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Quadrinho no Prêmio Jabuti Quase 60 anos do prêmio, organizadores decicidram incluir o gênero como categoria JÚLIA FERNANDES ILUSTRAÇÃO: RAFAEL COUTINHO


HELOÍSA D’ANGELO

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59º Prêmio Jabuti, cujas inscrições começaram na quinta-feira, 18, incluirão as histórias em quadrinho em uma categoria exclusiva, após quase 60 anos desde a criação do prêmio. Antes da mudança, os quadrinistas Wagner Willian, Ramon Vitral e Érico Assis criaram um abaixo-assinado na plataforma Change.org pedindo a inclusão das HQs na premiação, que foi enviado à Câmara Brasileira do Livro (CBL). A solicitação recebeu mais de 2 mil assinaturas e contou com o apoio de quadrinistas como Laerte Coutinho, Marcelo D’Salete e Rafael Coutinho. Até o ano passado, o gênero entrava em outras categorias, como didático, paradidático, adaptação ou ilustração, mas só agora se torna exclusivo. Os critérios utilizados serão histórias originais ou adaptadas, ilustradas através de desenhos sequenciais, cor, mensagem e imagem. As histórias em quadrinho existem há mais de 100 anos, quando o ilustrador Angelo Agostini desenhava sátiras políticas para a revista O Tico-Tico. Mas há tempos que os quadrinhos expandiram sua presença nos livros e nos meios digitais. No Brasil, os trabalhos de quadrinistas são equiparáveis a grandes vanguardistas publicados mundialmente. Na cena atual brasileira, Ramon Vitral entende que é impossível o júri englobar o universo das HQs, marcado pela diversidade e versatilidade dos autores. Fora do Brasil, existem vários prêmios que reconhecem as HQs como categoria

exclusiva, como o Prêmio Pulitzer, uma das maiores premiações do mundo e que agraciou na década de 90 a HQ Maus, de Art Spiegelman. A inclusão reforça o valor da HQ como “importante elemento de

A inclusão no Prêmio Jabuti é apenas um reconhecimento dessa força. - Otaviano da Costa identidade cultural e manifestação artística”, entende a quadrinista Beliza Buzollo, que retrata o mundo lésbico em seus quadrinhos. O cartunista Rafael Coutinho, filho da Laerte Coutinho, também cartunista, entende que a inclusão é resultado de uma demanda histórica. Vem com um acúmulo de produção condizente com nível de reconhecimento do Prêmio Jabuti dado pela comunidade literária. Ainda assim, para Coutinho, as HQs independem da premiação. “O quadrinho não deve nada à literatura. Com ou sem prêmio tem uma força intrínseca que só cresce”. Ele espera que o reconhecimento da Câmara Brasileira do Livro possa gerar leis de incentivo para a categoria, uma vez que “passa um ótimo sinal para gestores que têm em suas mãos esse tipo de acontecimento”. Otaviano

lida com quadrinhos há mais de 50 anos. A quadrinista e jornalista Heloísa D’Angelo, entende que o mercado pode melhorar com o Prêmio Jabuti, mas também não é algo que definirá o futuro das HQs. O mercado editorial acompanha esta força das HQs. Na cena atual brasileira é impossível o júri englobar o universo das HQs. Uma delas é o Social Comics, o Netflix das HQs, que remunera os artistas de acordo com a quantidade de páginas lidas das obras. É um espaço que está em ebulição no Brasil.

Mulheres

O Festival de Angoulême, o prêmio europeu mais importante dos quadrinhos, até há dois anos não tinha nenhuma mulher quadrinista em suas premiações. A justificativa de um dos organizadores foi a de que não existem mulheres realizando esse trabalho. No ano seguinte, o Prêmio Eisner, o Oscar das HQs, bateu o recorde de mulheres vencedoras. “Dizer que não existe mulher quadrinista é uma mentira”, afirmou Heloísa D’Ângelo mostrando como o meio das HQs ainda é muito machista e excludente. “Eu espero que o Prêmio Jabuti olhe para a enorme produção feminina. Nós existimos, mas o mercado não tem espaço pra gente”, termina. As histórias em quadrinho misturam cinema e literatura. “Porque consideramos os quadrinhos um meio bobo, quando não vemos dessa maneira nem o cinema e nem a literatura?”, questiona Heloísa.

