Allegorya nº 2

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Título: Allegorya nº 2 Editor: Luís Amorim Edição: LuísAmorimEditions Apartado 5 2781-901 Oeiras PORTUGAL Internet: http://luisamorimeditions.shopmania.biz/ Email: luisamorimeditions@gmail.com Data da Edição: Janeiro 2018 Imagens da Capa e Contra-capa: Livro “Terra Ausente” Todos os direitos reservados segundo a legislação em vigor. Proibida a reprodução, no todo ou em parte, por qualquer meio, sem autorização da Editora. Impressão: Lulu Enterprises, Inc. ISBN: 978-1-387-09723-4

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EDITORIAL Allegorya, a revista de literatura e arte chega agora ao seu número dois. Continua a apresentação de livros já publicados pela editora LuísAmorimEditions mas começa com a presente edição a divulgar trabalhos nas áreas da pintura e fotografia com as artes de Maria Morgado, Francisco Capelo e Bruno Cerqueira. Um primeiro texto inédito é publicado, a antecipar linha editorial futura, onde partilhará com livros já editados as páginas da revista, que da literatura receberá com ineditismo ou não, excertos ou textos integrais de poesia, contos, micro-contos, teatro, romance, novela, policial, banda desenhada, histórias juvenis ou ensaio. Outras formas de arte, de ora em diante terão o seu espaço, para já nas formas de pintura, fotografia e música, contribuindo esta, na revista número dois, com um poema em forma de canção, a exemplo do que sucedeu no primeiro número, então com um conjunto de poemas dessa natureza. Luís Amorim

Imagem para a capa de “Flores” – Luís Amorim

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“Em Qualquer Parte do Universo” – Alexandre Ventura

“A refeição possível” – José Macedo Silva 4


“Canções” – Luís Amorim

“Flores” – Luís Amorim 5


“Flores” – Luís Amorim

“Terra Ausente” – Luís Amorim 6


“Moras Dentro de Mim!” – Olga Resi

“A cor dos dias” – Paulo J. C. Pereira 7


Ilustrações de Sérgio Brázio para o seu livro “Infância Coleção da minha literatura infantil Volume 1”

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Ilustração de Gleice Carla para a capa de “As Aventuras de SeruPanda-Chan Livro 1 – O nascimento de um guerreiro” de Sérgio Brázio

Ilustração de Gleice Carla para a capa de “As Aventuras de SeruPanda-Chan Livro 2 – O iniciar de uma jornada” de Sérgio Brázio

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“Poemas do Rio” – Francisco Capelo

“message” – Francisco Capelo

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Índice de AUTORES, LIVROS e ARTES 13 Alexandre Ventura “Em Qualquer Parte do Universo” 18 José Macedo Silva “A refeição possível” 22 Luís Amorim “Canções” “Flores” “Terra Ausente” 46 Olga Resi “Moras Dentro de Mim!” 53 Paulo J. C. Pereira “A cor dos dias” 58 Sérgio Brázio “Infância Coleção da minha literatura infantil Volume 1” “As Aventuras de SeruPanda-Chan Livro 1 – O nascimento de um guerreiro” “As Aventuras de SeruPanda-Chan Livro 2 – O início de uma jornada” 79 Maria Morgado “O sonho ousado” (conto) Pinturas 86 Francisco Capelo “Poemas do Rio” “message” Pinturas Fotos 117 Bruno Cerqueira Fotos

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“As Aventuras de SeruPanda-Chan Livro 1 – O nascimento de um guerreiro” de Sérgio Brázio

“As Aventuras de SeruPanda-Chan Livro 2 – O iniciar de uma jornada” de Sérgio Brázio

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Em Qualquer Parte do Universo – Alexandre Ventura I Tinha finalmente chegado a notícia. Mariana rejubilou com um azul ainda mais brilhante do que o dos seus próprios olhos. Foi ela quem desde o início da puberdade elaborou quimeras de escape ao meio pequeno onde nascera e fora criada, no meio desses pequenos aglomerados transmontanos onde as casas aparecem dispersas como cachos de uvas e a pacatez parece apossar-se de todas as coisas. Não que desgostasse do meio ou que o quisesse renegar, que o considerasse insuportável ou se sentisse um rato do campo, nada disso, apenas o sentido inevitável da vida e dos seus desejos a reclamarem-na para outros horizontes e desígnios. Tinha entrado em Medicina no Porto, o curso e a área onde sempre se imaginou como um vulto activo e proeminente, o seu sonho infantil materializado naquele momento. O pai, quando soube da novidade nesse dia mal chegou a casa a mancar, furtou-se ao seu quarto para comover-se escondido, cheio de brio efervescente, e a mulher, mais fria e calejada, apenas abrandou o orgulho do olhar e aliviou as feições cruas a vigiar os pratos que lavava na pia, para com disfarçado saudosismo de a perder do convívio diário, e escondendo o desfrute do galardão que recebera pela filha, conseguiu embargar a emoção e o ruborescido aprazimento que lhe congraçou o espírito, e lhe recomendar com benigno fervor que começasse a tratar dos arranjos e da partida, que estava bem perto.

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E estava. Os dias sucederam-se como minutos longos. Mariana nem deu por isso mas aquando da partida e a meio da viagem sentiu um pequeno nó no estômago à medida que se afastava das paragens familiares e habituais, mas a sua queda natural para o diagnóstico 13


deu a si mesma imediatamente o parecer de que era absolutamente normal, uma vez que estava a dar um passo quase no desconhecido, uma pura reacção de controlo e de reconhecimento da própria mente. Chegou ao Porto em pouco mais de duas horas sem conseguir adormecer pelo êxtase da mudança brusca de rotina. O céu estava limpo e não corria uma brisa, fazia um calor ameno mas facilmente susceptível a transpiração quando em esforço, um dia agradável e esperançoso. A mala e o saco foram um dos primeiros desafios. Com a excitação do momento quase ignorou o efeito do peso da bagagem e fezse intrépida ao percurso até à nova residência. Chegou ao fim de mais uma hora, atrasada por algum trânsito e bulícios, e após uma verdadeira sessão de musculação que os carregos obrigavam, assim como uma habilidade rebuscada na arte de passar por entre as pessoas enlatadas e compressas nos transportes públicos. Não tardou a tocar na sua futura e bem reconhecível campainha, extenuada e a transpirar, bufando para os cabelos soltos. O apartamento tinha sido encontrado pelo jornal, já o tinha ido ver duas semanas antes na companhia do pai, iria partilhá-lo com mais duas outras estudantes, de arquitectura, Joana e Margarida, previamente apresentadas nesse dia pelo senhorio tagarela e teatral quando foram inspeccionar o imóvel e acharam-no do seu agrado. Ficava numa zona central, calma e aparentemente segura, de fácil acesso aos transportes e num prédio robusto e pacífico. As duas jovens pareceram amistosas e os espaços e comodidades do apartamento eram prazenteiros à vista e ao olfacto. O preço foi acordado e o negócio consumado. Depois de subir no elevador e apresentar-se à porta preparada com toda a simpatia de que era capaz de aguentar, foi a morena e extrovertida Joana quem, como da primeira vez, fez as honras da casa, recebendo-a e acarinhando-a com nova visita guiada à casa e liderando-a até ao seu novo quarto a braços com duas das suas malas recém-chegadas. Aquele cubículo seria o seu novo e exíguo quinhão do mundo, e apresentava-se agora em tons menos claros do que da primeira vez quando o passou em revista na inspecção com o pai, e a magia que segue sempre de perto o sonho perdeu brilho e fulgor, parecia mais encolhido e soturno apesar dos mimos de Joana e da sua boa disposição exuberante, a mudança deixava por momentos de ser airosa para se tornar baça e confusa. Seria ali o seu covil, a sua cela individual sem janelas durante centenas de noites e horas a fio de vigília, quem sabe até ao final do curso, no que parecia ser mais uma larga despensa convertida em quarto de dormir, estava da mesma maneira como o viu da primeira vez mas havia algo que a fragilizava como uma picada de alfinete repetida em várias partes sensíveis do corpo, ou uma corrente de ar polar e imprevista que lhe tinha gelado a alma. O seu discernimento racional transmitia-lhe que o quarto não era mau, era praticamente, em conforto, igual ao seu na casa dos pais, mas aturdida por um sentimento inédito de deslocamento e sensações abstrusas de desorientação tudo lhe parecia miserável. Foi salva pelo súbito e inesperado convite de Joana para a partilha de uma pizza, perspicaz em lhe entender o choque interior que queria disfarçar com cerimónia ao fundo dos olhos ciano, mais enternecidos do que o costume pelo desamparo. Mariana foi então procurar refúgio instantâneo e possível nesse ambiente distraidamente acolhedor de conversas anódinas e curiosas de abordagem à sua identidade e à das suas novas 14


companheiras, trocando interrogações e dizeres breves, sorrindo e rindo em cumplicidades fáceis e espontâneas, com a fragilidade e inconsistência dos meros conhecidos, dando um início rápido à depuração gradual das formalidades entre elas. Joana arrastou-a até à cozinha sem a deixar arrumar uma peça de roupa ou mudar mais um metro para a frente ou para trás as malas e os sacos, e com um talento de vendedora inata imiscuiu Mariana na primeira comunhão e partilha das suas vidas recentemente cruzadas. Fez-lhe um questionário policial, a tons de anfitriã acolhedora e interessada, a que Mariana foi respondendo submissa e agradecida, por simpatia natural e como terapia ao choque à adaptação. A conversa tirou-lhe um pouco aquele sabor de angústia de deslocada e a inquietação da carência familiar e caseira esvaiu-se pela desatenção mental que lhe dava. Esquivando-se aos pensamentos sombrios entregou-se de corpo e alma ao copo de sumo e às duas fatias de pizza que retalhava no prato. O trato fácil e esperto de Joana traduziu-se muito rapidamente numa conversa natural e reparadora, resgatando-a do caos e recompondo-a de alento para se ambientar. Mariana sentia-se agora menos intimidada pela sua agorafobia temporária que a confrangia e deixava desassossegada, e a lucidez e a ponderação naturais foram-se instalando com o seu vagar biológico com a clareza de uma profecia que apesar dos sinais em contrário e da oposição se vai cumprindo. Agarrou-se à sua nova amiga desinibida naquele dia como se fosse uma tábua de salvação, aqueles pequenos gestos de apoio pareciam de uma magnânima humanidade em face da sua desorientação e mal-estar súbitos. Estranhava no entanto a postura da outra rapariga com quem iria compartilhar o espaço e a familiaridade, parecia ainda mais aérea e absorta do que na primeira vez que a tinha conhecido. Como recepção e cumprimento apenas lhe tinha oferecido dois encostos fugazes e quase indiferentes de bochechas, como se a cumprimentasse por obrigação e com um travo de agastamento, metendo-se em seguida e com pressa antipática no quarto de porta fechada. Joana também a salvou do melindre nesses segundos de pouco à vontade, tirando-lhe as dúvidas com gestos aparelhados e usando de sussurros meigos: «Ela é assim meia... estás a ver não estás…?, deve andar por aí metida em algum lado a fumar e a falar sozinha!..., mas é boa pessoa, não te preocupes, só que às vezes..» – segredou, misturando respeito com malícia e encostando-se com mais empenho a Mariana para reforçar o consolo. Mariana correspondeu com um tolerante e jovial sorriso, com longanimidade, escondendo a tensão e limitando à força a sensibilidade, aliviando-se com a explicação e atarantada ainda com os fantasmas da mudança de ambiente e a viragem radical no estilo de vida, pegada e solidária à velocidade de Joana que com prontidão a ajudava a esvaziar as malas e acondicionar as peças de roupa nas gavetas e cruzetas no quarto revolucionado. A imagem deprimida e saudosa dos pais na despedida pela janela do autocarro, horas atrás, ia e vinha na mente alvoraçada e abalroada, chegando com atroz nitidez e esbatendo-se com cru e amargo sumiço, lutando com sobrelucidez e dever com a fria e carente independência a que se votara, sentindo-se sem querer uma exilada voluntária. Mas o destino compelia-a a fazer frente aos fantasmas que lhe espicaçavam o âmago contristado e assombravam os seus passos sem convicção, e depois de algumas investidas interiores e estóicas para vencer esses demónios que a queriam fazer vergar e dilacerar, 15


uma venturosa esperança de coração, vinda de um ignoto infinito de luz que a reanimavam por milagre, fez com que já risse a meio da tarde, casual e revigorada, alentada por uma mão e conselho invisíveis, com a sua nova amiga no novo lar.

II Chamava-se Margarida e tinha descoberto na arquitectura uma das poucas fugas à sua realidade monótona e ruminação muda, desconstruindo e descomplicando o seu fechado e triste ser nos projectos e nos esboços a que se entregava com solidão e ascetismo. De resto parecia abominar viver, transpirando insatisfação constante a partir da sua cara pálida, do corpo esguio e esgalgado, das mãos tísicas trémulas, amareladas nas pontas dos dedos pelos milhentos cigarros fumados até ao filtro. Inspirava nutrir pela vida asco e desdém, vivos e mortificados nos olhos avelã, quase sempre estagnados e de expressão mortiça, como se penasse constantemente fruto de uma dor profunda e mesquinha, que lhe irritava na maioria do tempo a disposição e corroía o humor, andando por regra calada como uma velha azeda e seca, sobranceira, sisuda ou mesmo iracunda quando obrigada a falar para além do essencial. A presença de pessoas parecia importunála, repelia-as sempre que podia com o seu silêncio ambíguo e fria impertinência. Havia no entanto momentos pontuais e extemporâneos, de pouca dura, em que sem explicação, como numa crise de mania ficava exuberantemente bem-disposta e de humor fácil e simples, incompreensível, rindo genuína e lúcida, características muito passageiras e raras nela no entanto, mas nunca sem se distinguirem os seus traços mais dominantes de personalidade, oscilando e variando entre várias personagens. Fumava copiosamente, com satisfação ou com o aborrecimento do vício puro, dezenas de cigarros pelos dias, viciosa e compulsiva, cada um deles aspirado com a facilidade e avidez como quando se come uma doçura ou um prato favorito, e desfrutava dos momentos entre passas com a segurança e a contemplação de uma matriarca vivida e recalcada, buscando no fumo e no seu vapor ao sair dos lábios pequenas catarses à sua opressão. Impetuosa e sôfrega acendia cada cigarro com maquinal volúpia, alheia e indiferente à nebulosidade anárquica e disforme da fumaça que fazia pairar no ar, entranhando a casa de cheirete a tabaco. Mas nada nem ninguém a podia impedir de fumar a seu bel-prazer, com obscura e egoísta distracção, embrenhada no seu imaginário denso, opaca até à medula. Distante e completamente indisponível para todos os seres humanos existentes. Mariana sentiu a antipatia e tibieza de Margarida com algum apuro, afinal iriam obrigatoriamente viver juntas, calcorrear os mesmos espaços, e tinham de alguma forma de se relacionar. Mas Mar (como Joana, os amigos e família a apelidavam) limitou-se a permanecer no autismo dos seus hábitos e na comodidade muda das suas rotinas, sem esboçar uma única tentativa de fazê-la sentir confortável e bem-vinda à casa. Mariana por seu lado, ao longo do dia da sua chegada, para confortar a própria alma e sossegar o espírito de remorso tentou várias vezes abordá-la mansa e afectuosa, com palavras e tons 16


irrepreensíveis, duas vezes o tentou, à medida que a observava ao longe com perspicácia e queda para o diagnóstico, mas debalde, Mar obstinava-se às suas dimensões subterrâneas, cumprimentou-a sem uma palavra de resposta, apenas com um acenar frouxo e arrogante de cabeça, sem mover ou piscar o olhar, paralisado com enjoo e veemência no ecrã do televisor, vagueando, opulenta no alheamento, pela vastidão do desgosto.

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Mariana limpou a consciência depois da segunda tentativa pacífica e exemplar de urbanidade ao querer dispor-se a Mar, afastando-se com serena resignação e sem perder o sorriso cândido e adulto. Por antídoto a ressentimentos ainda lhe deixou o convite com sincero desvelo de lhe oferecer a sua companhia e amenas intenções em qualquer coisa que necessitasse. Sem perder brio ou luminosidade no olhar, sem desmanchar a sua faceta altruísta, retirou-se com passos calmos e com o poder notável do indulto, engrandecendoa a cada pisada até ao quarto para continuar a arrumação. Tinha personalidade coriácea mas humilde, rápida a perdoar mas também firme em justeza, transparente na convivência e indecifrável nos pensamentos mais íntimos, ensaiando perfeição e graciosidade a cada gesto por parecer tão segura em tudo o que fazia, com uma pontinha de narcisismo que lhe aguçava o olhar e lhe proporcionava um andar alado, apesar de tender às vezes, sem nunca ser nociva, para a soberba, o juízo de valor e a contumácia. Dona de uma bela e clara fisionomia, acompanhada pelo seu charme natural de personalidade sólida e independente, sem a ajuda subalterna de adereços especiais ou pinturas extravagantes, dava a aparência de uma eslava original, com os seus olhos azul diáfanos, a tez de pele branca entre o lixiviado e o ebúrneo, o cabelo lustroso como a seda, quase loiro, ossos faciais salientes e arredondados, assim como a cara redonda, um pouco infantil e catita, os lábios solenemente desenhados, tudo disposto ao ponto de lhe conferir uma beleza vulgar da Europa de leste, uma estatura bastante conseguida, a fugir para o alto, pequenas sardas em comunhão com o corpo até onde se podia ver e um sorriso apetrechado com duas fiadas de dentes de esmalte branco baço, agradável e conivente com o tom de pele. O vestuário muito sóbrio, elegante, pessoal, como se a simplicidade e a austeridade dos adereços a arrojasse pela parcimónia, concedendo-lhe um ar alvo e bonito de despretensão, de modéstia fina e apurada, fazendo sublimar o seu lado puramente espiritual em vez do material. Acorreu novamente a Joana com apreço e gratidão. Estava a ser impecável, prestativa e enérgica em tornar-lhe o quarto arejado, limpo e habitável para a sua noite de baptismo lá em casa. Agradeceu-lhe vezes sem conta nesse dia, enamorando-se pelo seu feitio aberto, fácil e franco no trato. Notava-se a sua ajuda pura, genuína, sem artifícios ou por cortesia forçada, como se tivesse um halo de caridade a ressaltar sob a sua pele morena e lisa.

