10/09/2011 - Cultura Jornal Semanário

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Sábado 10 de setembro de 2011

Audiovisual

Estrutura de

Cinema

Secretaria de Cultura está prestes a inaugurar a sala que terá tela gigante e som digital Tomaz dos Santos

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stá quase tudo pronto para o funcionamento da Sala de Cinema da Casa das Artes. A tela de 250 polegadas, o projetor full HD e o sistema de som digital 7.1 já estão em funcionamento, aguardando os ajustes finais para poder receber o público. Para a inauguração, o secretário de Cultura, Juliano Volpato, estuda uma série de possibilidades. Entre elas, uma mostra de cinema, um festival ou sessões livres com diversos filmes, ainda sem data confirmada. Além

da estrutura audiovisual, a secretaria também prepara uma coletânea de filmes para o público. O investimento, de aproximadamente R$ 50 mil, contempla a tela retrátil por controle remoto, um projetor com mais de quatro mil lumens (fluxo emitido por um ponto luminoso), um receptor com sistema de som soundround 7.1 e um leitor de disco Blue Ray de alta definição. O sistema de som tem caixas com 100 watts reais de potência e um subwoofer de 300 watts. O equipamento foi adquirido por licitação no modo carta-convite, e a

empresa contratada, além de fornecer o material, instalou e deverá treinar o pessoal que irá trabalhar com a aparelhagem. O equipamento é “top de linha”, comemora o secretário. “Somos uma das primeiras cidades do Brasil a serem contempladas com o projeto Cine Mais Cultura, cujos kits ainda não chegaram. Vamos ter oito pontos de cinema, oficinas de cinema e lançar um festival com filmes produzidos nos pontos de cultura e nos Cine Mais Cultura de Bento e do Brasil. O Ministério da Cultura e a Assembleia Legislativa, com apoio

dos Correios, da Corag [Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas], já compraram a ideia”. Apesar de reconhecer que há pouco público para cinema em Bento, Volpato afirma que o município não deixará de investir, aliado ao Film Comission, da secretaria de Turismo, que já trouxe várias filmagens para a cidade. “As nossas demandas são locais. As pessoas precisam entender o cinema de baixo para cima, conhecendo como funciona e como é feito o cinema”, destaca o secretário. cultura@jornalsemanario.com.br


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Sábado 10 de setembro de 2011

assunta.deparis@gmail.com

Uma história de tradição

O dia vinte de setembro é comemorando como “DIA DO GAÚCHO”. O termo gaúcho é utilizado para nomear o homem do campo localizado nas regiões dos Pampas do Uruguai, da Argentina e do Estado do Rio Grande do Sul. Este último adotou o termo como nobre, ou seja, os habitantes que nascem neste Estado brasileiro são denominados gaúchos. Num primeiro momento (século XVIII), a expressão “gaúcha” era compreendida como sinônimo de vagabundo, de ladrão de gado, e com este tom pejorativo, era utilizado para designar mestiços, portugueses e espanhóis que capturavam o gado fugitivo dos primeiros povoamentos espanhóis. Com hábitos nômades, livre, sem lei e padrão, o gaúcho foi construindo a sua identidade. Com a colonização dos portugueses ocorreu à implantação de inúmeras fazendas destinadas à criação de gado. O gaúcho começou a trabalhar nestas propriedades, perdendo suas características de vida andante, tornando-se especialista no cuidado com a criação bovina, contribuindo na limitação das fronteiras territoriais nas regiões platinas. As inúmeras habilidades do gaúcho na vida campeira e principalmente a sua participação na REVOLUÇÃO FARROUPILHA proporcionou a eliminação do tom pejorativo e, deste modo, os gaúchos passaram a ser vistos como homens valentes, destemidos, dignos e patriotas. A partir deste momento são reverenciados. A Revolução Farroupilha marcou a história do Brasil e do Rio Grande do Sul. Foi a maior guerra civil que o país já sofreu. Em 1835, os fazendeiros da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul estavam insatisfeitos com a política aplicada pelo Governo Imperial. A centralização do poder na Corte, o abandono das Províncias, a falta de estradas, o aumento abusivo de impostos sobre o charque e o couro foram alguns dos motivos que levaram à explosão da revolta. No dia vinte de setembro de 1835 ocorreu o primeiro combate entre os Farroupilhas e as forças imperiais, dando início à Revolução Farroupilha. Foram dez anos de intensos combates. Durante REPRODUÇÃO este período houve a proclamação da independência da Província, dando origem à República Rio- Grandense. Com espírito guerreiro prosseguiram com suas idéias, lutando até o último momento. Conseqüentemente o O gaúcho jamais esquecerá a revolta exemplo de cora- que foi a luta pela liberdade e por gem e patriotismo sua autonomia política dos gaúchos ficou marcado na história. Os gaúchos têm profunda admiração pela sua história. O acervo cultural gaúcho é extremamente rico, seja na música, na dança, no folclore, na culinária, na literatura e em tantos outros campos. “Por fim, salientamos que as comemorações do vinte de setembro e, acima de tudo, as iniciativas de cultivo da cultura gauchesca ultrapassam as fronteiras do Rio Grande do Sul. Nos quatro cantos do Brasil e até do exterior, onde há um Gaúcho, ali existe um compromisso com tudo aquilo que rege as tradições gaúchas. Que este espírito de patriotismo, de preservação cultural, de unidade e solidariedade possa sempre estar nas raízes do povo gaúcho.”