27 de novembro de 2017


FOTOGRAFIA

BRASILEIRO SE DESTACA EM COMPETIÇÃO INTERNACIONAL DE FOTOGRAFIA URBANA A competição desafiou amadores e profissionais

JÚLIA FERNANDES FOTOS: FÁBIO TEIXEIRA

Fiquei muito feliz por saber que meu trabalho está sendo reconhecido fora do Brasil, é sinal que estou no caminho certo

Fábio Teixeira


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ontribuindo para enriquecer o fotojornalismo brasileiro, Fabio Teixeira, 39, começou a fotografar aos 17 anos, em 1993, no interior de São Paulo. Hoje, com o passar do tempo, ele vem ganhando cada vez mais o mundo com as suas imagens. Natural de Piracicaba, há sete anos reside no Rio de Janeiro. E foi em solo carioca que registrou cenas cotidianas premiadas Brasil a fora desde 2015. O olhar preciso de documentarista não deixa escapar o que muitas vezes passa despercebido aos mais apressados.

Recentemente foi premiado na “Urban Photographer of the Year 2016”, competição de fotografias urbanas, promovida pela CBRE Group, empresa de serviços e investimentos imobiliários situada em Los Angeles. A competição desafiou fotógrafos amadores e profissionais a capturar a essência do ambiente urbano, Teixeira levou o segundo lugar com uma foto intitulada “Brincando no Poço”, onde ele registrou três meninos brincando em um poço de água poluída, em uma invasão no antigo prédio da Oi, no Rio de Janeiro.


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m outubro de 2016, ganhou o “21º Concurso Latino-Americano de Fotografia Documental – O Trabalho e os Dias (Los Trabajos y los días)”, realizado pela Escuela Nacional Sindical, na Colômbia. O reconhecimento veio pela série de imagens de crianças que fazem a limpeza dos túmulos no cemitério da Favela do Caju, zona norte do Rio de Janeiro. Esse mesmo trabalho lhe trouxe o prêmio MPT de Jornalismo no mesmo ano. Para ele, não existe um jeito certo de fotografar, pois cada fotógrafo tem uma linguagem. “A partir do momento que você tem seu próprio discurso, você usa sua própria técnica, ou seja, cada um fotografa de um jeito”, explica. Segundo Teixeira, quando se faz a documentação de vidas alheias, a simplicidade e humildade devem ser o alicerce de tudo. “Procuro buscar a essência das histórias. Os momentos mais belos são os momentos mais simples. Sempre observo cores e procuro chegar o mais próximo da perfeição nos enquadramentos, não sou perfeito, nunca vou ser, mas sempre vou procurar melhorar a cada fotografia”, finaliza. O fotógrafo Fabio Teixeira passou

os últimos dois meses fotografando pessoas em suas atividades cotidianas no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.

Retratos de trabalhadores

moradores e da Maré

O fotógrafo Fabio Teixeira passou os últimos dois meses fotografando pessoas em suas atividades cotidianas no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Há sete anos morador do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, o fotojornalista Fabio Teixeira há dois meses vem fotografando pessoas da sua quebrada. Sua ideia, ele me conta, era simplesmente documentar trabalhadores em suas atividades cotidianas na Maré. “A maior parte das pessoas são negras, isso chamou minha atenção”, conta ele, que registrou diferentes expressões dos seus vizinhos — muitos dos quais ele sequer conhecia. Cada um dos retratos nos evoca um pouco da vida de cada um desses personagens. “As favelas do Rio são pura alegria”, me diz o fotógrafo. “As pessoas são respeitosas, são educadas. Existe a violência, mas a alegria reina.”



