Nº 97

Page 1

Ano 12 - Nº 97 - Setembro 2013

Entrevista

Alcione

Distribuição Gratuita

www.bafafa.com.br

“O samba é de todo o povo brasileiro” Alcione Dias Nazareth, conhecida artisticamente como Alcione e para os íntimos como “Marron”, é natural de São Luís do Maranhão. Radicada no Rio de Janeiro desde 1976, começou a ficar conhecida depois de se apresentar em casas noturnas cariocas e a ganhar concursos de calouros. Ao longo da carreira, foi premiada com 21 discos de ouro, cinco de platina e um duplo de platina. Ela acaba de lançar o CD Eterna Alegria com repertório de músicas inéditas. Em entrevista ao Bafafá, numa pausa da nova turnê, a artista fala sobre a infância, início de carreira, influências e muito mais. Questionada se tem alguma utopia, não pensa duas vezes: “Eu queria muito que a saúde fosse levada a sério no País. Eu não aguento mais ver gente morrendo na fila de espera dos hospitais, porque não foi atendido. A saúde do Brasil está doente”. Sobre o interesse das novas gerações pelo samba, é entusiasta. “Isso é muito importante. Tirou aquele mofo e que era coisa só de velha-guarda. O samba é de todo o povo brasileiro”, revela. Leia nas páginas 8 e 9

Nesta : o Ediçã

Emir Sader Luís Pimentel

José Maria Rabelo Leonardo Boff Pedro Simon Alexandre Nadai Ricardo Rabelo Sérgio Ricardo


www.bafafa.com.br

Setembro / 2013

2

Editorial A espionagem americana é um ato de agressão A decisão de Dilma Rousseff de cancelar sua viagem à Washing-

A própria Agência de Segurança Nacional dos EUA

ton para uma reunião com o governo americano é a única, política e

(NSA), responsável pelos documentos agora conhecidos, afirma em

moralmente admissível, diante da espionagem praticada por agências

certa altura que o trabalho foi um sucesso, mesmo tratando-se de

de inteligência dos EUA contra o governo brasileiro.

pessoas e instituições que costumam proteger seus segredos.

A denúncia foi feita com base em informações do ex-

A reação do governo em Brasília foi rápida e contundente:

-agente secreto Edward Snowden, atualmente

os EUA devem explicações às autoridades brasi-

asilado na Rússia, mostrando que a espionagem

leiras, sob o risco de sérios abalos nas relações

tem sido permanente, controlando as ações do

entre os dois países. Washington, no entanto,

governo do Brasil, até mesmo as pessoais de A espionagem americana contra o governo brasileiro é um ato de agressão a nossa soberania, uma verdadeira invasão do País por outros meios. A atitude da presidente Dilma Rousseff, cancelando sua viagem oficial a Washington, deve ter o apoio de todos os brasileiros.

Dilma e de seus principais auxiliares, através do monitoramento de telefonemas, e-mails e comunicações por celular. O esquadrinhamento clandestino não se limita a figuras oficiais de sua privacidade. Vai além, compreendendo outras pessoas e empresas públicas ou privadas, cujos passos o governo dos EUA tem interesse em acompanhar. Nesse ponto, destaca-se o caso da Petrobras e de suas pesquisas na área do Pré-sal, seguidas atentamente pelos agentes

apesar do telefonema de Obama a Dilma, não se desculpou nem de-

americanos.

monstrou a intenção de cessar a espionagem, criando uma situação

A espionagem atingiu igualmente membros do governo

de mal-estar, que, além de provocar o cancelamento da viagem, trará

mexicano, inclusive o presidente Peña Nieto, numa demonstração da

certamente consequências negativas nas relações entre os dois países.

amplitude dos objetivos visados.

Dilma agiu corretamente. O Brasil não pode mesmo acei-

O Brasil, entretanto, é o foco maior das atenções. Nos

tar o procedimento desrespeitoso de sua soberania, verdadeiramente

documentos divulgados aparece a rede de interlocutores da presidente,

uma invasão do País por outros meios, inaceitável em todos os aspectos.

num acompanhamento metódico de suas conversações, mensagens e

Os EUA precisam entender que, apesar de todo seu aterrador poder

opiniões.

de destruição e morte, não são os senhores do mundo.

Onde encontrar: Associação Brasileira de Imprensa, Sindicato dos Jornalistas do Rio, São Paulo e BH, Ordem dos Advogados do Brasil, Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura, Sindicato dos Petroleiros, Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal, Escola de Comunicação, Instituto de Economia, Instituto de Filosofia, Escola de Serviço Social, Escola de Música, Instituto de Psicologia, Fórum de Ciência e Cultura, Faculdade de Direito (UFRJ), UERJ, Café Lamas, Fundição Progresso, Cine SESC Botafogo, Cordão da Bola Preta, Botequim Vaca Atolada, Livraria Leonardo da Vinci, Bar do Gomez, Bar do Serginho, Bar do Mineiro, Bar Santa Saideira, Banca do Largo dos Guimarães (em Santa Teresa), Padaria Ipanema, Casarão Ameno Resedá, Studio RJ, Faculdade Hélio Alonso, Livraria Ouvidor (BH), Livraria Quixote (BH) Livraria Mineiriana (BH), Livraria Cultural Ouro Preto (Ouro Preto).

Diretor e Editor: Ricardo Rabelo - Mtb 21.204 (21) 3547-3699 bafafa@bafafa.com.br Diretora de marketing: Rogeria Paiva (21) 3546-3164 mercomidia@gmail.com

Direção de arte: PC Bastos bastos.pc@gmail.com Tiragem: 10.000 exemplares Foto de capa: Marcos Hermes - Divulgação

Circulação: Distribuição gratuita e direcionada (universidades, bares, centros culturais, cinemas, sindicatos) Praça: Rio de Janeiro São Paulo Belo Horizonte

Publicidade: (21) 3547-3699 | 3546-3164 mercomidia@gmail.com Agradecimentos: Aos colaboradores desta edição. Realização: Mercomidia Comunicação

