Nº 132

Page 1

Ano 16 - Nº 132 - Janeiro/Fevereiro 2017

Distribuição Gratuita

Rio de Janeiro www.bafafa.com.br

ta s i v e r t En ques,

R

ar M a i c r ERJ uy Ga a reitor d

U

“A UERJ vai sair dessa” Os números da UERJ são impressionantes. A instituição, fundada em 1950, congrega cerca de 50 mil pessoas nos diversos campus no estado e na unidade principal no Maracanã. São 32 cursos de graduação que se desdobram em diferentes habilitações, licenciaturas e bacharelados. Apontada como a 5ª maior universidade do país e a 11ª da América Latina, ela atravessa a pior crise de sua história: salários, serviços terceirizados e até bolsas não estão sendo pagos por falta de repasses do Estado. Por conta das dificuldades, o ano letivo sequer começou.

NESTA : O EDIÇÃ

Em entrevista exclusiva ao Bafafá, o reitor da UERJ Ruy Garcia Marques faz uma radiografia da situação da universidade. Ele explica que apenas para manutenção precisa de R$ 90 milhões por ano e que em 2016 recebeu apenas R$ 15 milhões. “A minha utopia é regularizar o custeio e fazer investimentos”, segreda o professor e médico. E pede paciência: “Eu diria para os alunos que nem começaram que não percam o ânimo e a oportunidade de estudar numa excelente universidade. Que tenham paciência, nós vamos sair dessa”. Leia nas pags. 6 e 7

Emir Sader Leonardo Boff José Maria Rabelo Ângela Carrato Agamenon de Oliveira Rogeria Paiva Mauro Santayana Eliomar Coelho Ricardo Rabelo Marcelo Chalréo


www.bafafa.com.br

Rio de Janeiro - Janeiro/Fevereiro 2017

2

Editorial

Para onde vamos?

O jornal Bafafá 100% Opinião foi contemplado com a

expressar seu descontentamento em face de um governo cada

Medalha Tiradentes, a maior condecoração do Estado do Rio

vez mais rejeitado. O espetáculo impressionante de milhões

de Janeiro. A iniciativa partiu do deputado Eliomar Coelho em

de pessoas nas ruas, de Norte a Sul, gritando “Fora Temer”,

“reconhecimento aos relevantes serviços prestados à popula-

não pode deixar de ser visto como indisfarçável demonstração

ção do Estado”. Estamos muito honrados

da vontade popular.

e agradecidos a todos os colaboradores

e apoiadores que acreditam no projeto

tantas dúvidas e incertezas, é impossível

de um veículo alternativo que preza pelo

divisar o futuro, até mesmo de semanas

elevado nível do debate. Valeu Eliomar!

ou dias. O governo sobrevive por respi-

ração artificial, sem saber mesmo se em

A partir desta edição, passamos a

Num cenário assim assaltado por

circular bimensalmente e com mais foco

algum momento deixará a UTI.

no ambiente acadêmico. A maior parte de

nossa circulação hoje é na UFRJ, UFF,

jovens: para onde vamos? Ninguém tem a

UERJ e UNIRIO e nossa meta é expan-

bola de cristal para responder, principal-

Todos se perguntam, sobretudo os

dir para outras instituições de ensino, inclusive privadas e de

mente diante dos personagens que povoam a cena política.

outras cidades. Continuaremos a analisar temas nacionais e

O quadro é desconcertante segundo os melhores analistas.

a contribuir com o debate político-cultural do país.

Nós mesmos não temos uma resposta, embora reconhecendo

que o Brasil é maior que todas as crises.

O Carnaval propiciou aos brasileiros a oportunidade de

Onde encontrar: Associação Brasileira de Imprensa, Sindicato dos Jornalistas do Rio, São Paulo e BH, Ordem dos Advogados do Brasil, Sindicato dos Petroleiros, Escola de Comunicação, Instituto de Economia, Instituto de Filosofia, Escola de Serviço Social, Escola de Música, Instituto de Psicologia, Fórum de Ciência e Cultura, Faculdade de Direito, faculdades de Geografia, Geologia, Engenharia, Matemática, Química, Física, Meteorologia, Letras, Medicina, Enfermagem, Educação física, alojamento estudantil do Fundão, Coppe (UFRJ), UERJ, UFF (Campus Gragoatá e Praia Vermelha), Café Lamas, Fundição Progresso, Cordão da Bola Preta, Botequim Vaca Atolada, Bar do Gomez, Bar do Serginho, Bar do Mineiro, Casarão Ameno Resedá, Faculdade Hélio Alonso, Arquivo Nacional, Livraria Ouvidor (BH), Livraria Quixote (BH), Livraria Scriptum (BH), Livraria Cultural Ouro Preto (Ouro Preto), Sindicato dos Engenheiros e Bar Bip Bip, Café do Museu da República.

Diretor e Editor: Ricardo Rabelo - Mtb 21.204 (21) 3547-3699 bafafa@bafafa.com.br Diretora de marketing: Rogeria Paiva mercomidia@gmail.com

Direção de arte: PC Bastos bastos.pc@gmail.com Circulação: Distribuição gratuita e direcionada (universidades, bares, centros culturais, cinemas, sindicatos)

Praça: Rio de Janeiro São Paulo Belo Horizonte

Tiragem: 10.000 exemplares

Fotos capa: Mídia Ninja

Agradecimentos: Aos colaboradores desta edição.

Publicidade: (21) 3547-3699 mercomidia@gmail.com

Realização: Mercomidia Comunicação Bafafá 100% Opinião é uma publicação mensal.

Matérias, colunas e artigos assinados são de responsabilidade de seus autores. www.bafafa.com.br


www.bafafa.com.br

Rio de Janeiro - Janeiro/Fevereiro 2017

3

Destruir as empresas públicas para favorecer os negócios particulares José Maria Rabêlo* Partindo do mito tantas vezes desmentido pelos fatos, de que a iniciativa privada é sempre superior à ação do Estado, forças políticas conservadoras estão a caminho de impor ao Brasil gravíssimo retrocesso. O programa do governo Temer, ao refletir o pensamento privatista dos partidos que o apoiam, como o PSDB e o PMDB, sinaliza no sentido da progressiva eliminação da presença estatal no campo da atividade produtiva, mesmo nos mais essenciais. Assim se fez nas administrações de FHC e assim está sendo feito no governo Temer, inspirado no projeto Uma Ponte para o Futuro, do PMDB. Diz tal Ponte, que na verdade é um caminho para o fundo do poço, em um de seus trechos mais definidores: “Executar uma política de desenvolvimento centrada na iniciativa privada, por meio de transferências de ativos que se fizerem necessárias, concessões amplas em todas as áreas de logística e infraestrutura, parcerias para complementar a oferta de serviços públicos e retorno a regime anterior de concessões na área do petróleo...”. FHC entregou o que pode aos grupos particulares, a começar pela Vale, vendida a preço de banana, escândalo que supera todas as maracutaias atuais, inclusive as da Lava Jato. Recorde-se que ela foi negociada por menos de U$ 4 bilhões, quando seu valor de mercado era em torno de U$ 70 bilhões.

O receituário entreguista e antinacional tem neste momento alguns pontos considerados imprescindíveis, como o enfraquecimento e o desmonte da Petrobras e suas subsidiárias, transferindo o negócio do petróleo às corporações norte-americanas e europeias que o dominam em nível mundial. Para isso, estão sendo vendidas áreas expressivas do pré-sal e adotados novos critérios para a política de conteúdo local, em detrimento da indústria brasileira. Outro ponto do receituário entreguista é a exigência, para não dizer chantagem, de obrigar os governos estaduais em crise financeira a alienar suas empresas, como condição para a concessão de qualquer tipo de ajuda. No Rio, já foi aprovada a privatização da CEDAE, entregando a grupos privados que só buscam o lucro com o controle de um recurso fundamental à vida das pessoas. Em Minas, acham-se na mira a CEMIG (energia), a Copasa (água), a Codemig e o BDMG (desenvolvimento), tão importantes para a economia do Estado e o bem-estar de sua população. Felizmente, o governador Fernando Pimentel (PT) fez declarações peremptórias de que nenhuma dessas companhias será vendida. Em outras partes, como o Rio Grande do Sul, medidas estão sendo tomadas para a concretização da venda de instituições vitais para suas atividades produtivas, como o Banrisul. A política de privatização atende aos interesses dos grandes grupos corporativos, para o domínio completo da economia dos diversos países. Veja-se, por exemplo,

o que se passou no Brasil com a extinção dos bancos estaduais. À exceção do Banco do Brasil e da Caixa, que sobreviveram à razia demolidora dos bens públicos praticada pelos dois governos tucanos, temos hoje um oligopólio de três ou quatro instituições que impõem suas regras ao mercado, sem nenhuma preocupação com o interesse nacional ou de seus clientes. Nas nações de altos níveis de desenvolvimento econômico e social, como as europeias, a presença do setor estatal foi sempre relevante. A China, por seu lado, chegou em pouco mais de 50 anos à posição de segunda potência mundial, com a quase total estatização de sua produção. Os EUA, antes, superaram a grande depressão de 1929/30, com as medidas francamente intervencionistas na economia do programa New Deal, do presidente Roosevelt. No Brasil, o acentuado desenvolvimento que tivemos nas últimas oito décadas contou como fator decisivo a participação do Estado, tendo início com a implantação da Companhia Siderúrgica Nacional ainda no primeiro governo Vargas. Ocorreu depois a criação da Vale, da Petrobras, da Eletrobrás, do BNDES, da Telebrás, além de numerosas empresas estaduais, com as quais o Brasil deixou sua condição de país exclusivamente agrário, entrando para a relação das nações industrializadas. É lamentável que forças políticas comprometidas com o passado, agora no poder, tentem replicar o modelo de desenvolvimento que está fazendo água por todo o mundo. Essa aventura, na contramão da História, só nos poderá levar a uma catástrofe, aliás já vislumbrada no horizonte.

