou maluca. As pessoas não paravam de rir. As risadas não acabavam. David lutou com um boneco de gato. Foi incrível. Ele arrasou. E então, com a calça de couro – toques, como quando ele passa creme e bate a cabeça… ah, ele é um gênio!” How you doin’?

Também foi fácil escolher Joey Tribbiani. Entre os atores que fizeram testes, estavam Hank Azaria (que já era ator de dublagem em Os Simpsons, e que mais tarde interpretaria o namorado de Phoebe, David), e Vince Vaughn, que apenas dois anos

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depois ganharia seu papel que o levaria ao estrelato no filme Swingers – Curtindo a Noite. E também havia Matt LeBlanc, 26 anos, mais conhecido por sua participação em dois sitcoms de curta duração, spin-offs de Um Amor de Família e Vinnie and Bobby, da Fox. O ator, nascido em Newton, Massachussets, era italiano por parte de mãe e com certeza sabia como era a vida de um ator tentando se estabelecer. Na véspera da audição, como LeBlanc relembrou em 2012, um colega ator o convenceu a sair para beber com amigos, garantindo que beber em grupo o ajudaria a entrar no personagem para aquela comédia em grupo. Naquela noite, LeBlanc caiu de cara na calçada e acabou com um corte no nariz. “Fui para a audição com um corte enorme no rosto, e Marta perguntou: ‘O que aconteceu com seu rosto?’. Eu disse: ‘Ah, é uma longa história’. Ela achou graça, riu, e isso meio que definiu o clima na sala.” “Ele foi o Joey”, Littlefield relembrou em 2012, a respeito da audição de LeBlanc. “Ele arrebentou. Foi inegável. Ele foi maravilhoso. Não houve dúvida em relação a ele.” Mesmo assim, LeBlanc se sentia intranquilo a respeito de sempre dar em cima das três Friends do sexo feminino. Temia que, com essa forte característica, Joey logo deixaria de ser bem recebido entre os outros personagens e com os telespectadores. Logo no começo do programa, ele perguntou aos roteiristas: “É possível que Joey veja as três moças como suas irmãs, e que queira dar em cima de todo mundo, menos de elas três? Assim, eu acreditaria que eles são amigos. Caso contrário, acho que elas nem desejariam mais falar com ele se ele der em cima delas o tempo todo”. Os roteiristas concordaram, e apesar de Joey continuar considerando todas as outras mulheres possíveis alvos, assumiu uma postura protetora com Rachel, Phoebe e Monica. Graças a LeBlanc, Joey passou de amigo grosseiro a irmão mais velho bonzinho. Crane disse em 2019: “O personagem de Joey nem sempre foi um trabalhador. Não quero usar a palavra burro, mas há coisas nas quais Joey não é lá muito esperto. Isso estava no piloto. Acho que no primeiro rascunho original do roteiro não existia. Foi incremental.”


Joey e Phoebe no Central Perk, na temporada 1, episódio 17, “Aquele com duas partes”.

Vinte e cinco anos depois, os roteiristas não se arrependem de não dar a Joey um grande interesse amoroso. Kauffman disse em 2019: “O maior crush que vimos para ele foi naquele com Kathy, no qual Chandler acabou em uma caixa. E depois teve o crush com Rachel. Aquilo foi o máximo de intimidade com uma mulher que ele provavelmente teve sem fazer sexo. Ainda não era o momento para ele.” A Gêmea Boazinha

Phoebe Buffay deveria ser animada, por isso, entre as atrizes testadas, havia aquelas com talento cômico, como a atriz de stand-up Kathy Griffin e a

então desconhecida Jane Lynch. Ellen DeGeneres fez teste, apesar de ela já ser a protagonista do programa similar chamado These Friends of Mine, da ABC, que estrearia naquela primavera. Lisa Kudrow, de 30 anos, já tinha um papel recorrente como Ursula, a garçonete hostil de Mad About You. Foi seu papel de estreia depois de quase uma década aperfeiçoando suas habilidades cômicas, primeiro na famosa trupe de Los Angeles, Groundlings (onde trabalhou ao lado do então também desconhecido Conan O’Brien), e depois em dois pilotos malsucedidos para a TV. Por ter participado do lendário episódio final de Newhart, ela conseguiu um papel no programa seguinte de Bob Newhart, Bob, de curta duração. Aquele

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Monica com um peru cru na cabeça na temporada 5, episódio 8, “Aquele com todos os Dias de Ação de Graças”.

Em 1993, ela foi escolhida para interpretar Roz Doyle em Frasier, mas quando ficou claro aos criadores do programa que ela não era certa para o personagem, eles a substituíram durante a gravação do piloto por Peri Gilpin, que permaneceu no papel por onze anos. Por isso, Kudrow estava nervosa querendo agradar a Burrows, o próprio diretor que a havia tirado de Frasier. De qualquer modo, sua atuação amalucada combinava com Phoebe, apesar de Kudrow achar que ela tinha mais a ver com Rachel. “Não, você é a garota excêntrica”, os criadores do programa insistiram. Kudrow estava feliz por estar trabalhando em outro programa com a NBC, pois ela acreditava que a emissora protegeria sua atuação concorrente em Mad About You. A espiritual e apaixonada Phoebe era o completo oposto da personagem megera de Kudrow em 16

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Mad About You. Então, quando a NBC programou Six of One às 20h30min para ser transmitido depois de Mad About You, os roteiristas do novo programa debateram: e se a Phoebe fosse a gêmea de Ursula? Isso abriu uma série de possíveis enredos, que Friends exploraria ao longo dos anos, nos quais as irmãs eram confundidas uma com a outra, além de possibilidades de crossover de episódios entre as duas séries. Claro, os produtores de Six of One precisavam da permissão dos produtores de Mad About You para estabelecer a ligação. Ajudou o fato de o marido de Crane, Jeffrey Klarik, ser roteirista de Mad About You. “Se [Ursula] tivesse sido minha criação no programa, não sei se eu teria sido tão generoso como Danny Jacobson [criador de Mad About You] foi conosco”. Crane relembrou em 2012.


O maior crush de Phoebe era Mike, interpretado pelo ator Paul Rudd, o que permitiu aos criadores explorar uma nova dinâmica para Phoebe em temporadas posteriores. Kauffman disse a respeito da relação: “Ele era a sanidade dela. Ele era um cara comum e ela é um personagem extremo. Assim, isso dava raízes para ela, fazia com que ela se tornasse mais real. Também conseguimos explorar o triângulo com o cientista David. Ele era um personagem mais atrapalhado, apesar de as pessoas torcerem por aquele relacionamento na época. Mas assim que Paul Rudd entrou em cena, acho que ele quase preencheu outra dimensão de Phoebe, que era alguém que queria algo mais normal, conservador, de certo modo.” Dava para EU ser mais difícil de escolher?