Bafafá 100% Opinião é uma publicação mensal. Matérias, colunas e artigos assinados são de responsabilidade de seus autores. www.bafafa.com.br


www.bafafa.com.br

Setembro / 2013

3

Não basta apertar o gatilho José Maria Rabêlo* Os EUA estão diante de um incontornável dilema. Ou atacam a Síria e se metem em uma nova guerra imperialista, da qual não se sabe como sairão e com o risco de provocar um outro conflito ainda maior, ou desistem da ação e passam ao mundo, principalmente ao poucos aliados que lhes vão restando, uma ideia de fraqueza e impotência. Obama avançou demais em seu comprometimento com a intervenção militar. Assessorado pelo secretário de Estado John Kerry, um antigo pacifista hoje convertido em “profeta da guerra”, como já foi chamado, e por outros falcões de semelhante plumagem, achou que o mundo aplaudiria em peso sua intromissão na questão síria, o mesmo acontecendo com a opinião pública interna, talvez o mais importante alvo de sua estratégia política e militar, de olho nas próximas eleições. O que se viu foi justamente o contrário. Entre as grandes nações, com exceção da França, que aliás está reconsiderando sua posição, nenhuma assegurou pleno apoio às operações planejadas pelos EUA. Por outro lado, segundo as últimas pesquisas, o pensamento de seus concidadãos revelou-se em maciço desacordo com a proposta intervencionista. Quase dois terços dos norte-americanos consultados disseram “não” à guerra. Isolado, Obama contará apenas com a supremacia de seu apavorante estoque de armas de destruição em massa, para iniciar a conflagração por conta própria e todos os riscos imagináveis. Mas um ataque não ficará limitado à elimi-

nação das defesas sírias, anulando a capacidade militar e econômica do país. Ao contrário da Líbia de Muamar Kadafi, por exemplo, que foi vencida sem maiores abalos, a Síria conta com poderosos aliados, a começar pela Rússia e a China, para os quais sua preservação é fundamental no jogo de xadrez político e estratégico do Oriente Médio. O Irã é outro deles, sempre lembrado por seu contravertido arsenal nuclear e pela capacidade operacional de suas forças armadas. Não se deve esquecer, igualmente, o papel do grupo terrorista xiita Hezbollah, que poderá aproveitar-se da situação de guerra para intensificar suas ações antiamericanas por toda a região.

O conflito, ademais, produzirá consequências desastrosas e inevitáveis no fornecimento de petróleo para um considerável número de nações. Os recentes aumentos de sua cotação nas bolsas de valores traduzem uma preocupação geral com o agravamento da crise, vista como ponto de partida para uma nova recessão mundial. O dilema shakespeariano dos EUA apresenta-se assim de corpo inteiro: ou intervir diretamente na Síria, com os efeitos incontroláveis

•Padaria •Confeitaria •Lanchonete

PADARIA IPANEMA Rua Visconde de Pirajá, 325 Ipanema - Rio

(21) 2522-6900/2522-8397 :2522-7144

da guerra, ou abster-se dessa aventura, vendo esvair-se por entre os dedos o que lhe resta de autoridade junto a seus poucos amigos e, particularmente, aos muitos inimigos. Os antecedentes nos mostram, com sua dramática sabedoria: não basta apertar o gatilho; é preciso imaginar o que vem depois. Bem-vindos, amigos! Vai definhando aos poucos a campanha contra a vinda dos médicos estrangeiros, especialmente cubanos. Na verdade, essa campanha nem deveria ter existido, pois os profissionais importados não vão tomar o emprego de nenhum colega brasileiro. Eles se destinam às periferias pobres das grandes cidades e aos rincões mais distantes do País, onde os nossos não se dispõem a trabalhar. Não prevalece também – outra das razões invocadas pelos opositores – o argumento de que faltam no interior recursos técnicos para uma boa assistência médica. Ali, o que se pede, no geral, é uma atenção imediata, rotineira, pois 90% dos casos não exigem maior complexidade em seu tratamento. Quando isto ocorrer, o paciente será enviado a um centro médico maior, para receber a assistência devida. O importante é ter alguém a seu lado, para assegurar o primeiro atendimento e indicar o caminho a seguir. Por tudo isso, devemos dizer aos médicos estrangeiros que chegam: “Bem-vindos, amigos. A casa é sua!” *Jornalista


www.bafafa.com.br

Setembro / 2013

4

A hora da saúde pública Emir Sader* A saúde pública foi sempre o patinho feio das políticas sociais. Enquanto a educação está sempre impulsionada pela ideia de que sua extensão representaria o resgate dos problemas atuais e futuros de um país, a saúde costuma ficar relegada, mesmo se as pesquisas de opinião a coloquem como um dos maiores problemas enfrentados pela população. O SUS foi uma grande conquista, que ainda precisa ser implementada plenamente. O fim da CPMF foi um golpe duro nos seus recursos, até aqui não recomposto. De repente, o programa Mais Médicos desatou um processo que colocou – pela primeira vez na nossa história – a saúde pública no centro da agenda política. Uma importante quantidade de temas passou à discussão pública, saindo das zonas de escuridão em que se encontravam. O primeiro deles, o conflito entre os interesses públicos na saúde e os interesses privados. Estes são representados pelos planos privados de saúde, pela rede de hospitais privados e pelos médicos que, embora

formados em universidades públicas, se dedicam ao atendimento privado ou ocupam cargos no SUS, em que não cumprem minimamente com os requerimentos da função. O segundo, a disparidade entre as necessidades do país em termos de saúde pública e a localização da grande maioria dos médicos, formados em universidades públicas, com recursos públicos. Enquanto a grande maioria das enfermidades e necessidades de atendimento em termos de saúde se encontra em regiões afastadas dos grandes centros urbanos, estes concentram, especialmente nos bairros mais ricos das grandes cidades, grande parte dos médicos. Um contraste socialmente notável entre o uso dos recursos públicos para formar os mais preparados médicos e a falta de atendimento de grande parte da população. O tema da saúde pública vai estar entre os mais importantes da campanha presidencial, que coincide com essa conjuntura. Uma parte dos médicos reagiu de forma corporativista, racista, discriminatória contra a vinda de estrangeiros, para os mesmos postos que eles

se negam a acudir. Acreditaram que poderia mobilizar a opinião pública a seu favor. Tentaram pegar carona nas mobilizações de junho, mas elas pediam melhor atendimento da população e não reforçar o privilégio dos médicos. Perderam o debate, e até setores da oposição reconheceram que o projeto do governo atende às necessidades da população, abandonadas por parte dos médicos. O governo conquistou a iniciativa, ganhou o debate ideológico, mesmo antes que o atendimento dos milhares de médicos melhore a atenção à saúde de parte da população. É um momento especial para a saúde pública, para os que necessitam dela e para os que trabalham nela com espírito público. É o momento de retomar, com força, as reivindicações que levem a fortalecer o SUS – entre elas, o fim do desconto dos gastos nos planos privados de saúde no imposto de renda. Depois de ter ficado na defensiva no início da conjuntura atual, quando o protagonismo principal esteve nas mãos dos setores conservadores – em particular de parte dos médicos e suas associações –, chegou a hora de reverter a pauta e os protagonismos. Chegou a hora de a saúde pública somar-se ao imenso processo de democratização social que vive o Brasil. * Sociólogo e escritor publicado no Carta Maior - www.cartamaior.com.br

