Ano 15 - Nº 126 - Junho 2016
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Povo vai às ruas contra Temer
Sem poder responder às críticas, o governicho Temer procura anular a voz das ruas e das lideranças populares. Nas últimas semanas, os brasileiros realizaram grandes manifestações de protesto contra o interino do Palácio do Planalto e de seu grupo de usurpadores do poder. Quase nada, entretanto,
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apareceu no noticiário dos jornais e TVs. Vejam acima uma pequena amostra do que a mídia, a serviço dos beneficiários do poder, não mostrou: centenas de milhares de manifestantes de norte a sul do país dizendo não ao impeachment e ao governo ilegítimo. Leia o editorial na pagina 2
NESTA : Leonardo Boff José Maria Rabelo Ângela Carrato Ceci Juruá O EDIÇÃ Ricardo Rabelo Leonel Brizola Neto André Barros Entrevista Maurício Carrilho
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Editorial
Operação abafa para silenciar a oposição
Nos regimes totalitários, eliminar a voz do adversário é tão importante quanto eliminá-lo fisicamente. As ditaduras começam sempre assim: cassando aos divergentes o direito à livre manifestação de suas ideias. O nazismo, sob Hitler e Goebbels, seu célebre ministro da informação, transformou essa prática em política de estado. O macarthismo nos EUA seguiu pelo mesmo caminho. Nas ditaduras subdesenvolvidas, como no Brasil, foi também assim, com a censura imposta aos meios de comunicação, à cátedra e a qualquer expressão da vontade popular. O governicho Temer tenta hoje fazer o mesmo, procurando negar a Dilma, a Lula e outros líderes oposicionistas o direito de comunicar-se com seus seguidores. Depois de retirar da presidente a possibilidade de usar os aviões da FAB, está adotando a política de influir sobre os diversos órgãos de comunicação para ignorarem as manifestações a seu favor, como presidente eleita, e os atos de que toma parte. Foi uma vergonha do ponto de vista jornalístico a cobertura que deram às manifestações contra o golpe nas últimas semanas. A Avenida Paulista, por exemplo, tinha mais de 100 mil manifestantes, mas as filmagens que divulgaram, sobretudo na TV Globo, feitas pelo alto, pareciam de uma pequena reunião, que nada tinham a ver com a multidão ali reunida. E assim fizeram os demais órgãos de imprensa, com relação às manifestações pelo Brasil afora. Uma vergonha! Uma escamoteação!
A presidente concedeu entrevista ao jor nalista Luís Nassif, na TV Brasil, na qual debateu os principais problemas do País, internos e de suas relações com o resto do mundo. Foi um dos pontos altos da programação de televisão nesse período tumultuado da vida brasileira. Ela respondeu fundamentadamente a todas as críticas que lhe são feitas, mostrando os desmandos do governo Temer, suas ligações com a corrupção e sua inepta política externa, que reduz o Brasil à posição de uma republiqueta de terceira classe. Tratava-se da presidente eleita e de suas palavras de grande peso político, pois definiam as linhas de um governo, que, mesmo interrompido pela tentativa do impeachment, indicam o rumo que o Brasil deve seguir. Mas tudo isso não tem nenhum valor, o que vale é a mentira oficial. A entrevista foi inteiramente ignorada pelo resto da mídia, mais preocupada com as questões minúsculas do seu dia a dia do que com as palavras da mais alta mandatária do País. Outra frente desse esforço para calar a oposição é o anunciado corte de qualquer publicidade oficial aos sites independentes, na tentativa de sufocá-los economicamente. E o pior é que o governo anuncia isso com a maior naturalidade, sem se preocupar em disfarçar seu viés autoritário e antidemocrático. Trata-se de uma cópia subdesenvolvida das políticas nazistas para silenciar a oposição.
Onde encontrar: Associação Brasileira de Imprensa, Sindicato dos Jornalistas do Rio, São Paulo e BH, Ordem dos Advogados do Brasil, Sindicato dos Petroleiros, Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal, Escola de Comunicação, Instituto de Economia, Instituto de Filosofia, Escola de Serviço Social, Escola de Música, Instituto de Psicologia, Fórum de Ciência e Cultura, Faculdade de Direito, faculdades de Geografia, Geologia, Engenharia, Matemática, Química, Física, Meteorologia, Letras, Medicina, Enfermagem, Educação física, alojamento estudantil do Fundão, Coppe (UFRJ), UERJ, Café Lamas, Fundição Progresso, Cordão da Bola Preta, Botequim Vaca Atolada, Bar do Gomez, Bar do Serginho, Bar do Mineiro, Casarão Ameno Resedá, Faculdade Hélio Alonso, Arquivo Nacional, Livraria Ouvidor (BH), Livraria Quixote (BH), Livraria Scriptum (BH), Livraria Cultural Ouro Preto (Ouro Preto), Sindicato dos Engenheiros e Bar Bip Bip, Café do Museu da República, Diretórios Acadêmicos das Faculdades de Arquitetura e Geografia da UFF, Escola de Cinema Darcy Ribeiro.
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Dilma e sua segurança pessoal José Maria Rabêlo*
Por torpeza e mesquinharia, essa gente do governo tampão está brincando com fogo. A decisão de tirar de Dilma o direito de viajar pelos aviões da FAB pode produzir uma tragédia de consequências inimagináveis, inclusive para seus próprios responsáveis. Está claro que as viagens em linhas comerciais são um risco não só de agressões verbais, mas também de agressões físicas a qualquer presidente da República, sobretudo em um momento de ódio e fanatismo político generalizados, como estamos vendo hoje na sociedade brasileira. Temer, por certo, não seguiria a mesma receita, viajando por aí como passageiro comum, especialmente ele que já não pode aparecer em público em nenhum lugar. A História está cheia de episódios violentos marcando a biografia dos dirigentes políticos. Poderia citar uma infinidade deles, mas lembraria apenas os atentados de Saravejo, na antiga Iugoslávia, que vitimou o príncipe Francisco Ferdinando, do império austro-húngaro, que foi o estopim da Primeira Guerra Mundial, e os contra os irmãos John e Bob Kennedy, nos EUA, pela sua repercussão mundial, além do assassinato de Leon Trotsky, no México, a serviço do stalinismo.