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O poder das lentes

Ensaios fotográficos chamam a atenção para o engajamento social JÚLIA FERNANDES

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ntolerância, estereotipação, preconceito. Embora o Brasil se trate de um país miscigenado e, ainda mais, onde tudo parece ser permitido, estes três termos entraram em total evidência no que diz respeito à cada vez mais evidente luta de longa data travada pelo movimento LGBT contra o preconceito. Depois de um período decisivo de grandes acontecimentos, como a irrisória proposta de “cura-gay” do deputado federal Marco Feliciano, de grandes conquistas como a crescente onda de liberação do casamento igualitário o ódio ainda figura como o maior desafio dessa “minoria” e a aparente aceitação, gritada aos quatro cantos, é frequentemente questionada. Importante aliada do jornalismo e promotora de olhares diversificados do mundo, a fotografia também fala e por isso mesmo, nunca foi tão aliada – e também queridinha – das massas. Diariamente expõe-se a necessidade de um olhar sincero, crítico e profundo de quem fotografa, convertendo o exercício de registrar aquele momento como algo que vai além de uma boa câmera e uma temática interessante a

ser abordada. Pensando nisso, um grupo de estudantes da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) deu vida a uma iniciativa pra lá de curiosa que usa essa linguagem a favor de uma boa causa.

expressões faciais de quem foi fotografado, o quão grande ainda é o discurso de ódio e intolerância da sociedade, mas acima de tudo, as dimensões do desafio de vencer a intolerância e a estereotipação.

Com rápida repercussão nas redes sociais e nos principais veículos de informação, o ensaio intitulado de “Sexualidade e Ignorância” bateu de frente a uma discussão bastante intrincada, originada por uma cultura errônea que fere sem dó, e a curto prazo não deve deixar de figurar o cenário social. Frente a isso e no intuito de chamar a atenção para este que se converte a cada dia um problema mais grave, os organizadores procuraram pessoas aleatórias nas ruas de São Paulo que pudessem relatar através de frases escritas em um cartaz marcas e ataques que revelassem algum tipo de violência sofrida. Mais intenso e longínquo do que qualquer tipo de militância – o que parece impossível de atingir em tempos de “guerra” como agora – o resultado foi uma galeria fantástica recheada de fotos, todavia sistemáticas, que revelam também pelas

O ensaio, inspirado nos projetos “Ah, branco, dá um tempo” – manifestação dos alunos da Universidade de Brasília (UnB) contra o racismo – e #EuTeOuviDizer, que trata da homofobia na fala das pessoas, produzido pela fotógrafa Sabrina Marthendal, levanta a questão dessa necessidade de usar a fotografia como arma de conscientização ou ainda, como publicidade de determinadas causas. Atitude semelhante fez sucesso em Portugal, com a divulgação do projeto “Sempre Quis Ser”. De autoria de Catarina Fernandes e João Porfírio, ambos com 19 anos de idade e estudantes de jornalismo, o ensaio, que chegou a ser exposto em um dos grandes shoppings centers da capital portuguesa, impressiona pela simplicidade e impacta ao focar os efeitos da desigualdade, expressos em placas que contam apenas com a escrita de sonhos profissionais frustrados.

Precursores


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JORNALISMO JĂšNIOR (ECA-USP)

Jovem sofre preconceito por se encaixar em duas minorias: ser negro e ser gay. Na foto, o cartaz retrata o preconceito sofrido pelo estudante.

27 de novembro de 2017


Fotógrafo viaja o mundo provando que um celular é suficiente para fazer cliques incríveis O espanhol Guido Gutiérrez Ruiz revela cliques incríveis feitos a partir de seu celular e compartilhados no seu Instagram. JÚLIA FERNANDES FOTOS: GUIDO GUTIERREZ RUIZ


