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ideias para um mundo mais consciente e duradouro E s p e c ia l
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+ bicicletas
quEREMOS INFRAESTRUTURA E SEGURANÇA PARA PEDALAR
Nº. 01/NOVEMBRO 2013
de olho no rio
Navegue com o Urbenauta pela selva curitibana
há lixo no fim do túnel
Como o problema dos resíduos vira solução
eco construções: mais do que tendência, uma necessidade.
Nesta edição
Nº1 | Novembro 2013
18. Alimentação
SustentAção Editora Roberta Zandonai Conselho Editorial Myrian Regina Del Vecchio de Lima, Thaís Cristina Schneider, Toni André Scharlau Vieira, Maria Aparecida Nogarolli Diretor geral e editor Roberta Zandonai roberta@sustentacao.com.br Reportagem Roberta Zandonai, Higor Lambach Editoria de Arte Afonso Westphal Revisão Myrian R. Del Vecchio de Lima Departamento Comercial Ana Maria Lopes anamaria@sustentacao.com.br
Natural de verdade
20. Eco
Construções Mais do que tendência, uma necessidade mundial.
19. Educação Hoje eu não vou dormir
29. Gol do Brasil Estádios da Copa e o mercado de construções verdes
31. Artigo O conflito da agricultura industrial x agroecologia.
46.
32. Mundo Jurídico
no fim do túnel
34. Mito x Verdade
Há lixo
como o problema dos resíduos vira solução.
O conflito da agricultura industrial x agroecologia.
A água vai acabar?
38. Cultura Mais política na arte
Marketing e Assinatura Ana Maria Lopes anamaria@sustentacao.com.br
58. Re-Use
Projeto Editorial e Gráfico Roberta Zandonai
Faça uma mesa nova com fitas VHS velhas
Redação Rua Paulo Gorski, 1101 Mossunguê - Curitiba - PR CEP 81210-220 Tel.: (41) 3015-9877 redacao@sustentacao.com.br Versão Digital www.revistasustentacao.com.br info@sustentacao.com.br www.revistasustentacao.com
08.
12.
Entrevista
Clima e energia
A articuladora do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis Marilza Lima.
O clima está tenso
52.
PIMP MY CARROÇA
em prol doS
catadores
36.
42.
54.
Perfil
Atitude
Recursos Hídricos
Teresa Urban: uma vida pelo meio ambiente
Mais bicicleta: queremos infra-estrutura e segurança para pedalar
Navegue com o Urbenauta pelos rios da cidade e descubra que eles estão muito doentes.
Editorial
Sustentabilidade socioambiental
direito e dever de todos Há tempos, e a todo tempo, es-
é a atitude. Afinal, o comprometi-
cuto as pessoas falarem sobre desen-
mento com a sustentabilidade so-
volvimento sustentável, mudanças
cioambiental é um direito de todos.
climáticas, poluição das águas e do
Mas é também um dever. E pode até
ar, queda na qualidade de vida, e
parecer piegas, mas a única solução é
uma infinidade de outros assuntos
cada um fazer a sua parte.
que emergem em um momento de
É por isso que, com muita alegria,
reflexão sobre o meio ambiente, que
concluímos um caminho de expectativas
parece espalhar-se pelos quatro can-
e planejamento para inaugurar a primeira
tos do mundo. Surgem, de diversas
edição da revista SustentAÇÃO. Uma
formas, questionamentos sobre o
publicação voltada para quem já
modelo de produção e de consumo
despertou de alguma forma para os
que vivemos desde a Revolução In-
problemas socioambientais, e que tem
dustrial, e que ultrapassou todos
sede de conhecimento — e não ape-
os limites para que se mantenha o
nas de informação.
equilíbrio e a harmonia do planeta.
Roberta Zandonai. Editora-chefe.
A partir deste momento, cri-
Tenho a sensação de que a cha-
amos um comprometimento com o
mada crise socioambiental alcançou
nosso leitor em oferecer um material
imensa permeabilidade social. Isso
que pense meio ambiente de forma
quer dizer que a discussão já se tor-
ampla, sistêmica, integrada com a
nou presente no dia a dia de muitos
sociedade e a natureza, e não frag-
cidadãos, e aparece nas conversas in-
mentada. Que esta publicação seja
formais, nos meios de comunicação,
uma ferramenta para auxiliar cada lei-
nas escolas e até mesmo na publi-
tor na sua auto-realização como ser
cidade.
humano e cidadão.
Entretanto, acredito que falar e
Desejo uma ótima leitura,
discutir ideias são a primeira fase de um processo maior de mudança — de conceitos, de ideias e de hábitos. O passo seguinte, na minha concepção,
Roberta Zandonai
entrevista
Um eco de
conquistas (ou talvez de uma luta em vão) Entrevista com Marilza Aparecida de Lima
Figura conhecida nas mesas de debate sobre a Política Nacional de Resíduos Sólidos, a articuladora do Movimento Nacional do Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), Marilza Aparecida de Lima, descobriu a cidadania apenas na idade adulta. Desde então, encara diariamente a tarefa de ajudar outros colegas da catação a descobrirem-se cidadãos. “Muitas vezes ninguém enxerga o catador. Eu sou
minha família. Eu já havia trabalhado em vários lugares,
catadora há 17 anos e antes eu também não via o
como empregada doméstica, em fábrica de madeira,
catador, e quando via achava ainda muito feio, aonde já
lanchonete, na roça, mas grávida eu não consegui
se viu uma pessoa ficar puxando um carrinho pela rua?!
nenhum deles. Aí, quando me mudei pro Parolin (bairro
Hoje eu vejo que o nosso trabalho é nobre. É um trabalho
de Curitiba), onde moro até hoje e onde vários catadores
que ajuda a comunidade, a sociedade em si e o meio
também moram, comecei a trabalhar com o lixo. Isso foi
ambiente”. A frase é de Marilza Aparecida de Lima, 42
em 1996. Eu era a chefe da minha família.
anos, mãe de quatro filhos e articuladora do Movimento Nacional dos Catadores (MNCR) no Estado do Paraná.
SA - Você começou associada?
Não foi fácil marcar uma entrevista com ela.
ML - Não! Naquele tempo não se falava em associação.
Personalidade de liderança no Movimento, Marilza está
Só em 1999 eu fiquei sabendo de uma cooperativa ligada
sempre viajando pelo estado. Mas numa tarde muito
à prefeitura de Curitiba, a Recupere.
ensolarada em Curitiba, ela me recebeu na sede do Instituto Lixo e Cidadania, que fica no bairro Bacacheri,
SA - Nesses quatro anos de trabalho independente,
próximo à Linha Verde. Quem abriu a porta foi uma
sofreu com preconceito?
jovem simpática, de olhos verdes intensos e pele morena,
ML - Muito! Muita gente diz que catar lixo não é serviço
que estava feliz da vida com seus pés descalços no piso
digno, diziam pra gente arrumar um tanque de lavar
gelado. Ela me levou até o segundo andar da casa de cor
roupa. Até hoje as pessoas acham que nosso trabalho
mostarda e muito bem cuidada.
não é digno, muitos ainda vêem os catadores ali na rua
Marilza me recebeu com a camiseta rosa do
como gente que quer roubar e usar drogas. Naquele
Movimento, representando a luta pelas mulheres e
tempo existia só o trabalho da prefeitura, do Lixo que não
contra o trabalho infantil. Também usava o boné que a
é Lixo (nome do programa de coleta de lixo reciclável da
acompanha há quase duas décadas, bermuda preta e um
prefeitura), que era bem forte. Algumas pessoas tiravam
par de chinelos. Mulher simples, de origem humilde. Forte
sarro, mas nada que me marcou. A gente só se sentia
de tanto puxar carrinhos pesados. E que aprendeu com as
invisível mesmo. O catador não usa um uniforme, não
dificuldades da vida a lutar pelos seus direitos, conviver em
é identificado, não tem uma identidade. A sociedade
coletividade e respeitar o caminho de cada um.
depende muito dos catadores, mas não vê isso.
SustentAção - Como iniciou sua história com a catação?
SA - Ainda há pouco conhecimento sobre a
Marilza de Lima — Eu estava grávida do meu quarto filho,
destinação dos resíduos sólidos.
não tinha marido, e não tive outra opção de sustento para
ML - As pessoas acham que por pagar impostos, já tem
8 | revista Sustentação
Foto: Roberto Pires
o caminhão que faz a coleta. Então não se interessam
não podiam fazer parte da diretoria. Então começamos
para onde vai esse resíduo, se vai afetar alguém, se vai
a discutir com os catadores e, em 2003, fundamos
parar num lixão ou aterro controlado, se tem gente no
o Instituto, que surgiu com o objetivo de buscar
lixão que separa o material, se está perto de um vale, área
recursos para ajudar as associações de catadores.
de mananciais, área de preservação. Não estão nem aí.
Até hoje fazemos isso. Começamos com Curitiba,
Pagam seus impostos e nem se preocupam para onde vai
Região Metropolitana e litoral, e hoje estamos em
o lixo. Tem alguém que chega, pega o lixo, e leva embora.
quase todo o Estado.
SA - Quando você começou a pensar em assumir
SA - O que o Instituto oferece?
posições de liderança no Movimento?
ML - Atuamos na formação tanto política do
ML - Em 2001, a partir de um congresso nacional
movimento, quanto na formalização das associações e
que houve em Brasília, onde eu vi a organização
cooperativas. Temos que ter equipe técnica para isso.
de outros catadores, que estavam organizados em
Não é só fazer ata e estatuto, temos que ir atrás de INSS
associação. Quando eu voltei de lá, tive vontade de
para a associação, nota fiscal, ajudar a escrever projeto
me organizar, ganhar mais, ser gente, ser cidadão,
para aquisição de equipamento, e outras coisas.
porque a gente não se via como cidadão. SA - Qual a maior diferença de ser independente e SA - Como chegou até o Instituto Lixo e Cidadania?
cooperada/associada?
ML - Eu sou fundadora e fui a primeira presidente. Em
ML - Tudo. Aprendi sobre os meus direitos, que eu
setembro de 2001 fizemos um encontro municipal
pensava que não tinha. Aprendi a lutar pela educação dos
de catadores, que teve participação da Dra. Margaret
meus filhos, pela moradia. Não me sentia mais sozinha.
(Margaret Matos de Carvalho, Procuradora do Trabalho
Minha vida mudou de um para cem, sabe? Tudo o que
e Coordenadora do Fórum Estadual de Cidadania), e
tenho hoje, eu agradeço à organização dos catadores. O
começamos a participar do Fórum. Em 2002, fizemos uma
conhecimento que temos, o aprendizado que tivemos,
caminhada no Parolin e em outras vilas, e a Dra. Margaret
saber qual o papel do poder público e qual o nosso papel
viu a necessidade de ter uma entidade para buscar
enquanto sociedade. O medo de cobrar do prefeito,
recursos e apoiar as associações de catadores. É difícil
dos vereadores que eu tinha, hoje não tenho. Nós não
montar uma associação porque muitas pessoas não têm
estamos fugindo do que a lei diz. Para mim foi uma
documento ou estão com o nome no Serasa, e por isso
mudança enorme. revista Sustentação | 9
entrevista SA - E agora com a chegada da Política Nacional de
administrado pelo IPCC (Instituto Pró-Cidadania de
Resíduos Sólidos (PNRS), o que você acha que vai
Curitiba). Eles dão a infraestrutura, pagam o aluguel dos
mudar?
18 barracões, alguns até já têm barracão próprio graças
ML - A lei é muito boa porque foi uma construção do
ao Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDS) e mesmo
próprio movimento dos catadores, tem tudo para dar
assim para a gente ainda é pouco em relação à quantia
certo, o que falta agora é vontade política. Tem que ver
que o município gasta para enterrar o lixo. Nós temos um
como os governos municipais vão agir, porque são eles
acordo de parceria de R$ 16 milhões com a prefeitura,
que estão agora com a maior responsabilidade. E os
mas eles gastam de R$ 20 a 22 milhões por mês para
estados, com o fechamento dos lixões e a contratação
enterrar o lixo. O poder público podia melhorar a coleta
dos catadores. A expectativa é boa, mas você sabe que
seletiva dos catadores. Curitiba é considerada a capital
quando não querem, não fazem.
que mais separa, e mesmo assim vemos que muita coisa vai para o aterro.
SA - As famílias que vivem dos lixões e aterros não querem que eles sejam fechados, como prevê a
SA - O que você acha que falta para educação
PNRS. Qual a posição do MNCR sobre isso?
ambiental ser mais efetiva?
ML - Eu sou a favor do fechamento dos lixões. Todos
ML - Eu acho que é preciso usar todos os veículos de
nós do movimento somos, contanto que não aconteça
comunicação. Não adianta só fazer na escola, se não,
o que ocorreu no Rio de Janeiro, onde fecharam o aterro
ao invés dos pais educarem os filhos, os filhos educam os
em que duas mil famílias moravam. Elas ganharam uma
pais. É preciso fazer uma educação permanente em todos
remuneração de doze mil reais e não puderam nem
os veículos de comunicação e ir nas comunidades para
comprar uma casa. A gente é a favor de fechar os lixões,
explicar, ir para dentro dos mercados, dos shoppings, usar
mas os governos nas três esferas têm que dar condições
tudo aquilo que é possível. Tem que pegar mais forte nessa
para essas pessoas. Isso é no que o movimento mais se
questão de educar mesmo. Todo mundo elogia a Europa,
concentra: fechar os lixões e dar condições e infraestrutura
mas lá há leis rígidas, multa, tem coleta de orgânico.
para os moradores que saem de lá.
