Memรณrias da Vila
Histรณrias dos moradores da Comun idade da Serra
Guil herme Cun ha
Joana Tavares
2015
Índice
006
008
Prefácio
Floriscena Estevam Carneiro da Silva e Margarete Leta Por um poética da convivência,
por uma política dos encontros
Guilherme Cunha 016
Essa história não é de uma pessoa só.
Essas histórias não são de uma pessoa só.
Joana Tavares 020
Adão Alexandre
024
Adelita Ferreira Neves
022 028
030 034
038 042
044 046
050 052
054 056
058
060 062
064 068 076
080
082
086
088
Adélia Higino de Souza e Firmino Higino de Souza Adilson Gonçalves de Jesus Aguinaldo Antônio dos Reis
Ailton Flávio de Souza e Maria Alves de Souza Alda Lúcia da Silva Gonçalves Ana Francelina
Ana Pedra Batista Dias e Carmen Batista Dias Anacleta Alvarenga André Viana Costa
Antônia Francisca dos Santos Antônio Lucas de Oliveira
Cacilda Cândida de Oliveira e Geraldo Francisco de Oliveira
Clemência Rodrigues dos Santos e Clemente Rodrigues Vieira Geraldo Alcântara de Jesus Geraldo Vito
Gerosina Barbosa dos Passos
Gerosina de Souza Meira e Natalino José Gomes Ilda Sotéria Marta
Inácio Gomes de Oliveira Isaías Soares da Silva
João Batista Alves da Cruz
Joaquim Barbosa Ramos de Oliveira
092
José André dos Santos
096
José Paulo de Oliveira
094
098
100 102
106
108 110 112
114
118
120 122 126
128
130 132
136
140 142
146 152
154 156
160
José Crispino e Maria das Dores Domingo da Silva José Pereira Cardoso José Profeta da Luz
José Timóteo Severino
Lourdes Pinheiro dos Santos Luiz Barbosa dos Santos Manuel Ferreira da Silva Manuelina de Jesus Marcelino Cardoso
Maria da Conceição da Silva e Carlos Roberto da Silva Maria da Conceição dos Santos
Maria da Conceição Jordão Ribeiro Maria da Conceição Santana
Maria das Graças Vieira e Eupídio Brás Vieira Maria de Lourdes Souza de Oliveira
Maria dos Anjos Oliveira de Carvalho
Maria dos Reis Marciano e Durvalino Quaresma Marciano Maria Lopes Monteiro
Natalino Leôncio de Lima
Nelson Pereira de Souza e Aliria Ferreira de Souza Pedro Paulo da Silva
Regina Neves de Freitas
Rita de Souza Vieira e Nadir de Souza Vieira Rosa Maria da Silva
164
Santa Maria de Sá
169
Tarcísio da Cruz
171
Terezinha Rodrigues Ramos
168 170
172 174
178
182
Sebastião Rodrigues e Andrades
Terezinha Lopes
Videlina Antônia de Andrade
Vilma Maria de Jesus e Antônio Guimarães dos Santos
Zelita Francisca do Amaral
Zulmira Florentina de Jesus Santos
Prefácio Floriscena Estevam Margarete Leta
Pensar a Comunidade da Serra, em sua origem ou em suas origens, falar sobre ela e mais, escrever sobre ela, é mais que um exercício de resgate da memória desse lugar, é uma exercício de resgate da memória dessa capital, desse país. É um resgate de uma história que se confunde e
se completa com tantas outras histórias, com tantas outras cidades, com tantas outras vidas.
Pensando nisso foi que começamos a escrita desse pré-texto que, pretensamente, isso mesmo, pretensamente, pretende iniciar um livro que, sem nenhuma pretensão, há de mostrar com suas próprias palavras e imagens a que veio.
A Comunidade da Serra, como a maioria, senão todas as existentes nesse país, foi relegada à
própria sorte (ou azar) e à sua própria história, sendo que esta última é tão viva e latente que, mesmo não estando escrita nas “escrituras oficiais”, continua existindo e insistindo em existir
e coexistir com a história oficializada, registrada nas bibliografias, contada e recontada pelos
senhores do saber e da cidade.
Esses senhores não conhecem as histórias de trabalho das donas Ildas, de construção e au-
toconstrução da casa dos senhores Durvalinos, das donas Aldas e da boa criação e educação que deram aos filhos e netos, das donas Zelitas e suas pelejas e lavagens de roupas na mina.
Não sabem que todas essas histórias sempre vêm e vão perto das águas, águas fartas na
Comunidade. Água que sempre escoou e serviu generosa à sua população. Água que, quando
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vinha de cima, derrubava até os barracos; mas que, se era de baixo, garantia a vinda e a vida de muitas famílias que fugiram da roça para cá em busca de condições mais dignas de trabalho, de moradia, de vida.
Pessoas que não precisaram de instrução formal e sistematizada para saber a importância de
cuidar das águas que lhes servia em tudo, cuidado esse que se perdeu muito por conta do próprio poder público, o primeiro a poluir as águas da Comunidade. Essas pessoas também têm a
consciência de que eram exploradas, de que sempre foram exploradas, de que trocavam o único bem que possuíam por migalhas para comer e choças para morar “de favor”; e de que, antes mesmo de nascerem, já serviam a algum senhor.
Bom saber que, diante de tantos senhores que a vida lhes apresentou, também foi ela generosa
em colocar-lhes no caminho pessoas tão especiais e sensíveis como Guilherme e Joana. Que
escolheram não explorá-las, mas conhecê-las. Que entraram em suas casas, em suas vidas e em suas histórias que, para além da foto e da voz, lhes garantiram o direito de eternizar, nesse belíssimo trabalho, suas experiências de vida e de mundo.
Não podemos encerrar esse prefácio sem agradecer ao Guilherme e à Joana pelo convite
para partilhar a escrita e aos moradores da Comunidade da Serra pela convivência, por compartilhar conosco um pouco de suas histórias, memórias e toda a beleza que carregam na
face e no coração.
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Por um poética da convivência, por uma política dos encontros. Guilherme Cunha
Os costumes, tradições, expressões sensíveis e memórias de um povo são elementos que servem de base para formação de sua identidade cultural coletiva. Uma sociedade tende a possuir tantas identidades culturais quantos forem os grupos sociais que dela fizerem parte. O fato de
os habitantes de uma nação dividirem um mesmo território, idioma e apresentarem certos as-
pectos culturais em comum não significa que compartilhem uniformemente das mesmas ori-
gens, hábitos e referenciais.
São múltiplas as realidades que se interseccionam e dividem, numa sociedade, o mesmo espaço de tempo, apresentando simultaneamente formas variadas de organizar pensamentos, explicar a natureza da vida e compreender os fenômenos. Essas muitas maneiras de perceber, sentir e experienciar o mundo podem conviver, complementar-se ou apenas coexistir. Nada indica que a relação entre elas deve ser necessariamente antagônica. A presença de uma não implica na
extinção da outra.
Nem todos os grupos sociais, porém, encontram o mesmo espaço de reconhecimento, legitimação ou representação político cultural nas sociedades. Historicamente, aqueles que detêm
maior concentração de poder, seja político ou financeiro, se utilizam dessas vantagens e influên-
cias para impor valores particulares à estrutura social. Através de canais de produção e distribuição de conteúdo, da formulação de leis proibitórias e da elaboração de mecanismos restritivos
dos direitos a bens públicos ou privados, oferecem resistência à presença de tradições, costumes, hábitos, religião e de manifestações criativas, como a música, a literatura e a arte de outros
grupos que não se alinham com seus interesses imediatos. Esses grupos passam a ser, muitas
vezes, alvo de marginalização, preconceito e perseguições.
As sociedades não são fenômenos naturais, muito menos são geradas espontaneamente. São construções humanas, criadas a partir de forças imaginativas e concretas: ideais, princípios e
valores que organizam projetos de poder e governo, suas diretrizes e prioridades. Os modelos de sociedade são reflexos de forças culturais e ideológicas utilizadas para justificar o estado das coisas, as relações de causalidade e a própria condição humana.
No entanto, esse conjunto de noções e regras que atua como convenções sociais e dispositivos
de controle é incapaz de contemplar de forma justa, igualitária e solidária as características e ne-
cessidades dos vários grupos sociais que partilham um mesmo território. Ele atende secularmente
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a interesses localizados e se empenha fortemente para perpetuar sistemas de manutenção do poder e privilégios, em detrimento do bem-estar de toda uma coletividade.
Assim como construímos os modelos de sociedade, também fabricamos sistemas de seleção,
edição e organização de acontecimentos, utilizados para legitimar versões e pontos de vista sobre fatos históricos. Privilegiar a visão de mundo de um grupo social em prejuízo do outro, eleger uma versão dos fatos para representar todas as outras versões, mesmo que estejam em relação
de oposição entre si, é também uma forma de exclusão e de violência simbólica.
Quais os critérios utilizados para eleição dos fatos que entrarão ou serão deixados de fora dos autos da história? Como e por que certos aspectos das várias identidades culturais que coexistem
e são parte de uma mesma sociedade forçosamente são apagadas dos processos de formação dos imaginários coletivos? Sobre qual referencial essas narrativas estão sendo elaboradas? Quais exemplos de vida e personagens terão seus feitos replicados ao longo de gerações como modelos
de conduta? A edição e reordenação de acontecimentos históricos baseadas na omissão de informações e ocultação de motivos podem, sem muito esforço, fazer do terrorista o herói e vice versa.
Os sistemas educacionais também podem ser incluídos entre as ferramentas utilizadas para manutenção do poder e controle social, visto que a “história oficial” é frequentemente apresentada
sob o ponto de vista das elites políticas e econômicas que controlam a distribuição da informação
e conhecimento numa determinada época. A questão é que todos temos versões sobre a realidade e histórias para contar. A omissão, nesse contexto, é uma forma de indiferença, e a segregação é um sinal de desinteligência, ambos contrários à objetividade crítica e ao espírito de fraternidade.
Muitas “não verdades” persistiram por gerações infiltradas no cenário social como espécies de
senso comum dissimulado, influenciando a maneira como lidamos e nos relacionamos com as diferenças, provocando a estigmatização e a distorção da imagem de culturas tradicionais.
A naturalização da desigualdade social, da discriminação e a marginalização da pobreza são exemplos de alguns dos maiores entraves para a realização de avanços e desenvolvimentos no campo
sociopolítico do país. São visões que deformam os sistemas democráticos e provocam a inversão
dos princípios, valores e prioridades do Estado que, desconectado de sua função primordial, pas-
sa a negligenciar o bem-estar social de toda a população.
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O texto da Constituição de 1988 estabelece como primeiro objetivo fundamental da República
Federativa do Brasil “construir uma sociedade livre, justa e solidária.” Ele aponta, ainda, como dever
do Estado garantir aos cidadãos “direitos sociais, como a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma dessa Constituição.”
Os direitos sociais de um cidadão não podem, portanto, ser tratados como objetos de privilégios, concessões aleatórias ou permutas interesseiras. Os diretos sociais são os pilares do sistema
democrático; são invioláveis, intransferíveis e inatos, mas a distância abissal entre o texto e a vida ainda é fatal no Brasil.
As predileções arbitrárias ou subjetividades de uma única camada social não podem se transformar no regimento interno de uma nação. A regra do jogo deve sempre valer para todas as partes
em campo. De outra forma, o jogo estaria comprado, e um dos lados, consequentemente, sairia em desvantagem.
Entre os bens que se somam ao patrimônio material e imaterial formador das múltiplas identidades culturais brasileiras está incluída a história das cidades, que precisa estar vinculada a origem das vilas e favelas.
As cidades são territórios em que se concentram as relações humanas, evidenciam-se as dispari-
dades sociais e se escancaram as reais prioridades do Estado. Numa sociedade com graus acen-
tuados de hierarquização e desproporcionalidade de acesso a bens públicos e privados entre as classes, esses ambientes se tornam terrenos de disputas espaciais e simbólicas. i
O registro das práticas de segregação étnico sócio espacial em Belo Horizonte remonta a épocas
anteriores à inauguração da cidade em 1897. Planejada para ser o centro político administrativo
do Estado de Minas Gerais, na planta original do projeto não estava previsto um local definido para
abrigar a classe trabalhadora, operários e suas famílias que chegavam do interior e de outros es-
tados para o início das obras. No ano de 1895 já havia dois núcleos de moradia popular privados de urbanização na cidade: Alto da Estação (Santa Tereza) e Córrego do Leitão (Barro Preto). ii
As famílias dos trabalhadores que atuavam nas obras eram manejadas de acordo com a conveniência do poder público. Enquanto ofereciam a força de trabalho necessária, suas presenças eram
toleradas e até estimuladas nas imediações das regiões centrais. Encerrada a demanda, eram despejadas para locais periféricos com pouca ou nenhuma urbanização e baixo valor de mercado.
Desde então, quando foi registrada a primeira ação de remoção oficial de famílias de áreas centrais
da capital mineira, em 1902, por motivos “urbanísticos” - para não dizer “cosméticos”- , a apresen-
tação de resoluções sobre a questão do direito fundiário, do acesso a bens públicos e privados nas cidades, do uso comum do território urbano e da efetivação de mecanismos para controle e
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regulação da especulação imobiliária vem sendo protelada, afetando sobretudo a qualidade de
vida e o bem-estar social dos milhares de cidadãos e cidadãs moradores das vilas e favelas.
Os danos só não foram maiores graças às lutas e às reivindicações promovidas por movimentos populares e sociais, ligados às associações de moradores de favelas que surgem em Belo
Horizonte a partir da década de 1940. Esses movimentos foram fundamentais para o desenvol-
vimento de políticas sociais, sensibilizando os governantes sobre a urgência da implantação de
programas de garantia de direitos e de urbanização das regiões ocupadas, importando soluções,
propostas e fazendo pressão para a diminuição da desigualdade sócio-econômica diante da inabilidade do Estado em atender às necessidades mais básicas dessas populações.
A relevância humana e a importância histórica dos exemplos desses moradores pioneiros das vilas e favelas, como representantes das lutas pela igualdade de condições e garantia de direitos
constitucionais, fazem de suas memórias parte indissociável dos elementos formadores da iden-
tidade coletiva, cultural e sociopolítica do país.
Esse patrimônio de vivências, conquistas e aprendizados coletivos não pode e não deve passar
em branco nos autos da história. O esforço para a construção de imaginários menos excluden-
tes e tendenciosos, que contemplem uma perspectiva ampliada mais heterogênea e lúcida sobre as realidades presentes na sociedade, é uma iniciativa que deveria ser de interesse público.
Principalmente vinculada aos processos de formação na base do sistema educacional. É fundamental proporcionar ao indivíduo que está constituindo sua identidade, buscando referências e instrumentos críticos para lidar com o mundo a sua volta uma visão menos unilateral, distorcida e
míope do modelo de sociedade no qual está inserido.
Memórias da Vila – Histórias dos Moradores da Comunidade da Serra é uma ação poética e também política, desenvolvida a partir de uma série de encontros com os moradores das diversas
vilas e favelas localizadas na região Centro Sul da cidade de Belo Horizonte que tem por objetivo contribuir para a ampliação dos espaços de divulgação e preservação das identidades e valores culturais dos moradores da Comunidade da Serra.
A região, onde hoje moram mais de 55.000 pessoas, numa área equivalente a quase 1.500 km2 , é
resultante da expansão populacional e territorial de vilas menores que surgiram na encosta da Serra
do Curral, a partir de 1914, segundo relatos dos moradores: Vila Santana do Cafezal, Nossa Senhora
de Fátima, Nossa Senhora Aparecida ou Pau Comeu, Del Rey, Igrejinha, Arara, Favelinha, Chácara,
Pocinho, Fazendinha, Marçola ou Cabeça de Porco, Primeira, Segunda e Terceira Águas, entre outras. Há 17 anos tive a oportunidade de passar a conviver mais frequentemente e a ter acesso mais
direto às realidades enfrentadas pelos moradores da Serra, por intermédio da AECS – Associação
Espírita Christopher Smith, que realiza trabalhos de assistência social e espiritual na Comunidade, desde o início da década de 1980.
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Muitos foram os exemplos de bravura e dignidade frente às dificuldades e restrições que pude
presenciar ali. Tive a honra de conhecer almas nobres e indivíduos verdadeiramente ilustres que,
diante da privação de seus direitos, da indiferença e frente ao preconceito, não se curvaram e nem
abriram mão de sua integridade. Não se abateram com a ineficácia e ingratidão do Estado; mos-
traram-se mais fortes, mais capazes, mais inteligentes e criativos do que os entraves a eles impostos. Quando os governos falharam, tiveram que construir seu próprio núcleo de soluções políticas, baseados, em sua maioria, na resistência solidária e no auxílio ao próximo.
Suas histórias de vida refletem diretamente as consequências do sistema político e modelo de sociedade que é privilegiado no Brasil. São relatos que expressam uma jornada
de coragem e de luta pela sobrevivência e, mais uma vez, pela igualdade de condições e
garantia de direitos.