No Brasil, são dignos de registro a morte de João Pessoa, em Recife, que precipitou a Revolução de 30, e a do Major Rubens Vaz, no Rio, em 1954, que teve papel determinante no suicídio de Getúlio Vargas. No livro Os Caminhos do Exílio, que deverei lançar pela Geração Editorial, em setembro próximo, relato com detalhes o projetado assassinato do ex-presidente João Goulart, em um comício em Belo Horizonte, no dia 21 de abril de 1964, data comemorativa da Inconfidência Mineira. Um pelotão de atiradores de elite da Polícia Militar abriria caminho por entre o público e dispararia suas metralhadoras contra o palanque, visando o presidente e membros de sua comitiva, entre eles Leonel Brizola. “Não escaparia ninguém com vida”, disse mais tarde o comandante escolhido para a operação, coronel José Oswaldo Campos do Amaral, conhecido pela definidora alcunha de Cascavel, campeão mineiro de tiro. O atentado não ocorreu porque o golpe de 31 de março o tornou desnecessário, evitando uma crise política que mancharia
para sempre a história brasileira. O fanatismo de ontem, como o de hoje, não tem limites, de maneira particular quando os interesses dominantes se sentem ameaçados. Por isso é preciso eliminar a qualquer custo os riscos de um governo popular, como acontece nessa questão do impeachment, um golpe branco planejado por uma quadr ilha de bandidos e criminosos com tantas contas a acertar com a Justiça, a mando dos que se consideram os eternos donos do País. Na verdade, o que move Temer, além de sua irresponsabilidade jogando com a segurança da presidente eleita, é o temor dos contatos dela com o povo. Por toda parte, ela é aplaudida por milhares de brasileiros e brasileiras, que não aceitam a hipótese de seu afastamento, enquanto o presidente usurpador não tem condições de colocar a cara na rua. Temer sabe perfeitamente de sua ilegitimidade e tenta evitar que Dilma mostre ao País sua imagem de assaltante do poder. *Jornalista
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Quem é que disse que é normal americano levar nosso pré-sal? Essa foi a palavra de ordem dos estudantes de escolas técnicas de todo Brasil, em encontro na UFRJ na Ilha do Governador no Rio de Janeiro, que teve a participação do Sindipetro-RJ e de Caxias. O Enet/2016 aconteceu nos dias 27 a 29 de maio, e reuniu cerca de 1500 estudantes. Na luta contra o golpe nas ocupações do Ministério da Educação em todo o Brasil e nas escolas ocupadas, sempre a mesma discussão: que os petroleiros tem que fazer a greve e ocupar todas as unidades da Petrobrás no país contra a flexibilização do pré-sal e a venda de ativos que na verdade é a privatização da Petrobrás. Na ausência de pesquisas “tradicionais”, que sumiram misteriosamente, como DataFolha, Ibope, Vox Populi, o blog Brasil 247, fez uma pesquisa e constatou o seguinte: 95% rejeitam abrir pré-sal e, para 90%, início de Temer foi péssimo.” Pedro Parente foi nomeado pelo presidente interino, Michel Temer, e teve sua indicação aprovada pelo Conselho de Administração da companhia. Porém já enfrenta resistência pelas entidades petroleiras. Primeiro, a Aepet fez denúncia ao Ministério Público, pois Parente é réu em processo com as termelétricas, quando foi ministro de FHC e gerenciou o apagão, e isso seria impedimento para o cargo. E agora Aepet, Club de Engenharia,
Sindipetro-RJ, FNP e FUP estudam denunciar Pedro Parente ao Procurador Geral da República. O governo de Temer diz que não vai fazer nomeação política nas estatais, Pedro Parente, diz a mesma coisa na Petrobrás. O fato é que Parente é indicação do PSDB, partido que quando governou o país tendo a frente FHC, e de triste lembrança para a Petrobrás e os petroleiros. Os tucanos, através de campanha na mídia principalmente do Sistema Globo, comparavam a Petrobrás a um paquiderme e chamaram os petroleiros de marajás. Os petroleiros responderam com uma greve de 32 dias que impediu a privatização da Petrobrás. Em 2006 a Petrobrás e os petroleiros desenvolveram tecnologia inédita no mundo que propiciou a descoberta do pré-sal. Mesmo assim, a Globo lança um editorial em dezembro de 2015 dizendo que o pré-sal pode ser patrimônio inútil. E agora o PSDB indica Pedro Parente, um inimigo da Petrobrás, para dar continuidade a privataria tucana. Qualquer petroleira no mundo ia tratar o pré-sal como uma jóia da coroa. O pré sal garante nosso abastecimento de petróleo nos próximos cinqüenta anos. Qual empresa oferece isso ao país? E também considerando que o pré-sal já produz um milhão de barris por dia, o suficiente para abastecer juntos todos os países do Mercosul.
Pedro Parente considera o pré-sal um incômodo e para mostrar que é alinhado com os tucanos concorda com a proposta do também tucano José Serra de flexibilizar o pré-sal. E também é favorável a venda de ativos para tirar a Petrobrás da crise. Parente, ao invés de se empenhar em aumentar a participação da Petrobrás no PIB que já é de 13%, quer reduzir a Petrobrás de empresa de energia a empresa somente de petróleo. Na verdade, eles querem entregar a empresa aos gringos. Eles querem que o país seja somente fornecedor de matéria prima no mundo. Nós queremos vender produtos refinados, produzir e vender produtos petroquímicos para o mundo, produzir fertilizantes para contribuir para a produção de alimentos, para abastecer o país e exportar. Queremos nossas termelétricas para que nunca mais haja apagão no país. Queremos a Petrobrás empresa do poço ao posto e ao poste para gerar empregos e renda para os brasileiros. Não à flexibilização do pré-sal e à venda de ativos!
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Porque são tão elevados os juros bancários? Ceci Juruá* Atualmente, nos setores bancário e financeiro há taxas de juros que superam 400% a.a, caso dos cartões de crédito. Não há profissional, economista ou outro, que possa explicar este patamar considerado abusivo no mundo civilizado. Um patamar que, em 1988, havia sido limitado em 12% a.a., descontada a inflação. Se estivesse em vigor o texto constitucional original, famílias e empresas não deveriam hoje pagar mais do que 23% anuais, como juros ao setor bancário. Dizia a Constituição de 1988, no parágrafo terceiro do artigo 192: - “As taxas de juros reais, nelas incluídas comissões e quaisquer outras remunerações direta ou indiretamente referidas à concessão de crédito, não poderão ser superiores a doze por cento ao ano; a cobrança acima deste limite será conceituada como crime de usura, punido, em todas as suas modalidades, nos termos que a lei determinar.”