Investimento

Um novo espaço para a cultura de Bento Secretaria trabalha na finalização dos projetos da nova biblioteca FELIPE ZIBELL

Tomaz dos Santos

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secretaria de Cultura de Bento está trabalhando para garantir recursos do Ministério da Cultura e construir um Espaço Mais Cultura na praça centenário. O projeto faz parte do programa Mais Cultura e abrigará a biblioteca pública e terá outros espaços como auditório e salas de oficinas. Até o final de outubro, todos os projetos da obra deverão ser encaminhados para Brasília para a liberação dos R$ 1,8 milhão, que já estão garantidos. A intenção do secretário Juliano Volpato é fechar o convênio até dezembro, para que, em abril de 2012, a obra comece a ser levantada. Em contrapartida, a prefeitura deverá investir mais R$ 500 mil para totalizar os R$ 2,3 milhões previstos. “Provavelmente a obra não será concluída na minha gestão”, adiantou. Conforme Volpato, o projeto começou a ser trabalhado ainda no início de 2010, pois havia necessidade de colocar a biblioteca Castro Alves em um espaço mais amplo e próprio. “O lance da biblioteca eu vinha insistindo com o ministério, mas não haveria uma verba tamanha para construir uma super biblioteca. Então, tivemos que nos enquadrar dentro do Espaço Mais Cultura, que é a única ação dentro do Ministério onde a gente conseguiria adaptar o projeto da biblioteca com o que o ministério disponibiliza”, disse o secretário. Porém, Volpato não confiava muito que o projeto fosse aprovado, uma vez que o

Espaço Mais Cultura será construído na praça Centenário

município já havia firmado diversos convênios com o ministério, como os Pontos de Leitura, os Pontos de Cultura, a Arca das Letras e o Cine Mais Cultura, que já estão em andamento. “Este projeto da bilbioteca sempre foi prioridades, mas eu sempre falei que se viessem estes recursos, eles seriam um prêmio, um plus, pois já havíamos desenvolvido diversos projetos no decorrer destes dois anos”, avaliou o secretário, que afirma que o

município ainda está carente de equipamentos culturais. Segundo ele, o espaço terá um auditório de 100 lugares, um telecentro, sala de restauro, sala de dança e teatro, acervo de livros e salas de leitura. “Será um espaço multiuso, que deverá ter o máximo de atividades e ambientes internos que possam ser utilizados para a arte, mobilizando toda a comunidade”, declarou. reporter2@jornalsemanario.com.br

Caderno

Este caderno faz parte da edição 2754 de sábado, 10 de setembro de 2011, do Jornal Semanário

Edição: Tomaz dos Santos Revisão: Maiara Alvarez Periodicidade: Quinzenal Diagramação: Robson B. Oliveira