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Joana tinha uns olhos escuros saharianos como dois pequenos abismos viscosos e perturbadores, perfeitamente redondos, pestanas reviradas para cima numa cara de boneca bronzeada, cabelos escuros lisos quase sempre dominados por um rabo-de-cavalo aprumado ou soltos, mas sempre refinadamente selvagens e vistosos. Um riso e sorriso inefável, exemplar, uma dentadura repleta de dentes brancos como a neve, encaixados em duas linhas ebúrneas e primorosas de acerto. Com altura de manequim, vestida sempre ao sabor da moda e um corpo escultural dava azo a se confundir com uma princesa de traços árabes ou jovem mulher de um sultão sumptuoso. Impulsiva e sem conseguir estar muito tempo quieta, liderava sempre pelo seu excesso de energia. Mas com o passar das horas e o discernimento a ganhar forma Mariana foi-se apercebendo que havia muita carência e insegurança no seu âmago aparentemente soberano e dono do seu nariz, uma fictícia e frágil crença da sua identidade surgia em lacunas ao longo da conversa, como se vencesse a cada minuto um recalcamento passado segundo uma personagem forte criada por si mesma, para se compensar e escusar a iminentes melancolias, regurgitando com fulgor efusões de alegria ao consegui-lo, num coração sôfrego e indigente por atenção, mas apegado e agarrado à vida com todo o ardor, conferindo-lhe uma personalidade serenamente austera nas provações e pueril nos amores.

A refeição possível – José

Macedo Silva

Antes demais, deixai que me apresente - ao narrador. Há quem diga que sou o vento que empurra as nuvens, que sou a chuva que molha a terra, para outros: um sussurro ao ouvido, ainda mais dizem que me sou a mim próprio, ou o brinquedo que rola nas mãos de uma criança, o dicionário suficiente para encher de palavras um coração de homem, a infelicidade que nos torna naturais, o paladar da terra, o planeta buscando o seu próprio e incauto caminho, a verdade e o exílio na mesma, a ovelha-mãe que expulsa os amorais do rebanho, o céu e o inferno, o 18


bem e o mal, algo a quem não se dá ordens, o trabalhador inútil dos infernos, o esquecimento e o repouso, a força e a fraqueza, a comichão de uma ferida, a liberdade e a prisão, o tu e o eu, o remédio para sermos nós próprios, a arte que aproxima os Homens, o murmúrio das beatas velhas, a atitude indisputada, a ilusão - respiração da alma, a jurisdição suprema, o modelo especulativo e a realidade viva da pedra basilar de todos os dogmas e de todas as dúvidas, o ponto ómega, o paradigma e o quanto ele possa ter de paradoxal, o modelo especulativo e a realidade viva do mesmo. Mas, que importa, se nem eu próprio me defino seja com o que for, nem tão pouco vos escrevo deste cadeirão dourado onde anafo o rabo desde os tempos imemoriais, e, cansado de dialogar com as estrelas, vos falo. Permitam-me que o faça. Que grande lata a minha, mas, até eu tenho esse direito, de vos falar e escrever “cheio de lata” mesmo que vos interrompa o ócio de um dia quente e sedoso, corrida por cima por um cortinado de veludo da cor da safira. Não importa o eu, nem o como, nem tão o porque, se nem nome possuo: apenas um dado me foi dado por vós desde os tempos mais recuados - impossíveis de se medir e com o qual eu não concordo, porque não faço jus ao mesmo. Já chega, e passemos ao nosso “herói”, mas, permitam-me que seja franco antes de começar: não ides desta história, não haverá catarse, nenhuma purificação, não se pode ressuscitar o assassinado, apenas condenar o assassino; uma vez feito o mal, perpetuado manter-se-á. É tudo, e segue a história:

Fernando Aquiles, é este o seu nome, o “herói” desta trama similar a tantas outras do vosso conhecimento. Chamemo-lo quase sempre (apenas) de Aquiles, nome de herói antigo, para que o próprio sofra outra dignidade, não a menoridade do homo domesticus gravada no nome próprio de Fernando; isso pelo menos lhe é devido. Aquiles, homem nascido no sul do país de pais pobres, uma família sulista destituída de títulos que viveram do trabalho dependente a troco de magros vencimentos, e nem sempre pagos a tempo e a horas. Meio caminho andado para a infelicidade e se falhar na vida. A sua mãe, Maria, uma mulher pequena e impetuosa, era uma comediante de um teatro amador, profissão tradicionalmente ligada, no país de então, à lascívia e ao deboche; uma carreira duvidosa. Pesa embora nem todas as artistas do palco, fosse ele profissional ou amador, fossem prostitutas, o facto de estarem obrigadas nos ossos do ofício aos olhares mais levianos dos homens, justificava a verdade que muitas favoreciam o público masculino em espaços íntimos, de acordo com as condições e o previamente acordado. E isto era verdade no país, de então, comido pela desgraça e pela fome, enevoado por um horizonte negro e desesperançado. E sim, tal como séculos antes, a entrada no camarim de uma actriz sugeria que o “Senhor” esperasse favores mais delicados. A sua mãe, Maria, reza as más línguas, não era avessa a utilizar os seus 19


encantos e capacidades para angariar uns trocos extra para a família, muito embora não passasse de uma mulherzinha ridícula, mas que sabia jogar, ofertando-se a preços mais baixos, imbatíveis no mercado de então. Do seu pai, José, apenas refiro que era um fulano rude, de mãos grossas e gordas, de quem Aquiles herdara as enormes manápulas. O seu pai trabalhava a soldo na apanha de fruta, e dedicava-se nas horas livres do dia a uma partida de cartas na tasca mais rafeira da aldeia quente e sulista onde Aquiles viveu até completar o ensino liceal, bebendo até cair para o lado, e assim, no descuido e na intemperança alcoólica causou ao seu fígado enfermidades irreparáveis - uma cirrose hepática desenvolvera um hematoma. A morte do pai deu-se em tempos ocorridos já com Aquiles vivendo e estudando na capital. Aos dezasseis anos Aquiles deixou pela primeira vez a sua aldeia natal. Navegou para longe, rumo a norte, mais precisamente para a capital Anaheim, onde durante três anos viveu com o seu tio materno, o padre Carlos, pároco na grande cidade. Ali, Aquiles, frequentou o Instituto Comercial que completara com distinção. Esse dia marcou-o para sempre. Aquiles despediu-se da família e apanhou o autocarro pelas seis horas da manhã rumo à capital com o seu tio Carlos. Eu sei que ainda hoje, esteja onde estiver, recordará arrependido aquela manhã em que se despediu dos seus pais para nunca mais os tornar a ver, verdadeiramente. Quero dizer-vos, vê-los como pais! Ele odiava a vida comezinha da aldeia, estava farto daquela tristeza, da fome e das necessidades. Só os via de tempos a tempos, uma a duas vezes por ano no máximo: pela Páscoa e pelo Natal; fugindo terrinha sulista como o diabo foge da cruz. Costumava referir sozinho em frente do espelho, ou perante amigos mais íntimos, ou à sua mulher Antónia, à laia de confissão, que desde a infância até aos dezasseis anos vivera num estado vegetativo. Naquele dia, já dentro do autocarro roncando estrada fora, observava curioso para lá da janela suja de pó e lama que as árvores na amplitude sombria erguiam-se para os céus, e que, à passagem da camioneta aparentemente moviam-se na berma da estrada, e sentiu pois, que o cordão umbilical tinha sido definitivamente cortado, uma nova vida começava, e para melhor, esperava ele. Duvidoso perguntou ao tio Carlos: - As árvores não se movem, pois não, tio? - Claro que não, meu querido. Pensa sempre assim, e vais longe, vais ver. respondeu-lhe o padre. Dito isto, Aquiles novamente fixou o olhar tímido de menino da aldeia para lá da janela conspurcada, deixando-o perecer nos cumes esfumados das árvores sob o céu beatificado de cinzento. Deitou o olhar atento naquela cor gloriosa, e acabou por adormecer embalado pelos saltos da camioneta na estrada menor da província. À primeira curva insolente Aquiles acordou, pôs-se de pé e olhou para trás da camioneta, e viu seguirlhe um penacho de poeira, e a sua aldeia natal desaparecer pelo vidro traseiro. Voltou a sentar-se e olhou a janela, e reparou que o lençol do céu estava esticado de escuro, só sombras. Olhou o tio padre que penteava a escova do bigode com a mão direita; este 20


sorriu-lhe, passou-lhe a mão pela cabeça despenteando-lhe os cabelos loiros, nórdicos. Novamente Aquiles atirou-se para a janela, arrancou um “macaco” do nariz, levou-o para entre os dentes, viu que estava salgado, recostou-se no banco de molas partidas, rangendo de irritante, e voltou a adormecer. Pode-vos parecer ridículo hoje em dia, com o advento da internet, ipad’s, telemóveis, etc., que um adolescente fizesse perguntas deste teor desnecessário e a roçar a estupidez, mas, nos anos quarenta a vida era outra, bem diferente da de hoje, e muitos eram os jovens que só andavam de automóvel quando se deslocavam para Anaheim prosseguir os estudos, ou à procura de tratamento para as suas enfermidades nos grandes hospitais da capital. Do seu tio Carlos, padre jesuíta e pároco em Anaheim, reteve o gosto pelo estudo, pela constância e pela auto-disciplina. Nunca viveu, enquanto na alçada do tio, para um presente deslumbrante, virando as costas, ao contrário de muitos dos seus colegas e amigos de então, ao prazer sem ponderação nem prudência que a grande cidade lhes facultava. A vida mundana não me interessa. O mundo só me interessaria se nele se realizasse a Cidade de Deus, dizia aos colegas de curso. Há máscaras, e as pessoas não são felizes, afirmava decidido. Numa vez, recusou-se mesmo a encenar uma peça de teatro, no instituto, em que tinha de se vestir de mulher: uma freira de vestido decotado, e que recebia no convento os “avanços” de nobres, mais precisamente. A peça era uma sátira ao século das luzes, até mesmo aprovada pelo seu tio religioso e conservador, mas que ele, Aquiles, recusara com veemência. Concluiu o curso de contabilidade no Instituto Comercial, e empregou-se como quadro intermédio numa saudável empresa ligada ao sector bancário, mas exigente consigo e com a vida candidatou-se à Universidade de Oxford, no Reino Unido. Passou as provas, mas faltava-lhe “pedigree”, e não o aceitaram. Entristeceu e ficou depressivo. Alugou um apartamento numa zona escura da capital e foi viver sozinho. E durante alguns anos assim foi a sua vida: trabalho, casa, casa, trabalho, preenchendo as tardes solitárias de fim de semana passeando e vendo de perto o rio Hades (rio de Anaheim) seco na neblina, e com cheiro fétido a esgotos por tratar, até conhecer Antónia, e tomá-la na alcova como sua mulher. Mas, como diz o povo: não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe, e de novo a vida comezinha, só que agora na cidade, e sem querer deu por si bêbedo percorrendo esgazeado compridas ruas desertas “sem nome“, vagueando por imensos quarteirões escuros nas largas noites da capital, e logo um sentimento de culpa católico lhe povoou a consciência; tinha pecado, abusado do álcool e envenenado o coração; como era possível (?!), questionava-se Aquiles. Até que, com quarenta anos completos, e só, Aquiles viu-se impelido a mudar de vida. Poucas vezes se aventurara para fora de Anaheim, à excepção de determinadas 21


ocasiões muito especiais acompanhado de amigos e de conhecidos, visitar a aldeia no sul, ou pelo amor de sua vida, a sua mulher, Antónia. Um dia, impedido de trabalhar por uma greve geral, a que aderiu para não magoar os colegas, saiu de casa e resolveu dar um passeio ao longo do muito querido rio Hades. Entrou na rua, pôs os óculos de sol, olhou em volta, e ao longe avistou recortados sob o céu azul, ardendo no sol quente, os penhascos secos da Grande Montanha, com as rochas alaranjadas dos seus cumes derretendo de calor, e sem nada para fazer levou o carro até lá. A Grande Montanha ficava a meia dúzia de quilómetros, por detrás das colinas da cidade. A viagem era curta, mas foi estranha, e inusitada; reparara Aquiles numa beldade loura sentada no colo de um homem nu enquanto este conduzia um grande carro como uma banheira; distraído pelo momento quase se despistou.

Canções – Luís Amorim

Uma nova vida Refrão I:

Quando eu nasci Já havia guerra Depois que cresci Esta triste Terra Ainda tem como mensagem Toda a humana maldade Enviada em cada imagem Repleta com a cruel infelicidade Da morte, que é sempre directa Mesmo quando o diferido televisivo É a informação disponível mais correcta No audiovisual, dizemos nós, evasivo. Seja no Médio Oriente Ou noutra latitude Ninguém fica indiferente 22


A tanta vil atitude. Muita gente provoca o conflito Que, ao globo, se generaliza Como um universal delito Quando também se analisa Pelo nosso sentido ocular Que isto não pode continuar. Refrão I:

Quando eu nasci Já havia guerra. Depois que cresci Esta triste Terra Ainda tem como mensagem Toda a humana maldade Enviada em cada imagem Repleta com a cruel infelicidade Da morte, que é sempre directa Mesmo quando o diferido televisivo É a informação disponível mais correcta No audiovisual, dizemos nós, evasivo. Mais do que a conclusão Dos anteriores directos É preciso uma nova imposição Para que não sofram os nossos netos. O fim imediato da violência Armada ou simplesmente provocada Que norteia a vida com a essência Do ódio como bandeira içada. É urgente encontrar a saída Para uma nova vida. Refrão II:

Quando o fim de qualquer diferendo For uma realidade inquestionável Sem que persista algum remendo Ainda como paz, possivelmente quebrável Então será mesmo a harmonia 23


Que, por todo o mundo, irá abraçar Em fraterna sintonia Com tanta pessoa a dialogar. É urgente encontrar a saída Para uma nova vida.

Refrão II:

Quando o fim de qualquer diferendo For uma realidade inquestionável Sem que persista algum remendo Ainda como paz, possivelmente quebrável Então será mesmo a harmonia Que por todo o mundo irá abraçar Em fraterna sintonia Com tanta pessoa a dialogar.

Flores – Luís Amorim

Narrativas poéticas «O que se passa? Larga essa taça De glórias efémeras E vem olhar a praça. Tu bem disseras Que um dia Isto sucederia. Elas aí estão E trazem manifestação Com flores na caracterização 24


Mais a televisiva produção.» «Mas temos de fazer gestão Da editora em função Ou dar consideração A obras em reivindicação?» «Não sei, o pior de tudo É a tal televisão Que deixa o país mudo Só para lhe dar aceitação. Mas vamos ver o que querem Antes de lerem No referido audiovisual Todos os clientes Desconhecidos em visual Mas que sabemos presentes Pelas compras recentes.» Os cartazes dizem Que não mais pisem Sobre elas e sucedâneas A quererem espaço De edições simultâneas Pois várias eu traço Na minha observação Enquanto os colegas Em diálogo de ocasião Só recebem negas Após questões sem resposta Que até deixam indisposta A senhora supervisora Invocada quando é hora De fazer perguntas E são muitas 25


Sem qualquer destinatário. Portanto, calha a ela A tarefa citada Em modo diário Enquanto à janela O questionar se sucede Deixando-a desesperada Ao passo que alguém mede O pulso à concentração E não sou eu Nessa vital função Antes parecendo medicinal Em desempenho profissional Que já percebeu Estar tudo bem No agrupar além Das poéticas narrativas Com as mais conhecidas Como belezas floridas À frente entretidas Nas frases proferidas Para as emissões respectivas Em directo e com exclusivo De um reportar conclusivo Na casa de poeta passado Destas lides retirado Mas que tem opinado Desde há tempos vários Num registo esporádico Retirando dos armários Os escritos com que eu fico Ainda mais admirado 26


Com o seu palavreado. Entretanto, os colegas persistem No posto onde assistem A uma curiosa odisseia Que parece comédia divina À frente, bem cheia Reivindicando com frase fina Numa cordialidade dada Como obra educada De narrativa recordada Sempre, seja que temporada Receba sua presença. A actual deu-lhes licença Para estarem em conjunto A contrariar o rótulo de defunto Que as editoras puseram: «Às narrativas que já eram!» Estas não estão de acordo E enquanto eu mordo Algo de doce Há quem se coce De total espanto: Os colegas a um canto Vendo mais narrativas Ali tão activas Vindas de França E até da Grécia Em perfeita aliança No especial dia Com as actuais Privadas de edição E de notoriedade mais 27


Que seja sua condição De poética obra Com criatividade de sobra Tal e qual ocorre Em quem também socorre Pelo nome da equipa E que se antecipa Com a devida anuência Do colectivo de excelência Dando seu contributo Pois talento e atributo É um nobre conjunto Que nunca lhe faltou Apesar do século Que o mostrou Como ser incrédulo Aos olhos dos demais Que não o compreenderam Nas alturas tais Quando muitos nem o leram Mas lhe deram juízos morais. Em suma, mais oportunidades Para narrativas de originalidades Em rimas versificadas E tão bem-apresentadas. Continuo a ver O que está a suceder Mas aquela senhora Que antes supervisionava Foi a correr Até onde já mora: Junto das narrativas 28


