Título: Allegorya Editor: Luís Amorim Edição: LuísAmorimEditions Apartado 5 2781-901 Oeiras PORTUGAL Internet: http://luisamorimeditions.shopmania.biz/ Email: luisamorimeditions@gmail.com Data da Edição: Julho 2017 Imagem da Capa: Livro “27 Flores” Todos os direitos reservados segundo a legislação em vigor. Proibida a reprodução, no todo ou em parte, por qualquer meio, sem autorização da Editora. Impressão: Lulu Enterprises, Inc. ISBN: 978-1-387-09723-4
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EDITORIAL Allegorya, a nova revista de literatura e arte tem agora a sua primeira edição em 2017. Pretende divulgar novos autores nas mais diversas linguagens artísticas, começando pela revista número 1, a qual é totalmente preenchida com autores já publicados na editora LuísAmorimEditions. Nos próximos números, serão apresentados mais livros editados, com a introdução de inéditos, com os quais se pretende que em diante ocupem a totalidade da revista, antecipando pontualmente as futuras publicações da editora. Luís Amorim
“A Batalha” – Paulo Rondo de Melo; Capa de João Filipe 3
Ilustrações de Ana Mafalda Damião para o livro “Sete Lendas do Sol e da Lua / Las Siete Leyendas del Sol y de la Luna” (capa) e “Ianaã”, baseada numa Lenda da Amazónia 4
Do mesmo livro, Ana Mafalda Damião com ilustrações para “Lenda da Flor do Sol”, baseada num mito do País Basco, Espanha e “Lenda do Tamborzinho", baseada numa Lenda da Guiné-Bissau 5
“Contos de Rainha” – Carina Anjo
“Eu, meu pai e meus outros amores” – Lilian Reis 6
Ilustrações de Paulo Pinto para “Almas” de Luís Amorim (capa e conto “Poemas”) 7
Ilustrações de Liliana Maia para “Fantasias” de Luís Amorim 8
“(Des)Encontro (In)Esperado” – Olga Resi
“Infiel” – Olga Resi 9
“A Vida é como um Livro” – Sérgio Brázio
Ilustração de Heloisa Yumi Matura para a capa de “A Noite Fantástica da Ritinha” de Sérgio Brázio 10
“A Doce Vingança” – Sérgio Brázio; Desenho da fada na capa por Gleice Carla
“As Fadas” – Sérgio Brázio; Ilustrações da capa por Daiane Torres 11
“Os Escolhidos” – Sofia Lory
“Segredo do Poder” – Herbert Porto / Roberto Alves 12
Índice de AUTORES e LIVROS 15 Ana Mafalda Damião “Sete Lendas do Sol e da Lua / Las Siete Leyendas del Sol e de la Luna” 17 Carina Anjo “Contos de Rainha” 19 Lilian Reis “Eu, meu pai e meus outros amores” 22 Luís Amorim “Almas” “Fantasias” “27 Flores” 39 Olga Resi “(Des)Encontro (In)Esperado “Infiel” 60 Paulo Rondo de Melo “A Batalha” 67 Sérgio Brázio “A Vida é como um Livro” “A Noite Fantástica da Ritinha” “A Doce Vingança” “As Fadas” 104 Sofia Lory “Os Escolhidos” 110 Herbert Porto / Roberto Alves “Segredo do Poder”
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Ilustração de “Um livro muito especial” do livro “Fantasias” por Liliana Maia
“Os vampiros” do livro “Fantasias” ilustrado por Liliana Maia 14
Sete Lendas do Sol e da Lua / Las Siete Leyendas del Sol y de la Luna – Ana Mafalda Damião Lenda do Girassol Baseada numa Lenda da Amazónia Era uma vez uma Estrelinha que estava tão apaixonada pelo Sol que era sempre a primeira a aparecer no céu, antes que ele partisse. E enquanto o via desaparecer ficava quietinha a olhar para ele. Logo que deixava de o ver, o seu coração ficava tão apertadinho que ela começava a chorar. E as suas lágrimas transformavam-se em chuva que caía na Terra. A Lua falava com ela todas as noites e dizia-lhe: - “Estrelinha, esquece esse amor. A tua função é brilhar no céu, iluminar as noites. De tanto chorares já nem brilho tens. Esse amor vai-te consumir”. Mas a Estrelinha não se conformava. Para ela a vida era amar cada raio de sol e sentir o seu calor. Estar longe dele doía-lhe muito. Um dia, resolveu pedir ajuda ao Rei do Vento, que a escutou com ternura. - Rei do Vento ajuda-me para que eu possa estar sempre a ver o Sol. Ele é a luz que ilumina a minha vida. O Rei do Vento sentiu imensa compaixão pela Estrelinha e respondeu-lhe: - Esse amor é impossível Estrelinha, a não ser que abandones o céu, deixes de ser Estrela e vás morar para a Terra. - E como faço, e como faço? – perguntou a Estrelinha animada.