Temos que investir nisso. Eu conheço gente de 70 anos que separa o lixo em casa, e jovens que não fazem.
de Curitiba? ML - Sim, hoje temos um bom relacionamento com a secretaria de Meio Ambiente. Não concordamos com tudo, mas temos um canal aberto hoje nessa prefeitura. SA - E com os outros municípios do Paraná? ML - Em várias regiões também conseguimos dialogar,
“
Hoje eu vejo que o nosso trabalho é nobre. É um trabalho que ajuda a comunidade, a sociedade em si e o meio ambiente”.
mas em outras a situação é bem complicada. SA - O que mudou na percepção do catador sobre SA - Qual o maior obstáculo?
o seu papel desde que você começou a trabalhar
ML - As prefeituras dizem que já estão fazendo o que
como catadora?
tem que fazer. Acham que colocar um caminhão de
ML - Eu acho que os catadores que são associados ou
coleta seletiva e explicar isso na escola já é grande coisa.
cooperados já têm a consciência do seu papel. Hoje
A maioria dos municípios dá um espaço muito pequeno
de manhã fomos até Pinhais, Região Metropolitana de
que não comporta o grupo de catadores, e a maioria
Curitiba, conversar com os catadores, mas muitos ainda
quer colocar o barracão ao lado do aterro, sendo que a
não querem saber da organização porque dizem que é
distância da cidade é muito grande. Têm outros que não
loucura, que não têm vantagem. Há ainda o problema
querem nem fazer o mínimo, que é isso, dar barracão e
dos donos de ferro velho que exploram pessoas para
condições de trabalhar.
recolher para eles, e não vêem vantagem na cooperação.
Aqui em Curitiba existe um projeto chamado Ecocidadão,
Tem muito catador que só quer trabalhar e melhorar sua
10 | revista Sustentação
“
SA - O MNCR tem uma boa relação com o município
Foto: Roberta Zandonai
Foto: Divulgação/Instituto Lula
Marilza Lima com o ex-presidente Luiz Inácio da Silva (Lula) em junho de 2012
renda, mas não sabe do papel dele na sociedade. Cabe a
SA - Como você acha que vai estar a questão do lixo
nós mostrar que ele tem um papel fundamental, que ele
no Brasil em dez anos?
presta um serviço de utilidade pública ao município.
ML - Se tiver vontade política eu acho que vai estar bem melhor, mas não sei ainda, tenho minhas dúvidas.
SA - Como os catadores fazem quando querem se
É tanto interesse... sabemos de casos como o do ex-
aposentar?
ministro do trabalho Luiz Marinho, que hoje é prefeito
ML - Hoje os associados e cooperados recolhem o INSS.
de São Bernardo do Campo. Com todo o trabalho que
Se não for desta forma, não conseguem se aposentar.
ele viu dos catadores, hoje luta pela implantação da
Isso é parte da nossa luta, buscar os benefícios dos
incineração na região do ABC Paulista É difícil. Têm
trabalhadores para os catadores. Se não, só pára de
as vontades políticas, a máfia do lixo (empresas que
trabalhar quando está numa cama.
bancam as candidaturas dos prefeitos e vereadores) que é muito forte. Se fosse para cumprir a lei mesmo,
SA - Você iniciou seus filhos no Movimento?
poderíamos falar que o Brasil passaria a ser um país
ML - Eu quero que eles escolham o que for melhor.
auto-suficiente
Se quiserem ser catadores, que sejam, estamos
orgânico, mas não sei se vai acontecer. A gente luta,
trabalhando para isso! Dentro da organização também
luta, luta, mas muda muito pouco. A PNRS levou 20
precisamos de engenheiros, biólogos, técnicos em
anos para ser aprovada em 2010. Precisou de um
contabilidade, administradores, bons médicos e bons
governo mais popular para isso.
em
energia,
aproveitamento
do
dentistas. Eu acho que a profissão que eles escolherem, eu vou aceitar.
SA - Como você gostaria de estar em dez anos?
SA - O catador tem algum benefício de saúde?
faço mais catação, só estou na organização, mas é
ML - Só pelo Sistema Único de Saúde (SUS) mas
difícil. Tem horas que a gente acha que vai dar, aí muda
isso quando existe médico no posto, etc. Eles não
o prefeito e ficamos com esperança, mas ele dá quatro
conseguem ter plano odontológico ou médico. Temos
passos para trás. Não sei como vou estar em dez anos.
muitas dificuldades, estoura tudo, pernas, braços, costas,
Esses dias brinquei que quero me aposentar em três anos,
cabeça, então precisamos de atendimento, mas não
só que depois de se envolver é difícil. Mas o futuro só a
conseguimos ter plano de saúde por causa da renda.
Deus pertence. Não quero pensar no que vai ser. Talvez
As mulheres grávidas carrinheiras nem vêem a gravidez
tenhamos conquistado muitas coisas, talvez nossa luta
passar.
tenha sido em vão.
ML - É difícil sabe? Às vezes cansa... agora eu não
revista Sustentação | 11
Clima e energia
Foto: Tom Stuart - Imagenomic
Photo Mike Mahode
Writen Anne Patricia
12 | revista Sustentação
O clima está tenso por Roberta Zandonai
Lançamento do quinto relatório do IPCC reitera conclusões anteriores: o ser humano é a principal causa dos efeitos adversos do clima e o cenário não é bom para a vida no planeta.
O principal órgão internacional para
publicações anteriores, ou seja, o nível de
pesquisas sobre clima, o IPCC (Painel Inter-
dióxido de carbono (CO2), metano (CH4)
governamental sobre Mudanças Climáti-
e óxido nitroso (N2O), conhecidos como
cas), já começou a divulgar os resultados do
gases de efeitos estufa (GEE), aumentaram
5º Relatório de Avaliação sobre Mudanças
de concentração na atmosfera. Antes da
Climáticas Globais. Os seis anos decorridos
Revolução Industrial, encontravam-se 280
desde a apresentação do Quarto Relatório,
partes por milhão de GEEs na atmosfera
em 2007, permitiram aos cientistas per-
do planeta, de acordo com a contagem
ceber mais claramente a evidência da in-
utilizada pelos cientistas. Atualmente são
fluência humana sobre os desequilíbrios
400 partes por milhão, e quanto maior a
climáticos mundiais.
concentração destes gases, maior o efeito
O material divulgado é a primeira parte de quatro que deverão compor o docu-
estufa global e, consequentemente, maior a temperatura do planeta.
mento em 2014. Ele expõe resultados es-
O estudo prevê um aumento na tem-
tritamente científicos, que dizem respeito
peratura global de até 4,8ºC até o final
aos estudos atmosféricos e do clima. As
deste século, sendo que a elevação em 2ºC
outras três partes deverão tratar das conse-
já é suficiente para alterar profundamente
qüências em outros campos, como na agri-
o modo de vida no planeta. O nível do mar
cultura e na saúde, e também desenvolver
também pode subir até 82 centímetros,
possíveis cenários futuros.
com impacto em todas as zonas costeiras
As afirmações do relatório reiteram as
no mundo (o relatório anterior apontava 59
revista Sustentação | 13
Clima e energia Foto: Mariza Zandonai
A elevação da temperatura média da água e a mudança de PH e salinidade ameaçam os recifes de corais e a biodiversidade marinha.
centímetros). Este cenário provoca maiores
tos científicos aos relatórios do IPCC. Os
ocorrências de eventos climáticos ex-
seguidores desta linha são conhecidos
tremos, como secas, inundações, tornados
como ‘céticos’, ou skepticals.
e furacões. Se em 2007 o IPCC afirmava
Algumas vozes desta corrente ques-
com 90% de certeza a culpa da huma-
tionam a existência do fenômeno do
nidade nas mudanças climáticas, em 2013
aquecimento global, argumentando que
tem 95% de certeza.
o planeta está em fase de resfriamento,
No Brasil, a principal fonte das emissões
e não de aquecimento. Outros, como o
sempre foi o desmatamento, principalmente
pesquisador paulista Luiz Carlos Molion,
na região amazônica. Porém, este perfil tí-
defendem inclusive que teses sobre a ele-
pico de países emergentes tem mudado nos
vação da temperatura mundial e mudanças
últimos anos. Com a redução dos níveis de
climáticas são uma estratégia de manipu-
desmatamento, aliado ao aumento da frota
lação dos países mais ricos.
de veículos (fruto de políticas públicas que
“O Brasil está
poluindo como um país desenvolvido”. José Marengo representante latino-americano no IPCC
estimulam o transporte individual), a queima
na
dos combustíveis fósseis já se tornou a prin-
também discutem há anos sobre a origem
cipal fonte das emissões brasileiras.
do problema e como solucionar a questão.
comunidade
científica.
Governos
“O Brasil está poluindo como um
A dificuldade em obter consenso político
país desenvolvido”, avaliou o pesquisa-
existe principalmente porque a redução
dor peruano José Marengo, representante
dos níveis de emissões de GEE questiona
latino-americano no IPCC, em entrevista
todo o modelo de civilização atual. Ou
concedida à Agência Brasil no dia 09 de
seja, coloca em cheque o sistema pro-
outubro de 2013
dutivo, a forma de consumo, o sistema econômico, político e cultural.
Outras vozes do debate
14 | revista Sustentação
As divergências não existem somente
Por todos estes elementos é que a agenda
Apesar do IPCC ser considerado a
do clima tem ganhado tanto destaque nos
principal autoridade em estudos de clima,
últimos anos, mas demonstra lentidão em
suas afirmações não são consenso entre a
conseguir acordos e promover medidas
comunidade científica. Dentro dela, existe
efetivas. Novos parâmetros sobre o Pro-
um setor que discorda que as atividades
tocolo de Quioto são esperados para a
humanas sejam a causa do fenômeno
reunião da Conferência das Partes (COP)
do aquecimento global e das mudanças
da Convenção-Quadro das Nações Unidas
climáticas, e apresentam contra-argumen-
sobre Mudança do Clima, em 2015.
ONU nomeia brasileiro para painel de clima por Roberta Zandonai e Folha Press. A Organização das Nações Unidas
Esse período de dois anos é semelhante
(ONU) quer garantir maior coesão entre
ao que precedeu o fracasso da Conferência
o conhecimento científico e o desenvolvi-
de Copenhague, realizada em 2009, algo
mento de políticas ambientais, principal-
que surpreendeu muitos climatologistas,
mente após o fracasso em produzir um
pois o quarto relatório do IPCC havia
acordo durante a tão esperada Conferência
sido categórico ao culpar a emissão de
de Copenhague em 2009.
gases-estufa pelo aquecimento global. Se-
Segundo o paulista Carlos Nobre, ci-
gundo Nobre, é hora de pensar o que deu
entista que acaba de ser nomeado para o
errado para evitar uma segunda decepção,
Painel de Alto Nível para Sustentabilidade
e o painel de alto nível – que possui outros
Global, esta será uma das principais missões
25 cientistas – vai debater isso.
da organização nos próximos dois anos.
“O aprendizado de Copenhague é muito profundo e se reflete em todas as maneiras de buscar soluções, consensos e avanço”.
“O aprendizado de Copenhague é muito
Nobre, secretário de políticas e progra-
profundo e se reflete em todas as maneiras de
mas de pesquisa do Ministério da Ciência
buscar soluções, consensos e avanços”, diz
Carlos Nobre
e Tecnologia, passa a integrar o conselho –
Nobre. “O painel de alto nível foi criado um
Cientista Brasileiro nomeado
que assessora diretamente o secretário-geral
pouco em função daquilo que aconteceu lá.”
para o IPCC.
Ban Ki-moon – meses antes da conclusão
O IPCC pretende recalcular a média
do 5.º Relatório de Avaliação do IPCC
de quanto o planeta precisa cortar em
(Painel Intergovernamental de Mudança
emissões para evitar um aquecimento
Climática). Seu mandato é vigente até a re-
global “perigoso”. “O novo relatório está
alização da Conferência do Clima de 2015,
mostrando que não existe salvação que
próxima janela de oportunidade para selar
não passe por uma enorme redução das
um acordo global.
emissões”, diz Nobre.
Foto: Rodrigo Augusto Gonçalvez Pinto
As mudanças climáticas podem provocar períodos prolongados de seca em algumas regiões do planeta.
15
Clima e energia
E no Brasil? Discussões sobre eventos climáticos extremos
Alegre, estarão mais expostas a desastres naturais.
podem parecer distantes do dia a dia dos cidadãos
• Redução da biodiversidade no país (que é o
e gestores municipais e estaduais no país. Mas não
mais biodiverso do mundo), com riscos maiores para
deveriam. Então como as mudanças climáticas po-
o Cerrado e a Amazônia.
dem afetar o Brasil? Quais os possíveis cenários para
O documento afirma que a temperatura média
importantes setores como energia, água, nível do
poderá subir até 6ºC em algumas regiões, provo-
mar e agricultura?
cando mudanças no ciclo de chuvas, e impacto
Outubro marcou a divulgação do Quinto
na produção das hidrelétricas, principalmente nas
Relatório do IPCC, mas também, a publicação no
regiões Norte e Nordeste. Neste caso vale lembrar
Brasil do 1º Relatório Nacional de Avaliação sobre
que a Usina de Belo Monte, fonte de conflitos sociais
Mudanças Climáticas, produzido por mais de 300 ci-
e políticos, poderá ter a sua geração de energia com-
entistas, e que apresenta dados sobre causas, efeitos
prometida. Além disso, a agricultura também deverá
e projeções para o país.
ser afetada, principalmente na região nordeste.