Por quase um século, ao longo de três gerações, os moradores da comunidade reivindicaram sua
cidadania perante um Estado refratário e praticamente invisível. Batalharam durante anos a fio pela
abertura de ruas, pela regulamentação fundiária, pela construção de escolas, creches, serviços
de saúde, transporte e saneamento básico, rede de esgoto, pavimentação de ruas, coleta de lixo e instalação de rede elétrica, ou seja, nada mais do que a estrutura básica para o funcionamento de
qualquer bairro numa grande cidade.
Quando esses diretos lhes foram negligenciados, tomaram para si a responsabilidade de fazer a vez do Estado. Lembro-me do relato do Sr. Luiz Barbosa sobre seu amigo Antônio Tatu e a abertura
de uma rua na região da Chácara, que mais tarde seria batizada por eles com o nome de Rua União.
Por anos a Associação Comunitária reivindicou a abertura desse acesso. Chegaram a passar noi-
tes inteiras na porta da prefeitura e até sofreram repressão policial, quando tentavam deixar a passagem livre para os moradores: “Toda vez que a gente deitava a cerca que impedia a passagem
do povo, a polícia punha a gente no muro”, contou. Somente após doze anos de persistência, a
solicitação da comunidade foi atendida pelo poder público.
Esse é um de muitos episódios que demonstram as situações que os moradores dessa comunidade enfrentaram diariamente ao longo dos anos. O Direito Social não é um benefício ou uma regalia, é um dever do Estado.
Sr. Justino, por exemplo, um dos ex-presidentes da Associação Comunitária da Vila Santana
do Cafezal, contou, em certa ocasião, como eles mesmos tiveram que desobstruir os aces-
sos dentro da comunidade com tratores e até construir passarelas para garantir a mobilidade dos moradores do Cafezal. Numa conversa com Sr. Carlos Roberto, mencionou as
incontáveis vezes que, junto com vizinhos, improvisaram padiolas de tecido e sarrafos de
madeira para descer com pessoas doentes morro abaixo e tentar conseguir um transporte
mais perto do asfalto que os levasse até o hospital. As coisas ali foram feitas com muita fé e,
quando preciso, na marra.
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Os primeiros encontros com os moradores da Serra, visando à realização dessa publicação,
aconteceram no mês de abril de 2010. Com o retorno positivo que obtivemos, logo no mês se-
guinte a iniciativa já havia ganhado força e começado a se consolidar com a chegada do apoio da
Associação Comunitária da Vila Santana do Cafezal.
No dia 22 de maio desse mesmo ano, foi organizada na sede da Associação uma reunião para a
formalização do apoio ao projeto Memórias da Vila, na qual estiveram presentes 12 representantes da comunidade. Eram eles: Nadir Rodrigues Queiroz, presidente, Antônio Emiliano de Faria, vice
-presidente, Maria das Graças Dias, segunda Tesoureira, José Gabriel da Almeida, conselho fiscal, Epaminondas Viana Costa, conselho fiscal, Jose Timóteo Severiano, conselho fiscal, Durvalino
Quaresma Marciano, conselho fiscal, Idair Maria de Castro, conselho fiscal, Amélio Martins de Faria, Maria Geralda Ribeiro de Souza e Antônio Aleano Barbosa, membros da Associação e Lúcia Pereira, moradora local que na época nos auxiliou a fazer os primeiros contatos.
Inicialmente iríamos realizar um trabalho fotográfico junto aos moradores, mas, com a entrada da
jornalista Joana Tavares no projeto, no final de 2012, as imagens ganharam voz. Daí em diante, ela
passou a produzir os textos, e eu fiquei responsável pela produção dos retratos.
Para muitos não foi fácil revisitar certas situações do passado. Apesar disso, as conversas corriam sempre num clima de muito desprendimento e generosidade. Do fundo de suas memórias, os
moradores falavam de seu passado, dores, vontades, conquistas e alegrias, sempre agradecendo
a Deus pela vida, pelo sol que se levanta todos os dias, pelos filhos, pelas mães e pais, irmãos,
vizinhos e amigos. Como eles mesmos dizem: “ as coisas hoje estão bem melhor, mas já foi muito mais difícil.” O mérito, no entanto, pelas melhorias conquistadas na comunidade não é de ninguém mais do que deles próprios.
Recordo-me ainda de uma senhora que encontrei, enquanto subia a ladeira da rua Acidental, entre
uma sessão de fotos e outra, ter apresentado espontaneamente a necessidade de compartilhar
suas experiências, como se estivesse em busca de uma testemunha para dividir sua realidade. Ela
não mencionou seu nome e nem voltou depois para participar do projeto, só me parou e desaba-
fou de forma bem direta, dizendo o seguinte: “Sabe, meu filho, passamos aqui tempos difíceis. Já tive até que fazer mingau de jornal para dar pros meninos comer. Teve época de não ter nada em casa. Não podia deixar eles com fome.”
São histórias duras para quem ouve, mas ainda mais duras para quem as viveu ou ainda as vive. Por esse motivo, o processo de produção dessa publicação foi orientado muito mais por uma
poética da convivência, do compartilhamento de experiência de vida e por uma política dos en-
contros - na intenção sincera de conhecer o universo do outro como sujeito, de se abrir para
outras sensibilidades, de ouvir histórias a partir do desejo de quem as contam - , do que pela
preocupação ou pretensão de organizar, explicar, formalizar e elaborar teorias sobre o modo de
vida dessa comunidade.
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Tínhamos em mente, durante todo o processo de convivência mais intensa com os moradores da
Serra, que não estávamos ali lidando com um “assunto” ou “objeto de pesquisa”, mas com vidas
humanas, com a intimidade e a confiança de toda uma comunidade e, portanto, foi necessário uma abordagem e postura de trabalho diferenciadas, para além dos postulados estéticos. Para
ouvir, foi imprescindível calar; para aprender, foi necessário reconhecer a própria ignorância e , para conviver, foi preciso existir em comum com o outro. Essa foi a nossa metodologia de trabalho.
Ao longo dos últimos cinco anos, conversamos com centenas de pessoas, e a demanda de produção que encontramos superou em muito o alcance e possibilidades de realização imediata do
projeto. Reunindo um total de 22 relatos escritos e pouco mais de 80 imagens, entre retratos e ar-
quiteturas, essa publicação apresenta uma amostra do enorme patrimônio coletivo de valor inestimável, latente nas lembranças e vivências dos moradores da Comunidade da Serra.
Ainda fortemente marcada por várias modalidades de segregação – étnica, racial, espacial, social econômica e cultural – nossa sociedade, em processo de amadurecimento, avança lentamente rumo ao compromisso de construir uma estrutura de poder menos hierarquizada, mais
solidária e capaz de apresentar condições mais homogêneas de estímulo ao desenvolvimento das individualidades que dela fazem parte.
As sociedades são estruturas orgânicas em transformação contínua, são sistemas mais ou menos moldáveis e passíveis de desenvolvimento e melhoramentos sociais.
A permanência das convenções que governam imaginários e se impõe para cada um de nós como a “realidade” está sujeita a atitudes passivas ou ativas diante do conjunto de noções que
sustentam, aos efeitos do tempo, ao adiantamento das ciências, ao surgimento de novas ideias e abordagens, ao desenvolvimento humano e a alternância dos poderes.
O surgimento de novas ideias provoca o despertar de novos sentidos, valores, princípios e perspectivas. Exigem a elaboração de conceitos para acomodar as novas formas de sentir e perceber
o mundo. Apontam, também, outras possibilidades para se organizar e distribuir poderes e os recursos resultantes dos esforços coletivos.
As ideias carregam pensamentos, os pensamentos expressam noções e valores que definem as prioridades, tanto na escala coletiva, quanto na pessoal. As prioridades organizam as relações de importância, o tempo e os espaços, as forças e os poderes sociais. Tudo no mundo humano é
aprendido. Natural são apenas as “palmeiras onde cantam os sabiás.” A condição social solidária
depende do nosso esforço e habilidades, da sensibilidade e da inteligência.
“Toda ideia nova forçosamente encontra oposição e nenhuma há que se implante sem lutas. Ora, nesses casos, a resistência é sempre proporcional à importância dos resultados previstos, porque, quanto maior ela é, tanto mais numerosos são os interesses que fere.” iii
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Esse é o ponto delicado da questão que viemos tratando. Chamamos atenção para necessidade
da instauração de processos de formação que dissolvam as desinteligências da segregação, expondo mais amplamente as consequências e impactos do modelo de sociedade vigente, incluin-
do na organização de seus conteúdos visões e versões da realidade apresentadas por diferentes
grupos sociais, suas vivências e memórias.
Não vemos ainda incluída nos sistemas de formação a ênfase histórica sobre as populações das vilas e favelas, sobre os movimentos sociais e suas lideranças. Precisamos aprender com
os que resistiram, com os que não sucumbiram calados diante das dores e injustiças do mundo. Precisamos de exemplos de coragem e força. Passou da hora de se extinguir a submissão diante
dos lobos em peles de cordeiros, das figuras que se destacam pela violência e pelo medo que impuseram à população que governaram, posando de salvadores de nações.
Enquanto as diversas classes sociais e suas versões das histórias não estiverem igualmente representadas nos planos de ensino das massas, o gesto discriminatório estará, de alguma maneira,
sendo justificado pelo próprio Estado e pelo sistema educacional. Ensinamos errado as relações de importância que atuam na formação das sociedades.
Ante todos os sistemas e filosofias, modelos de governo e tecnologias sociais, suas restrições
falhas ou sucesso, uma verdade se impõe: a vida é um bem inestimável, e as pessoas são o maior patrimônio das sociedades.
Essa publicação se propõe, portanto, a promover encontros e o contato entres as múltiplas sensibilidades, aproximar realidades, multiplicar as trocas de conhecimento e alertar para a urgência
de se trabalhar o entendimento sobre nossas identidades coletivas de forma menos unilateral e
tendenciosa. É uma obra que ativa, dessa forma, um campo de permuta e intercâmbio entre vozes e olhares, memórias e vidas.
Encerramos essas reflexões introdutórias com extremo sentimento de gratidão pela generosida-
de espontânea com que fomos recebidos pelos moradores da Comunidade de Serra e pela opor-
tunidade que nos foi dada de conviver e aprender com todos eles.
i
LIBERATO, Rita Cássia. Cidade e Exclusão. O lugar de moradia dos excluídos. O caso de Belo Horizonte. 2009
ii
GUIMARÃES, Berenice Martins. As favelas da Região Metropolitana de Belo Horizonte: desafios e perspectivas.
XVI Encontro Anual da ANPOCS — 20 a 23 de outubro de 1992 iii
KARDEC, Allan. O Evangelho Sengundo o Espiritísmo. 131ª. Ed. — Brasília: FEB, 2013. 286p.
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Essa história não é de uma pessoa só. Essas histórias não são de uma pessoa só Joana Tavares
Uma vez uma amiga, de história muito parecida com todas essas que estão neste livro – e parecida com tantas outras que ficaram por ouvir – , disse que existe uma grande diferença entre
pobreza e miséria. Não é uma frase simples, e é importante ouvi-la com calma. A repetição
de tantas histórias, com começos, meios e fins tão dolorosamente parecidos, já é um sinal
de que, para além de situações individuais, não podemos esquecer o contexto em que essas
vidas se constroem.
As histórias de miséria são muito duras. Não ter o que comer, o que vestir, ver a família com
fome, não ter acesso a estudo, saúde, saneamento. A maioria das pessoas retratadas aqui passou por isso. E talvez ainda passe.
Elas fazem parte da história não só de Belo Horizonte, mas de Minas Gerais, do Brasil e da
América Latina. Nossos lugares foram forjados na exploração de grande parte de sua população. Apesar de tantos esforços teóricos e práticos em se construir uma identidade como povo, ainda é uma tarefa incompleta traçar e contar – para ser possível transformar – as inúmeras
maneiras como grande parte das pessoas foi explorada, submetida, violentada e invisibilizada. As favelas são uma das consequências do êxodo forçado do meio rural. Construídas pelos
próprios moradores à margem das cidades ditas oficiais, são geralmente espaços de resis-
tência, de sobrevivência e, claro, de construção de afetos. No caso da Comunidade da Serra, a maior de Belo Horizonte, apesar de sua proximidade do Centro, é muito recente a presença
do Estado. Como conta seu Nelson, um dos entrevistados deste livro: “Naquela época, em 79, qualquer favela era desorganizada, tudo era ruim mesmo. E a gente, todos que entraram em
favela, veio do interior”.
A questão da água talvez seja a mais simbólica. A Serra, vizinha da Serra do Curral, tem inúmeras
nascentes. E seus moradores – principalmente os mais antigos – ainda têm o costume de nomear as vilas pela localização dessas minas: Primeira Água, Segunda Água etc. Mas água encanada, só
depois da década de 80. Até lá, era muita fila no canão e caminhadas longas com bacias na cabeça.
Luz elétrica também demorou, assim como calçamento, construção de escolas e transporte.
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No entanto, pensar apenas no contexto – a pobreza no meio rural, a sistemática exclusão
dos camponeses do acesso à terra, a falta de estrutura nas cidades, os trabalhos mal remunerados e a ausência do Estado para prover o básico para a dignidade humana – pode nos afastar terrivelmente das pessoas reais.
Ouvir essas histórias é conhecer um pedacinho da história de nossa cidade e sociedade. É um exercício de alteridade diferente do jornalismo puro e simples, e foi um desafio imenso tentar fazer caber aqui parte dos relatos que recolhemos. Por isso a escolha em
tentar manter o registro o mais próximo possível do jeito de falar das pessoas, com o risco sempre presente em parecer desrespeitoso com a riqueza expressiva de cada um.
A intenção foi fazer o mínimo de mediação possível, para que essas vinte e duas pessoas que contam parte de suas histórias aqui possam fazê-lo para todos que estão lendo este
livro. Mas é claro que isso é praticamente impossível e ficam registrados o desejo e o fra-
casso, além do pedido para que todos se abram para ouvir, para que imaginem aquilo que
não foi dito, para que se aproximem dessas pessoas que têm tanto a dizer e que falaram
tão pouco nos canais oficiais ao longo da história.
Sou jornalista há mais de dez anos e sempre trabalhei com comunicação popular, junto a movimentos sociais. Passei toda minha infância em um prédio a dois quarteirões da
Comunidade da Serra e me sentia, de alguma forma, muito próxima às suas inúmeras vilas, histórias, sons. Assim, fiquei muito feliz com o convite do Guilherme para fazer parte
desse projeto. Mas confesso que achei que seria mais fácil. Como a ideia era recolher relatos de pessoas mais velhas – justamente na tentativa de preservar a memória – os
depoimentos são muito fortes, de tempos que parecem ainda mais duros do que o atual. Em todas as entrevistas, senti uma admiração crescente pela garra e dignidade das pessoas, mas também uma compaixão indignada: como aceitar que tão perto, tão hoje, tão aqui, se desenrolem tantas batalhas pela sobrevivência, tanta luta apenas para garantir o
elementar direito de existir?
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Muitas vezes me veio o sentimento de revolta. Mas é preciso reconhecer essa imensa coragem:
quase todas as pessoas escolheram romper com um destino de miséria, de repetição da história de vida de seus pais e apostaram no novo, no valor de seu esforço e de seu trabalho para
construir outra forma de passar os dias. O direito ao sonho, a querer fazer diferente e a acredi-
tar que é possível não lhes foi arrancado. São escolhas individuais marcadas por um contexto coletivo de exclusão.
É difícil resistir ao pensamento vitimizante, mas é absolutamente preciso. É verdade, profunda
e cruel verdade, que essas pessoas enfrentam, cotidianamente, um absurdo de dificuldades
para manter a vida. E ainda se esforçam para que essa vida seja digna, para que os filhos tenham mais e outras chances. Para que caiba ainda a ternura, o amor.
Chama muita atenção, no entanto, o grau de violência, especialmente em relação às mulheres,
vinda de dentro de casa. O casamento, muitas vezes, não é o do padrão romântico. “Eu era escrava do meu marido”, resume dona Santa, um dos depoimentos mais fortes que colhemos. Ou
o caso de dona Gerosina, que ficou mais de 30 anos com um homem de quem nunca gostou.
As mulheres passam por muitas outras dificuldades além dessas. Trabalham duro em casa e
garantem a criação dos filhos. Suportam ainda a invisibilidade de tanto esforço. Mas, ao mesmo
tempo, carregam com doçura e força seu cotidiano e seguem construindo suas histórias. E se
rebelam, como dona Videlina, que diz: “Homem pisando na minha garganta pra mim não dá não”.
Apesar do contexto pesado, essas histórias e vidas não são tristes. Além da coragem, a beleza
está em cada uma, e vale a pena conhecer não só o que está aqui, mas tantas outras histórias, de tantas pessoas, muitas vezes que estão perto de nós, mas a quem nunca dirigimos a
palavra. Fica o convite e o agradecimento a todos que conversaram conosco, por partilharem, com tanta generosidade e confiança, parte do que pensam. Aprendemos muito com elas.