Enquanto quem se questionava Por tudo e por nada Pergunta no agora Quem irá dar negativas Ou resposta silenciada Por ela ter ido embora? Sentem-se abandonados E até desprezados Como nada essenciais Os colegas editoriais Mas é por pouco Pois um sujeito rouco De tanto falar em directo Manda focá-los E até enjaulá-los Com gradeamento no tecto Para que não saiam Do ecrã onde caiam Que nem umas vedetas Das inspiradas letras Mesmo sabendo que escrevem Nada que levem Para parte incerta Ou que esteja deserta Tendo, no entanto, muito que dizer Sobre o que está a acontecer E isso é que importa Quando à sua porta As narrativas continuam No conjunto onde actuam Tão poéticas como antes Nos seus versos constantes. 29


(169 versos)

Farta comédia Jantar faustoso e alegre Onde quem se integre Com ou sem convite Rapidamente se admite Na comezana faladora E saborosa a cada hora Em que novo prato aparece Para quem sempre tece Seus comentários improvisados Igualmente bem regados Com vinho de excelência Em colheita de referência. «Mas que óptimo quadro A régua e esquadro Eu consigo tirar daqui Do apetite por javali E restante que venha Para encher formosa banha!» «E realmente são tantas Que comerão até às tantas Até caírem para o lado Como corpo inanimado.» «Mas de onde veio Gente com incrível asseio E em quantidade esta Participar de tal festa?» «Sei tanto como você. 30


Olhe, deixe-as à mercê Da sua sorte Em elegante porte De alta sociedade Com tamanha futilidade Na sua conduta Sempre à escuta Onde o tal evento estará Para passarem por lá E entrarem de gala Dando a melhor fala Para despercebidas Não serem referidas. Elas apenas desviam Atenções que não adiam Para outra altura Pois é esta a fartura Também com aparte Quando dizem «Vou levar-te» À comida suculenta Com subtracção atenta A reprovadores olhares E aplaudidos esgares.» Havia quem tudo conferia À medida que muito se ria Pela comédia farta Onde sempre existia carta Para se pedir ainda mais Das refeições essenciais No jogo das celebridades Espalhando suas vaidades Na oferta de flores 31


Mas recolhendo sabores No comer de fausto Até ficar exausto Cada ser da elite «Que tanto grite Até se fazer ouvir» Reparei nele a referir Antes do quadro começado Já por mim mirado No título atribuído Pelo meio do ruído Onde decorria neste dia Tão “Farta comédia”. (72 versos)

À espera da viagem «Eu parece-me que acabou já Obviamente por cá O tempo de espera.» «Tu, só tu, para isso dizeres Como que a quereres Livrar-te de mim. Aliás, todos vós À espera do fim Para ficarem sós Apenas assim Ausente comigo Em busca de amigo Na viagem próxima Que nada me anima.» 32


«Percebi, claramente percebido Ser o melhor sentido Para vida tua Fora desta rua E procurando outra lua Que te ilumine E muito te ensine. Ele aí está Para te levar lá Durante o trajecto Que será directo.» Ele estava pronto E fora pontual Para se ter por ideal Em final ponto Que aquele seria No definido dia. «Então vamos? Basta acompanhar-me E não escapar-me. Trouxe uns ramos Para o ter controlado E sempre avisado Que melhor será Obedecer a quem dá Ordens por aqui «Ele que sorri» Dirão vocês Cada um na sua vez De mim irónico E nada afónico Pois voz não perco 33


Mesmo quando peco E são vezes tantas Que até trago mantas Para de vergonha Me cobrir em ronha.» Novamente ele sorria E depressa produzia Estranho som De tenebroso tom. «Levar alguém triste É sempre alegre consolação E que se registe Esta minha consideração!» «Fiz no outro mês Cem primaveras.» Avermelhou-se sua tez Deixando pasmado Seu confrontado Interlocutor desconsiderado. «Centena tiveras Outras tantas quiseras! Não funciona assim Meu benjamim! Toda esta gente decidiu O que bem convergiu Até à minha presença Com sua licença.» Estendeu o braço Como que o convidando A ir para espaço Em andar viajando. «Vai, vai, senão a viagem 34


Ainda perdes na paisagem Que será diferente Do aqui assente!» «Mas eis que aparece Flor que ninguém esquece» Disse externo alguém Que o fez por bem Aperfeiçoando a cena Pois não houve pena Sendo ela sincera. «A flor acena! Bem quisera Acreditar eu Em suspeitar meu Que algo ocorreria Como quem adia O que mais se pretendia!» Flor vistosa Tida por bondosa No guião circulante Às pessoas por diante Vendo como bela Em traços era ela Tão característicos E de pormenores ricos Também na cor A tulipa em rigor Que novo vigor Trouxe ao senhor Que logo afirmou Mais primaveras já pensou Ir ter pela frente 35


Com flor em presente Para feliz vida Já a ser percorrida. Quanto aos restantes Ficaram expectantes Desconhecendo que fazer Tal como o invocado Viajante ser Que ao seu passado Regressaria sem saber Como não teria levado Quem lhe estava guardado. (122 versos)

O ritual I «Vamos dar início À peça do ofício Teatral dos actores Acrescentada pelos valores Que na audiência Darão sua sequência Ao ritual de improviso Mas sem feitiço Peço-vos por favor Tenham tento e fervor Da senhora Decência E do ilustre Paciência.» A peça começava E nela se observava 36


Um vistoso bonitão Da internet por função Chamado à presença De mulheres em licença Provisoriamente tirada Da internet privada De sua companhia Apenas por um dia. Mas muitas eram Que bem encheram O palco com objecto Adicional em concreto: Caldeirão identificado No centro colocado. Da assistência vinha Apelação-rainha Gritada sem sensatez Mas sempre à vez Por quem coroada Se sentia condecorada Com real título Para definir capítulo Ou mesmo completa Peça a ser directa Em atestada representação Do recinto na opção Por autorizada interferência De toda a assistência. Mas esta composta Era por gente disposta A interceder em amizade Que tinha na verdade 37


Com o internet mulherio No palco vazio Em fazer não sabendo A receita mexendo Para ritual de seguimento Incógnito no momento. Mas ajuda havia E a plateia referia As partes que se ouviam Pertencentes às que diziam: «Metam-no ao caldeirão E do bolo em confecção Fatia uma partam E nela escrevam Vosso nome de mulher Fazendo-o comer Fatias todas por bem.» «Ou forçado mais além No tempo preciso Para digestão de aviso: «Com calma, minhas senhoras Isto pode demorar horas!» «Depois, com ingrediente Suplementar por eficiente Com mexida consequente Ele será bem-dizente Do pedaço preferido Com o nome referido Da escolhida dama Com a qual, trama Partilhará no diante Desde que se levante 38


Do caldeirão repleto Pelo bolo certo Para conclusão teatral Da peça fundamental À felicidade que nela Começou em janela De internet vida Sem outra concebida.» Claro que plateia Só estava cheia Com femininas comadres Instruídas no «Hás-de Fazer boa figura E dar-me a cura Que mais necessito Como último grito Da moda com bonitão Para minha condição.» Todas estavam ensinadas E com expressões decoradas Perante condutor fio Do ritual para cio Que falhar não poderia Apesar de que reservaria Final correspondente Apenas para ente Singular no feminino Com internet por tino. O bonitão comeu tudo Sem possibilidade de mudo Sair por opção Quando dentro do caldeirão 39


Flores eram na certa conta Atribuída a cada tonta Identificada no bolo Às fatias por dolo De gula forçada Na beldade lanchada Como bonitão guloso Visto por maravilhoso Nelas em espera Pelo resultado que «Pudera Eu sair vitoriada Com ele glorificada.» Mas antes do desfecho Depois de breve fecho No caldeirão aquecido Foi reaberto para querido Da mulherada expectante Conceder seu garante De final escolha Com ele em molha Quente e repleto De bolo para ceptro Faltando saber o destino: Se hospital fino Ou audição de hino Como novo paladino Para quem o ansiava E tanto apertava Seu ardente coração Por desejo de bonitão. (140 versos)

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II Duas figuras entraram Com o aviso que levavam: «Senhora Decência para concluir Espectáculo de fugir Com este ilustre Paciência Comigo sem incidência Dela própria em si Pelo que se passa aqui. Chamei a polícia E vai tudo notícia Ser no amanhã vexante Com manchete por garante E destino reconfortante Em calabouço humilhante Com internet por constante Jamais para instante Vosso que precisará Da cura que vos tomará Uma longa geração A começar nesta ocasião. Quanto ao bonitão Eu irei em atenção Cuidar de seu estado Para que no lado Seu nada falte Nem ele mais salte Com tudo o que dá Essa internet tão má!» (28 versos)

(168 versos)

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Terra Ausente – Luís Amorim

I

Terra de saída por jornada finda, trabalhada com esforço e dor no pescoço, notada quase sempre nas horas últimas da labuta pelo colectivo operário, todo ele estafado quando turno finalizado tinha hora de chegada. Naquele dia em concreto, o ânimo era moralizado pois a seguinte jornada do calendário remunerada seria apesar de folga dia estar em preparação, pormenores ultimados por operários outros que não pertencentes ao fabrico de mecânicos componentes. Apesar de folga citada, o dia tinha já ordenado a comparência de todos os cidadãos da região, o que não daria aos operários em questão qualquer tipo de escapadela para afazeres outros pensados ou sequer sonhados, pois o governo tal não permitiria. Seria bem mais importante a inauguração da cidade nova, económica e financeira, diziam os mandantes de tudo o que ocorria na zona, região densamente povoada, maioritariamente constituída por operários. Quanto aos empregados de superior qualificação, certamente um dia viriam a caminho para ocuparem os lugares seus na cidade nova, em terreno construído, acrescentado ao mar, num aterro gigantesco. Como tal foi concretizado, não se sabia com exactidão nem mesmo com suspeitas de ocasião pois dizia-se, eventualmente com rumores que os trabalhadores no tal aterro seriam provenientes de longínquas paragens, para onde regressariam findo o trabalho requisitado. O resto do dia, de descanso seria, porque na especial manhã toda a população se dirigiria à zona costeira onde o evento iria ter lugar. Em sussurros, passava-se a mensagem que importantes individualidades compareceriam para darem seus aplausos a uma notável obra de arquitectura, apregoada era pela comunicação do governo, reconhecida como oficial propaganda e que então se fazia ouvir alto e bom som para que faltas de comparência fossem situações não avistadas no grande dia. Quanto ao que ainda durava, assistia com tempo ameno ao regresso de todos seus filhos da lida trabalhadora a suas humildes casas em bairros residenciais, confinados a uma periferia longínqua densamente povoada de 42


prédios, mais em altura do que na quantidade espremida, talvez para mais gente caber na pequena área à classe operária destinada. Gonsarte era um de muitos que tomava o autocarro, o primeiro se sorte tivesse em adiantado chegar à paragem pois caso contrário esperar teria por um que o alojasse durante uma boa metade horária para se ver a cumprimentar seus progenitores, os únicos seres vivos que da sua discreta existência tinham noção, excluindo alguns colegas e superiores que não todos, por motivos estritamente profissionais. Quanto à parte emocional, parentes únicos eram os que habitavam consigo debaixo do mesmo tecto com restante família desconhecida quanto à sua existência. Sua vida, rotineira era e sem grandes passeios ou extravagâncias, quase sempre ao lar confinado e debatendo o dia-a-dia, naquela ocasião com suplementar assunto na tão propalada inauguração que começaria na manhã, esperaria pela aperaltada presença dessa família e de outras, o cenário compondo para sair vangloriada construção tamanha do regime como financeira e económica conquista, simplesmente intitulada “A Cidade”, tal e qual as autoridades auto-designadas como mais nobres pelos decisores cargos ocupados lhe puseram sem que houvesse qualquer tipo de frontal oposição ou mais discreta, visto tal substantivo não ser usado de comum modo nem sequer raro por ali. Depressa anoiteceu e a região apagou-se numa calma indispensável como bem lhe sucedia todos os dias sem nocturna vida que a mantivesse desperta durante umas horas mais, nunca consideradas essenciais.

II

Sol alegre, acordado quando havia movimentação dos que a caminho iam com disposições consonantes com ambiente de festa, sendo referência esta, obviamente a relativa aos que de comboio viajavam para a tempo e horas estarem no certo sítio para o momento mais aguardado do ano ou como avisava a oficial propaganda “O evento mais importante de sempre”. Diversos comboios iam pelos seus pés, sem se cansarem apesar dos pesos que transportavam, não de bagagens mas de pessoas apenas e todas elas com semelhante destino. Os naturais da região onde tudo iria acontecer levantaram-se depois pois a viagem, mais curta seria, o que não poderia implicar desleixo. Com efeito, todos os residentes, homens, mulheres e animais de estimação foram sendo aperaltados com trajes dominicais, apesar de ser dia de semana, quase um feriado decretado pelas instâncias competentes para o efeito. Quem não o podia fazer pelos seus próprios meios, tinha ajuda de parentes, vizinhos ou simples conhecidos pois a entreajuda vigorava entre os cidadãos. Na casa de Gonsarte e seus pais, ajuda suplementar, necessária não era e sem grandes demoras conseguiram arranjar-se em tempo útil de modo a serem dos primeiros para o autocarro número um a fazer a circulação de honra até ao aterro, no dia em questão já plenamente disposto a receber pedra de inauguração mais os discursos longos e fastidiosos, mas previsivelmente acrescentados com mapas, maquetas, projecção de filmes promocionais, antevendo cidade de progresso e desenvolvimento, uns diziam, e 43


mais do mesmo, pensariam outros. O aterro protegido estava com alto gradeamento para manter a surpresa por tempo adicional, sorrindo este à expectativa crescente, só sendo revelado na sua totalidade quando algum tiro de partida ou oficial anúncio desse indicação de se estar perante a hora do início das cerimónias protocolares, que não se sabiam ao certo quanto iriam durar, se breves instantes ou horas intermináveis de pé pois assentos colectivos certamente ficariam de fora da ementa principal, apenas servida às entidades oficiais e seus ilustres convidados. Mas quando fosse a tal hora, ao segundo exacto antecipadamente planeado, um gigantesco portão correr-se-ia de forma lateral, revelando a abrangente entrada por onde todos, ordeira e civilizadamente, dariam entrada. A estação ferroviária longe não era e muita gente dirigia-se a pé para o pré-recinto enquanto automóveis que na região só eram propriedade da comitiva oficial do regime, colocavamse em fila, na qual individualidades representativas de regiões outras também ocupavam o seu lugar. Os futuros quadros, mesmo superiores, que iriam povoar “A Cidade”, chegavam igualmente a pé pois vinham de longe, recrutados de forma incógnita. Na região, havia só uma empresa, pelo governo gerida e na qual, quase todos os residentes lá trabalhavam. Quem não tinha essa oportunidade, vivia dependente de terceiros, fossem eles familiares ou o próprio governo. Este já lá se encontrava na íntegra, todo dentro de vários automóveis, do qual saiu o primeiro, naturalmente do carro mais próximo do grande portão, pronto para um compasso de espera pois havia ainda gente a chegar. Mas quando já não se avistava vivalma em pose atrasada, o chefe de governo, colocou a sua em jeito de observado ser por todos, num improvisado palanque, para um curto discurso de antecipação, o qual foi de facto útil apenas para a expectativa crescer ao revelar o que se iria passar e do que consistiria o resto da manhã na oficial cerimónia de inauguração tão desejada. Portão iniciado na tarefa sua e eis que o aterro ficaria pronto a ser colectivamente vislumbrado.

III

Portão em retirada de cena planificada desde tempo distante por orgulhosas mentes que, em silêncio, aguardavam pelo momento previsivelmente belo, onde “A Cidade” começaria a ser prometedora realidade. Mas ainda o pano não havia sido corrido na totalidade pelo motivo do portão encontrar-se, à altura em andamento, já o cenário aterrador parecia, deixando estupefacta a gente em aglomeração atónita por aterro qualquer não estar visível. Mas apenas se via numa curta extensão de metros, à qual se seguia um escuro nevoeiro, apresentado sem boas-vindas mas com vasta surpresa. O aterro onde “A Cidade” iria desenvolver-se, crescendo de forma rápida, assim tinha sido dito como garantia de estado, não estava mais pronto, muito menos arranjado e expectante para a inauguração com pompa e circunstância. Houve quem gritasse, certamente esperando não ser identificada, a certeira expressão «A terra está ausente». Ficou a gente toda sem saber o que pensar, se valeria a pena ir pelo mar fora à procura dela ou gizar 44


plano mais elaborado por pensado com outra ponderação. Alguém das entidades oficiais ordenou a imediata dispersão e sem discussão para as respectivas casas, ordem essa que foi acatada com o natural conformismo que era usual por paragens aquelas. Os decisores da região continuaram na zona «Onde o progresso iria surgir», queixando-se da pouca sorte ou falta dela num momento tão decisivo para o futuro colectivo. Os convidados recém-chegados continuaram por terrenos surpreendidos com todo o aparato que teve o desfecho mais imprevisível que se poderia supor, alguns pela sua estatura mediática, à conversa com os dignos anfitriões na zona onde tudo se passava e na qual nada ficou como seria expectável. Houve quem se prontificasse por imediato mergulho, indo procurar por vestígios esclarecedores do que poderia ter acontecido, tendo havido aval para investida proposta, rapidamente mergulhada «Nas águas que estão geladas em demasia», sucedendo o regresso a terra quanto antes sem nada de novo para ser reportado. Solução única, dispersão sem contestação dos presentes, ainda em número apreciável por quem tratava desse registo, disfarçado desse modo para plantar-se ali como agente da social comunicação e diversos eram eles e algumas elas, quais agentes infiltrados que permitidos seriam não caso as autoridades soubessem de antemão os concretos propósitos das visitas em questão. Pareceram longos os tempos de evasão mas não o foram de facto, aquilo na perspectiva dos agentes de todos os ofícios necessários ou colados na situação que iria decorrer. Beira-mar vazia sem a terra que se contava pelos demais que depressa recolheram aos gabinetes para delinearem estratégias de actuação que se pretendiam urgentes enquanto quem de fora aparecera, regressou conformado e devidamente indemnizado, ainda que apenas no preço do bilhete que diferia consoante o destino das pessoas visadas. «Pelo menos sairá nada na imprensa de fora porque a de cá nem sequer existe.» Mas algumas individualidades que já iam no comboio de volta pensavam diferente e prometiam a si mesmas que agir teriam, sendo rigorosas e em nada complacentes com o regime que vigorava no local onde haviam estado para uma sumptuosa inauguração, com garantia de banquete posterior, o qual não chegou aos seus olfactos. «Terra desaparecida» e «Terra ausente na inauguração» foram outras expressões ditas no calor da ocasião e que, sem margem para dúvida, iriam ser escritas e comunicadas nos meios adequados, com o acrescento do tal nevoeiro denso.

