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Documentação pedagógica como espaço de criação de memória e transformação - Andrea de Souza
DOCUMENTAÇÃO PEDAGÓGICA COMO ESPAÇO DE
CRIAÇÃO DE MEMÓRIA E TRANSFORMAÇÃO
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Andrea de Souza 7
A documentação pedagógica é um importante instrumento metodológico. Conforme MARQUES (2012), é um instrumento que oferece a possibilidade de re exão sobre a prática, apropriação da ação docente, sistematização do trabalho pedagógico e explicitação das escolhas dos professores. As formas de documentar, de utilizar os diferentes instrumentos que auxiliam no acompanhamento, no registro e na avaliação formativa das crianças e dos professores dependem das concepções de infância e de educação de cada escola. Nos estudos sobre documentação pedagógica somos, em grande parte, herdeiros da tradição italiana, em especial das experiências de Reggio Emilia e San Miniato. Para Marques e Almeida (2012),
a concepção de documentação na abordagem de Reggio Emilia, por exemplo, insere-se em uma proposta pedagógica mais ampla que considera a importância da escuta e da observação e vê as crianças como “competentes” e portadores de “cem linguagens1” (p. 444).
Na nossa Escola, as atividades culturais, as de vivências de cidadania e de integração com as famílias são planejadas pensando na criança como sujeito ativo de seu processo de conhecimento e procuram incentivar a transformação de conhecimentos espontâneos em cientí cos, bem como o desenvolvimento da curiosidade, criatividade, senso crítico, autonomia e vivências em grupo. Para documentar a diversidade de possibilidades que tal concepção produz nas escolas, os professores podem optar por diferentes instrumentos.
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Tornar visíveis as produções e pesquisas realizadas tem a função de registrar e re etir o processo de produção de conhecimentos das crianças. Para acompanhar este processo, os professores lançam mão de diversas formas de registro como fotos, objetos e coleções. O professor pode fotografar todas as etapas de envolvimento das crianças na atividade e usar essas fotos para compor uma exposição. As crianças também participam da escolha dos materiais que vão compor este momento e devem acessá-los sempre que possível para recordar o que já foi feito e contribuir na sistematização de seus próprios conhecimentos. Ao propiciarem uma visão de conjunto das produções e dos processos vivenciados pelas crianças, a documentação deve ser compartilhada com a família e toda a comunidade escolar. Não se trata de um agrupamento de materiais e produções, mas de escolhas a nadas com a atenção e cuidado que o professor e as crianças fazem em relação às vivências e aprendizagens. Instala-se aí o principal desa o: a observação e a articulação do trabalho pedagógico em todas as instâncias da vida na escola e também fora dela.
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A documentação pedagógica também enfatiza a contextualização das vivências e aprendizagens através de pequenas histórias contadas pelas crianças com o auxílio dos registros diários das professoras e na coexistência destas histórias com suas experiências escolares e aprendizagens. A documentação pedagógica também enfatiza a contextualização das vivências e aprendizagens através de pequenas histórias contadas pelas crianças com o auxílio dos registros diários das professoras e na coexistência destas histórias com suas experiências escolares e aprendizagens. O desa o é tornar única e especial a experiência de cada criança.
Desta forma, a documentação pedagógica torna-se um instrumento constante de avaliação do trabalho pedagógico. De forma acolhedora e objetiva a documentação também relata as experiências das crianças na escola, evidenciando que “não existe uma perspectiva classi catória e sim um esforço para compreender como é possível proporcionar experiências instigantes e que favoreçam o desenvolvimento pleno de suas possibilidades” (MOURA. p. 20). O desa o é: manter o olhar atento sobre a criança, buscando captar seus interesses, suas ações e reações para, a partir delas, planejar novas intervenções. As diferentes formas de documentar aumentam nosso desejo e a necessidade de registrar para nutrir a memória, de recordar momentos, vivências e de elaborar nossas ações voltadas para a escola que buscamos, para alimentar a história desse grupo de crianças e de professores.
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Todos os registros são capazes de provocar transformações na prática pedagógica enquanto sujeito educador que, ao narrar, fotografar, lmar, escrever e re etir sobre os próprios saberes e fazeres, encontra a possibilidade de (re)signi cá-los. Em todas as formas de documentar a ação pedagógica, a atenção do professor, o olhar acurado, interessado na criança, nas suas múltiplas linguagens e possibilidades de aprendizagem é o que intensi ca o ato de registro e criação que é a docência na Educação Infantil.