Espionagem dos EUA impõe suspensão do leilão de Libra Pedro Simon* A surpreendente denuncia de que os Estados Unidos espionam a Petrobras e, provavelmente, tiveram acesso a dados vulneráveis com referência ao pré-sal e ao campo de petróleo de Libra, que está com leilão marcado para 21 de outubro, é uma notícia de extrema gravidade. Fica claro, agora, que o governo norte-americano, além de bisbilhotar a vida privada das pessoas – o que requer normas mundiais para proteção da privacidade -, coleta também informações de natureza comercial e industrial de países, empresas e entidades. Proteger a sua segurança nacional é apenas uma das motivações da maior potência do planeta. Hoje, nem os mais ingênuos são capazes de considerar que esses dados, extremamente vitais para qualquer país, por envolver os negócios e a competição global

não serão utilizados para objetivos econômicos por empresas e o governo norte-americano. Diante das circunstâncias, o mais prudente será a Presidência da República decidir pela suspensão do leilão do campo de Libra, a maior descoberta do Brasil em 60 anos de Petrobras. Publicado em edição extraordinária do Diário Oficial da União no dia três de setembro, o edital, fortemente contestado por especialistas, não foi analisado previamente pelo Tribunal de Contas da União. Por si só, esse fato poderia ensejar uma cautela maior diante do negócio. Libra tem uma área de 1.547 quilômetros quadrados e reservas estimadas em cerca de oito a dez bilhões de barris. Essa imensidão de

óleo é quase equivalente ao total de reservas do Brasil, uma riqueza imensa, descoberta graças aos investimentos e excelência técnica e científica dos quadros da Petrobras, ponta de lança da soberania nacional. O Brasil se encontra num momento que suscita muita expectativa e grande otimismo. Somos uma das principais e mais sólidas economias do mundo. Nossa democracia também amadurece, e surge com vigor um novo protagonismo político e social dos brasileiros. Essa nova condição histórica requer grande responsabilidade, tanto por parte da cidadania como do Estado, para que possamos usufruir de nossas riquezas e construir um futuro de oportunidades e maior igualdade. * Senador da República


www.bafafa.com.br

(1964-1985). Isso sem contar as rodovias, avenidas, ruas, praças, pontes e até viadutos. Só o marechal Humberto Castello Branco, que governou de

Ricardo Rabelo Direita, volver!

A festa durou pouco para a imprensa reacionária que comemorou a queda de popularidade da presidenta Dilma. Levantamento realizado para a “insuspeita” Confederação Nacional do Comércio aponta que Dilma teve aumento significativo de aprovação três meses depois das manifestações de rua. Seu governo é aprovado por 38,1% dos entrevistados e a avaliação pessoal está em 58,0%. Os índices apontam uma recuperação de cerca de 20% na aprovação do governo em relação aos levantamentos anteriores.

Mais Médicos

Contramão

Ao invés de mudar a sua prática política, o poder legislativo preferiu se voltar contra os manifestantes que tomaram conta das ruas. A Câmara dos Deputados acaba de aprovar uma resolução banindo o porte de cartazes e faixas no recinto e a Assembleia Legislativa do Rio decidiu proibir o uso de máscaras em atos públicos. Tenho minhas dúvidas

se a última conseguirá ser implementada. Se todos resolverem protestar de máscara vão ter de abrir o Maracanã para prender os “fora da lei”. A medida vai legitimar ainda mais os excessos cometidos pelas forças policiais. O mais incrível é que os legisladores alegam que estão agindo em “defesa da democracia”.

Nota do O Globo

A mesma pesquisa CNT/ MDA revela que 73,9% dos 2.000 entrevistados são favoráveis à contratação de médicos estrangeiros pelo programa do governo. Em julho, eram 49,7% aqueles que se diziam favoráveis à medida. Além disso, metade dos entrevistados (49,6%) diz acreditar que o programa do governo solucionará “os graves problemas de saúde do país”.

A piada do ano é a nota divulgada pelo jornal O Globo reconhecendo o “erro” de ter apoiado o golpe de 64. A publicação afirma que a lembrança é um “incômodo” numa época em que as manifestações tomam conta das ruas. Ainda assim, alega que todos os grandes jornais tiveram a mesma postura e que “a situação política da época se radicalizou, principalmente quando Jango e

Setembro / 2013

os militares mais próximos a ele ameaçavam atropelar Congresso e Justiça para fazer reformas de base na lei ou na marra”. Ao invés de deixar os eleitores decidir o destino do país nas urnas, O Globo hoje alega que a “verdade é dura” e que “à luz da História, esse apoio foi um erro”.

Nota do Clube Militar

Não precisou que nenhum partido de esquerda ou entidade da sociedade civil contestasse a nota de O Globo. Ela foi refutada pelo próprio Clube Militar, organização que reúne ex-militares e oficiais da Marinha, Exército e Polícia. Também em nota, intitulada “Equívoco uma Ova!”, o CM garante que o apoio do jornal ao regime militar “ocorreu antes, durante e por muito tempo depois da deposição de Jango”. Afirma ainda que não se trata de posição equivocada de O Globo, mas de posicionamento político firmemente defendido por seu proprietário, diretor e redator chefe Roberto Marinho, como comprovam as edições da época.

Ditadores nomes de escolas

Levantamento realizado pelo site Pragmatismo Político revela que o país tem 3.135 escolas com nomes de ex-presidentes militares da Ditadura

5

velados pelos grampos, está claro que devemos suspender o leilão previsto para 21 de outubro. Afinal, vamos entregar nossas reservas para delinquentes apoiados por uma política de estado?

11 de setembro

1964 a 1967, é homenageado em 464 unidades escolares. Mais uma vez defendo que o Congresso deveria aprovar projeto de lei proibindo homenagens a mandatários ilegítimos. A começar pela ponte Rio-Niterói que leva o nome de Costa e Silva (presidente militar entre 1967-1969). Existe até um projeto para mudar o nome da ponte para Betinho (sociólogo e fundador do movimento Ação pela Cidadania). Isto sim seria corrigir uma distorção histórica no Brasil. Será que os nossos deputados e senadores terão coragem e coerência para isto? Lamentavelmente, acho que não!

Vandalismo

Tem gente que acha que vandalizar é “legítimo”. Para mim, é uma TREMENDA falta de respeito à cidade e à democracia!

O golpe militar do Chile fez 40 anos em 11 de setembro. Eu estava lá exilado com a família e, apesar de ter apenas nove anos, me lembro como se fosse ontem! O Brasil, além de conspirar para depor Allende, ainda fechou a embaixada para os brasileiros. Antônio Cândido da Câmara Canto, então embaixador do Brasil, era conhecido como “o 5º da junta” pelo envolvimento no golpe liderado pelo general Pinochet. O pior é que o canalha é reverenciado até hoje com nome de rua em São Paulo.