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- Transforma-te numa estrela cadente e deixa-te cair sobre a Terra – disse-lhe o Rei do Vento. A Estrelinha assim fez. Numa noite escura, o seu rasto iluminou o céu e ela caiu na Terra em forma de semente. O Rei do Vento, com muito cuidado, apanhou a sementinha, procurou uma terra macia, semeou-a e lançou sobre ela a chuva, de mansinho. Meses depois a sementinha cresceu, cresceu para ficar mais perto do Sol e foi girando devagarinho, acompanhando o seu movimento. E ainda hoje, a Estrelinha cobre os campos de dourado quando abre as suas pétalas para olhar o Sol.
Leyenda del Girasol Basada en una Leyenda Amazónica Tradução: Marlene Vinhas Era una vez una Estrellita que estaba tan enamorada del Sol que era siempre la primera en aparecer en el cielo, antes que él partiera. Mientras lo veía desaparecer, se quedaba muy tranquila mirándolo. Apenas dejaba de verlo, su corazón se ponía tan agobiado que empezaba a llorar. Sus lágrimas se transformaban en lluvia que caía en la Tierra. La Luna todas las noches hablaba con ella y le decía: “Estrellita, olvida ese amor. Tu misión es brillar en el cielo, iluminar las noches. De tanto que lloras, ya no tienes brillo. Ese amor te consumirá”. Pero la Estrellita no se conformó. Para ella la vida era amar cada rayo del sol y sentir su calor. Alejarse de él le dolía mucho. Un día, resolvió pedir ayuda al Rey del Viento, que la escuchó con cariño. - Rey del Viento ayúdame para que yo pueda estar siempre mirando el Sol. Él es la luz que ilumina mi vida. El Rey del Viento sintió una enorme compasión por la Estrellita y le respondió: - Ese amor es imposible Estrellita, a no ser que abandones o dejes para siempre el cielo, dejes de ser estrella y te vayas a vivir a la Tierra. - ¿Y cómo lo hago? ¿Y cómo lo hago? – preguntó la Estrellita muy animada.
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- Te conviertes en una estrella fugaz y te dejas caer sobre la Tierra – le dijo el Rey del Viento. La Estrellita así lo hizo. En una noche oscura, su rastro iluminó el cielo y ella cayó en la Tierra, en forma de una semilla. El Rey del Viento, con mucho cuidado, cogió la semilla, buscó tierra blanda, la sembró y lanzó sobre ella la lluvia, con suavidad. Meses después la semilla fue creciendo, creciendo para quedarse más cerca del Sol y fue rodando despacito, para acompañar su movimiento. Y hoy la Estrellita continúa cubriendo los campos de un lindo color dorado cuando sus pétalas se abren para mirar el Sol.