Projeto Gráfico: Maiara Alvarez Foto de Capa: Tomaz dos Santos Supervisão: Rogério Costa Arantes Direção: Henrique Alfredo Caprara jornal.semanario@italnet.com.br

SEDE Wolsir A. Antonini, 451 - Bairro Fenavinho/Bento Gonçalves, RS 54. 3455.4500


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Sábado 10 de setembro de 2011

Esporte e música

flaviolf@vscomp.com.br www.flavioluisferrarini.com.br

Rock sobe ao palco da Casa das Artes

Vida

Time de rugby promove show para destacar a modalidade JORGE BRONZATO JR.

Bidê ou Balde em show no Teatro da Casa das Artes, em evento promovido pelo Farrapos Rugby Club

Clarissa Dutra

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feriado de 7 de setembro teve uma atração a mais em Bento Gonçalves: a Fundação Casa das Artes recebeu o show da banda Bidê ou Balde, promovido pelo Farrapos Rugby Clube, que comemora a conquista do bicampeonato gaúcho da modalidade e a classificação inédita de um time gaúcho para a disputa das quartas de final do Super 10, o campeonato brasileiro da categoria. Em pouco mais de uma hora de apresentação, a banda cativou a plateia com antigos sucessos, como Melissa e Mesmo que Mude, e ainda tocou as novas músicas do EP Adeus, Segunda-feira Triste, que marca a volta do grupo depois de um breve período de recesso. O vocalista, Carlinhos Carneiro, afirma que todos adoraram o show em Bento e estão aguardando a volta à cidade. “Adoramos fazer o show em um teatro tão legal, assim como o público. Foi tudo diferente para a banda, mas foi ótimo”. Uma nova apresentação está agendada para a Rugby Party.

Buscando arrecadar fundos e investidores, o time de rugby de Bento promove um grande evento, no dia 15 de outubro, com diversas atrações, entre elas, a volta da banda porto-alegrense. No site criado para o evento (www.rugbyparty.com. br), os organizadores destacam que o time precisa angariar fundos para continuar crescendo. Sobre o próximo show, o vocalista destaca que o repertório não deve se repetir, já que no dia 29 de setembro a banda faz show no bar Opinião, tocando na íntegra o primeiro álbum da carreira, Se Sexo é o que Importa, Só o Rock é Sobre Amor. “Então devemos estar no embalo desse show. Com certeza, dia 15 de outubro vai ter algo dele”, explica Carlinhos. Outras atrações são as parcerias que estão surgindo e em breve serão confirmadas. A Rugby Party, que ainda não tem local definido, será aberta à participação de toda comunidade e os ingressos serão vendidos a partir do dia 15 deste mês, nas lojas CadOro, Trópico Surf Shop e Escola Infoserv.

No

estúdio

Além dos shows, a Bidê ou Balde está, também, em estúdio gravando seu próximo álbum, que tem previsão de lançamento para março de 2012. 10 faixas já estão gravadas e em fase de finalização. A banda tem ainda mais três singles e as cinco músicas do EP, Adeus Segunda-feira Triste, que estão disponíveis no site da banda. “Temos muito material novo; por isso, ainda não sabemos ao certo quantos músicas terá o CD”, explica Carlinhos. “Mas, até o lançamento do álbum, vamos lançar uns três singles para não perdermos o contato com o público”. Diferente da forma de criação dos álbuns anteriores, esse está sendo feito em parceria. “Nos primeiros álbuns, as letras eram minhas e as músicas eram feita sem conjunto pela banda. Mas, esse álbum tem músicas inteiras do Pila, o guitarrista, umas parcerias nossas, e também umas letras do Frank Jorge. Pode soar um pouco diferente, mas tem o clima da Bidê”, afirma Carlinhos. bairros@jornalsemanario.com.br