Blocos de carnaval em 2014

Defendo que o papel da comissão de Carnaval, instituída pela Prefeitura, deveria ser o de melhorar o carnaval de rua e não vetar qualquer agremiação de desfilar. Acho ainda que ela deve ser integrada também por representantes das sete associações constituídas na cidade

Espionagem “made in USA”

Está mais do que claro que a espionagem americana no Brasil não tem cunho ideológico. Trata-se na verdade de vigilância meramente industrial, de olho no potencial econômico do país, principalmente o Pré-sal. Se os segredos de quais campos poderão produzir mais petróleo já foram re-

do Rio de Janeiro. Proibir blocos de rua não é a solução em pleno governo democrático. Quem quiser mesmo desfilar, vai ignorar este tipo de “normatização”.


www.bafafa.com.br

Setembro / 2013

6

A extrema arrogância do Império: a espionagem universal Leonardo Boff* O sequestro do Presidente da Bolívia Evo Morales, impedindo que seu avião sobrevoasse o espaço europeu e a revelação da espionagem universal por parte dos órgãos de informação e controle do governo norte-americano (NSA) nos levam a refletir sobre um tema cultural de graves consequências: a arrogância. Os fatos referidos mostram a que nível chegou a arrogância dos europeus forçadamente alinhados aos EUA. Somente foi superada pela arrogância pessoal de Hitler e do nazismo. A arrogância é um tema central da reflexão grega de onde viemos. Modernamente foi estudada com profundidade por um pensador italiano com formação em economia, sociologia e psicologia analítica, Luigi Zoja, cujo livro foi lançado no Brasil:”História da Arrogância”(Axis Mundi, São Paulo, 2000). Neste livro denso, se faz a história da arrogância, nas culturas mundiais, especialmente na cultura ocidental. Os pensadores gregos (filósofos e dramaturgos) notaram que a racionalidade que se libertava do mito vinha habitada por um demônio que a levaria a conhecer e a desejar ilimitadamente, num processo sem fim. Esse energia tende a romper todos os limites e terminar na arrogância, no excesso e na desmedida, o verdadeiro pecado que os deuses castigavam impidosamente. Foi chamada de hybris: o excesso em qualquer campo da vida humana e de Nemesis o princípio divino que pune a arrogância. O imperativo da Grécia antiga era méden ágan: “nada de excesso”. Tucídides

fará Péricles, o genial político de Atenas, dizer: “amamos o belo mas com frugalidade; usamos a riqueza para empreendimentos ativos, sem ostentações inúteis; para ninguém a pobreza é vergonhosa, mas é vergonhoso não fazer o possível para superá-la”. Em tudo buscavam a justa medida e autocontenção. A ética oriental, budista e hindu, pregava a imposição de limites ao desejo. O Tao Te King já sentenciava:”não há desgraça maior do que não saber se contentar”(cap.46); “teria sido melhor ter parado antes que o copo transbordasse”(cap.9).

A hybris-excesso-arrogância é o vício maior do poder, seja pessoal, seja de um grupo, de uma ideologia ou de um Império. Hoje essa arrogância ganha corpo no Império norte-americano que a todos submete e no ideal do crescimento ilimitado que subjaz à nossa cultura e à economia política. Esse excesso-arrogância chegou nos dias atuais a uma culminância em duas frentes: na vigilância ilimitada que consiste na capacidade de um poder imperial controlar, por sofisticada tecnologia cibernética, todas pessoas, violar os direitos de soberania de um país e o direito inalienável à privacidade pessoal. É um sinal de fraqueza e de medo, pois o Império não conse-

gue mais convencer com argumentos e atrair por seus ideais. Então precisa usar a violência direta, a mentira, o desrespeito aos direitos e aos estatutos consagrados internacionalmente. Ou então as desculpas pífias e nada convincentes do Secretário de Estado norte-americano quando visitou recentemente o Brasil. Segundo os grandes historiadores das culturas, Toynbee e Burckhard, estes são os sinais inequívocos da decadência irrefreável dos Impérios. Nada do que se funda sobre a injustiça, a mentira e a violação de direitos se sustenta. Chega o dia de sua verdade e de sua ruína. Mas ao afundarem causam estragos inimagináveis. A segunda frente da hybris-excesso reside no sonho do crescimento ilimitado pela exploração desapiedada dos bens e serviços naturais. O Ocidente criou e exportou para todo mundo este tipo de crescimento, medido pela quantidade de bens materiais (PIB). Ele rompe com a lógica da natureza que sempre se autoregula mantendo a interdependência de todos com todos e a preservação da teia da vida. Assim uma árvore não cresce ilimitadamente até o céu; da mesma forma o ser humano conhece seus limites físicos e psíquicos. Mas esse projeto fez com que o ser humano impusesse à natureza a sua regulação arrogante que não quer recohecer limites: assim consome até adoecer e, ao mesmo tempo procura a saúde total e a imortalidade biológica. Agora que os limites da Terra se fizeram sentir, pois se trata de um planeta pequeno e doente, força-o com novas tecnologias a produzir mais. A Terra se defende criando o aquecimento global com seus eventos extremos.

Nilson

Com propriedade diz Soja:”o crescimento sem fim nada mais é que uma ingênua metáfora da imortalidade”(p.11). Samuel P. Huntington em seu discutido livro O choque de Civilizações(Objetiva 1997) afirmava que a arrogância ocidental constitui “a mais perigosa fonte de instabilidade e de um possível conflito global num mundo multicivilizacional” (p.397). Esta ultrapassagem de todos os limites é agravada pela ausência da razão sensível e cordial. Por ela lemos emotivamente os dados, escutamos atentamente as mensagens da natureza e percebemos o humano da história humana, dramática e esperançadora. A aceitação dos limites nos torna humildes e conectados a todos os seres. O Império norteamericano, por uma lógica própria da arrogância dominadora, se distancia de todos, cria desconfianças mas jamais amizade e admiração. Termino com um conto de Leon Tostoi no estilo de João Cabral de Mello Neto: De quanta terra precisa um homem? Um homem fez um pacto com o diabo: receberia toda a terra que conseguisse percorrer a pé. Começou a caminhar dia e noite, sem parar, de vale em vale, de monte em monte. Até que extenuado caiu morto. Comenta Tostoi: se ele conhecesse seu limite, entenderia que apenas uns metros lhe bastariam; mais do que isso não precisaria para ser sepultado. Para serem admirados os EUA não precisariam mais do que seu próprio território e seu próprio povo. Não precisariam desconfiar de todos e bisbilhiotar a vida de todo mundo. * Leonardo Boff Publicado no http://leonardoboff.wordpress.com/


www.bafafa.com.br

Setembro / 2013

7

O Brasil da minha ralé cultural Sérgio Ricardo* Desculpem-me cidadãos da imprensa que me procuram para entrevistas, minha recusa em dá-las. Tudo o que teria a lhes dizer é tão somente o que não conseguiriam publicar. Por quê? Estou me sentindo o próprio Brasil. Todo desarrumado. A casa em obras intermináveis, esvaziando minhas parcas reservas bancárias. As gavetas cheias de ideias e o baú repleto da colheita de minhas confecções esperam por um caminhão que muito raramente passa à porta recolhendo minha produção orgânica para tentar vender na feira. Na feira de ilusões, em sua maioria transgênicas, envenenando gradativamente as mentes indiferentes ou ignorantes de seus malefícios. Tenho informações de outros plantadores como eu, remoendo a espera dos financiamentos destinados a realizar sua distribuição pelos receptáculos da indústria cultural tomada de assalto e descaramento de, em sua grande maioria, só se interessar pelo fruto colorido de enxertos diversos que enchem os olhos e esvaziam a alma do sabor rico em proteínas e sais minerais, destinados a construir uma nação de consumidores, infelizmente hoje, sofrendo de um profundo impaludismo intelectual.