A equipe de Six of One pensou que Chandler Bing seria fácil de ser escolhido. Não foi. O personagem sarcástico e espirituoso se baseou em parte no próprio Crane. “Tem um pouco do Chandler em mim, no que diz respeito a suas inseguranças e a se defender com seu humor”, disse Crane. Assim como Vince Vaughn havia feito teste para interpretar Joey, o amigo e futuro colega de elenco dele em Swingers, Jon Favreau, fez teste para interpretar Chandler. (Mais tarde, ele faria uma participação especial como Pete, o namorado milionário do mundo da tecnologia de Monica.) Os produtores também chamaram Jon Cryer para o papel, mas ele estava fazendo uma peça em Londres, na época. Ele disse que enviou uma audição em fita, mas os produtores não a receberam. Assim como Chandler, os pais de Matthew Perry também eram divorciados. Criado pela mãe, ainda assim ele escolheu a profissão de seu pai, o ator John Bennett Perry. Mudou-se de Ottawa, Canadá, para Los Angeles na adolescência e conseguiu papéis de protagonista em diversas séries (Second Chance, Sydney, Home Free), nenhuma das quais durou mais de uma temporada no ar. Ele também fez participações especiais em alguns programas, incluindo Barrados no Baile, e na série Dream On, de Kauffman, Krane e Bright.

Então, quando o ator de 25 anos fez o teste para interpretar Chandler, os produtores sabiam que ele podia interpretar o papel bem. O problema era que ele já tinha outro compromisso. Ele havia conseguido um papel em um piloto da Fox chamado LAX 2194, uma comédia a respeito de carregadores de mala de aeroporto, ambientada 200 anos no futuro. Outro ator em ascensão, Craig Bierko, fez teste para o papel. Alguns dos produtores gostaram dele, outros, não. No fim, ele foi orientado para essa audição por Perry, o amigo de Bierko e colega de elenco em Sydney. Felizmente, Bierko decidiu que não queria o papel; Perry ficou disponível quando a Fox decidiu não seguir em frente com LAX 2194. Crane disse que piadas sobre a orientação sexual de Chandler sempre fariam parte do programa, mas que assim que Perry conseguiu o papel, “Acho que nunca pensamos em fazer com que Chandler fosse gay”. Isso influenciou o processo de criação por trás do fato de darem um pai transgênero a Chandler. Kauffman disse: “Acho que teve a ver com o fato de Chandler ter alguns traços de personalidade interessantes. Ele era desapegado da família. Para nós, ainda mais pensando que houve um episódio em que todo mundo pensou que Chandler era gay, pensamos que ficaríamos na área LGBTQ com ele na vida dele. A ideia simplesmente surgiu: ‘Que tal Kathleen Turner?’. Gostaria de ter sabido, na época, o que sei agora. O lance do transgênero feito com frequência como piada. Não sei se tínhamos, naquela época, a sensibilidade que eu teria agora”.

“Acho que nunca pensamos em fazer com que Chandler fosse gay.” Kauffman comentou, em 2019, sobre a interpretação única e a ênfase que Perry dá às palavras. “É tudo dele, da genialidade dele.” Ela prosseguiu:

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“Sem querer dizer frases específicas que são repetidas milhões de vezes, isso é um exemplo de algo que Matthew fazia tão bem. Tornou-se característica dele. Nós costumávamos, se de fato quiséssemos que ele enfatizasse uma palavra, sublinhar a outra palavra. Ele sempre encontrava uma maneira de mudar o que tínhamos escrito para fazer do jeito dele – do melhor jeito.” EU SEI!

Kauffman e Crane criaram Monica Geller pensando na voz de Janeane Garofalo. A princípio, deixaram a personagem mais piadista, cínica e mais áspera do que ela acabou sendo. Kauffman a havia criado com base em si mesma, de certo modo. “Tenho muito da Monica, em termos de tudo ter que ser de um determinado jeito”, ela disse em 2012. “Apertar a tampa da caneta até fechar direito.” Monica também seria mais ousada sexualmente; na verdade, Kauffman e Crane imaginaram que Monica e Joey, por serem os personagens mais sexualmente ativos, acabariam ficando juntos e se tornariam um dos principais pares românticos da série. (Felizmente, isso não aconteceu.) A ideia de unir Ross e Rachel veio depois. Garofalo não ficou interessada. Outras atrizes fizeram teste para o papel, incluindo Jessica Hecht (que havia interpretado Susan, a nova mulher da ex-esposa de Ross, Carol), a futura protagonista de O Rei do Bairro, Leah Remini, e Jami Gertz. (Gertz também foi considerada para interpretar Rachel, mas recusou o papel). Por fim, a decisão ficou entre duas atrizes: Nancy McKeon, conhecida por ter interpretado a menina durona com jeito de menino, Jo, em Vivendo e Aprendendo, e Courteney Cox. Na época, Cox, de 29 anos (dois anos mais velha do que Schwimmer, que interpretaria seu irmão mais velho), era mais conhecida por seu papel como a namorada de Alex Keaton em Caras e Caretas e por ter aparecido no clipe de “Dancing in the Dark”, de Bruce Springsteen, como a moça que O Chefe puxa para o palco para dançar com

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ele. No começo de 1994, Cox tinha dois papéis de destaque, ainda que ingratos: em um episódio de Seinfeld, como uma namorada que finge ser casada com Jerry para poder pedir um desconto na lavanderia, e como par de Jim Carrey em Ace Ventura. Os produtores haviam feito um teste para que ela interpretasse Rachel, mas ela não se considerava muito excêntrica e pediu para fazer o teste para Monica. Seu desempenho foi tão bom que os donos do programa tiveram dificuldade para decidir entre Cox e McKeon. Littlefield disse que ele apoiaria qualquer decisão. Kauffman, Crane e Bright deram uma volta pela propriedade da Warner Bros. e quando voltaram escolheram Cox, por terem considerado que havia algo de diferente em sua maneira de interpretar a personagem. Não é fácil ser Green

O último – e mais difícil – papel a ser fechado foi o de Rachel Green. Téa Leoni era uma das opções, mas ela escolheu aceitar um papel de protagonista no sitcom The Naked Truth, e não Rachel. Além de Leoni e Cox, os produtores também incluíram Jane Krakowski, e a atriz de Uma Galera do Barulho, Elizabeth Berkley e Tiffani Thiessen. Para Jennifer Aniston, Six of One era só outro piloto, um dos seis que gravou em 1994. A atriz de 25 anos há tempos despontava para a fama, mas ainda não tinha chegado lá. Filha do ator de novelas John Aniston (ele havia interpretado Victor em Days of Our Lives – o programa, de fato, não o fictício que mais tarde contrataria Joey para interpretar o dr. Drake Ramoray), Jennifer já tinha participado de muitos programas que não deram em nada. Na adaptação de curta duração de Curtindo a Vida Adoidado, ela tinha interpretado a irmã de Ferris, Jeannie. (Era o papel interpretado, no filme de 1986, por Jennifer Grey, que participou de Friends como Mindy, a rival de Rachel pelo afeto de Barry.) Ela atuou na série de comédia da Fox The Edge, que durou uma temporada. Ela até chegou a atuar em um filme, mas – infelizmente –, era o famoso filme estranho de horror O Duende.