O estudo mostra três áreas de maior vulnera-
ramenta para os gestores públicos, em todas as es-
bilidade:
feras. Afinal, está mais do que na hora de planejar
Esses dados representam uma importante fer-
• Um cenário de menos disponibilidade de água
estratégias inteligentes para a exploração e uso do
no semiárido nordestino, com risco para as popu-
pré-sal, para os projetos de mobilidade urbana, para
lações.
as opções de produção de energia em uma econo-
• Periferias das grandes cidades e zonas costeiras muito baixas como Recife, Rio de Janeiro, Santos e Porto 16 | revista Sustentação
mia aquecida, e ainda, como aproveitar as vantagens das fontes renováveis que o país dispõe. (RZ)
alimentação
Natural de verdade Pode nem sempre ficar visível, mas a
tam recursos artificiais e procuram “apren-
relação entre meio ambiente e aquilo que a
der” com a natureza ganham atenção – e
gente coloca no prato é bem próxima. Isso
adeptos.
porque comida – planta, animal ou cogu-
e agroflorestas são alguns exemplos,
melo – é, antes de tudo, natureza, tanto
mas talvez o mais conhecido seja o dos
quanto a gente. Levou tempo, mas a hu-
orgânicos. Você já deve ter ouvido falar
manidade foi encontrando alguns métodos
que eles são bons para a saúde. Pois isso
para tentar controlar esse processo. É o
vale também para quem produz e para a
caso da agricultura e, mais recentemente,
terra, a água, o ar e toda a biodiversidade
da grande indústria de alimentos e de algu-
ao redor do cultivo. Quer ver? Às vezes,
mas tecnologias para “turbiná-la”, como
eles vêm “com bicho”. Uma joaninha aqui
organismos
modifica-
ou um tatu-bolinha acolá são bom sinal:
dos (os famosos transgênicos) e insumos
indicam que as coisas estão acontecendo
químicos, que acabaram se firmando
naturalmente.
geneticamente
como o padrão de produção.
Agroecologia,
permacultura
Da viabilidade ao preço, passando pe-
Mas há quem defenda que o melhor
las mudanças no campo e pela ética, o as-
mesmo é manter o processo o mais natu-
sunto ainda gera algumas discussões. Mas
ral possível, por vários motivos. Entre eles,
o mais curioso nessa história é que, não
o fato de que ainda não se tem muita
faz muito tempo, natural e normal eram
certeza sobre as consequências que es-
praticamente sinônimos. Hoje, quanto
sas tecnologias podem gerar ao longo do
mais orgânico – no sentido de natural
tempo. Aí entra o princípio da precaução.
mesmo – mais alternativo, enquanto o so-
Por isso, meios de produzir comida que evi-
fisticado se tornou o convencional.
18 | revista Sustentação
Thaís Schneider Jornalista, publicitária, e mestranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
educação
Hoje não vou dormir. Por que?, você
acaba virando do avesso”. E o melhor de
me pergunta. E eu respondo, mas preciso
tudo é que, como o próprio deixou claro,
começar do começo. Sou uma menina que
ele não é um jovem utópico, mas um
foi criada por educadores. Cresci lendo Ma-
sexagenário que fala com conhecimento
falda e acreditando que a educação (crítica)
de causa, de quem já fez acontecer.
é o motor que pode mudar o mundo.
O gajo, quando tinha 25 anos, criou a
Cresci cercada de livros e pipocada de per-
Escola da Ponte, em São Tomé de Negre-
guntas. Depois de crescida, trabalhei, e
los, no Distrito do Porto, em Portugal. Lá,
trabalho, com outros idealistas que tentam
acabou com as grades horárias e disse que
fazer esse motor funcionar. Por tudo isso,
“aula é inútil e prejudicial”. Mas o fato é
espero muito da educação. E por esperar,
que o sujeito desassossega qualquer um.
me decepciono muito com a educação. Me
Desassossega porque mostra que é pos-
decepciono porque, enfim, a educação é
sível pensar e fazer diferente. É possível
um fenômeno humano e, assim, passível
ter alunos que estão aprendendo porque
de erros. Me decepciono porque estou na
querem e assim crescendo, cognitiva, afe-
universidade pública que, no Brasil, é habi-
tiva e moralmente. É possível criar cidadãos
tat para uma ampla fauna de professauros.
conscientes nesse mundo ligeiro e confuso.
Me decepciono porque fui ensinada a ser
José Pacheco só fez mostrar a faísca,
crítica (chata). Mas hoje não. Hoje voltei
mostrou o que é possível. Eu, como educa-
para casa com brilho nos olhos, somente
dora, me pergunto: e agora? Agora é pen-
conseguindo
mentalmente:
sar, agir, errar, repensar, ler muito, pensar,
Marina Feldman
“Brilhante! Brilhante!”. Hoje cheguei em
agir... Infindamente (Não será isso edu-
Jornalista e estudante de
casa com aquele olhar apaixonado que faria
car? Educar-se? Reconstruir-se num ciclo
Pedagogia. Tem experiência
minha mãe perguntar: “Quem foi desta vez?”.
sem fim?). Agora é não tirar nunca mais
com ensino de crianças e de
E eu responderia: “Um senhor grisalho,
essa pulga detrás da orelha, essa que grita
adolescentes. Atualmente
bigodudo e estrábico”. Senhor de ideias
que nem tudo precisa ser como é. É por
também realiza visitas
subversivas que dizem: “Vamos virar a edu-
isso que estou desassossegada, virada do
guiadas no Museu do Holo-
cação de ponta cabeça. Assim o mundo
avesso. É por isso que hoje não vou dormir.
causto, em Curitiba.
repetir
revista Sustentação | 19
Construções sustentáveis
Foto: Zack Patt - istockphoto
Eco
Construções: ideias para morar (e viver) bem Mais do que uma tendência, as obras de baixo impacto ambiental tornaram-se uma necessidade mundial. por Roberta Zandonai Responsável
por
aproximadamente
sionam ainda mais o crescimento do setor.
15% do Produto Interno Bruto (PIB) nacio-
Sob a perspectiva econômica, os
nal, o setor da construção civil é um impor-
benefícios são vários. Mas nem só de
tante gerador de renda e de empregos no
números é que se constrói uma nação. O
país. Além dos impactos diretos, ele movi-
setor também produz forte impacto ambi-
menta uma enorme cadeia produtiva, que
ental. Segundo o Conselho Internacional
vai dos fornecedores de matérias-primas,
da Construção (CIB), a atividade é a que
insumos e equipamentos, até os consumi-
mais consome recursos naturais e utiliza
dores finais.
energia entre todos os segmentos de atu-
O segmento de varejo de material de
ação humana. Este mesmo órgão estima
construção, por exemplo, cresceu 153%
que 50% da produção de resíduos sólidos
entre 2007 e 2013, segundo dados do
gerados no mundo provém da construção.
Ibope Inteligência. Em termos de empregos,
É por isso que se mostra tão urgente in-
o setor construtivo gerou 140 mil novos
cluir novos parâmetros neste segmento de
postos de trabalho desde janeiro deste ano.
mercado. Afinal, mais do que uma tendên-
No mesmo período, a construção civil foi
cia, as eco construções tornaram-se uma
responsável pelo aumento de 1,5% no
necessidade.
PIB brasileiro. Investimentos federais no Programa de Aceleração do Crescimento
Investimentos faraônicos
(PAC), no Minha Casa, Minha Vida e nos
Mundo afora há vários exemplos de
preparativos para a Copa do Mundo de
empreendimentos projetados para serem
2014 e para as Olimpíadas de 2016 impul-
ecoeficientes, como as obras faraônicas revista Sustentação | 21
Construções sustentáveis Foto: João Paulo Santana
O telhado verde ajuda a reduzir a temperatura interna da casa, e ainda, pode servir como área para cultivo de plantas e hortaliças. que aliam capital à tecnologia e reve-
acessível para a maior parte da pop-
Suécia. Já no modelo de stealframe,
lam todo o potencial humano para
ulação. Além disso, apesar de uti-
o concreto da estrutura é substituído
interagir de forma mais equilibrada
lizarem alta tecnologia, ainda op-
por aço galvanizado, e os fechamen-
com o meio ambiente. Edifícios total-
eram no âmbito do hiperconsumismo
tos que seriam de alvenaria são troca-
mente inteligentes, capazes de gerar
ou do mercado de luxo - e isso, infe-
dos por chapas prontas, que podem
sua própria energia, fazer reuso da
lizmente, não produz mudança. A ver-
receber a pintura ou revestimento.
água, controlar o isolamento térmico
dadeira transformação nos modelos
Em substituição ao tijolo tradicio-
acústico, espaço para hortas urbanas
de construções não virá das grandes
nal existe também o tijolo ecológico,
e jardins verticais, equipamentos de
obras, mas sim, da incorporação de
que é feito de uma mistura de solo e
última geração e muito luxo estão
novos parâmetros nas obras comuns,
cimento e é compactado a frio, não
presentes em projetos como a Cidade
ou seja, nos edifícios comerciais, nas
emitindo, portanto, CO2 no processo
Inteligente e Sustentável de Fujisawa,
residências, nos prédios públicos e
da queima. As obras de superadobe
no Japão ou o Ecoresort de Songjiang
instituições de ensino.
não podem ser descartadas.
na China. O Bosco Verticale, em Milão, na
Falando a nossa língua
Itália, é outro modelo inovador. Ele
Se os projetos futuristas não
Industrializamos 70% dos processos de
pretende ser a segunda maior flo-
fazem parte da realidade da maioria,
resta vertical do mundo, e cada apar-
existem inúmeras outras opções de
construção e com isso conseguimos
tamento terá sacadas com árvores
construções de baixo impacto, tanto
plantadas. A Dubai Sustainable City,
na fase da escolha dos materiais a
em Dubai, planeja que 50% da ener-
serem utilizados, quanto da realização
gia consumida pelos moradores seja
do projeto. E encontrar quem oferte
produzida pela própria cidade, por
esses materiais e serviços já não é tão
meio de painéis solares. Enquanto
difícil como há uma ou duas décadas
isso, a Crystal Island, na Rússia, in-
atrás.
reduzir 80% dos resíduos de obra, 85% das emissões de obra.
Caio Bonato
Apesar de consideradas muito
tenta abrigar 30 mil pessoas e ser au-
Dentre as opções mais difundidas,
artesanais, já existem hoje técnicas
to-suficiente em geração de energia
o consumidor encontra sistemas como
semi-industriais. O superadobe con-
por meio de fontes eólicas e solares.
o woodframe, que utiliza painéis de
siste basicamente em usar sacos de
Apesar de inspiradores, estes
madeira pré-moldados no estilo das
polipropileno preenchidos com solo
exemplos são uma realidade pouco
construções dos Estados Unidos e da
argiloso, os quais são empilhados
22 | revista Sustentação
Foto: Divulgação
A Dubai Sustainable City , em Dubai, planeja produzir 50% da energia consumida por seus moradores por meio de painéis solares.
no próprio local da obra no formato que
casa de superadobe, com banheiro seco
se pretende das paredes, e por último é
e sistema de captação de água da chuva,
ateado fogo, que elimina os sacos e man-
mas por falta de espaço no terreno, optou
tém as paredes rígidas.
por uma versão totalmente reciclável de
Por fim, a madeira certificada também é um excelente recurso. Segundo
stealframe. “A estrutura metálica foi feita
Eloy
com material que encontramos num ferro
Casagrande, professor da Universidade
velho e transformamos em vigas metálicas,
Técnica Federal do Paraná (UTFPR) e coor-
e as chapas são de MDF”, relembra.
denador do escritório verde daquela
O projeto foi desenvolvido por uma
instituição, ainda prevalece uma percepção
empresa de Curitiba, que pertence ao
errada deste material na construção. “Nós
irmão e à cunhada. “Ficou muito bonito.
ficamos com a imagem da madeira que
Aproveitamos bastante a iluminação, o
pegava o cupim, que era cortada fora do
isolamento térmico e acústico. As placas
padrão. Essa visão tem que mudar. Casa
foram importadas dos Estados Unidos”,
de madeira fora do Brasil é considerada
conta Luciana.
de alto padrão e a gente abandonou
Desde 2009, Caio Bonatto coordena
essa cultura por causa da história dos
uma empresa em Curitiba responsável por
imigrantes, que associava casas de ma-
projetos de woodframe. Segundo o ad-
deira à pobreza. Mas de todos os materi-
ministrador, a maior inovação do sistema
ais da construção é o único totalmente
está na redução do tempo de obra e a
renovável”, explica.
quase eliminação de resíduos. “Investimos muito em processos de produção. Numa
Experiência própria
fábrica de carros, o carro passa pela linha
Há dois anos, a administradora e cozi-
de produção. Em nosso caso a fábrica
nheira de 32 anos, Luciana Moro, decidiu
passa pela obra. Industrializamos 70%
construir a sua cozinha em Ponta Grossa
dos processos de construção e com isso
com um sistema ecológico. Ela queria uma
conseguimos reduzir 80% dos resíduos
O Green Building Council (GBC) é responsável pela certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design).
revista Sustentação | 23
Construções sustentáveis
Eloy Casagrande coordena o Escritório Verde da UTFPR, um projeto pioneiro no Brasil que é praticamente auto-sustentável.