Foi por meio do Projeto de Emenda Constitucional, PEC N. 21/1997, ano que precedeu a reeleição de FHC, que o então Senador e hoje Chanceler, José Serra, propôs a extinção dos parágrafos e incisos que compunham o artigo constitucional N.192. O Projeto original foi alterado e transformado em PEC N. 53/1999, mediante substitutivo do Senador Jefferson Pérez, aprovado pelo Senado Federal. Presidiu a Câmara de Deputados na época o atual presidente interino da República (seu mandato foi de 1997 a 2002). Sem aprofundamentos dos efeitos que decorreriam para a economia de empresas e famílias, ao longo dos debates parlamentares, e desprovido do necessário embasamento teórico ou empírico, o Projeto foi aprovado e transformou-se na Emenda Constitucional N. 40/2003. O que significou, de certa forma, reintroduzir no sistema financeiro nacional a prática da usura, que havia sido conceituada como crime no texto constitucional de 1988.
Na sociedade, ao contrário, foi grande a reação contrária ao fim do tabelamento dos juros bancários. Por isto, houve recurso ao Supremo Tribunal Federal, onde a decisão final esteve a cargo do Ministro Gilmar Mendes, por intermédio da Súmula N.648 e de outra que a sucedeu, a Súmula Vinculante N.7 de 11 de junho de 2008. Ao final declarou-se, no STF, que se tratava de um ato jurídico perfeito, pois a aplicabilidade dos parágrafos e incisos do artigo 192 ficara condicionada a uma Lei Complementar, que não foi apresentada em tempo algum. Simplesmente! Há poucos anos, o deputado Vieira da Cunha (PDT-RS) tentou reintroduzir o limite constitucional de taxas de juros reais de 12% a.a. Foi derrotado e sua proposta foi arquivada em 2013. *Economista, mestre em desenvolvimento e planejamento econômico, doutora em políticas públicas.
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Ricardo Rabelo Bizarro
lar. Manter o mandato de Cunha seria um deboche com a sociedade.
Mídia golpista Bizarro é que todo esse processo de impeachment da Dilma tenha partido de um chantagista como o Eduardo Cunha. Esse senhor conseguiu paralisar o país e a colocar em xeque a nossa frágil democracia. É notório que o processo só foi aberto depois que Dilma se negou a um acordo para livrar Cunha. A novela começou aí.
Cunha perto do fim
O Conselho de Ética da Câmara aprovou por 11 votos a nove a cassação do deputado Eduardo Cunha. Até dois deputados tidos como fiéis a ele votaram a favor. O fim da carreira política de Cunha parece mais perto. Falta agora a votação em plenário, onde espero que os deputados atendam o clamor popu-
Mesmo com o fiasco do governo interino Temer, a mídia age como se o País estivesse em outra fase. O que vemos na verdade é um interino sitiado, um Congresso sem líder e políticos da base enrolados até o pescoço. Paralelo a isso, vejo a presidenta legítima cada vez mais popular. Portanto, a luta tem favorecido Dilma. Lembro que podemos reverter o impeachment, faltam apenas dois senadores. Temos que continuar na rua com disposição. A vitória está muito mais próxima de nós do que deles! A história é nossa!
nifestações pela democracia em todo o país. É muita falta de respeito com a informação e a cidadania. O jornal nem disfarça sua natureza golpista e antijornalística! Não é a toa que as vendas do jornal despencaram.
Pesquisas
As pesquisas de opinião sobre o governo Temer são implacáveis. No levantamento do Instituto Vox Populi, 67% dos brasileiros avaliam como ruim o seu governo. Já na enquete CNT/MDA, apenas 11,3% o aprovam, e isso com apenas um mês de mandato
estão na corda bamba. Incrível é que o presidente interino nomeou sete ministros acusados de envolvimento na Lava-Jato. Se com um mês a situação é essa, imagina então como fica em dois anos?
Megavisión
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memória do Brizola vem sendo enxovalhada por ele. Não concordo que o partido faça aliança com o Eduardo Paes. Acho ainda uma covardia o Lupi querer tirar o mandato do Leonel Brizola Neto. Vou apoiar o candidato de esquerda com maior chance de disputar o segundo turno.
Eleições O enviado especial da TV Megavisión do Chile, Anwar Said Farrán Veloso, fez uma grande reportagem sobre a crise brasileira. Fui um dos entrevistados da matéria já que vivi nove anos na terra de Allende e Neruda. Eu afirmo que o “golpe vai incendiar o Brasil”. Confira a matéria: https://www.youtube.com/watch?v=OXY-OSMj04s
Defendo que a sociedade civil, nas próximas eleições, elabore listas suprapartidárias de candidatos confiáveis e fichas limpas. Seria um tipo selo de confiabilidade. Quem não o tiver, não merece o voto dos eleitores.
Boulos
Adeus PDT
Verdade A verdade é que o pri-
Mídia golpista II
O Globo debocha da sociedade ao não dar uma linha sobre as ma-
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meiro mês do governo Temer é um desastre. Caíram três ministros envolvidos em falcatruas e pelo menos outros dois
Com o coração partido decidi me desfiliar do PDT, do qual faço parte desde 1982. Não compactuo com os procedimentos do presidente do partido Carlos Lupi, que transformou o PDT num balcão de negócios. A
Cada dia admiro mais a coragem e a disposição de luta do Guilherme Boulos, líder dos Sem Teto!
Frase Em caso de suspeita de golpismo, desligue a TV imediatamente!
Convidados
Danny Glover
aleida guevara (ARG)
Vandana Shiva
Tariq Ali
(EUA)
(IND)
(PAK)
Guilherme Boulos
joao Pedro Stedile
(BRA)
pablo capile
(BRA)
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Prabir Purkayastha
BE CARV
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22 a 26 de junho
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Dilma Rousseff
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A bomba atômica e os jogos olímpicos Leonardo Boff* No exato momento em que no dia 6 de agosto de 2016, às 20h, horas se inaugurarão os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, há 71 anos, no mesmo dia 6 de agosto de 1945 e na mesma hora correspondendo às 8h da manhã, será recordada em Hiroshima no Japão, a nefasta data do lançamento da bomba atômica sobre a cidade. Vitimou 242.437 pessoas entre as que morreram na hora e as que posteriormente vieram a falecer em consequência da radiação nuclear. O imperador Hirohito reconheceu, no texto de rendição no dia 14 de agosto, que se “tratava de uma arma que levaria à total extinção da civilização humana”. Dias após, ao aduzir, numa declaração ao povo, as razões da rendição, a principal delas era de que a bomba atômica “provocaria a morte de todo o povo japonês”. Em sua sabedoria ancestral tinha razão. A humanidade estremeceu. De repente deu-se conta de que, segundo o cosmólogo Carl Sagan, havíamos criado o princípio de autodestruição. Não disse outra coisa Jean-Paul Sartre: ”os seres humanos se apropriaram dos instrumentos de sua própria exterminação”. O grande historiador inglês, Arnold Toynbee, o último a escrever 12 tomos sobre a história das civilizações, aterrado, deixou escrito em suas memórias (Experiências 1969):”Vivi para ver o fim da história humana tornar-se uma possibilidade intra-histórica, capaz de ser traduzida em fato, não por um ato de Deus mas do homem”. O grande naturalista francês Thédore Monod disse enfaticamente: ”somos capazes de uma conduta insensata e demente; pode-se a partir de agora temer tudo, tudo mesmo, inclusive a aniquilação da raça humana”(E se a aventura humana vier a falhar,2000). Com efeito, de pouco valeu o estarrecimento, pois continuou-se a desenvolver armas nucleares mais potentes ainda, capazes de erradicar toda a vida do planeta e pôr um fim à espécie humana. Atualmente há 9 países detentores de armas nucleares que, conjuntamente, somam mais ou menos 17.000. E sabemos que nenhuma segurança é completa. Os desastres de Tree Islands nos USA, de Chernobyl na Ucrânia e de Fukushima no Japão nos dão uma amostra convincente. Pela primeira vez um Presidente norte-americano Barack Obama, visitou, há dias, Hiroshima. Apenas lamentou o fato e disse:”a morte caiu do céu e o mundo mudou…começou o nosso despertar moral”. Mas não teve a coragem de pedir perdão ao povo japonês pelas cenas apocalípticas que lá ocorreram.O povo japonês perdoou,sim, os norte-americanos.
