Crítica à bienal de Curitiba 2015 - Luz do Mundo

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“A edição de 2015 da Bienal Internacional de Curitiba tem por tema a arte da luz, a arte com a luz, a arte feita de luz e que tem na luz sua matéria, seu material e conteúdo.

A luz é a condição necessária para que exista a obra de arte em seus variados modos. Mas existe um território específico da arte contemporânea que se volta para a luz em si mesma como condição suficiente para sua manifestação sem recorrer a qualquer mediação de forma ou recurso conceitual e estilístico. Na arte da luz está presente um silêncio de palavras e imagens dos mais apropriados à criação, ao redor de quem a contempla, das condições ideais para um contato direto com a pura experiência estética, aquela que vários artistas procuraram ao final do século 19 e início do seguinte sem de fato alcançar até o surgimento, primeiro, do abstracionismo e, depois, da arte da luz.

Livre de programas baseados na representação do mundo, a arte da luz podia dizer o que não era possível dizer, pronunciar o impronunciável. A arte da luz não recorre, como regra, a palavras e imagens representacionais, mas quando o faz ela atribui ao que está sendo dito e mostrado uma dimensão mais densa e consistente que é mais sentida do que compreendida.

Independentemente de qualquer requisito especializado prévio, habitualmente disponível apenas para os profissionais da arte, a arte da luz oferecese a si mesma como experiência direta. A maior tragédia da situação artística é a quase sempre insuperável distância entre as perspectivas e expectativas do artista (do crítico também) e as do observador.

A arte da luz estabelece com seu observador uma conexão direta e imediata que contorna o recurso à argumentação e, assim, dispensa a interpretação. Essa ausência de sentido é hoje substituída por novas modalidades conceituais de imagens representacionais que sugerem um significado ao mesmo tempo em que deixam ao observador a responsabilidade pela interpretação possível. Este tipo de arte não é de tipo histórico, psicológico, social ou filosófico no sentido tradicional, nem mesmo espiritual em sentido estrito: pode apresentar vestígios de alguma coisa disso, mas é acima de tudo fenomenológico, estando ligado à experiência real do observador diante dele ou por ele envolvido, observador que não mais é um espectador, porém componente vivo da situação de arte assim criada.

Na arte da luz, essa distância tende a desaparecer ou a reduzir-se a sua menor dimensão possível. Nem por isso o estranhamento, qualidade própria de uma obra de arte que vale esse nome, deixa de manifestar-se também na arte da luz, quer esteja ela na sala tradicional do museu ou em espaços públicos abertos. Estranhamento e fascínio, mesmo se de algum modo marcado pelo unheimlichkeit¹, essa inquietante estranheza: é o que define a arte da luz, combinação perfeita e incomum entre fins e meios.” TEIXEIRA COELHO Curador Geral

1. O unheimlichkeit é ao mesmo tempo o desconhecido e o familiar, o que fica na sombra e o que aparece ; o que é impenetrável e fascinante

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ DESIGN DE PRODUTO II HISTÓRIA DA ARTE PROFESSOR PAULO REIS GIULIA NATALIE DORNELES COSTA GRR20140802 09 DE NOVEMBRO DE 2015

BIENAL DE CURITIBA 2015

LUZ DO MUNDO


ELIANE PROLIK

ARTISTA SELECIONADA

Curitibana, a artista é graduada em Pintura e possui especialização em História da Arte do Séc. XX pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP). Desde o final dos anos 1980 trabalha com escultura, objeto e instalação. Minimalista, Prolik faz arte pela estética, gosta que tudo esteja limpo e organizado. Eliane Prolik participou das edições 19ª e 25ª Bienal de São Paulo, em 1987 e 2002, assim como do Panorama da Arte Brasileira, no MAM-SP, de 1991 e 1995. Fez parte da I Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, em 1997 e do Manobras Radicais, de 2006, no CCBB de São Paulo. Também participou de uma exibição coletiva na Caixa Cultural de Brasília, em “O Espaço Aberto”, em 2008, assim como do “O Estado da Arte” no MON em Curitiba, em 2010. Já individualmente, Prolik idealizou a obra “Tuiuiú”, no Projeto Octógono, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 2004. Sua obra “Atravessamento” foi exibida no MuMA, em 2012, em Curitiba, assim como “Da Matéria do Mundo”, no Museu Oscar Niemeyer. Na exposição da Bienal de Curitiba, Eliane propõe uma instalação onde a presença insistente da dimensão pública da luz contrapõe-se a de uma luz em particular, a vermelha.