Contos de Rainha – Carina Anjo HOMENS DO MAR – VIDAS PERDIDAS
Um dia novo nasceu e o céu estava tão azul e límpido que os olhos doíam só de olhar para cima. As encostas verdejantes e íngremes escondiam um lago de água fria na sua abertura. Aproveitando o bom tempo e o sol alto, homens, mulheres e crianças moviam-se rapidamente pelos campos a cuidar das plantações. São famílias inteiras a cuidar do que mais tarde se torna o seu sustento. Estes são os homens e famílias ‘da terra’. Todavia, ainda havia a presença dos outros, aqueles de que ninguém se lembra, os que pertencem ‘ao mar’. Eles pertencem-lhe pois é lá que passam as suas vidas, ora em pequenas embarcações ora em gigantescos navios, trabalhando com redes enormes, lançando e recolhendo a âncora em cada destino onde se
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(des)prendem, desenhando um mapa que eles próprios traçam, em viagens onde ninguém pensa em tragédia nem naufrágio, pois quem não vive, não teme morrer. Nesta viagem de ‘piratas’, onde o maior tesouro é chegar a terra com vida, o que não se esquece nem deixa esquecer são os filhos deixados em terra, ou em cada terra. Esses não aparecem na luneta, mas surgem em cada pensamento, a todo o momento. Em terra, as mulheres ensinam os seus filhos a fazer ânforas para transportar a água do poço. Era preciso transportar mais água, pois os homens vêm do mar e necessitam de água em abundância. É necessária mais água para confeccionar mais alimentos, para tomar banho, lavar as roupas. Muito trabalho espera as mulheres em terra. Elas entoam cantos e ladainhas em voz de sereia, enquanto preparam, ansiosamente, a chegada dos seus maridos. E eles, no mar, mais rápidos que relâmpagos, para que nada impossibilite a sua chegada a terra em salvamento. Ao anoitecer, lá estavam as suas esposas e os seus filhos esperando os maridos e pais, conversavam entre elas e rezavam para que nada de mal lhes acontecesse. Alturas havia em que, no meio do nevoeiro, quase parecia que a figura de uma embarcação se delineava no horizonte sobre o mar, já negro e sem encanto… mas não! Horas passaram e nada acontecia. As senhoras já não conversavam nem rezavam, já nem se moviam e estavam de olhos fixos naquele mar que, em maré baixa ou alta, os seus maridos não devolvia. No olhar dos filhos mais crescidos algumas lágrimas havia. Os mais novos, alheios a tudo o que se passava, pressentiam que más notícias eram de esperar. Muitas horas passaram entretanto e, já geladas e sem esperança, as mulheres choravam na companhia dos seus filhos que, em breve, teriam de enveredar pelo mesmo caminho, a mesma sorte. Era o destino dos homens do mar. O que lhes terá acontecido? Será que um dia voltarão? Nunca ninguém saberá e esta gente também não!… Ao amanhecer, o filho mais velho do pai-Adamastor dirigiu-se à praia. Ele sabia, no fundo, que não poderia ter esperança, mas tinha! Quando lá chegou, não encontrou o que procurava, mas ficou estupefacto: A areia da praia estava coberta de conchas e estrelas-do-mar; a maré, baixa, e o mar, estático; Uma brisa calma de luto passava na praia. Ao longe, reparou no fumo inabitual a voar lentamente sobre a linha do horizonte e, por momentos, pensou que pudesse ser o seu pai, de volta a casa. Mas não passou de um pensamento, uma miragem. O rapaz deixou rolar uma lágrima que caiu sobre a areia e se transformou numa espécie de cristal, em forma de coral. Um caranguejo, tímido e triste, vagueava pelo areal, desenhando na areia molhada o seu percurso intemporal. O primeiro ser entre muitos que povoavam aquele cenário de tristeza e morte. Os olhos lacrimejantes do rapaz espelhavam a figura de um polvo, depois uma raiamanta e um peixe, que lançou o último suspiro quando uma onda mais forte o lançou na areia. Sentado na areia fria e com as mãos nos bolsos, o filho do pai-Adamastor sentiu o seu pequeno porta-chaves com um astrolábio, que o pai lhe havia oferecido num dos seus 18
regressos. Aquela lembrança parecia-lhe a última e nela viu toda a sua vida num pequeno filme corrido na mente. Nele realçava a figura heroica do pai, vitorioso a cada chegada, sorrindo, abraçando, muitas vezes chorando. De repente, levantou-se. Num gesto rápido e decidido tirou a roupa e ficou em calções, desapercebido do frio e da realidade. Lançou um olhar ao mar e praguejou contra ele. Num grito ouvido a muitos metros dali. Desafiou-o em palavras duras e com gestos ofensivos com o corpo. Então, estacou. Depois, numa correria desenfreada, atirou-se ao mar violentamente, como se todo o seu corpo fosse um punho cerrado atingindo o mar com um soco. Deixou-se ficar debaixo de água debatendo-se e gritando em desespero. Ao longe, um cavalo-marinho seguia, distraído e em movimentos ritmados. No meio das rochas, debaixo dos seus pés, uma barracuda ameaçava impor-se à sua presença. A tristeza e a violência aliaram-se e o rapaz-Adamastor unia-se ao seu maior inimigo, aquele que lhe roubara o pai. Do lado de fora, uma tempestade adensava-se. O dia tinha ficado como noite. As nuvens ameaçavam uma tromba marinha que a História haveria de registar. Numa tentativa pouco sentida, o rapaz decidiu voltar a terra. O mar, em movimentos ruidosos e maléficos, abraçou-o e envolveu-o, retirando-lhe as forças. Rendeu-se. Afogou-se. O seu olhar perdeu-se na escuridão do oceano, vislumbrando num último momento, o rosto do pai-Adamastor no brilho de uma medusa.