Como nos ensinou o filósofo Nelson, mesmo sem talvez nunca ter ouvido falar em Sócrates:
“O que é mais necessário é a pessoa saber que não sabe. Infeliz da pessoa que não sabe que
não sabe”. No entanto uma coisa podemos saber: é preciso e possível mudar o contexto de
exclusão e opressão. A escuta e a memória são passos fundamentais nesse caminho.
18
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Adão Alexandre
25 • 02 • 1922
Mantena • MG
1970
21
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Adélia Higino de Souza
30 • 09 • 1928
São Manuel, Mutum • MG
1967
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Firmino Higino de Souza
19 • 04 • 1926 †
São Manuel, Mutum • MG
1967
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Adelita Ferreira Neves
09 • 05 • 1943
Almenara • MG
1964
25
Nome: Adelita Ferreira Neves
Nasci na Bahia, perto de Porto Seguro. Meus pais foram pra Almenara quando eu era pequeninha. Lá
a gente trabalhava era pros outros. Tinha lá esse rapaz que casei com ele, moramos em Valadares
cinco anos. Tivemos duas meninas. Elas eram pequenininhas, foram crescendo. Quando vim lá de baixo pra morar aqui, um homem sozinho e Deus fez essa casa aqui pra mim. Ele até já morreu. Nem porta tinha a casa. A dona ali de cima arrumou luz pra mim, água, até que eu me arrumasse. E meu neto pequeninho. Nem homem não tinha nem nada. Quem olha lá mais eu é Deus.
Meu esposo não tava morando comigo não. Ele botou outra mulher. Primeiro ele entrava em minha
casa. E eu ficava vendo eles lá. E eu sozinha. Meu neto menino tinha um mês de nascido. Quando minha filha acabou o resguardo, fomos pra Bahia passear. Falei: minha filha, lá em Belo Horizonte
tudo é mais fácil pra mim, pra zelar dele. Porque até vocês arranjar serviço aqui é mais difícil.
E eu voltei. Não sei se ele chorava alguma hora ou se era eu. Aí falava que era poeira, que era
cisco que caiu no meu olho. Mentira. Fica chorando, desaguando. Em tempo de cair com lata de água na cabeça e tudo. Fiquei dessa finurinha. Com dó do menino e da minha menina que tinha
ficado lá na Bahia. Já sofri nessa minha vida. Só Deus mesmo pra saber o que já passei.
Minha casa era de madeira. Ali embaixo era de madeira. E botava os trem tudo enfiado assim. Depois Deus me ajudou que ganhei a porta, janela eu não ganhei. Ganhei telhado. Essas telhas
tudo fui eu que ganhei. E fui ficando aqui.
26
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
09 • 05 • 1943
Almenara • MG
1964
Minha filha mandou carta que ela vinha chegando. Eu fiquei com alegria demais. Meu neto hoje tá com 27 anos, criado nas minhas mãos. Era pra ele me chamar de mãe, mas ele me
chama de vó. Mas era pra ele me chamar de mãe, porque ele é meu filho de criação e neto.
Ele e todo mundo sabe.
Ah, eu gosto daqui, só que quero arrumar, aumentar, mas não tem jeito. Desde o ano passado
que quero arrumar essa cozinha, rebocar, pintar e bater cerâmica, mas não tô podendo. O dinheirinho que eu ganho é só um salarinho só, é pouco. Não ganho dinheiro nenhum. Do meu marido que morreu não ganho nenhum centavo.
Passei cada coisa quando eu era mocinha e morava com meus pais no interior… Posso nem
alembrar o que nós passou na vida. Pegava aquele cacho de banana, verdinha, fininha, chega a estar com aqueles trem preto por dentro, pegava, punha sal e comia. Tinha vez que tinha
gordura, tinha vez que nem gordura não tinha. Nós comia. Feijão, nós botava no fogo, aquele
tiquinzinho no fogo. Nós deixava aqueles carocinho de feijão cozinhar dentro da água pra de
tarde. O caldo que tingia que tava cozinhando o feijão nós fazia pirão e comia com pimenta, sem gordura sem nada. Nós passou tanta necessidade, tanta fome na roça. Nós botava pra cozinhar aquela mandioca dessa finuritinha assim. Nem criava direito. Dava aquelas raizinha
nós já tirava e cozinhava. Massava assim e fazia um trem pra comer. Não sei como tenho força hoje. Tô com 72 anos e ainda tenho força.
27
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Adilson Gonçalves de Jesus
23 • 08 • 1962
Coronel Fabriciano • MG
1970
29
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Aguinaldo Antônio dos Reis
18 • 04 • 1959 †
Belo Horizonte • MG
1959
31
Nome: Aguinaldo Antônio dos Reis
Pelo meu levantamento, eu fui nascido na Santa Casa. E nascido e criado na Serra. Não conheci minha mãe e meu pai. Quem me criou já faleceu. Ela era doméstica. Minha mãe faleceu quando eu
tinha 15 dias de nascido. E pai não conheci.
Da minha infância, o que eu lembro era do campo de futebol, da minha escola, que eu gostava de
estudar. Depois a escola de música. Eu tinha de 12 pra 13 anos. Ficava na rua, pedindo pão velho, lavava carro. Lavava só as rodas, que era o que dava altura. Catava papel, catava ferro velho. Tudo
que aguentava eu carregava, pra vender pra arrumar dinheiro. Minha mãe não tava podendo trabalhar mais, a que me criou.
Desde criança, eu sempre gostei de som de instrumento. De contrabaixo pelo menos. Eu fazia
com a boca, dumdumdurudumdumdum. Eu ouvia uma música e ficava acompanhando. Aí na escola eu aprendi. Hoje eu arranho violão, arranho teclado... Tenho carteira de músico, estudei mú-
sica, sou da Ordem dos Músicos do Brasil. Eu só não tô frequentando mais e nem tô pagando.
Porque eu não tô tocando.
Eu aprendi a tocar na Fundação de Educação Artística. Eu tava pedindo pão velho, aí a dona falou
que ia me dar uma bolsa de estudos. A gente era criança, eu achei que ela ia me dar uma bolsa, né?
Mas era bolsa pra estudar lá. Foi onde eu aprendi música. Eu sempre gostei de contrabaixo, violão,
guitarra, esses negócios. Bateria também. Cada instrumento eu toco um pouquinho. Voz também, que lá tinha aula de voz.
Eu trabalhava como técnico em eletrônica. Comecei a aprender eletrônica limpando loja. Os
japonês deixaram eu trabalhar lá, mas eu já sabia mexer um pouco. Um dia saíram pra almoçar,
aí tinha aquele punhado de rádio. Quando eles chegaram, eu tinha consertado uns oito. Aí ele pegou e falou: “Não, agora você não vai fazer limpeza mais não. Agora eu quero que tu... Arruma
a mesa aí. Essa mesa agora é tua!”. Ele falava engraçado, né? “Agora você fica aí. E quando
Issan não tiver aí, aí você passa pra mesa dele”. Eu estudei também em escola fora daqui, por
correspondência.
32
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
18 • 04 • 1959
Belo Horizonte • MG
1959
Hoje continuo na mesma... De vez em quando toco em algum lugar. Mas agora não tô podendo
mais, porque a vista não tá legal. Eu não tô conseguindo mais ler igual lia. Já fui no médico várias
vezes, mas não tem, né? Eu adorava cantar e ler. Mas letra agora tem que ser maiúscula, porque
letra minúscula não dá pra enxergar mais não. Eu gostava de ler era música, mais música mesmo.
Mas lia livro também. A Bíblia. Não guardei nada na memória não, porque também não aguento. Mas na igreja também gostava de tocar.
A chuva derrubou um bocado de trem meu. Já perdi casa também, porque a chuva levou tudo. Teve
uma vez que a chuva levou toda a favelinha. Só sobrou a minha casa e outra, que era protegida. Ela era
alta, a água batia na parede dela, mas não deu pra derrubar. Os vizinhos todos desceram das casas.
Eu até ajudei a salvar um bocado de gente. “Ô fulano! Desce daí que sua casa tá descendo!” Eu tinha
até um rádio lá em casa, aí eu liguei o microfone e comecei a gritar, fui gritar naquele trem lá: “Gente!
Pelo amor de Deus! Vão saindo daí que a casa docês tá descendo aí, ó!” E a minha também, eu com medo... Mas a casa do vizinho que era alta protegeu a minha. Eu já sofri demais aqui.
Cada noite que eu tocava eu ganhava 50, 100 reais. Já cheguei a ter uma banda. A gente tocava
música dos outros e da gente também. Eu gosto mais de MPB. Eu gosto de muita música! Gal
Costa, Sandra de Sá... Samba. Eu gosto de quase todas as músicas. Só não sou chegado nessas coisas de funk, de rap. Porque isso dá muito esse negócio de droga. No samba pelo menos só rola
um goró, né? Aí uma pinga não faz mal pra ninguém não, bebe, fica bêbado e vai embora. Eu gosta-
va de James Brown. Eu dançava. Minha esposa dançava quando a gente ia no salão. Eu conheci ela no salão, ali perto do Sesc. Eu toquei lá mais de três anos. Eu toquei em várias casas aí no Centro.
Na rádio eu era operador de áudio, apresentador de programas. Eu fazia um programa de manhã, quan-
do o Misael [Avelino dos Santos, fundador da Rádio Favela] não tava... quando ele tinha que fazer gra-
vação pra outros lugares, eu ficava no lugar dele. Favela Super Popular, esses negócio aí. Aqui em casa
tinha vários programa. Eu sinto falta. Era um tipo de divertimento, né? Hoje eu fico mais quieto dentro de casa. Quando saio eu vou ali no barzinho tomar um refrigerante ou um troço qualquer. Quando eu não tô sentado mexendo com essas coisas aí... Eu ainda conserto, trabalho com aparelho de todo tipo.
33
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Ailton Flávio de Souza
11 • 12 • 1953
Aimorés • MG
1975
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Maria Alves de Souza
28 • 06 • 1959
Aimorés • MG
1975
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Ailton Flávio de Souza
11 • 12 • 1953
Aimorés • MG
1975
Cheguei aqui na Serra em 1973. Eu nasci no Espírito Santo, em Nova Venécia. Mas vim pra Minas
Gerais eu tinha menos de um ano. A gente veio pra Tabaúna, de Tabaúna a gente foi pra Serra do
Capim. Aí de lá que veio pra cá. Veio a família toda. Tem uma irmã que veio e depois voltou pro interior. A gente veio pra rua Nossa Senhora de Fátima, perto da Fazendinha. Ali a gente morou uns seis meses de aluguel.
Mas aqui, antigamente, a vida era muito penosa. Aqui não tinha nada, não tinha infraestrutura nenhuma, era tudo terra, uns barraquinhos de painel, maderite, essas coisas... Meu cunhado, que
trouxe a gente pra Belo Horizonte, fez um barraquinho no quintal dele, e eu mudei pra lá. Continuei
pagando aluguel lá com ele. Aí depois eu comprei uma área do Seu Dufino, quando Seu Dufino fez
o Cafezal. Seu Dufino ia tirar um terreno pra mim, não tirou, aí eu comprei. Fiz um barraco de tábua de madeira e aí a gente passou pra lá. Era eu, minha esposa e minha mãe.
Meu cunhado que teve a ideia de vir pra cá. Ele tava aqui há uns seis meses e foi pra lá pra chamar nós
pra vim pra Belo Horizonte, que aqui era melhor pra nós. Porque lá era muito ruim. Era pasto, bateção
de pasto ou plantação. Muito arroz, feijão, milho... Lavoura. Ele falou que aqui tinha muito serviço. E
tinha uma turma do nosso interior que já morava aqui. Incluindo o moço que arrumou o primeiro ser-
viço pra mim. Era muito diferente o trabalho da obra do trabalho da lavoura. E o clima também. Aqui
chovia seis meses. Belo Horizonte era muito frio na época. Eu trabalhava de 7 da manhã às 9 da noite.
E quase todo dia chovia. Era difícil demais, porque aqui era só terra, escorregava demais!
Era ruim por um lado e bom por outro, né? Porque naquela época não tinha essa drogaiada, essa
violência... E tinha muito serviço pra gente trabalhar também. Comparando, hoje tá mais difícil que
antes. Porque hoje tem muito serviço, mas a gente não pode facilitar com as coisas. Antigamente
você podia sair e deixar sua casa aí. Antigamente a droga que tinha era a cachaça. Quando falava
que fulano era maconheiro já era pra sair de perto. Hoje não. Hoje maconha é comum. Se a gente
fosse pessoa que mexesse com certo tipo de coisa, não tinha mais de 40 anos que tava morando na Serra não. Já tinham botado nós pra correr daqui.
Eu não tenho muita coisa, mas tudo o que eu tenho eu tirei daqui. Eu já tive muita oportunidade de
sair daqui, mas eu não quis. Aqui é perto de tudo, a gente já tá acostumado, já conhece todo mundo.
E meus filhos, todos nasceram no Hospital Evangélico. A família é toda daqui. Não tem nem porque sair. Isso aqui é fora de série. Quantas vezes eu fui daqui a pé no Centro, porque não tinha dinheiro?
36
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Maria Alves de Souza
28 • 06 • 1959
Aimorés • MG
1975
Até pela profissão da gente, aqui é melhor. Mas tem mais de 40 anos que tô aqui e tem coisa da
roça que a gente sente falta. A tranquilidade, os córregos pra pescar, tomar banho... O ritmo de vida
de lá é um, aqui é outro.
Eu conheci minha mulher porque eu trabalhava pro pai dela. Ele morava na roça mesmo. Ele
ia na cidade e chamava pra trabalhar lá por semana. Na época ela estudava ainda. Quando
eu casei, ela não tinha nem 15 anos. Teve que mudar a idade pra 16 pra poder casar. O pai
dela não sabia a idade que ela tinha. Naquela época, eu tinha que pedir pra alguém pra ca-
sar. Se eu chegasse direto no pai dela e pedisse pra casar, eu tava faltando com o respeito.
A pessoa que pedia pra gente casar era o padrinho de casamento.
A gente tinha conversado muito pouco. Eu pensei que ia ter que casar, que ela era uma menina boa, que eu conhecia a família toda, pai, mãe, avós... Pensei: vou namorar, se ela
quiser casar, eu caso. A gente praticamente cresceu junto. Aí a gente namorou um ano.
Com quatro dias de casado meu apêndice estourou. Viemos pra Belo Horizonte com dois mês de casado. A gente não tinha nada não. O que tinha metia num saco e trazia. A gente
só tinha a cara e a coragem.
No primeiro barraco que nós morou, cozinhava era atrás da casa. Não tinha fogão a gás. Minha mãe morava com a gente; nós três no mesmo cômodo. Eu trabalhava até 21h e minha mulher cuidava da casa e da minha mãe. Aí passou uns tempos e ela começou a
trabalhar de doméstica.
Eu trabalhei dois meses na firma e pedi pra ir embora, pra conseguir dinheiro pra comprar
as coisas pra casa, num topa tudo. Eles faziam leilão. Comprei um gás, um fogão e um ar-
mário. A gente comprava tambor de água e carregava. Quem tinha água vendia água pra
gente. Pra tudo, pra lavar a roupa, banho... E nessa época só tinha nós dois, não tinha menino não. Minha mulher buscava água lá no canão. Lavava roupa lá. Buscava água meia-noite, uma hora da manhã. Eu chegava do serviço oito, nove da noite e ia carregar água.
Tudo que a gente planejou a gente conseguiu. Coisa grande a gente não tem nem condições de planejar. A gente planejou ter um barraco, taí, tem que terminar, mas agora é só acabamento. E outro plano era ver nossos meninos criado. Graças a Deus, taí.
37
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Alda Lúcia da Silva Gonçalves
20 • 12 • 1950
Belo Horizonte • MG
1952
39
Nome: Alda Lúcia da Silva Gonçalves
Eu cheguei aqui na Serra há mais ou menos 52 anos. Eu nasci em Valadares, mas meus pais
vieram pra Belo Horizonte eu tava com um ano de idade. Já viemos pra Serra direto. Meus pais tomavam conta duma chácara que tinha na Terceira Água, e a gente morava lá.
Pra estudar a gente tinha que andar... Eu fiz jardim lá na Escola Estadual Benjamim Guimarães.
Aí depois fui fazer primeiro ano na Escola Pedro II, lá no Centro. Depois, tava muito longe, construíram a escola Augusto de Lima. E depois que eu já tava grande é que construíram o
Laura das Chagas e o Efigênio Salles. Posto de saúde não tinha. O hospital mais próximo era
o Hospital da Baleia. E a Santa Casa, onde a gente consultava.
Isso tudo era plantação de café. Puseram o nome de Cafezal por isso. A gente morava dentro
da chácara, porque meu pai tomava conta. Tinha o doutor Jaimes de Barros, que era dono.
Tinha bastante café, eucalipto, que o meu pai plantava pra ele. Meu pai mexia com roça. E
tinha criação de porcos. Era uma fazenda. Não tinha gado, né? Papai trabalhava com carroça.