IV

«A senhora está a chegar.» Governante aprontando-se depois de recado dado por secretária anunciando Sofieval, a perita contratada para o serviço inadiável «A ter lugar quanto antes», ouvido perfeitamente pela jovem com cerca de trinta anos, longos cabelos ondulados a condizerem na perfeição com seus olhos castanhos. A reunião fora breve, contactos já haviam sido feitos nos dias últimos após a falhada inauguração e Sofieval, pontual foi, sem outra paragem intermédia desde a sua incerta proveniência, também para o seu pontual e breve interlocutor que lhe disse tudo estar tratado, desde estadia localizada 45


devidamente até início de operações com auxiliares mapas do terreno que enfrentado iria ser.

Moras Dentro de Mim! – Olga Resi

Capítulo 1

Meia-noite! Como o próprio nome indica: é meio da noite. Supostamente já estamos todos a descansar, não? Pelos vistos não! Pelo menos é o que indica aquele som melodioso que mais parece um cantar de fadas. Sim, eu estou numa ilha fantástica (provavelmente a Ilha dos Amores de “Os Lusíadas”) e aquela canção persegue-me. Talvez eu seja… - Ana Maria! Ana Maria! – uma voz acordava-me para a realidade. Olhei para ele: eu conhecia aquele rosto de algum lado. Talvez algum dos heróis que procurava as ninfas. E tinha-me escolhido a mim! – Ana Maria! Acorda! – afinal era apenas o Martim, o meu marido, que me abanava com uma mão e agitava o telemóvel com a outra bem à frente do meu nariz. - Hãa?!!! - O teu ex! - Onde?!!! – procurei com o olhar à volta do quarto. - Ao telemóvel! - Ah! – peguei naquele objecto que nada tinha de fantástico ou lírico. Bocejei, sacudi a cabeça para me libertar dos últimos resquícios do sonho e colei a orelha ao telemóvel. – Sim? 46


- Acordei-te? – do outro lado da linha. - Eduardo?!! Não, não… - Desculpa, mas estou muito aflito! - O que foi?!!! - Ela voltou! - Hã?!!! - A Valéria. Voltou! - Voltou?!!! Quando? Como? Porquê? Como é que sabes? – foi tudo o que o outro quis ouvir. Desfiou uma série de lamúrias intercaladas de suspiros de que só apanhei blá-bláblá. – Olha, não queres vir cá amanhã tomar o pequeno-almoço para conversarmos melhor sobre isto? – consegui dizer quando ele subitamente começou a soluçar e eu não tinha nada melhor para dizer. - Oh querida, obrigada por me aturares. Até amanhã! - Desculpa meu amor! – beijei Martim que tentava dormir e resmungou qualquer coisa que eu quis entender como “está tudo bem!” Voltei ao meu sonho: eu-ninfa e Martimherói. E o Eduardo também está no sonho? Provavelmente à procura da Valéria! Oh não, mas é para os meus braços que ele vem a correr. E a chorar…muito! De novo aquela melodia de sereia. - Ana Maria! – desta vez Martim não precisou de fazer grande esforço para que eu entendesse o que se passava. Apenas murmurou: “é a Alice”! - A tua ex! – sorri-lhe com um ar triunfante. – Alice, querida! – não consegui dizer nada durante minutos sem fim e também apenas consegui ouvir choros aflitivos e injúrias totalmente imperceptíveis. Usei da estratégia anterior e desliguei o telemóvel. - Então amanhã é pequeno-almoço para 4! – exclamou Martim com o cabelo em pé de quem tenta conciliar o sono e não consegue. - Pois! Isto se mais nenhum dos nossos exes resolver ligar-nos! - Dorme! – resmungou Martim após me bater com uma almofada. E só não obteve resposta porque já era realmente muito tarde!

No dia seguinte… - Já está tudo pronto? – perguntou Martim compondo o nó da gravata. - Já! Espero que eles não demorem, que às 10h temos uma reunião importante. - Mas vocês não ficam fartos uns dos outros? - Como assim? 47


- Quero dizer, vocês já trabalham juntos, quando chegam a casa estão sempre a falar ao telefone. E ainda têm de tomar o pequeno-almoço juntos? - Estás com ciúmes? – brinquei, ao que ele me correspondeu com um olhar intenso e um beijo doce. - Só gostaria de não ter que te partilhar tanto! E, depois, hás-de convir que não é muito normal os teus melhores amigos serem precisamente o teu ex e a minha ex! - Não sejas retrógrado! Lá se vão os tempos em que os exes se tornavam inimigos mortais. - Que saudades dos bons velhos tempos! – resmungou Martim, procurando a sua caneca favorita, com a forma de uma vaca malhada. Não sabia explicar, mas o café não sabia tão bem se fosse bebido noutra caneca. Psicologias inexplicáveis. - Não me digas que preferias que eu me tivesse lançado numa briga de gritos, puxões de cabelos e partir de unhas com a Alice? - Claro que não! Mas daí a convidá-la para ser tua sócia na agência de publicidade vai uma grande distância. - Por favor, Martim! Esses são pensamentos do século passado. A não ser… - aproximeime do meu marido com um sorriso malicioso – que o facto de a veres com tanta frequência te faça relembrar os vossos momentos românticos e os queiras repetir. - Eu não acredito que me estejas a dizer isso! Eu deixei-a por tua causa! - Estava a brincar. Levas tudo muito a sério! – abracei-o. - Se o Jaime te ouve… - Eu acho que o Jaime não deve estar a ser o melhor dos maridos, a avaliar pelo choro da Alice ontem à noite. - Ela está grávida, logo fica mais sensível. – Martim sentou-se à mesa, mexendo vagarosamente o café. - Huuum…não te sabia um entendido nesses assuntos! - Oh! Toda a gente sabe isso. - Não toda a gente! Confessa! – coloquei os braços à volta do pescoço do meu marido, mantendo-me de pé, atrás dele, mordiscando-lhe a orelha. - Davas uma bela agente secreta, tu, com essa forma de tortura! – Martim ria-se, completamente rendido aos meus mimos. - Isto é porque eu conheço o teu ponto fraco. – e eu continuava. - Pronto! Eu confesso: comprei uns livros sobre gravidez e… - Ah não, esta conversa outra vez! – afastei-me dele e coloquei mais pão na torradeira. Martim levantou-se e puxou-me para si. 48


- Não fujas! - Não estou a fugir! - Estás! Como fazes sempre que eu tento conversar sobre termos um filho. - Porque eu acho que ainda é cedo para isso. - Cedo?!! Estamos casados há 3 anos, já tens 31 anos e achas que é cedo? Estás com medo de quê? - Eu não tenho medo. Quem é que disse que eu tenho medo? - Ai não é medo?!! - Claro que não! - Então o que é?!! Não me digas que é falta de instinto maternal ou que o relógio biológico ainda não accionou, porque é mentira! Eu vejo como ficas quando estás com uma criança. Olha como tratas os meus sobrinhos! Eles adoram-te! – ele já começava a irritar-me! - Podemos ter esta conversa noutro dia? – aproveitei o facto de ter que retirar as torradas para me libertar dele. - Lá estás tu a fugir! - Não estou a fugir! É só que o Eduardo e a Alice estão para chegar! - Nós temos de pensar muito a sério em… - a campainha tocou. - Não te disse? - Salva pelo gongo! - Não fiques assim, meu anjo. – dei-lhe um beijinho. – Prometo que voltamos a falar sobre isso. – Martim ergueu as sobrancelhas, desconfiado. – Prometo. – tranquilizei-o. Abri, finalmente, a porta. - Bom dia, querida! – era Eduardo, com cara de quem não tinha dormido nada a noite passada. - Entra! Mas o que aconteceu? – fiz sinal para que entrasse na cozinha e se sentasse. - Foi como te disse. Bom dia, Martim. - Olá! – resmungou o outro, finalizando a torrada. - É como te disse… - Bem, vou deixar-vos a sós. – Martim despediu-se de mim antes que o antigo rival começasse a desfiar a novela mexicana. - Jantamos? – questionei-o, antes de sair. - Ligo-te mais logo para confirmar. – e saiu. 49


- Porque é que tenho a impressão de que o teu marido não vai com a minha cara? – quis saber Eduardo. - Ele é reservado, é só isso! Mas explica-me melhor a história da Valéria que eu ontem não percebi nada! - Ontem fui tomar café com o Ricardo e ele disse-me que a tinha encontrado no centro comercial. Conversaram um pouco e ela disse-lhe que ia ficar uns tempos por cá, que estava farta de não ter poiso. - Pensei que ela estivesse bem arrumada, lá nos Estados Unidos. - E estava. Casou com um senador, fazia algumas peças e um ou outro filme. Só que agora voltou. - Sozinha? - Pois! Isso é que não sei! O Ricardo nem se lembrou de lhe perguntar tal coisa! O que achas que faça? Procuro-a? - Não sei. E se ela está com o marido, a passar uma segunda lua-de-mel? Vais ficar arrasado! - E se ela se separou do marido? - Já estás a fazer filmes. - Mas é possível, não é? - Sim, tal como é possível, e mais provável, a primeira hipótese. E se te puseres a construir castelos no ar, vais acabar por partir o teu coração, uma vez mais. - Não, isso não! O que ela me fez da última vez serviu-me de emenda. Eu estou vacinado contra valerite aguda. - Nota-se! – ironizei. - A sério! Tu sabes o que ela me fez! - Já me contaste…um milhão de vezes: acabou a relação com uma carta em cima da almofada e uma partida para os EUA. - Sem nunca me ter dito nada. Apenas foi! - E o teu coração ficou em mil bocadinhos, até hoje! - Já passaram 10 anos, Mimi! - E para ti é como se tivesse sido ontem! - Não! Tens razão! O mais provável é ela estar em lua-de-mel com o marido. E eu já a esqueci, por isso vou fazer de conta que não sei de nada! Esquece o que te disse. – Eduardo levantou-se, deu duas voltas à mesa e respirou fundo, apoiado na cadeira. – Vou embora! Desculpa a maçada! 50


- Du, senta-te e come! – eu continuava a tomar a sua refeição imperturbável. - É melhor ir embora. - Senta-te. Não podes fazer de conta que a Valéria não existe ou que não mora no teu coração. Apenas te estás a enganar! - Mas tu própria dizes que não devo criar esperanças. - Não deves fazer castelos no ar. Mas tens de enfrentar esse fantasma que te impede de seguir em frente. De viveres, Du, viveres! - Eu continuei com a minha vida, tentando esquecê-la. - Tentaste, mas não conseguiste. A prova disso é que tens 35 anos e continuas solteiro. - Mas vou tendo as minhas namoradas! - Namoradas?!!! A tua relação mais longa foi…quê?... 2 meses? - 6 meses, 2 semanas e 3 dias. Contigo! - Uau! Não sabia que ligavas a esses pormenores. - Foste muito importante para mim, sabes disso. E só te deixei ir embora porque encontraste o teu príncipe encantado: o nosso belo e charmoso Martim! - És muito simpático! Mas ambos sabemos que a nossa relação estava condenada logo à partida. Acima de tudo somos amigos! - Achas mesmo que não conseguiríamos ter algo mais… duradouro? - Posso ser sincera? – Eduardo franziu a testa mas acenou afirmativamente. – Não é possível ser-se feliz com outra pessoa no meio. - Eu… - Sim, Du, a Valéria esteve sempre presente. E aposto que aconteceu o mesmo com todas as outras. - Não é bem assim… - É! Cada vez que fazíamos alguma coisa, tu dizias “a Valéria isto”, “a Valéria aquilo”. Estavas sempre a fazer comparações. E transformaste-a numa deusa, muito acima de todas nós, meras mortais. E ninguém consegue competir com um fantasma! - Nunca me disseste…nunca me deste a entender que te fazia sentir isso? - E para quê? Não mandamos no coração. E eu sabia que a nossa relação era apenas de transição. Desculpa, mas cedo percebi que não eras “o tal”. - Mas poderia ter sido, não?!! - Talvez. Mas o que importa é o agora e o que podes fazer – e o que queres fazer – da tua vida daqui para a frente. 51


- Depois da Valéria, tu foste aquela de quem mais gostei. Sabes disso, não sabes? – Eduardo afagou-me a mão, a amiga-ex-namorada, tentando controlar os seus sentimentos. - Tens de procurá-la, Du! - Para quê?!! Para sofrer ainda mais? - Que seja! Mas que sofras tudo até ao fim, de uma vez, se for preciso. Tens é que te libertar desse sentimento…dessa obsessão, sei lá! Tens de te desamarrar para poderes ser feliz! - Tenho medo! - Eu sei! É bom que assim seja! O medo é que nos faz ter os pés no chão! Se não a lua já era habitada oh…há muito tempo! - Mimi… - Não vem que não tem! – experimentei o melhor sotaque brasileiro e sorri para o meu amigo. – Vais procurar a Valéria e vais tirar todos esses teus macaquinhos que tens no teu sótão. - Eu… - E fim de assunto. Hoje mesmo, vais ao hotel onde ela está e vais procurá-la e viveres tudo o que tiveres de viver. Acaba esta história, Eduardo. Ou começa-a, seja o que for, mas sai de cima do muro, pois até a Alice saía do “País das maravilhas” para enfrentar a realidade. - Por mais difícil que isso seja! – a campainha soou uma vez mais. E, mais uma vez, abri a porta, deparando-me com o desespero em pessoa. - Alice… – entrou aos prantos e durante alguns minutos ficou assim, apenas abraçada aos amigos. – Alice, acalma-te. E explica o que aconteceu. - É o Jaime… - mais lágrimas. - Mas o que aconteceu com Jaime? – Eduardo já estava a perder a paciência. - Ele…ele…tem outra. – e um pranto só, durante longos e penosos minutos. - O Jaime? Outra? Oh, querida, onde é que foste buscar essa ideia? O Jaime adora-te. - Não, Mimi, eu vi… - Viste-o com a outra? – Eduardo precipitou-se. - Du! – ralhei. - Não! Não! Eu vi – soluços chorosos – uma mensagem – pranto aflitivo. - Mas que mensagem? – o rapaz estava imparável.

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- Eduardo! – eu tentava amenizar. – Explica-te, meu anjo, que nós não estamos a perceber nada. - Eu vi uma mensagem que ele enviou…à outra – soluços – dizia que para ela não significava nada estar casada e que a achava muito sexy. Como é que ele pode dizer uma coisa dessas? Logo agora, que eu estou gorda como uma baleia? - Meu amor, tu estás linda! És a grávida mais linda que eu já vi, com essa barriguinha adorável! – Eduardo fez-se valer do seu lado sedutor masculino para ser convincente. - Dizes isso porque és meu amigo! - Não! Digo isso porque é o que acho.

A cor dos dias – Paulo J. C. Pereira

A viagem Subiu os degraus vagarosamente e sentou-se numa cadeira próxima do motorista. Nem sempre o cumprimentava e quando isso acontecia era sem grande atenção. Fazia esta carreira há um bom par de anos desde que frequentava o centro de saúde local para controlar a tensão arterial. Era jovem mas aparentava mais idade, fruto de muitos anos vividos na rua. A manhã estava no seu começo e o autocarro ia recolhendo diversas pessoas ao longo percurso nos arrabaldes da cidade. Junto a uma janela, um casal de namorados trocava gracejos, perto deles uma mulher na casa dos cinquenta tinha acabado de entrar carregada de compras feitas no mercado para, certamente, preparar as refeições do dia. Na paragem seguinte, um militar entra e senta-se ao lado de um rapaz que, entretido com o seu jogo preferido, não se apercebera das medalhas que o militar ostentava no peito. Mas quando as viu, os seus 53


pensamentos foram para longe, para muito longe, para onde tinha nascido. Nunca mais voltara a África e cada dia que passava acalentava a esperança de lá regressar com os seus pais. À medida que a manhã avançava, o sol ia-se tornando mais forte e o ambiente no interior do autocarro começava a ficar um pouco viciado o que levou um idoso a abrir uma das janelas de correr que estão logo acima dos grandes envidraçados. A entrada de ar fresco foi benéfica especialmente para uma criança que mostrava sinais de aperto. A mãe já lhe tinha dito que teria sido melhor sentarem-se mais à frente mas não valia a pena insistir porque as suas palavras de pouco valiam após a adopção se ter verificado. Perto de uma escola, um grupo de crianças entrou acompanhado de uma professora que insistentemente lhes dizia para se comportarem bem. Iam visitar uma exposição de pintura feita por pessoas com deficiência motora. Iam entusiasmados porque julgavam muito difícil alguém conseguir pintar com a boca ou com os pés. Pelo início da tarde, com a temperatura morna no interior do autocarro, já uns quantos utentes preguiçavam. Ao aproximar-se da paragem seguinte, um turista perguntou ao motorista se era ali que devia sair pois perdera-se no último bairro quando andava a fotografar instantes dos habitantes da zona, pessoas de menos posses que viviam em edifícios pré-fabricados ou em casas de madeira. Sem grandes histórias se fez o resto do trajecto para no final da tarde o autocarro percorrer o caminho inverso e regressar à garagem. Próximo do término, foi com algum espanto que os passageiros olharam para o acordeonista que entrava tocando o seu instrumento. Tocava “La vie en rose” e, por momentos, todos se esqueceram das suas vidas. Já era tarde, e o pequeno Manuel pegou no autocarro e pô-lo no bolso. Amanhã faria nova viagem.