Explorando a essência do Rio bafafa.online agendabafafa bafafaonline

*Jornalista


www.bafafa.com.br

Rio de Janeiro - Janeiro/Fevereiro 2017

Artigo patrocinado

O mundo dá muitas voltas Agamenon de Oliveira A estratégia montada pelo grupo comandado por Temer e que se instalou no poder era bastante simples. Inventa-se um pretexto, constrói-se um discurso, deflagra-se o processo de impeachment de Dilma e o resto vem por gravidade. O discurso além de mentiroso inicialmente colou. A crise instalada com Dilma era fruto de um descontrole fiscal agravando a crise política. Retirada Dilma do proscênio tudo estaria resolvido, a crise fiscal e politica seriam contidas, superadas, o país voltaria a crescer e tudo estaria sob controle. E pagaram pra ver. O resultado é que, como alguém já falou, os fatos são obstinados e não respeitam previsões construídas em cima da mentira e da mistificação. O governo Temer nos dias de hoje é um retumbante fracasso reconhecido até pelos que lhe são próximos. O desemprego aumenta

e a economia está muito longe de sair da crise e voltar a crescer, embora pontualmente aqui e acolá apresente um indicador positivo. O que fez Temer então? Como governo tampão apressou-se em promover um conjunto de contrarreformas de caráter regressivo e altamente lesivas a maioria da população. Reforma da previdência, sem que haja déficit, respaldada em uma forte campanha de mídia e de porta-vozes de aluguel plantados na grande imprensa. A volta da terceirização ampla geral e irrestrita, para favorecer os empresários a diminuir seus custos e aumentar seus lucros. E está em curso uma contrarreforma das leis trabalhistas com a única finalidade de retirar direitos trabalhistas conquistados há décadas. De novo a sorte não acompanha o governo Temer. Com a debacle de seu governo e as últimas noticias do envolvimento da maior parte de seu grupo político, como Eliseu Padilha, Moreira Fran-

4

co e o ex-presidente do senado, Renan Calheiros em financiamentos de campanha oriundos de propinas, aprofundaram e apressaram a crise. Já se discute abertamente uma saída para breve. Qual o futuro de Temer. Que novo governo o substituirá? Ninguém sabe. Da nossa parte continuamos a defender uma profunda reforma política que restaure a normalidade na relação entre os três poderes, elimine o jogo fisiológico e a distribuição de benesses nos cargos públicos, modifique substancialmente o financiamento das campanhas eleitorais, hoje aprisionado pelo poder do dinheiro e que elege os piores representantes, erroneamente chamados de representantes do povo. Finalmente a construção de uma ampla frente política de esquerda para promover mais uma transição da ilegalidade á normalidade democrática.

Não há tempo a perder! Marcelo Chalréo* O Brasil vive uma quadra de profundo retrocesso social a exemplo da que já enfrentaram e enfrentam outros povos irmãos da América Latina e Caribe. A efêmera “pujança social” de recentes anos, baseada que foi em política de consumo de bens semiduráveis não durou muito, e não tinha como durar obviamente. Calcada em modelo de desonerações fiscais que, dentre alguns graves erros implicou na diminuição de arrecadação das receitas para a assistência social ( previdência inclusa) em benefício de empresas e empresários, da qual também se beneficiaram grandes trustes internacionais e de crédito/financiamento de médio prazo, esse “projeto” de fôlego curto e escasso não tinha como se sustenta por muito tempo, mas foi fundamental para manter e sustentar um governo de claro corte populista, que, uma vez esgotada sua possibilidade de atender aos anseios de maior acumulação capitalista, foi (o então) “projeto” / governo, por outro substituído e que tem por tarefa aprofundar ou fazer mais

rapidamente o que o anterior vinha fazendo a passos mais lentos, ainda que com alguma compensação de viés assistencialista, sem olvidar - como peça desse enredo de se ressuscitar ( em trágico repeteco da história ) a figura do “ do pai “ ou “ mãe “ dos pobres, para os quais as migalhas destinadas tiveram o peso do algodão doce das festas infantis de outrora e dos parques de diversão que ainda teimam e resistem nas periferias dos grandes centros. Agora, passada a festa, para a qual concorreram de modo indubitável significativa parcela do movimento sindical e inúmeros segmentos ditos populares, seja por cooptação, adesão acrítica ou simples oportunismo - que inexoravelmente se traduz hoje em profunda desorganização e desmobilização popular, para ficar no mínimo chega a conta e, obviamente, assaz salgada. Soma-se a isso, como já acima ligeiramente indicado, o despautério do estímulo ao consumo, onde as marcas e as modas valem mais do que tudo - você é o que você consome; o capitalismo precisa vender, e vende ! Em outras palavras, ao povo ou às massas (prefiro o segundo termo)

entregaram supérfluos, não direitos, e direitos básicos e universais como saúde, educação, urbanização, saneamento, cultura etc, que seguramente teriam o condão de constituir uma ordem social mais justa, igualitária e que rompesse a barreira da brutal concentração de renda o que certamente seria fundamental para um outro patamar de organização política e social, quiçá capaz de minimamente fazer frente ao retrocesso que ora vem se impondo. Mas como isso não se deu e não se dá, não sendo possível parir organização e luta da noite para o dia, necessário se fará um enorme, hercúleo esforço organizativo, de baixo para cima, horizontal, despido de populismo e populistas do passado ou do presente, articulado internacionalmente com outros povos em resistência e luta, para que se construa uma alternativa popular e que retome a pauta dos direitos essenciais das grandes massas que vagam pelas periferias de todos os países abocanhadas pelo desemprego, pela fome, pela miséria, pela violência e pela morte prematura. Não há tempo a perder!

*Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ


www.bafafa.com.br

Ricardo Rabelo Destino do país É uma grande incógnita o destino de nosso país. Amargando índices pífios de popularidade, Temer pisa em ovos e corre o risco de não completar o mandato que foi tirado de Dilma. A cada dia fica mais palpável Temer ser suspenso pelo TSE por uso indevido de caixa dois na campanha. Cabe agora descobrir se teremos novas eleições ou seremos obrigados a ver o Congresso assumir o papel de Colégio Eleitoral nomeando um presidente interino. O certo mesmo é eleições diretas para o novo governante ter legitimidade. Caso contrário, o país vai continuar na berlinda e brincando com fogo.

Pezão

A cada dia fica mais evidente que Pezão não tem mais condições de governar. Não há sequer sinal de melhora na economia do estado. Privatizar a CEDAE é um crime que afronta o bom senso. Como pode um homem que patina nas pesquisas e no governo ainda ter a audácia de vender um

dos poucos patrimônios que sobraram? Chega a ser criminoso!

Fora Temer!

É incrível a empáfia de repórteres e apresentadores da TV Globo quando o povo gritou “Fora Temer” no carnaval. Agiram como se fossem palavras ao vento, como sequer existissem. Essa emissora é o câncer do Brasil!

Alexandre Moraes foi nomeado ministro do Supremo. Já pensou se a Dilma nomeasse o José Eduardo Cardozo ministro do STF quando presidenta? O “quarto poder” ia subir nas tamancas! A mídia é artífice e sustentadora do golpe! E Temer é duplamente golpista. Agora indica comparsa para o STF para se livrar de represálias!

Vítima

Rio de Janeiro - Janeiro/Fevereiro 2017

ascensão que vem demonstrando equilíbrio em suas ações. Sem ele, a maior cidade da América Latina já estaria pegando fogo! Prender Boulos é literalmente atiçar o formigueiro!

Patético

Que coisa mais patética essa do prefeito de São Paulo ficar se vestindo de gari. Uma vez, duas, três... Francamente!

Urucubaca

Está aí o resultado da desfeita do prefeito/pastor Crivela com o carnaval carioca: os santos se rebelaram... Olha que cobri 10 anos a Marquês de Sapucaí e nunca vi acidentes com tantos feridos!