Monica e Rachel da 6ª temporada, episódio 6, “Aquele da última noite”

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Num dia de 1993, Littlefield lembrou 19 anos depois, ele encontrou Aniston em um posto de gasolina na Sunset Boulevard em Hollywood, e ela parecia desanimada. “Nunca vai acontecer?”, ela perguntou ao executivo da NBC. Littlefield, que a conhecia de Curtindo a Vida Adoidado, garantiu que ela era talentosa e que seu momento de revelação ao público aconteceria. Ninguém sabia que estava prestes a acontecer. Quando fez o teste para Six of One, Aniston tinha conseguido um papel de protagonista em um sitcom da CBS chamado Muddling Through, que a emissora tinha deixado na geladeira durante todo o ano, mas que estrearia no verão de 1994. Ela fez o teste para ser Monica, mas convenceu os produtores que seria melhor no papel de Rachel. Os produtores concordaram que ela era a pessoa certa para o papel, apesar de temerem que seu envolvimento no Muddling Through a impediria de estar no programa da emissora concorrente. Aniston também tinha essa preocupação, pois achava que Rachel seria um papel melhor. Na verdade, todos temiam que a CBS se recusasse a ajustar a agenda de Aniston para permitir que ela gravasse as duas comédias ao mesmo tempo, para poder sabotar o programa novo da NBC. Nessa época, como Aniston contou a Oprah Winfrey em 2011, ela também fez um teste para o Saturday Night Live, da NBC, e até recebeu a oferta para participar do elenco da comédia, mas ela a recusou por Friends. Ela relembrou que seus amigos da vida real acharam sua decisão maluca. Mesmo depois de os produtores de Friends terem contratado Aniston, ela não se sentia segura no trabalho. Ela soube de amigas atrizes que diziam ter feito teste para interpretar Rachel depois de Aniston ter sido contratada. Ela foi deixada de fora de algumas fotos publicitárias do elenco de Friends. Littlefield deve ter sido o único que não se preocupou. Tinha certeza de que Muddling Through fracassaria e que a CBS o cancelaria. Aniston gravou o piloto de Friends naquele verão, de qualquer modo. Felizmente para ela e para a Equipe de Friends, a CBS abandonou Muddling Through depois de seu nono episódio ir ao ar, duas semanas antes da estreia de Friends, em 22 de setembro.

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Obviamente, a relação com Ross seria o arco principal e mais longo. Mas o que outros casos amorosos, como Tag, causaram em Rachel e permitiam que os criadores contassem? Kauffman disse: “Foi muito divertido vê-la envolvida com um bonitão. Foi divertido ver a relação mulher mais velha/homem mais novo e o fato de ela não conseguir resistir a ele. De certo modo, ter interesse em Tag deixou Rachel jovial. Foi um romance de garota.” O QUE TORNA FRIENDS TÃO ESPECIAL

O que torna Friends tão especial? Existem os elementos óbvios: o sexteto de astros perfeitamente escolhido, o texto engraçado, a direção cheia de empatia, aquela música-tema chiclete. Para espectadores nostálgicos de determinada idade, há a sensação de que Friends envolvia e mantinha uma época da vida deles e fazia com que parecesse mais colorida do que de fato era. Talvez seja o fato de os seis personagens serem todos meio iguais na importância, facilitando para os espectadores escolherem um com quem se identificar. Mas tem outra coisa, e tem a ver com o modo com que o grupo de seis pessoas se torna algo maior do que a soma de suas partes. A maioria dos sitcoms fala de família. Tem sido assim desde a época de I Love Lucy, Leave it to Beaver e The Brady Bunch. Até mesmo os sitcoms que não são a respeito de famílias, no sentido literal, costumam ser sobre famílias improvisadas, normalmente formadas por colegas de trabalho. (Pense em The Mary Tyler Moore Show, M*A*S*H, Cheers, The Office – a lista é enorme.) O incomum a respeito da família de sitcom Friends é que os seis protagonistas não são parentes (exceto Ross e Monica), nem colegas de trabalho. Na verdade, eles não têm muito em comum, exceto o fato de serem todos pessoas de vinte e poucos anos embarcando na vida como adultos no mundo real, com sonhos parecidos de sucesso na carreira e no amor. As aspirações que têm em comum tornam as três moças e os três caras uma espécie de família, uma família especial porque eles se escolheram. Não porque foram forçados a con-


viver devido a laços de sangue ou profissão, mas porque todos gostam uns dos outros, de verdade. Na verdade, cada um dos seis Friends está procurando uma família para si, que normalmente parte das famílias nas quais nasceram. Phoebe está, literalmente, procurando uma família, já que, de modo geral, foi abandonada pela dela. Seus pais e sua irmã gêmea ainda são disfuncionais demais para quererem saber dela, mas ela se conecta com o meio-irmão, Frank Jr., a ponto de começar uma família nova com ele ao se tornar a mãe postiça de seus trigêmeos. De modo adequado, ela acaba se casando com Mike, que adora todas as suas idiossincrasias, mesmo que sua própria família as rejeite. Chandler também deseja a família tradicional que não teve quando pequeno, sentindo-se abandonado pela mãe glamorosa (sempre ausente em suas turnês de livros) e o pai transgênero (que literalmente abandonou a paternidade tradicional e assumiu o show business). No fim do programa, ele finalmente consegue ser o pai de bairro residencial, casado e feliz que ele não conseguiu ter durante a infância. Rachel, de modo semelhante, vem de uma família disfuncional, com uma mãe indulgente e um pai impossível de ser agradado. No começo da série, ela não sabe o que quer nem o tipo de homem com quem quer estar; só sabe que não quer as escolhas que todo mundo espera que ela faça, incluindo copiar a união de seus pais casando-se com Barry. Joey vem de uma família aparentemente estável e grande, e parece ser o único Friend que teve uma infância feliz. Mas descobre, logo no começo da série, que seu pai está traindo sua mãe, que decide ignorar a infidelidade por motivos pessoais. Joey vê nos Friends um grupo como sua família — um grupo grande que o ama incondicionalmente —, mas sem a hipocrisia e a deslealdade. Monica e Ross têm um ao outro, mas nem sempre isso é bom. Monica cresceu se sentindo desprezada, acreditando que seus pais sempre a comparavam com seu irmão mais velho. Por ser a mãe não oficial do grupo, Monica acaba sendo o tipo de mãe que não teve, aquela que nem julga os outros nem recrimina as escolhas de vida que tomam.