Foto: Divulgação/Escriório Verde
de obra, 85% das emissões de obra,
para vasos sanitários e limpeza, carpet
diminuir significativamente os riscos tra-
em material reciclado e parte do reves-
balhistas e de acidentes”, explica.
timento das paredes e do mobiliário em
Esse sistema foi utilizado no Escritório Verde da UTFPR, que é um es-
bambu – e isso não é uma lista completa.
critório modelo localizado no campus da Universidade, na capital paranaense.
24 | revista Sustentação
Bioconstrução
Ele foi construído em 2011 em parceria
Além dos sistemas comerciais e in-
com mais de 60 empresas e tem como
dustriais mais difundidos, há outro
proposta ser um “laboratório vivo”
conceito que integra um movimento
aberto ao público para demonstrar a
holístico chamado permacultura e que
ecoefiência dos produtos e das tecnolo-
tenta implementar a sustentabilidade
gias disponíveis no mercado.
nas obras: a bioconstrução. “A per-
O projeto arquitetônico segue di-
macultura tem três princípios bási-
versas orientações de sustentabilidade,
cos: cuidar das pessoas, cuidar do
como o isolamento térmico acústico
planeta e distribuir os excedentes.
com mantas de PET reciclado e pneu
É um grande guarda-chuva que in-
reciclado, janelas em esquadrias de ma-
clui energia, alimentação, economia
deira e vidros duplos especiais, telhado
solidária, bioconstrução, entre outros
verde, lâmpadas LEDs para maior efi-
temas”, explica o arquiteto e urbanista
ciência energética, uso de sistema de
João Paulo Ribeiro Santana, que é um
aquecimento solar termodinâmico para
dos fundadores do Instituto de Per-
a água e calefação dos ambientes, im-
macultura do Paraná.
plantação de energia solar para suprir
A ideia da bioconstrução vai além
até 70% da energia consumida, uso de
da economia de recursos e redução
sistema de coleta e uso da água da chuva
de impacto ambiental.
Ideias úteis e sustentáveis, que aliam a funcionalidade dos materiais com responsabilidade social.
Naturalmente Construções verdes fazem bem para o meio ambiente, para as cidades e para quem as utiliza.
Foto: Divulgação
Foto: João Paulo Santana
Amigo bambu A estrutura da casa acima foi toda construída com bambu, um material bastante utilizado nos projetos de bioconstrução. Foto: Divulgação/Escriório Verde
Bosco Verticale A obra de alto padrão em Milão, na Itália, pretende ser a segunda maior floresta vertical do mundo.
Selo As certificações atestam que uma obra foi capaz de minimizar os impactos ambientais, tanto na fase da construção quanto na de uso.
Green Office O escritório modelo da UTFPR foi a primeira certificação AQUA no estado do Paraná.
revista Sustentação | 25
Foto: Divulgação/Tecverde
Construções sustentáveis
O sistema de woodframe é bastante comum nos Estados Unidos e na Suécia, e permite construir uma casa em cerca de três meses.
Ela propõe o desenvolvimento regional e
encontrar mão-de-obra qualificada. Hoje
a associação do saber científico ao conheci-
eu sei que há uma empresa que trabalha
mento das comunidades tradicionais. São
nesse ramo, principalmente com casas
três fatores que a orientam: planejar a
populares, mas na época não havia. Quem
construção de baixo impacto (utilizando
construiu minha cozinha fomos eu, meu
materiais da região), usar mão-de-obra
irmão, minha cunhada e meu sobrinho”,
local e vincular a construção a uma asso-
conta Luciana.
ciação para transmitir o conhecimento.
Principalmente em cidades menores,
“Também trazemos consultores das
pode ser difícil obter profissionais habilitados
comunidades tradicionais. No Paraná te-
a desenvolver construções sustentáveis, e
mos os faxinalenses, quilombolas, caiçaras
até mesmo, de encontrar material. No caso
e indígenas, que conhecem as suas regiões
da bioconstrução, que prioriza o desen-
e os recursos disponíveis. Há que se valo-
volvimento regional na compra dos materi-
rizar a cultura local”, ressalta Jopa, como
ais e na mão-de-obra, algumas vezes isso
também é conhecido Santana.
realmente não consegue ser aplicado. “O maior problema hoje é que não
Pedras do caminho
há carência de normas técnicas que ho-
cas e tecnologias de menor impacto nas
mologuem os materiais de bioconstrução.
construções, e de uma crescente de-
Existem dados técnicos, por exemplo, para
manda por este tipo de obra, ainda existem
o cálculo de carga com madeira. Mas
diversos obstáculos que dificultam a con-
de bambu não há, e utilizamos muito o
cretização de projetos arrojados.
bambu nos nossos projetos”, revela Jopa.
“Em Ponta Grossa eu não consegui 26 | revista Sustentação
existe mão-de-obra qualificada. Também
Apesar do desenvolvimento de técni-
Em paralelo aos obstáculos operacio-
Minha Casa Ecoeficiente Quem quer construir uma ecomoradia deve estudar melhor o assunto antes de por a ‘mão na massa’. Enquanto o mercado já oferece diversas opções de materiais ecológicos, nem todos os arquitetos têm experiência para orientar uma obra de baixo impacto, e nem todas as equipes de serviço têm habilidade para concretizar os projetos. Por isso, o primeiro passo é pesquisar profissionais capacitados para trabalhar com construções de baixo impacto ambiental, ecoeficientes e que atendam aos requisitos de conforto desejados.
nais, existe uma barreira psicológica
o que queremos provar aqui não é o
tamento para ser sustentável, existe
e financeira em buscar soluções alter-
custo de material por material, mas
sempre a possibilidade de implemen-
nativas para as construções. No imag-
o custo das soluções. O benefício de
tar tecnologias e atitudes que fazem
inário de muitas pessoas, tal qual a
uma parede com isolamento térmico,
a diferença. O economista Paulo Gra-
questão dos alimentos orgânicos
sonoro, com maior conforto, não se
cilio, de 47 anos, tem em sua casa um
em relação ao tradicional, eco
compara com o milheiro do tijolo. Um
sistema de aquecimento de água misto,
construções são mais caras do que
sistema de coleta de água da chuva
com fonte de energia solar e a gás.
modelos tradicionais de alvenaria.
ou aquecimento de água por ener-
“A ideia de instalar veio durante
gia solar se paga ao longo da vida da
a construção da nossa casa em 2008,
Repensar os custos: novos pe-
construção. E permitir uma melhor
mas na época o sistema ainda era
sos e novas medidas
qualidade de vida para os moradores”
muito caro. Por isso, optamos por
complementa.
deixar estrutura prevista para uma insta-
Se colocado na ponta do lápis o custo individualizado dos materiais ecoefi-
Para Jopa, o problema está na
lação futura. Somente em 2011, três
cientes sai mais caro do que outras opções
mentalidade do brasileiro. “A construção
anos depois, é que instalamos, pois
comuns. Porém, diversos parâmetros
tradicional seduz pela facilidade.
tanto a tecnologia quanto o preço es-
ficam de fora das contas de orçamento,
Em país de economia aquecida como
tavam diferentes”, conta Gracilio.
como o custo-benefício, o preço a longo
o nosso, há uma enorme preocu-
Alguns estabelecimentos de lava-
prazo e o benefício coletivo.
pação com o consumo imediato e não
car também já perceberam que a
“Tudo que é novo no mercado
com o planejamento. A obra de bio-
instalação de coletores de água da
compete com o que já está há anos
construção acaba saindo mais cara a
chuva pode ser muito vantajosa.
estabelecido, e alguns materiais ainda
curto prazo, mas há que se avaliar os
Franklin Schultz, responsável por um
vêm de fabricantes com pouca con-
benefícios a longo prazo”, critíca.
estacionamento que oferece serviço de
corrência, por isso, os preços são ele-
Se não há possibilidade de pensar
lavagem de carros em Curitiba, con-
vados”, confessa Casagrande. “Mas
todo o projeto da casa ou do apar-
seguiu reduzir sua conta de água em revista Sustentação | 27
Construções sustentáveis
40% após instalar um sistema de coleta. Como ele mesmo
Selos e certificações
fez a instalação, não teve gastos com mão-de-obra, e o re-
Atualmente, são duas as organizações que atuam
torno do investimento ficou estimado em 11 meses. Além
com maior força no Brasil no ramo das certificações para
de evitar o desperdício de água tratada, Schultz ainda teve
a construção ambientalmente sustentável: a esta-
benefícios financeiros.
dunidense GBC Brasil (Green Building Council), responsável
Luciana confessa que pretendia gastar menos com a
pela certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental
construção da sua cozinha, mas lembra que o maior gasto
Design), e a Fundação Vanzolini, responsável pelo selo
não foi com a implantação dos sistemas de menor im-
francês AQUA (Alta Qualidade Ambiental).
pacto. “Na fase do acabamento da obra, que é parte mais
Segundo Casagrande, os parâmetros são muito pare-
cara, não conseguimos fugir dos materiais tradicionais,
cidos, e é no modelo de pontuação de cada uma que há
como azulejos. No fim, saiu ‘elas por elas’. Mas ficou
divergência. “O LEED tem uma pontuação um pouco mais
muito bonito”, explica.
rígida, menos flexível, no aspecto de se ter que seguir uma
O fator chave que pode influenciar no preço dos ma-
tabela de pontos e preencher. O AQUA foi a nossa escolha
teriais é a questão da oferta e da demanda. Conforme au-
no Escritório Verde, trazida pela Fundação Vanzolin da USP,
menta a procura por produtos e serviços mais sustentáveis
que é sem fins lucrativos, e é mais flexível porque você
na construção, novos empreendedores entram no mer-
constrói a certificação, ou seja, você é que diz aquilo que
cado, o que pode puxar os preços para baixo.
quer pontuar”. Os selos certificam que uma obra foi ca-
Essa realidade, segundo Bonatto, não está tão dis-
paz de minimizar os impactos ambientais, tanto na fase
tante. “O mercado de construções mais sustentáveis está
da construção quanto na de uso. Além de atestarem a
crescendo no Paraná e em Curitiba por necessidade, e em
eficiência, acabam também melhorando a imagem dos
paralelo começa a formar uma corrente de pessoas que
empreendimentos certificados.
acreditam na causa. A sustentabilidade ambiental ainda
A primeira obra da América Latina a receber a cer-
não é um fator decisivo de compra mas é um diferencial
tificação LEED foi uma agência de banco em Cotia,
que ajuda a agregar valor”, acredita.
São Paulo, em 2008. O escritório modelo da UTFPR
Para Casagrande, tudo é uma questão de pensar mais
foi a primeira certificação AQUA no estado do Paraná.
no coletivo do que em si mesmo. “É um beneficio coletivo
Porém, ambas as opções ainda não estão disponíveis
ambiental. Quanto eu deixo de impactar no setor energé-
para
tico se deixo de usar um chuveiro elétrico em prol de um
comerciais e de serviços.
residências,
somente
para
estabelecimentos
aquecimento solar? Ninguém fala sobre o ganho coletivo.
Desde 2010, um selo totalmente nacional entrou em
É preciso parar de pensar individualmente e pensar coleti-
funcionamento: o Casa Azul CAIXA. Ele é o primeiro sis-
vamente”.
tema de classificação de sustentabilidade para projetos
Se o ganho é de todos, deveria ser interesse do po-
habitacionais propostos à Caixa Econômica para financia-
der público oferecer algum tipo de incentivo ou isenção
mento ou nos programas de repasse. A iniciativa pretende
para quem opta por construções sustentáveis, já que estas
incentivar a sustentabilidade nos materiais e processos das
pessoas irão consumir menos água das centrais de abas-
construções populares.
tecimento, menos energia da rede elétrica e vão mandar
Para Casagrande, a adoção de parâmetros de eco-
menos resíduos para os aterros. Porém, esse entendimento
eficiência nas habitações viabilizadas por programas do
ainda não existe no Brasil. O que existe são algumas leis
governo é fundamental, pois “quando se entrega uma
municipais que obrigam o reaproveitamento da água da
casa para pessoa de baixa renda, é preciso entender
chuva, ou obrigatoriedade do telhado verde – proposta da
que junto são entregues três contas, ou seja, o IPTU,
Câmara de Vereadores de Curitiba que está em discussão.
a conta de água e a de energia elétrica. Soluções para
Se o incentivo não parte das políticas públicas, a regulação
reduzir o custo a longo prazo são também um benefício
já está se articulando pela via do próprio mercado.
social.”