Pior

Quando achava que nada podia ficar pior, o

Boulos

Antes de qualquer coisa é preciso de polícia nas ruas. Sem ela, fica fácil para o marginal atacar impunemente. Se a cidade recebeu um injeção de recursos da ordem de 3 bilhões de reais com o turismo, o estado tem de fazer a sua parte. Espero que o prefeito Crivella procure o diálogo e não saia proibindo as agremiações de desfilar.

Medalha Tiradentes

Pergunta

Dona Marisa é a primeira vítima física do golpe jurídico-parlamentar-midiático!

5

Por onde anda o Calero? Este é sem dúvida o único governo no mundo que consegue abafar um escândalo com outro escândalo e todos eles ficam por isso mesmo!

O jornal Bafafá recebeu do deputado Eliomar Coelho a Medalha Tiradentes, a maior condecoração do Estado do Rio de Janeiro. A menor redação do mundo agradece! Valeu muito!

Bafafá no Facebook

Carnaval Criminalizar a atuação de Guilherme Boulos, líder dos Sem Teto, é um tiro no pé. Além de dar visibilidade a ele, mostra que as autoridades de São Paulo par tiram para “o tudo ou nada” contra os movimentos sociais. Boulos é uma liderança em

A violência pôde ser sentida em todos os blocos de carnaval. É preciso que as autoridades promovam um amplo diálogo com os blocos para minimizar o problema no ano que vem.

A nossa página no Facebook chegou a 35 mil seguidores. Nela você pode encontrar uma agenda seleta de opções de cultura e lazer no Rio de Janeiro. Confira, curta e indique para os amigos. Garanto que muitas coisas sugeridas somente o Bafafá leva até você. Vale conferir: www.facebook. com/bafafa.online


www.bafafa.com.br

Entrevista

Rio de Janeiro - Janeiro/Fevereiro 2017

6

Ruy Garcia Marques - reitor da UERJ Por Ricardo Rabelo

“A UERJ vai sair dessa” Os números da UERJ são impressionantes. A instituição, fundada em 1950, congrega cerca de 50 mil pessoas nos diversos campus no estado e na unidade principal no Maracanã. São 32 cursos de graduação que se desdobram em diferentes habilitações, licenciaturas e bacharelados. Apontada como a 5ª maior universidade do país e a 11ª da América Latina, ela atravessa a pior crise de sua história: salários, serviços terceirizados e até bolsas não estão sendo pagos por falta de repasses do Estado. Por conta das dificuldades, o ano letivo sequer começou. Em entrevista exclusiva ao Bafafá, o reitor da UERJ Ruy Garcia Marques faz uma radiografia da situação da universidade. Ele explica que apenas para manutenção precisa de R$ 90 milhões por ano e que em 2016 recebeu apenas R$ 15 milhões. “A minha utopia é regularizar o custeio e fazer investimentos”, segreda o professor e médico. E pede paciência: “Eu diria para os alunos que nem começaram que não percam o ânimo e a oportunidade de estudar numa excelente universidade. Que tenham paciência, nós vamos sair dessa”.

Qual é a real situação da em torno de R$ 1 bilhão por repassados os recursos nesUERJ? ano. Os recursos vêm do te- ta condição. Eu não pago A UERJ está vivendo a maior crise em 66 anos de história. Isso devido à dificuldade do governo do Estado e do próprio país. Desde final de 2014 começamos a sentir uma diminuição do financiamento da educação superior e das verbas para pesquisas. Não temos recebido os recursos para a manutenção. Preciso de pelo menos R$ 90 milhões anuais, o equivalente a R$ 7,5 milhões mensais, para pagamento das empresas terceirizadas. Em todo o ano de 2016 eu recebi apenas R$ 15 milhões.

souro estadual e dos nossos próprios meios oriundos de ser viços de tecnologia de ponta, como exames de DNA. Todos os exames de DNA forense são realizados aqui. Hoje, apenas 5% do nosso orçamento vêm desta fonte. Se conseguíssemos dobrar isso seria ótimo. Outra possibilidade de recursos é por meio de incrementos de convênios nacionais e internacionais.

O certo seria receber os repasses dos cofres do Estado sem atraso?

Sim, precisa receber seu orçamento em 12 parcelas Qual é orçamento da insti- sem atraso. Estamos pretuição? parando um processo para O orçamento da UERJ é exigir na justiça que sejam

“Não acredito no fechamento da UERJ”

nada, eu emito uma programação de desembolso (PD) A UERJ corre algum risco e o estado paga.

de fechar?

Tem alguma perspectiva de Eu usei essa expressão entrada de recursos? numa entrevista anterior no O secretário de Ciência e Tecnologia, Paulo Duque, qu e g e r e a U E R J , m e i n formou que já conversou com os fornecedores e eles aceitaram renegociar os contratos. E que no prazo de uma semana (até 15/03) as empresas estariam de volta à UERJ. No dia 17/03, em nova reunião do Fórum, iremos decidir sobre o retorno às aulas. No entanto, é indispensável o pagamento dos cotistas bolsistas, mais do que até o próprio salário.

sentido figurado. É impossível que o Estado permita o fechamento da 5ª maior universidade do país e a 11ª da América Latina. Não acredito em fechamento.

Existe alguma possibilidade de “federalização”?

Também não acredito. Se olharmos as universidades federais veremos que elas também estão em crise. O governador Pezão garantiu que não existe nenhum estudo visando a federaliza-


www.bafafa.com.br

ção da UERJ.

Como a reitoria está agindo para contornar os problemas?

Temos tido reuniões com o governador para encontrar s o l u ç õ e s . A i n te r l o c u ç ã o sempre existiu, por meio do secretário, ou diretamente.

E o corpo docente e os servidores, como estão sobrevivendo?

Eles perderam até a capacidade de pedir empréstimos bancários. Temos gente que está com o aluguel e até uma simples conta de luz atrasados. Falando em luz, nós só estamos com luz na UERJ por uma liminar da justiça, senão a Light já teria cortado.

gamento de salários de professores e servidores que não receberam integralmente o mês de janeiro. Para o salário de fevereiro ainda não tem nem calendário. Nem se fala mais no 13º de 2016. Cerca de 7.500 alunos cotistas que dependem de bolsas de R$ 400 para vir estudar também estão sem receber. Nós temos que recompor essa infraestrutura básica para pelo menos pagar a bolsa dos alunos cotistas e assim retornar às aulas. Temos realizado reuniões semanais do Fórum de Diretores de Unidades, que inclui o Campus no Maracanã e mais 13 unidades da UERJ. Avaliamos conjuntamente a situação do complexo para decidir quando voltar. Para isso, temos que ser responsáveis e ter condições mínimas de trabalho.

Rio de Janeiro - Janeiro/Fevereiro 2017

somos a universidade que mais tem projetos de extensão em todo o país. Se somar tudo é uma comunidade de 50 mil pessoas, maior que a maioria dos municípios do Estado do Rio de Janeiro.

E as matrículas dos alunos? Tudo certo?

Está sendo feita normalmente até o final de março para quem passou no vestibular de 2016. Para os alu-

7

do hospital Pedro Ernesto, depois professor de cirurgia geral e cheguei ao posto máximo da universidade que é a reitoria. Fico triste de chegar num momento tão difícil para o estado do Rio de Janeiro. Eu não tenho dúvida da grande universidade que é a UERJ. Temos dois ministros do STF que dão aula semanalmente. Eu diria para os alunos que nem começaram que não percam o ânimo e a opor-

“Não podemos abrir sem o restaurante universitário, sem manutenção dos elevadores e outros serviços como limpeza e segurança”. E as pesquisas como estão? Quando começam as aulas?

N ó s h av í a m o s p ro g r a mado para iniciar no dia 17 de janeiro. Em função dos atrasos no pagamento das empresas que prestam serviços à Universidade tivemos que adiar. Não podemos abrir sem o restaurante universitário, sem manutenção dos elevadores e outros serviços como limpeza e segurança. As empresas terceirizadas diminuíram o pessoal o que dificulta voltar a funcionar normalmente. Temos ainda atrasos significativos no pa-

A Fundação de Amparo à Pesquisa não perdeu a capacidade de financiamento de pesquisas. Os nossos pesquisadores continuam tendo projetos aprovados apesar do dinheiro não cair na conta.

nos concluintes estamos emitindo também os diplomas. Na verdade, a única atividade que não estamos realizando é a acadêmica. Estamos funcionando administrativamente. É importante manter Fale sobre os números da a universidade viva.

tunidade de estudar numa excelente universidade. Que tenham paciência, nós vamos sair dessa. Sou uma pessoa otimista e tenho certeza que isso vai passar.

UERJ

Qual mensagem que o senhor teria para os docentes, estudantes e a sociedade do Rio de Janeiro?

O senhor tem alguma utopia?