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s smartphones triplicam seu poder quando caem nas mãos de pessoas talentosas. Isso porque fotógrafos amadores têm roubado a cena nas redes sociais, mostrando que a câmera do celular pode ser muito mais útil do que se imagina. O espanhol Guido Gutiérrez Ruiz fez bastante sucesso com suas fotografias feitas em poças d’água ao redor do mundo, mas agora ele revela outros cliques incríveis. Com o aparelho em mãos, Ruiz sai para fotografar os lugares por onde passa, mas com a mesma técnica e precisão que um profissional poderia ter. “Eu gosto de capturar momentos que contam uma história. (…) Procuro não editar demais as minhas fotos e é por isso que só uso as ferramentas do Instagram para editá-las“, escreveu. No Instagram ele tem ganhado fãs do mundo todo, chegando a mais de 17 mil seguidores. As imagens, que em sua grande maioria tem ares românticos, foram feitas em vários lugares da Espanha, Canadá, Londres e Portugal. Inspire-se e vá clicar sua cidade: Tem gente que não se dá bem com poças d’água (meia molhada o dia inteiro, realmente, não é a preferência da maioria). Não é o caso do fotógrafo espanhol Guido Gutiérrez Ruiz, que faz belas imagens fotografando o “mundo paralelo” criado pelo reflexo de poças d’água.

“Toda vez que eu encontro uma poça, eu coloco a lente da minha câmera o mais próximo possível para capturar seu mundo paralelo”, escreveu o artista, em um post para o site Bored Panda.

Imagem retirada do Instagram do fotógrado feita em uma viagem a Lisboa.


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8 dicas para você tirar boas fotos com o celular JÚLIA FERNANDES

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unte a fotografia aos aparelhos móveis e você terá a mobgrafia. Trata-se de um movimento que vem ganhando cada vez mais força graças ao crescimento das redes sociais e que tem conquistado fotógrafos profissionais e amadores. “Alguns dizem que ela banaliza a fotografia. Na verdade, ela faz com que a fotografia seja do jeito que deva ser, uma arte inclusiva, que aproxima as duas partes”, conta o fotógrafo Cadu Lemos, um dos criadores do mObgraphia ao lado de Ricardo Rojas. E para se destacar em meio a tantos praticantes, o segredo está na capacidade de enxergar através da lente e na maneira como algumas regrinhas específicas são colocadas em prática. ca Cadu. Esta é a regra de ouro para se destacar com a mobgrafia. Olhar apurado, basta seguir algumas dicas práticas para alcançar resultados cada vez melhores...

1. Preocupe-se bastante com a luz

2. Faça uso da técnica do HDR

Todo telefone celular tem um sensor muito pequeno. Isso significa que o aparelho não vai responder bem às condições de baixa luminosidade. O objeto a ser fotografado está com muita sombra? “Chegue o mais perto possível dele para eliminá-las e não tenha receio de se sentar, deitar, subir em algum lugar... Para tirar as sombras, é preciso ir além do nível do braço e chegar o mais perto possível do que será fotografado”, ensina o especialista.

Para que a cena pareça o mais real possível, o recurso é ótimo. Ele consegue simular o alcance dinâmico dos olhos e ressaltar os detalhes luminosos e sombreados de um mesmo ambiente. O segredo está na sequência de fotos tiradas com diferentes graus de exposição. O resultado final é bastante nítido. E para que fique ainda mais perfeito, não deixe o celular escolher uma exposição automaticamente, coloque o foco na parte mais escura da cena.


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3. Enquadramento é essencial

5. Baixe o Snapseed

7. Leia muito sobre o assunto

Para conseguir um bom registro, é preciso saber colocar os elementos na foto. Como? A regra dos terços ainda vale. Divida a imagem em nove quadrados iguais e procure colocar o ponto mais importante da sua foto em uma das quatro pontas do quadrado central. Mas encare isso apenas como um guia. Fique à vontade para desrespeitá-la quando achar necessário. Centralizar um objeto continua sendo válido – e atraente - quando, por exemplo, se constrói um fundo interessante, cheio de cores, elementos arquitetônicos, com simetria.

“Este é o principal app de edição de fotos que recomendo e uso. Ele é gratuito e está disponível para Android e IOS. Nenhuma das minhas fotos é publicada sem passar por ele. Ele te dá uma liberdade enorme de contraste, iluminação, HDR e filtros”, aconselha Cadu. Aliás, para se aproximar cada vez mais dos recursos utilizados por fotógrafos profissionais, o Instagram ganhou recentemente novas ferramentas de edição. Ajuste de brilho, contraste, aquecimento, saturação, destaques e sombras, e nitidez entraram para a lista de ferramentas disponíveis.