Vigora uma vasta discussão cultural sobre como avaliar tal gesto bélico. Muitos pragmaticamente afirmam que foi a forma encontrada de levar o Japão à rendição e poupar milhares de vidas de ambos os lados. Outros consideram o uso desta arma letal, na versão oficial japonesa, como “um ato ilegal de hostilidade consoante as regras do direito internacional”. Outros vão mais longe e afirmam tratar-se de um “crime de guerra” e até de “um terrorismo de Estado”. Hoje estamos inclinados a dizer que foi um ato criminoso e anti-vida, de nenhuma forma justificável. Pensando em termos ecológicos, a bomba matou muito mais do que pessoas, mas todas as formas de vida vegetal, animal e orgânica, além da destruição total dos bens culturais. Geralmente as guerras são feitas de exércitos contra exércitos, de aviões contra aviões, de navios contra navios. Aqui não. Tratou-se de uma “totaler Krieg” (guerra total) no estilo nazista de matar tudo o que se move, envenenar águas, poluir os ares e dizimar as bases físico-químicas que sustentam a vida. Porque Albert Einstein tinha consciência desta barbaridade se negou a participar no projeto da bomba atômica e a condenou, veementemente, junto com Bertrand Russel. Ao lado de outras ameaças letais que pesam sobre o sistema-vida e o sistema-Terra, esta nuclear continua sendo uma dos mais amedrontadoras, verdadeira espada de Dâmocles colocada sobre a cabeça da humanidade. Quem poderá conter a arrogância e a irracionalidade da Coréia do Norte de deslanchar um ataque nuclear avassalador? Há uma proposta profundamente humanitária que nos vem de São Paulo, da Associação dos Sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki (chamados de hibakusha, presume-se que haja uns 118 no Brasil), animada pelo militante contra a energia nuclear Chico Whitaker. No dia 6 de agosto, no momento da abertura dos Jogos Olímpicos, dever-se-ia fazer um minuto de silêncio pensando nas vítimas de Hiroshima. Mas não só. Também voltando nossas mentes para a violência contra as mulheres, os refugiados, os negros e pobres que são sistematicamente dizimados (só no Brasil em 2015 60 mil jovens negros), os indígenas, os quilombola e os sem-terra e sem-teto, em fim, todas as vítimas da desumanidade de nosso sistema social mundial. O prefeito de Hiroshima, nesse sentido, já encaminhou carta ao Comité Organizador dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Esperamos que este se sensibilize e promova esse grito silencioso contra as guerras de todo tipo e pela paz entre os povos. *Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor
Golpe da tortura André Barros* Inicialmente, cabe destacar que o Senado Federal decidiu, por 55 votos, pela instauração do processo de impeachment e pelo afastamento da Presidenta da República durante o julgamento. Por isso, vários senadores declararam em seus votos que estavam apenas admitindo a denúncia. Não disseram que eram a favor da condenação da Presidenta por crime de responsabilidade. Isso quer dizer que os mesmos que votaram pela instauração do processo podem votar por sua absolvição. Se forem menos de 54 votos pela condenação, a Presidenta será absolvida e voltará ao exercício de suas funções. Portanto, o quórum para sua destituição está muito apertado e o retorno da Presidenta é bem possível de acontecer. Com o recebimento da citação, o processo apenas começou. E ainda, se durante 180 dias o julgamento não estiver concluído, Dilma Rousseff volta à Presidência do Brasil. Antes da instauração do processo de impeachment, a denúncia precisava ter sido admitida por dois terços da Câmara dos Deputados. E foi o que aconteceu, numa votação vergonhosa, onde o país ouviu de tudo em suas justificativas, menos os fatos da acusação. Um dos votos ficou marcado para a nossa triste história de golpes, como o suicídio de Getúlio Vargas, a renúncia de Jânio Quadros, a saída de João Goulart do país e a instauração de 25 anos de ditadura militar sem direito a eleições diretas para presidente do Brasil. Um deputado teve a petulância de homenagear em seu voto o facínora do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que comandou o DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação) do 2º Exército entre 28 de setembro de 1970 e janeiro de 1974, período em que cerca de 400 denúncias de tortura foram catalogadas pelo projeto Brasil Nunca Mais. Sem dúvida, muito mais que 400 pessoas foram vítimas das mais bárbaras atrocidades e muitas morreram durante aquelas intermináveis sessões de tortura. Os torturadores chamavam esses assassinatos sob tortura de ‘acidente de trabalho’ e armavam o que chamavam de
“teatrinho” para dizer que as vítimas haviam cometido suicídio ou haviam sido atropeladas. A Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro pediu a cassação do mandato desse deputado à Procuradoria-Geral da República e à Câmara Federal por falta de decoro parlamentar e por apologia a um notório torturador, pois tortura é crime de lesa-humanidade. Assim votou o deputado: “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”. É inaceitável que se diga tal absurdo numa democracia, em qualquer lugar, ainda mais num parlamento. Mas isso é um paradigma indiciário do espírito de tirania que hoje ronda o Brasil. Em legislaturas anteriores, esse mesmo deputado nunca havia tido a ousadia de dizer isso. Mas vivemos tempos terríveis, com discriminações públicas homofóbicas, machistas, racistas e violações de todos os tipos de direitos humanos, desde a tentativa de redução da maioridade penal ao ataque à presunção de inocência. Por isso, esse governo provisório vai ficar marcado pelo golpe da tortura. Impedir essa farsa é uma questão de vida ou morte para a democracia no Brasil e, principalmente, para todas e todos que são ou que foram torturados no Brasil. Termino este texto prestando uma homenagem ao pai de Felipe Santa Cruz, presidente da OAB/RJ, Fernando Santa Cruz, assassinado e desaparecido pela ditadura militar. E à minha saudosa tia Vera Sílvia, que saiu de cadeira de rodas do Brasil depois de semanas de tortura no pau-de-arara. A todas as mulheres torturadas na ditadura militar e atualmente torturadas quando vão dar à luz a seus filhos algemadas em nossas terríveis penitenciárias e que amamentam entre as grades. A todos os jovens, negros e pobres torturados em nossas atuais penitenciárias - masmorras. Por fim, presto homenagem à Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, presa e torturada pela ditadura militar e chamada de terrorista pelo facínora Coronel Brilhante Ustra em seu depoimento à Comissão da Verdade. Contra o golpe e pela paz, tortura nunca mais! *ANDRÉ BARROS, advogado militante de Direitos Humanos