A minha utopia é regularizar o custeio e fazer investimentos. Eu digo que a universidade no fundo não é gratuita, é financiada pelo povo do estado do Rio de Janeiro. Não é trivial nem barato manter uma universidade de excelência como a UERJ.

A universidade tem crescido muito. Temos 28 mil alunos presenciais, 7 mil alunos de ensino a distância, 4.500 em pós-graduação mestrado e doutorado, 2.000 em pós-graduação lato sensus, 2.600 professores e 5.800 técnicos administrativos. E

Sou um apaixonado pela UERJ. Devo a ela toda a minha formação, entrei aqui com 18 anos no curso de medicina, me tornei médico


www.bafafa.com.br

Rio de Janeiro - Janeiro/Fevereiro 2017

8

Trump e a farsa da globalização Mauro Santayana* O fato de o IED - Investimento Estrangeiro Direto - ter se mantido historicamente alto na era Lula-Dilma - (na faixa dos 60, 70 bilhões de dólares por ano) e estar conservando o mesmo patamar agora, no atual governo, mostra que o Brasil não precisa rastejar, como um verme, para conseguir capital externo. E que, por mais que seja conservador, esse capital não pensa, radicalmente, o Brasil, com um viés cegamente ideológico, como certos segmentos mais mesquinhos e burros do capital nacional costumam fazer, de vez em quando, infelizmente, na maior parte das vezes, em detrimento próprio. Os estrangeiros investem no Brasil não apenas porque se trata de um país atraente, e eventualmente mais barato, como está agora, para aquisições, por causa do câmbio, mas principalmente porque somos um dos mais importantes mercados do mundo, onde todos precisam estar se quiserem crescer. Além de termos também a vantagem de poder contar com fundamentos macroeconômicos sólidos, como dívidas bruta, líquida e externa relativamente baixas, menores do que eram em 2002 e as sextas maiores reservas internacionais do planeta, que continuam nos conferindo, como mostram os dados oficiais do Tesouro dos EUA, a posição de quarto maior credor individual externo dos Estados Unidos. Desde que os ingleses impuseram aos chineses, com a vitória nas Guerras do Ópio, a obrigação de consumir essa substância, e a China teve que entregar Hong Kong à Inglaterra e abrir 50 portos ao comércio ocidental, muitos deles, a partir daí, ocupados permanentemente por navios de guerra britânicos, para assegurar o tráfico de drogas por parte da Grã Bretanha, ajudando a diminuir os déficits que os ingleses tinham com os chineses, que o mundo minimamente instruído sabe que o “livre” comércio é um subterfúgio colonial e uma tremenda balela. Existe uma globalização construtiva, estabelecida pela integração e a cooperação, com a busca do desenvolvimento e da paz, principalmente no sentido sul-sul, como ocorre no caso do BRICS, da UNASUL e da CELAC, por exemplo. E existe a globalização dos salões dos convescotes de Davos, da OCDE, do TPP e da malfadada Aliança do Pacífico, a globalização tout court. Um conto do vigário que favorece as nações mais fortes contra as mais fracas, e, cada vez mais, o interesse das multinacionais e dos grandes grupos econômicos, em detrimento dos países e de seus povos, de forma a explorar seus mercados, insumos e recursos naturais, sua “vocação” e capacidade produtiva, sua mão de obra, seus indivíduos, não para obter um desenvolvimento mais equilibrado e justo da Humanidade, mas para alcançar o mais exagerado, avassalador e egoísta lucro possível. O que distingue as nações bem sucedidas daquelas que chafurdam no barro do subdesenvolvimento é a presença do Estado como elemento fiscalizador e indutor do avanço nacional, para conduzir os países em meio aos desafios e oportunidades de um mundo cada vez menor, assegurando uma forte presença do capital estatal na economia, o decidido apoio a empresas locais, e a utilização de uma “livre” iniciativa que na verdade não pode ser absolutamente, totalmente “livre” na medida em que deve servir também como instrumento para a promoção social e estratégica do progresso nacional, em prol da criação de empregos, da melhora da renda, e da conquista do desenvolvimento, com investimentos induzidos, obrigatórios, se for o caso, em áreas como a infraestrutura, a tecnologia e a defesa, por exemplo. É isso que os EUA já faziam, antes de Trump, com a compra, com a utilização de bilhões de dólares do Tesouro, de ações de empresas norte-americanas para que estas não quebrassem, na crise de 2008. Imaginem se fosse tentado fazer o mesmo com a Petrobras, no Brasil, com o uso de uma parte mínima, que fosse, do 1.5 trilhão de reais que temos em reservas internacionais, para fazer frente à crise que atingiu a companhia, sobretudo, com a queda do preço do petróleo. O governo que tomasse essa atitude seria imediatamente taxado de comunista e os fascistas ocupariam as ruas com seus patos, bonecos infláveis e outros utensílios de borracha - para derrubar o Presidente da República. No entanto, foi esse tipo de estratégia que a China adotou, de forma persistente, nas últimas quatro décadas, para superar séculos de domínio ocidental, e a que a está levando ao topo entre os principais países do mundo. Confiantes no tamanho do seu mercado e no seu destino de potência, que existe como

estado organizado há cinco mil anos, os chineses - ao contrário do que afirmam os trolls mendazes e desinformados que pululam em nossas redes sociais - fecharam, primeiro, no lugar de escancarar, suas fronteiras ao capital estrangeiro, depois da vitória da revolução e só as abriram, seletivamente, para parceiros escolhidos a dedo, quando se consideraram seguros o suficiente para isso, exigindo-lhes transferência de tecnologia e aporte de capital, em regime quase sempre de joint-venture minoritária com empresas estatais locais. Ao mesmo tempo em que criavam, por outro lado, uma nova burguesia, capaz de competir e de vender ao resto do mundo, desde que ela se mantivesse submetida, políticamente, ao projeto nacional chinês, tanto do ponto de vista interno quanto do externo, na conquista de novos mercados e na compra, de forma regulada e dirigida, de empresas estrangeiras que pudessem contribuir estrategicamente para a vitoriosa consecução desse projeto. A mesma burguesia que estamos destruindo no Brasil, neste momento, com a quebra programada, judicializada, de nossas maiores empresas, justamente as que possuíam uma forte presença internacional. Ora, a diferença entre grandes e pequenos países, é que os primeiros perseguem continuamente seus interesses, e muitas vezes o fazem - quando não é possível estabelecer uma permanente aliança - colocando-os acima dos anseios da própria iniciativa privada, que deve se submeter, em última instância, à coletividade, ou, no mínimo, ao projeto de poder de suas nações de origem. Independentemente de seu rancoroso anti-islamismo, de seu mal disfarçado apoio aos supremacistas brancos, de sua política fascista e higienista, que pretende expulsar e impedir a chegada de imigrantes e matar pobres e negros por falta de assistência médica, com o fim, entre outras coisas, do Obamacare; e de sua intenção de reabrir as prisões clandestinas da CIA; do ponto de vista econômico o que Trump quer fazer, desta vez de forma clara, descaradamente, sem subterfúgios, nos Estados Unidos, é, de certa maneira, a mesma coisa que os governos comunistas estão fazendo na China. Ele vai aprofundar e organizar, minimamente, a relação siamesa que sempre houve entre a iniciativa privada norte-americana e os governos dos EUA, principalmente os mais conservadores, desde a Guerra de Independência contra a Inglaterra, usando como fator estratégico o seu vasto mercado, para fazer frente à “globalização”. Desse projeto faz parte exigir, em troca de acesso aos consumidores dos EUA, a manutenção de fábricas e a criação de empregos dentro do país, mesmo para as grandes empresas multinacionais originalmente norte-americanas, e obter contrapartidas de qualquer empresa estrangeira que queira exportar para os Estados Unidos, como a cobrança de impostos, por exemplo. Se a China, segunda maior economia do mundo, faz isso todo o tempo, se a Europa é uma fortaleza protecionista, que sobretaxa ou regula até a entrada de alimentos, porque os EUA, como maior mercado do mundo, não se utilizariam dessa condição geopolítica em seu próprio benefício? - deve estar pensado, por baixo da peruca ruiva, o mais novo e topetudo ocupante da Casa Branca. Com a eventual saída dos Estados Unidos do Acordo Transpacífico e do NAFTA (cujas consequências para o México foram déficits comerciais cada vez maiores e uma queda na renda da população, que hoje é menor, em dólar, do que era antes do acordo) Trump está abrindo, indubitavelmente - quer se goste ou não disso - uma nova era para os EUA. Resta saber se de alguma forma isso servirá de lição para as elites, a plutocracia e o governo brasileiros, sempre tão babosos com tudo o que ocorre nos Estados Unidos da América do Norte, abrindo-lhes os olhos para o que está acontecendo no mundo, no sentido da necessidade de um projeto estratégico, nacionalista e desenvolvimentista para este país, ou se isso servirá para que o Brasil vista definitivamente, agora com suas grandes empresas e projetos praticamente destruídos - sela, freio, pelego, cabresto e ferraduras, para aprofundar nossa abjeta subalternidade e a entrega de nossas riquezas e mercados ao exterior, por meio entre outras medidas impensadas, de uma acelerada entrada do país no TPP, e em um precipitado ou mal negociado acordo, entre o Mercosul e a União Europeia. Na contramão do que estão fazendo as nações e regiões mais poderosas e mais fortes (não há ninguém mais protecionista que os EUA, a China e a Europa) que dividem conosco o primeiro pelotão da economia mundial ao fim deste primeiro quarto do século XXI. *Jornalista e escritor, publicado no site www.maurosantayana.com