Aqui não tinha nada, só muita plantação. A gente morava numa casinha dentro da chácara. Minha família era bem numerosa, éramos 12. Aí a gente foi crescendo, muitos casaram e a minha família mudou toda daqui da Serra. Só tem eu aqui.
Quando eu casei vim morar perto da minha sogra. Eu casei em 1968. Então, desde 68 que
eu tô aqui. Aqui chama ‘Matinha’ porque tem bastante mato. O único lugar de preservação, porque a gente tá sempre cultivando, sempre plantando. Tem muita árvore plantada pelo meu esposo, porque ele gostava muito de plantar.
Aqui começou a crescer muito devagar. Ônibus não tinha. Água também não tinha. Carreguei muita água na cabeça, buscando lá embaixo, pra baixo do Hospital Evangélico.
40
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
20 • 12 • 1950
Belo Horizonte • MG
1952
Lavar roupa a gente lavava lá, onde eles falam ‘canão’. A gente ia lá pra lavar a roupa. Foi muita dificuldade... Eu com bebê novinho, tinha que colocar menino de lado, bacia na
cabeça e, às vezes, quando a gente vinha com a roupa, a gente colocava uma lata assim, no fundo da bacia e punha a roupa ao redor da lata e já trazia a água pra poder chegar
em casa e fazer janta. Era muito difícil. Porque a gente chegava cansada, com a bacia
de roupa, e pra voltar lá embaixo pra buscar água de novo. Depois é que foi chegando a
água, aos pouquinhos. Aliás, eu fui uma das primeiras moradoras a ter água da Copasa.
Já tava casada.
Quando eu casei meus pais já estavam morando na rua Bandoneon. Eles construíram uma
casa. Quando era época de chuva, papai ficava lá sozinho, cuidando da criação, e a gente
ficava na casa, porque ficava muito difícil de ir pra escola. Quando era época de seca, a
gente ia pra lá, ficava lá com ele, e na época de chuva vinha pra cá. Todo mundo estudou. Eu não trabalhei na roça não, graças a Deus. Eu sempre ajudei dentro de casa. Minha mãe saía pra trabalhar fora, e nós éramos quatro filhas mulher. Meus pais não deixavam a gente
trabalhar de jeito nenhum! Só dentro de casa. Mamãe saía pra trabalhar e a gente ficava em
casa, cuidando. Depois a gente foi casando e cuidando de marido. Eu, graças a Deus, nunca trabalhei fora. Trabalhei assim, lavando roupa pros outros, mas em casa. Na minha casa.
Meu marido não deixava, dizia que a prioridade era cuidar das crianças, dos filhos. Tive 16
filhos. Todos vingaram. Faleceu um com 33 anos, Jeremias. E o Marcos morreu com 36. Meu tempo era só pra cuidar de filho. A única coisa que eu fiz foi obter filho. Meu marido era pedreiro, trabalhava em construção. Depois fiquei viúva.
Conselho meu é evitar violência, procurar o caminho que deve seguir... Porque eu, graças a Deus, tenho essa filharada, mas todos aos pés do Senhor. Não tenho do que me queixar.
41
42
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Ana Francelina
25 • 06 • 1906
São Vicente da Estrela • MG
1996
43
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Ana Pedra Batista Dias
24 • 03 • 1933
Acesita • MG
1964
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Carmen Batista Dias
11 • 03 • 1962
Belo Horizonte • MG
1964
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Anacleta Alvarenga
13 • 07 • 1935
Santa Efigênia • MG
1975
47
Nome: Anacleta Alvarenga
Cheguei aqui tem... 40 anos? Quarenta. Nasci em Ferros, de Ferros vim praqui novinha. Trabalhei
um tempo com a família do Eduardo Azeredo, depois comecei a criar os filhos. Nessa época, a
gente trabalhava e morava na casa das famílias. Eu tinha 23 pra 24 anos, era cozinheira. De lá que eu arranjei um casamento, casei mal, e vim embora. Vim sem nada.
Vim morar ali na Santa Tereza, na beira da linha. Eu tinha uma máquina de costura, empenhei na
Caixa Econômica, tirei o dinheiro e comprei umas telhas, uns painel e fizemos um barraquinho. O
marido tava pra Brasília, fazendo Brasília. Era candango. Eu fiquei trabalhando, mas aí ganhei filho,
ficou difícil pra mim. Ele, com a cabeça muito virada, nós não demos certo. Ele era desses homens que não queria muita responsabilidade, e eu não queria aceitar aquilo. Aí nós separamos. E ele foi embora; eu com cinco meninos. Fiquei no aluguel, o dono cobrando, e eu sem ter como pagar. Aí
fui para a Conferência São Vicente de Paula. Eu fiquei assim aérea; vim da roça com aquela criação. Não chegava perto de homem. Naquela época era tudo muito vigiado.
Ficamos sabendo que ia repartir terreno aqui na Serra. Aí ganhei um pedaço. Vim pelejando, fiz um quartinho, fui aumentando, até fazer. Aqui não tinha água, não tinha luz, era uma dificuldade
danada. A gente lavava roupa lá no canão. Muitas vezes, eu trabalhava varrendo rua e trazia água lá da Igreja do Carmo.
Foi difícil demais, porque a gente não tinha condições. Comecei a trabalhar fichada, mas pra tratar
dos meninos, o dinheiro era muito pouco, as coisas eram muito caras. Comecei a criar uns porcos.
Cada um que eu vendia me dava um dinheiro, aí eu pegava e fazia um pedaço da casa. Aqui era
puro mato. Olha como a vida mudou. Eu ia lá na Savassi pra conseguir duas latas de lavagem. Hoje, nessa esquina eu já tiro um monte de lavagem. Mas hoje ninguém quer criar, porque não tem mais
espaço. E também porque melhorou, todo mundo já tem suas casas. Naquele tempo era tudo casa de tábua, aqueles barracãozinho pequeninho, não tinha gás, não tinha nada. Hoje não, hoje tem
tudo. Melhorou pra todo mundo.
A minha casa era cheia de menino dos outros. Eu fazia um panelão assim de comida. E dava pra
todo mundo. Punha assim no chão naquelas baciinha de alumínio, punha pra todo mundo comer.
Todo mundo comia, todo mundo brincava. Tinha uma televisãozinha velhinha, eles assistiam. Agora todo mundo cresceu e tô aqui sozinha.
48
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
13 • 07 • 1935
Santa Efigênia • MG
1975
A mãe que carrega a cruz nas costas; ela é tudo, não tem ninguém pra pedir nada, não tem ninguém pra esperar nada, todo mundo espera só de você ali. Eles falam: ‘mãe, a senhora não adoece, nunca reclama de uma dor’. Eu levanto é cedo. Vou varrer o terreno, a beirada da rua, porque eu
tenho meus cachorrinhos. Tenho que varrer antes do sol. Eu acostumei com isso. Mas agora que eu tô mais triste que eu fico perguntando assim: por quê? É um destino que a gente tem, né?
Eu acho que é muito difícil quando é uma pessoa só. A família foi feita pra dois. Quando uma pessoa só cria, é muito difícil carregar a cruz. Eu sou mãe, sou avó. Nunca tive ninguém pra me ajudar com nada. Sete anos que vivi com homem, sete anos de sofrimento. Ele não pensava as coisas pra
gente. E eu sempre sonhando. O pior é que eu sou sonhadora, estou sempre querendo as coisas, sempre querendo melhorar.
Agora eu tô assim descaída, porque meu filho foi. Ele morreu no bar ali. Eu falava que ele tinha que
parar de beber, pra nós poder passear... Fiquei tão triste e depois percebi que estava ficando pinel.
A Catarina, que é uma moça nova, mas gosta de conversar com gente mais de idade, me levou pra
conversar com uma psicóloga. Estou me sentindo meio assim sufocada. Se eu continuar, vou ficar pinel. E eu não posso ficar pinel não, porque tenho que seguir em frente. Ela me passou quatro dias
de academia. Comprei minha blusinha branca, uma roupinha, um tênis, e lá estou até hoje. Faço minha hora de academia, venho, chego aqui, faço minhas coisas.
Meu sonho agora é acabar de fazer esse muro e ir passear. Curtir a vida. Mas primeiro vou fazer esse muro, que aí deixo minhas galinhas fechadinhas, meus cachorros. Pego minha carteira, vou
lá pra Itabira, na casa da minha irmã. Passear. Visitar minhas amigas. Não ficar chorando igual eu tô
agora. É porque tá recente, né?
Filho, cada um está cuidando da própria vida. A gente tem que cuidar da gente. Mas eu queria que
eles fosse igual eu: se eu não tô sentindo bem, eu procuro uma pessoa que posso conversar. Eu procuro ajuda. E eles não. Eu quero dar ajuda e eles não querem aceitar.
Eu já sou quase a mais velha daqui. E não tô nem aí. Oitenta anos e não tô nem aí. É só eu ter um
dinheiro e eu racho fora, vou passear, vou viajar. Eu preparo a cabeça, porque enquanto a minha cabeça tiver boa, eu tenho saúde.
49
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
André Viana Costa
30 • 11 • 1948
Almenara • MG
1976
51
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Antônia Francisca dos Santos
11 • 09 • 1929 †
Gov. Valadares • MG
1975
“Dona Tunica”
53
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Antônio Lucas de Oliveira
1929 †
Mantena • MG
1974
55
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradores desde:
Geraldo Francisco de Oliveira
07 • 09 • 1935
Mantena • MG
1974
Cacilda Cândida de Oliveira
11 • 12 • 1949
Carmésia, MG
1970
Eu cheguei aqui na Serra em 1975. Nasci em Carmésia, Minas Gerais, lá longe! Seis horas de via-
gem pra chegar. Lá que eu casei, tive minha menina mais velha e depois que eu vim pra cá. Meu
pai morreu quando eu tava com seis meses. Minha mãe Deus ainda deixou viver até eu casar e
ganhar minha menina mais velha.
Eu morava na fazenda. E aí eu já não tava mais dando conta de tanto serviço. Meu marido veio na frente, arrumou um barraco de aluguel aqui e mandou que eu viesse, vendesse as coisas lá e
viesse pra cá. Assim nós fizemos. Morava na fazenda eu, meu marido e minha mãe. Minha mãe morreu; aí ficou eu, meu marido e minha menina mais velha. Quando ela veio pra cá, ela tava com
um ano e seis meses. Na fazenda, o meu marido cuidava da roça e eu cuidava de tudo dentro de
casa. De tudo! Era porco, era boi... pro fazendeiro. Ele não pagava nada não. O que meu marido
fazia na roça era nosso, mas era só através disso aí. Não tinha salário, não tinha nada. Ele já conhecia Belo Horizonte, porque era corredor de trecho. Desde os 18 anos que ele corre o mundo.
Então ele conhece tudo.
Eu que não sabia o que era Belo Horizonte. Eu vim pra cá pra morar de aluguel. Enquanto tivemos
o dinheiro, a gente foi pagando aluguel e foi comendo. O dinheiro acabou, ele desempregado, pronto! Depois ele arrumou outro emprego, fichado, e a nossa vida melhorou da água pro vinho.
Mas nós ficamos no aluguel ainda. Depois apareceu um senhor lá em casa e ofereceu ali na fren-
te, no lixão, um barracão de tábua, trocando por um botijão e um tambor de pôr água. Aí a gente fez negócio com ele e veio pra cá.
Quase não tinha ninguém aqui não, nesse mesmo lugar que nós tamos morando há 38 anos. Meu marido saía cedo, ia construir e eu ficava criando menino. Buscando água lá embaixo. Luz nós não tinha. Nós não tinha água encanada não. Durante três anos nós ficamos assim, com lamparina, com vela.
Tenho oito filhos. Só a primeira que nasceu na lá na fazenda. Hoje tá todo mundo na maré mansa. Capanga, cozendo, engordando e comendo. Porque tá achando tudo mastigado, no ponto de
engolir. Antigamente não. Até hoje meus filho agradecem. Porque esse homem aqui é rigoroso,
rigoroso com os filhos. Os filhos só começou trabalhar depois dos 18 anos. Ele saía cedo e fala-
va: “Vocês fazem isso assim, quando é de tarde eu quero ver o serviço pronto”. E eles tinham que fazer. Hoje eles agradecem o pai que tem.
57
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
ClemĂŞncia Rodrigues dos Santos
1935
Ladainha • MG
1975
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Clemente Rodrigues Vieira
1928
Ladainha • MG
1973
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Geraldo Alcântara de Jesus
17 • 02 • 1927
Contagem • MG
1939
“Geraldo da banca”
61
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Geraldo Vito
15 • 06 • 1944
Itabira • MG
1973
63
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Gerosina Barbosa dos Passos
07 • 06 • 1943
Mucuri • MG
1976
65
Nome: Gerosina Barbosa dos Passos
Parece que desde que eu era pequena eu sou sofrida. Meu pai morreu, eu não conheci meu pai
não. Minha mãe trabalhava em roça toda vida. No tempo do pai, diz que o finado não deixava ela ir
pra roça não. Que era pra olhar os meninos. Mas depois ele morreu, e ela foi obrigada a ir pra roça.
Aí ela me ensinava. Arroz a gente tinha que pôr num pilão e socar, socar, socar... Isso tudo eu fazia
quando eu tava com sete anos. Cuidava desse arroz, cozinhava, punha numa vasilhinha assim e levava lá na roça pra ela, tudo longe. E passava perto das vacas, com um medo... Tinha que pôr a
gamela embaixo pra poder alcançar e mexer no fogão. Foi essa luta desse jeito até que eu fui crescendo. Mas nós continuamos na roça mesmo, trabalhando mesmo. Mas quando eu tava mais mãe eu não passei necessidade das coisas pra comer.
Pior que da data que eu cheguei aqui eu nem lembro mais! Eu sei que nós tava lá no interior. Eu
tava até de resguardo. Eu tinha ganhado a minha menina que é a caçula, a Fátima. Os meninos chegaram lá e falaram assim: “Ô mãe, nós viemos buscar a senhora, mais pai e os meninos”. Eu
falei: “Mas como é que nós podemos sair assim, de uma vez, desse jeito?”. Aí minha sobrinha falou: “De qualquer jeito a senhora vai!”. Eu já tava cansada de trabalhar na roça, eu já não tava
aguentando mais. Trabalhar pros patrão ainda... Eu capinava, plantava, fazia de tudo. Mesmo as-
sim, eu nunca tive valor de ser aposentada.
Mas quando eu cheguei aqui eu achei duro... Eu pensei: “Eu não vou aguentar ficar nesse lugar aqui não!”. Mas era feio! Era só aqueles barraquinhos de painel e tábua. Aqui não era
barraco não, era só um pedacinho. E eu pensava: “como é que nós vamos fazer? Sem dinheiro, sem nada, só com essa filharada. Dez filhos! Onde é que eu vou esbarrar?” Ficou nessa luta. Aos poucos comecei a sair com as vizinhas, que eu já conhecia, saía prum canto, saía
pro outro, e fui lutando.
Meu esposo veio também. Ele só sabia trabalhar na roça, né? Mas aqui ele arrumou um ser-
vicinho lá no Hospital São Lucas, na obra; aí foi melhorando aos pouquinhos. Depois ele foi
trabalhar ali no Hospital Evangélico. Quando esse homem foi fichado, aí melhorou um pouco. Deus ajudou que ficou melhor pra nós. Mas custou! Até que essa meninada toda cresceu e precisou pôr eles na escola. Depois eles começaram a trabalhar.
66
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
07 • 06 • 1943
Mucuri • MG
1976
E a água? Quando eu vi essa gente, onde ia pra pegar a água, pra poder lavar a roupa... Eu acostumada
só em beira de rio grande, que era um mundo velho de água, pra chegar aqui e não ter água. E a brigaiada que dava! Depois pôs as torneiras, daqui e dacolá. Porque a gente saía daqui e ia lá embaixão, ali na
Mendes Sá, pra poder pegar água pra beber. Eu não conseguia pegar água. Na bica, enquanto você
não enchesse a lata e seus parentes enchessem a lata com você, ninguém podia chegar não. Se tives-
se problema da água acabar, quem chegasse primeiro lavava roupa, lavava vasilha, carregava água pra casa, e o resto ficava lá até de madrugada, até tarde da noite pra fazer o serviço... Tinha que madrugar.
Eu só sei que nós sofreu, até que acostumou. E era fogão de lenha. Eu acabei de ficar mais
doente. É que a lenha daqui não é igual a lenha do interior. A lenha daqui tem uma fumaça muito
forte, modo do tratamento delas. Nós pegava lenha nas firmas, que eles davam pra gente. Até que minha menina trabalhou, aí ela comprou um fogão usado pra mim. Aí que eu fui começar a
sair daquela carvoeira danada.
Eu não queria casar com ele. Eu casei com ele muito nova, eu tinha 17 anos. Eu só casei com ele
porque tudo que a mãe da gente fala a gente tinha que obedecer. Mas não gostava dele de jeito nenhum. Deus me perdoe! Quando tava com 18 anos, eu fiquei grávida do primeiro filho. Daí
quase todo ano era um filho. Só pra isso que ele era gente. E eu nem gostava de namorar com ele. Em dezembro fez um ano que ele morreu. Eu fiquei com ele mais que 50 anos.