Os desa os destas práticas servem de constante re exão e mudança sobre os espaços, os tempos e as experiências infantis na Escola. Na Despertar o registro se torna fundamental em um processo onde a escuta e o olhar do professor são constantes, onde os pares trocam informações, conhecimentos, dúvidas e desejos e cabe ao educador olhar com olhos atentos para poder conhecer essas crianças e poder se conhecer e, a partir daí, re etir. Re etir é pensar e repensar.
Na Despertar o registro se torna fundamental em um processo onde a escuta e o olhar do professor são constantes, onde os pares trocam informações, conhecimentos, dúvidas e desejos e cabe ao educador olhar com olhos atentos para poder conhecer essas crianças e poder se conhecer e, a partir daí, refletir. Refletir é pensar e repensar.
O registro confere concretude ao pensamento do professor, tornando-o, por conseguinte, material tangível e capaz de ser interpretado. Quando registramos nossa prática criamos uma ferramenta de interlocução entre o que idealizamos e o que realizamos, o que nos permite re etir a respeito das ações na escola. Nesse contexto, o registro apresenta-se como estratégia de avaliação, sinalizando para a re exão e amadurecimento do educador, que se distancia da sua prática cotidiana atentando para as di culdades presentes na sua realização, criando desta forma caminhos para torná-la melhor em um processo cíclico que consiste em
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planejar, registrar, avaliar, fazer e rever e também possibilitar a troca de práticas entre os pro ssionais. Da mesma forma, se evidenciam as aprendizagens das crianças e o protagonismo do educador nesse contexto de escola que acredita em ambos como potentes e legitima este lugar ocupado pelas crianças e pelos adultos que nela convivem.
O percurso de aprendizagem realizado pelas crianças e pelos professores com suas singularidades e especi cidades, as di culdades, as intervenções, as conquistas e os objetivos que ainda precisam ser atingidos devem ser compartilhados com as crianças e seus familiares. Para isso é importante que os professores tenham clareza sobre as escolhas que zeram com sua turma.
O percurso de aprendizagem realizado pelas crianças e pelos professores com suas singularidades e especificidades, as dificuldades, as intervenções, as conquistas e os objetivos que ainda precisam ser atingidos devem ser compartilhados com as crianças e seus familiares.
O uso de qualquer instrumento de registro, documentação e avaliação exige análise e re exão de todos os envolvidos no processo educativo. Estas escolhas podem ser de nidas como uma coleção de produções, de informações sobre a criança, ou como signi cativas documentações de um tempo de aprendizagens intensas e que evidenciam o desenvolvimento da criança em um determinado período. Aos professores e suas equipes que aceitam os inúmeros desa os que fazem parte destas escolhas, cabe experimentar, re etir, dominar o instrumento escolhido, usá-lo em primeiro lugar como uma forma também de autoconhecimento e de prática de docência e com ele investir nas melhores formas de criar documentos que atestem a infância como este tempo de sujeitos ativos e capazes que produzem os seus conhecimentos.
Referências
BARBOSA, Maria Carmen Silveira Barbosa (consultora). Projeto de cooperação técnica MEC e UFRGS para a construção de orientações curriculares para a educação infantil. Brasília, 2009. Disponível em http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/relat_seb_praticas_cotidianas.pdf, visualizado em 27.mar.2016
BRASIL. MEC/SEB. Indicadores da Qualidade na Educação Infantil, 2009.
GOMES, Patrícia. As 100 linguagens das crianças. In: Portal Aprendiz- A cidade é uma escola. 2012. Disponível em http://portal.aprendiz.uol.com.br/arquivo/2012/08/10/as-100-linguagens-das-criancas/, visualizado em 27.mar.2016
MARQUES, Amanda Cristina Teagno Lopes; ALMEIDA, Maria Isabel de Almeida. A documentação pedagógica na abordagem italiana: apontamentos a partir de pesquisa bibliográ ca. In: Rev. Diálogo Educacionais, Curitiba, v. 12, n. 36, p. 441-458, maio/ago. 2012.
MOURA, Elaine Maria S.L. Metodologia e prática na Educação Infantil. Universidade Anhembi Morumbi. São Paulo. Disponível em http://periodicos.anhembi.br/arquivos/Ebooks/420924.pdf, visualizado em 27.mar.2016