Sinto-me assim como nosso Brasil, lutando inutilmente para não infestar minhas veias com bactérias poluentes, respirando o monóxido de carbono que exala dos motores nesse congestionamento de ideias que vão se desintegrando e diluindo no transito infernal de conclusões compactadas, em nome de uma modernidade imposta pelos “Vampiros”, como dizia o Zeca Afonso, grande compositor português: “Eles comem tudo, e não deixam nada”. E a espera não se desmancha. Não abre alas a não ser para as ambulâncias e a policia à cata, ou da extrapolação de vidas em perigo, ou de bandidos desde os miseráveis aos medalhões abrindo passagem. Sinto-me assim como o Brasil, chapado, impedido, empedernido, sem rumo, sem prumo, desideologizado, desconfor tavelmente preso, como a pagar por crimes não cometidos, sem provas, tendo que sorrir aos parcos solidários. Obrigados a ver os vermes invadirem a selva, a ocupar hectares, a grilar e despejar moradores de nossa inspiração, transposta da alma simples e rica de nossa gente, tendo que assistir à deturpação ou ocultação de sua linguagem, cujo percurso se encaminhava para a construção de uma bela pátria. Sinto-me assim, como um Brasil sem nação,

sem pé nem cabeça, desarrumado, desconjuntado, ocupado, torturado, envergonhado e exilado dentro de mim mesmo. Com a bunda de fora. Desbrasilizadamente. Neste país deitado eternamente em berço troncho, mascando a goma de uma esquálida esperança. Sinto-me assim, como o Brasil, cheio de potencialidades e apto às transformações, o que dispensa a compaixão decorrente do que estou a dizer, como se fora um velho mundo moribundo ou carcomido pelo tempo ou valores, chorando sua decadência. Pois se assim não fosse Eu havia de ser um poço Estaria que só caroço Tropeço na ponta do pé. Se eu, como o Brasil, que já galguei sucesso, que tive a gloria calada pela ditadura, que fiz filmes premiados e tudo o mais que a história registrou, estou com meu baú abarrotado de canções, roteiros de filmes prontos para filmar, dois livros a procura de edição, inéditos, sem condições de torna-los público, nem mesmo a peça Bandeira de Retalhos de comovente aceitação nas periferias, (pasmem) convidada por vários países, etc. etc. Imaginem o que não há de inédito e praticamente perdido pelos milhões de baús pelos rincões da produção cultural brasileira. Sinto-me assim como o Brasil, como os jovens milhões de talentos da minha ralé, cantando com a voz que nos resta, e que ninguém conseguirá calar: Quem vai pro fundo Tem é que agitar o braço Tem é que apertar o passo Tem é que remar contra a maré. * Compositor, cantor, dramaturgo Leia no Portal Bafafá entrevista exclusiva de Sérgio Ricardo: http://www.bafafa.com.br/sergio-ricardo-a-minha-utopia-e-minha-propria-vida/


www.bafafa.com.br

Setembro / 2013

8

Alcione

Entrevista

Por Ana Crys Tavares

“O samba é de todo o povo brasileiro” Alcione Dias Nazareth, conhecida artisticamente como Alcione e para os íntimos como “Marron”, é natural de São Luís do Maranhão. Radicada no Rio de Janeiro desde 1976, começou a ficar conhecida depois de se apresentar em casas noturnas cariocas e a ganhar concursos de calouros. Ao longo da carreira, foi premiada com 21 discos de ouro, cinco de platina e um duplo de platina. Ela acaba de lançar o CD Eterna Alegria com repertório de músicas inéditas. Em entrevista ao Bafafá, numa pausa da nova turnê, a artista fala sobre a infância, início de carreira, influências e muito mais. Questionada se tem alguma utopia, não pensa duas vezes: “Eu queria muito que a saúde fosse levada a sério no País. Eu não aguento mais ver gente morrendo na fila de espera dos hospitais, porque não foi atendido. A saúde do Brasil está doente”. Sobre o interesse das novas gerações pelo samba, é entusiasta. “Isso é muito importante. Tirou aquele mofo e que era coisa só de velha-guarda. O samba é de todo o povo brasileiro”, revela. Foto: Raphael Dias - Divulgação

Como foram sua infância e juven- dia me perguntou qual era a minha maior vontade e eu disse que era ir para o Rio tude?

Não muito. Como eu tinha acabado de me formar na Escola Normal, ele disse que eu teria que lecionar dois anos como professora no Maranhão, pois esse era o grande sonho dele. Ensinei dois anos lá e, depois, ele me deixou ir embora.

compositor e tocava na Banda de Música da Polícia do Maranhão. Era uma grande referência e estava dentro da minha casa. Já com relação às cantoras, comecei ouvindo muito Núbia Lafayette. Adorava seu repertório e voz. Eu queria cantar como ela. Também tinha Dalva de Oliveira, Ângela Maria. Depois, fui apresentada à Mahalia Jackson, por um amigo. Em seguida veio Ella Fitzgerald. Nunca imaginei que alguém pudesse cantar daquele jeito.

Quando descobriu a vocação pela Cantar samba era discriminado? música?

Por que as rádios não tocam samba?

de Janeiro cantar (riso). Gostei muito da minha infância, brincava muito com meus irmãos que faziam carrinhos de rolimã, jogavam bola e empinavam pipa. Sempre me diverti muito com brinquedos de menino (riso). Brincava também de boneca, que eram de palha e preenchidas com areia. Mas meu negócio sempre foi homem (riso). Tive uma infância muito feliz.

Foi aos oito anos de idade. Eu gostava muito de cantar, aprendi solfejo, teoria musical com meu pai e um pouco de clarinete. Minha mãe não gostou muito da ideia, disse que eu era muito magrinha para tocar esse instrumento e me incentivou a aprender acordeom, mas meu pai não gostava. Então, eu voltei para tocar clarinete e trompete. A partir daí fui criando intimidade com a música, propriamente dita, e também com o canto. Mas meu pai não queria que eu fosse profissional da música e do canto. Ele um

Foi fácil convencer ele?