O avião de papel Como de costume, a campainha soou manhã cedo no estabelecimento prisional da cidade para mais um dia igual a tantos outros. Das várias alas, saíram dezenas de homens para tomarem o pequeno-almoço na cantina situada na zona social da prisão onde se encontra também a sala de convívio. Este estabelecimento é considerado uma prisãoescola onde os reclusos podem aprender diversos ofícios nas oficinas de trabalho para ficarem aptos a regressarem à vida activa. A rotina é basicamente a mesma todos os dias. Depois do pequeno-almoço vão para as oficinas, a seguir ao almoço, uma hora no exterior, regresso ao trabalho e, no final do dia, jantar e uma passagem pela sala de convívio onde podem jogar jogos de mesa e ver televisão. A idade dos reclusos situa-se entre os dezoito e os cinquenta anos e os delitos cometidos vão desde os assaltos na via pública até aos homicídios. Esta variedade de 54


delitos espelha bem o tipo de homens que ali estão, havendo frequentemente zaragatas no pátio exterior e, por vezes, a necessidade de isolar determinado indivíduo. A estadia prolongada leva ao nascimento de amizades em muitos deles. Mas há sempre outros que não conseguem integrar-se, como é o caso do rapaz da cicatriz. Retido há seis anos por furtos em lojas e puxões aos transeuntes, pouco fala, mas tem uma habilidade extraordinária para trabalhos manuais. Já em pequeno, fazia aviões de papel que os lançava da janela de sua casa. E foi esta memória que o animou no início deste dia. Faria uma dezena de aviões de papel e pediria autorização para os lançar de uma das torres de vigia, a mais sujeita aos ventos. Os aviões teriam uma particularidade, levariam uma mensagem escrita que dizia: “Não tenho ninguém com quem conversar. Prisão da Cidadela”. A autorização foi concedida e na hora do recreio o rapaz seguiu para a torre. O saco que levava consigo transportava uma carga preciosa, doze aviões de papel branco de forma triangular com a mensagem escrita no seu interior. A brisa que soprava seria suficiente para os levar bem longe. Chegou-se à borda do varandim e, perante o olhar curioso do guarda, lançou um avião de cada vez a favor do vento. Metade deles seguiriam para longe até os perder de vista sobre a cidade. Agora só restava esperar. As visitas fazem-se ao fim-de-semana tendo cada recluso direito a quinze minutos. E funciona de dois modos: para os delitos menores, as visitas podem ser feitas numa sala com várias mesas e para os delitos mais graves, existe uma separação física em vidro entre o recluso e a visita sendo a comunicação feita por telefone. Os aviões esvoaçaram em várias direcções ao sabor do vento, uns caíram em telhados e outros no chão. Acabaram por se amarrotar ou ser pisados pelas pessoas e pelos carros. À excepção de um. Este foi apanhado por uma criança que o mostrou ao pai e uma vez que estava em boas condições foi observado com aceno de cabeça. O rapazito voltou a pegar nele, abriu-o um pouco e reparou na mensagem. Fez sinal ao pai para a ler, o que o levou a guardar o avião. A pena de seis anos a que o rapaz está sujeito aproxima-se do fim e um sábado foi chamado à sala de visitas porque alguém o procurava. Se fosse familiar, ele saberia os dias da visita mas, desta vez, esse alguém ele não conhecia. Quando entrou na sala, o guarda indicou-lhe a mesa onde um homem o aguardava. Depois de um cumprimento de circunstância, a visita deu-se a conhecer e o rapaz, satisfeito e admirado, trocou impressões sobre a ideia que tivera. A conversa decorreu durante os quinze minutos ficando a promessa de novas visitas. A atitude daquele homem surpreendeu-o e os dias seguintes foram mais fáceis de passar e decorreram normalmente até ao fim da pena. Sairia na segunda-feira de manhã, decerto mais crescido e com uma visão mais madura da vida. Quando os portões se abriram e o rapaz saiu com votos de felicidade por parte dos guardas, um homem esperava-o do outro lado da rua. A solidão que sentira lá dentro entre tantos colegas acabara e agora, sozinho no exterior, não estava só. 55


Estranho encontro Eram 7.30 horas da manhã, quando o despertador tocou junto à cama deste homem de 44 anos que vive no melhor apartamento do mais recente edifício recuperado junto ao centro da cidade. O apartamento situado no último piso tem uma ampla vista sobre o rio, beneficiando de um terraço banhado pelo sol durante praticamente todo o dia. É aqui que o homem toma o seu pequeno-almoço, composto basicamente por um sumo de laranja, duas fatias de pão fresco e um café. Regrado, por natureza, cumpre o seu ritual matinal e, após deixar a sua habitação, dirige-se à garagem para retirar o automóvel topo de gama que o espera. Cerca das 8.50 horas, chega ao local de trabalho, uma empresa de comunicação, onde exerce o cargo de director financeiro. O dia decorre normalmente com reuniões, contactos e análise de relatórios que o ocupam até ao final da tarde. Apreciador de desportos motorizados, costuma ler revistas da especialidade e assistir a eventos com eles relacionados. Porém, neste dia, tinha-se esquecido de pedir à sua secretária a última edição da revista preferida, pelo que, ao sair, dirigiu-se a um quiosque próximo para a adquirir. No trajecto, feito a pé, cruzou-se com um indivíduo andrajoso que estava a pedir esmola, à qual não atendeu embora o tenha olhado. Chegado a casa, pôde, finalmente, pôr-se à vontade, sentar-se na sua cadeira favorita, beber um chá frio e apreciar as vistas do rio e da cidade. Também pôde reflectir sobre o dia de trabalho que teve e veio-lhe à memória o homem que estava a pedir. Sem nenhuma razão aparente, algo o fez lembrar dele. Seria a sua situação, o seu olhar, não chegou a nenhuma conclusão, porque, entretanto, o telefone começou a tocar. - Olá Mário, sou eu. Que tal se fossemos jantar fora? – perguntou a Isabel, amiga de longa data. - Porque não? Aceito, pois! – respondeu Mário. De facto, porque não? – pensou ele. Solteiro há bastante tempo, sem filhos, algumas mulheres passageiras na sua vida, sem outros compromissos além do trabalho, era uma boa altura para conversar um pouco. Combinaram encontrar-se num pequeno e acolhedor restaurante da zona velha da cidade com frente para a praça principal. Conversaram longamente sobre os últimos dias em que não se viram e após um momento de pausa enquanto esperavam pela conta, Mário comentou o episódio da compra da revista e da passagem pelo pedinte. - Engraçado, quando voltei para casa a imagem do homem ficou-me retida e pergunto-me porquê – disse. - Talvez tenha sido pelo facto de viveres bem, teres uma boa casa, teres aquela imagem de pessoa bem-sucedida – sugeriu Isabel.

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- Hum, não sei. Já passei por muitos pedintes e isto não aconteceu... – acrescentou Mário. Com esta dúvida, saíram do restaurante. Chegados ao automóvel estacionado a dois quarteirões de distância, o espanto tomou conta do homem. Alguém tinha conseguido entrar e roubado os documentos. Por um acaso incrível, o seu bilhete de identidade estava junto dos documentos do carro, uma vez que no dia anterior tivera que tratar de um assunto na Direcção de Viação. Também por azar, o alarme não estava activado. Desalentado e pensativo, levou a amiga a casa e no regresso só pensava no dia seguinte e no trabalho que teria em voltar a ter a documentação. De manhã, ligou à secretária informando-a do sucedido e que só no final da tarde iria passar pelo escritório. O primeiro assunto a resolver seria o bilhete de identidade. E assim, dirigiu-se à Conservatória e requereu um novo bilhete, para o qual necessitaria de uma certidão de nascimento. Sem demoras, solicitou a certidão e a funcionária de serviço, naturalmente, perguntou-lhe o local de nascimento e a data. Ao consultar a página respectiva leu para si e depois em voz alta: - Às noves horas do dia dez de Maio de mil novecentos e sessenta e dois nasceram dois indivíduos do sexo masculino, a quem foram postos os nomes próprios respectivamente de Mário e Rogério e de família Antunes Santos, filhos de.... Completamente estupefacto, Mário só conseguiu balbuciar: - Como? Como assim? - É o que consta aqui, nasceram dois rapazes ao mesmo tempo, são gémeos! – afirmou a funcionária. - Não pode ser! Gémeos? Eu sou filho único – retorquiu Mário. - É como lhe digo. O registo está correcto e mais pode ir confirmar no hospital – concluiu ela. Esta notícia foi claramente um choque inacreditável. Quarenta e quatro anos como suposto filho único e nunca ninguém lhe dissera que tinha um irmão. Havia que pedir explicações à mãe. O telefonema foi feito de casa para a sua mãe, que vivia longe. Falavam regularmente o que permitiu questioná-la de forma natural. Com a voz tremida a mãe acabou por tentar justificar-se: - Sabes filho, naquela altura não tínhamos meios de criar duas crianças e optámos por dar condições a uma só, que foste tu. O teu irmão foi dado a uma Instituição. Eu sei que foi um erro tremendo, mas a vida tem destas coisas. Incrédulo, não soube o que responder, ficou silencioso. Depois, com um nó na garganta disse: - Eu vi-o. É um sem-abrigo. – ouviu a mãe a soluçar. – Vou falar com ele e trazê-lo. 57


Nessa noite, também ligou à amiga pois esta importante decisão devia ser partilhada com ela.

Infância Coleção da minha literatura infantil Volume 1 – Sérgio Brázio .1. Conto – Os Três Sonhos de Alexandra, 1º Sonho – A Floresta Encantada Num belo dia de Primavera, a família Kietchin foi fazer um piquenique numa floresta, perto da cidade onde viviam. Foi o senhor Sérgio Kietchin, a sua esposa Alice, e filha deles, Alexandra, e um amigo de família, o senhor Carlos Antunes. A pequena Alexandra tinha 9 anos, pele clara, olhos castanhos e cabelo liso comprido de cor preta. Carlos prometera que ensinava Alexandra a pescar. O pai de Alexandra parou o carro. Saíram todos, e caminharam pela floresta. Verde, fresca, calma. Só se ouvia os passarinhos a cantar, o murmurar do vento e o cantar da água. – Da água? – interrogou-se Alexandra. – Qual água? Ela não via água nenhuma, mas ouvia. O seu amigo Carlos apressou-se e disse: – Estamos perto do rio. – Ah! Depois de caminharem mais um pouco, chegaram à margem de um rio. Os três adultos, a mãe de Alexandra trazia um cesto de piquenique, o pai uma 58


mochila nas costas e Carlos, as canas de pesca e uma caixa de plástico com os utensílios para pescar. Os pais da menina escolherem um local à sombra de uma árvore, e estenderam ali a típica toalha aos quadrados vermelhos e brancos, e começaram a preparar as coisas para o piquenique. – Carlos, porque não levas a Alexandra a pescar? – perguntou o pai da menina. – Está bem. – respondeu Carlos. – Vamos Alexandra. E a pequena seguiu o amigo. Foram para perto da margem do rio, e Carlos preparou a cana da menina, e explicou-lhe o que fazer quando sentisse um peixe a puxar. Depois, foi um pouco para mais longe de Alexandra, e preparou a sua cana. – Tens de ter paciência. – disse Carlos. – Para seres boa pescadora, tens de ter muita paciência. Alexandra sentou-se na relva, com a cana nas mãos, e esperou. – Tá bem. – respondeu ela, com um doce sorriso que só as meninas conseguem esboçar. Algum tempo depois, Alexandra começou a sentir-se sonolenta, e de repente, algo lhe chamou a atenção. Viu algo brilhante nos arbustos. – Estou farta disto. – disse ela, largando a cana. – Vou dar um passeio. – Está bem, mas pede autorização aos teus pais. – avisou Carlos. – Sim. A menina foi a correr ter com os pais, e pediu-lhes autorização para dar um passeio, e eles autorizaram. E contente, a menina correu na direção onde tinha visto o brilho, e... – Oh! Não posso acreditar! – exclamou a criança, ao ver o que estava atrás dos arbustos, e brilhava. – Uma fada! – Olá. – cumprimentou a pequena fadazinha, que estava atrás do arbusto. – Eu chamo-me Evelyn. E tu? – Eu sou a Alexandra. A fadazinha Evelyn tinha cabelo loiro, olhos azuis grandes, vestido roxo e asas vermelhas. – Eu sabia que existiam fadas. Mas nunca pensei em ver uma. – disse a menina encantada. – Preciso da tua ajuda. – Da minha ajuda? – Sim. O gato Mauzão, raptou o meu amigo balão, o Gorduchão. – O quê? Isso era uma rima? – interrogou-se Alexandra meio espantada e confusa. – Ajuda-me! Por favor! – suplicou a fada. – Tu és um ser humano, e os gatos têm medo de seres humanos. – Está bem, eu ajudo-te. – Segue-me. A fadazinha começou a voar, e Alexandra seguia. A fadazinha Evelyn não voou muito alto, para assim Alexandra conseguir segui-la, Alexandra não podia voar, tinha de ir a pé. Ela achava aquilo muito estranho. O amigo da fada era um balão?! Mas a meio do caminho, apareceu uma cobra cor de rosa com pintas de várias 59


cores. – Ssssss, quem são vocês? – perguntou a cobra. – Eu sou a fada Evelyn. – E eu a Alexandra. – Eu sou a Pintinhas. – apresentou-se por fim a cobra. – Onde vão com tanta pressa? – Vamos à procura do gato Mauzão. – respondeu Alexandra. – Ele raptou o meu amigo balão, o Gorduchão. – acrescentou a fadazinha. – Isso foi uma rima que fizeram? – perguntou a cobra Pintinha. – Bem, eu sei onde está o gato Mauzão. – A sério? – perguntaram Alexandra e Evelyn ao mesmo tempo. – Ssssssim, ele vive na lixeira. Sigam-me. E as duas seguem a cobra colorida e chegam à lixeira. – Ali está o Gorduchão! – gritou a fadazinha Evelyn, ao ver o amigo balão, que era um balão azul com olhos e boca, e um pequeno fio que alguém segurava. – Aquele é o gato Mauzão? – perguntou Alexandra ao ver um gato cinzento que segurava o balão, e ameaçava rebentá-lo com as suas unhas afiadas. – É ssssssim. – respondeu a cobra Pintinhas. – Oh não, o gato Mauzão, vai rebentar o meu amigo balão, o Gorduchão. – gritou aflita a fadazinha Evelyn. – Eu irei impedi-lo! – gritou Alexandra, e começou a correr na direção do gato, assustando-o, e este libertou o balão Gorduchão, que voou, e a fadazinha Evelyn, voou na direção dele, e abraçou-o. – Miaaaaaaaaau! – miou o gato Mauzão com raiva, saltando para cima de Alexandra. – Não! Socorro! – gritou ela, quando o gato Mauzão lhe tocava com as patas nos cabelos. – Acorda Alexandra. – exclamou Carlos, que fazia festas na cabeça da menina, para a despertar, ela tinha adormecido quando pescava. – Algo mordeu o isco. Puxa a linha da cana. – Foi tudo um sonho... – murmurou ela. – Ajuda-me! – pediu ela a Carlos, ao cair em si. Ambos puxam a linha da cana de Alexandra. – Boa Alexandra! – exclamou Carlos, quando tiram o peixe para fora, e era um enorme peixe azul. – Consegui graças a ti. – disse a menina.

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.2. Reflexão – Infâncias Existem muitos tipos de infâncias. Porquê? Bem, também existem muitos tipos de crianças. Em todo o mundo, as crianças são diferentes, logo, as infâncias também o são. Não só depende do país, mas também se a criança vive numa cidade ou no campo. Apesar de todas as crianças serem diferentes, todas elas são especiais e únicas. Porque as crianças têm um dom especial, sempre acreditam na esperança e nos sonhos, e digam o que disserem, isso faz falta muito nos adultos. Se os adultos fossem como as crianças, o Mundo não estaria na desgraça que está. Por isso, como digo muitas vezes, nunca deixes a criança da tua alma morrer. Quando deixamos a nossa criança interior morrer, simplesmente morremos.