www.bafafa.com.br

Rio de Janeiro - Janeiro/Fevereiro 2017

9

Lula, a saída do labirinto Ângela Carrato* Um golpe de estado possui incríveis semelhanças com um labirinto. Uma vez dentro dele, as saídas não são fáceis. Elas existem, não resta dúvida, mas qualquer vacilo dos setores democráticos pode retardar em muito o processo, aprofundando os problemas e causando ainda mais danos à população e ao país. É exatamente num labirinto que se encontra o Brasil. Há 10 meses, um governo ilegítimo assumiu o poder e, de lá para cá, o país está descendo a ladeira num ritmo tão vertiginoso quanto perigoso. O Brasil do pleno emprego da era PT deu lugar a legiões de desempregados, que já ultrapassam sete milhões de pessoas. Indústrias como a da construção civil e a naval, empregadoras intensivas de mão de obras, foram destruídas a pretexto de se combater a corrupção, através da ridícula Operação Lava Jato, conduzida pelo desmoralizado juiz golpista Moro. A grande maioria dos paneleiros e midiotas que foi às ruas, atendendo aos apelos da mídia corporativa, exigir a saída da presidente Dilma Rousseff, está envergonhada. Perceberam que deram um tiro no pé, ao aceitarem ser usados como massa de manobra de uma classe dominante que tem compromisso apenas com seus próprios interesses e os interesses internacionais aos quais servem de forma vassala. As promessas estampadas pela mídia que bastava tirar o PT do poder para tudo melhorar desembocaram na maior crise econômica vivida pelo Brasil desde 1929. Crise que atesta a incapacidade do governo Michel Temer, com suas medidas recessivas, antipopulares e antinacionais, para recolocar o

país na rota do desenvolvimento. Some-se a isso a falta de legitimidade de Temer, de seus ministros e auxiliares diretos marcados por denúncias comprovadas de corrupção de toda ordem. Denúncias que, com o apoio e respaldo da mídia, de parte da justiça e da maioria dos integrantes do Congresso Nacional, comprados a peso de ouro, para aprovar o golpe travestido de “impeachment”, tentam a todo custo, imputar a Lula, Dilma e ao PT. Não é por acaso que Lula vem sendo alvo de uma verdadeira caçada, cujo objetivo é impedir sua candidatura nas eleições presidenciais de 2018. Com 85% de aprovação popular e liderando, em todos os cenários, as pesquisas de opinião pública, Lula vence qualquer candidato que a direita possa lançar. E, pelo visto, a direita continua sem nomes. O tucano Aécio Neves, o inconformado com a derrota que deu origem ao golpe, se transformou num dos mais desmoralizados políticos brasileiros, colecionando dezenas de delações por recebimento de propinas e atividades ilegais de tipos diversos. O mesmo pode ser dito dos peemedebistas, partido a que pertence Michel Temer. Nesta agremiação também faltam nomes que possam ganhar em eleições limpas e diretas. Por mais que a perseguição a Lula tenha sido e continue algo absurdo, digno de regimes fascistas e nazistas, ele continua de pé e com mais força do que nunca. O terrível sofrimento a ele imposto pelos golpistas que levaram sua esposa, dona Marisa Letícia à morte, teve efeito contrário. O estadista Lula está cada dia maior, mais sereno e plenamente capacitado para, junto com o povo brasileiro, encontrar a saída para o labirinto em que nos encontramos. No dia 3 de abril, Lula irá a Curitiba para enfrentar, cara a cara,

o juiz Moro. Todas as 68 testemunhas elencadas no processo contra ele, inclusive as indicadas por Moro, atestaram a sua inocência. Lula nunca foi dono de apartamento triplex em Guarujá e muito menos de um sítio em Atibaia. D e n ú n c i a s formuladas por Moro e que tentavam encontrar um elo entre o ex-presidente e empreiteiras denunciadas por pagamentos de propinas em contratos com a Petrobras. Aliás, o que Moro encontrou foram relatos e denúncias de pagamentos de propinas a peemedebista e a tucanos que ele, como um juiz a serviço do golpe, tenta desconhecer e desqualificar. Como têm dito os advogados de defesa de Lula, as atitudes de Moro são incompatíveis com as de um magistrado. E a Comissão de Direitos Humanos da ONU, por solicitação dos advogados de Lula, está monitorando os passos de Moro. Para desespero dos golpistas, toda a perseguição que impuseram a Lula está se voltando contra eles. As manifestações de rua, que tendem a se intensificar, deixam nítido que a população sente saudades de Lula. A população também começa a perceber as manipulações da mídia e não aceita mais ver o Brasil metido na bandalheira em que se encontra. Os próximos meses serão decisivos. Dependerá da pressão das ruas, combinada com a capacidade de articulação das forças progressistas, a saída do labirinto ou o aprofundamento da crise, com consequências imprevisíveis. Lula já deixou claro que aceita o desafio. Mais ainda, apresentou um programa para retomada do crescimento e, agora, de volta à direção do PT, tudo fará para colocá-lo em prática. A saída tanto pode ser através de eleições diretas gerais já ou da articulação de um governo transitório de salvação nacional, sem a presença dos golpistas. Em todos os cenários, Lula é a peça chave. *Jornalista e professora da UFMG.

O Brasil não tem mais política internacional Emir Sader* Uma política internacional supõe uma visão do mundo e projeta o lugar que o país quer ocupar no mundo. Santiago Dantas tinha formulado uma política internacional para o Brasil. A ditadura militar tinha formulado outra. Esta se inseria no mundo da guerra fria. Desde que esta terminou, a direita brasileira não conseguiu formular uma política internacional. A do governo FHC foi a da simples subordinação aos interesses dos EUA, sem nenhuma definição específica do papel do Brasil. A partir do governo Lula, o Brasil voltou a ter uma política externa soberana, a partir de uma visão dos grandes conflitos mundiais, da visão do Sul do mundo, da possível emergência de um mundo multipolar. O governo do golpe não tem política internacional, por isso colocou no cargo de ministro de Relações Exteriores dois conspícuos e irrelevantes representantes do finado mundo da guerra fria. Tanto Serra como quem o sucede, Aloysio Nunes, projetam no campo internacional, de forma mecânica, os enfrentamentos da direita dentro do Brasil. Atacam governos progressistas com a mesma fúria com que atacam o PT, os sindicatos, os opositores ao golpe. Ainda mais depois do Brexit e do triunfo de Donald Trump, essa postura ficou ainda mais anacrônica. Quem representa o quê? Trump seria “o partido republicano de porre”, segundo o pitbull, que aparentemente o mandaria

para aquele lugar, se cruzasse com ele. Órfãos de Hillary Clinton, não sabem para onde correr sem um governo norte-americano como aquele a que estavam acostumados a tirar os sapatos. Eles nem sabem dessa disposição do governo golpista. Mesmo tendo falado ou recebido a mais de 30 chefes de Estado, Trump mandou seu vice falar com Temer – ligou para o Jaburu, provavelmente -, de vice a vice. Que visão de mundo supõe essa política dos golpistas? O da guerra fria, o da diabolização da Rússia e da China, o da exaltação do destino manifesto dos EUA, o da hostilidade a Cuba e à Venezuela, o do papel de aliado privilegiado, mas absolutamente subalterno do Brasil. E se esse mundo não existisse mais? E se os EUA retornassem a uma política protecionista? E se as duas cabeças do bloco imperialista desde há mais de um século se distanciassem da globalização neoliberal e renunciassem a seguir dando condução a esse bloco, como ele existiu até agora? Seria pedir muito aos tucanos que, derrotados sucessivamente nas eleições, de repente invadem o Itamaraty e colocam em prática não uma política, mas uma postura de hostilidade a inimigos externos, destruindo tudo o que foi construído ao longo deste século. Deixando o Brasil na situação mais ridícula que ele jamais ocupou no plano internacional.