28 | revista Sustentação
Foto: Silvio Marques
Gol do Brasil
Estádios da Copa buscam certificação de sustentabilidade e impulsionam mercado de ecoconstruções
Apesar dos impactos sociais e am-
capacidade instalada de gerar 2,5
bientais gerados pelas mega obras da
megawatts de energia. A Arena Per-
Copa do Mundo, os projetos deverão
nambuco também prevê a captação
incentivar o mercado de materiais
de energia solar e de água da chuva,
ecológicos, das tecnologias ecoefi-
além de ventilação natural e gestão
cientes e os processos que otimizam o
dos resíduos sólidos. No Novo Mara-
uso dos recursos.
canã, no Rio de Janeiro, toda a ma-
Isso se deve ao fato de incorporarem
deira utilizada é certificada com o selo
alternativas ambientalmente sustentáveis
FSC (Forest Stewardship Council) e
em todas as fases da construção. Onze
o cimento e o aço empregados têm
dos doze estádios que estão sendo
conteúdo reciclado.
levantados para a Copa, por ex-
Se conseguirem o selo, as obras
emplo, entraram com pedido de
cumprirão a condição para receber
certificação LEED junto ao Green
financiamento do BNDES, que tem
Building Council Brasil. Para obter o
uma linha de créditos especial para
selo, os projetos devem atender requi-
ecoarenas. Ao mesmo tempo, devem
sitos mínimos durante a construção e
ampliar a demanda e a competitivi-
operação dos empreendimentos.
dade no mercado de construções sus-
A reforma do Mineirão, em Belo Horizonte, por exemplo, prevê a insta-
tentáveis. As
novas
oportunidades
de
lação de sistemas de captação de água
negócios estão abertas, e espera-se
da chuva. O Mané Garrincha, em
que impulsionem a popularização
Brasília, terá 9.600 painéis solares, o
do setor no país, deixando um le-
que será a maior estrutura de cap-
gado positivo após a realização dos
tação de energia solar do país, com
eventos (RZ). revista Sustentação | 29
artigo Foto: David LeFranc - Istockphoto
30 | revista Sustentação
Camilla Hoshiro Estudante de Jornalismo e de Relações Internacionais. Faz parte do movimento social Levante Popular da Juventude, e de um coletivo de comunicadores populares.
Agricultura industrial x agroecologia: Até que ponto estes dois modelos podem coexistir? A chamada Revolução Verde das décadas de 60 e 70
Frente a esse contexto, movimentos sociais rurais,
abriu espaço para a mecanização no campo, para a pro-
ativistas e pesquisadores se mobilizam para implantar
dução de commodities, para as sementes geneticamente
outro modelo de agricultura para o campo: a agroecolo-
modificadas e, consequentemente, mais tarde, para a
gia. Este projeto, que permeia um cenário de crise, repre-
subordinação do agronegócio à indústria de agrotóxicos.
senta um confronto ao modo dominante de pensamento
Este modelo - que se utiliza de áreas de grande extensão
que prevalece no ocidente. A agroecologia faz uma ponte
para a produção de monoculturas - permite que fazendas
entre o conhecimento tradicional e a ciência integradora
brasileiras consigam uma alta produtividade com baixos
de várias áreas, valorizando tanto as inovações tecnológi-
custos, dedicando-se predominantemente à exportação,
cas que ajudam a enfrentar os problemas vinculados à
pauta política e econômica essencial para o Brasil na atu-
produtividade da plantação, quanto o camponês como
alidade. E atualmente, seis grandes empresas controlam
sujeito que tem a centralidade do trabalho no campo,
o mercado internacional da produção de sementes trans-
reestruturando socialmente a comunidade agrícola, a agri-
gênicas: Monsanto, Syngenta, Bayer, Basf, DownCrop-
cultura familiar - de onde advém 70% dos alimentos para
science e Du Pont, segundo dados do Grupo ETC.
consumo no mundo. Em sua definição, é uma proposta al-
A monopolização no setor de biotecnologia, além
ternativa de agricultura socialmente mais justa, economi-
de proporcionar um maior controle industrial dessas em-
camente mais viável e ecologicamente sustentável, vez
presas transnacionais sobre as sementes, caminha para
que não utiliza agrotóxicos, resgata o policultivo e se co-
uma padronização da dieta alimentar. Enfraquecida a
loca como prática de resistência cultural. Dessa maneira, a
agricultura familiar pela dificuldade de concorrência no
agroecologia ultrapassa a tecnicidade do discurso dos am-
mercado, os pequenos produtores ainda estão sujeitos à
bientalistas que dizem que é preciso preservar “o verde”
cobrança de royalties por parte das grandes empresas. É
a todo o custo e se coloca como modelo estratégico para
muito comum e constante no Brasil denúncias de peque-
a resolução de questões sociais que o campo traz, como a
nos agricultores que tiveram sua plantação contaminada
organização da família camponesa, educação no campo,
não intencionalmente pela polinização de sementes de
permanência da juventude em áreas da reforma agrária,
grandes empresas estabelecidas próximas a região de
desemprego, resgate da cidadania, etc. Pensar a agro-
plantio. Logo, aqueles agricultores, camponeses, indíge-
ecologia sem pensar o camponês, sua participação como
nas ou aquelas comunidades tradicionais, historicamente
sujeito social, e sua sobrevivência é uma abstração. Ou
ligados à preservação da biodiversidade e do cultivo de se-
seja, se quisermos planejar referenciais de médio e longo
mentes, agora acorrentados por um pacote tecnológico,
prazo para a sociedade, por meio de modelos verdadeira-
perdem sua autonomia frente ao avanço do projeto do
mente sustentáveis para a agricultura, tanto economica-
capital sobre a agricultura. Vale lembrar que o Brasil está
mente quanto socialmente, é preciso abandonar nossas
em 1º lugar no ranking dos maiores consumidores de
fabulações românticas de um mundo onde coexistem dois
agrotóxico do mundo.
modelos concorrentes de desenvolvimento. revista Sustentação | 31
mundo jurídico
tratados internacionais em
Matéria Ambiental Andando pelas ruas, nas conversas de bar, e até mesmo ao pegar o ônibus pela manhã, posso ouvir pessoas comentando
turas que expressassem plena e indiscutível preocupação ambiental e o resultado foi a frustração generalizada.
sobre os problemas da poluição e das mudanças climáticas, só
Se de um lado há um grande esforço do Direito Ambiental
para citar alguns exemplos. Se o tema já chegou na boca do
Internacional para proteger o meio ambiente, de outro, de fato,
povo, porque os acordos internacionais ainda não conseguem
apurou-se que esta matéria carece de algumas deficiências em
aceitá-los, ou acordar medidas e soluções? Para começar a de-
relação à efetividade de sua implementação. Em primeiro lugar,
senhar esta resposta, há que se voltar um pouco no tempo.
a participação da comunidade em prol do desenvolvimento
A partir da Segunda Guerra Mundial detectou-se a ne-
sustentável e da proteção do meio ambiente mostra-se nota-
cessidade de solucionar os conflitos entre o individual e o
damente tímida. A conscientização da população mundial, em
coletivo. Assim, diversas leis surgiram nos ordenamentos
maior ou menor proporção, a fim de que se cobre dos Estados
jurídicos visando estabelecer os direitos coletivos e limitar
o devido cumprimento das normas ambientais pactuadas nos
os individuais. Porém, diversos países perceberam que não
tratados, é muito pequena.
bastaria regulamentar somente suas leis internas, uma vez
Segundo, a ausência de sanções aos países que se com-
que a poluição do solo, da água e do ar não obedece as
prometem com metas de redução e não as realizam dificulta a
fronteiras territoriais. Desta forma, o problema atingiu o
efetividade. Nem o Protocolo de Quioto nem a Conferência de
plano internacional.
Copenhage estabeleceram sanções.
Foi nesse contexto que se realizou a Rio-92, uma con-
Em terceiro, é nítido que prevalecem interesses econômi-
venção que uniu diversos setores da sociedade para discutir
cos sobre a proteção ambiental. Há países, desenvolvidos ou
problemas ambientais. Ali, o aquecimento global também foi
emergentes potencialmente poluidores (China e Índia), que se
motivo de preocupações, que deveriam ser aprofundadas nas
esquivam das normas ambientais internacionais sob alegação
próximas Conferências das Partes (COPs) da Convenção de
de que reduções previstas nos acordos comprometeriam o de-
Clima. E assim foi. Durante a COP 3, em 1997, as estraté-
senvolvimento industrial e econômico da Nação.
gias expostas na convenção do Rio culminaram na elaboração
Chegará um dia em a coletividade terá que respeitar a na-
do Protocolo de Quioto, que definiu importantes conceitos,
tureza e a si própria, ou não poderá mais viver pacificamente.
como quais são os gases do efeito estufa; quais os deveres
Enquanto este respeito não ocorrer em sua plenitude, a legis-
quantitativos de cada país; previu meios para o alcance dos
lação ambiental nos âmbitos nacional e internacional deverá
objetivos; definiu a implementação de mecanismos de flexibi-
seguir as necessidades da coletividade, dando a devida atenção
lização - incluído aqui o comércio de carbono; dentre outros
à tutela preventiva dos recursos naturais
avanços. Mesmo assim, essas medidas não foram suficientes para impedir o avanço do aquecimento global. Mais de uma década se passou até a realização da
Manoela Badotti Veloso
Conferência de Copenhage (COP 15), em 2009, quando
advogada e consultora jurídica,
a opinião pública com sede de resultados criou uma
especializada em Direito Ambi-
grande expectativa de mudanças radicais. Infelizmente,
ental.
os líderes mundiais, em sua maioria, não adotaram pos32 | revista Sustentação
MITO X VERDADE
34 | revista Sustentação
Felipe Pires de Moraes Químico ambiental e especialista em Construções Sustentáveis. Trabalha atualmente com gestão de resíduos.
O dilema da água ! Há muito se escuta dizer a água vai acabar! Ou: as
Contudo creio que a grande questão a ser discutida
futuras guerras não serão por petróleo, e sim pela água!
é: até quando poderemos poluir a água? Até que ponto
Há tempos também sabemos que a maior parte da água
o tratamento de toda a água será tão veloz quanto
disponível no planeta Terra está nos mares e oceanos,
o nosso consumo? Os já conhecidos fertilizantes
outra parcela está indisponível em calotas polares, e
artificiais utilizados para produção de alimentos em
apenas uma ridícula sucessão de zeros (0,00001%) é
massa poluem continuamente, da mesma forma, as
a quantia que realmente pode ser consumida pelo ser
descargas industriais, a urbanização descontrolada
humano.
e até desastres naturais pioram constantemente a
No entanto, acredito que o problema não seja exata-
qualidade do tão precioso recurso.
mente o fato da ÁGUA simplesmente acabar, mesmo
Se até o que comemos atualmente é capaz de
por que é consenso que vivemos num eterno ciclo
prejudicar a qualidade da água, o que dizer das outras
hidrológico e, portanto, a água nunca vai embora da
coisas todas? Desde as atividades agrícolas, pro-
Terra! Como já dizia Lavoisier: nada se cria e nada se
dução têxtil e indústria eletrônica, todas consomem
perde... isto é, a quantia total de água é invariável. Os
água em larga escala.
processos biológicos e químicos consomem água na
Nosso moderno estilo de vida, cada vez mais
mesma medida em que a produzem. Logo, ela sempre
consumista e repleto de bens tecnológicos de-
está disponível, seja na forma líquida, dos rios, lagos,
manda cada vez mais o uso e o desperdício da
chuvas e mar; sólida, representada pela neve ou gelo;
água. Desta forma, preocupar-se com o con-
gasosa, como nas nuvens e vapor d’água, e ainda, como
sumismo e com as opções de compra é também
parte constituinte de animais, plantas e demais seres vivos.
economizar água boa.
revista Sustentação | 35
perfil
Fotos: Alexandre Mazzo
Uma vida pelo meio ambiente por Higor Lambach
Simples, calma, mas firme, a jornalista, ambientalista e escritora Teresa Urban foi um símbolo da resistência à ditadura militar e da luta pelo meio ambiente com mais de 20 livros escritos. Aos 67 anos, no final do mês de junho, Teresa faleceu em decorrência de um enfarte e deixou um legado ambiental e político incrível para os dois filhos, quatro netos e todos nós, curitibanos e paranaenses. Pioneira na cobertura da preservação ambiental e militante na época da ditadura militar, Teresa nasceu em 1947, em uma comunidade polonesa. Criada pelo pai Estanislau, liberal, dono de uma fábrica de móveis e pela mãe Janina, católica fervorosa, ela entrou na segunda turma do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 1965.
jornalista e militante paranaense, Teresa Urban defendeu o meio ambiente até o último dia de sua vida.
Ao ingressar no curso, já participava da Polop (Organização Revolucionária Marxista Política Operária), movimento de esquerda radical que queria dar o poder ao operariado. Na universidade, continuou sua militância, tendo participado de todas as manifestações estudantis anteriores ao Ato Institucional N.º 5, em dezembro de 1968. Ditadura Militar Durante os anos de graduação, Teresa teve inúmeras dificuldades de “ideologias” e interrompeu os estudos. Ela mesma não sabe como se diplomou. O combate à ditadura
36 | revista Sustentação
Os jovens participantes da luta ambiental do Paraná, Ecoberrantes sempre tiveram as portas da casa de Teresa abertas para reuniões. Cercada pela juventude, a jornalista tinha forças de sobra para qualquer trabalho de defesa do meio ambiente. Para Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da SOS Mata Atlântica, Teresa foi uma grande inspiração. “Ela
“
deve ter ficado contente em ver os jovens saindo às ruas
Temo e tremo pelo que vem aí. Quando faltar água de verdade nas metrópoles, talvez as autoridades e o homem se interessem em preservar o que levou bilhões de anos para ser formado e estamos destruindo em duas gerações.
para protestar”, afirmou. Ele lembra também que foi graças a ela que foi produzido o material que culminou com o fechamento da Estrada do Colono, que cortava o Parque Nacional do Iguaçu e provocava graves impactos. Por toda a vida, Teresa brigou contra a degradação ambiental, a extinção da Mata Atlântica e das Florestas de Araucárias, além do comprometimento dos rios. O último projeto em desenvolvimento foi com pequenos agricultores de Mandirituba, Região Metropolitana de Curitiba, em áreas de mananciais. “Temo e tremo pelo que vem aí. Quando
“
faltar água de verdade nas metrópoles, talvez as autoridades e o homem se interessem em preservar o que levou bilhões de anos para ser formado e estamos destruindo em duas gerações”, alertava. “Ninguém passou por ela sem rever foi o motivo do seu exílio no Chile, no início dos anos 1970
valores e reforçar princípios”, conta a irmã Maria Urban.