Rachel sobe nas costas de Ross, na segunda temporada, episódio 7, “Aquele em que Ross fica sabendo”.

Quanto a Ross, ele começa o programa com sua família se desfazendo, quando sua esposa Carol se divorcia dele para ficar com Susan. Ele é o primeiro dos Friends a se casar (na verdade, ele passa por três casamentos fracassados ao longo da série) e o primeiro a se tornar pai. Ao namorar Rachel, a garota que o ignorou na adolescência, ele tem a chance de reescrever a própria infância com um final feliz. Mas depois que ele estraga essa relação – dormindo com a moça gostosa quando “Estávamos dando um tempo!” – ele namora muitas outras mulheres, e todos esses relacionamentos fracassam porque nenhuma outra mulher é Rachel. No fim da série, além de reconquistar Rachel, também tem a filha deles, Emma, o filho dele, Ben, e uma família estendida que inclui Monica, Chandler e seu bebês adotados, além de Carol e Susan, Phoebe e Mike, e Joey. Não é o tipo de família imaginada por seus pais baby boomers, nem o que as pessoas esperavam, mas é uma família mesmo assim.

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CHANDLER MURIEL BING Divertido. Seco. Observador irônico da vida de todo mundo. E da própria. Trabalha de frente para um computador fazendo algo tedioso em um cubículo claustrofóbico em um prédio comercial qualquer. Sobrevive graças a seu senso de humor. E aos petiscos. — descrição inicial do personagem de Chandler

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im, Chandler é engraçado. As melhores frases de efeito do programa são dele (incluindo a frase final da série), e seu sarcasmo não só é seu mecanismo de defesa, mas a principal característica. Claro, foi preciso muitos contratempos e neuroses para tornar esse sarcasmo contínuo e necessário. Chandler é o único Friend que não tem irmãos. Ele é o filho único da famosa escritora de literatura erótica Nora Tyler Bing (Morgan Fairchild), cujos livros e entrevistas são fontes de embaraço para seu filho, e Charles Bing (Kathleen Turner), que envergonha Chandler quando se torna uma artista transgênero chamada Helena Handbasket. Chandler era pequeno quando seus pais anunciaram o divórcio no Dia de Ação de Graças, gerando nele o senso de humor como escudo emocional, o medo de compromisso e o ódio que sente pelo Dia de Ação de Graças. Na faculdade, ele e seu colega de quarto, Ross Geller, tornaram-se amigos íntimos e deram início a uma banda horrorosa chamada “Way! No Way!” (Bem, foi nos anos 1980.) Depois de se formar, ele conseguiu um emprego temporário em análise estatística e reconfiguração de dados, algo de que ele entende pouco e gosta menos ainda, mas como uma das piadas mais recorrentes da série, ele está sempre sendo promovido. Financeiramente falando, ele é o mais bem-sucedido dos Friends. Ao se mudar para o apartamento no andar da única irmã de Ross, Monica, depois que ela diz a ele que havia uma unidade vaga, Chandler encontra um colega de quarto e novo melhor amigo em Joey Tribbiani.

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Os dois têm pouco em comum, exceto o amor que dividem por Baywatch: S.O.S. Malibu, mas Joey admira Chandler pela inteligência, enquanto Chandler admira Joey por sua autoconfiança com as mulheres. Chandler, apesar de ser interpretado por Matthew Perry, não se considera muito atraente para as mulheres. Graças a sua infância, ele se vê como uma excursão freudiana de falta de habilidade no sexo. Costumam tanto pensar que ele é gay que até ele sente dúvidas a respeito de sua sexualidade. O fato de seu segundo nome ser “Muriel”, sua proximidade com Joey e sua natureza meticulosa ajudam a fazer com que o pânico gay de Chandler seja uma piada recorrente na série. A falta de amor-próprio de Chandler – “Daria para eu ser mais [adjetivo pouco elogioso]” é a frase mais falada dele – é um motivo pelo qual ele sempre reata com Janice (Maggie Wheeler), a namorada superirritante com risada espalhafatosa e sotaque esquisito. Não é tanto por amor, ele simplesmente não acredita que consiga coisa melhor. Felizmente, ele encontra a mulher em Nova York cujo medo e problemas de autoestima combinam com os dele. E ela estava no mesmo andar do prédio dele, o tempo todo. Chandler poderia ter sido um cara doce, mas insuportável, como Janice. Mas Perry, além de ter a incrível capacidade de complementar as piadas de Chandler, explorou bem a vulnerabilidade do personagem. Assim, os fãs passam a valorizar as estranhezas de Chandler, que, a propósito, incluem uma habilidade excelente de jogar pingue-pongue. E um terceiro mamilo.


JOSEPH FRANCIS TRIBBIANI JR. Bonito. Macho. Arrogante. Mora no apartamento em frente ao de Monica e Rachel. Quer ser ator. Na verdade, quer ser Al Pacino. Adora mulheres, esportes, mulheres, Nova York, mulheres, e, acima de tudo, Joey. — descrição inicial do personagem de Joey