Não ha política internacional do governo golpista, porque ele só tem uma visão de ajuste fiscal no plano interno, que corresponderia, no plano internacional, às desastradas políticas de austeridade da União Europeia, que perpetuam a recessão econômica desde 2008, sem prazo para terminar. Um acoplamento à politica do governo de Mauricio Macri que, igual que o de MT, não tem nenhum índice positivo a apresentar. Porque as políticas de ajuste fiscal fracassaram no mundo todo. Em nenhum lugar sua aplicação levou à retomada prometida do crescimento. Esse vazio, típico de um governo aventureiro, que assaltou o poder com os políticos mais corruptos da história do país, justamente quando as transformações no mundo requerem uma nova política internacional, que aponte para o surgimento de um novo mundo multipolar, que começa a surgir. Um mundo que pode ter na América Latina de novo um grande protagonista, com as eleições de 2018, podendo recolocar o Brasil nessa nova dinâmica, ter o México e a Argentina somando-se a ela. Mas para isso é preciso compreender o mundo realmente existente, mais além das mentalidades de focinheira que se apropriaram do Itamaraty pela via do golpe. *Sociólogo e professor, publicado no site 247


www.bafafa.com.br

Rio de Janeiro - Janeiro/Fevereiro 2017

10

Existe vida extra-terrestre? Leonardo Boff* Cientistas da Nasa descobriram uma estrela Trappist-1, distante 39 anos luz da Terra, com sete planetas rochosos, três dos quais com possibilidade de água e assim de vida. Esta descoberta recolocou a questão de eventual vida extra-terrestre. Façamos alguns reflexões sobre o tema, fundadas em nomes notáveis na área. As ciências da Terra e os conhecimentos advindos da nova cosmologia nos habituaram a situar todas as questões no quadro da grande evolução cósmica. Tudo está em processo de gênese, condição para surgir a vida. A vida é tida como a realidade mais complexa e misteriosa do universo. O fato é que há cerca de 3,8 bilhões de anos, num oceano ou num brejo primordial, sob a ação de tempestades inimagináveis de raios, de elementos cósmicos do próprio Sol em interação com a geoquímica da Terra, esta levou até à exaustão a complexidade das formas inanimadas. De repente, ultrapassou-se a barreira: estruturaram-se cerca de 20 aminoácidos e quatro bases fosfatas. Como num imenso relâmpago que cai sobre o mar ou brejo, irrompeu a primeiro ser vivo. Como um salto qualitativo em nosso espaço-tempo curvo, num canto de nossa galáxia média, num sol secundário, num planeta de quantité négligeable, na Terra, emergiu a grande novidade: a vida. A Terra passou por 15 grandes dizimações em massa, mas como se fora uma praga, a vida jamais foi extinta. Vejamos, rapidamente, a lógica interna que permitiu a eclosão da vida. À medida que avançam em seu processo de expansão, a matéria e a energia do universo tendem a se tornar cada vez mais complexas. Cada sistema se encontra num jogo de interação, numa dança de troca de matéria e de

energia, num diálogo permanente com o seu meio, retendo informações. Biólogos e bioquímicos, como Ilya Prigogine (prêmio Nobel em química, 1977), afirmam que vigora uma continuidade entre os seres vivos e inertes. Não precisamos recorrer a um princípio transcendente e externo para explicar o surgimento da vida, como o fazem, comumente, as religiões e a cosmologia clássica. Basta que o princípio de complexificação, auto-organização e autocriação de tudo, também da vida, chamado de princípio cosmogênico, estivesse embrionariamente naquele pontozinho ínfimo, emerso da Energia de Fundo, que depois explodiu. Um dos mais importantes físicos da atualidade, Amit Goswami, sustenta a tese de que o universo é matematicamente inconsistente sem a existência de um princípio ordenador supremo, Deus. Por isso, para ele, o universo é autoconsciente (O universo autoconsciente,Rio 1998). A Terra não detém o privilégio da vida. Segundo Christiann de Duve, prêmio Nobel de biologia (1974): “Há tantos planetas vivos no universo quanto há planetas capazes de gerar e sustentar a vida. Uma estimativa conservadora eleva o número à casa dos milhões. Trilhões de biosferas costeiam o espaço em trilhões de planetas, canalizando matéria e energia em fluxos criativos de evolução. Para qualquer direção do espaço que olhemos, há vida (...). O universo não é o cosmo inerte dos físicos, com uma pitada a mais de vida por precaução. O universo é vida com a necessária estrutura à sua volta”(Poeira vital: a vida como imperativo cósmico. Rio de Janeiro, 1997, 383). É mérito da astronomia, na faixa milimétrica, ter identificado um conjunto das moléculas nas quais se encontra tudo o que é essencial para dar início ao processo de síntese

biológica (Longair, M. As origens do nosso universo, Rio de Janeiro, 1994, 65-6). Nos meteoritos, encontraram-se aminoácidos. Esses, sim, são os eventuais portadores das arquibactérias da vida. Houve, provavelmente, vários começos da vida, muitos frustrados, até que um definitivamente se firmou. Presume-se que as mais diversas formas de vida originaram-se todas de uma única bactéria originária (Wilson, O . E., A diversidade da vida, São Paulo, 1994). Com os mamíferos, surgiu uma nova qualidade da vida, a sensibilidade emocional e o cuidado. Dentre os mamíferos, há cerca de 70 milhões de anos, destacam-se os primatas, e depois, por volta de 35 milhões de anos, os primatas superiores, nossos avós genealógicos, e há 17 milhões de anos, nossos predecessores, os hominidas. Há cerca e 8-10 milhões de anos, emergiu na África o ser humano, o australopiteco. Por fim apareceu, há 100 mil o Homo sapiens-sapiens/demens-demens do qual somos herdeiros imediatos (Reeves, H. e outros, A mais bela história do mundo, Petrópolis, 1998). A vida não é fruto do acaso (contra Jacques Monod, O acaso e a necessidade, Petrópolis, 1979). Bioquímicos e biológicos moleculares mostraram (graças aos computadores de números aleatórios) a impossibilidade matemática do acaso puro e simples. Para que os aminoácidos e as duas mil enzimas subjacentes pudessem se aproximar e formar uma célula viva, seriam necessários trilhões e trilhões de anos, mais do que os 13,7 bilhões de anos, a idade do universo. O assim chamado acaso é expressão de nossa ignorância. Estimamos que a evolução ascendente é produzir mais e mais vida, também extra-terrestre. *Teólogo e escritor, publicado no JB Online

Impeachment de Pezão Já! Eliomar Coelho * Em primeiro lugar, ‘Fora Pezão!’. O PMDB de Cabral e Cunha, presos, e que continua com Pezão, não reúne as condições mínimas para governar. Ao não aplicar o repasse mínimo de 12% para a Saúde em 2016, determinado pela Constituição, Pezão cometeu crime de responsabilidade. Por isso, pedimos (bancada do PSOL) o seu impeachment e o do seu vice, Dornelles. Não repassar recursos para a Saúde é um ato criminoso. Coloca em risco a vida de milhões de pessoas, que esperam horas nas filas dos hospitais. Faltam insumos básicos. Médicos estão com salários atrasados e fornecedores, sem receber há meses. Outros pontos destacados no pedido de impeachment afetam a vida de milhares de trabalhadores. Entre eles, o rombo da previdência estadual; isenções fiscais dadas a empresas próximas ao governo; e o endividamento irresponsável do governo estadual, que chegou ao ponto de pedir empréstimo para pagar outro. A crise que quebrou o Rio de Janeiro tem nome e sobrenome: o PMDB de Cabral, Pezão e Temer! Sua política desastrosa vem punindo, de forma perversa e brutal, não só o servidor público ativo, aposentado e pensionista, como também a população em geral, castigada com aumento de impostos. Mesmo assim, na base do toma lá dá cá, Pezão conseguiu aprovar na Alerj a venda da Cedae (O PSOL votou contra). A água é um bem precioso, vital para a população, e não pode servir de negociata para salvar o PMDB de Pezão. No ano passado, ao enviar o primeiro Pacote de Maldades, a Cedae não era sequer mencionada. Aliás, a maioria das medidas era inconstitucional. Foram devolvidas. Ao reenviar

o Pacote de Maldades 2.0, igualmente ruim, o governo incluiu a Cedae, a única empresa pública que dá lucro ao estado. Apenas nos últimos quatros anos, reforçou o caixa em R$ 1,5 bilhão! Então, por que Pezão quer entregar a Cedae? Para pegar mais um empréstimo, desta vez de R$ 3,5 bilhões. É um absurdo! Sabemos que não vai resolver o problema. Pelo contrário, como uma bola de neve, o endividamento cresce perigosamente. E a tarifa social, que protege milhões de pessoas, corre sério risco de desaparecer, punindo ainda mais os trabalhadores pobres. O novo pacote do governo ainda prevê dobrar a contribuição previdenciária dos servidores de 11% para 22%. Enquanto isso, servidores ativos, aposentados e pensionistas continuam sem receber em dia, sendo que grande parte não viu a cor do 13º salário de 2016. A educação pública está completamente sucateada. Ninguém sabe quando começam as aulas da Uerj, uma das melhores universidades do país. A Uenf e a Uezo enfrentam problemas semelhantes. Os alunos do CAp-Uerj, uma das escolas mais concorridas do Rio, não terminaram o ano letivo de 2016 e não têm previsão de volta as aulas!!! São aproximadamente mil crianças sem aulas!!! O Hospital Pedro Ernesto agoniza. Os serviços de transportes no Rio são os piores do país. De 2010 a 2015, a dívida pública saltou de R$ 59,2 bilhões para R$ 107,6. É, disparado, o maior aumento de dívida no Brasil, e esses números precisam ser auditados. No período de 2007 a 2015, a economia do Rio de Janeiro foi um desastre. Ocupa a penúltima colocação em crescimento econômico e na geração de empregos e está entre os últimos na produção industrial. A farra dos benefícios