Eu e meu marido não era muito lá essas coisas não. É porque ele bebia. Deus que tem ele num
cantinho lá. Ele era trabalhador, que não precisava mais. Mas não dava valor ao serviço dele. Não dava valor ao dinheiro dele. Ele gastava com aquelas mulheres da rua do Sacramento, que era
uma beleza... Tinha um moço que tinha um boteco ali, onde é o armazém agora. Ele saía pagando
conta, pagando conta, até que acabava o dinheiro tudo. Quando chegava dentro de casa, cadê
o dinheiro? Eu economizava as coisas. Meus meninos que vigiavam carro era que sustentavam
a casa mesmo. Até que eles cresceram. Agora que eles já é tudo crescido, tudo casado, as me-
ninas falam assim: “Ah, mas esses menino não ajudam a mãe em nada”. Eu falo pra deixar pra lá,
que eles já ajudaram muito. Agora que eles têm as famílias deles, deixa eles pra lá, cuidar das
famílias deles. A gente passa precisão, mas é uma precisão que dá pra tapear.
67
Nome: Gerosina de Souza Meira Natalino José Gomes
Nós veio lá da Bahia, lá de Medeiros Neto, porque minha esposa adoeceu. Ela internou, e eu fui trabalhar de servente porque minha profissão por lá era roça, trabalhava com lavoura. Aí, cheguei aqui, pra num ficar parado, fui trabalhar de servente. E nisso ela ficou lá três meses internada. Eu fiz um
barraquinho ali, pra lá da pracinha. Quando ela chegou, já tava lá nesse barraquinho. Já tinha vindo um menino meu casado e num quis mais deixar nós embora não. E aí eu fiquei lutando. Mas até que
era bom, eu trabalhava, tinha de tudo de comer, eu comprava. Era barato nesse tempo.
Já trabalhei de servente, trabalhei de vigia à noite. Trabalhei doze anos. Com doze anos eu comprei um boteco aqui, e o botequim rendeu. Não tinha comércio aqui, eu vendia pra danar. Se fosse até hoje, eu
tava rico. Mas depois foi crescendo e botando comércio tudo em volta assim; aí parou. E eu acabei com
boteco também, já tinha aposentado mesmo. Fiquei só quieto dentro de casa mesmo. E aí eu tô até hoje.
Quando nós mudou pra cá, o mato parecia roça, só que não dava nada. Lá na Bahia, se você limpasse um pedacinho de terra assim, se você plantasse, ali dava, aqui num dava não. Quando eu cheguei
74
Nascimento:
Origem:
Moradore desde:
15 • 01 • 1932
Medeiros Neto • BA
1975
30 • 08 • 1926
Medeiros Neto • BA
1975
aqui, eu plantei uma horta. Mas tinha que pegar a terra de lá e jogar por cima da outra, que a terra num prestava não. Eu criei uns porquinhos também, engordei uns porquinhos aí. Mas também foi só.
Eu prefiro a roça que a cidade. Eu, se fosse novo, tava na roça. A roça é bom demais. Você planta
feijão, milho, arroz, cria galinha, cria porco. Chega uma pessoa na casa da gente, pega uma galinha,
mata pra fazer uma janta, um almoço... É bom demais a roça, pra nós que foi criado. Uma mata lá, longe de comércio. Tinha um arraialzinho que a gente tinha que andar até pra comprar o sal. Mas
no mais era cinco e oito légua que a gente andava. Mas nós só trabalhava com café. Nós tinha mui-
to café, nós era controlado.
Quando eu cheguei aqui tinha um pé de café naquela caída de lá. Da pracinha pra lá, lá tinha pé de café. Aí tem o nome de Cafezal, até hoje. Mas aqui num tinha jeito de ser fazenda não, porque num tinha um pé de capim nesse resto aqui, onde fez as casa. Só tinha um capim velho, duro, e
dessa alturinha. Num tinha como ser fazenda não. Era só aquele matinho. Nasce nada, é perdido.
75
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Inácio Gomes de Oliveira
03 • 01 • 1953 †
Itapiru • MG
1965
81
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
João Batista Alves da Cruz
28 • 08 • 1959 †
Caratinga • MG
1984
87
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Joaquim Barbosa Ramos de Oliveira
23 • 07 • 1942
Catuji • MG
1980
“Tenente”
89
Nome: Joaquim Barbosa Ramos de Oliveira
Em passei a infância em Barra Nova. Sabe que eu não sei como é que era quando eu era menino?
Mas quando eu era menino, diz que eu era uma porqueira mesmo. Causa que eu era ruim de crescimento demais. Toda a vida...
No tempo do meu pai eu não trabalhava ainda não. Comecei a trabalhar depois que eu cresci. Aí eu
continuei trabalhando, graças a Deus. Eu trabalhava na roça, puxando enxada, no duro! Aí, só amanhecendo o dia; amanhecia o dia e tinha que ir pra roça. Mãe nos levava pra roça, juntando cisco,
capinando, e nós juntando cisco. Nós tava pequeno, mas tinha que ajudar.
Eu tenho saudade do meu interior, mas já acostumei aqui, não tem jeito. Eu vim pra cidade porque eles tudo veio; só eu que fiquei lá mais uma tia minha. Aí passou um bocado de tempo, aí eu
vim pra cá. Eu era ajudante. Servente é ajudante mesmo. Mexendo com massa. Tudo quanto é
serviço também que falasse comigo eu tinha que fazer. Tudo que desse assim pra minha cabeça, eu fazia. Trabalhei num bocado de firma. Tinha dia que quando vinha embora e o povo falava: “Ô
Tenente! Num falha não!”. Eu pensava: não falha não. Eu não falhava um dia de serviço de jeito
nenhum. O povo tudo gostava de mim. Eu sei tratar todo mundo sério, e eles me tratam também.
A gente sente aquela saudade da roça, daquela turma, aquele serviço da gente. Quando chega na
plantação e vê tudo verde, aquilo era uma alegria. Deus fazia aquilo pra gente. Eu gostava da roça.
Mas eu vim pra cá. Gostei daqui também. Todo mundo me cumprimenta, me adora. Todo canto
que eu chego, se eu acostumo com o pessoal, eu fico alegre. Alegre comigo, alegre com os outros.
Eu casei aqui em Belo Horizonte, mas eu não morava aqui na Serra não. Eu morava lá em
Copacabana. Casei e a mulher morreu. A mulher não podia ter filho não. A mulher já tinha
90
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
23 • 07 • 1942
Catuji • MG
1980
filho, já tinha uns netinhos. Ela morreu nova. Eu mais minha mulher vivia bem. Senti muita falta dela. Chegava do serviço, janta já tava pronta, punha lá na mesa pra mim... Quer coisa
melhor? Foi uma sorte. Eu arranjei tanta namorada e deu certo. A derradeira que eu arrumei, casei, não dei sorte... Mas tá bom. Deus levou. Ela era boa pessoa. Eu não maltratava
ela, ela não me maltratava. Vivia uma vida boa. Nós saía nós dois pra passear. Aquilo pra mim era bom demais. Depois que ela faleceu, nunca arrumei mulher, de olhar e falar: essa
daqui serve pra mim. Só quer saber de dinheiro. Aí não, sai fora! Eu já não tenho, ainda fica me aborrecendo.
Eu sou uma pessoa que não sei maltratar ninguém, pois meu pai não maltratava ninguém. E
eu que sou o filho que ficou. Vou caçar confusão pra mim? Porque a pessoa tem que saber
viver, saber tratar. Porque se a gente for maltratar os outros, tá perdido. Quando alguém me
aborrece, eu saio de perto. Vou caçar outro canto pra ficar. Eu nasci com a natureza de meu pai.
Meu pai era assim: se chegasse dentro de casa, eu alembro, que se topasse com um de nós chorando, aí já não servia mais. Botava no burro e ia embora. Meu pai era vaqueiro. Meu pai era moreno. Deus levou ele, pôs ele lá onde ele queria. Mas tá bom.
Eu não aprendi a ler não. Tem hora que eu sento ali e fico pensando: “Meu Deus, por que que
eu não aprendi a ler?” Cabeça dura. Se eu tivesse aprendido a leitura, aí eu não tava aqui não.
Eu tava trabalhando. Quando eu vejo aquela carretona eu penso: Se eu tivesse crescido e
tivesse estudo, só queria um carro daquele. Não queria carro nenhum pequeno. Mas Deus
num me deu essa sorte... Se tivesse dado essa sorte, eu tava aqui? Eu tava não. Tava viajando
no mundo. Não aprendi ler. Estudei, estudei, estudei, eu não aprendi nada. Estudei muito, mas não aprendi. Parece que a cabeça é oca.
91
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
José André dos Santos
13 • 08 • 1943
Sabinópolis • MG
1962
93
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
José Paulo de Oliveira
12 • 09 • 1954 †
Gov. Valadares • MG
1966
97
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
José Pereira Cardoso
02 • 05 • 1959
Gov. Valadares • MG
1978
“Zezinho”
Na época que eu mudei pra cá, só tinha uma casa aqui e outra lá. Aqui era tudo mato. Só tinha uma
casa, no pé de abacate. Na época que eu vim, eu trabalhava na mina, mas num nasci aqui não.
Nascido aqui, tem muita gente. Meus filhos nasceram tudo aqui.
Na minha época, já num tinha cavalo. Só tava o terreno, tudo livre. Aí o povo começou a invadir lá
em cima. O pessoal contava que antes tinha cavalo, eles pegava os cavalo dos outro pra pegar
material lá no Santa Efigênia, num depósito que tinha lá. Eles iam pegar material pra construir aqui.
Num tinha mais nada. É coisa antiga.
Eu vim pra cá, e num tinha nenhum juízo na época. Eu tava lá na roça, deu pra vim pra Belo Horizonte, eu vim. Era em 1978. Eu comprei a casa em 1985, antes eu morava na casa dos outro. Área de sete metros por três metros. Barraco de dois cômodo, nem banheiro tinha.
O prefeito é o seguinte: eles querem jogar nós fora daqui, porque isso aqui é uma área que o pes-
soal rico interessa, perto do centro. Então ele quer tomar. Só que num tem como. Se eu mudar
daqui, eu vou pra onde? Pra roça num tem condições de morar, lote num tem condições de comprar que vai morar longe. Então eu quero ficar aqui onde eu tô. Até hoje num mexeu comigo não.
Eu trabalho de pedreiro. Então material, às vezes, a gente consegue comprar um pra mexer, mas é isso aí. Mas eu num quero sair daqui não.
E bairro também tem outra coisa, cabra chega, entra pra dentro e fecha a porta, quer nem saber.
Agora olha aqui, tá cheio de gente, um tá mexendo com serviço, o cara pergunta: “tá precisando de ajuda?” Um ajuda o outro. Vai no bairro procê ver! Você vai buscar parente seu longe, porque
seu vizinho num te ajuda. Você fica dois, três anos pra ter uma conversa.
Aglomerado diz que é ruim. É ruim pra quem tem dinheiro, que vai morar no Belvedere, vai morar na Savassi, comprar sítio. Agora pra nós é bom aqui mesmo. Tá bom demais. Liberdade... eu saio
sem camisa, eu entro no boteco de chinelo. No bairro não. Lá onde eu trabalho tem um cara que mora pertinho de onde nós trabalhamos. Chega de tarde ele tá trocando de roupa pra voltar pra
casa. Eu falo: “se você mora pertinho, por que que você tá trocando de roupa?” Ele fala: “Ah não,
porque eu moro em apartamento, aí é chato eu chegar lá com o uniforme da empresa.” O impor-
tante é você tá trabalhando! Se você fosse vagabundo com dinheiro, eles aceitavam.
99
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
José Profeta da Luz
19 • 06 • 1944
Morada Nova • MG
1978
Eu vim pra Serra em 1978. Eu sou de São Domingos do Prata. Eu vim pra cá porque a situação lá
na roça é muito difícil. Quando eu vim, eu tava com 32 anos. Eu vim em 1976 e pra Serra foi em
1978. Primeiro eu morei uns dia no Cachoeirinha, depois no Riacho das Pedras, depois eu fui pra Morada Nova. De Morada Nova em vim pra cá.
Eu pagava aluguel, aí eu decidi vir pra cá pra ver se eu conseguia fazer um barracão pra mim, como eu fiz. Me falaram que dava certo. A minha situação, quando eu cheguei, foi a seguinte: cheguei
aqui eu, a mulher e cinco filhos. Fomos morar num barraco de quatro metros e meio por dois e 40
de largura. Quando cheguei e vi o barraco, foi muito difícil pra mim. Eu quis voltar pra trás; aí minha
mulher falou comigo que, se eu quisesse voltar, que eu voltasse sozinho, porque ela não ia voltar pro aluguel mais não. Então, como ela quis ficar aqui, sofrendo aqui, sofre junto! A gente chegou não tinha as coisas direito. Mas não foi sofrimento não, porque eu recuperei, graças a Deus.
Sete pessoas, num cômodo pequenininho desse. E naquela época que não tinha casa; aqui ventava muito. Tinha noite que eu passava debruçado em cima dos meus filhos, que ventava muito.
Que se o vento jogasse o telhado no chão, pelo menos não caía neles.
Eu trabalhava de eletricista. Mas também o salário não era um salário lucrativo, não dava pra fazer
uma coisa que presta. E naquela época também financiamento não existia. Então, tudo que a gen-
te comprava era à vista mesmo. Eu levei oito meses pra poder fazer o barraco de dois cômodos.
Quando eu fiz esse barraco, eu decidi colocar uma lajinha nele, que jogavam muita pedra em cima do barraco da gente. O bom que eu tive naquela época é a saúde pra trabalhar; e tô aqui até hoje.
101
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
José Timóteo Severino
24 • 01 • 1944
Guaraciaba • MG
1978
103
Nome: José Timóteo Severino
Fui nascido em Guaraciaba. Com 13 anos saímos e fomos para Teixeira, em Minas, entremeio Ponte Nova com Viçosa. Trabalhava na roça. Me casei novinho lá mesmo, em 77. E aí vim embora
pra cá. Meus pais também trabalhavam na roça. Trabalhava na lavoura de café, milho, feijão, com
plantio. Trabalhava pro fazendeiro, era a meia. A certo caminho, vimos que trabalhava pra caramba, só para ajudar o fazendeiro e quase não dava dinheiro nenhum.
Vim pra cá através de um primo que já trabalhava aqui. Me aposentei na UFMG. Comecei de servente e Deus me ajudou e depois me classificaram de pintor e veio a continuidade. Trabalhei 34 anos na UFMG. Juntei os tempos que eu tinha fora, e deu certo.
Já sofri bastante tempo na roça, já trabalhei bastante, mas graças a Deus foi até bom pra gente. Eles falam que quem nasceu e criou na roça tem educação pra tratar um pequeno do mesmo jeito que trata um grande; tratar uma criança do mesmo jeito que trata um idoso. Como trata
um, trata dois.
Quando eu vim, não tinha isso não, era um beco. Andava isso aqui tudo a pé. Tinha mais casa, mas era de painel, barraco prensado de madeirite, que era uns sarrafos de tábua. Tinha muito
barraco de madeira, depois foi acabando. Somos mais de 11 mil habitantes aqui no aglomerado.
E eu alcancei muita coisa aqui na Serra.
Vi muitas mães com neném na barriga. Eles já foram embora e eu continuo aqui. A gente não é tão velho assim, mas sabe algumas coisas que é necessário pra todos.
A gente não tem leitura. Não aprendi a ler. Na roça tinha escola Mobral. Já ouviu falar nessa escola? Pra ir na escola era seis léguas a pé, de noite. Não tinha condução, nem cavalo, nem carroça,
104
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
24 • 01 • 1944
Guaraciaba • MG
1978
era a pé. Leitura a gente não tem, mas tem educação que Deus deu. Tirante isso aí, a gente é feliz.
Criei meus filhos, tô com a família criada e tenho 18 netos. Agora é cuidar dos netos, até Deus alembrar da gente. Enquanto não alembra, a gente vai caminhando.
O que Deus deu, deu; o que não deu, tem que correr pra buscar. Pra nós adquirir tem que trabalhar, se não trabalhar não tem nada; roubar é que não vale a pena. A gente tem que viver com o
que Deus dá e procurar ser humilde. Tem que ter o nome limpo, que é a melhor coisa da vida.
No mais, tem nossa associação. Pondo as coisas em dia, fica mais fácil de resolver. Tem umas
coisas que a gente tem que fazer. O posto de saúde novo do Cafezal, a gente vem caminhando
em cima dele. Várias coisinhas miúdas a gente precisa fazer. Sozinho a gente não tem força.
Eles tão lá embaixo e não tão vendo. Nós temos que conseguir as coisas com os políticos que
nós votamos. Nossas necessidades, nós é que sabemos, nós é que sabemos o que nós preci-
samos aqui na favela.