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Maurício Carrilho
Entrevista
por Ricardo Rabelo
“O choro já existia cerca de 60 anos antes do samba” O violonista carioca Maurício Carrilho é um dos principais estudiosos do choro no Rio de Janeiro. Filho do músico e flautista Álvaro Carrilho e sobrinho do também flautista Altamiro Carrilho, já tocou ao lado de artistas como Chico Buarque, Nara Leão, Miúcha, Francis Hime, Paulo Moura e Paulinho da Viola. Membro da coordenação da Escola Portátil de Música e da recentemente inaugurada Casa do Choro na Rua da Carioca, Maurício falou com exclusividade ao Bafafá. Segundo ele, o choro é um estilo único no mundo e 60 anos mais velho que o samba. Ele explica que quem toca choro não tem dificuldade técnica de tocar outros estilos. “Tecnicamente o choro é uma música que exige muito do instrumentista”.
Qual é a história do choro?
O choro é uma música que nasceu no século 19 no Rio de Janeiro a partir de uma mistura de estruturas musicais das danças de salão europeias com os cantos africanos de festas religiosas e profanas, misturado ainda com música dos índios. Essa música na verdade guarda elementos de várias culturas que se juntaram há 160 anos e se tornaram uma linguagem poderosa, muito forte. É uma música que tecnicamente exige do músico, com um repertório fabuloso. Acho muito difícil que um gênero musical em outro país tenha um repertório tão vasto e diverso quanto o choro. Digo choro como linguagem que inclui vários gêneros como a valsa, a polca, o tango brasileiro, maxixe, schottisch e quadrilha.
O choro nunca foi cantado?
Eventualmente é cantado. Tivemos uma cantora que ficou famosa por cantar choro: Ademilde Fonseca. Mas, o choro, pela dificuldade e o virtuosismo de suas melodias, é uma música muito difícil de ser cantada. Apenas uma pequena parcela do repertório do choro é letrada e cantada. A maior parte tem um tipo de melodia feita para instrumentos, com uma extensão muito grande, impraticável para voz. Não existe um impedimento musical ou cultural para cantar choro, a dificuldade é mais técnica mesmo.
encima dessa fôrma e tem tradicionalmente três partes. Mas, pode ter menos. Pixinguinha encerrou o assunto quando usou duas partes no carinhoso e no Lamento.
do Choro temos neste primeiro semestre de funcionamento 200 alunos.
Qual é o estado que estava a casa que hoje abriga a escola?
O maior expoente do choro é o Estava invadida e servia de depósito de camePixinguinha? lôs e ambulantes. É um prédio do estado que O Pixinguinha é um dos maiores expo- foi cedido por 20 anos. Viabilizamos patrocínio entes da música brasileira, não só do choro. Mas o choro sempre foi uma música coletiva. Pixinguinha sempre teve grandes músicos tocando com ele.
Você é um dos expoentes hoje? A música brasileira é calçada no tripé Aprendi choro com grandes mestres e tento dar a minha contribuição. Meu tio foi um grande samba, choro e bossa nova? Acho que não. A bossa nova vem do sam- compositor, meu pai também. Temos ainda ba e o choro por sua vez é anterior ao samba.
o Cristóvão Bastos e o Pedro Paes fazendo
da música brasileira que popularizou aspectos harmônicos e melódicos que o samba ainda não tinha desenvolvido. Mas, pelo lado rítmico é menos elaborada que o samba tradicional e o choro. São três linguagens diferentes. O choro, embora a mais antiga dessas linguagens, é na minha opinião a que se mantém com mais força e capacidade de renovação.
garotos também como João Camareiro, Julião, Glauber, Everson, os irmãos Marlon e Maicom Julio e muitos outros.
e conseguimos reconstruir tudo mantendo apenas a casca e a fachada. Restauramos o mais fiel possível a partir de fotografias antigas. O apelido do prédio é Mourisquinho por ter uma linha arquitetônica eclética e uma cúpula com o quarto de lua, símbolo do islã. Temos nove salas de aula, um teatro para 100 pessoas, uma cafeteria com espaço de convivência que pode ser frequentada de terça a sábado.
O nome é porque é um estilo musical A gente tem um desenvolvimento de ramifica- coisas lindas, ainda Paulo Aragão, Proveta, Como fazer para se matricular na ções. A bossa nova é um ramo muito bonito Jayme Vignoli, Luciana, Pedro Amorim. E tem os Casa do Choro ou na Escola Portátil? triste? Não, essa origem do nome é muito controversa. Sempre existiu choro com expressão tristonha e alegre também. Sempre foi música de festa, de confraternização. No início de tudo, os chorões eram pequenos funcionários públicos que se juntavam nas horas livres para comer, beber e tocar.
O samba veio depois? O choro já existia cerca de 60 anos antes do samba. O samba da Cidade Nova feito pelo Donga, Sinhô e o Pixinguinha tem a ver com o choro. A partir dos anos 20, o choro acabou influenciado pelo samba do Estácio, do Ismael Silva, Bide e Marçal, e incorporou suas variações rítmicas. Ai nasceu o jeito sambado do tocar choro que foi muito usado pelo Benedito Lacerda e Jacob do Bandolim. A partir de então o samba e choro sempre andaram juntos. Os compositores muitas vezes lidam com as duas linguagens, como Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, Donga, Cristóvão Bastos.
Tem algum estilo parecido com o choro no mundo?