fiscais dados a empresas, sem controle, algumas delas doadoras de campanha para o PMDB, foi, certamente, uma das causas que ajudaram o Rio a afundar. Nem o governo do estado sabe quanto perde com benefícios fiscais: os números variam de R$ 185 bilhões (dados do TCE) até R$ 47 bilhões, reconhecidos pela Fazenda estadual. Não existe o mínimo de transparência, como, por exemplo, a construção de uma creche como contrapartida. Tampouco há monitoramento e avaliação ao final do processo. Por isso, cobrei recentemente na tribuna da Alerj a CPI das Isenções Fiscais. Precisamos com urgência abrir essa caixa-preta. Não ouvimos uma palavra, uma ação do governo para cobrar parte da Dívida Ativa, que passou de R$ 66 bilhões para R$ 69,5 bilhões, em 2016. A diferença de R$ 3,5 bilhões é justamente o valor do empréstimo que o governo estadual vai pegar no acordo fechado com a União. Nosso mandato defendeu que a Dívida Ativa fosse usada como garantia no acordo com o governo federal, no lugar da Cedae. Mas o governo acionou a sua bancada, que, juntamente, com seus aliados, rejeitaram a nossa proposta. No campo político, o governo está à deriva. Pezão não tem a menor credibilidade. Envolvido em escândalo com indício de recebimento de propina em anotações encontradas na casa de um preso na Operação Calicute, Pezão terá que se explicar. Como se não bastasse, como já dissemos, o TRE-RJ cassou o mandato de Pezão e Dornelles. Ainda há recurso, mas o estrago está feito. A própria decisão dos desembargadores aponta a única saída para o Rio de Janeiro: a convocação de novas eleições. O povo tem que assumir neste momento o protagonismo, até mesmo porque quem gerou a crise não será capaz de propor soluções para a superação dela. *Deputado Estadual PSOL-RJ


www.bafafa.com.br

Violência contra a mulher Centenas de milhares de mulheres sofrem diversos tipos de violência todos os anos no Brasil, especialmente as mulheres negras e jovens. Em 2014, pelo menos 4.700 mulheres foram assassinadas no país. Em 2015, foram mais de 45 mil casos de estupro registrados, e este número é potencialmente muito maior, pois é subnotificado. Estima-se que, anualmente, sejam mais de 500 mil casos de estupro ou tentativa de estupro no Brasil. Para combater essa grave situação, uma CPI do Senado e da Câmara propôs o PL7371/2014, que cria o Fundo Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres. Em um Congresso onde, atualmente, 90% dos parlamentares são homens, era de se esperar que se enfrentasse alguma dificuldade na aprovação do projeto. Um grupo de deputados quer modificar o projeto para restringir o atendimento às sobreviventes de violência sexual. Alguns deputados querem barrar a iniciativa e deixar tudo como está. Assine para enviar um e-mail às lideranças dos partidos e para o Presidente da Câmara dos Deputados exigindo que eles exerçam seu papel de aprovar leis que respeitem e promovam os direitos das mulheres, e que não aprovem qualquer legislação que retire, negue ou restrinja direitos já conquistados. Assine agora: https://anistia.org.br/entre-em-acao/email/e-pela-vida-das-mulheres/ Fonte: Anistia Internacional

O carnaval azul do Rio de Janeiro Não é de hoje que o Carnaval de Rua do Rio vem perdendo seu colorido e liberdade. A Boa, que seduz com patrocínios, bebidas e tantas coisas mais, se transformou na Má. Grandiosa e onipresente, ela destrói aos poucos o nosso carnaval. Duvida? Pegue suas fotos da folia e veja. Ela está lá, num inocente chapéu azul, num ambulante ou numa decoração de carnaval. Enfim, nem mesmo os blocos rebeldes, os “não oficiais” escapam disso. Por falta de conhecimento ou na busca irracional pelo lucro, essa onda azul está pasteurizando nossa festa cultural. Os blocos de carnaval estão sendo tratados como um bloco só. Suas identidades estão sendo ignoradas e desrespeitadas. Nesse ano, por conta de um mísero apoio em mercadorias, um tradicional bloco de marchinhas teve seu local invadido por um carro de som do “patrocinador” que tocava até funk. Inacreditável. “Por favor, moço, dá para baixar o seu som que o bloco está aqui do lado?” Ignorância ou prepotência? Estimulados pelo marketing irresponsável das empresas patrocinadoras e do próprio poder público, muitos foliões chegam de todos os cantos interessados apenas em bebedeira e pegação. O resultado são brigas, furtos, lixo, xixi, vômitos, caos, etc. Carnaval não é só isso, minha gente! É cultura, música, fantasia, brincadeira, irreverência e confraternização. Mas, enquanto o público e os encargos aumentam, a verba para os blocos diminui. Se continuar assim, ficarão somente

Rio de Janeiro - Janeiro/Fevereiro 2017

os blocos comerciais, sem compromisso com a cultura do Rio e o carioca voltará a fugir da cidade. Que pena. Há quinze anos, o Bloco Bafafá participou, junto com outros blocos, da retomada do carnaval de rua. Apesar das dificuldades, sempre foi divertido e queremos que continue a ser para todos. Por isso, pedimos mais respeito aos blocos e à cidade. Não podemos aceitar que se apropriem e tirem o colorido da nossa festa! Escrevam para nós e nos conte sua experiência nesse carnaval, vamos estimular esse debate cultural. E-mails para: contato@bafafa.com.br Rogeria Paiva, editora do Bafafá

Bancos A Câmara Municipal do Rio aprovou por 35 votos “sim” e 2 “não” o projeto de lei nº 1716/2016, de autoria do Vereador Reimont, que vai facilitar a vida de milhares de cidadãs e cidadãos da cidade do Rio de Janeiro. A proposta determina que os bancos não podem recusar o recebimento de contas de consumo, como água, luz, telefone e taxas diversas e de boletos bancários, inclusive de outras instituições, desde que dentro do prazo de vencimento. O PL segue agora para ser sancionado pelo prefeito. Gabinete Reimont

Heroína nacional A Câmara dos Deputados aprovou com unanimidade no dia 08 de março a inclusão do nome da estilista Zuzu Angel no livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. O projeto, de autoria da deputada federal Jandira Feghali (PCdoB/RJ), foi incluído na pauta da Câmara junto de outros projetos que celebravam o Dia da Mulher. O projeto agora segue ao Senado Federal. Fonte: Blog 247

Memórias do Exílio O livro Os Caminhos do Exílio, de José Maria Rabêlo e Thereza Rabêlo, pais do Ricardo, editor do Bafafá, será lançado com coquetel no restaurante La Fiorentina no Leme. A obra mostra as semelhanças entre os golpes contra Getúlio Vargas, em 1954, João Goulart, em 1964, e Salvador Allende, no Chile, em 1973, e o recente processo de impeachment de Dilma Rousseff. Reconstitui fatos até hoje desconhecidos ou pouco conhecidos, como o assassinato do então presidente João Goulart em um comício programado para Belo Horizonte, numa reprodução da tragédia da morte do presidente John Kennedy nos EUA, ocorrida poucos meses antes. O crime só não aconteceu porque o golpe o tornou

11

desnecessário. Revela também os planos dos golpistas para uma guerra prolongada, caso houvesse resistência por parte de Goulart e seus aliados, que poderia ter levado à divisão do Brasil em dois países, “uma Coreia de dimensões continentais”, nas palavras de um de seus idealizadores. O livro, que já está nas principais livrarias do País, descreve igualmente os problemas que José Maria e Thereza, hoje falecida, enfrentaram em sua permanência compulsória de quase 16 anos no exterior, como as dificuldades com línguas estranhas, a adaptação a realidades tão diferentes da nossa, a busca de trabalho, a educação dos filhos, o distanciamento dos amigos e parentes, as saudades do Brasil. O lançamento de Os Caminhos do Exílio será no dia 13 de março, a partir das 18h, no restaurante La Fiorentina (Av. Atlântica, 458 – Copacabana – Posto Seis).