comum

Felicidade não é ter começado como lenço de papel e ter virado guardanapo de seda bordado com fios de ouro. Felicidade não é ter começado no “p” de porteiro e ter chegado ao ao “P” de Presidente. Felicidade não é ter todas as cores e morar numa cobertura, com vista de avião para toda a cidade. Felicidade não é apenas “passar uma tarde em Itapuã/ ao sol que arde em Itapuã/ Ouvir o mar de Itapuã/ falar de amor em Itapuã”, como escreveram Toquinho e Vinícius. Felicidade é viver uma vida comum. Talvez, mais do que isso, seja viver sem querer transformar a vida num artigo de luxo. Felicidade é viver uma vida comum com família, casa e comida. Felicidade é ter sono para dormir de noite. Ter disposição para acordar de manhã e ir ao trabalho fazer o que se gosta ou se aprendeu a gostar de fazer. Levar uma vida comum é levar uma vida sem grandes dramas, sobressaltos e histórias de traições. Felicidade é ter bons molares para mastigar uma maçã colhida no pé. Crer em um Ser Superior em quem buscar forças para continuar. Felicidade nada mais é que ter braços fortes para abraçar o amigo. Voltar para casa no final da tarde com o pacote de pão debaixo do braço. Trocar uma lâmpada queimada. Viver uma vida comum sem grandes sobressaltos, isso é ser feliz. Felicidade é sair para jantar no Sacarola no sábado à noite com o amigo. Degustar um bom vinho. Manchar a camisa com café. Rir às gargalhadas para punir as unhas do estresse que a semana enterrou. Felicidade é sentir a presença da ausência que é a saudade. Sentir insegurança que nos pega pela mão e nos obriga a prosseguir. Sentir uma espécie de tristeza que lava o olho de dentro para fora. Felicidade é sentir mais e pensar menos. Por incrível que pareça, felicidade é ter problemas para solucionar. Felicidade é ter uma memória esburacada qual queijo suíço, porque esquecer é uma forma de perdoar a si mesmo e ser feliz. Felicidade é pautar-se pela relevância e não pela audiência. Felicidade é ter parentes distantes para dizer uns venenos de vez em quando. A felicidade está em se levar uma vida comum. Estar apertado para urinar; aflição no início e alívio no final. Felicidade é ler um bom livro, assistir a um bom filme, ouvir uma boa música. Arrumar a cama. Escovar os dentes. Tirar caca do nariz com o mindinho. Felicidade é saber que o conhecido quase diminui o imaginado. Às vezes, esquecemos de agradecer a vida comum que levamos. Felicidade é isso. Ter filhos que se rebelam contra a educação nutricional à base de couves e papaias e mandam ver na batata-frita, pizza e refri. Felicidade é usar um sapato comum, vestir uma calça jeans e uma camiseta que já viu dias melhores. Felicidade é ter uma boa cabeça bem equilibrada sobre o pescoço firme como um crisântemo em seu forte talo. E para terminar, uma velha frase comum: Felicidade não é querer ser feliz para sempre, mas ser feliz sempre que possível. Felicidade é careca: tentar agarrá-la pelos cabelos. É fazer da vida um eterno pesadelo.


4 Arte no Sesc

Sábado 10 de setembro de 2011

denisedarebg@gmail.com

Mês

de exposição, música e cinema

Velhice descartada

Literatura infantil, rock gaúcho e filmes de animação no repertório REPRODUÇÃO

Uma das atrações do mês, a Banda Estado das Coisas toca clássicos do cancioneiro gaúcho

Patrícia Lima

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urante o mês de setembro, o Sesc Bento promove uma intensa programação cultural por meio das artes visuais, shows musicais e apresentações de cinema. Começa na próxima segunda, 12, e segue até o dia 29, a 7º Mostra de Ilustração de Literatura Infantil e Juvenil, que homenageia as ilustradoras Eva Furnari, Ana Raquel e Ângela Lago, que completaram 30 anos de carreira em 2010. A exposição tem o objetivo de divulgar as múltiplas formas de se contar histórias. A ilustradora e escritora ítalo-brasileira Eva Furnari, é autora da famosa personagem Bruxinha e já teve várias de suas obras adaptadas para o teatro. A autora recebeu o prêmio Jabuti nos anos 1986, 1991, 1993, 1995, 1998

e 2006. Seus livros já foram publicados no México, Equador, Guatemala, Bolívia e Itália. A ilustradora mineira Ana Raquel já ilustrou cerca de 130 livros de literatura e algumas coleções didáticas. A também mineira, escritora e ilustradora Ângela Lago tem suas obras totalmente dedicadas às crianças, onde não utiliza palavras, somente imagens. Entre elas destacam-se Cena de Rua, premiada na França, onde também foi publicada, assim como no México e Estados Unidos.