Eu, meu pai e meus outros amores – Lilian Reis Prólogo Meu pesadelo começou quando perdi minha mãe... Eu era filha única, minha mãe tinha se divorciado do meu pai havia alguns anos. Como os dois se odiavam, por consequência passei a sentir um pouco de raiva dele, acho que por influência dela, por ouvi-la falar mal dele o tempo todo. O divórcio aconteceu algum tempo depois da separação, que fora conturbada. Minha mãe ficara com praticamente todos os bens que possuíam na cidade e ele com a fazenda, que era sua verdadeira paixão. Na época da separação estava com cinco anos e, dessa fase, não tenho boas recordações. Lembrava-me de escutar todas as brigas do casal e algumas até presenciara. Foram 19
horríveis. Eles sempre se descontrolavam e eu escutava alguns sons que pareciam luta. Ouvia alguns objetos sendo arremessados e gritos. Tapava os ouvidos e ficava encolhida em minha cama temendo que um dia algo de ruim pudesse acontecer comigo. Entretanto, quando tudo acontecia, ele vinha até mim, me abraçava e beijava chorando e dizendo baixinho: “Shhhh, não precisa ter medo, o papai está aqui! A mamãe só estava um pouco nervosa!”. Nesses dias, ele ficava em minha cama até o amanhecer. Ficávamos abraçadinhos. Meu pai, meu herói! Lembro-me de quando tinha pesadelos. Acordava gritando e ele sempre me acudia, me abraçava e embalava. Bernardo realmente fora carinhoso comigo, acho que por isso era tão revoltada com ele, por ter crescido sem sua presença. O tempo passou e cresci acreditando que meu pai fosse indecifrável. Não entendia sua falta de paciência com a mamãe, entretanto ele tinha um cuidado exacerbado com nosso bem-estar. Fui criada por minha mãe num ambiente gostoso e tranquilo. Acreditava que minha vida era, por assim dizer, perfeita. Contudo, aquela figura de pai decerto sentia que faltava. E era por isso que às vezes me pegava sentindo raiva dele, desejando que nunca mais aparecesse...