Político não luta por nossos direitos, para eles tá tudo bom. Nós é que temos que brigar por nossos direitos. Pra eles lá tá tudo um céu. A gente tem que ir para luta, senão não consegue nada.
Estamos caminhando, não estamos parados.
Já passamos muita dificuldade aqui. Os mais antigos falavam que tinha uns companheiros que, na
hora de trabalhar, não conseguiam fichar quando falava onde é que morava. A gente não pode falar
que favela é ruim, que é o lugar que Deus deu pra gente morar, mas pros queridos e famosos lá de bai-
xo já teve problema. Nem namorada não arrumava quando falava que era do Cafezal. Agora já afastou
tudo, porque temos uma conta de água, uma conta de luz, endereço fixo. Nós temos é que agradecer a Deus e elogiar onde a gente mora. Agradecer por ter onde a gente esconder do sereno.
105
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Lourdes Pinheiro dos Santos
07 • 06 • 1956
Teófilo Otoni • MG
1975
107
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Luíz Barbosa dos Santos
09 • 03 • 1957
São Paulo • SP
1969
“Jiló”
109
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Manuel Ferreira da Silva
25 • 03 • 1948
Montes Claros • MG
1968
“Manelão”
111
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Manuelina Maria de Jesus
16 • 04 • 1936
Formiga • MG
1955
113
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Marcelino Cardoso
06 • 03 • 1940
S. Pedro Pescador • MG
1979
115
Nome: Marcelino Cardoso
Cheguei aqui dia 8 de setembro de 1979. Graças a Deus minha chegada foi muito boa, porque
eu não sou contra ninguém, não tenho nada com a vida de ninguém. Eles lá com a vida deles
e eu com a minha. Eu sou de Governador Valadares. Eu sou mecânico lá. Aqui também. Eu encerrei a profissão e aí fiz serviço de vigilante, de porteiro... aí passei pra obra e venci a batalha.
Aposentei e tô quietinho.
Resolvi vir pra Belo Horizonte por causa de doença. Minha mulher adoeceu, meus filhos adoeceram. Perdi um casal de filhos lá. E aí eu fiquei preocupado, porque lá é muito, muito quente. Aí eu pe-
guei e vim embora pra cá, onde eu tô feliz com Deus e com todo mundo com saúde. Apesar de que eu tive doente desde os 61 anos; tive internado, operei o coração, fizeram quatro pontes de safena em mim, mas eu tô aí, com todo mundo. Só não posso trabalhar mais, não posso pegar peso.
Tenho uma família maravilhosa; meus filhos tudo direito, nunca cuidaram de coisa errada... tudo
trabalhador, tudo direito mesmo. Eu tenho sete filhos. Eram nove, perdi um casal lá em Valadares,
ficou sete. Nove, mais eu e minha dona. E veio todo mundo de lá pra cá, tudo nascido lá.
Menos eu. Eu fui criado lá, mas eu sou de São Pedro Pescador, pra lá ainda. Mas eu mudei pra
Valadares pra pegar aprender a profissão, que eu trabalhava na roça antes. Aí eu cheguei em Valadares, procurei uma oficina lá, aprendi, aí graças a Deus trabalhei vinte e tantos anos na
oficina, mas aí eu via que não dava mais pra manter, aí eu entrei em outro serviço, de vigilante, porteiro e pedreiro.
116
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
06 • 03 • 1940
São Pedro Pescador • MG
1979
O bairro era uma tristeza quando eu cheguei. A gente só via coisa que não presta. Hoje tá melhor, mas antigamente era muito ruim, ruim mesmo. A gente só via assim, morte, coisa assim. Não do nosso pessoal, mas dos outros. Minhas meninas até desesperaram, queriam voltar pra trás, pra
Valadares; eu e minha mulher é que traquilizamos elas.
Minhas meninas, coitadinhas, buscavam água lá embaixo, na cabeça, na mina lá embaixo. Naquela
beira do outro lado, lá no Santa Efigênia. Ali tinha uma mina que todo mundo lutou, lutou pra buscar água lá. Aqui não tinha rua, não tinha nada. Aqui você só via cabrito, porco e o pessoal cuidando
de coisa que não presta. Agora não, graças a Deus parou alguma coisa. Tem esse pessoal que fica
aí na rua vendendo a porcariada deles, que eu não tenho nada com isso. Mas eles não perturbam nós, nós não perturbamos eles.
Eu não tinha divertimento nenhum, nem eu nem meus filhos. Olha, meus filhos tudo pequeno, e eu
não ficava dentro de casa. Eu saía cedo, chegava tarde pra buscar o pão de padaria pra eles. E aí eu
chegava em casa tava do mesmo jeito que eu deixei, porque minha dona segurava mesmo. E dava conselho. E dá conselho até hoje.
Olha, o meu conselho que eu dava pros meus filhos, eu e minha dona, é não pegar mal dos outros, não desejar mal ao próximo, ir trabalhando pra poder levar a vida igual eu fiz com eles e tô fazendo até hoje. Filho meu nunca fumou, nunca matou, nunca roubou. Tudo é trabalhador, tudo, graças a
Deus. Ninguém vive em porta de boteco. É no serviço.
117
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Maria da Conceição da Silva
29 • 11 • 1950
São Pedro dos Ferros • MG
1975
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Carlos Roberto da Silva
25 • 02 • 1953 †
Mantenópolis • ES
1978
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Maria da Conceição dos Santos
26 • 12 • 1946 †
Gov. Valadares • MG
1966
“Maria Canela”
121
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Maria da Conceição Santana
17 • 08 • 1941
Belo Horizonte • MG
1947
127
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Maria das Graças Vieira
19 • 03 • 1952
Penha do Cassiano • MG
1972
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Eupídio Brás Vieira
01 • 11 • 1941
Itueta • MG
1972
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Maria de Lourdes Souza de Oliveira
23 • 01 • 1948
Francisco Sá • MG
1967
131
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Maria dos Reis Marciano
06 • 01 • 1943
Calambau, MG
1977
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Durvalino Quaresma Marciano
20 • 02 • 1939
Tarumirim, MG
1977
Nome: Maria dos Reis Marciano Durvalino Quaresma Marciano
Nós trabalhava na roça e lá nós trabalhava de terça. E esse negócio de terça pra nós já não dava
mais, porque eles davam pra nós meia capoeira, misturado com qualquer coisa de mato. O fa-
zendeiro, ele apanhava o capim formado e já mandava derrubar os barracos, e a gente tinha que
se virar. Então, foi o que aconteceu; e nós viemos pra cá. Mas sempre o meu pai falava comigo:
“Olha bem pra onde vai, porque cidade, capital é muito diferente de roça”. Aí eu falei com ele: “Ó
meu pai, mas não tem desse negócio não, porque Deus abençoando, a gente vive em qualquer lugar. Quem faz a gente é a gente mesmo”. Então, pusemos aquela fé em Deus e viemos. O meu
arrependimento é de não ter vindo muito antes. Porque aqui a gente nunca passou falta das
coisas que nem a gente passava na roça. Porque na roça é aquela dificuldade: a pessoa adoecia, não tinha médico.
Foi dia 15 de julho de 1977 que nós se arranquemo de lá pra vir pra cá. Vim pra casa do meu so-
gro, que morava nessa casa pareada com a nossa. Eu vim com aquela meninada, 12 filhos, mais dois que tivemos aqui.
E do mais, da época que eu vim, que eu fui aposentado, porque teve o acidente na firma, andei
fazendo uns barracos pros outros aí... E depois eu fiz uma cirurgia e já não dava mais pra eu ficar mexendo com poeira. Aí fui mexer com a horta lá em cima. Já trabalho com essa horta já vai lá
pra uns nove anos. Da época que eu comecei a trabalhar nessa horta, eu não gastei um centavo
com verdura. Nessa horta nós colhe, nós tem couve, tem cebolinha, tem toda raça de verdura.
Pra mim o casamento foi uma benção de Deus, porque naquela época tudo era difícil. Pra gente
ver uma namorada, ver um namorado, era muito difícil, porque os pais não davam uma colher de chá pra ninguém não. Mas aí, a gente foi chegando devagarzinho, e o bicho foi amansando e
Deus ajudou que deu tudo certinho. Sou muito satisfeito com nosso casamento, porque se eu
138
Nascimento:
Origem:
Moradores desde:
06 • 01 • 1943
Calambau, MG
1977
20 • 02 • 1939
Tarumirim, MG
1977
não tivesse satisfeito, então a gente já tinha descontrolado, um pro lado, outro pro outro. Porque
a pessoa fica vivendo a vida, 53 anos os dois ligadinhos, não é mole não, não é fácil não. Sempre a gente vê aí, as pessoas casam, é um ano, dois anos já começa a descontrolar. E aí um sai pra
um lado e o outro por outro. O pior é que um sai pra um lado e outro também e quando foi um
ano também já tá caçando casamento. Pra quê isso? Se não viveu bem aqui, pra lá não vai ter passagem melhor não.
Eu não sei como nós vamos fazer, porque eu tenho medo dela morrer e me deixar sozinho, e
também ela tem medo de morrer e me largar sozinho. Aí eu não sei como é que nós vamos fazer, porque morrer os dois só duma vez também não é negócio. Agora, Deus põe a benção; como é
que ele vai separar nós?
Será que algum dia eu ainda vou ficar com uma nojeira dessas, velho? Ficar com aquelas tosse, aquelas escarração? Eu olhava aquilo assim e pensava: “ih... ficar velho não é fácil não”. E outra
coisa, eu pensava: se algum dia minha mãe e meu pai morrer, como é que eu vou fazer sozinho nesse mundo? E hoje em dia, a gente já tá na base deles. Porque a pessoa hoje em dia, quem tem
70 anos, já é velho. E eu completei 75 anos. Mas ainda não tenho preguiça de trabalhar não. Eu
vou, rodo esse Belo Horizonte todinho aí, bocado da perna, bocado de ônibus... e vou pra horta lá e trabalho. E vou virando aí.
Se ela conseguisse andar daqui prali, nós dois não parava em casa. Nós ia pra esse Centro, ia pra roça, ia pra todo lado aí. Mas ela não tem jeito, e eu não posso ficar pagando carro pequeno pra
ficar carregando pra todo lado. O salariozinho não dá. Tem hora que eu vou na cidade, vejo aquele povo sentado naquelas praças; eu tenho vontade que ela esteja lá comigo, sentada também,
pra gente ficar vendo o mundo girar. Eu sou apaixonado com ela, toda vida fui.
139
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Maria Lopes Monteiro
02 • 10 • 1926
Braúnas • MG
1969
141
Nome: Aliria Ferreira de Souza Nelson Pereira de Souza
Vim diretamente da Bahia, com sete filhos, eu e minha esposa. Cheguei de uma vez, não conhecia nada aqui. A vida aqui era ruim, só cê vendo. Tinha algumas casinhas, as casinhas mui-
to ruins. E a gente muito fracassado também, não tinha pra onde ir. Fui obrigado a chegar e
me colocar aqui. Cheguei e fui trabalhar em construção civil, apesar que eu já era marceneiro.
Toda vida minha profissão foi marceneiro. Mas eu trabalhava por conta própria na Bahia e não tinha carteira fichada. Aí eu chegava na marcenaria e eles pediam carteira, e eu não podia comprovar que era marceneiro.
Trabalhei seis anos na construção civil. Com seis anos, consegui achar emprego na marcenaria
e me deram experiência de 30 dias, e graças a Deus deu pra mim passar bem. Aí foi que eu con-
tinuei na marcenaria e trabalhei até a idade que eu aposentei. Depois de aposentado, ainda trabalhei dez anos na mesma firma, até que vi que não tava aguentando trabalhar e tava ocupando lugar de outros; aí parei de trabalhar. Com 75 anos, mais ou menos.
Eu trabalhava na firma e de noite eu trabalhava aqui no serviço meu, trazia um pouquinho de material. Tinha dia que eu comprava um saco de cimento, na outra semana comprava tijolo, e fui levando
devagarinho. Levei cinco anos pra construir isso aqui. Eu mesmo construindo. Trabalhando fora e construindo. Até que foi indo, dei como pronto e vim terminando de fazer alguma coisa.
Aqui não tinha rua. Tinha um trilhozinho, muito ruim da gente descer. Era os barrancos, cheio de barro, a gente descia com dificuldade. Tinha que pegar água longe; tinha três chafarizes aqui: um ali na
entrada da rua, outro atrás da igreja, o outro nem sei onde era. A mulher saía daqui e ia pegar água lá embaixo, naquele canão, carregando tudo. Foi um bocado de tempo assim e depois foi melhorando.
Era poucas casas aqui, era tudo salteado. Naquele tempo, ventava muito e chovia muito também.
Quando dava vento, descobria as casas, que era tudo provisório. E como tinha aquele negócio
deles falar que ia desapropriar a gente, a gente ficava com medo de mexer. Aí fomos criando cora-
gem, um ia fazendo, outro também. Até que conseguiram resolver urbanizar a vila, colocar a luz. Aí
o povo animou, algum que não tinha feito, fez também. E continuaram a vida aqui mesmo. Porque a gente não tinha pra onde ir... se fosse pra outro canto, era a mesma coisa.
Porque naquela época, em 79, qualquer favela era desorganizada; tudo era ruim mesmo. E a gente,
todos que entraram em favela, veio do interior. Quem vem do interior, de qualquer maneira tem
150
Nascimento:
Origem:
Moradores desde:
20 • 10 • 1950
Tamarajú • BA
1979
24 • 08 • 1929
Tamarajú • BA
1979
que arranjar um lugar pra ficar, porque de lá já saiu pra vim pra cá, não tem mais pra onde correr. De qualquer maneira que ficar, o cara tem que achar bom, não é?
Não conhecia ninguém aqui. Pra vim não é pra todo mundo ter essa coragem. Mas a gente
tem que viver assim: não espera a coisa vir até a gente não, a gente que tem que procurar. Se a gente ficar esperando a melhora chegar pra gente e a gente ficar quieto, ela não chega. Chega
nunca. A gente que tem que partir em cima. Partir em cima do que tá ruim pra ver se arranja alguma coisa boa no meio.
Meu destino toda vida foi esse, meu plano foi assim. E graças a Deus venci meus tempos aqui.
Tô com 85 anos, dou conta de fazer mais nada, nem tenho plano de sair daqui pra lugar nenhum, mas tô satisfeito. Tem nada ruim não. Problema o mundo todo tem. A gente mesmo é uma parte
dos problemas que tem no mundo. Um a mais, outro a menos; um enxerga mais, outro enxerga menos, mas é assim. Não pode ser tudo como a gente pensa e quer.
Agradeço muito a Deus o tempo que me deu, a experiência. A gente aprende cada dia um pouquinho. A gente não aprende só no colégio não. A gente aprende no tempo. No tempo correr.
A gente pode ter criatividade para alguma coisa. Mexo com um monte de coisa e ninguém
nunca me ensinou nada. Trabalhei de conta própria de pedreiro, sapateiro, marceneiro, carpin-
teiro, serviço do mato, serrar madeira, tocar tropa, fazer cangalha pra botar em burro, fazer a sela. Tudo aprendi sozinho.
A ler um pouquinho, aprendi sem ninguém me ensinar. Cheguei até a passar instrução pros outros. Não queixo da minha vida não. A gente não precisa ter muita coisa não, basta ter o tanto que precisa. A gente não precisa ter mais pra sobrar. Porque o que passa não é da gente. Sobra.
O povo fala ‘hoje em dia’, mas vem da criação do mundo isso: umas pessoas orgulhosas pra
adquirir muita coisa e esquecer do necessário. O que é mais necessário é a pessoa saber que não sabe. Infeliz da pessoa que não sabe que não sabe. O cara que não sabe que não sabe
dá testada. E ele sabendo que ele não sabe, ele não vai. Todo canto que eu chegar, eu presto atenção, pra ver como é. Se chegar pensando que eu já sei, dou uma testada danada. Não sei até onde eu vou não. Até aqui eu cheguei.
151
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Pedro Paulo da Silva
29 • 06 • 1962
Zito Soares • MG
1975
153
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Regina Neves de Freitas
25 • 09 • 1944
Rio Piracicaba • MG
1964
155
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Rita Francisca de Souza
28 • 05 • 1916
Mantena • MG
1967
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Nadir de Souza Vieira
29 • 09 • 1950
Mantena • MG
1967
Nome: Rita Francisca de Souza Nadir de Souza Vieira
Cheguei aqui em 1967. Vim do interior, de Mantena. Em 1967 eu vim embora trabalhar e a mamãe
ficou lá com os meninos, que era muita gente.
Aí, quando eu fui pra lá, eu busquei um irmão e duas irmãs. Minha patroa arrumou serviço pra eles.
Vieram pra me ajudar, só que num me ajudaram em nada. Depois, com mais três meses, minha
patroa conseguiu arrumar um barracão pra nós alugar. Aí eu segurei o barracão e fui comprando as coisas aos pouco pra colocar. Quem tomava conta da chave do barracão é o rapaz que eu
casei com ele. Eu conheci ele nesse momento que eu vim ver o barracão. Aí tinha um fogãozinho de lenha, um armarinho, dois estrado de cama de solteiro... Aí minha patroa me deu três colchões.