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oey é um personagem singular na história da televisão: um mulherengo de coração mole. Ele não foi escrito para ser assim. Originalmente, deveria ser um sem-vergonha típico, como dá para ver pela descrição acima. Mas quando Matt LeBlanc foi escolhido, perguntou aos roteiristas, astutamente: se o Joey é um cara tão chato e narcisista, por que os outros gostam dele? LeBlanc acabou por interpretá-lo com uma doçura de irmão mais velho que tornou Joey não só amável, mas único. Ah, além disso, ele é muito bobo. Essa foi outra contribuição do ator, que teve início na gravação do piloto, quando os roteiristas notaram que LeBlanc era muito bom em fazer papel de tonto. Joey podia ser esperto em relação às mulheres, mas ele era bem sem noção em relação a todas as outras coisas na vida. Ainda assim, essa falta de noção, combinada com o coração mole, acabou parecendo menos estupidez e mais ingenuidade bonitinha, o que fez com que ele se tornasse ainda mais adorável. Joey é ator, apesar de não ser tão talentoso quanto pensa. É mais conhecido pelo papel pequeno que interpretou como Dr. Drake Ramoray em Days of Our Lives, um papel que ele perde repentinamente depois de se gabar para um jornalista que improvisou as melhores falas do personagem. (Esse comentário irrita os roteiristas de Days, que logo matam o personagem de Joey.) Suas breves atuações com atores de primeira linha, como Al Pacino e Charlton Heston, tam-

bém terminam em desastre, devido à ousadia de Joey, não tanto a seu ego. Ainda assim, a autoconfiança que faz com que ele continue fazendo testes também o ajuda a conquistar mulheres com facilidade. Joey compreende as mulheres, talvez porque ele venha de uma grande família ítalo-americana e tenha sete irmãs. (São elas [tome fôlego] Mary Teresa, Mary Angela, Dina, Tina, Gina, Veronica e Cookie.) Ele tem a incomum habilidade de fazer com que qualquer frase tenha duplo sentido (ouça-o falar “Salpicão da vovó”), mas sua frase marcante, “How you doin’?”, nunca parece sórdida. Outras características de Joey: ele come qualquer coisa (ele é a única pessoa que gosta do pavê horroroso de Dia de Ação de Graças da Rachel, feito com carne e bananas). E ele é intensamente leal, ainda mais a seu colega de quarto e melhor amigo Chandler. Ele fica à vontade mantendo relações com um grupo grande de amigos, incluindo suas amigas, talvez por ter muitas irmãs. Na verdade, ele é muito respeitoso, a ponto de, quando passa a gostar de Rachel mais tarde na série, o interesse parecer (para muitos espectadores) perturbadoramente incestuoso e inadequado. De todos os seis Friends, Joey, sem dúvida, é o que menos se desenvolve e muda ao longo da série. No fim, ele é o único que não consegue um par, e que ainda tenta se tornar um ator conhecido. Claro, a situação permitiu à NBC fazer uma série spin-off com o personagem, o sitcom Joey, que não durou muito tempo.

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PHOEBE BUFFAY Meiga. Inconstante. Adepta do New Age. Ex-colega de casa de Monica. Vende prendedores de cabeça na rua e toca violão no metrô. Uma alma boa. — descrição inicial da personagem de Phoebe

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o início da série, Phoebe diz a sua nova amiga Rachel que ela nunca mente. Isso é mentira. Na verdade, Phoebe sempre mente. Ela tem uma longa ficha criminal e uma identidade falsa, “Regina Phalange”. Ela costuma mentir para os outros Friends com frequência, normalmente para não deixar que a pessoa conheça uma verdade dolorosa. De fato, o contraste entre o que pensamos saber sobre Phoebe – que ela é carinhosa, otimista, espiritualizada, sensível, bem-humorada, leal – e o que ela revela casualmente a respeito de si mesma é um dos ganchos mais misteriosos da série. A doçura e a ambiguidade de Phoebe surgem de sua criação traumática. Abandonada pelos pais biológicos, ela foi criada por uma mãe adotiva que se suicidou quando Phoebe tinha catorze anos. Já tão jovem, ela viveu nas ruas e sobreviveu graças a uma vida no crime. Por muito tempo, sua única família foi a “gêmea má”, sua irmã Ursula, a amargurada e grosseira garçonete que Lisa Kudrow interpretou em Mad About You. Não é à toa que ela se apega ao meio-irmão Frank Jr. (Giovanni Ribisi), o único membro da família que a aceita. Apesar de ter aprendido a malandragem da rua, Phoebe é surpreendentemente ingênua, pois sua mãe a protegeu de muitas verdades cruéis, como o Papai Noel e cenas bem conhecidas de filmes como Bambi, nas quais os animais morrem. Ela também não teve muito estudo, enlouquece Ross por rejeitar a ciência e ela e Joey são os únicos dois Friends que não se formaram na faculdade. De fato, ela é muito parecida com Joey, até a tendên-

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cia que tem a levar as coisas ao pé da letra. Talvez essa maneira não mimada de enfrentar a vida seja o motivo pelo qual Phoebe e Joey mantenham uma relação platônica e sejam melhores amigos. A liberdade de Phoebe a torna amada no grupo. Ela é o oposto da tensa Monica, por isso teve que deixar de dividir uma casa com ela, deixando o caminho livre para que Rachel se mudasse para o apartamento. (Phoebe conseguiu esconder de Monica o fato de ter se mudado para não magoar os sentimentos dela.) Phoebe trabalha como massoterapeuta durante o dia, mas sua paixão é a música; de algum modo, ela consegue convencer a administração do Central Perk a permitir que ela se apresente ali, tocando violão e cantando músicas de autoria própria, muitas delas horrorosas, mas animadas. Sua música mais conhecida, “Smelly Cat”, tinha uma melodia composta por Kudrow, em parceria com a convidada especial no episódio no qual Phoebe apresentou a canção, a vocalista do Pretenders, Chrissie Hynde. Kudrow tinha o charme e a habilidade cômica de tornar as estranhezas de sua personagem não só bonitinhas, mas até atraentes. Phoebe tem uma série de pretendentes – um marido dançarino chamado Duncan (Stev Zahn), Ryan (Charlie Sheen), um oficial da marinha, e o cientista que foi para Minsk, David (Hank Azaria). Adequadamente, é com um cara qualquer que Joey apresenta a ela, Mike Hannigan (Paul Rudd), que ela acaba se casando.