Segundo Cadu, existem cinco sites sobre o assunto que merecem entrar na sua barra de favoritos: >> www.mobgraphia.com

4. Jamais use zoom

6. Siga as pessoas certas no Instagram

Os celulares não têm zoom óptico, que oferece boas ampliações. “Só o Lumia tem”, revela o expert. “O zoom digital pode acabar com a sua fotografia. Então, não tenha receio de se aproximar o máximo que puder do objeto ou do sujeito.” Isso faz toda a diferença.

>> http://www.artofmob.blogspot.com.br/ >> www.lifeinlofi.com >> www.hipstography.com >> www.mobilephotoawards. com “Estar disposto a apurar o olhar e a aprender só enriquece e ajuda a melhorar ao longo do tempo”, diz o expert.

8 . E experimente! Ter boas referências é imprescindível para conseguir fazer uma “Ao contrário da fotografia boa foto. Cadu sugere então 27 tradicional, que as pessoas falam usuários do Instagram que, certapara pensar bem antes de clicar, mente, vão te inspirar – e ajudar a mobgrafia permite uma liberda– a fazer melhor... de maior. Clique, clique, clique! Depois você escolhe o material que melhor representa aquilo que você quer transmitir”, finaliza ele.

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Fotojornalismo: um olhar do repórter O fotojornalista é um operador da fragmentaridade e objetividade JÚLIA FERNANDES

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o final de algumas acções de formação em que participámos, muitos jovens afirmavam a sua vontade de virem a ser repórteres fotográficos, como se fosse uma endemia vocacional. Há classes profissionais que propiciam fascínio — médicos, polícias, jornalistas, juristas, bombeiros e outras. É a visão romântica que as torna atractivas. A sociedade, de um modo geral, tem a ideia de que estes profissionais possuem o poder de transfomar o mundo. As imagens de televisão mostram, nos seus “planos de corte”, o repórter-fotográfico em acção, com as suas aparatosas máquinas e objectivas em riste, nos gabinetes ministeriais ou nos palcos de guerra; nos tribunais, nos estádios e em espaços onde campeia a conflitualidade. O espectáculo, o estar perto dos poderes e a actuação sobre o fio da navalha fazem do repórter um herói e uma testemunha privilegiada dos acontecimentos que são notícia. Não é por acaso que o cinema tem dedicado algumas películas à nossa actividade, em que o prota-

gonista é um repórter-fotográfico. El Salvador; Debaixo de fogo; Blow up - a história de um fotógrafo; Primeira página e Repórter indiscreto, para referir os mais conhecidos. Como não será pura coincidência, o facto de todos os filmes relacionarem as aventuras dos fotógrafos de imprensa com a violência e a morte. A angústia, a dor, o sofrimento humano, o mórbido, são apenas exemplos das fotos de imprensa mais premiadas. Os grandes prémios de fotojornalismo, normalmente, contemplam imagens chocantes — guerra, tragédias, cataclismos, tumultos, conflitos sociais, racismo. Isso porque o fotojornalista “estava lá” em pessoa, testemunhou os factos, registou-os e transmitiu-os à sua maneira. A World Press Photo, edição de 2001, distinguiu um trabalho do jornalista dinamarquês Erik Refner, entre 50 mil fotos presentes a concurso, que retrata o cadáver de uma criança a ser preparado para o enterro, num campo de refugiados do Paquistão. O fotojornalista é visto como alguém que se furta ao convencional; ao social e politicamente

correctos. Temos, por vezes, de fugir à ortodoxia e à normalidade, embora sem desvios éticos e de deontologia para se conseguir desempenhar a missão, dada a dificuldade em transpor os muros altos dos poderes instalados, que condicionam a nossa actividade, mais do que a de qualquer outro jornalista. Somos uma espécie de intrusos, com a particularidade de nos movimentarmos com relativa descontracção. As pessoas já se habituaram à nossa presença. Há casos em que até fazemos parte do “happening”. Somos queridos e desejados; detestados e odiados; às vezes, simplesmente tolerados; outras vezes, somos a esperança dos que já a perderam há muito. O nosso trabalho favorece a visibilidade do real acontecido, consonante com a “verdade dos factos”, o que nem sempre é assim tão linear. A ficção audiovisual dá uma ideia do mundo que as pessoas interiorizam, mas são as fotos de imprensa aquelas que chocam e são a imagem daqueles que não têm direito à opinião e à imagem física e moral, próprias da sua condição humana.