Meu irmão foi lá buscar minha mãe e vender os trem, porque tinha porco, galinha, tudo pra vender. Não podia mais viajar sem ser registrado, e só esse irmão que era registrado. E aí eu tive que
ir lá registrar. Eu não era registrada. Na verdade eu não tenho a idade que eu te falei. Eu tenho 64
anos no registro, porque eu registrei depois que todo mundo registrou. Porque nem mamãe era registrada. Depois que todo mundo registrou, eu que era a mais velha fiquei sendo a mais nova.
Minha mãe chegou doente, que ela não tinha costume de viajar. Era seis crianças pequena.
Dois netos que registrou como filho dela e mais quatro filhos. Foi todo mundo morar no barracão. Já tinha três aqui. Ao todo nós somos quinze. Três adotivos e doze dela.
E eu que fazia tudo, porque meu irmão adotivo mais velho, que foi buscar ela, tinha mania de
jogar e bebia. Então o dinheiro que ele tinha era pra isso. Os outros era tudo pequeno. A mais
nova que veio com mamãe tinha um ano. Ela adotou. Mamãe era parteira, foi fazer um parto, o
casal num aceitou a menina quando nasceu; ela enrolou a menina no pano e trouxe pra casa. Aí eu tinha que comprar leite, fralda, tudo pra menina.
Comprei um barracãozinho pequenininho, de um cômodo só, que não dava pra todo mundo.
Apareceu alguém querendo comprar, eu vendi e guardei o dinheiro. Completei e comprei um barracão de dois cômodos. Comprei madeira e fiz mais dois cômodos de madeira. Aí ficou dois cômodos de tijolo e dois de madeira. Nisso eu já tava namorando. Logo que mamãe chegou, ele me
pediu pra namorar. Namoramos seis anos e meus irmãos não queriam que eu casasse de jeito nenhum! A gente marcou o casamento e foi uma briga lá em casa. Eles pensavam: “ela vai casar e
quem vai tratar de nós?” Eu falei: “eu quero casar, ter minha casa, minha vida”.
158
Nascimento:
Origem:
Moradoras desde:
28 • 05 • 1916
Mantena • MG
1967
29 • 09 • 1950
Mantena • MG
1967
Eu ia casar e da igreja mesmo eu ia pra outra casa, nem ia passar em casa. Mas aí eles
juntaram, meus padrinho de casamento e tal, e fizeram um almoço. Mas aí eu continuei tra-
balhando e ajudando. E agora eu continuo ajudando do mesmo jeito. Fiquei até com uma
neta, que eu registrei no meu nome, com a minha guarda. Que a mãe dela foi pros Estados
Unidos e entregou pra mim. Fiquei com ela até 14 anos. Aí mais duas sobrinhas minha fugiram e veio pra minha casa. Eu tive três filhos e criei mais seis dos outro.
Eu fiz o Mobral. Mas fiquei três meses na aula só. Quando a gente tava na fazenda, o fazendeiro tinha uma filha da minha idade. Eu tinha que cuidar das crianças e tudo, cozinhar, então
não me puseram na aula. Depois nós mudamos de fazenda e o fazendeiro me pôs na aula.
Mas, com três meses que nós tava lá, meu pai morreu. Aí nós mudamos de lá e eu não es-
tudei mais. Quando eu mudei pra cá, eu estudei à noite no Instituto de Educação. Aí eu fiz o
Mobral, já bem adiantado. Meu patrão me levava. Já tava trabalhando na casa de um advogado, um senhor de idade. Eu fazia a janta e ele me levava pra aula. Aí, quando terminava a janta, ele tirava a mesa, guardava a comida e me buscava na aula. Aprendi a ler e escrever. Não era
muita coisa não, mas eu aprendi. Aí, quando eu casei, eu fui estudar; fiz até o quarto ano. Fiz
um teste e não precisei fazer o primeiro ano não. Entrei direto no segundo. Fiz o segundo,
terceiro e o quarto. Aí parei. Sempre quis estudar.
Eu adoro ler. Queria ser advogada. Eu gosto muito de ler e eu mexo com a conferência São
Vicente de Paula. Eu trabalhei um bom tempo com a Pastoral da Criança. Aí tem que ler muito. Agora que eu tô parada, mas eu andava essa vila aqui todinha!
Esse ano eu ia voltar a estudar, mas ainda não achei quem fique com a menina menor. Mas eu ainda quero fazer faculdade! Meus filhos todos fizeram. Meu menino assinou pra mim uma revista
de ecologia, e eu sentava e lia tudo. Eu queria trabalhar nessa área. Mas eu lembrava que queria ser advogada. Só que, toda vez que eu tentava começar, dava errado. Eu perdi as prova. O menino teve
derrame no pulmão, teve que fazer duas cirurgias. Aí, quando eu vim pra casa, ainda não deu pra
voltar pra aula. Ia voltar esse ano.
Eu quero ser advogada de defesa. Pra tentar defender as pessoas. Meus meninos são formados. Eu ainda tenho chance de fazer!
159
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Rosa Maria da Silva
15 • 01 • 1966
Belo Horizonte • MG
1974
161
Nome: Rosa Maria da Silva
Cheguei aqui na Serra tem 41 anos; eu tinha 8 anos. Quando eu nasci, minha mãe morava no Barreiro. Teve uma enchente muito grande e ela perdeu a casa. Aí nós viemos pra cá. Eu lembro que, quando nós viemos, ela chamou Seu Tarcísio pra carregar a mudança. Nesse meio tempo, ela
machucou. Veio minha mãe, eu e meus três irmãos. Depois minha mãe pegou uma irmã de criação,
e ficamos em cinco. Nossa mudança ficou dentro do carro do Tarcísio, e nós ficamos morando dentro do carro dele mesmo, três anos.
Então nós fazia como? De três em três dias ele pegava nós e levava nós na Ferrobel, ali onde é o
Parque das Mangabeiras, onde passava aquele corguinho. Lá tinha jeito de nós tomar banho, lavar roupa. Meus irmãos, que eram maiores, saíam nas casas pedindo agasalho, coberta, comida pra
gente poder manter durante o dia. Eles andavam aqui tudo. E ganhavam a comida do dia. A gente comia assim mesmo, que num dava pra esquentar.
Aí até que apareceu Seu Lufinha, que já faleceu. Ele falou pra minha mãe que podia dar uma área
pra ela, só que ele não podia fazer mais nada. O resto, o material e tal, a gente tinha que correr atrás.
Como antes antigamente comprar um tijolo era muito difícil, minha mãe tava doente ainda, aí quê
que nós fazia? A gente ia nos prédios que tavam construindo no São Lucas e pedia madeira, tábua.
Ficava que nem formiguinha. O que dava pra carregar a gente carregava. Os que eram pequenos demais a gente fazia fogo. Os que eram grandes a gente trocava com a dona Joana D’Arc. Tem até uma rua com o nome dela. Ela pegava e dava os painéis que ela fazia. Era uns painéis pesados...
Aqui não tinha nada: não tinha igreja, não tinha escola, não tinha farmácia. A gente buscava água
ou na biquinha da mangueira ou no canão. No canão, a gente buscava água pra tomar banho, pra comer, pra lavar roupa. E nós não tinha bacia. A bacia nossa era um pneu.
Nem todo mundo tinha condição de comprar a luz. Eles faziam assim: as pessoas compravam o
poste, mas num era o poste, era uns troços de madeira, uns pau grande de eucalipto. Ajuntava as pessoas, a associação e comprava os paus de eucalipto, os fios. A associação dos moradores
que fazia. Assim que pôs os postes e a luz de um pro outro. Quem tinha condição comprou a luz, quem não tinha continuou com a lamparina.
Depois que já tinha a Cemig, aí veio a rede de esgoto, a água. Foi muito depois. Se fosse pra banheiro, fazia buraco, era fossa. Pra quem morava perto do córrego ia pro córrego. A passarela era um
162
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
15 • 01 • 1966
Belo Horizonte • MG
1974
pedacinho de terra, porque ali num tinha lugar pra passar. Por exemplo, eu morava num pedacinho, hoje fala beco, mas nós falava trio, se eu morasse num trio e se chovia e escorregava muito, era
muita lama, então eu abria mais largo e comprava a brita e fazia. Tem rua aí que num foi o governo
que fez, nem a associação, foi morador mesmo que fez. Porque onde num é assim é barro amarelo, escorrega muito. Aí eles iam arrumando aos pouquinhos.
Aqui já teve muito desastre, muita casa que caiu. As pessoas tinham que ter medo quando começava a chover. Era barranco descendo, casa descendo... Nós ia pra quem tinha a casa mais forte.
Depois ia lá, cavacava e construía tudo de novo; era onde podia ficar, era o que tinha pra morar.
Tinha casa aqui, que hoje você vê casonas, mas que antes era papelão, plástico preto, lata. Muitas das casas aqui começou com casa de lona, casa de papelão, painel.
Quando eu conheci o pai dos meus filhos, eu tava com 14 anos. Fui morar com ele e tive os filhos. Mas até chegar aí, muita água rolou. Perdi um barraco que fizemos no Perrela, uma favela que tinha
perto do Arrudas. Eu fiquei desaparecida um mês ou dois, porque nós tava numa escola de abrigo
e ninguém sabia que nós tava lá. Meu marido achava que eu tinha morrido. Minha irmã viu no jornal
o abrigo e me viu.
Eu já tinha três filhos e 16 anos quando separei dele, que começou a beber muito. Aí eu comecei a
achar que eu tinha liberdade na vida. Que podia fazer tudo. Aí eu experimentei de tudo. Só roubar que não. Nem roubar e nem matar. Eu achava que eu tava curtindo a vida. E num tava curtindo a vida.
Mas sempre eu cuidei dos meus filhos. Eu sempre ensinei eles trabalhar, sempre ensinei eles estudar. Eu saía à noite pra dançar, eu saía à noite pra namorar. De dia não.
Eu acho que eu parei, porque meus filhos cresceram. Porque eu sou assim: tudo tem seu tempo.
Você tem seu tempo pra se divertir, tempo pra usar uma roupa curta, mas agora sua vida pertence aos seus filhos. Trabalhar é pra eles; eu tô dentro de casa é eles. Igual, eu tenho o Bentinho. Já tem
uns dez anos que nós tamo junto, mas ele num mora na minha casa comigo. Ele tem a casinha dele.
Mas eu acho que eu não vou casar. Eu não vou morar com homem nenhum, porque eu acho que a
obrigação de qualquer mãe, seja ela de qualquer religião, ou rico, ou pobre, ela tem a obrigação de
cuidar dos filhos. Ou bom ou ruim, essa obrigação eu tô cumprindo. Eu sou mãe de onze filhos. São nove moças e dois rapazes. E no domingo em casa não cabe ninguém!
163
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Santa Maria de Sá
15 • 06 • 1938
Itanhém • BA
1992
165
Nome: Santa Maria de Sá
Fui escrava do meu marido. Se eu fosse conversar, ele ficava mandando eu calar a boca. Eu que não calava! E eu jurava ele que eu separava dele. Eu deixava minhas fia crescer. Aí quando minha filha tinha
doze anos, eu fui falar com ele. Ele me bateu. Falei: “olhe, eu vim falar com você que eu vou separar de você, e é hoje.” “Ah! Vai nada! Esse dia nunca vai chegar!” Eu falei: “espera pra ver, o dia vai chegar”.
Eu casei com 22 anos. E nós ficamos junto 30 anos. E com 30 dias depois de casada ele começou a me bater. E eu aguentei esse tempo todo pra poder não deixar minhas filhas, pra ver se ele consertava, e ele falava que consertava e nunca consertou. Ele só judiava das meninas. Quando ia
pro mato catar lenha, ele punha muito peso pras bichinha. Um dia uma chegou no terreiro na rua e
desmaiou, caiu por cima da tora de carvão.
Mas eu criei tanta coragem pra separar dele, que na hora eu não sei da onde é que saiu tanta cora-
gem. Eu sentada assim no chão, arrumando a caixa de louça, a caixa de louça que eu tinha. Então ele chegou e ficou na porta. E eu sentada. E ele ficou sentado com uma faca desse tamanho. E a outra
filha minha que foi me buscar ficou por detrás dele. Ele jurava que ia me matar, que ia me matar no pé
da polícia na rodoviária. Mas não foi não. Aí eu cheguei na rodoviária, entrei no ônibus, botei minhas
coisa tudo, e vim embora. Os anjo desceu tudo do céu aquela hora e me olhou ali, porque o bicho
tava desesperado, ele era desaforado. A filha minha falava: “ah, se ele voasse na senhora, eu segurava ele”. Que segurava nada, ele era fortão. Num aguentava segurar não. Mas eu vim embora. Fiquei
com muita raiva dele, deu ajudar tanto, deu sofrer tanto, e saí daquele jeito, com a mão pura! Ele ficou
lá. Vendeu a casa, não me deu nada. Vendeu as coisas que tinha dentro, não me deu nada. Mas não
me fez falta não. Graças a Deus eu tenho tudo aqui. Pode entrar, pode olhar.
Eu trabalhava lá, lá eu trabalhava no rio, lavando roupa pros outro. Era o dinheiro que eu ganhava, que eu via na minha mão. Quando ele tinha dinheiro, ele escondia de mim. Hoje em dia eu ponho
o dinheiro na minha mão e eu falo assim: ‘esse aqui é meu, eu faço com ele o que eu quero’. Eu
166
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
15 • 06 • 1938
Itanhém • BA
1992
sou aposentada, pego meu dinheirinho todo mês. Eu sei que ele tá lá no banco. Graças a Deus não passo falta de nada.
Eu fiquei morando num bocado de casa de aluguel quando cheguei em Belo Horizonte. Depois
meu genro me deu esse pedaço aqui. Era só um cômodo sozinho. Aí nós dormia tudo embola-
dinho: eu, com as filhas, com as que trabalhava; tinha umas que num tinha pra onde dormir. Nós
fomos lutando, lutando e depois fizemos esse pedaço pra cá.
Vim pra Belo Horizonte, porque aqui era lugar pra ganhar dinheiro. Lá num presta pra ganhar dinheiro não. Minhas meninas já tava tudo aqui já. Elas vieram tudo primeiro do que eu.
Nunca fui na escola, porque meu pai falava que não botava filha mulher na escola. As professoras até brigava com ele pra pôr eu na escola. Eu sozinha, não tinha outras irmãs, os outros irmãos tinha sumido tudo. Mas ele falava que filha mulher não precisa estudar não. Estudar pra
ficar escrevendo carta pra rapaz, ele dizia. Ia na escola levar os filhos dos outros, os meu também eu levava, mas pra mim mesma não.
Meu pai chamava José. Ele trabalhava na roça. Na roça, tinha engenho, moía cana. Eu cheguei a
trabalhar com ele; eu era a tocadora dos bois. Eu batia nos boi! Eu era terrível. Eu só não panhava as
cana na roça, mas outras coisas eu ajudava a fazer. Bater tacho, aquele tachão de garapa, pra fazer
o mel, a rapadura.
Meu ex-marido ainda mora lá na Bahia, no mesmo lugar. Em outra casa, mas no mesmo lugar. Ele já veio fazer tratamento aqui duas vezes. Da última vez eu fui cuidar dele, porque ele não podia
ficar sozinho, e minha filha trabalhava. Tem gente que disse ‘ah! vocês ainda vão viver junto!’ Eu falo: ‘Deus ajude que nunca! Nunca! Eu quero morrer aqui sozinha, com Deus’. Ele lá e eu cá’.
167
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Sebastião Rodrigues e Andrades
22 • 10 • 1954
Governador Valadares • MG
1980
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Tarcísio da Cruz
11 • 09 • 1942
Entre Rios • MG
1963
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Terezinha Lopes
08 • 10 • 1949
Curvelo • MG
1953
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Terezinha Rodrigues Ramos
12 • 05 • 1954
Guanhães • MG
1979
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Videlina Antônia de Andrade
30 • 12 • 1928
Poções • BA
1955
Vim da Bahia com 16 anos para Espinosa. Meu marido era ferroviário. Eu não trabalhava, porque
lá não tinha serviço pra mim. Tinha muita plantação de algodão, essas coisas. De lá vim pra Belo
Horizonte. Separei do meu marido. Não deu certo. Ela era muito mulhezeiro, muito trambiqueiro. E
eu não tenho gênio de aguentar essas coisas. Homem pisando na minha garganta pra mim não dá.
Vim parar aqui sozinha, com três filhos.
Cheguei de noite e no outro dia já comecei a trabalhar. Fui pruma pensão e lá mesmo comecei a
trabalhar, de cozinheira. Aí conheci um outro homem e fui viver com ele. Viemos parar aqui na favela. Construímos barraco, família, tudo aqui.