MONICA E. GELLER Esperta. Cínica. Protetora. Muito atraente. Teve que batalhar por tudo o que tem. Assistente de chef em um restaurante chique de área nobre da cidade. E um desastre no amor. — descrição inicial da personagem de Monica

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onica a princípio seria a personagem de maior destaque, a líder graças a sua sabedoria em relação ao mundo, conquistada a duras penas. Mas, como Courteney Cox a construiu, ela se tornou a mãezona do grupo, com seu apartamento muito espaçoso e supostamente alugado tornando-se um lugar ainda mais aconchegante para o encontro do grupo do que o Central Perk. Parte de sua natureza maternal vem da própria situação de Cox quando o elenco foi formado, pois ela era a atriz mais famosa do sexteto. Em parte, vem das habilidades de Monica como chef, tornando-a uma das raras nova-iorquinas que usam a cozinha e que sempre têm algum prato delicioso preparado. A natureza maternal também se deve à hilária tendência de Monica a ser sempre muito controladora. A natureza obsessiva de Monica vem da infância. Na opinião dela, seus pais, Jack (Elliott Gould) e Judy (Christina Pickles) Geller aparentemente sempre favoreceram seu irmão mais velho Ross, e sempre encontravam defeitos em Monica ou faziam poucos elogios. (De fato, eles parecem fazer isso ao longo da série, sempre que visitam Monica ou quando ela os visita na casa deles.) Monica era obesa na infância (a julgar pelos enchimentos que Cox usava em cenas de flashback) e ressentida. De qualquer modo, ela ainda tinha algum carisma, suficiente para se tornar amiga da popular e bela Rachel Green na Lincoln High. A baixa autoestima de Monica na adolescência também fez com que ela emagrecesse já

adulta, com uma dieta pesada inspirada por um comentário doloroso a respeito de sua aparência, feito por um cara por quem ela se sentia atraída. (No fim das contas, esse cara era amigo de faculdade de seu irmão, Chandler.) Mas seu fascínio por comida e por culinária – das quais ela passou a gostar desde que ganhou um forno de brinquedo na infância – continuou na profissão escolhida por ela. As questões de infância de Monica continuam aparecendo com clareza em sua obsessão por limpeza, na exagerada competitividade com seu irmão, e até em seu romance de longa data com o amigo de seus pais, o dr. Richard Burke (Tom Selleck), que choca seus pais quando eles descobrem. Mas o romance termina quando Richard, que já era pai de família, conta a Monica que não quer ser pai de novo. Seu desejo de ser mãe é um tema recorrente na série. Algo que ela satisfaz em parte como mãe de seus amigos, um motivo pelo qual sua obsessão se torna engraçada e um traço adorável, e não algo perturbador. Monica pode ser um “desastre no amor” ao longo das primeiras quatro temporadas, mas todos os outros do programa também são. O fato de sua tendência a fazer escolhas impulsivas e improváveis em relação a homens levá-la a se sentir atraída por Chandler é uma baita piada que leva a outra ainda melhor, quando a estabilidade e força deles como casal se torna meiga e um contraste forte ao drama sem fim de Ross e Rachel.

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RACHEL KAREN GREEN Mimada. Adorável. Corajosa. Assustada. A melhor amiga de Monica no ensino médio. Não teve que batalhar por nada do que tem. Sozinha pela primeira vez. E pronta para nada. — descrição inicial da personagem de Rachel

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achel talvez seja a Friend que mais tenha se desenvolvido e crescido ao longo dos dez anos da série. No fim do programa, claro, ela é a autoconfiante mãe solo (da pequena Emma), uma profissional de moda muito requisitada com projetos na Bloomingdale’s e na Ralph Lauren no currículo, e uma adulta totalmente independente e autossuficiente. E também – finalmente –, ela percebe o que quer em um parceiro. Nada disso nos lembra a Rachel que conhecemos no piloto – a princesinha mimada de classe alta que está preparada apenas para ser uma esposa paparicada. Ela não sabe o que quer, só sabe que não quer a vida que todos sempre esperaram que ela tivesse. Também não sabe fazer nada prático. Assim, o programa causa muitas risadas ao longo dos anos devido à surpresa exagerada de Rachel, especialmente pelo contraste com a grande competência da pessoa com quem ela divide uma casa, Monica. Rachel é uma das três filhas de um médico muito exigente, Leonard (Ron Leibman), e de uma mãe permissiva, Sandra (Marlo Thomas, que interpretou a Rachel Green de sua época quando foi a estrela do sitcom That Girl do fim dos anos 1960). No programa nunca é dito, mas Rachel é judia. Há várias referências culturais ao longo da série que sugerem isso, mas a mais explícita é a referência a sua “bubbe”, a palavra que significa “avó” em iídiche. Na adolescência (como é mostrado em flashbacks hilários pré-cirurgia no nariz), Ra-

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chel era amiga de Monica Geller na Lincoln High School, mas quando ela se torna noiva do dentista Barry Farber, ela e Monica acabam perdendo o contato. Mesmo assim, é para a casa de Monica que ela foge quando abandona Barry no altar. Na interpretação de Jennifer Aniston, Rachel é doce e adorável o suficiente para ser amável, apesar de ser mimada, inapta e mandona. Por isso, não há maldade no tratamento que ela dispensa a Ross ao longo da primeira temporada; ela simplesmente não faz ideia de como ele ainda é apaixonado por ela, ou de como ele se sente magoado quando ela namora o bonitão italiano Paolo. Claro, no fim eles acabam juntos, terminam e tentam ser amigos muitas vezes ao longo das dez temporadas, mas não são bons em expressar sentimentos um pelo outro. A comunicação ruim entre eles é engraçada e surpreendentemente comovente. Rachel se torna mais segura de si ao longo dos anos, tanto amorosamente (conforme seus relacionamentos com Ross e outros namorados se desenvolvem) quanto profissionalmente (quando passa de garçonete do Central Perk a executiva de moda). Na verdade, ao longo do programa, conhecemos duas das irmãs de Rachel, Jill (Reese Witherspoon) e Amy (Christina Applegate), que são tão mimadas e protegidas quanto Rachel era. Rachel, vivendo em Manhattan, quase não se identifica com elas, exceto quando as usa como maneiras de se lembrar do caminho que agradece por não ter tomado.


ROSS EUSTACE GELLER Inteligente. Emotivo. Romântico. Irmão de Monica. Divorciou-se repentinamente. Está enfrentando a solteirice com enorme relutância. Paleontólogo. Não que isso importe. — descrição inicial do personagem de Ross

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oss é o mais velho de todos os Friends e, de certo modo, o mais maduro. Ele é o primeiro dos Friends a se casar (também o primeiro a se divorciar) e o primeiro a se tornar pai. Como paleontólogo – primeiro no quadro de funcionários do fictício Museu de História Pré-Histórica, mais tarde como professor da Universidade de Nova York –, ele literalmente trabalha com fósseis. Filho de um pai judeu e de uma mãe não judia, Ross frequentemente parece se adequar ao estereótipo de judeu nerd e intelectual nova-iorquino. Ele deveria parecer mais velho, mas normalmente parece um menininho carente. Autointitulado geek, Ross cresceu se sentindo como o filho preferido de Jack e Judy Geller, em comparação a sua irmã mais nova, Monica. No ensino médio, Ross tentou parecer mais maduro, o que se evidenciou quando ele deixou o bigode crescer. Ele compunha música eletrônica, temas para filmes de ficção científica com seu teclado com sintetizador, um som que só Phoebe considerava bom. E ele alimentava um interesse não correspondido pela amiga de Monica, Rachel. Ross passou a ser um pouco menos geek depois do ensino médio. Em Chandler Bing, seu colega de quarto, teve um amigo para a vida. Sua rivalidade fraternal com Monica tornou-se uma relação de apoio e cuidados mútuos. (Ainda que não seja necessário muito para que ele se torne um menino petulante que gosta de irritar a irmã.) Ele se casou com sua primeira namorada, Carol