“O pior dia não é quando minha segurança está em risco, é quando eu não consigo tirar as fotos que eu quero”, disse Sinclair. “Você tem uma chance de conseguir que essas vozes sejam ouvidas, então todos os dias contam.” - Stephanie Sinclair



#MinhaFotoNaFeauture ROCK YOUR BODY

Prezados leitoras e leitores, neste espaço convidamos você à mandar registros fotográficos de sua autoria. A cada edição, nossa editoria sugere um tema e as quatro fotos mais votadas no nosso site aparecem na edição seguinte. Para participar basta postar sua foto no Instagram com legenda + a tag #MinhaFotoNaFeauture. Nesse mês o tema era “Rock your body” - onde os participantes deveriam postar fotoso do movimento do corpo. O próximo tema é “Invisíveis”, no qual deversão ser retratadas pesssoas que estão no cotidiano da sua cidade, mas que de alguma maneira são invisíveis. Além da foto, convidamos vocês a contar a história dessa pessoa. Na próxima edição, faremos uma reportagem especial sobre os cidadãos heróis e invisiveis da cidade e sua foto poderá ilustrar a matéria. Contamos com sua participação.

Um abraço, Equipe Feature

Pista de skate compartilhada ao final da tarde.

Lucas Santos, @lucasantos

Corrida nos céus na golden hour Gabriela Amarante Bittencourt @gabbitten_

Insipire e respire. Natação como exercício completo Lua Linck @lualinck

Atravessando o campo e o tempo de bike Bernard Westphalen @bwestphalen


FOTOGRAFIA

Finas linhas separam fotojornalismo de arte ou embuste Reproduzido da Revista de Jornalismo ESPM nº 13 (abril, maio e junho de 2015). Carlos Eduardo Lins da Silva (Jornalismo ESPM) e Breno Costa (Brio)

D

iferenciar fotos jornalísticas reais de ensaiadas não é problema novo. A controvérsia sobre a que Joe Rosenthal, da Associated Press, fez em Iwo Jima em 23 de fevereiro de 1945, por exemplo, ainda persiste, 70 anos depois. Mas a realidade das mídias sociais, do jornalismo digital e dos avanços da tecnologia tem intensificado polêmicas. Muitos fotojornalistas acham que as estratégias de narrativa exigidas nesse ambiente autorizam mais flexibilidade nos critérios éticos antes vigentes. Este ano, na competição World Press Photo, uma das mais respeitadas do mundo, 20% das finalistas (três vezes mais que em 2014) foram desclassificadas por não terem sido consideradas suficientemente fiéis aos critérios do jornalismo. Qual o grau de manipulação em arquivos digitais por meio de Photoshop é aceitável para uma foto atender aos cânones jornalísticos? Como garantir que a foto é a expressão da verdade factual num tempo em que artifícios técnicos são banais e a demanda do público por narrativas fortes é crescente?

Esse tipo de pergunta será feita cada vez mais frequentemente na atividade de fotojornalismo.

Como saber quando desistir de uma pauta? Muitos jornalistas sofrem do mal de se perceberem, ainda que inconscientemente, como um herói de cinema, imbuído da nobre missão de fazer com que a sociedade saiba daquilo que não querem que ela saiba. E um herói que se preze não desiste de suas missões. Esse jornalista se acha um mix de Clark Kent, Tom Cruise do Missão Impossível, os caras do Spotlight, Bob Woodward, Carl Bernstein e Tintim. Desistir é para os fracos, pensa ele. Se eu comecei a apurar uma pauta, eu só paro quando eu publicar alguma coisa. O que nós repórteres – não importa se de texto, TV ou rádio – temos a obrigação de fazer é informar. Se, depois de apurar, constatamos que não há nada de interesse a ser informado ao nosso público, então paciência. Na verdade, o que essa luta para manter a pauta de pé tende a gerar, em grande parte dos