Acolhimento Estudantil O Programa de Acolhimento Estudantil da UFF será realizado no dia 24 de março, das 09h às 17h, com gincana de integração e presença de vários projetos da UFF que poderão ser visitados ao longo do dia por calouros e outros interessados em conhecer a universidade. O projeto foi criado há 10 anos pelo Profº Sidney Mello, hoje Reitor da universidade. A UFF é pioneira neste tipo de recepção aos calouros. Para comemorar, ao final do evento será realizado um show com uma banda universitária, além de outras surpresas para a comemoração dos 10 anos do projeto. Fonte: UFF

Jefferson Gonçalves e Kleber Dias

no

Fundão Os guitarristas Jefferson Gonçalves e Kleber Dias, do Acoustic Blues, se apresentam na quinta 16/3, ao meio dia, no Teatro de Arena Centro de Ciências da Saúde – CCS, no Campus da UFRJ no Fundão. Os artistas farão releituras de músicas de compositores que contribuíram para a história do blues. No repertório também músicas autorais, clássicos do blues, country blues, folk, entre outros estilos. Quinta 16/03 CCS - Avenida Carlos Chagas Filho, 373 - bloco L - Cidade Universitária Fonte: UFRJ

Frase A partir de agora, se me prenderem, eu viro herói. Se me matarem, viro mártir. E se me deixarem solto, viro presidente de novo. Luiz Inácio Lula da Silva


Entrevista

www.bafafa.com.br

12 Noca da Portela

Rio de Janeiro - Janeiro/Fevereiro 2017

Por Ricardo Rabelo

“A minha principal inspiração para compor é o amor” Natural de Leopoldina, Minas Gerais, Noca da Portela chegou ao Rio de Janeiro aos cinco anos de idade e nunca mais saiu. Filho de professor de violão, criado no Catete, conseguiu ter um samba enredo campeão com apenas 14 anos de idade. De uma família de 10 filhos, só restou ele. Seu currículo é invejável: 62 anos de carreira, 480 músicas gravadas, inclusive por artistas como Maria Bethânia, Elza Soares, Seu Jorge, ex-secretário estadual de Cultura, sete sambas vencedores na disputa de quadra da Portela, seis estandartes de ouro, 32 vezes campeão do samba do bloco Barbas e oito vezes no Simpatia. Aos 84 anos, o artista é de uma vitalidade impressionante. Noca está Fale sobre seu novo CD Foi o Mauro Diniz, filho de Monarco, que deu a ideia de gravar um disco com 15 sambas antigos e inéditos. Como produtor ele achou que era hora de fazer algo de novo e me desafiou a tirar do baú letras que nunca tinha gravado. Com Nelson Cavaquinho tomamos um porre na Praça Tiradentes e compusemos há 45 anos “Coração Vadio”, um samba maravilhoso que resgatei recentemente. Com Dona Ivone Lara compus “Basta Papai” quando ela fez aniversário de 54 anos num almoço em sua casa em Inhaúma nos anos 70. Tem ainda o samba “Maravilhado” que fiz quando visitei a cidade de Salvador pela primeira vez e participei de uma roda com sambistas locais como Batatinha, Riachão e Tião Motorista. A partideira Tia Surica foi homenageada com “Cabidela”, em louvor á galinha à cabidela que ela prepara como ninguém. O repertório passeia ainda por São Paulo com a música “Terra Boa”, Minas Gerais com “Êh, êh, êh Minas Gerais” e o Rio de Janeiro com a música “Exaltação ao Rio”. Como estão os shows pelo país? Graças a Deus, estou com agenda lotada com shows em todo o país. Nada mal para um senhor que chegou aos 84 sem bengala (riso). Qual é o segredo para compor? Honestamente não sei explicar. Não tem escola que ensine. Isso nasce dentro da pessoa. Nós estamos fazendo esta entrevista no Catete onde compus o meu primeiro samba enredo aos 14 anos para a extinta escola de samba Irmãos Unidos do Catete. Meu pai era violonista, compositor e professor de violão no bairro. Ele era conhecido como Sabiá apesar de nunca ter gravado nada (riso). Ele devia cantar bem, pois ninguém teria esse apelido à toa (riso). Quando ganhei esse samba enredo passei a acreditar que era compositor. Era uma escola famosa, do grupo especial, e chegava junto com a Mangueira, com a Estácio e a Vizinha Faladeira. E a principal inspiração? Primeiramente o amor, se não tiver ele você não faz nem uma rima (riso). Ele está nas palavras, nos sentimentos. A mulher sempre é a musa (riso). Fui casado 58 anos e minha patroa faleceu há quatro. Eu fiz uma música para ela que é um sucesso nacional, chama “É preciso muito amor”. Essa música vai fazer 40 anos. Você compôs quase 500 sambas. Cita os três que você mais gosta? Primeiro, essa que acabei de citar. Outra é “Mil Reis” em parceria com o Candeia. A terceira é “Minha Portela Querida”, o primeiro sucesso que tive no início de carreira. Em relação à Portela, você foi expulso da Velha Guarda. Ficou chateado? Mais da metade da minha vida foi dedicada à Portela. Ela é minha segunda família, quase meu segundo mundo. Tudo o que aconteceu na minha carreira eu tenho que agradecer também a minha Portela.

lançando o novo CD Homenagens com 15 sambas inéditos e nunca gravados. Entre as músicas, composições autorais e parcerias com Dona Ivone Lara, Nelson Cavaquinho e o intelectual Arnaldo Niskier, entre outros. Entrevistado pelo Bafafá no café do Museu da República, o depoimento foi várias vezes foi interrompido por admiradores que queriam apertar sua mão. “Está vendo? Ser popular é assim”, brinca o compositor. Sobre a expulsão da Velha Guarda da Portela é taxativo: “Meu maior prêmio foi integrar a Velha Guarda da Portela e minha maior decepção foi ter sido expulso dela”. E completa: “Monarco errou de não ligar antes de me expulsar”. Em relação ao incidente, o Monarco te chamou de mau perdedor? Acho que ele está enganado. Ele não pensou antes de dar essa declaração. Eu não gostei da maneira como a escolha foi conduzida. Preferiram dar espaço para uns jovens que vieram da Beija Flor ao invés de reconhecer o meu valor na agremiação. Como a escola vinha embalada para a disputa, o antigo e saudoso presidente Falcon tinha indicado que meu samba, em parceria com o Diogo Nogueira, iria para a avenida. Já que tinha chegado na final eu acho que merecia ter sido escolhido até por consideração da direção da escola. Estou com 84 anos e talvez nunca mais possa ter a oportunidade de ter um samba vencedor na Sapucaí. Como vencedor sete vezes do samba da escola na quadra, apenas queria receber flores em vida. Os meninos que venceram estão com trinta, quarenta anos e podiam esperar. Queria apenas só um pouco de consideração com a minha história na escola. Tem algum recado para dar ao Monarco? Monarco é meu amigo, parceiro e irmão. Nós temos que somar. O samba fica enfraquecido se virarmos inimigos. Na hora que ele ligar vou atendê-lo com o maior prazer. Acho que ele errou de não ligar antes de me expulsar da Velha Guarda. Desde outubro que não nos falamos. Meu maior prêmio foi integrar a Velha Guarda da Portela e minha maior decepção foi ter sido expulso dela. Em relação à Portela, você foi expulso da Velha Guarda. Ficou chateado? Mais da metade da minha vida foi dedicada à Portela. Ela é minha segunda família, quase meu segundo mundo. Tudo o que aconteceu na minha carreira eu tenho que agradecer também a minha Portela. Ficou feliz com título da Portela? Maravilhoso, fique realmente muito feliz. Só estaria mais feliz mesmo se tivesse sido o meu samba (riso). Como você está vendo o governo Temer? Todo mundo sabe que fui do partidão, sou um cara de esquerda. Acho o socialismo uma das grandes saídas para o mundo. Quanto ao Temer, ele pegou o bonde andando, não foi o povo que o colocou na presidência. Estou sentido que ele vai fazer um monte de coisas ruins para o povão apesar de ter a faca e o queijo na mão com maioria na Câmara e no Senado. Estou esperando ainda os resultados. E o Lula, volta em 2018? Para mim o Lula é o maior político que este país já teve. Ele fez uma mudança radical no Brasil que tinha três divisões: o rico, o mais ou menos e o miserável. Ele conseguiu manter apenas o rico e o mais ou menos (riso). Ele dividiu renda e faz uma porção de coisas boas para o povo, tanto que saiu com mais de 80% de aprovação. Você tem alguma utopia? Nunca tive, não tenho intimidade com isso. Qual é a mensagem que gostaria de mandar para seus fãs? Primeiramente quero agradecer o carinho comigo e desejar dias melhores, felicidade, saúde e emprego. A vida exige termos um emprego, ninguém pode viver sem ele, morar, comer, ter filhos.

O CD de Noca, produção independente, só está a venda na Livraria Arlequim, no Paço Imperial da Praça XV.


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Issuu converts static files into: digital portfolios, online yearbooks, online catalogs, digital photo albums and more. Sign up and create your flipbook.