.8. Peça de Teatro – A Fada e o Pastor Baseado no conto "O Jovem Pastor e a Fadazinha" de Máximo Gorki. Ato I Cena: Jardim da floresta onde vivem as fadas. Com árvores, flores e uma casa no fundo. Depois da música de abertura, a fada Maia aparece em palco a saltitar, andando de um lado para o outro, a cantar. Maia: Que belo dia está. Que lindo dia está. Pássaros a cantar. Borboletas a voar. Flores cheias de cor e perfume (abaixa-se e cheira umas flores). Oh como é bela e pura a Natureza. Tudo verde e belo, fresco e bom. Doce, tudo doce, frutos silvestres, (arranca um de um arbusto e come) hum... Tão bom! Lá lá lá. Entram a mãe de Maia, a Rainha e as duas irmãs, Fada I e Fada II. Rainha: Minha filha, como estás contente. Maia: Olá mamã (e beija a mãe na face), olá manas (e beija a Fada I e a Fada II) Fada I: Porque estás tão contente? Maia: Amanhã de manhã, vou passear no campo. Também querem vir? 61


Fada II: Não. Vamos ao lago nadar com as ninfas. Rainha: Filha tem cuidado. Maia: Cuidado? Com o quê? Rainha: Com os humanos. Eles são perigosos. São maus e mentirosos. Maia: Oh... (murmurou e baixou a cabeça desanimada). Rainha: Tu tens de ter cuidado (põe a mão no ombro de Maia, e dá um leve abanão, ela levanta a cabeça e sorri). Fada I e Fada II: Sim, tens de ter cuidado. A Rainha, a Fada I e a Fada II saem de cena, só fica Maia, que caminha para meio do palco e cai de joelhos, e canta tristemente. Maia: Serão assim, tão maus os humanos? Serão realmente maus? Oh, porquê? Porque existe maldade no mundo? Onde estás Deus? Que os humanos dizem que existe. Que é bom, onde é que Ele está? Porque há mal? Porque há mal? Cai o pano. Ato II Cena: Campo e montes com ovelhas a pastar, como fundo. Depois da música da mudança de ato, o Pastor está sentando numa pedra, a ver as suas ovelhas a pastar, Maia entra em cena alegremente a dançar, a saltitar e a cantar, e não repara no Pastor, mas ele repara nela, e fica encantando. Maia: Que dia tão quente. Sinto no meu coração, o sabor do amor. Cheira tão bem, flores perfumadas, cheira a vida. O céu azul, de nuvens brancas e o Sol quente e amado. Que... (ia a dizer, mas é interrompida). Pastor: Olá (saudou, acenando com a mão, e levantando-se). Maia: És um humano! És mau! (gritou ela, assustada, pôs as mãos na cabeça). Pastor: Não sou nada. Tu nem me conheces. Maia: Não preciso conhecer-te. A minha mamã disse-me que os humanos são maus. Pastor: Sim, é verdade. A grande maioria dos humanos, são maus, em geral os fanáticos religiosos e os preconceituosos. Os que seguem estranhas ideologias que nada têm de natural, como o machismo ou feminismo. Os que são egoístas. 62


Há tantos, perdia aqui o dia todo a falar sobre isso. Mas também há humanos bons. Como eu. Maia: A sério?! (começou a ficar mais calma). Pastor: Sim. És muito bonita. Maia: Eu sei, eu vejo sempre o meu reflexo na água do lago. Pastor: E o que fazes aqui? Maia: Estou a passear. E tu? Pastor: Eu sou um pastor, estou a pastar as minhas ovelhas (o Pastor aponta para as ovelhas). Maia: O que é um pastor? Pastor: Então, levo as minhas ovelhas a pastar no campo e montes para elas comerem a erva. Também há pastores que pastam mais tipos de animais, como cabras, bodes, vacas. Também há outro tipo de pastores, que são uma espécie de padres, estes são pastores de pessoas (o Pastor começa a rir). Maia: Oh... e estes pastores das igrejas, levam as pessoas a comer erva nos montes também? Pastor: Não. Este é o tipo de pastor que envergonha o nosso nome. Este tipo de pastor, não é bom, só inventas historiazinhas de Deus, e saca o dinheiro das pessoas. Maia: Oh... que mau. Pastor: É mesmo. Mas nunca tinhas visto um pastor antes? Maia: Não. És o primeiro humano que conheço também. Pastor: E tu és a primeira fada que conheço. Os dois sorriem, dão as mãos e cantam. Maia e Pastor: Que bela é a Natureza. Tão mágica e cheia de pureza. As ovelhas parecem nuvens com pernas comedoras de erva. Oh Natureza, como és bela. Ato III Cena: Igual à do ato I. Depois da música de mudança de ato, que volta a ser igual ao do Ato I, Maia está de joelhos, a ver o reflexo no lago. Canta alegremente, e a Rainha e a Fada 63


I e a Fada II, entram em cena e vão ter com ela. Rainha: Porque está tão contente, minha filha? Maia: Porque conheci um pastor ontem. Fada I: Um pastor? Fada II: Mas um pastor é um humano. Maia: Ele não é mau. Rainha: Sim, tens razão. Os pastores não costumam ser maus, porque vivem no campo, mas... Maia: Mas o quê? Rainha: Mas não deixa de ser um humano, e os humanos não são de fiar. Maia: Mas ele é bom. Também há fadas más. Então, também há humanos bons. Rainha: Sim, é verdade, mas mesmo assim... Fada I: Vais voltar a ver o pastor? Fada II: Como é que ele é? Fada I: É lindo? Rainha: Calai-vos! (gritou). Ide embora (apontou para a casa, e a Fada I e a Fada II saem de cena, e vira-se para Maia) Ouve filha, eu compreendo que sintas curiosidade e interesse pelos humanos, porque não os conheces bem. Mas é muito perigoso, por isso, estás proibida de sair daqui. Maia: Não! O Pastor é bom (gritou Maia, e foge). Rainha: Maiaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa (gritou triste, ao ver a filha a fugir). Ato IV Cena: Igual ao Ato II. Maia aparece a correr em cena, e vai ter com o pastor, que está sentado na pedra a ver as ovelhas a pastar. Maia: A minha mãe não quer que eu te volte a ver. Pastor: Porquê? Maia: Tem medo que tu sejas mau. Pastor: Mas eu não sou mau (levanta-se e abraça Maia). 64


Maia: Canta para mim. Pastor: Que bela és tu, bela fada. Criatura pura e inocente, que vive na floresta. Com a minha canção, sinto no meu coração, a mais doce emoção. É o amor, que me tira a dor. Oh Maia, eu amo-te (e os dois olham-se, aproximam a cara lentamente, e beijam-se). Maia e Pastor: Como é belo o amor, doce, puro e bom. Oh, amo-te, amo-te, amote tanto. Peço-te, fica sempre comigo. Céu fica escuro de repente. Pastor: Parece que vem aí uma tempestade. Maia: Não importa (e Maia é atingida por um relâmpago, caiem os dois no chão). Maia: “Meu querido, vou morrer!” Pastor: “Oh! Não digas isso, minha pombinha.” Maia: “Oh! Vou morrer. Leva-me para a floresta, depressa” (e o Pastor pega em Maia ao colo, e leva-a para a floresta). Cena: A cena muda ficando igual à cena do Ato I. Maia: “Pousa-me no chão” (e o Pastor pousou Maia a meio do palco). Aparecem a Rainha, Fada I e a Fada II, mas não dizem nada, ficam em redor de Maia e do Pastor, com cabeça baixa. Maia: Adeus meu amor. Adeus floresta. Adeus mamã e manas. Adeus Natureza. Rainha, Fada I e Fada II ajoelham-se, o Pastor abraça Maia e beija-a. Pastor, Rainha, Fada I e Fada II: “Que viva eternamente!” Cai o pano.

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As Aventuras de SeruPanda-Chan Livro 1 – O nascer de um guerreiro – Sérgio Brázio

Prólogo ᴥ Há muito tempo atrás, existia um poderoso império chamado Orientásia. E contava-se uma lenda, sobre uma grande montanha, que existia no interior do império. Esta montanha chamava-se Montanha Ningjing, e no seu cume, existia um templo, onde se pregava a crença ao Deus Ziran, que era a divindade protetora daquele lugar. Este templo chamava-se Templo Heping, e era muito mais que um simples templo. Era na verdade um complexo de vários edifícios destinados a vários ofícios e objetivos. Tinha a casa dos monges, um orfanato que recebia crianças órfãs e ensinava-as a profissão que mais se encaixasse nelas, mas o Templo Heping era mais conhecido pelas artes marciais que ali se ensinavam. Segundo uma lenda antiga, falava-se que enterrado debaixo do templo, havia um misterioso tesouro com poderes fabulosos, que se fosse mal usado poderia levar o mundo à destruição, por isso, os melhores alunos de artes marciais do Templo Heping tornavam-se guerreiros guardiões, que davam pelo nome Guardiões da Montanha Ningjing. A meio da Montanha, havia uma aldeia, a Aldeia Meng, e os seus habitantes eram pacíficos. Qualquer pessoa podia viver aí, desde que respeitasse este estilo de vida imposto há muitas gerações pelo Chefe da Aldeia. Por fim, em redor da Montanha, havia uma muralha, feita de pedras cinzentas, e um portão grande de ferro servia de entrada, e ao lado do portão havia uma torre que tinha sempre algum guarda. No lado de dentro, e não muito afastada da muralha, haviam espalhadas várias casas, onde residiam os Guardiões da Montanha Ningjing. 66


Entre as crianças órfãs residentes no Templo Heping, havia uma que chamava mais à atenção, devido ao seu talento para as artes marciais. O seu nome era Serujio Chan, mas ele era mais conhecido por SeruPanda-Chan, por se parecer muito com um panda, e esta será a sua História.

Capítulo 1 ᴥ O "pandinha" guerreiro Logo ao nascer do Sol, os passarinhos começaram a cantar os seus doces cantos, que serviam para alguns seres, como despertadores a avisar que já era de dia. Os passarinhos cantavam e voavam pelas árvores do jardim do Templo Heping. Neste templo, havia também uma espécie de orfanato para onde iam crianças órfãs, e num dos quartos do orfanato, estava uma espécie de ursinho panda chamado Serujio Chan. Serujio Chan era ainda uma criança, e era diferente dos outros pandas. Ele tinha o corpo todo negro, só os braços, mãos e pés eram brancos. Tinha também cinco dedos em cada mão e pé. A cabeça era branca, com orelhas negras, olhos redondos, com manchas negras em baixo, e não em redor dos olhos. E, também era magro, e não gordinho como a maioria dos pandas. Ele estava no seu quarto, sentado numa cadeira de madeira, em frente de uma escrivaninha. Era um quarto simples, mas muito acolhedor. As paredes eram de madeira castanha clara, o teto e chão de madeira castanha mais escura. Havia uma pequena janela, que estava entreaberta, SeruPanda-Chan abriu um pouco, assim que se levantou, quando ouviu o cantar dos passarinhos, como tinha dito, o cantar dos passarinhos podia ser um despertador para alguns. Encostado à parede, e perto da janela estava uma caminha e uma mesinha de cabeceira com duas gavetas. Havia também um armário com duas portas. E acima da cama, pendurado na parede, estavam duas pinturas emolduradas. Uma de SeruPanda-Chan, e a outra de SeruPanda-Chan com os seus amigos. Estas duas pinturas tinham a assinatura da mesma autora, no canto inferior direito, lia-se sem dificuldade o nome de Gulaice. SeruPanda-Chan continuava sentado em frente da escrivaninha, ele tinha nas mãos uma fotografia. Observava-a com ajuda da luminosidade da luz do Sol que entrava aos poucos pela janela que estava atrás de si, e também, com uma vela que estava acesa ali ao lado dele em cima da escrivaninha. Também haviam alguns livros, folhas, um copo com uma caneta de madeira e uma caneta pena, e um frasquinho de tinta preta. A fotografia que SeruPanda-Chan segurava nas mãos, era a preto e branco, e estava um pouco queimada nas pontas. Todas as manhãs, e às vezes à noite antes de adormecer, ele 67


olhava para aquela fotografia. Era a fotografia dos seus pais, a segurarem nele quando era ainda um bebé. Os seus pais morreram misteriosamente, e SeruPanda-Chan tentava lembrar-se de algo quando olhava para aquela foto, pois era a única recordação que tinha deles, mas nunca conseguia lembrar-se de nada, ele ainda era um bebé quando os pais morreram. Ele sabia que o Mestre Murakami, que era o responsável pelo Templo Heping, sabia o que se tinha passado, mas ele disse que só lhe iria contar quando chegasse o momento certo, por isso, não havia outro remédio senão esperar que este dia chegasse, ou então, tentar lembrar-se a todo o custo. Ele às vezes tinha pesadelos com fogo, mas era só isso. De repente, ouviu alguém a bater à porta. Abriu um livro, e pôs a fotografia lá dentro. Depois disse: – Quem é?

Capítulo 2 ᴥ O quotidiano no Templo Heping – Sou eu. – respondeu uma vozinha do outro lado, uma voz conhecida a SeruPanda-Chan. – Espera um pouco Fuka. – disse SeruPanda-Chan, levantando-se, tirando as suas calças de cor vermelha de cima da cama, e vestindo-as. – Entra! A porta de correr, que era feita de uma madeira fina e castanha tão clara, que parecia ser alaranjada, abriu-se, e uma bela pandinha com camisa estilo quimono de cor rosada, mangas de cor branca, e calças a condizer, presas com um cinturão negro, entrou. Era Fuka, a melhor amiga de SeruPanda-Chan. – Bom dia. – saudaram-se um ao outro. Fuka era uma pandinha pura, ao contrário de SeruPanda-Chan. Ela era gordinha e fofinha, preta e branca, corpo branco, membros pretos, cabeça branca com orelhas negras e manchas negras em redor dos olhos, e a caudazinha redonda, que parecia um pompom, de cor negra também. Tinha cabelo negro liso até aos ombros. – Vim buscar-te para irmos tomar o pequeno-almoço. – disse Fuka. – Claro, ia já sair. – disse SeruPanda-Chan, calçando umas sandálias de sola de madeira e pele castanha para atar ao pé, Fuka tinha umas sandálias iguais também. – Pois… 68


E os dois saíram do quarto de SeruPanda-Chan, e seguiram por um corredor, que tinha várias portas, que davam a mais quartos, de outros órfãos. Era um corredor estreito com parede branca e chão de madeira. Quando chegaram à entrada que dava para a rua, havia outro corredor com quartos, mas estes eram os quartos das meninas. Os dois saíram e caminharam por um caminho feito de pedras acinzentadas e brancas, em redor via-se um enorme jardim com arbustos, flores e árvores. Por ali, havia também um pequeno lago, onde peixes gato, ao verem sombras movimentadas em cima da água, foram à superfície, e abriram a boca em sinal de quererem comida. Os dois pandinhas acabaram por chegar a um edifício branco, com janelas em redor, que estavam todas abertas, incluindo a porta de entrada. Era o refeitório. Por dentro era uma sala com várias mesas e cadeiras. Um balcão tinha em cima as comidas, e atrás havia uma porta que dava à cozinha. – Bom dia. – saudaram os pandinhas ao monge que servia as refeições. – Bom dia SeruPanda-Chan. Bom dia Fuka. – saudou o monge. – Aqui estão as vossas refeições. – continuou ele, e deu dois pratos com arroz e bambu, estes pegaram, e foram para uma mesa, e sentaram-se. No centro da mesa, havia um copo de barro com pauzinhos lá dentro, um jarro com chá verde quente e algumas chávenas pretas. Os pandinhas tiraram cada um seus pauzinhos, e serviram-se com chá, e começaram a comer. – Hoje levantaram-se cedo. – disse o monge. – Ainda não chegou mais nenhuma criança. – É que vamos treinar com o Mestre Murakami. – respondeu SeruPanda-Chan. – Ah! Entendi. – Temos de nos despachar. – disse Fuka. Rapidamente os pandinhas terminaram de comer, despediram-se do monge, e saíram do refeitório, e seguiram outro caminho de pedras que dava a umas escadas com sei lá quantos degraus. Havia duas estátuas de um dragão entre as escadas. Os pandinhas subiram as escadas, e quando finalmente chegaram à arcada de pedra com estatuetas de dragões, os dois respiraram fundo, para recuperar o fôlego, significava que tinham chegado ao final das escadas. À frente deles via-se um enorme pilar de cor vermelha, negra na base e no topo, que agora brilhava por causa do reflexo dos raios do Sol, encontrava-se uma estatueta de ouro de um dragão. Era o Pilar do Deus Ziran, e em redor do pilar o chão era de blocos quadrados de mármore. Este local era conhecido como Átrio Principal ou Campo de Treinos. Atrás do pilar, havia uma abertura arredondada com umas escadas de pedra a descer. – Olha está ali o mestre. – disse Fuka baixinho, apontando com o dedo para um velhote que estava a meditar debaixo de uma cerejeira, num enorme jardim, que havia no lado direito do átrio.