(70-72), além de algumas idas para trás das grades. Resistente, demorou a conseguir um emprego, até ser
Militância ambiental
contratada no jornal semanal A voz do Paraná, da Arquidio-
Nos anos 90, Teresa Urban impediu a instalação de uma
cese de Curitiba, já no final da década de 70. De lá para cá,
termelétrica na Ilha do Mel, que seria tocada a carvão impor-
contribuiu para as sucursais dos jornais O Estado de S. Paulo
tado. “Foi impressionante o lobby. Em poucos dias, o gover-
e O Globo, e na revista Veja.
nador recebeu dez mil cartões de protestos contra a absurda
Após sua morte, a OAB-PR decidiu homenageá-la com
ideia da termelétrica”, contou Teresa.
a criação do Prêmio Teresa Urban. O objetivo é premiar es-
Entre os diversos troféus, orgulhava-se da auditoria de sa-
tudantes que escreverem artigos para tratar da atuação dos
neamento ambiental, feita ao Programa de Reassentamento
advogados no período da ditadura militar. O prêmio será
do Prosan (Programa de Saneamento Ambiental da Região
entregue em dezembro nas comemorações dos 25 anos da
Metropolitana de Curitiba), do Banco Mundial. Trabalho
Constituição Federal.
apresentado oficialmente pelo Brasil, no Habitat II de Istambul, em 1996. O trabalho rendeu a Teresa visibilidade para
Um jornalismo a favor do meio ambiente Mas foi no jornalismo ambiental que militou. A atu-
ganhar novos apoios de entidades internacionais às causas que defende.
ação ia do mapeamento dos remanescentes de Floresta
Em 2000, investigou o desastre ambiental da Petrobrás,
de Araucárias desmatada no estado, quando destacou o
quando quatro milhões de litros de óleo foram derrama-
número de 94% das florestas do Paraná desmatadas, até
dos no rio Iguaçu depois que um oleoduto foi rompido em
as comunidades ribeirinhas dos principais rios paranaenses.
Araucária.
Sua trajetória passa pelo desenvolvimento de projetos em
A Fundação Francisco, de Brasília, a Fundação Ashoka,
conjunto com a Sociedade de Pesquisa da Vida Selvagem
dos Estados Unidos, e o Fundo Nacional do Meio Ambiente
(SPVS) e as ONGs SOS Mata Atlântica e Mater Natura, além
apoiaram-na na missão inédita em termos mundiais que foi
de ajudar na criação da Rede Verde de Informações Am-
a Rede Verde de Comunicação Ambiental, que contribuía
bientais e atuar no Conselho Nacional do Meio Ambiente
para centenas de jornais, rádios e televisões do Brasil e exte-
(Conam).
rior com informações ecológicas e de cunho ambientalista. revista Sustentação | 37
cultura
38 | revista Sustentação
Mais política
na arte por Roberta Zandonai
A arte é uma expressão do espírito. Tanto pode celebrar a beleza e a inspiração da alma, como assumir um papel contracultural e de crítica, incorporados, por exemplo, pelos dadaístas no início do século XX. Nesta segunda categoria, enquadra-se o caricaturista polonês Pawla Kuczynskiego, que tem causado polêmica no meio artístico mundial. Suas obras mesclam o humor sarcástico e a crítica dos padrões socioeconômicos atuais. Ao mesmo tempo em que trabalha com representações de forte impacto, sabe pincelar com toque de poesia. Expressa temas como racismo, trabalho infantil, poluição, fome e miséria, globalização, redes sociais, guerras, paz, entre outros. Sua polêmica foi inclusive utilizada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano, realizado no mês de outubro, por meio de uma charge sobre trabalho infantil. O artista Nascido em 1976, em Szczecin, Polônia, ele estudou na Academia de Belas Artes em Poznan, especializando-se em artes gráficas. Desde 2004 produz ilustrações satíricas e, até hoje, já recebeu cem prêmios. Em 2005 foi consagrado com o Prêmio da Associação de Caricaturistas Polacos “Eryk”. O bom-humor sarcástico O trabalho artístico de Kuczynskiego é marcado por um estilo gráfico particular, pois ao contrário dos traços infantis ou do apelo à deformação humana bastante utilizados pelos cartunistas tradicionais, ele faz uso de figuras bastante realistas. Isso demonstra que seu humor não busca provocar risadas, muito pelo contrário. É um humor repleto de sarcasmo, pois por meio de situações absurdas, consegue tecer duras críticas aos problemas do mundo contemporâneo. revista Sustentação | 39
Técnica, crítica e sarcasmo marcam o trabalho do cartunista polonês Pawla Kuczynskiego. 40 | revista Sustentação
revista Sustentação | 41
atitude
Foto: Divulgação/Bicicletada de Curitiba
Mais bicicletas por Roberta Zandonai
Cada vez mais as bicicletas são usadas como meio de
bastante repercussão nas últimas eleições para prefeitos e
transporte na capital paranaense — e nada parece mais
vereadores. O novo prefeito Gustavo Fruet chegou, inclu-
adequado para a cidade mundialmente conhecida por seus
sive, pedalando para a posse no dia 1º de janeiro deste ano.
projetos ecológicos e arquitetônicos do que uma população
Em outubro, a Prefeitura Municipal de Curitiba anunciou
que prioriza o deslocamento em duas rodas. Porém, peda-
a proposta de investir cerca de R$90 milhões até 2016 para
lar por Curitiba ainda exige uma atitude guerreira, pois
a implantação do novo Plano Diretor Cicloviário. O projeto
a infraestrutura precária e a cultura do automóvel são
foi elaborado pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Ur-
obstáculos bastante perigosos.
bano de Curitiba (Ippuc) e atuará em três frentes de tra-
Por falta de opção, é comum encontrar ciclistas dividindo
balho: na criação de uma microrede na cidade industrial;
as vias com carros e motos, com os ônibus biarticulados nas
na Interparques para interligar os parques Barigui, Tingui,
canaletas do expresso, e até mesmo desviando dos pedestres
Tanguá, São Lourenço, Barreirinha, Universidade Livre do
que usam as ciclovias como alternativa às calçadas irregulares.
Meio Ambiente, Ópera de Arame, Bosque do Papa e Jardim
O resultado é o aumento do número de fatalidades.
Botânico; e na instauração de uma Via Calma no trecho que
De acordo com o BPTran (Batalhão de Polícia de Trânsito da Polícia Militar), já foram registrados 177 acidentes
vai da Av. 7 de Setembro, na altura da Praça do Japão, até a Av. Mariano Torres.
com vítimas envolvendo bicicletas entre janeiro e agosto
Ao todo, 300 quilômetros de vias cicláveis devem ser
deste ano, com 173 ciclistas feridos e um falecimento. Em
implantados na cidade, o que representa mais que o dobro
comparação aos dados de 2012, que contabilizou 166 aci-
da malha atual de 127 quilômetros. As novas vias serão di-
dentes, 158 ciclistas feridos e três mortes, a situação piorou.
vididas da seguinte forma: 90 quilômetros de ciclorotas, 80
Em resposta à falta de infraestrutura e segurança, os
quilômetros de vias calmas e 130 quilômetros de ciclovias,
usuários têm se reunido em movimentos organizados em
ciclofaixas e passeios compartilhados entre pedestres e ci-
prol das bicicletas para pressionar o poder público e lutar por
clistas. Também estão previstas outras medidas, como a
melhores condições de tráfego. E parece estar funcionando.
instalação de bicicletários junto aos terminais de ônibus e
A questão da mobilidade urbana foi inclusive um tema de
a recuperação de vias que já existem. 43
atitude
Foto: Alexandre Costa Nascimento
Nas Ruas:
Veja o que alguns ciclistas acreditam que falta para pedalarem com mais tranqüilidade Ana Luisa Fayett Sallas, socióloga e professora da UFPR, 56 anos: falta educação de todos. Inclusive dos próprios ciclistas que andam na contramão e nas calçadas.
Durante uma passeata de bicicletas em 2012, um ligeirinho invadiu a ciclofaixa. Na foto, o produtor cultural e ativista André Feiges. Foto: Anderson Tozato
É preciso espaço definido e sinalizado de ciclovias, e uma super campanha - de preferência bem humorada para estimular o respeito e cooperação no trânsito - entre todos nós seres humanos que vivemos nas cidades. Larissa Mehl, estudante, 21 anos: falta uma rede de conhecimento e cultura sobre onde a bicicleta deve andar e em quais termos, tanto para o ciclista quanto para o motorista e o pedestre. Às vezes sinto que somos como intrusos, que não tem direito de ficar nem na rua nem na calçada. Juliano Sanceverino, professor de powersurf, 30 anos: falta uma área exclusiva para os ciclistas se deslocarem com as mesmas facilidades de um automóvel ou das
Poliana Gudiel é arquiteta e mora em Curitiba, no bairro Juvevê. Todos os dias, pedala até o bairro Seminário para trabalhar. Foto: Roberta Zandonai
motocicletas. Nossa cidade não foi projetada para atender a necessidade cada vez maior que temos hoje da utilização da bicicleta como meio de transporte. As ruas foram feitas apenas para os carros, motos e para os ônibus. Marcelo Natel, marketing, 48 anos: falta uma campanha de conscientização eficiente para motoristas, pedestres, ciclistas e motociclistas. A violência e truculência de grande parte dos motoristas impede que se pedale nas ruas. A alternativa é a calçada, lugar dos pedestres. Ou seja, pedalar é um ato de coragem e andar à pé, também. Aquilo que sinto mais falta é de educação e civilidade. Poliana Gudiel, arquiteta, 26 anos: Eu sinto falta de poder transportar compras ou qualquer outra coisa na bike, e poder andar pelo centro em baixa velocidade com segurança! Parece que para sair de bicicleta precisa ser rápido, sempre com adrenalina. Antony Serpa, médico, 28 anos: mais ciclovias (de qualidade) e uma melhor estrutura (com incentivo do governo) para melhorar a mobilidade urbana das bikes.
Obra feita com bicicletas pelo artista e ativista político chinês Ai Wei Wei, em exposição no prédio da Secretaria de Estado da Cultura (Seec), durante a Bienal Internacional de Curitiba 2013. 44
Rebaixamento das guias (colocação de rampas como as para deficientes) no local onde as ciclovias já existem e as que atravessam as ruas. E mais ciclistas!
Apesar de o projeto ser uma iniciativa de interesse público, “a participação da sociedade civil foi ínfima, não havendo sequer uma instância formal para o recebimento de sugestões e contribuições. Somente aquelas entidades que já têm acesso ao poder público é que participaram”, afirma André Ferreira Feiges, produtor cultural e ativista. Ele defende que o projeto que está sendo divulgado como Plano Diretor ainda é apenas uma promessa, “pois um Plano Diretor é uma Lei Complementar, enquanto o planejamento a que se refere à divulgação da Prefeitura não passa de um ‘protocolo interno de intenções’ do próprio Ippuc”. Portanto, o que a cidade precisa é formalizar um Plano Diretor Cicloviário, que integre as promessas feitas pela prefeitura, somadas às contribuições da sociedade civil. Mesmo reconhecendo que se trata da primeira menção pública de uma gestão comprometida com a bicicleta, o ativista aponta para alguns detalhes que trazem preocupações. “Não se está tratando do tema como uma mudança na forma de pensar e viver a cidade. Somente um Plano Diretor construído de forma participativa e colaborativa, subsidiado por pesquisa origem-destino, que coloque prioridade para modais humanizados é que transformará a realidade da mobilidade, principalmente no que toca à segurança e qualidade de vida”, conclui.
Entenda a diferença: Ciclo-rotas:
referem-se
a
um
trajeto
recomendado para os ciclistas chegarem onde desejam, o que é diferente de uma faixa ou a um trecho segmentado.
Vias calmas: vias de tráfego comum nas quais a velocidade máxima para veículos motorizados será reduzida e os ciclistas circularão em áreas demarcadas.
Ciclovias: espaços específicos para as bicicletas,
´ Historia da Bicicleta:
Em 1966 foi descoberto um desenho de
que são fisicamente separados dos demais veículos.
Leonardo da Vinci, do final do século XV,
As ciclovias de orla de praia são um exemplo.
que provavelmente relata o primeiro projeto de uma bicicleta. Isso porque o rascunho já
Ciclofaixas: quando não há separação física en-
aponta três itens básicos da sua constituição:
tre a via do ciclista e a via dos automóveis, a não ser
duas rodas, correntes e sistema de direção. Na
por uma faixa pintada no chão. Geralmente são feitas
história moderna, o primeiro protótipo é de
em vias de tráfego comum e de baixa velocidade.