Willick ( Jane Sibbett), uma união que durou muitos anos, até que a amizade cada vez mais forte de Carol com Susan Bunch ( Jessica Hecht) se tornou amor. Ela o deixou, mas antes eles tiveram um filho, Ben. Os outros Friends fazem muita piada à custa do fato de Ross ter perdido Carol para outra mulher. Além disso, o forte quê de vulnerabilidade de Ross (uma especialidade de David Schwimmer) normalmente faz com que ele pareça ser menos tradicionalmente masculino, ainda mais quando comparado a Joey, por exemplo. Mas, ao longo da série, Ross namora diversas mulheres belas, inteligentes e desejadas. Seu jeito geek e verdadeiramente doce atrai as mulheres. Os esforços que ocasionalmente faz para parecer mais sensual – como a desastrosa tentativa de usar calça de couro de roqueiro, ou o fiasco com o bronzeamento artificial –, não. Mas nenhum dos relacionamentos dura muito porque nenhuma mulher (nenhuma, exceto uma, por assim dizer) é Rachel Green. Ele costuma ficar atrapalhado na presença dela – e de forma mais chocante quando ela estraga o casamento dele com Emily (Helen Baxendale) em Londres. Após diversos contratempos e términos, eles finalmente tentam uma relação madura e platônica como pais de Emma, mas não conseguem ignorar o que sentem um pelo outro. Em seu coração, Ross acredita que é seu destino ficar com ela. (Como todos nós acreditamos.) Ou, como Phoebe disse, certa vez, “Ele é a lagosta dela!”.

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Phoebe e Joey lutam boxe de brincadeira em uma cena dentro do apartamento eclético de Monica, na temporada 3, episódio 7, “Aquele com a cama de carro de corrida”.

DESIGN DO SET

O que em Friends é mais tedioso? É o enorme apartamento de dois quartos de Monica, claro. Quem em Manhattan tem um apartamento tão grande? E como uma chef que está sempre com dificuldades financeiras, como Monica, e uma garçonete como Rachel conseguem pagar o aluguel? Sim, é explicado em um episódio que o amplo apartamento no West Village é financiado e que Monica assumiu o financiamento por sua avó, que não é exatamente kosher. O site de imóveis Coinage estimou que, no mercado comum, o apartamento de 105 metros quadrados teria um aluguel no valor de US$ 4.500 por mês, de acordo com os valores de 2017, mas Monica pagava apenas cerca de US$ 200 por mês. Mesmo assim, para todo mundo que já morou na cidade de Nova York, essa explicação parece absurda; o lugar é simplesmente fabuloso demais. O apartamento de Joey e de Chandler do outro lado 28

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do andar – com a cozinha minúscula (tomada por uma mesa de pebolim que os caras usam como mesa de cozinha) e uma sala de estar na qual mal cabem as duas poltronas dos amigos – parece bem mais realista. Claro, ele é grande assim, na verdade, para acomodar câmeras, luzes e seis atores. Mas também é para parecer o mais receptivo e divertido possível. É esse o espírito por trás das paredes roxas, o layout amplo, as janelas em estilo parisiense (melhores para dar vista para o apartamento do Cara Feio Pelado), a mistura eclética de decoração e aquela porta que aparentemente não leva a lugar nenhum. “Lavanda, verde, amarelo e cor-de-rosa – aparentemente são cores demais”, disse o designer de produção de Friends, John Shaffner, para a Entertainment Weekly em 1995. “Mas tudo se mistura para criar um espaço alegre”. Shaffner disse em uma entrevista em 2019: “Trabalhar em Friends foi meio como voltar para uma época muito especial de nossa vida juntos,


quando tínhamos a idade dos personagens da série, quando começamos a ser amigos. Foi como expandir nossas histórias pessoais de modo a viver a vida dos personagens… Então, começamos a falar do ambiente no qual os personagens viveriam. Dissemos: ‘Bem, nós tivemos essa vida. Vamos nos basear na experiência que tivemos em Nova York’. Pegamos fotos de nosso apartamento no sexto andar de um prédio na 14th Street, entre a 8th e a 9th, e dissemos: ‘É isto’. Desenhei o apartamento um dia e esbocei as ideias. Meu parceiro Joe Stewart cuidou do café. Nós o fizemos com base em um pequeno restaurante que frequentávamos no West Village porque tinha uma porta em um ângulo no canto. Era um restaurante de esquina. Conseguimos fazer o canto diagonal no café. Todo mundo entrava e era uma entrada interessante em direção à câmera, principalmente no piloto, quando Rachel entra com tudo vestida de noiva. Queríamos que aquilo fosse forte. Foi um dos motivos pelos quais criamos daquela maneira.” Shaffner falou sobre o apartamento de Monica: “Nós o criamos com base em nosso antigo apartamento em Nova York, onde tínhamos uma situação engraçada, porque tínhamos uma sala e meio que partíamos dela para fazer com que todas as portas do apartamento partissem dessa sala principal. Não derrubávamos a parede totalmente. Os senhorios não pareciam se importar, no fim dos anos 1970, com o que fazíamos no apartamento no sexto andar de um prédio. Em nosso apartamento, construí as prateleiras para os pratos e todas as coisas. Quando fizemos o cenário, eu disse: ‘Bom, ela não tem armários na cozinha. Vamos fazer prateleiras abertas, como as que eu fiz’. Há muitas coisas pessoais naquele set. Uma coisa em especial foi o fato de ser um apartamento amplo no sexto andar. Quando se tem um apartamento no sexto andar em Manhattan, é bem mais barato do que os dos primeiros três andares. O sexto andar foi, por muito tempo, o máximo que eles podiam construir sem um elevador. É por isso que