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O Mestre Murakami era um rato de cor castanha, e tinha uma barba branca e comprida, e como vestuário tinha um quimono verde, com contornos vermelhos, cinturão verde e calçado usava umas sandálias tipo geta. Nas costas, estampado a negro no seu quimono, tinha o símbolo de Ningjing, que era um dragão em redor de uma montanha. Onde quer que ele fosse, levava sempre o seu cajado. – Vamos sentar-nos aqui, e esperar. – disse SeruPanda-Chan. E quando se ia a sentar num dos degraus das escadas, ouviu uma voz a chamá-los. – Podem vir sentar-se ao pé de mim. Os dois pandinhas olharam-se, uma troca de olhares que refletiam alguma confusão, eles tinham-se aproximado tentando não fazer barulho, incluindo falar baixinho, como é que o Mestre se apercebeu da presença deles? Os pandinhas aproximaram-se e sentaram-se na relva ao lado do Mestre Murakami, que disse: – Antes de começarmos com os treinos, acho de grande importância que devam melhorar a vossa concentração, e nada melhor para isso que meditar. O Mestre Murakami disse tudo isso sem mudar a sua posição de meditação, incluindo não abrir os olhos, bem verdade seja dita, nunca se tinha visto ele com os olhos abertos. Os pandinhas meteram-se em posição de meditação. SeruPanda-Chan com olhos fechados e respiração contínua, tentou procurar nos recantos mais profundos da sua mente, memórias que lhe dessem informações sobre o que aconteceu com os seus pais. Veio à sua mente uma memória. Uma memória sobre fogo. SeruPanda-Chan estava rodeado de fogo. Muito parecido com os pesadelos que tinha às vezes. Começou a sentir-se em pânico, e abriu os olhos. Respirou fundo, para se acalmar e levantou-se, não queria meditar mais. Fuka não dera por nada, e continuava a meditar, sua face fofa de panda, refletia calma e concentração. SeruPanda-Chan resolveu que era melhor não incomodar. Quanto ao Mestre Murakami, já não se encontrava ali. Como é que ele se tinha ido embora, sem darem por nada? SeruPanda-Chan ficara admirado. Ele resolveu caminhar pelo jardim. Até que ouviu uma voz a chamá-lo. – SeruPanda-Chan. – Olá Gulaice. Gulaice era uma das melhores amigas de SeruPanda-Chan, e era uma raposinha. Tinha o pelo num castanho avermelhado, cabelo volumoso de cor castanho escuro, ficando sempre uma madeixa de cabelo a tapar um pouco do olho esquerdo. Vestia um colete vermelho com dois enormes botões pretos, tinha contornos amarelos nas mangas cortadas e colarinho. Preso por um cinto preto e amarelo, estavam uns calções pretos que iam até ao joelho. Calçava uns sapatos pretos também. – Como estás? 70


– Bem e tu? – Também. Que fazes aqui? – Vim pintar um retrato do Akira. – respondeu, inclinando um pouco a mala que trazia consigo, com os utensílios de pintura e uma tela. – Ele está cá também? – Sim. Pelo menos acho que sim. Ele disse-me ontem para nos encontrarmos aqui de manhã. Se calhar foi falar com o Mestre Murakami. – Entendi. Gulaice sorriu para SeruPanda-Chan e este sorriu de volta. Depois começou a mexer a sua cauda grande de pelo volumoso avermelhado e ponta branca. Por alguma razão SeruPanda-Chan sentiu-se tentado a olhar. Gulaice sorriu e ficou corada ao se aperceber. Fuka chegara entretanto, interrompendo o que se passava. – O-olá Fuka. – gaguejou Gulaice, que tentou fazer uma voz normal. – Oi… – murmurou Fuka, franzindo o sobrolho e fazendo cara de má. Ela odiava quando outra fêmea se aproximava de SeruPanda-Chan, por isso escusado dizer, que ela não gostava de nenhuma amiga dele. Lá apareceu o Mestre Murakami na companhia de um macaco. – Olá pandinhas. Olá raposinha. – saudou ele com uma voz alegre e dando um largo sorriso. – Olá senhor Akira. – saudaram. Akira Yamatori era o chefe da Aldeia Meng. Tinha pelo castanho. O cabelo era negro e espetado. Debaixo do queixo crescia uma barba negra. Vestia uma roupa de seda de cor azulada, que estava enrolada ao corpo prendido com auxílio da sua cauda, que funcionava assim como se fosse um cinto. Calçado tinha uns sapatos de um tecido multicolorido. – Já terminaram de meditar? – perguntou o Mestre Murakami aos pandinhas, Akira fez sinal com a mão com o objetivo de chamar Gulaice, e os dois foram para perto do lago, plano de fundo escolhido por Akira para o seu quadro. – Eu tentei meditar mas… mas vieram-me à mente imagens de fogo. Parecia que eu estava no meio de um incêndio. – Estavas a conseguir ter uma memória do teu passado. – explicou o Mestre Murakami. – Sim... fiquei um pouco assustado. Eu tento recordar o que aconteceu com os meus pais. Mas seria mais simples se o Mestre me contasse logo tudo. 71


– Quando chegar o momento certo, eu conto-te. Já falámos disto. Além disto, tentar recordar o que aconteceu, é um bom exercício de meditação. SeruPanda-Chan inclinou um pouco a cabeça em sinal de concordância. Depois o Mestre Murakami olhou para Fuka e perguntou: – E a ti, como correu a meditação? – Senti a minha consciência a voar para longe daqui. – respondeu Fuka com voz calma, mas depois começou a tornar-se mais séria. – Mas depois ouvi a voz de Gulaice, e fiquei desconcentrada. – Hum… foi mesmo só desconcentração ou foi alguma espécie de sentimento menos bom, causado porque uma presença feminina aproximou-se de SeruPanda-Chan? – disse o Mestre Murakami, passando a mão pela barba. – Nã-nã-não… foi isso. Não! – gaguejou Fuka, ficando com a cara toda corada. SeruPanda-Chan ficou com uma expressão de confusão na face, não entendi o que se passava, e o Mestre Murakami desatou a rir. – Pronto, tem calma. Estava a brincar. Muito bem, vamos começar o nosso treino. Deem 10 voltas ao átrio, depois façam aquecimentos, abdominais e flexões. – Sim Mestre! – exclamaram Fuka e SeruPanda-Chan, fazendo uma vénia, e depois começaram a fazer os exercícios. Entretanto lá nos cantos do jardim ao pé da margem do pequeno lago, onde estavam Akira e Gulaice a pintar-lhe o retrato, ou a tentar, porque Akira não se decidia quanto à pose que queria. – Que achas assim? – perguntou Akira, pondo uma mão no peito e outra atrás das costas, e levantando um pouco a cabeça e fazendo uma cara séria. – Ou então assim. – disse ele depois, pondo as duas mãos fechadas encostadas à cintura. – Não, espera. – mudou de ideias, e sentou-se em cima de uma pedra, de pernas cruzadas, pondo o queixo em cima da mão fechada e fazendo um ar intelectual. – Ou então... – e ele continuou a mudar a pose. Mas Gulaice não parecia estar a ouvir, nem olhava para Akira, seu olhar estava preso a SeruPanda-Chan a fazer os exercícios. – Grrrrrrrrrrr! – rosnou Fuka, ao reparar que o olhar de Gulaice esbugalhado em SeruPanda-Chan. – Passa-se algo? – perguntou SeruPanda-Chan. – Não, nada. Terminada a corrida, aquecimentos e outros exercícios que o Mestre tinha mandado fazer, os pandinhas foram ter com ele, que esteve sempre ao pé do Pilar do Deus Ziran. 72


– Muito bem. – disse o Mestre Murakami, inclinando um pouco o cajado de madeira, que tinha uma forma oval no topo, e em baixo tinha uma esfera de cristal com uma pequenina estatueta de jade de um dragão. – Agora sigam-me, vamos continuar os treinos na Sala de Treinos.

As Aventuras de SeruPanda-Chan Livro 2 – O iniciar de uma jornada – Sérgio Brázio

Prólogo ᴥ No Livro 1, ou seja, nos capítulos 1 ao 5, é apresentado um lugar do Império de Orientásia, a Montanha Ningjing, e o templo e aldeia que aí se situam, o Templo Heping e a Aldeia Meng. É apresentado o personagem principal, SeruPanda-Chan e outras que também terão uma grande importância, em geral a sua amiga Fuka. Mas a Montanha sofre um ataque de um exército de esqueletos comandado por um ser horrendo chamado Ricky, que disse a SeruPanda-Chan que tinha morto os seus pais junto com o seu companheiro Maroko. Depois do exército de esqueletos ser derrotado, Ricky foge, e SeruPanda-Chan pede ao Mestre Murakami que lhe conte a História toda sobre o que aconteceu aos pais. O Mestre Murakami vê que não pode esconder mais o que aconteceu, e conta a História dos guerreiros Saierjiáo e Fannishã, os pais de SeruPanda-Chan, e como eles morreram. Mas ainda faltam mais segredos serem revelados...

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Capítulo 6 ᴥ Mais segredos e a partida dos pandinhas E entraram naquele corredor escuro e misterioso, seguindo o Mestre Murakami. As paredes eram de pedra, no teto havia algumas estalactites, e de vez em quando lá caía uma gotinha de água na cabeça de alguém. Só o chão tinha sido trabalhado, pois era plano. Deram-se de caras com outra escada em espiral e desceram e desceram, até chegarem a outro corredor, que passado algum tempo de terem andado, desceram por outra escada em espiral. – Mestre, que lugar é este? – perguntou SeruPanda-Chan. – São as grutas e túneis subterrâneos que existem no interior da Montanha Ningjing. – respondeu o Mestre. – E é onde estão guardados os nossos segredos. – Por isso é que existem os Guardiões da Montanha Ningjing. – acrescentou Akira, que era o último da fila. – Então é verdade que sempre existe um tesouro no interior da Montanha? – perguntou Fuka, e o Mestre parou, e virou-se para ela. – Sim é verdade. – respondeu. – Mas não é isso que vos irei mostrar. – e continuou a caminhar. – Vá, vamos, estamos quase a chegar. Depois de caminharem mais um bocado, deram-se com uma enorme porta, semelhante à porta de ferro de antes, mas esta tinha o Deus Ziran esculpido. O Mestre Murakami tirou uma chave do bolso que tinha na manga, e abriu a porta, e no outro lado, só se viu escuridão. – Ó Grande Deus Ziran, mostra-me a tua luz. – disse o Mestre Murakami, erguendo o seu cajado no ar, e as luzes do lugar depois desta porta, acenderam-se, e a luz revelou que era uma sala. – Vamos. – continuou Murakami, enquanto a esfera do seu cajado se apagava, já não era necessária, pelo menos não naquela sala. – Onde estamos? – perguntou SeruPanda-Chan, olhando em redor, aquela sala, de chão de pedras retangulares, paredes de pedra, bem, na verdade era a própria pedra da gruta que tinha sido esculpida de forma a ficar plana como uma parede normal. Só o teto continuava como o de uma gruta, cheio de estalactites, mas no meio do teto, encontravase um grande lustre de madeira com velas, igualzinho ao da Sala de Treinos. Nos dois lados da porta, e a meio das outras três paredes daquela sala, estavam tochas, que ardiam. 74


– Estamos no Arquivo de Ningjing. – respondeu o Mestre. – Mas o Arquivo não era no piso superior do Templo Privado? – Sim, mas não é aí que guardo documentos importantes e artefactos mágicos. – explicou o Mestre Murakami, e começou a caminhar, e todos o seguiram. No meio da sala havia uma mesa grande de madeira, com algumas cadeiras em redor. Em cima, tinha um tinteiro e pincéis, e vários livros e papéis por ali espalhados. Encostados às paredes, e espalhados pela sala, encontravam-se vários armários com prateleiras, todos cheios de pergaminhos e livros. Havia alguns montes de pergaminhos e papéis, espalhados pela sala. Atrás da mesa, encontrava-se um armário de ferro, com uma fechadura enorme, era o único armário assim que estava ali. Por isso não foi de admirar que o olhar dos pandinhas se dirigisse para aquele armário-cofre. – O que vos quero mostrar, encontra-se mesmo ali dentro. – disse o Mestre Murakami, aproximando-se do armário-cofre, e tirando outra chave do bolso da manga. – Aquele bolso deve ser mágico para caberem tantas chaves. – pensou Fuka para si. – Aproximem-se. – pediu Murakami, depois de fazer um forte clic da abertura do cadeado. Os pandinhas deram uns passos, e ficaram encostados à mesa, Murakami estava no outro lado da mesa, de costas para eles, a vasculhar o armário-cofre, que tinha várias estantes, com caixas e outras coisas embrulhadas em panos brancos. – Aqui está. – disse Murakami por fim, sorrindo e começou a sacudir a mesa, empurrando os papéis e pergaminhos para um canto, alguns caíram no chão, para ter espaço no centro da mesa. Encostou o seu cajado a uma cadeira, e pegou com as duas mãos num baú de madeira, e pousou-a na mesa, e virou-a para SeruPanda-Chan. – Isso é o que quero te mostrar. SeruPanda-Chan aproximou-se mais, e ficou a olhar para o baú. Tinha uma forma retangular, era de madeira escura, e na tampa, mais ou menos a meio, tinha o símbolo de Ningjing, que era um círculo do Deus Ziran e no meio tinha a forma de uma montanha. Abaixo um papel branco colado que tinha os nomes escritos com tinta negra de Saierjiáo, Fannishã e o de Serujio Chan. SeruPanda-Chan passou as suas mãos de pelos brancos e pequenas garras no papel, sob um olhar triste. – O que tem lá dentro? – perguntou SeruPanda-Chan por fim. – Podes abrir e ver. – respondeu o Murakami. 75


Com as duas mãos, SeruPanda-Chan agarrou a tampa do baú. O tamanho do baú não era muito grande nem muito pequeno, era de tamanho médio. O coração de SeruPanda-Chan batia, e na sua imaginação surgiam todo o tipo de coisas que poderiam estar ali dentro. Por fim ele lá abriu a tampa, e a primeira coisa que saltou à vista, foi um lenço com riscas brancas e vermelhas. Por alguma razão, o olhar de SeruPanda-Chan logo ficou preso neste lenço, e ficou com o corpo imóvel. Começou a respirar mais rápido. Lá conseguiu mexer-se e pôr a mão no peito. Fechou os olhos, e como um relâmpago, veio-lhe uma memória. Uma memória dele em bebé, embrulhado naquele mesmo lenço. Inspirou fundo, aguentou uns segundos, e expirou, libertando o ar de forma audível, pois todos estavam em silêncio, a observar as suas reações. – Este lenço foi a tua mãe que fez para o teu pai. – começou a dizer Murakami, depois de observar com atenção SeruPanda-Chan, e ver que ele desejava saber tudo sobre aquele simples lenço. – E o teu pai usava-o sempre ao pescoço. Quando alguém lhe perguntava onde ele tinha comprado aquele lenço, ele respondia sempre com um sorriso e uma voz orgulhosa: "Eu não o comprei. Foi a minha amada esposa que o fez para mim". SeruPanda-Chan fechou os olhos, por alguns segundos, como se estivesse a pensar em algo. Depois abriu-os, esticou a mão, e tocou naquele lenço de tecido delicado, de riscas vermelhas e brancas. – Tive agora uma memória. – começou a dizer SeruPanda-Chan, numa voz pouco audível e melancólica. – Era bebé, e... e estava envolvido neste lenço. – Sim, depois de eu te salvar da casa em chamas, eu dei-te ao pai, e ele enrolou-te no lenço dele. Antes de morrer. SeruPanda-Chan fechou a mão, agarrando no lenço. Puxou-o. De baixo do lenço haviam cartas e pergaminhos. Fechou os olhos novamente, e encostou o lenço ao nariz, e inspirou. O cheiro daquele lenço, entranhou-se nas suas narinas. O cheiro a mofo e papel, devido aos anos que estava fechado dentro daquele baú, mas, também havia outros cheiros naquele lenço. Um cheiro que SeruPanda-Chan logo identificou como sendo o seu, e outros dois cheiros, que o transportaram para memórias de uma cena passada. Estava um belo dia de Sol, os passarinhos cantavam, as borboletas e outros insetos voadores, voavam de flor em flor. Pela brisa fresca e perfumada, devia ser Primavera. Em frente de uma casa de paredes amarelas claras e telhado vermelho, janelas de vidro transparente que refletia a luz solar, e uma porta de madeira como entrada e saída, uma ursa negra estava sentada numa cadeira.

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Apesar de estar com os olhos fechados, quando estas imagens surgiam na sua mente, reparou-se que mesmo assim ele franziu o olhar. O Mestre Murakami olhava atentamente para ele. A ursa negra estava vestida com um quimono rosado, preso por um cinturão roxo. Ela tinha uma grande barriga, parecia estar grávida. Ao seu lado, no chão estava uma espada ainda dentro da sua bainha. No colo, tinha uma caixinha de madeira com linhas e agulhas, ela cosia um lenço com riscas vermelhas e brancas, o mesmo que SeruPandaChan tinha encostado ao nariz, e quando sentia o seu cheiro, vinham-lhe estas memórias. De vez em quando, ela parava de coser, e passava a mão na barriga. SeruPanda-Chan sentiu um aperto no coração e uma sensação de paz e segurança. A ursa cantava uma canção infantil, que inconscientemente, SeruPanda-Chan começou a murmurar. Fuka pensou que SeruPanda-Chan queria dizer algo, e ia agarrá-lo no braço e perguntar, mas o Mestre Murakami fez um gesto com a mão, como sinal para ela parar, e com a outra mão, fechada, com o indicador esticado, encostou-a aos lábios, e num tom praticamente sem som, disse um: – Xiuuuuu. Fuka e Akira fizeram um gesto afirmativo com a cabeça, como sinal que tinham entendido. Em frente da casa, não muito longe, havia uma árvore, e à sombra da mesma árvore, um urso polar treinava com a sua espada. Tinha como vestuário umas simples calças vermelhas. – Saierjiáo, vem cá. – disse a ursa negra. – Estou a ir Fannishã. – respondeu Saierjiáo, parando os treinos, e indo a correr ter com a esposa. – Sentes-te bem? SeruPanda-Chan esboçou um sorriso. Eram os seus pais. – Tanta preocupação! Eu só estou grávida, não estou doente. – resmungou Fannishã. – Eu sei, eu sei. Desculpa. Mas estou tão contente e ansioso por ser pai que sempre que me chamas, penso que é o nosso bebé que está pronto para nascer. – Ainda não. – respondeu Fannishã, sorrindo e pondo a mão na barriga. – Mas está quase.