1818, do alemão Karl Von Drais, considerado o pai da bicicleta. Ele percorreu 15km entre
Passeios compartilhados: vias de tráfego
duas cidades na Alemanha com a sua drai-
comum, onde veículos motorizados e bicicletas com-
siana, jornada que marcou a época. Depois
partilham o mesmo espaço, devendo os ciclistas ter a
dele, o modelo apenas foi aperfeiçoado até o
preferência.
que temos atualmente.
revista Sustentação | 45
soluções urbanas
46 | revista Sustentação
Foto: Richard Owen - Istockphoto
Há lixo no fim do túnel por Roberta Zandonai
Enquanto o consumidor pensa na vida útil do produto como o período entre a compra e o descarte no lixo, muitas pessoas já estão prestando atenção no pós-consumo — e nas oportunidades que emergem a partir do desafio da gestão compartilhada de resíduos sólidos.
Samira Moreira Dias é uma jovem de 23 anos cheia de responsabilidades e que mora com a mãe. Diferente da maioria das pessoas da sua idade, as preocupações que carrega no cotidiano não são os trabalhos da universidade ou os atropelos do primeiro emprego. Longe disto, pois ela tem anos de experiência profissional. As pressões que Samira encara todos os dias são a de acordar cedo, preparar os três filhos para a escola e, enquanto eles estudam, garantir o sustento da família coletando resíduos sólidos recicláveis, ou seja, lixo. Nos dias que acorda com o pé direito, ela chega a carregar 150 quilos no carrinho entre os bairros Parolin e Portão, em Curitiba. “Às vezes volto para casa só de madrugada”, conta. Nilson Dantas, 39 anos, também é catador e sente o peso da responsabilidade. Chega a carregar diariamente até 320 quilos de lixo no carrinho puxado a tração humana por 12 quilômetros — e para aliviar as dores do corpo, só mesmo uma dose de cachaça. Samira e Nilson fazem parte de um amplo universo de profissionais invisíveis, que prestam um serviço de utilidade pública para as prefeituras, mas que não encontram reconhecimento. É comum nunca terem ouvido um ‘muito obrigado’. Segundo estimativas do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), cerca de um milhão de pessoas vivem da coleta, triagem e comercialização de recicláveis no Brasil. Além da atividade profissional em comum, Samira e Nilson compartilham outro elo. Ambos aprenderam o valor monetário daquilo que ninguém quer: o lixo. Esta lição, que já faz parte da vida de milhares de trabalhadores informais no
revista Sustentação | 47
soluções urbanas
Você sabe o valor do seu lixo? Para a prefeitura de Curitiba, a gestão dos resíduos custa 22 milhões de reais por mês.
país, tem sido cada vez mais incorpo-
enterro e não aterro porque ao levar
responsáveis pela coleta de mais de
rada às pesquisas e debates na esfera
para lá estamos enterrando os recur-
70% de tudo o que é reciclado pela
civil e pública. O que antigamente era
sos da cidade. E gastamos uma for-
cidade).
visto como um problema, nos últimos
tuna para enterrá-los”.
anos tem se tornado solução e oportunidade. O tamanho do lixo
A lei também obriga a extinção de
Por mês, a capital paranaense des-
todos os lixões e aterros controlados
tina 22 milhões de reais para a gestão
do país até 2014. Neste sentido, o de-
de resíduos. Entre o material que é
safio é grande para o Paraná, que tem
“enterrado”, 16% é papel que pode-
atualmente 214 lixões em funciona-
O Paraná tem uma população de
ria estar sendo reciclado, o que além
mento. Todos, sem exceção, terão que
cerca de 10,5 milhões de habitantes,
de garantir o benefício ambiental, pro-
ser substituídos por aterros sanitários.
responsáveis pela geração de 20 mil
longaria a vida útil dos aterros. Ainda,
toneladas de resíduos ao dia, segundo
38% é de matéria orgânica, sendo
dados da Secretaria Estadual do Meio
que destes, segundo Lima, 70% é de
Ambiente e Recursos Hídricos (Sema).
água. “Gastamos muito dinheiro para
Só na capital, cada pessoa produz 1,2
enterrar e transportar água”, critica.
quilos de resíduos por dia —a média brasileira é de 1,1 quilos.
“Levamos todo o lixo da cidade para o enterro. Digo enterro e não aterro porque ao levar para lá estamos enterrando os recursos
Política Nacional
da cidade”.
No caso curitibano, ao multipli-
Após vinte anos de debates no
car a produção per capita diária pela
Congresso, o MNCR conseguiu que,
Renato Eugenio Lima
população
aproximadamente
em 2010, fosse sancionada a Política
Sec. do Meio Ambiente de Curitiba
1,8 milhões de pessoas, chega-se a
Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS),
pouco mais de 2 mil toneladas de lixo
instituída pela Lei 12.305/2010, com o
Outra inovação instituída pela
geradas todos os dias. Isso é 10% da
objetivo de enfrentar um dos maiores
PNRS é a obrigatoriedade da logística
média estadual.
desafios da atualidade: a gestão do lixo.
reversa, que é o caminho inverso do
A aprovação é considerada uma
produto após a sua fase de consumo,
de
Cemitério de recursos
vitória pelo Movimento, pois tira o
passando por toda a cadeia produ-
Segundo o Secretário Municipal de
catador da invisibilidade e obriga a
tiva até o comprador final, e voltando
Meio Ambiente do Curitiba (SMMA),
gestão compartilhada de resíduos en-
pela mesma cadeia até o fabricante,
Renato Eugenio Lima, “levamos todo
tre os municípios e os catadores (so-
que deve garantir uma destinação
o lixo da cidade para o enterro. Digo
mente em Curitiba, os carrinheiros são
adequada. Ou seja, não basta ape-
48 | revista Sustentação
Entenda a diferença: Lixão: é a pior forma de armazenar e tratar os resíduos urbanos. É um depósito a céu aberto, sem estrutura para isolar a contaminação do solo e tratar os efluentes. Provoca enorme impacto ambiental, atrai animais transmissores de doenças e ameaça a saúde das famílias que vivem no entorno. Aterro controlado: É melhor que os lixões e pior que o aterro sanitário. A área de depósito de lixo recebe diariamente camadas de argila e grama, para evitar o mau cheiro e a proliferação de animais. O biogás, resultante da decomposição, é queimado, porém o chorume (líquido escuro expelido pela matéria orgânica em decomposição, com alta carga poluidora, e que pode ocasionar diversos efeitos sobre o meio ambiente) não recebe nenhum tratamento e contamina o solo. Aterro sanitário: É uma obra de engenharia organizada e controlada. O solo é impermeabilizado com mantas de PVC e argila, evitando a contaminação. O chorume é lançado em poços de tratamento e o biogás é queimado ou vira energia de biomassa. O aterro é monitorado diariamente.
nas produzir bens de consumo e vendê-
tem uma destinação diferente. O papel e
los no mercado. Após o fim da vida útil
o papelão são separados de acordo com
do produto, as empresas têm que garantir
as características químicas”, conta Mo-
que eles terão uma destinação adequada.
raes, que recolhe cerca de dez toneladas
A gestão compartilhada envolve as in-
de materiais recicláveis (papel, plástico,
dústrias, o comércio e o consumidor.
sucata e pneus) por mês, de dez unidades comércio.
Responsabilidade empresarial
Além de reduzir os custos com a des-
Felipe Pires de Moraes, analista ambi-
tinação incorreta dos materiais, a empresa
ental de um grupo de concessionárias do
ainda arrecada com a venda dos recicláveis.
Paraná e de Santa Catarina, é responsável pelo gerenciamento e destinação ade-
Passivo ambiental =
quada de resíduos provenientes dos pro-
ativo econômico
cessos de reparo e manutenção de veícu-
O que para um empresário pode ser
los. Ele conta que o setor de comércio
um problema enorme, para outro pode
de automóveis produz, assim como a in-
ser a solução. Esta foi a “sacada” que re-
dústria, diversos rejeitos sólidos e líquidos
sultou na criação da bolsa de resíduos da
que devem ser corretamente tratados.
Federação das Indústrias do Paraná (FIEP).
“Temos uma grande produção de
“O sistema funciona como um portal de
resíduos, principalmente na parte das ofi-
anúncios de compra e venda de resíduos,
cinas das concessionárias. A manutenção,
onde os empresários podem se cadastrar
o concerto e a troca de peças dos carros
gratuitamente e buscar fornecedores ou
geram
como
compradores de seus passivos ambientais.
óleo lubrificante, filtros e peças de motor,
É possível ainda fazer ou receber doações
que têm que ser separado dos demais.
de materiais”, explica Michele Vilarin,
Também fazemos a separação dos tipos
responsável pelo Sistema Integrado de
de vidros, como o temperado, e cada um
Bolsa de Resíduos (SIBR),
resíduos
contaminados,
Já ouviu falar dos 4 Rs da reciclagem? REDUZIR REUTILIZAR RECICLAR REEDUCAR Compartilhe esta ideia!
revista Sustentação | 49
soluções urbanas Foto: Benoit Moreno - Istockphoto
O que para um empresário é lixo, para outro pode ser matéria-prima. Assim, o gasto pode se tornar arrecadação.
O projeto, criado em 2001, foi pioneiro
a sociedade. Neste sentido, cada ci-
no Brasil. Em 2009, foi incorporado pela
dadão é responsável (ou irresponsável)
Confederação Nacional das Indus-
pelo seu consumo e pela separação do
trias (CNI) e reproduzido em outros
lixo.
estados brasileiros. Nas transações, o
Como alternativa, uma nova onda
plástico é o material que mais movimenta
urbana propõe o tratamento domés-
os negócios, seguido dos metais, máqui-
tico do lixo orgânico por meio da
nas e equipamentos.
compostagem. A prática consiste ba-
Entre 2001 e 2012, o portal contabi-
sicamente em transformar a matéria
lizou 24.030 anúncios, e 190.511
orgânica em adubo por meio da ação
interesses por anúncios. A maior
de microrganismos.
procura é de empresas de São Paulo,
Leonardo Baptista, de 25 anos,
seguido de Paraná e Minas Gerais.
mora em um apartamento com a mãe,
Outros estados que são ativos no
onde trabalha todos os dias com ali-
portal são Bahia, Goiás e Pernam-
mentos, que distribui em pontos de
buco.
venda da cidade. “Há cerca de um ano comprei uma composteira (estrutura
Solução caseira
50 | revista Sustentação
para compostagem em apartamentos
Enquanto os resíduos da indústria
que ocupa pouco espaço) e no começo
e do comércio buscam novos significa-
tive certa dificuldade para equilibrar a
dos, o lixo doméstico segue destinado
proporção de lixo orgânico e de folhas
aos aterros e lixões (até a extinção deste
secas, mas depois que peguei o jeito
último), proporcionando elevado custo
ficou fácil. É muito bom transformar o
ambiental, social e econômico para
seu lixo em terra e adubo, e acompanhar
este processo”, conta Baptista. Ele utiliza uma composteira que decompõe a matéria orgânica através de minhocas. Para
Lixo e a sétima arte
Dicas de filmes (documentários) sobre o assunto:
cada quantidade de matéria orgânica colocada ali, é preciso cobrir com uma quantia determinada de folhas secas, e assim, fornecer o carbono
Título: Ilha das Flores
necessário para a reação química de transfor-
Ano: 1989
mação em adubo.
Direção: Jorge Furtado e Cecília Meirelles.
Gestão compartilhada O Secretário Municipal Renato Lima concorda que a solução para o desafio dos resíduos está dentro de casa. “Acreditamos na política familiar de resíduos, pois é nas residências que se desenvolve a política de compras. É lá que se de-
Título: Boca do Lixo
cide quanto vamos gerar de resíduos: se com-
Ano: 1994
pramos produtos com ou sem embalagem e se
Direção: Eduardo Coutinho
reutilizamos esta embalagem. Isso decide diretamente quanto a cidade gasta. Se nós economizarmos 10% de resíduos em nossas casas, a cidade economiza 2 milhões por mês”, explica. Se a desativação completa de todos os lixões e aterros até 2014 ainda é incerta, e não há como
Título: Estamira
garantir a adesão total das empresas à logística re-
Ano: 2005
versa, o ‘trabalho de formiguinha’ pode começar
Direção: Marcos Prado
em casa. Escolhas conscientes pressionam o mercado, mudam padrões de consumo, e ainda, podem economizar verba dos cofres públicos.
Foto: Divulgação/Cavalo de Lata
Cavalo de lata
Iniciativa gaúcha desenvolve carrinho elétrico para os catadores Preocupado com a situação de trabalho dos catadores, e com a saúde
dos animais que por vezes puxam os carrinhos, o engenheiro de produção, Jason Duani Vargas, e a publicitária Ana Paula Knak, criaram um veículo utilitário para a coleta de material reciclável. O protótipo, batizado de Cavalo de Lata, é um veículo motorizado, movido a energia elétrica, feito com aço carbono. Ele pesa 180 quilos e tem capacidade para transportar 350 quilos de materiais, a uma velocidade de até 25km/h. A bateria, que não emite poluição e gás carbônico, tem autonomia de 60 quilômetros. A estimativa é de que custe entre R$10 e R$12 mil.
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galeria
Pimp my carroça
Projeto paulista voltado aos catadores de materiais recicláveis chega a Curitiba para oferecer arte, segurança e bem-estar a estes trabalhadores urbanos.
Foto: Kariman Charles
Foto: Nina Vilas Boas
Foto: Kariman Charles
O evento foi totalmente financiado por doações, que somaram ao todo 44 mil reais.
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Foto: Kariman Charles
Foto: Kariman Charles
Foto: Nina Vilas Boas
Além de ganhar uma ‘pimpada’ nos carrinhos, o catador passa por atendimento médico, dentário, e outros mimos dignos de SPA.