No samba eu não sofri discriminação, porque comecei na casa de Candeia, na Mangueira. Lá, eu fiz amizade com Carlos Machado, Nelson Cavaquinho, Seu Aniceto do Império. Eu precisava conquistar a confiança deles. Eu tinha vindo para ficar e ter a confiança deles era muito importante.

Isso é muito importante. Tirou aquele mofo do samba. Aquela coisa que samba era uma coisa só de velha-guarda. O samba é de todo o povo brasileiro. Antes, parecia que o samba pertencia só à velha-guarda.

Qual diferencia o pagode do samba? Pagode é uma reunião de sambistas, onde cada pessoa que chega faz e toca seu samba. Pagode não é ritmo, tampouco música.

Qual é a melhor roda de samba Eu acho até que as rádios estão tocando do Rio?

Quais eram e são suas referências musicais?

mais samba. Há até um programa que é o Samba Social Clube que é muito bom. As rádios só precisavam tocar mais as grandes vozes da música brasileira. Eu queria ouvir mais Ângela Maria, mais Rosa Passos. Aliás, a gente não ouve Rosa Passos aqui no Brasil. Só nos EUA. As rádios precisam tocar mais cantores interessantes.

Minha grande referência foi meu pai. Ele era músico, maestro, repentista,

O que acha do resgate do samba, desfile na avenida e acho todas as escolas principalmente entre os jovens? bonitas. Adoro ver o Salgueiro. Sou uma

Eu gosto muito do Carioca da Gema, do Samba Luzia (atrás do Aeroporto Santos Dummont) e a do Samba do Trabalhador.

Como está vendo o desfile das escolas de samba? Eu sou meio suspeita, pois eu adoro ver o


www.bafafa.com.br

mangueirense que adora quando o Salgueiro entra na avenida. Parece um cavalo manga-larga marchador. Ano que vem a Mangueira virá como tem que ser, com tudo em cima, com tudo que tiver direito e a Portela também. Houve a mudança na presidência e agora as escolas vão fazer um carnaval bonito na avenida.

Setembro / 2013

9

País. Eu não aguento mais ver gente morrendo na fila de espera dos hospitais, porque não foi atendido. A saúde do Brasil está doente. Precisam cuidar mais da saúde do povo brasileiro em todos os sentidos. Nós não temos médicos querendo ir para o interior. Eles não querem ir para lá, onde as pessoas têm mais necessidade. Os médicos que se formam agora têm que fazer um mutirão para o interior. Tem que atender aquele povo. Há lugares que as pessoas nem sabem o que é um médico.

Quais são seus projetos? Posso adiantar que vou gravar o DVD do meu novo disco na Fundição Progresso. Aí, penso em escrever um livro, uma biografia com apoio de Diana Aragão. Tenho muita história para contar sobre minha família, amigos, das vitórias e das lutas.

Que mensagem você deixaria para a nova geração?

Tem alguma utopia?

Amem o samba. É bom cantar samba, mas tem que ter responsabilidade. É isso que cria a estabilidade do artista.

Quem é que não tem? Eu queria muito que a saúde fosse levada a sério no Foto: Raphael Dias - Divulgação

adras piscinas e qu stas, campos, pi s na r o. lo va técnica e apoi ostrando seu a, superação, ileiros vêm m lin ip as sc br di s a, co rr pi lím s coisas: ga Os atletas para DEF parte soma de muita límpica da AN alto nível é a se es E . do a equipe para un ra m pa do do e en il rt as do Br ória, reve l de levar rte dessa hist tem potencia lho de fazer pa ajudar quem , gu RJ or TE m te LO a RJ A LOTE os. Para bilhetes lotéric lho mesmo. m a venda de co o tid ob o ivilégio. É orgu cr pr um só do seu lu é o dio nã ais alto do pó asil ao lugar m o nome do Br

RIA COM A PARCE DEF, LOTERJ E AN HAM ALGUNS GAN PRÊMIOS. HAM OUTROS, GAN OURO.


www.bafafa.com.br

Vitrola

Alexandre Nadai Vitrola ligada, ouço o toque do surdo anunciando que hoje é dia de falar de uma família da nobreza do samba. Três gerações de sambistas, de sangue azul e branco, capitaneados pelo Seu Hildemar Diniz, ou simplesmente Mestre Monarco da Portela, para os mais íntimos. Recebi o DVD da “Família Diniz” do meu

amigo Marquinhos Diniz, filho do mestre e compositor de mão cheia, com grandes sucessos na voz de Zeca Pagodinho - que cansou de ficar esperando o ônibus onde estava Monarco passar para mostrar suas letras. Mas voltando ao foco.

No projeto do DVD, um livro falando sobre a história da família e entrevistas com seus integrantes. Imperdível! Mas vamos às músicas. Que prazer ter que ouvir e escrever sobre, em primeiro lugar, o Mestre Monarco, no auge dos seus 80 anos. E o DVD abre com o hino “Família Diniz”, na voz do maestro e compositor Mauro Diniz, pedindo a conservação da união familiar. O samba agradece a paz na nobreza. Logo depois, podemos ouvir uma parceria de Monarco com o afilhado Zeca Pagodinho e o saudoso Ratinho, falando sobre o preconceito em relação ao samba em “O Samba nunca foi de Ar-

ruaça”. Monarco emenda em canção e composição solo com “Baile no Jardim”. Depois Mauro chega junto na parceria com Sereno, o sucesso “Realidade”. É a vida é mesmo assim, tudo tem fim... Mas vamos em frente que ainda tem muita música para falar. Em parceria com Franco, Mauro segue em frente com “O Sol e a Brisa”. Marquinhos Diniz vem mandar seu recado com o partido “Com Dinheiro é Mole” e depois mostra “Pessimista de Plantão”, parceria com os amigos Fred Camacho e Marcelinho Moreira. E por falar em parceria de Marquinho Diniz, Barbeirinho do Jacarezinho e Luiz Grande não poderiam faltar, e o “Trio Calafrio” bota a galera para cantar com “Mary Lu” e Zeca Pagodinho é o convidado especial da gravação. Juliana Diniz, filha de Mauro Diniz, neta do Mestre Monarco, terceira geração desta família abençoada, solta a voz no sucesso de Mauro e Ratinho, “Loucuras de Uma Paixão”. Dando prosseguimento às participações, não poderia