Cheguei dos 31 para os 32 anos. Quando cheguei aqui, não tinha nada. Eu morava lá em cima, na
Serenata, onde tem a passarela. Meu barraco era o último dali. Nem pra lá, nem pra cá, não tinha
nada dessa vida. Tinha um botequinho que vendia uma pinguinha e um querosene para alumiar, porque não tinha luz, não tinha água. Aqui pra gente trazer as coisas, uma fruta, um arroz, comprava lá no Mercado Central e vinha de carroça, porque não tinha como trazer. Ficamos uns 16 anos sem
água. Nós pegava água era lá embaixo, lavava as coisas lá. A vida aqui era com muita luta, como muito sacrifício. Essa água que tem aqui da Copasa foi depois de muitos anos. Aqui era só capim
de rato, umas florzinhas do campo. Aqui não tinha grupo, não tinha creche, não tinha nada. Não
tinha escola pra ninguém aqui.
Já trabalhei no Carmo Sion, Anchieta, Santa Casa, lá na Aimorés. Tudo a pé. Não tinha ônibus pra
ninguém não. E ainda carregava trouxa na cabeça para lavar no canão. Às vezes faltava água nas
casas das patroas também, e elas pediam para eu lavar aqui. Eu botava aquela trouxa na cabeça e
subia tudo até aqui a pé. Já lutei muito nessa Serra. Não foi brincadeira não.
Trabalhei 33 anos até aposentar. Tudo eu fazia. Trabalhava de lavadeira, passadeira, cozinheira, tudo na casa dos outros. Os meninos eu deixava com meu marido, a gente revezava. Tive 11 dos
meus 12 filhos em casa. Com parteira, muito boa. Criei mesmo só 10. Dois morreram. Agora tenho mais bisnetos do que neto. Mais de 30. Já tenho uma bisneta de 20 anos.
Nunca estudei. A época de solteira eu morei no interior, só puxando roça. Os donos da fazenda pagava escola particular para meus irmãos. Mas pra mim que era mulher não tinha não.
173
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Vilma Maria de Jesus
01 • 08 • 1952
Jequeri • MG
1975
Sou de Jequiri, mas na minha identidade está Ponte Nova. Quando eu era pequena, eu nem
alembro mais. Eles falam que minha terra é Ponte Nova, mas sei que sou de Jequiri. Eu já trabalhei na roça. Panhava café, panhava arroz, tudo eu já fiz. Eu nem conheci meu pai. Eu era criada
com os outros, depois que juntei com minha mãe, mas ela já morreu.
Conheci minha mãe depois que eu vim pra Belo Horizonte. Eles que me trouxe, os povo de lá. Já morei em tudo quanto é canto antes de vir. Ficava viajando.
Toda vida eu era amigada. Nunca casei. Conheci esse marido lá em Almenara. Tenho três filhos
com ele. Mas tem de outros homens também. Dele eu tinha quatro, morreu um. Do outro também era quatro, mas morreu um também. Então tenho seis.
Ele mora lá e eu aqui. Acho melhor, que quando ele bebe, ele não dá sossego pra ninguém. Aí é melhor assim. Ele vem aqui só pra comer e vai embora. Gosto de ficar mais é sozinha, que eu
tenho sossego. Ele, quando bebe, fica pra lá e pra cá. Quando ele está bêbado, ninguém aguenta.
A casa de lá é minha, mas eu deixei ele pra lá e fico aqui com minha menina.
Aqui era mesma coisa de uma favelinha, tinha nada calçado não. Nós morava em barracão de
tábua, depois que nós fez tijolo. Nós pegava água na bica; agora que melhorou bastante. Tinha dia que eu saía daqui cinco e meia da manhã. Nós usava vela, depois que veio a luz.
Sei nem assinar meu nome. Mas não tem jeito de aprender não. Conta faço tudo. Tenho vontade de aprender muita coisa. Aprender ler isso tudo aí. Mas acho que não tenho cabeça boa pra aprender não.
175
Nome:
Nascimento:
Origem:
Morador desde:
Antônio Guimarães dos Santos
05 • 01 • 1945
Almenara • MG
1970
177
Nome: Zelita Francisca do Amaral
Eu sou de Teófilo Otoni. Minha mãe casou com meu pai e vivia uma vida muito boa. Eu tava
com três anos quando meu pai largou minha mãe. Minha mãe estava grávida do meu irmão, e
aí ela ganhou o Francisco. Meu pai gostava de outra mulher, e mãe não sabia quem era essa
mulher, ficava meio avessa com ele, mas não faltava nada. Ele bebia uma cachacinha com os
colegas, não tinha confusão com os dois não. Ele trabalhava com turno. Sabe o que é? Faz
aquela vala e sai lá na frente... caçar ouro dentro do chão. Ele passava até 30 dias sem chegar
em casa. Quando chegava era aquela alegria, ele trazia dinheiro, botava as coisas dentro de casa. Mas ele chegou, falou que não queria mãe mais, que ela caçasse o jeito dela, que ele ia caçar o jeito dele.
Minha mãe foi caçar um lugar de morar. Minha irmã mais velha, que estava com 16 anos, arrumou
um namorado. Mas ela não gostava dele não. Mas foi pelejando, até que ela casou com o rapaz. E
eles tinham uma fazenda. Tinha uma casa na fazenda lá, era dois irmãos que morava lá. E ele falou com mãe que ela podia ficar lá até arrumar um lugar pra ficar.
Aí mãe mudou de lá, nós mudamos. Mãe construiu um barracãozinho de pau a pico. A mulher nem o marido dela mexia com nós pra nada. Aí mãe foi trabalhar em outra fazenda. Fazia de
tudo. Ela deixava eu e Francisco em casa. Ela tava de resguardo de Francisco ainda. Deixava nós
dentro de casa com a porta amarrada no cipó pra onça não comer nós. Deixava eu e meu irmão em casa sozinho. Só nós dois. Ele novinho e eu com três aninhos. Ela saía com os outros dois mais velhos pra ir trabalhar e deixava nós presos. Na hora do almoço, ela vinha dar de mamar pra
Francisco e me dar comida. A comida que ela tinha de comer eu comia. Meus outros irmãos trabalhavam o dia inteiro. Comendo inhame, banana com farinha. A comida que ela tinha de comer
ela trazia pra mim. Eu nem sabia.
Deus abençoa que ela criou nós quatro. Na maior luta. Depois fomos pra Teófilo Otoni. Alugamos
uma casinha lá, baratinha. Aí meu irmão tirou carteira, eu comecei a trabalhar também. Mas o di-
nheiro todo era pra ela. Ela que via o que tava precisando dentro de casa. Eu não bolia com o dinheiro que recebia até botar na mão da minha mãe. Trabalhava era de doméstica. O que a patroa mandava eu fazer, eu fazia.
180
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
09 • 12 • 1947
Teófilo Otoni • MG
1964
Depois eu vim pra aqui pra Belo Horizonte. E mandava dinheiro pra ela na carta. Vim com a família
que eu trabalhava. A família pediu pra eu vir; mas chegou aqui e ela não dispensou a empregada, e eu precisei caçar serviço para trabalhar em outro lugar. Trabalhei então com uma dona na rua
Itapemirim. Aí, depois fui cuidando da minha vida sozinha, fui lutando. Depois recebi uma carta que
minha mãe tava muito ruinzinha em Teófilo Otoni e fui lá buscar ela. Morreu em minha companhia.
Busquei Francisco, mas antes tivesse deixado ele lá. Trouxe ele pra me ajudar a cuidar de minha mãe, mas aí aconteceu o que aconteceu. Minha mãe sofreu derrame e morreu. E eu fiquei, tô aqui.
Arrumei um namorado, o namorado botou um neném na minha barriga e comecei a sofrer. Mas
cuidei dos meninos. Arrumei um rapaz que ajudou a cuidar do meu menino. Tenho só um menino
homem, casado. Foi vivendo, vivendo, vivendo. Depois morreu. De coração. Bebeu muita pinga, morreu do coração.
Eu trabalhava de biscate, depois de camelô na rua. Vendia mexerica, laranja, sanduíche. Tinha
aqueles galetinho, eu comprava, fazia molho e vendia no pão pras pessoas. Vendia a semana inteira. O menino já me ajudava, já tava com oito anos. Lavava carro, vigiava carro, lá na Savassi. Ele não
gastava o dinheiro, recebia e me dava tudo na mão.
Faz pouco tempo, comecei a costurar. De vez em quando tiro um dinheiro, vou lá e compro uns paninhos. Ninguém me ensinou a mexer não, aprendi. Não sei fazer direito não, mas eu faço.
Eu não sou casada com ninguém não. Faz 17 anos que tô sozinha. Morei com o pai do meu menino.
Depois não arrumei ninguém não. Só arrumo homem que bebe cachaça, fuma cigarro, que eu de-
testo. Fuma porcaria. Fica doido. Pra que que eu quero essa qualidade de homem? Eu não bebo, eu não fumo. Eu não. Quero as coisas melhor pra mim, quero as coisas que arruina não.
A favela mais maravilhosa é essa aqui. Ruim é o pessoal, mas a terra não tem nada a ver. Nem
a terra, nem as casas. Fazendo pra viver, em qualquer lugar você vive. Mas se não fizer pra vi-
ver, não tem lugar que presta. Se eu não prestar, aqui não presta, nem nenhum lugar não presta. Porque eu que faço pra viver.
181
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
Zulmira Florentina de Jesus Santos
17 • 02 • 1958
Crisólita • MG
1992
183
Nome: Zulmira Florentina de Jesus Santos
Nasci em Crisólida, fica pros lado da Bahia. Eu vim pra cá com 19 anos. Vim com minhas irmãs, que
trabalhava aqui. Pai faleceu lá. Faleceu aqui, mas foi enterrado lá. Depois mãe veio pra cá. Mas mãe não mora aqui não, mora em Sabará. Eu tenho um monte de irmão. Perdi as conta!
Nunca estudei. Fez falta. Fez não, faz. Eu não saio sozinha. Pra pegar o ônibus eu pergunto. Sempre
deu certo. Quando eu vou na casa de mãe, as menina me leva. Meus irmãos tudo foram na escola,
sabe ler e sabe escrever. Eu que não, porque morava na roça, né? Aí mãe ia pra roça e eu fica-
va dentro de casa olhando menino, dos irmãos mais novos, e fazendo o serviço dentro de casa. Desde criança. Nós morava na roça. Aí depois nós mudamo pra Crisólida. Lá tinha escola, mas eu
tava trabalhando. Mãe mais pai trabalhavam na fazenda dos outros. Eles faziam lavoura. Eu queria, mas não pude estudar. Eu tinha que criar menino.
Trabalhei na lavoura também. Na hora que os meninos tava dormindo, eu pegava a enxadinha
e ia pra lavoura mais pai e mãe. Na hora que eles acordava, eu vinha embora olhar eles e fazer
comida. Lá em casa eu que fazia comida. Subia no banco pra alcançar o fogão. Fogão de lenha.
E areava panela no chão. As panelas ficavam limpinhas. Fazia arroz, fazia carne... fazia tudo. Se
tivesse, fazia uma verdura.
Tinha um rio perto, dava banho nos menino no rio. Voltava, cozinhava outra vez. Deixava os meninos dormindo e voltava pro rio pra ir esfregar roupa. Quando mãe chegava, já tava com roupa
lavada, comida pronta. E toda vida foi assim. Todo mundo ia pra roça, e eu ficava sozinha, com
Deus e os meninos pequenos. Teve uma vez que eu fui fazer o feijão, a panela estourou, me
queimou assim tudo. Doeu demais. Eu corri, queimada assim mesmo. Esperei mãe chegar da roça e mostrei eu assim, queimada, porque eu não sabia o que era bom pra queimadura. Ela
184
Nascimento:
Origem:
Moradora desde:
17 • 02 • 1958
Crisólita • MG
1977
chegou e botou um bocado de pó de café e pôs na minha perna. Ardeu até! Não tinha médico na roça não. Ficou a cicatriz.
Quando eu cheguei, eu fui trabalhar na casa de uma dona. Aí um o moço que morava aqui, chamava Tião, que é o meu marido, pai dos meninos, mandou falar comigo, queria me conhecer.
Mandou o endereço pra mim. Eu peguei o endereço e vim. Ele tava doente já, só não tava na
cama. Tava com problema de coluna. Aí eu falei: “Atrapalha essa coisa de velhice? Não. O que
vale é você gostar de mim e eu gostar de você. O que vale é isso”. Eu dormia no serviço na semana e vinha pra cá no sábado, aqui na Serra. Depois o menino da mulher passou de ano, e ela
mudou. Ela mudou, e eu vim embora pra cá. Saí do serviço, tinha que pegar três ônibus. Aí nós
casamos. Eu fazia faxina pros outro. Pegava um biquinho aqui, outro acolá. E ele trabalhando.
Depois que eu ganhei os meninos, quando eu ganhei a Tatiana, caçula, eu não trabalhei mais. Eu
tive uma depressão... quase que eu vou. Quase que eu morro.
Pra depressão passar, Tião me falou pra gente ir na Igreja Universal. Lá o pastor falou que eu ia morrer. Saí de lá e fui pro Tenório, ele fez a oração pra mim, e eu fui ficando boa. Aí nós até casamos; eu
vesti de branco e tudo. Eu tinha uns trinta e cinco anos ou mais. Já tinha os três meninos. Casou no padre, no civil, tudo direitinho. Aí eu tô nessa igreja até hoje.
Virei evangélica depois de vir pra cá. Eu e ele, ele também era evangélico. Antes de eu ser evangélica, eu tomava uma cervejinha, tomava uma pinguinha... de vez em quando. Mas agora acabou. Eu gosto de sair. Se eu tivesse dinheiro eu queria ir lá pra minha terra. Aqui eu vou lá embaixo, vou
na casa das minhas amiga. Num vou pro centro não. Antes eu ia Iá pro parque, ficava lá no parque
com os meninos, era bom.
185
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187
188
189
Índice Remissivo
Nome:
Nascimento:
Origem:
Moradores desde:
74
Ilda Sotéria Marta
80
Isaías Soares da Silva
22 • 04 • 1903 †
Rio Casca • MG
1950
27 • 07 • 1927
Água Branca • MG
1971
92
José Crispino da Silva
15 • 07 • 1940
São Francisco • MG
1954
120
Maria das Dores Domingo da Silva
01 • 04 • 1952
Mantena • MG
1983
130
Maria dos Anjosos Oliveira de Carvalho
21 • 10 • 1943
Teófilo Otoni
1973
140
Maria da Conceição Jordão Ribeiro
06 • 01 • 1941
Belo Horizonte • MG
1981
Crédito do Prefácio: Floriscena Estevam Carneiro da Silva
Professora e moradora da Comunidade da Serra
Margarete Leta
Professora nos curso de Arquitetura e Urbanismo da PUC Minas e UFMG
Editora Circuito
Rua Joaquim Silva, 98 , 2º andar, sala 201, Lapa, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, CEP 20241-110
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190
Expediente / Agradecimento / Patrocínio
Concepção / Idealização
Guilherme Cunha
Textos / Entrevistas
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Imagens
Guilherme Cunha
Produção
Guilherme Cunha
Produtores locais
Kelly Cristina, Luiz Barbosa dos Santos e Lúcia Pereira
Assistentes de produção
Maraíza da Silva e Ana Paula da Silva
Projeto Gráfico
Rafael Maia e Ricardo Donato
Diagramação
Rafael Maia e Ricardo Donato
Tratamento das imagens
Daniel Moreira e Guilherme Cunha
Revisão de texto
Cristiane Verediano
Transcrição de áudio
Laetitia Jourdan
Motorista
Edmilson de Jesus Miranda e Pedro Saraiva
Agradecimento À Associação Comunitária da Vila Santana do Cafezal pela parceria, pelo voto de confiança, pela acolhida carinhosa e por ter apostado conosco na realização deste projeto.
Aos estimados mentores da Associação Espírita Christopher Smith e aos amigos Alfredo Dias, Edson Gonçalves de Oliveira e José Alfredo Cardoso pelo apoio, confiança e pela presença sempre fraterna.
Em especial: Nadir Rodrigues Queiroz, “Dona Dirinha” , a Íris Lúcia Gonçalves Pereira e ao amigo Luiz Rodrigo Cerquira.
Patrocínio / FPC 1615/2012
191
CUNHA, Guilherme / TAVARES, Joana Memórias da Vila — Histórias dos moradores
da comunidade da Serra /
1ª ed. - Rio de Janeiro, Editora Circuito, 2015. 192 p. ISBN: 978-85-64022-82-9
1. Artes-Brasil 2. Fotografia 3. Artes Visuais
CDD - 700
Este livro foi impresso em 20 de janeiro de 2016 pela IPSIS Gráfica e Editora, com tiragem de 1000 exemplares. O corpo do texto utiliza as famílias tipográficas Aktiv Grotesk (Dalton Maag). Para o conteúdo das fichas utilizou-se a fonte Studio (Matt Kitto). O miolo foi impresso em papel Furioso 135 g/m2, e a capa em Cartão Duo Supremo 350g/m2.
Agência Brasileira do ISBN
ISBN 978-85-64022-82-9
9 788564 022829