Foto: Kariman Charles
“Quando apareceu a ideia, todos achavam que eu era louco”, conta Thiago Mundano, idealizador de um projeto que desde 2012 tem colorido o principal instrumento de trabalho dos catadores de recicláveis: seus carrinhos. O Pimp my Carroça, cujo nome foi inspirado nos programas de TV americanos que modificam carros, já beneficiou diversos catadores em São Paulo e no Rio de Janeiro, oferecendo além da “pimpada” nas carroças, um dia digno de SPA. Enquanto o carrinho está em manutenção, os catadores ganham uma camiseta do projeto, alimentação, consulta com médicos, dentistas e psicólogos, além de outros mimos, como massagem, corte de cabelo e manicure. Até os “cãopanheiros” tem direito a um check-up médico e tratamento. A iniciativa chegou a Curitiba no feriado do dia 2 de novembro, após ter arrecadado aproximadamente 44 mil reais através de 526 doadores no Catarse.me/pt (site de financiamento colaborativo). No total, vinte e nove carrinhos passaram por reformas de funilaria, bor-
A arte e a música, segundo o idealizador Mundano, são elementos que aproximam a sociedade destes trabalhadores ‘invisíveis’.
racharia e pintura artística na praça 29 de Março, no bairro Mercês. O evento só foi possível com o apoio de cerca de cem voluntários, que trabalharam tanto na organização quanto na realização do projeto. O Pimp my Carroça pretende seguir para outras capitais, promovendo a valorização dos catadores de recicláveis e utilizando a arte e a música como fator de integração entre a população urbana e esses trabalhadores “invisíveis”.
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editoria recursos Hídricos
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Foto: Acervo pessoal/Eduardo Fenianos
Além de percorrer os rios paranaenses em 1997 e em 2013, o Urbenauta realizou expedições por todas as capitais do país. Foto: Acervo pessoal/Eduardo Fenianos
´ Pelas Aguas de Curitiba por Roberta Zandonai.
Sabe aquela sensação de querer olhar o mundo por um
nariam por percorrer os rios de todas as capitais brasileiras.
ângulo diferente? Fugir do “lugar comum” e transformar a
“Para mim o rio manifesta a forma como o ser humano está
rotina em algo novo?
tratando a natureza no lugar onde ele vive”, afirma o jor-
O jornalista Eduardo Fenianos, um apaixonado pela selva
nalista.
urbana, a conhece muito bem. Anos atrás, ainda no século
Em 2013, o Urbenauta, como também é conhecido, de-
passado, ele ficou muito incomodado em ver Curitiba sem-
cidiu repetir a dose no Paraná e revisitar as paisagens que
pre da mesma maneira. Ele queria alcançar um novo olhar.
havia conhecido 16 anos antes. Desta vez, o projeto recebeu
Redescobrir sua cidade. E a resposta veio pelo olhar do rio.
o apoio de entidades, universidades e meios de comuni-
Surgiu então uma nova metodologia antropológica empírica
cação interessados em acompanhar os relatos do jornalista.
com elementos de aventura maluca.
Não apenas a infraestrutura foi diferente, mas o objetivo
Em 1997, ele reuniu uma ideia inovadora, um cinegra-
também mudou. A aventura ficou mais técnica. Além de
fista alemão com olhar externo, coragem, quatro botes (o
percorrer os rios, a iniciativa se propôs a analisar a qualidade
planejamento previa um, mas todos furaram), e uma carta
das águas, comparar as mudanças e redesenhar o mapa da
topográfica cheia de falhas da capital paranaense. Durante
cidade.
cem dias, ele navegou pelos rios Belém, Atuba, Barigüi, Pas-
O resultado foi a constatação de que os anos fizeram
saúna, Iraí, Iguaçú, e outros. Ficou sem verba por causa do
muito mal às águas de Curitiba, que adoeceram e encon-
concerto dos botes furados, foi acolhido por moradores de
tram-se mortas em alguns pontos.
favelas e mansões e escreveu um livro. Parece uma fórmula conhecida, mas no fundo, Fenianos
Acompanhe a entrevista concedida pelo Urbenauta à revista SustentAção.
teve uma ideia que de tão simples parecia excêntrica, e no fim, descobriu uma nova forma de sobreviver e de se relacio-
SustentAção — Como surgiu a ideia de navegar pelos
nar com as pessoas e com a cidade.
rios das cidades?
Essa foi a primeira de uma série de aventuras que termi-
Fenianos — Eu já estudava as cidades e estava desenvolrevista Sustentação | 55
recursos Hídricos
Foto: Acervo pessoal/Eduardo Fenianos
vendo uma coleção de livros sobre os bairros de Curitiba
SustentAção — Após navegar pelos rios de tantas ci-
com a ideia de começar uma editora. Durante uma entre-
dades, quais as principais diferenças que sentiu entre
vista com um morador antigo de um bairro, ele ficava me
Curitiba e outras capitais?
repetindo que conhecia o mundo inteiro, África, Estados
Fenianos — Eu poderia falar horas sobre as diferenças. Mas
Unidos... Então eu perguntei se sabia o nome da rua que fi-
para resumir, por mais incrível que possa parecer, Curitiba
cava atrás da casa dele, e ele não sabia. ‘E aquele homem do
ganha de São Paulo no quesito poluição. Em um grau maior
outro lado da rua o senhor conversa com ele?’, perguntei.
ou menor, hoje, todos os rios de Curitiba estão poluídos,
Ele disse que não tinha tempo. Diferente do leão numa sa-
inclusive os que abastecem a cidade com água: o Passaúna e
vana, ou dos animais que, em geral, conhecem o lugar onde
o Iraí. São Paulo, por outro lado, ainda tem rio limpo.
habitam, as pessoas não conhecem o seu próprio território. Foi aí que nasceu a ideia: vou fazer uma viagem dentro da
SustentAção — Em 1997 você já planejava voltar para
cidade onde eu moro!
realizar o mesmo trajeto anos depois? Fenianos — Eu não, imagine, entrar em rio poluído!! (ri-
SustentAção — E porque navegar pelos rios?
sos) Eu fiquei nove anos morando fora e fazendo minhas
Fenianos — Para mim, o rio manifesta a forma como o ser
pesquisas. Voltei para Curitiba em março de 2012 e me
humano está tratando a natureza no lugar onde ele vive.
dei conta que iria comemorar 15 anos da primeira viagem.
Se há destruição da mata ciliar, eu vejo de dentro do rio.
Sem que necessitasse entrar nos rios, algumas coisas me
Se existe um rio poluído, é porque o saneamento básico
chamaram a atenção. Parece que a cidade passou por um
não existe naquele lugar. O rio é um termômetro muito
processo de “sãopaulinização”. Não era possível, o que eu
forte. 95% dos limites de Curitiba são rios. Eu também
tinha visto de ruim antes parecia estar pior ainda!
queria olhar a cidade de um jeito diferente. É sempre você andando na rua e olhando o rio. Eu queria ter o olhar do
SustentAção — E como foi a segunda viagem?
rio!
Fenianos — Desta vez o trabalho foi muito mais técnico.
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Fui atrás de parcerias, reunimos 55 pessoas na equipe,
rou! Foi um grande susto. Estava navegando no rio Barigui
toda a infra-estrutura necessária, e só depois iniciamos o
numa época de bastante chuva. Parece um jogo de xadrez
comparativo entre o forte discurso ambiental de Curitiba
entre a vida e a morte como tudo aconteceu. Ali na região
como Capital Ecológica e a prática, ou seja, analisamos se
do Pilarzinho, de uma hora para outra, o rio afunilou,
a preservação do meio ambiente acompanhou esse discurso
aumentou a correnteza, tudo com muito lixo. Quando
ecológico. Para o meu desespero, foi bem pior!
passamos por um tronco o bote virou e eu fui para baixo. O problema é que nós usamos aquela “jardineira” de pes-
SustentAção — Quais os pontos mais críticos que você
cador, que encheu de água e eu ganhei muitos quilos, só
observou?
afundava. Tive que manter a calma, até que os bombeiros
Fenianos — Quando naveguei pela primeira vez o Rio Atuba,
me resgataram. Fora isso, você acaba pegando diarreia,
até escrevi no livro que era possível promover olimpíadas
essas coisas...
aquáticas ali, era uma delicia de navegar. A cor era marrom por causa do barro. Hoje é negra. O Rio Belém já era
SustentAção — Essa sua experiência certamente gerou
totalmente poluído, e hoje ele está secando. O Rio Iguaçu,
um rico relatório. Como isso foi recebido pelo poder
quando naveguei pela primeira vez, tinha 48 quilômetros de
público?
extensão e era cheio de curvas. Agora, transformaram esse
Fenianos — É muito legal ver a prática ambiental aliada
rio na Marechal Floriano: é uma reta só! Com o fim das cur-
à força da imprensa. Na primeira viagem quando eu
vas ele inunda nos períodos de chuva. A poluição também
fui até a prefeitura apresentar o projeto, eles disseram
piora, já que ele não oxigena porque perdeu as curvas – que
que se eu não navegasse o rio Belém participariam
ainda existem no rio Barigüi. Antes eu vi muitas aves, arira-
do projeto, então eu disse que eles não fariam parte.
nhas, lontras, e tudo isso em um rio urbano! Já na última
Na época, Curitiba era a Capital Ecológica e o que
viagem encontrei somente capivaras. No Passaúna isso tudo
nós vimos foi o contrário. Eu furei meu barco numa
foi assustador, porque abastece um terço da necessidade de
máquina de lavar roupa! Desta vez, a polícia ambien-
consumo de água da população local. Na primeira vez não
tal participou, a Sanepar (Companhia de Saneamento
havia nada de poluição e, dessa vez, vi despejo de esgoto até
do Paraná) fugiu e a Secretaria Municipal do Meio
antes da represa e muito resíduo sólido. O cheiro em alguns
Ambiente (SMMA) pediu um relatório para ver o que
pontos, como na divisa de Pinhais ou na Cidade Industrial,
pode ser feito. Esse posicionamento é que eu acho
é horrível!
necessário. Ter humildade para falar que a cidade não pode viver só da imagem, ela está cheia de problemas.
SustentAção — E as condições humanas?
Eu pensei: “Poxa, finalmente um corajoso”. Se o po-
Fenianos — Degradação ambiental é degradação humana
der público começa a ter essa postura, você começa a
também. As pessoas que vivem ao lado de um rio — ainda
ter transformação.
mais numa cidade úmida como a nossa — têm asma, bronquite, leptospirose. Tanto idosos como crianças vivem mal. Um
SustentAção — Qual será o seu próximo passo?
problema que tem aumentado também é a presença da cobra
Fenianos — A nossa próxima ação é trabalhar com edu-
jararaca, atraída pelos ratos que chegam com o lixo. Daqui a
cação ambiental, já no ano que vem, porque é preciso
um tempo a gente vai ter que tomar cuidado com aranha
partir da criança para ela chegar no adulto. Estamos
marrom e com cobra também! Percebi alguma melhora de
roteirizando nossos materiais para usar uma lin-
situações que denunciei em 1997, mas vi que foram retirados
guagem jornalística e publicitária, que os técnicos não
das margens dos rios pontos de habitação popular, enquanto
sabem utilizar. Eu saí de uma agência de publicidade
os proprietários de grandes áreas e fazendas ao lado dos rios
no passado para isso. Ao invés de usar a criatividade
continuam despejando poluentes e lixo.
para vender molho de tomate, porque não posso usar para uma coisa legal? Pode ser educação, preservação
SustentAção — Você passou por alguma situação de
ambiental... as ações que eu faço chamam a atenção
perigo?
e trazem temas para a discussão, mas agora é hora de
Fenianos — Eu quase morri por causa de um barco que vi-
educar. revista Sustentação | 57
re-use
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Foto: Sarah Weisgh
Old is very cool Sabe aquelas fitas cassetes (VHS) que estão se acumulando nas gavetas e ninguém tem coragem de jogar fora? Elas podem ter um destino muito mais legal do que o lixo de eletrônicos! Repare que são todas iguais, perfeitamente simétricas, resistentes, e quase imploram para ficarem lado a lado. Juntas, podem dar vida a estantes e mesas cheias de utilidade. Veja como: Materiais: • Fitas VHS - Tubo de cola Fix-Tudo - Tampo de Vidro (opcional) - Suporte com rodinhas (opcional): - 1 chapa de compensado do tamanho da montagem das fitas - Tinta Spray - Rodinhas - Parafusos. E ai? Primeiro você deve pensar no tamanho do móvel que precisa. Faça um teste antes de começar a colar, encaixando as fitas lado a lado, até encontrar o formato que deseja. Quando definir as medidas da mesa, monte várias placas iguais, como na foto, e aí é só colocá-las uma em cima da outra, intercalando. Para dar um toque final, você pode comprar um tampo de vidro do tamanho das placas e por em cima. Outra opção para deixar o móvel mais prático é fazer um suporte com rodinhas para movimentar a mesa. Os pés de rodinha são fáceis de fazer, mas você também pode encomendar. Vai precisar de uma chapa de compensado do tamanho da base da mesa, pintadas com tinta spray (opcional), e depois é só parafusar as rodinhas, que são vendidas em lojas de materiais de construção. O pé é opcional, mas facilita a vida no dia-a-dia. Este modelo é apenas uma sugestão, mas você também pode criar estantes e outros objetos usando as fitas cassetes de estrutura.
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