Esse fenômeno do abrasileiramento da dança de salão europeia misturada com outras influências, como a africana ou indígena, não aconteceu só no Brasil, mas em vários lugares como Cuba e vários países sulamericanos. Guardamos a quadratura da música europeia, a fôrma, o tamanho, os 16 compassos por parte. Isso é comum ao danzon cubano, ao pasillo colombiano, o joropo venezuelano. Os processos guardam alguma semelhança, mas não são iguais.
Quem toca choro toca qualquer coisa. Isso é lenda ou verdade?
Tecnicamente o choro é uma música que exige muito do instrumentista. Neste sentido, quem toca choro não vai ter dificuldade técnica de tocar outros estilos. Mas cada linguagem musical tem suas exigências específicas.
É só entrar no site da Casa do Choro e seguir as orientações. A mensalidade gira entre R$ 600,00 e R$ 1200 por semestre. É mais barato que as escolas similares públicas. O aluno ou aluna pode chegar aqui e começar do zero. Temos turmas de iniciantes de percussão, pandeiro, violão, cavaquinho. Temos cursos de vários instrumentos. Os alunos aprendem tendo como linguagem o choro, inclusive a ler e escrever música. Temos aulas em todos os horários, de segunda a sexta. O próximo semestre começa em agosto.
O que você diria para quem está começando a tocar choro? Quais são os projetos em andamento? Se morar no Rio para se aproximar da Temos apresentações até dezembro, de segunEscola Portátil. Aqui nos temos os melhores professores e alunos de choro, e a pessoa vai estar cercada de gente boa. Temos um grande acervo acumulado ao longo dos anos que está disponível para consulta. Para quem mora fora do Rio aconselho a ouvir os grandes nomes do choro. A gente aprende ouvindo, tem que ouvir Pixinguinha, Nazareth. Tem que ter a referência dos grandes mestres.
da a sábado às seis e meia, e sexta também ao meio dia e meia. Durante as olimpíadas teremos espetáculos ao meio dia e meia em outros dias da semana, além de sexta. Estamos digitalizando milhares de partituras e gravações antigas, disponibilizando um grande repertório para pesquisa e estudo dos interessados e trabalhando seriamente pela memória do Choro
São duas coisas diferentes realizadas pelo mesmo grupo. A Casa do choro está começando agora sua trajetória e a Escola Portátil de Música é um projeto consagrado, com 16 anos de existência. Tem esse nome porque funcionávamos em prédios emprestados como na UNIRIO onde temos 1.100 alunos. Na Casa
sicas. Tenho um projeto chamado “Oito com” onde gravo oito músicas minhas com um convidado. Já fiz 15 CDs nesta série e espero fazer 100 nos próximos anos.
Por que o choro não ficou tão conhe- O choro tem três partes, mas a múcido como o samba e a bossa nova? sica Carinhoso duas partes. O choro A Casa do Choro começou como Es- Você tem alguma utopia? Porque o samba e a bossa nova são can- tem como princípio as três partes? Tenho. Eu compus cerca de 1.400 múEssa herança das três partes vem do cola Portátil de Música? tados e o choro é basicamente instrumental. Toda música instrumental tem um público mais seleto. Exige mais do ouvinte. O choro sempre teve importância na formação dos músicos de samba e bossa nova. A maioria passou pelo choro. Os ídolos do Tom Jobim, por exemplo, eram Radames, Villa-Lobos, Garoto, todos eles ligados ao choro.
rondó desde a época da música barroca. É uma música com três partes onde você toca a primeira com repetição, a segunda com repetição e depois volta para a primeira. Daí vai para uma terceira parte com repetição e volta para a primeira para acabar. Esse formato chama rondó. O choro foi inventado
*Com a participação de Licínio Machado Rogério
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Brizola, Psol e a eleição municipal Leonel Brizola* O Rio de Janeiro assumiu o protagonismo político no Brasil. O Estado e principalmente a capital estão sob os holofotes nacionais e internacionais. Às Olimpíadas somou-se a prática conspiratória do PMDB que, mais uma vez, por vias tortas, toma o comando político do país, reproduzindo a hegemonia que o partido tem em nosso Estado. Não é nada fácil lutar contra esse poderio político, financeiro e midiático. O estilo Moreira Franco de administração tomou conta do nosso cotidiano. Governos se sucederam e aprofundaram o modelo de gestão em que as parcerias público-privadas vêm fazendo a alegria das classes endinheiradas e internacionalizadas que aqui aumentam sua influência na distribuição dos recursos públicos. O PMDB terceiriza tudo, menos a falta de vergonha em transformar a cidade num shopping de luxo. O processo histórico nos coloca a seguinte questão: ou tiramos o PMDB da prefeitura ou o PMDB tira o Rio de Janeiro dos cariocas. Mesmo sabendo que a eleição municipal deste ano será dominada pelo debate nacional, nós, da esquerda, não podemos deixar de elaborar um conjunto de propostas que façam contraponto às políticas implantadas nos últimos anos. A pergunta é: que cidade queremos?