“A vida moderna em seu tumulto de imagens públicas (nas ruas) e privadas ou supostamente privadas (celular, Facebook) tem empurrado cada vez para mais longe as experiências com a própria subjetividade. Eliane Prolik propõe uma instalação onde a presença insistente da dimensão pública da luz, e de uma luz em particular, a vermelha, é personagem central e tão intensa que toda individualidade é anulada em favor do comando social por ela representado e que não pode ser contestado.“ TEIXEIRA COELHO E LENORA PEDROSO CURADORES


A devida instalação se dá a partir da repetição de módulos retangulares vermelhos, cada um contendo uma lâmpada de emergência de luz avermelhada centralizada, justapostos em uma parede em conjunto com espelhos obliquamente posicionados, em relação aos módulos, em arco.

A artista curitibana representa as luzes urbanas, faróis de carros, sinais de trânsito, luzes essas que fazem parte da nossa vida.

De acordo com a própria Prolik, em entrevista concedida à RPCTV, ela tenta, com essa obra, captar essa luz muito presente em nosso cotidiano e que representa códigos da nossa sociedade, e ainda revelar a memória do vermelho que esta presente em nossos corpos, o fluxo do sangue, de células.

Passa-se a sensação de movimento com a continuidade pela repetição dos módulos, sensação essa garantida também pelo uso dos espelhos, que ampliam o movimento para o infinito por meio das diferentes angulações. Há uma forte horizontalidade formal, devido ao posicionamento cotínuo dos módulos de base maior que sua altura. Tem-se um contraste de formas pelos cantos retos do fundo com os cantos arredondados das lâmpadas. Além do reto da parede com o curvo dos espelhos contrastantes entre si. A coloração avermelhada traz uma tensão à obra, é uma cor mais sóbria e que remete ao perigo, ao estresse; ilumina, mas ainda é um ambiente escuro. O fato de algumas das lâmpadas permanecerem apagadas causa um estranhamento por conta do imprevisível, quebra-se o ritmo visual. Tal situação também gera um contraste de luz e sombra, os “brancos e pretos”.

RED AHEAD - Eliane Prolik Museu Oscar Niemeyer 1º pavimento - Torre Bienal de Curitiba Luz do Mundo


Tal obra ocupa todo o primeiro pavimento da torre, à caminho do olho. Ela conta com uma projeção de video em uma parede branca, um painel com módulos retangulares com lâmpadas centralizadas nos mesmos e um painel de espelhos. A cor predominante é o vermelho. Os visitantes podem interagir com a instalação. Não são muitas as pessoas que param para observá-la, se comparado ao número de visitantes que despendem demasiado tempo na visita ao olho. Alguns acabam sem saber dessa obra, por escolherem usar o elevador em detrimento das escadas, fato recorrente em outras exposições que ali foram montadas. Também não há muita sinalização quanto a essas obras que ocupam a torre, o visitante muitas vezes não tem certeza se há algo sendo exposto na torre ou não, o que pode justificar a priorização pela escolha do elevador.

O público pode participar ao movimentar-se ao longo da sala, fotografar ou filmar os efeitos que a obra proporciona, seus reflexos, as projeções em seu corpo; são coisas tão corriqueiras quanto o que a artista quis propor com a utilização de tais materiais. Um ponto positivo seria o fato de que esta instalação não sofre interferência de outras obras, como o que acontece no olho, onde há muita informação a ser processada pelo observador, as obras estão próximas e mais propícias à comparação.


REFERENCIAS http://bienaldecuritiba.com.br/2015/wp-content/uploads/2015/08/Luz-do-Mundo.pdf http://bienaldecuritiba.com.br/artistas/eliane-prolik/ http://www.online-instagram.com/media/1096605381928071281_377036707 http://websta.me/p/1111953046550798478_13261207

Imagem projetada Dependendo do tempo de exposição da camêra fotográfica, e o movimento realizado pelo fotógrafo, o efeito conseguido aproxima-se muito das luzes urbanas noturnas, tem-se a sensação de velocidade, remete-se muito ao movimento dos carros numa rodovia, a agitação da cidade grande. O público, com suas câmeras, pode transformar a obra a seu gosto, mostrar seu ponto de vista, os diversos pontos de vista que uma única ideia pode criar.


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