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Saierjiáo sorriu, e pôs a sua mão em cima da mão da esposa. A sensação de tranquilidade e proteção, aumentou em SeruPanda-Chan, ele próprio esboçou um sorriso, e sentiu os olhos húmidos de lágrimas, que ainda não estavam prontas para cair. – Toma, é para ti. – disse Fannishã, dando o lenço que acabara de coser, ao marido. – É muito bonito. – disse Saierjiáo, pegando-o com os dedos, agarrando o lenço nas pontas. – Porquê este cuidado todo? Agarra logo o lenço. E põe-o, quero ver como te fica. – Mas eu tenho as mãos sujas e estou todo transpirado, por causa dos treinos. Vou sujar o lenço todo. – Não faz mal, depois lavo-o. – Está bem. Saierjiáo esticou o lenço, e dobrou-o, fazendo um triângulo, e depois atou-o ao pescoço. – Então, como fica? – Ficaste lindo. – respondeu Fannishã, depois de uma pausa suspirante, com olhos abertos de encanto e um alegre sorriso. Saierjiáo sorriu, pegou na caixinha onde estavam as linhas e agulhas, e pousou-a no chão. Depois ajoelhou-se em frente da sua esposa, cuidadosamente desapertou o cinturão, e abriu o quimono, mostrando a barriga peluda de pelo negro e grande devido à gravidez. Saierjiáo pôs as duas mãos na barriga de Fannishã, e esta pôs as suas mãos em cima das dele. Ele fechou os olhos, aproximou-se, e beijou a barriga da esposa, que tinha no seu interior aquilo que tanto ele como Fannishã, consideravam o seu mundo, o ainda embrião SeruPanda-Chan. Aí, uma sensação de tristeza misturada com saudade, percorreu SeruPanda-Chan, e ele não conseguiu conter as lágrimas, que escorriam pela face de pelo branco. Olhou para o lenço, esticou-o. Dobrou-o ao meio, ficando com forma de um triângulo, e atou-o ao pescoço. – Oh! – exclamou o Mestre Murakami, com olhos arregalados e boca aberta em ó. – Que se passa Mestre? – perguntou Fuka. – SeruPanda-Chan? 78


Mas antes que SeruPanda-Chan pudesse dizer algo ou virar-se, sentiu umas mãos grandes a agarrar-lhe os ombros, e a virá-lo para trás. – Uau! – exclamou Akira, depois de virar SeruPanda-Chan para ele e Fuka. – Ficaste igualzinho ao teu pai. Bem... mais ou menos, ele era mais alto e todo branco. SeruPanda-Chan limpou as lágrimas e sorriu. – Ficaste lindo. – disse Fuka, depois de uma pausa suspirante, com olhos abertos de encanto e um alegre sorriso. SeruPanda-Chan não disse palavra, só ficou a olhar Fuka nos olhos. O que ela dissera agora e as reações que teve, foram iguaizinhas às da sua mãe, quando o seu pai pôs o lenço. Tal como a sua mãe era a melhor companheira do seu pai, também Fuka era a sua.

Maria Morgado

O sonho ousado Entardecia, e o Vicente ainda não estava em casa, o que motivava alguma preocupação na família, não pelo atraso deste, mais pelo facto da hora de dormir se aproximar. Numerosa, mas unida que era, a falta de um dos membros justificava não darem início à refeição. Todos estavam de acordo, seria impensável jantarem com a ausência de alguém sem aviso prévio, dispensado seria o motivo apresentar. Naquela noite de Inverno, chuviscava, dava para observarem através dos vidros da pequena janela da não ampla divisão da casa, a sala, onde se encontravam, pai e os quatro filhos mais velhos, sendo o Vicente o mais jovem dessa humilde família. Na vila piscatória situada a sul do país, o pai de profissão pescador e proprietário da embarcação exceptuando o domingo, todos os dias se fazia ao mar acompanhado pelos filhos, rapazes que eram, após a escolaridade obrigatória, o pensamento dos progenitores era: «filho de pescador deve ser pescador, trabalho certo, o mar é rico e, se houver sorte, fome não se passará.» Com a conversa acerca da demora do Vicente, pela primeira vez e, aproveitando a ausência deste, um dos irmãos, o primogénito, recordou ao pai que estava na altura do «garoto» assim se referia ao irmão pela grande diferença de idades que os separava, começar a ir ao mar, mesmo porque tinha concluído os estudos há algum tempo. Argumentava que o irmão estava inactivo e não seria benéfico permanecer por muito mais tempo nesta situação. O pai, condescendente, ia dizendo que haveria de falar em oportuno 79


momento, sem pressas, lembrando que os cinco se mantinham em boa forma na concretização de todas as tarefas inerentes à faina. Foi então que se ouviu a porta abrir, era o Vicente que chegava, sorridente, pediu desculpa pelo atraso e o pai, com algum cuidado para que o filho não se apercebesse que dele se falava, utilizou expressões mímicas para todos entenderem que esta conversa teria de ser adiada. Sem pedido de explicações por mais tarde chegar do que o habitual sentou-se o Vicente na sua cadeira, ficando apenas uma das sete vazia, a da mãe, que num vai e vem entre a cozinha e a sala se preocupava em ultimar a colocação do jantar na mesa. A vida de pescador não é fácil, rigor nos horários, grande força de braços, principalmente na retirada das redes que se querem repletas de peixe. Olhando o pequeno relógio na sala e ainda sentados à mesa, o Vicente com o sorriso que lhe era característico anunciou que também ele iria acompanhar pai e irmãos naquela que seria a próxima viagem ao mar. Mal podiam acreditar em tamanha revelação. Grandes abraços de todos, em manifesta satisfação. Afinal, já não seria necessária a intervenção do pai para motivar o mais novo filho a participar na faina de modo a contribuir com o seu trabalho para o sustento de todos. O Vicente iria ser pescador e estava a poucas horas de iniciar tal tarefa. Assim pensavam três dos quatro irmãos, não tanto o mais velho, esse com azedume no rosto pensava que algo não estaria bem e aguardava pelo dia seguinte suspeitando de uma outra surpresa menos do agrado familiar. Os pais recolheram ao seu quarto claramente satisfeitos. No entanto, a mãe conhecia o filho quase tão bem como a si própria e em conversa com o marido interveio explicando que a atitude do Vicente poderia não ter implícito o facto dele querer dar continuidade à profissão que já vinha dos antepassados paternos. Pensavam, repensavam fazendo uma retrospectiva da personalidade do filho e da sua vida enquanto estudante. Atenta, a mãe para com todos os filhos sabia o que os diferenciava, e era no interesse em aprender que o Vicente se manifestava em superioridade em relação aos mais velhos, ia para a escola sem nunca mostrar descontentamento ao invés dos irmãos que dificilmente encontravam algum interesse expressando-o de viva voz. Estava na hora de levantar, as expectativas da revelação do Vicente eram grandes. Todos a bordo, naquele dia contava-se mais um, lá iam eles a caminho do local no mar onde supostamente seria a área onde mais peixe se concentrava. Ancoraram o barco, rapidamente lançaram as redes ao mar pedindo ao Divino sorte para que se enchessem. Após esta tarefa podiam descansar um pouco, assim cada um tomou um pequeno espaço na embarcação e cobrindo-se com um agasalho acabaram por dormitar, à excepção do Vicente. Este tinha consigo um pequeno caderno e uma caneta, tirou-os da pasta que habitualmente o acompanhava. Com alguma discrição ia escrevendo algo que não se sentindo à vontade, receoso de que alguém o questionasse, não estava certo de que conseguiria concretizar o que se propusera efectuar. O tempo ia passando e o cansaço tomou-o, adormecendo. Pai e irmãos levantaramse e, antes de se dirigirem para o local do barco para verificarem se as redes já estavam como convinha, cheias, tentaram acordar o Vicente, principiante nestas lides para então 80


sim, participar naquela que seria a mais dura tarefa como pescador. Não tendo conseguido alcançar o objectivo, seguiram apenas os cinco. Ficaram manifestamente satisfeitos porquanto a retirada das redes deixou o barco repleto de peixe. «Poder-se-ia dizer que tinha sido uma grande pescaria.» Estranho, estava o Vicente, parecia delirar, balbuciando palavras soltas tentando, sem êxito, construir frases. Estaria doente, com febre alta ou a sonhar, interrogavam-se mutuamente. Com toda esta agitação o rapaz acordou sem saber porque o olhavam daquela forma, preocupados. Para bem de todos e não contrastar com a alegria pelo pescado conseguido, o rapaz sonhava. Abriu-se um enorme sorriso, contagiante que o poupou de algumas críticas por não ter participado na recolha das redes. A surpresa estava reservada para a chegada a casa. Aí, na presença de toda a família iria revelar tudo sobre o que tinha acontecido, o porquê de ter acontecido e o que iria mudar na sua vida a partir daquele dia. Certo estava que não teria tarefa fácil ao revelar que não seria a pesca que iria fazer dele um homem feliz. Ainda podia aproveitar para preparar o «discurso» enquanto o pai e os quatro irmãos seguiam com o peixe para a lota afim de ser comercializado. Chegados finalmente a casa e, após se instalarem confortavelmente, curiosos, todos se atropelavam em perguntas que fervilhavam em suas mentes querendo satisfazer a curiosidade acerca da falsa intenção do Vicente colaborar concretamente em tudo o que faria dele um pescador. Com a calma que lhe era peculiar, o rapaz pediu silêncio e iniciou a intervenção indicando o motivo inerente aos factos que o levaram a tomar uma decisão para a qual não existiriam argumentos que o fizessem renunciar a tal pretensão, deixando-os a todos sem qualquer hipótese em objectar. Tudo estava bem claro na sua cabeça depois daquele «sonho revelador». Há muito que aprofundava os conhecimentos em poesia através dos livros que lia pausadamente, sem pressa, tinha de compreender a até assimilar tudo o que os autores transmitiam. Tornara-se um frequentador assíduo da biblioteca da vila, o Vicente aspirava a ser escritor da arte que ele considerava a mais bela: «Poesia». Passou então, a descrever a maravilhosa visão enquanto sonhava: «O céu tornarase num enorme ecrã iluminado por inúmeros focos de luz provenientes do horizonte.» Era deslumbrante ver os poemas que alguém fazia passar de ilustres autores que o Vicente lia com uma avidez sem precedentes e o pensamento entranhou-se. «Ler, mais e mais, escrever, escrever sempre.» O mar seria a sua fonte de inspiração, observando-o de terra ou de quando em vez na embarcação familiar. Talvez um dia, pais e irmãos se orgulhassem dele. Quando alguém tem um sonho deve persegui-lo com toda a sua energia de modo a poder torná-lo realidade.» Possivelmente teria um longo caminho a percorrer para se afirmar como poeta, porém, se não tentasse nunca saberia se tinha valido a pena.

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1)

A Energia do Abraรงo

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2)

Alimento para o Corpo, Alimento para o espĂ­rito

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3)

Coração Dividido

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1)

A Energia do Abraço

Óleo sobre tela Pensando em afectos, para mim, o abraço parece ser o mais forte. Quis, por isso, imprimir algo que pudesse identificar o quanto um abraço pode desencadear energia positiva a quem necessita de um estímulo para continuar lutando em momentos menos bons da sua vida. Vejo uma força representada por um barco que resiste ao vento em cima do cruzamento dos braços (abraço) contrastando com a passividade dos elementos laterais caídos, no espaço inferior da tela.

2)

Alimento para o Corpo, Alimento para o Espírito

Óleo sobre tela O instrumento musical chama a atenção por estar rodeado de elementos que representam searas de trigo ou centeio e de milho (a parte inferior do trabalho) que são considerados os alimentos principais do Homem. O espaço pintado de cor azul e roxo foi considerado, por mim, aquilo que completa o ser humano: Espírito. Também este, necessita de ser alimentado, neste caso específico pela música. Todas as artes têm um papel preponderante na felicidade de todos nós.

3)

Coração Dividido

Óleo sobre tela Com este trabalho pretendo homenagear os emigrantes dos anos 60/70 do século XX, em particular, pois defino-os: Aventureiros e Guerreiros. A guitarra portuguesa expressa a saudade que sentem pelo país de origem que nunca foi esquecido. Assim o sinto e o procuro demonstrar na tela. Paralelamente, aos poucos foi crescendo um sentimento pelo país de acolhimento e, as viagens de ida e volta sucedem-se com frequência, demonstradas no movimento que caracteriza este quadro.

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Poemas do Rio – Francisco Capelo

A infância

A infância é vento que sopra a nuvem da saudade (e ser criança não é ser gente, é ser verdade) A infância canta a um Deus desconhecido (feliz por existir, e nunca ter vivido)

Quem sou eu, criança ou adulto? Adulto ainda não, pois não sou culto E já não há esperança de voltar a ser criança

Quem em mim viveu, que não sou eu? Quem por mim viajou pelos sonhos do que não sou? As ruínas do pensamento são o passado onde habito Porque só uma criança sabe sonhar o infinito.

A verdade da América

O Mal é sempre dos outros. O Bem, esse, é de uns poucos O Mal habita a gente que se julga gente E o Bem só ganha vida após uma Morte bem sofrida 86


“- Com o Mal dos outros posso eu bem!” Mas o Bem é pouco e está já bastante louco… “- Quiseste-me Mal, agora é Bem feita! É com o Bem que a paz agora se deita!”

O Mal não é Bem o Mal, mas isso é normal E o Bem é o contrário do Mal, está Bem de ver Mas o Mal, antes de viver, nasceu no Bem E o Bem consentiu tal nascer

Agora, num agora em que tudo acaba (Mal) O Bem é meu ser, apesar de agora ele ser apenas…

O Mal.

A vida de quem sou, a vida que me és

Dizem-me que és a coisa mais importante da minha vida Dizem-me que és muito bela, em teu interior Dizem-me tudo isso, para que eu sinta a tua vida esquecida... Na vida da vida da vida de meu amor

Sinto-te tão bela e tão pura... Que penso em vidas de outras vidas Sinto-me tão pleno da tua loucura... Que já tornei essas vidas esquecidas

E vivo para sempre quem és, sendo quem ama o que sou... Que essa vida é a minha vida, que te ama aqui onde estou.

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Apenas

Apenas sinto a vida em pensamento (“- Pobrezinho! É novo, dá-lhe Tempo!”) Apenas recordo a infância que não foi minha (“- Ai, credo! Que pessimista, a vizinha!”) Apenas respiro por uma alma de loucura sem gente (“- Ahah! Farsante! Demente!”) E apenas em mim habito porque não existe verdadeira Morte (“- Julgas o infinito sorte?”)

Que fazer? (Só me resta viver sem pensar em ser) Que sonhar? (Breve criança, rosto, montanha e recordar) Que sentir? (Para isso já me basta existir)

Não sou, eu não, jamais… A mim me dou (em palavras imortais).

Dizem que

Dizem que sou Que sou...! Que sou o ser que é quem? Quem é o que sou

Mas se sou mim, eu, serei alguém?

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Sendo rosto de gente, que faz frente ao próprio Tempo, sonhado, acordado, para sempre amado no presente?

Sou quem sou, dizem-me E no entanto não o sou

Não sou alguém, logo, sou ninguém Mas, sendo o que sou, também não sou ninguém Enfim, estou no meio- termo, sou meio enfermo, e estafermo, no centro do mundo das palavras, que me levam ao ser profundo de uma vida que me escapa, à socapa, dentro do Tempo

Estar cansado da Morte é, então, o que sou E sou o que sou onde? Onde estou Vou-me estando sendo, vou-me vivendo, para não estranhar o viver nem o respirar

E a vida, essa, passa descansada a meu lado

Para me impedir de gritar:

“- ALTO! Não fui amado!”

Este Povo

Este Povo tem a alma em flor (tudo mentira; é tudo dor)

E em teu ventre ouve o Tempo passar (um breve (e) terno olhar)

Colhendo o fruto de meu ser pensa ele conhecer o espírito do esteta 89


(Ah...pobre e triste Poeta)

Até que seu destino canta sem respirar a lua (“- Tu és minha, eu sou tua!”)

Canção longa, em ti (apenas) lembrada Que não és nobre por sonhares ser amada E tua irmã loucura deixas, esmagada Pela cidade, que a meu lado é fada

Sopro poético por dentro de mim viver (de tudo sentir e de tudo ser)

Mas não te recordas nesse mágico rio E por ti nasço de novo em mundo de si próprio vazio

Assim...

De meu ser me canso. No meio deste reles.,

Povo manso.

Eu e meu irmão

Eu sou eu (ou talvez não...) Meu irmão é meu irmão (em comunhão) Mas., neste mundo cão... Ele e eu somos um só (, de emoção.)

Atravessei todo o Tempo na palma de sua mão 90


Através da Morte o vi, para além da Solidão E um outro passado sonhei, ao lembrar-me de seu coração Que tudo fosse: Vida, Morte, Sonho, Tempo...

E meu irmão.

Existir, apenas

Minto-me com o pouco que sou Sou o espelho de mim, simplesmente Aqui onde sinto que estou... Fingindo ser apenas gente

Querem que o seja Querem que o diga, para sempre Vivendo como quem nada deseja... Ao me viver estando ausente

De quem é este mar? De quem, este Tempo? Existo apenas quando me deixam sonhar... Onde não exista água nem pensamento

Deixa-me existir Deixa-me deixar de sentir Deixa-me ser o que estou a mentir... Para ser, finalmente...

O que nunca foi gente O ser que não chegou a existir.

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Inexistência do Ser

Esta inexistência do ser Que se torna ser Ao ser olhado...

É uma inexistência afinal Do ser sonhado Que é amado.

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Na actual fase da minha pintura utilizo cores primárias em tela: azulão ao estilo de Yves Klein, vermelho vivo ou terra siena queimada, amarelo vivo, branco e negro, e também aguada sobre o acrílico, que costuma ser em lata de pintar casas. Utilizo trinchas, espátulas, cordas, palmilhas e sapatos, tecidos, madeiras e vários objectos. Muitas vezes não é uma pintura bonita, mas é sempre uma pintura essencial. A influência da herança antropológica e religiosa do xamanismo e de Antoni Tàpies, o meu mestre, está sempre presente.

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A confusão mental - expressa nas artes visuais - tal como dizia Salvador Dalí, é essencial para despoletar a criatividade. Tudo aquilo que parece estranho e sem sentido está na base do Dadaísmo, movimento artístico crucial que inspirou o aparecimento do surrealismo e que também influenciou a arte bruta de Jean Dubuffet, que revalorizou a arte das crianças e dos loucos. Como dizia Picasso: "Eu não procuro - eu encontro".

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"LuxusStudio Photography" by Bruno Cerqueira

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Modelo: Lara Onofre

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