Setembro / 2013

10

faltar Arlindo Cruz, em “O Azul Beijou o Branco”, parceria de Arlindão e Mauro Diniz. E já que o assunto é família, Arlindinho também mostra a sua cara em “Namoro e Amizade”, de Mauro Diniz, num dueto com Juliana. É o prosseguimento de duas linhas nobres sendo garantido. Dorina participa em “Frio de Uma Solidão”. E se você pensa que a família Diniz não tem mais nada pra mostrar, eles nos apresentam João Matheus Diniz, no clássico “Menor Abandonado”, do trio Pedrinho da Flor, Zeca Pagodinho e Mauro Diniz. E o menor chega dando o recado que tá na área. Claro que falando de família Diniz, falando de Monarco, quem não poderia faltar é a Velha-Guarda da Portela. E os velhos malandros participam em “Corri Pra Ver”, “A Grande Vitória”, Passado de Glória” e “Coração em Desalinho”. E hoje a vitrola vai ficando por aqui, com o DVD rolando, até porque, se eu for falar da Família Diniz não vou conseguir terminar!!! Ô Sorte!!! Saravá!!!!!

alexandre.nadai@gmail.com

Três notas musicais Luis Pimentel*

A técnica do Nogueira

Conta o folclore da música brasileira que o grande e compositor João Nogueira cumpria temporada de shows pelo Nordeste do Brasil, quando atendeu pedido de entrevista de uma estagiária de jornal. Pergunta da moça: – João, como você consegue cultivar essa voz tão sua, tão marcante, tão impostada e ao mesmo tempo tão suave? Que técnica você usa? Resposta do malandro: – Muito conhaque, muita cerveja e cigarros Hollywood à vontade. João Nogueira, um dos maiores cantores da MPB em todos os tempos, nasceu no Rio de Janeiro, no bairro do Méier, no dia 12 de novembro de 1941. Aos 27 anos gravou sua primeira composição: Espera,

oh nega. Três anos depois, entrou para a ala dos compositores da Portela e teve músicas gravadas por Elizeth Cardoso e Clara Nunes. Um dos maiores defensores do gênero, na década de 1970 fundou o Clube do Samba. Parceiro, entre outros, de Paulo César Pinheiro, entre suas composições mais conhecidas estão Nó na madeira, Espelho, Um ser de luz e Clube do samba. Morreu no ano 2000. Quem foi Adiléia?

Com esse nome, talvez ninguém identifique: Adiléia da Silva Rocha mais tarde trocou o nome para Dolores Duran. Dolores nasceu em 1930 e começou a carreira artística ainda menina – e ainda Adiléia – no popularíssimo programa Calouros em desfile, pilotado pelo já famoso compositor Ary Barroso, na Rádio Tupi. Estreou com nota máxima, caiu na simpatia do pouco simpático Ary e voltou para casa com um prêmio de 500 mil réis e o sonho de virar cantora profissional. Tinha 12 anos.

Da rádio, Adiléia – já Dolores – pulou para o Teatro Carlos Gomes, onde participou do elenco das peças infantis Mãe d´água, Primavera, O gaúcho e Aladim e a lâmpada maravilhosa. Cantora de voz doce e cálida, Dolores Duran foi também excelente compositora, como provam os destaques de sua obra Se é por falta de adeus, A noite do meu bem, Castigo e Fim de caso. Morreu vítima de um infarto fulminante, no dia 23 de outubro de 1959.

Pois contam também que, finalizado o trabalho, João Gilberto finalmente escancarou as janelas. Era um décimo terceiro andar, mas o bichano não quis saber:

O gato do João São inúmeras e variadas as notas do folclore envolvendo o cantor, compositor e super-instrumentista João Gilberto. A mais repetida em mesas de bar é a do gato. Dizem que João, morando sozinho em Nova Iorque, trancou-se no estúdio para preparar novo disco. Sozinho, não. Havia o gato do João. Contam ainda que João trancou porta e janelas do estúdio, e durante 17 dias e 17 noites, sem parar para ir sequer à padaria, tocou seu fabuloso violão, sem parar, sem parar, sem parar, em busca dos arranjos cada vez mais redondos, do acorde cada vez mais perfeito. E o gato ali, sentadinho na cadeira, ouvindo, ouvindo, ouvindo.

atirou-se pela janela, para a morte que o livraria de tantos acordes e tantas melodias. João Gilberto, gênio inconteste e admirado pelos grandes nomes da MPB, considerado por muitos o pai da bossa nova, nasceu em Juazeiro (BA), em 1931. Quando gravou seu primeiro disco, em 1958, seu estilo de cantar, intimista, contrastava com tudo o que se fazia na época em termos de música. Influenciou cantores como Gal Costa e Caetano Veloso, que na década de 1960 iniciavam suas carreiras. Alguns de seus grandes sucessos são Chega de saudade, Bim-Bom, Samba de uma nota só e Desafinado. *Jornalista e escritor


www.bafafa.com.br

Repúdio à agressão de jornalistas Têm sido cada vez mais frequentes os casos de agressões contra jornalistas. Em sua maioria, os autores são agentes do Estado, policiais militares armados com cassetetes, balas de borracha, jatos d’água e bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. Manifestantes também atacaram e expulsaram de atos públicos profissionais da imprensa. E houve ao menos um caso em que funcionários estaduais agrediram com murros, dentro da Câmara Municipal, uma equipe de TV e fotógrafos. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro repudia, denuncia e reivindica das autoridades competentes as devidas providências em relação a toda e qualquer forma de violência contra jornalistas. Nas ruas, a nossa categoria precisa ter o direito ao trabalho respeitado. O nosso Sindicato considera a violência contra jornalistas — defensores dos direitos humanos por dever ético profissional — um atentado à liberdade de imprensa. Dessa forma, vamos denunciar às autoridades locais e aos organismos internacionais de Direitos Humanos os casos de violação identificados pelo Sindicato. A liberdade de imprensa é valor de interesse não só da nossa categoria, mas de toda a sociedade, posto que seja, junto da liberdade de expressão, um pilar da própria democracia. Por isso mesmo, o Sindicato reivindica o apoio de todos os movimentos sociais e da sociedade civil em defesa da liberdade de imprensa, para o exercício profissional do jornalismo e da comunicação popular. A integridade física e a ética dos profissionais têm de ser garantidas e respeitadas pela população, pelas empresas e pelo Estado. Jornalistas não podem ser responsabilizados pela política editorial das organizações onde trabalham. Em um Rio de Janeiro onde há décadas desaparecem Amarildos e morre à bala uma maioria jovem, negra e favelada, o trabalho de denúncia dos fatos pelos jornalistas tem sido de importância fundamental — apesar dos limites editoriais impostos pelo monopólio da chamada grande mídia. Reivindicamos, assim, por meio deste manifesto, que o Estado cumpra o seu papel de formar agentes de Segurança Pública que atuem em defesa dos direitos e da vida dos jornalistas e de toda a população. É preciso garantir as condições do trabalho dos profissionais de imprensa em toda e qualquer circunstância. Aos profissionais, pedimos que entrem em contato imediatamente com o Sindicato para denunciar qualquer agressão através da nossa central de denúncias denuncia@jornalistas.org.br. Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro

Chacina

de

Vigário Geral: 20

impunidade Em 29 de agosto de 2013 completaram-se 20 anos do assassinato de 21 pessoas por um grupo de extermínio na favela de Vigário Geral, Rio de Janeiro. Policiais militares

anos de

foram acusados de ter executado os crimes. Dentre as vítimas estavam oito membros de uma mesma família, assassinados dentro de casa. A chacina de Vigário Geral ocorreu cerca de um mês após a da Candelária, na qual foram mortos oito jovens. Ambas, assim como Acari (1990 – 11 desaparecidos), Baixada Fluminense (2005 – 29 mortos) e tantas outras, revelam um histórico de violência letal da polícia no Estado do Rio de Janeiro. Em todos os casos, policiais militares foram acusados de ter participado, inclusive por meio de grupos de extermínio. As vítimas foram jovens, moradores/as de comunidades marginalizadas e, em grande maioria, negros/as. A impunidade e a falta de reparação – incluindo o direito de saber a verdade sobre as circunstâncias das execuções extrajudiciais - aos familiares das vítimas é uma constante. Cinquenta e dois policiais militares foram acusados de envolvimento na chacina de Vigário Geral. Sete foram condenados. Quatro dos absolvidos são réus no assassinato de Ediméia da Silva Euzébio, uma das mães de Acari, morta em 1993, cujo processo continua em andamento. Há razões para acreditar que os policiais militares envolvidos nas chacinas de Vigário Geral e Acari estejam vinculados a um grupo de extermínio chamado “Cavalos Corredores”. Ao longo desses anos, a Anistia Internacional tem acompanhado o caso de Vigário Geral e denuncia que nem todos os envolvidos nas execuções extrajudiciais foram responsabilizados. Cinco acusados morreram antes do julgamento e dois permanecem foragidos. A impunidade persiste devido, especialmente, à morosidade e deficiência do sistema de justiça criminal, as ameaças sofridas pelas testemunhas e a ausência de um mecanismo externo de controle da atividade policial. Além da lentidão em julgar os crimes, o poder judiciário negou provimento para ações civis de indenização promovidas por algumas famílias. Depois de 20 anos, o sentimento de injustiça e impunidade permanece entre os familiares, sendo que a viúva de uma das vítimas faleceu nesse período. A Anistia Internacional insta o Estado brasileiro a acabar com a impunidade conduzindo investigações imediatas, completas, independentes e imparciais sobre todos os casos de violações de direitos humanos nos quais policiais e forças de segurança estejam envolvidos. Fonte: Anistia Internacional no Brasil

Síria A Comissão de Inquérito sobre a Síria afirmou que por causa da guerra civil no país ao menos seis milhões de pessoas tiveram que deixar suas casas. O grupo, que é presidido pelo professor brasileiro, Paulo Sérgio Pinheiro, voltou a dizer que a falta de resolução para o conflito tem custado a vida da população civil, a cada dia. Em recente declaração, Paulo Sérgio Pinheiro afirmou que dezenas de milhares de pessoas morreram. Somente nos países vizinhos, dois milhões de sírios buscaram refúgio, mais da metade são crianças. Pinheiro lembrou que comunidades inteiras passaram a viver em tendas ou contêineres perto das fronteiras da Síria. Para ele, a sociedade foi destruída. O rela-

Setembro / 2013

11

tório da Comissão de Inquérito baseou-se em entrevistas com 258 sírios entre 15 de maio e 15 de junho. Entre as violações de direitos humanos estão assassinatos, torturas, saques, uso de crianças soldado e estupros. O levantamento também relata combates entre as forças do governo, milícias a favor do presidente Bashar al-Assad, rebeldes, grupos de oposição e grupos armados curdos. Para a Comissão, o fracasso na produção de uma solução política está aprofundando a “intransigência e levando a crimes inimagináveis”. Fonte: ONU

Concurso Nacional de Marchinhas Um dos maiores mitos do rádio brasileiro em sua época de ouro, a cantora Marlene – que completa 91 anos – é a homenageada da nona edição do Concurso Nacional de Marchinhas Carnavalescas, promovido pela Fundição Progresso. As inscrições de músicas vão de 15 de setembro a 15 de outubro e podem ser feitas pelo site www.concursodemarchinhas.com. br. As dez finalistas escolhidas pelo júri farão parte do CD “As Melhores Marchinhas do Carnaval 2014” e a melhor leva R$ 15 mil. A segunda e a terceira colocadas também recebem prêmio em dinheiro: R$ 8 mil e R$ 4 mil, respectivamente. A final tem transmissão ao vivo do programa Fantástico, da Rede Globo, com votação interativa. Fonte: Fundição Progresso Mais informações no site oficial do festival: http://www. romacinemafest.it Fonte: Ancine

Edital Cultura 2014 O Ministério da Cultura lançou o Concurso Cultura 2014 que visa ampliar e fomentar a programação cultural das 12 cidades-sede durante a Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014, que será realizada de 10 de junho a 15 de julho do próximo ano. Serão avaliadas propostas na área da música, audiovisual, artes visuais, cultura tradicional, literatura, artesanato, patrimônio, dança, circo, teatro, arquitetura, gastronomia, moda e design. Mais Informações – Tel (21) 3733-7100 ou no site www. cultura.gov.br Fonte: MINC

Ética A ética deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro. Gabriel García Marquez


www.bafafa.com.br

NOS ÚLTIMOS 6 ANOS, O INVESTIMENTO EM SAÚDE NO ESTADO MAIS DO QUE DOBROU: PASSOU DE 1,8 BILHÃO PARA 3,7 BILHÕES. SÃO 6 NOVOS HOSPITAIS DE REFERÊNCIA: HOSPITAL DA MÃE, EM MESQUITA; HOSPITAL DA MULHER, EM SÃO JOÃO DE MERITI; HOSPITAL DE TRAUMA DONA LINDU, EM PARAÍBA DO SUL; CENTRO DE TRAUMA DO IDOSO, EM SÃO GONÇALO; HOSPITAL DA CRIANÇA E INSTITUTO ESTADUAL DO CÉREBRO, NA CAPITAL. TODO MUNDO SABE QUE AINDA HÁ O QUE MELHORAR, MAS NINGUÉM PODE ESQUECER QUE JÁ AVANÇAMOS MUITO. E ESSE TRABALHO NÃO TERMINOU.

Setembro / 2013

12


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Issuu converts static files into: digital portfolios, online yearbooks, online catalogs, digital photo albums and more. Sign up and create your flipbook.