casos, é uma não-notícia – e, no limite, o comprometimento da sua reputação como profissional. quele título ou lide que você tem em mente se sustentam, independentemente de qualquer coisa que venha a acontecer na sua apuração a partir dali. O resto será acréscimo de informação – sempre bem-vindo, claro, mas são acréscimos. Ah, mas e quando é o editor que me pauta? Trabalhe sempre para reduzir as expectativas dele. Um editor pode não te admitir isso claramente, mas para ele vale muito mais ter na equipe alguém honesto, que dê previsibilidade ao trabalho dele, do que alguém que sempre promete um diamante e entrega um quartzo. Mas deixe claro – e demonstre – que você é um repórter que cava em busca de diamantes. Sua obrigação como repórter é apurar. Se você cavou o que tinha de ser cavado, se ouviu quem tinha de ser ouvido, se checou as informações que precisavam ser checadas, e o tiro deu água, então você será capaz de argumentar com um leque de justificativas reais.


Sebastião Salgado prevê fotografia em extinção Fotógrafo associa o uso de redes sociais à extinção da fotografia como conhecemos JÚLIA FERNANDES FOTOS: SEBASTIÃO SALGADO

U

m dos fotógrafos mais premiados e reconhecidos do mundo, Sebastião Salgado acredita que a fotografia está em processo de extinção e que a arte da qual ele é um dos maiores expoentes tem mais, no máximo, 30 anos de vida por conta, entre outros aspectos, de fenômenos como o aplicativo Instagram. Para ele, a fotografia será substituída futuramente pela “imagem”, uma linguagem que não se interessa em ter qual-

idade, arte ou memória. “A fotografia está acabando porque o que você vê no Instagram ou no telefone celular não é fotografia. Fotografia é um objeto materializado que você imprime, guarda e olha”, definiu Salgado em uma conversa com um pequeno grupo de jornalistas ontem à noite, quando recebeu o prêmio personalidade França-Brasil, em reconhecimento por promover a cultura brasileira no exterior.

“A fotografia é o que os seus pais fizeram quando você era criança: revelaram um filme que fizeram de você na esquina; fizeram um álbum e guardaram essas fotos. A fotografia é algo intrínseco, que você toca. Hoje, o que existe é imagem. Embora por um tempo tenha ficado deprimido com o que via através das lentes e acreditasse que não havia esperança para o homem, Salgado segue seu projeto ecológico para seu Instituto.

27 de novembro de 2017


ESPECIAL

“Nada no mundo é em branco e preto. Mas o fato de eu transformar toda essa gama de cores em gamas de cinza me permitiam fazer uma abstração total da cor e me concentrar no ponto de interesse que eu tenho na fotografia. A partir desse momento, eu comecei a ver as coisas realmente em branco e preto” - Sebastião Salgado


O motivo das fotografias de Sebastião serem em preto e branco remete a uma técnica importante. Observa-se que todo o trabalho de Salgado é realizado em preto e branco. A ausência de cor significa ausência de informação, isto é, o foco está na clareza da situação retratada. O autor da foto deseja que aquele que a observa concentre-se na situação em si, e não em um ou mais elementos da mesma, o que interessa é o contexto, o impacto do momento retratado. - Sebastião Salgado