nossos Friends puderam ter um apartamento tão bacana por um preço tão bom, porque ele era no sexto andar. Eles brincaram com isso um pouco no piloto; toda vez que entravam, estavam ofegantes porque estavam no andar mais alto. Essa piada acabou perdendo a força depois de um tempo.” Shaffner pôde acrescentar um toque criativo ao apartamento de Monica e explica como criou o design do set. “Por ter estudado artes cênicas, eu sentia que o programa tinha muitas oportunidades para muita comédia com expressão física com o tempo e um pouco de pantomima no sentido clássico. Foi um dos motivos pelos quais eu queria que o espaço tivesse todas as portas dando para a sala principal. A porta do banheiro – e as portas dos quartos de Monica e de Rachel – davam para a sala principal. Sempre havia a opção de alguém entrar em um cômodo e ter que sair desse cômodo e voltar para a sala principal de novo. Eu ficava pensando: ‘Se alguém estiver no quarto e for ao banheiro, vai ter que passar por aqui para ir ao banheiro’. Então, fiz uma espécie de corredor, como se o apartamento pudesse ter sido maior, mas foi reduzido. E havia uma porta no fundo, que nunca explicamos, até decidirmos que ali seria o closet de Monica e fizemos um episódio todo sobre ele.” Shaffner continua: “Criativamente, o que tentamos fazer foi oferecer oportunidades para que o roteirista e o diretor escrevessem e dirigissem coisas. Em Manhattan, sempre achávamos divertido subir à cobertura de nosso apartamento. Sabíamos que poderíamos fazer um set de cobertura, mas não seria divertido se eles tivessem que sair pela janela e tivesse uma pequena ‘laje’, como costumávamos dizer, no recuo desse prédio mais velho?” Como resultado, algumas coisas aconteceram. Shaffner explica: “Primeiro desenhamos esse apartamento e apresentamos o modelo com duas janelas altas e estreitas, como aquelas do apartamento dos meninos. Estávamos almoçando no Paramount Studios com Kevin e o diretor, Jim

“Quem em Manhattan tem um apartamento tão grande?”

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Burrows. Jimmy olhou para nós e disse: ‘Sei o que vocês estão fazendo. Adorei o layout. Só queria que houvesse algo verdadeiramente diferente nas janelas. Não poderia ser como uma claraboia?’. Claro, eu senti vontade de dizer: ‘Claraboias ficam no teto. Você nunca verá isso em um sitcom porque não temos teto’. Então, fui para casa e vi fotos. Joe e eu dissemos: ‘Bem, e aquelas janelas de teto que sempre vimos em estúdio de artistas?’. Foi quase operística ali em cima aquela janelinha no sótão. Fiz mais pesquisas e, sim, há janelas em Manhattan que se parecem com aquela. Eu tinha um livro com fotos. As janelas, então, se tornaram algo que ajudou a definir o set.” Então, por que as paredes são roxas? Shaffner explica: “Kevin, em uma de nossas reuniões, disse: ‘Não quero que seja mais um set todo branco. Quero um pouco de cor’. Eu disse: ‘Tenho uma ideia. Quero pintá-lo de roxo’. Kevin olhou para mim com uma cara engraçada e disse: ‘O que você está dizendo? Nem consigo imaginar isso’. Isso foi há 25 anos, e não tínhamos muitas das ferramentas que temos hoje para ilustrar as coisas em termos de Photoshop. Normalmente, poderíamos ter ilustrado com esboços. Já tínhamos criado um modelo branco, que normalmente é nosso primeiro passo na apresentação. Então, podemos falar sobre a geografia e podemos seguir falando sobre paletas de cores e detalhes. Eles podem se expandir a partir daí. É algo que podemos colocar na mesa, todo mundo pode olhar, apontar e dar opinião. Fui para casa, peguei umas aquarelas e pintei um modelinho roxo. Pintei uma área pequena de verde e acrescentei um pouco de amarelo. Levei tudo de novo para Kevin e para a equipe e eles disseram: ‘Bom, acho que conseguimos imaginar isso. Vá em frente’. Eu disse: ‘Olha, se todo mundo odiar, podemos pintar por cima. Não vai dar muito trabalho’. Olhei para todas as minhas cores e disse: ‘Acho que esta é a cor’. Pintamos e todo mundo adorou. Além disso, dava uma identificação forte ao programa quando as pessoas começavam a assistir. Era assim: ‘Clique, clique, clique. Ah, está passando Friends’. Claro que, ao escolhermos cores tão fortes, forçamos Greg, nosso decorador, a fazer escolhas neutras. O sofá

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era off-white. As madeiras eram neutras, madeiras brancas. O carpete era bem neutro. Ele colocou cores nas cadeiras. E disse: ‘Talvez eles possam ter tipos diferentes de cadeiras e Monica as pintou de cores diferentes na sala de jantar’. Brincamos mais com as cores no balcão e coisas assim. E então, vieram as cortinas douradas. Eu usei verde no corredor depois do banheiro.” Já sentiu vontade de deitar e relaxar no sofá de Monica? Ele era tão confortável quanto parecia na televisão, Cox disse à EW, acrescentando que os atores gostavam de dormir nele. (Mas não no sofá do apartamento de Joey e Chandler, que Cox afirmou ser “nojento”.) A única coisa ruim eram as almofadas, que Cox disse que machucavam as costas dos atores. Menos convidativa era a geladeira de Monica. Apesar de ser cheia de comidas e bebidas, nem sempre estava ligada. As coisas dentro dela normalmente estavam vencidas, por isso raramente víamos os personagens tirando algo da geladeira para comer ou beber. “A geladeira ficou cheirando mal por uns dois meses”, LeBlanc contou à EW, “como se tivesse um rato morto ali dentro, coisa assim”. Pelo menos, as decorações eram realistas – um mapa do metrô, cardápios de entrega de comida de restaurante de Manhattan e a foto de um gato, o amado e falecido gato do designer de set, Greg Grande. (Ninguém nunca disse se o fato de a foto ficar naquela geladeira tornou o animal a inspiração para “Smelly Cat”). Uma das marcas características sempre foi a moldura atrás da porta. Shaffner disse: “O set estava quase pronto e estávamos começando a analisar as coisas. Eu disse: ‘Greg, o que podemos fazer com essa porta? Todo prédio residencial em Nova York tem uma porta de metal de acordo com as regras anti-incêndio. Elas eram instaladas. Não sei o que fazer com esta, mas está muito vazia’. Ele olhou para mim e disse: ‘Em Nova York, quando vivi lá, as pessoas tinham ganchos para casacos atrás das portas, para pendurar o guarda-chuva, porque sempre era necessário. Às vezes, elas colocavam um quadro de giz ali porque, vivendo no sexto andar, as pessoas sempre preferiam escrever algo ali, para não se esquecerem quando fossem sair. Há saco-


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