O PSOL tem uma responsabilidade enorme como a principal alternativa de esquerda ao grupo hegemônico no cenário político local. Além da denúncia do golpe em nossa democracia e dos desmandos locais do PMDB, o partido tem que convencer o eleitorado de que pode administrar a prefeitura. É fundamental que o partido tenha a humildade de olhar para o passado e observar ideias e ações que proporcionaram melhorias significativas na vida da classe trabalhadora. Nesse sentido um referencial importante é o legado do ex-governador Leonel de Moura Brizola. Diga-se de passagem, foi o único político de esquerda que derrotou o PMDB e aplicou um modelo de gestão que efetivamente é o oposto da segregação social e do loteamento de todo território aos investidores internacionais. Brizola governou olhando para o povo, daí o ataque sistemático que sofreu dos meios de comunicação, em especial a Rede Globo. Enquanto Moreira Franco criou delegacias e penitenciárias pelo Estado, Brizola construiu escolas. Enquanto o PMDB remove os pobres das zonas “chiques” da cidade, Brizola deu título de propriedade. Enquanto o PMDB retira linhas de ônibus que ligam a zona norte à zona sul, Brizola abriu linhas que permitiram os moradores do subúrbio frequentarem as praias da zona sul. À lógica de criminalização da juventude das favelas, Brizola contrapôs o respeito aos direitos humanos. Isso foi imperdoável! Daí a divulgação a exaustão de que Brizola
foi o responsável pelo aumento da violência na capital, desconsiderando o fato de que o Rio de Janeiro se tornou rota internacional do tráfico de drogas. A cultura da repressão é uma das consequências do regime militar. Antes de Leonel Brizola assumir o governo, o Rio era uma cidade violenta. A polícia entrava nas favelas atirando e não se importava se estava matando inocentes. O mesmo tratamento que a PM dispensava aos moradores da zona sul, exigiu que se dispensasse também aos moradores das favelas. O problema é que a elite esnobe acha que todo morador da periferia é um bandido em potencial. A humanização do tratamento das favelas pelo Poder Público é um dos legados mais importantes da gestão de Brizola à frente do Estado. Seria um trabalho interessante e fundamental ao PSOL que se fizesse um levantamento dos decretos e das leis do primeiro e segundo governo de Leonel Brizola. A incorporação do legado brizolista pode contribuir para o PSOL popularizar cada vez mais e, assim, se apresentar como alternativa real de poder e atingir parcelas da população que ainda desconhecem ou não assimilaram o discurso do partido. É o momento de somarmos esforços para tirar o PMDB da prefeitura. Passou da hora da esquerda não trabalhista acabar com o ranço injustificável contra o brizolismo. *Vereador, PSOL-RJ
Sobre corrupção, midiotas e a luz no fim do túnel Ângela Carrato* Que o poder no Brasil foi tomado de assalto por um bando de corruptos não é mais novidade. O governo do interino Michel Temer (PMDB), em pouco mais de um mês, conseguiu nomear um punhado de pessoas com pendências com a justiça, inclusive delatados na Operação Lava Jato. Gente séria não aceita integrar sua equipe. O STF faz corpo mole e empurra com a barriga o pedido de prisão por corrupção dos senadores golpistas Romero Jucá, ex-homem forte de Temer, e Renan Calheiros, presidente do Senado, além do ex-presidente Sarney. Já o ministro do STF, Gilmar Mendes, não mede esforços para salvar a pele do presidente do PSDB, Aécio Neves, e o próprio Aécio e demais senadores golpistas confabulam a céu aberto para viabilizar um acordo que anistie todos eles, acusados (com provas abundantes) de grossa corrupção. A mídia, golpista de primeira hora, que antes via corrupção para todo lado, agora finge de morta e tenta transformar o presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), em bode expiatório, como se a corrupção na República se resumisse a ele. Enquanto isso, os golpistas procuram agilizar a tramitação do golpe, travestido de impeachment, no Senado, com o objetivo de afastar definitivamente Dilma Rousseff e garantir a presidência da República para Temer e sua turma, sabe-se lá por quanto tempo. Quem passa por cima da Constituição, como está acontecendo, pode muito bem decidir ampliar o próprio mandato para 2020 ou 2022. Este quadro surreal é o retrato sem retoques do que se vive hoje no Brasil. Quem se informa pela mídia local dificilmente
conseguirá entender o que está acontecendo. Já a mídia internacional, jornal The New York Times, à frente, não tem poupado críticas às trapalhadas e à falta de seriedade dos golpistas e da mídia brasileira, ambos causando sérios e profundos danos em praticamente todos os campos da vida nacional. E só loucos desvairados para acreditar que o NYT possa estar recebendo dinheiro de “petralhas” para criticar Temer e denunciar que o Brasil está em mãos de uma máfia. Diante da estimativa de que o país regrediu 60 anos em pouco mais de 30 dias, uma marcha a ré de dois anos por dia, as manifestações populares que antes reuniam apoiadores de Dilma e de Lula e militantes de esquerda, agora arrastam multidões. Nas manifestações do último dia 10 de junho, por exemplo, um milhão e meio de pessoas esteve presente e novos protestos contra Temer e pela volta de Dilma não param de acontecer. Ao todo, até o momento já somam 480, um recorde mundial! Como nos idos das famosas Diretas-já do início dos anos 1980, a TV Globo tem mentido e tentando esconder a importância e peso destas manifestações. Se naquela época isso foi possível, agora não é mais. A internet e as redes sociais estão aí para desmentir os repórteres e comentaristas globais, vistos pela população com absoluto descrédito. Não por acaso, a própria Globo tem sido alvo de críticas e ocupações em todos estes protestos. Mais ainda. Se os golpistas acreditavam que o afastamento de Dilma seria meio caminho andado para o sucesso do
plano de tomarem em definitivo o poder, a realidade está se mostrando bem mais complexa. Nunca um governo viveu um paradoxo tão grande como o de Temer: conta com apoio maciço no Congresso, no Judiciário e na mídia, e ser rechaçado pela maioria esmagadora da população: 94% dos brasileiros querem vê-lo pelas costas. O estrago feito por Temer tem sido tamanho e tão rápido que até a ficha dos midiotas caiu, com prováveis repercussões no voto dos senadores na hora de julgarem Dilma. Todos sabem que os tais crimes de responsabilidade, dos quais é acusada, não passam de conversa para boi dormir. Se pedalada for crime, os presidentes, de Sarney a Lula, incluindo aí governadores e até o relator do golpe no Senado, Antônio Anastasia, o fiel escudeiro de Aécio Neves, deveriam ser igualmente criminalizados. Responsabilizar somente Dilma é golpe e não há como negar. Por tudo isso, não está em questão apenas o fim do governo interino, pois este acabou antes de começar. O que está em pauta é como o Brasil conseguirá virar esta página terrível de sua história. Dilma já deu uma dica: ao voltar, poderá convocar um plebiscito para saber o que a população deseja. E aí, sim, pode-se pensar em uma Constituinte exclusiva, única maneira de passar a limpo o país, incluído os três poderes e a própria mídia. Poucas pedras sobrarão. *Jornalista e professora da UFMG.