Música Dia 16, o Sesc apresenta o show Pulperia Roqueira, com a banda Estado das Coisas e o convidado especial Diablo Jr. Por meio desse projeto, a Estado das Coisas presta uma homenagem ao

Cancioneiro Popular Gaúcho. A banda é formada por Tiago Ferraz (voz e guitarra), Rafa Schuler (guitarra e vocais), Guilherme Gul (bateria), Alexandre “Mestre Kó” Gaiga (teclados e vocais), David Fontoura (baixo) e Paulinho Cardoso (acordeon). No repertório estão sucessos como Eu Sou do Sul, Céu, Sol, Sul, Hino Riograndense, entre outras.

Cinema Dia 22, serão exibidos gratuitamente no Cine Sesc dois filmes de animação. Às 15h será apresentado o filme infantil ‘O Grilo Feliz’, lançado em 2001. Às 20h será exibido o filme de animação adulto, ‘Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock and Roll’, lançado em 2006. variedades@jornalsemanario.com.br

Quando Doca pediu arrego, já haviam sido subtraídos vários centímetros de seus quase dois metros de altura, e vários outros se apinhavam numa significativa curvatura, típica de quem passara a vida trabalhando na lavoura. -Bueeenas! Entonces, Seu Elias, o senhor arranja qualquer canton pra este velho que a morte não quer levar? Seu jeito simples e direto marcado por uma linguagem que misturava vários sotaques, conquistou de imediato o italiano com cara de durão e coração de pão: -Si! Onde comem nove, comem dez. Soube-se então que ele passara oitenta anos servindo aos patrões feito burro de carga. Quando a doença limitou seus movimentos, ele foi liberado. Sem eira nem beira, zanzou pelas estradas até acabar na porta certa. No começo, as crianças ficaram apavoradas. Nunca haviam visto pessoa tão... diferente. Um dos olhos, vazado – souberam mais tarde que o fato ocorrera durante corte de cana – e a boca, torta, sequela de um acidente vascular cerebral. Mas, com o passar do tempo, a sutileza de espírito se sobrepôs ao aspecto físico, e os pequenos aprenderam a respeitar o velho. Doca ganhou uma casinha de um cômodo, perto da casa maior. Nunca lhe faltou comida e cuidados. E alguma aguinha de cana “mode de passar a dor de dente”. À rapaziada das redondezas que gostava de se divertir às suas custas, ele avisava: “Pra se meter comigo tem que mijar mais alto do que eu!” O homem, analfabeto de pai e mãe, que foi presenteado com a certidão de nascimento aos noventa anos pela família que o acolheu, era sábio. Fazia vaticínios a respeito do caráter das pessoas – e sempre acertava. Interpretava os sinais da natureza, como o canto dos pássaros, o movimento das nuvens, as cores da Lua..., para fazer a previsão do tempo. Que invariavelmente acertava. E toda vez que ouvia anúncios fúnebres pelo rádio, dizia: “O que tem que todo mundo vai e eu fico?’ Só uma década depois, ganharia as asas que o conduziriam ao merecido descanso. Essa história veio à tona porque suas palavras foram repetidas por uma pessoa que, assim como milhares de outras que já não têm vida produtiva, se sente invisível aos olhos dos que a cercam. A maioria dos laços foram desfeitos e não lhe é facultado interagir com o mundo através da própria expressão. Quase ninguém a vê, quase ninguém a ouve. E a invisibilidade dói. Um dia, poderemos estar vivenciando essa experiência... Bom... eu não! Afinal, linda como sou, não passarei despercebida. Estão rindo de quê? Perguntem à minha netinha se não é verdade!


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