27 de novembro de 2017


ESPECIAL

S

ebastião Ribeiro Salgado Júnior é um famoso fotógrafo brasileiro. Foi internacionalmente reconhecido e recebeu praticamente todos os principais prêmios de fotografia do mundo como reconhecimento por seu trabalho. Fundou em 1994 a sua própria agência de notícias, “As Imagens da Amazônia”, que representa o fotógrafo e seu trabalho. Salgado e sua esposa Lélia Wanick Salgado, autora do projeto gráfico da maioria de seus livros, vivem atualmente em Paris. O casal tem dois filhos. Mais de 1,7 milhão de árvores foram plantadas para reflorestar parte da Mata Atlântica entre Espírito Santo e Minas Gerais. Por essa iniciativa, o fotografo Sebastião Salgado e sua esposa, Lélia Wanick, receberam o Prêmio-E na categoria Educação na Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) Rio+20, no Rio de Janeiro. “Não uso Instagram, não uso nada. Sei que tem coisas sobre mim, mas não sou eu que faço. Não sei nem ligar o computador. Essa é a verdade. Já tenho 72 anos e isso na minha geração é muito complicado”, acrescentou. O mestre do preto e branco contou para o documentário que seu filho Juliano Ribeiro Salgado e o cineasta Wim Wenders fizeram sobre sua vida (O sal da terra, 2015) foi usada a mesma câmera que ele trabalha. Ele admitiu que usa câmaras digitais modernas, mas que nunca trabalhou com programas de edição, como photoshop por dois motivos: não sabe editar em computador e prefere trabalhar como antigamente. “Sou muito feliz com o processo eletrônico porque as câmaras são muito modernas. Tenho uma qualidade que nunca tive. Você pode realmente trabalhar a imagem de uma forma fantástica”, admitiu. Ele garantiu que a qualidade da im-

agem é muito melhor hoje e que a tecnologia facilita o trabalho de os fotógrafos para fazer muitas cópias e que era lento. “Me adaptei um pouco, assim como o dinossauro foi se adaptando antes de morrer, há 100 mil anos, antes de desaparecer. É isso o que estou fazendo”, explicou. Após a exposição mundial de seus trabalhos “Perfume de sonho” (2015), sobre a produção de café em diversos países, e “Genesis” (2013), com imagens de formas de vida que permanecem preservadas no planeta, Salgado trabalha agora em um projeto que ele diz ser o seu maior sonho:

Você não fotografa com sua máquina. Você fotografa com toda sua cultura. - Sebastião Salgado as comunidades indígenas da Amazônia. A caminhada começou há três anos e ele calcula que possa levar mais outros três. O objetivo é apresentar o trabalho em universidades e escolas de todo Brasil para que as novas gerações que vão chegar ao poder tenham outra autoestima de sobre a própria origem e aprendam a respeitar os índios. “É algo muito rico, porque são comunidades de grande sofisticação, de grande beleza, de grande cultura, que têm uma música fabulosa, conhecimento da medicina... Algo riquíssimo que os brasileiros não conhecem. Venho trabalhando para ver se consigo mostrar isso com a fotografia, mas quero me aliar a um bom

antropólogo para ter bons textos e boas informações. Esse é o trabalho no qual estou. Depois disso não sei”, afirmou.

Sem Instagram Mas Salgado não tem Instagram nem “nada disso”. “Eu não gosto. Sei que os jovens gostam, mas eu não consigo”, confessa. Às vezes, explica ele com sua voz arrastada, olha o celular de seus sobrinhos e fica horrorizado ao ver como os aplicativos para compartilhar fotos acabam servindo para “exibir toda a sua vida, para que todos a vejam”. “Olha, às vezes tem fotos interessantes, mas para fotografar você tem que ter uma boa câmera com uma lente adaptada, tem que ter uma série de condições, a luz... não pode ser um processo automatizado”, explica.

Fotos no Papel A fotografia não é imagem. Autor de livros antológicos, como “Trabalhadores” (1996), “Outras Américas” (1999), “Êxodos” (2000) ou “Gênesis” (2013), Salgado acredita que a fotografia tem que passar pelo papel. “A fotografia está acabando porque o que vemos no celular não é a fotografia. A fotografia precisa se materializar, precisa ser impressa, vista, tocada, como quando os pais faziam antes com os álbuns de fotos de seus filhos”, afirma. Salgado recorda como nas filmagens do documentário premiado sobre a sua vida “O Sal da Terra” (2014), a câmera que Wim Wenders e seu filho utilizaram era a mesma que ele utilizava em seus trabalhos. “Uma câmera não é mais uma câmera 100% fotográfica, estamos em um processo de eliminação da fotografia. Hoje temos imagens, mas não fotografias”, insiste.


YASUYOSHI CHIBA/AFP

Salgado em lançamento do seu livro “Gênesis”. Na obra, assinada por ele e Lélia Wanick Salgado, é revelado os bastidores de suas fotografias.

27 de novembro de 2017


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