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Festival da Utopia A cidade de Maricá sedia, entre os dias 22 e 26 de junho, o Festival da Utopia. Realizado pela prefeitura da cidade em conjunto com dezenas de movimentos sociais, o evento terá plenárias, debates, feira literária, oficinas, teatro, shows e um mega acampamento para hospedar as mais de 20 caravanas de todo o país. O Festival da Utopia busca construir novos ideais e debater caminhos para alcançá-los, principalmente em meio a um cenário de crise política da esquerda brasileira. Entre as presenças, a ativista indiana Vandana Shiva, o escritor paquistanês Tariq Ali, a filósofa e feminista norte-americana Angela Davis, a filha de Che Guevara Aleida Guevara e políticos brasileiros como a deputada federal Jandira Feghali e o ex-presidente Lula, se reunirão durante quatro dias na Tenda dos Pensadores. Está prevista ainda a participação da presidenta Dilma. Mais informações no site do evento: www.festivaldautopia.com
Rio 2016: não à violência A Comissão de Segurança para a Rio 2016 será responsável pelas operações de segurança pública nos jogos olímpicos. Há um número considerável de casos documentados de execuções e outros abusos cometidos pela polícia na cidade do Rio de Janeiro. Não queremos que isso se repita a pretexto dos jogos. Entre em ação e diga às autoridades que elas são responsáveis. Responsáveis por prevenir o uso desnecessário e excessivo da força pela polícia e pelas forças armadas; por evitar violações de direitos humanos, especialmente em áreas de favelas e periferias; por estabelecer mecanismos de total responsabilização para eventuais violações dos diretos humanos praticadas por agentes da segurança pública; por investigar e levar à justiça os perpetradores de violações dos direitos humanos e por fornecer total apoio às vítimas e seus familiares. Mais informações: http://www.anistia.org.br/ Fonte: Anistia Internacional Brasil
Ocupa MINC O jornal Bafafá parabeniza o coletivo Ocupa Minc que ocupa o Palácio Gustavo Capanema há mais de 30 dias. O local vem
sendo palco de dezenas de atividades de todas as áreas da cultura carioca. O propósito do movimento é exigir a saída do interino Michel Temer e o restabelecimento da ordem democrática. Ricardo Rabelo, editor do Bafafá
Fora Cunha O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados votou pela admissibilidade do relatório do deputado Marcos Rogério (DEM/ RO), que pede a cassação do mandato do deputado Eduardo Cunha (PMDB/ RJ), afastado da presidência da casa por força de decisão judicial. Foram 11 votos a favor e 9 contra. Essa foi a derrota da chantagem, da intimidação, da corrupção. E a vitória da pressão popular! Chico Alencar, deputado federal PSOL-RJ
Limpeza Finalmente a Câmara começou a operação para remover o lixo de suas dependências, representado pela presença do deputado Eduardo Cunha. Foram seis meses de luta, porque o ex-presidente da casa contava com o que há de mais baixo da representação parlamentar a seu favor. É preciso agora que o plenário complete a limpeza, jogando pelos esgotos do Legislativo essa figura obscena da política brasileira. Pedro Nunes, jornalista
Respeitem a nossa dor Os que aqui, no Brasil, também se incomodam com a expressão pública do afeto homossexual; os que aqui no Brasil também não querem ver seus filhos assistindo a cenas de beijo gay; os que aqui falam que gays, lésbicas, bissexuais e transexuais querem “implantar uma ditadura gay”; os que aqui reclamam de uma educação que respeita a diversidade de orientação sexual e identidade de gênero;
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enfim, os que aqui pensam como o assassino de Orlando, no que diz respeito a LGBTs, já estão se esforçando nas redes sociais para afastar a motivação homofóbica do massacre, alegando que “o Estado Islâmico atacaria qualquer lugar”. Ora, vocês são imbecis ou acham que somos imbecis?! Além de a motivação homofóbica ser óbvia e ter sido apontada pelos pais do assassino, independentemente disso, o Estado Islâmico é um grupo de fundamentalistas religiosos que tem a homofobia como componente identitário, da mesma forma que a homofobia está na identidade dos fundamentalistas cristãos. Não queiram negar o óbvio! A boate gay não foi escolhida por acaso. Não queiram esconder o mal que praticam contra nós. E respeitem nossa dor, por favor! Jean Wyllys, deputado federal PSOL-RJ
Carta Aberta contra a fusão do MCTI As instituições representativas dos servidores das carreiras de Ciência e Tecnologia abaixo-assinadas vêm manifestar sua profunda discordância com a injustificável fusão do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação – MCTI com o das comunicações, imposta pelo governo provisório. Tal ação, tomada sem qualquer diálogo com a comunidade científica os trabalhadores da área de C,T&I e sem qualquer justificativa técnica visível, além de um genérico corte de gastos, reduz a capacidade de atuação das áreas de Ciência, Tecnologia e Inovação, na medida em que o MCTI era a principal estrutura responsável pela elaboração de políticas, financiamento e avaliação das ações nesse campo. Ao longo da história, países que optaram por políticas públicas e pelo investimento na área de C&T como caminhos para a superação de crises pontuais ou de situações estruturais de atraso econômico, tiveram sucesso em seus planos. Ciência, Tecnologia e Inovação não podem, assim, ser consideradas como simples despesas, em uma lógica economicista restrita que, caso implementada – e a extinção do MCTI e sua incorporação a uma nova estrutura desprovida de qualquer lógica funcional é o sinal mais grave disso – trará graves prejuízos ao país, jogando-o no caminho do atraso em áreas de ponta da produção do conhecimento. O investimento no futuro não pode ser considerado despesa danosa. Um futuro sem desenvolvimento científico e tecnológico é um futuro sem perspectivas. Sem a devida valorização da C&T no país, viveremos não uma ponte para o futuro, mas um espelho a refletir eternamente o atraso. Ascon, Asmetro, Afinca, Afinpi, Assec, Asfoc SN, Assiint e Frente Ampla de Trabalhadores e Trabalhadoras do Serviço Público Pela Democracia.
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Restaurante Aurora reabre reformado
Café da manhã no Parque da Cidade
Fundado em 1898, o restaurante Aurora passou por uma reforma geral que só manteve a fachada. A casa foi adquirida pelo grupo Garota de Ipanema e promete voltar aos tempos em que era referência culinária na cidade. As instalações estão estalando de novas com amplo salão e mezanino climatizados e varanda na calçada. O cardápio tem mais de 40 pratos, entre eles, os tradicionais arroz de polvo, bacalhau e a picanha grelhada que serve até quatro pessoas. Durante a semana tem pratos executivos de até R$ 26. Destaque ainda para os tira gostos como o choux-choux de pernil, croquetes e lulas crocantes. A ressurreição do Aurora é um verdadeiro presente de aniversário para a cidade. Fomos lá conferir e aprovamos.
O Café da manhã servido no Parque da Cidade de Niterói brinda o público com um visual maravilhoso do Rio de Janeiro. No salão e varanda do Restaurante Serra & Mar é possível apreciar um caprichado café com muitas opções: chocolate, café, chá, pães diversos, bolos, tortas, tapiocas feitas na hora, doces, frutas, sucos, frios, queijos, ovos mexidos, omeletes e muito mais. O atendimento é somente sábados, domingos e feriados. Restaurante Serra & Mar Parque da Cidade de Niterói – Acesso pela Praia de São Francisco Fone: 2619-2001 Reserva pela página do Serra&Mar no Facebook deixando mensagem solicitando o dia.
Restaurante Aurora Rua Capitão Salomão, 43 – Botafogo Fone: 2537-2755 Funcionamento: Diariamente de meio dia às 02h Aceita cartões
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