Capítulo 1 Estava agora com dezassete anos, iniciando o ano letivo cursando o terceiro ano do Ensino Médio. Mamãe casou-se novamente, assim como ele, anos atrás. Meu pai sempre me ligava. Nossa relação era estranha. Chamava-o de Bernardo, acho que por pura rebeldia e porque era um tanto marreta e inflexível. Tinha um temperamento forte, era geniosa, às vezes só aprendia depois de ficar batendo a cabeça, ou seja, a famosa cabeça-dura. Entretanto, o respeitava. Era meio ácida e sentia vontade de maltratá-lo em alguns momentos, mas depois me arrependia. Sentia sua falta! 20
Ele não fora um bom marido para minha mãe, embora ela também tivesse sido intolerante e ciumenta. Notava, era um tanto implicante e, quando os dois brigavam, era sempre Dona Laura quem começava. Acho que no fundo puxei a ela, sabe? Essa coisa de gênio! Contudo, como pai, Bernardo sempre tentava aproximação, ainda que através do fio do telefone. Nunca me faltara nada material, apenas seu carinho e sua presença. No fundo, o queria e queria desesperadamente. Sentia ciúmes de minhas amigas que praticamente andavam com o pai a tiracolo, todavia ele me deixou uma imagem de abandono por sua ausência. Ainda assim, queria que tivesse sido diferente. Amava meu pai, mas não admitia nem para mim mesma. Sempre que batia saudade dele, chorava no silêncio do meu quarto e, por isso, quando ele aparecia ou telefonava, o tratava com frieza. Achava que era uma boa maneira de puni-lo. Alguns fatos da vida de meu pai eu descobri quando passara férias na fazenda. Foram as férias mais estranhas, chatas e entediantes da minha vida, embora ainda fosse pequena e não compreendesse muita coisa. Não passei muitas férias, foram duas, acho. Ele sempre queria agradar-me, mas, caraças, como ele poderia? Nem me sentia bem quando estava lá! Estar lá mexia até com o meu estado psicológico. Ele tentava, mas eu meio que o afastava. Queria distância dele. Nem eu mesma me entendia. Em um desses dias em que estive na fazenda, estava sentada num tronco. Tinha em minhas mãos um galho. Caramba, acho que tinha uns nove anos! Olhava para o chão fazendo rabiscos. Estava aborrecida e sentia falta de casa, por isso chorava em silêncio. Do nada, uma cobra quase me picou, acho que ela se julgou importunada. Vi que ela se enrolou por inteiro mantendo erguida em forma de “S”. Então, levantou a cauda e começou a vibrá-la rápida e vigorosamente, emitindo um som aterrorizante que pôde ser ouvido por outros que apareceram imediatamente, também em razão do escândalo que fizera. Gritara tanto que fiquei sem voz. Essas mais ou menos vinte pessoas ficaram estáticas. – Não se mexa! – gritaram alguns, amedrontados pelo barulho irritante do chocalho. Entretanto, caí para trás do tronco, com o coração saindo pela boca. Fiquei tão azul quanto os Smurfs. Um garoto, que devia ser um pouco mais velho, uns dois ou três anos pelo menos, estava perto, tão perto que pegou a cobra com as próprias mãos, ali, perto da cabeça. Sua agilidade, rapidez e reflexo deixaram todos boquiabertos. Uma coisa inexplicável. Ele destroçou o animal, que nem era tão grande, e o jogou para longe. Esse episódio nunca saiu da minha cabeça, por isso nunca mais quis voltar lá. Usei isso como desculpa por todos esses anos. Bernardo maltratou minha mãe ou ambos se maltrataram. Não vou eximi-la de culpa. Quando ouvia as discussões, ela dizia coisas horríveis. O interessante é que observei que ele tratava “a outra” com delicadeza, com educação! Ela parecia ter domínio sobre 21
Bernardo, e ele parecia amá-la verdadeiramente. Parecia que sua esposa atual era sua alma gêmea. Passei a entender que suas idas e vindas à fazenda eram o motivo pelo qual aconteciam todas as brigas entre meu pai e minha mãe. Descobri, então, que Bernardo conhecera Isolda e tivera um relacionamento com ela antes mesmo do divórcio. Isso tudo havia acontecido porque minha mãe não suportava a vida na fazenda e nunca ia até lá. Meu pai, então, solitário naquele fim de mundo, acabou descobrindo o amor verdadeiro. Uma mulher que o acompanhava em todas as situações e que passou com ele todas as dificuldades. Os dois se identificavam. Bernardo tinha de passar muitos dias fora por causa dos negócios e dos animais. Assim que ele conheceu Isolda, seu casamento com minha mãe naufragou em águas profundas. Mas e eu? Porque ele não pensou em mim?!
Almas – Luís Amorim Poemas Entrou na biblioteca local E procurou sua poesia Alguma dela, ali havia Para seu agrado geral. Viu “A caridade” E pegou no “Avarento”. “O dinheiro” é uma preciosidade E “O amigo velho” tem muita verdade “Primeiro amor” tem sempre assento Tal como “Mãe e filho” seu momento Que é sempre a contento Dos dois, em bela realidade. Quando relembra “Escreve!” Apetece-lhe dizer “Não!” “O sol do meu dia” não tem neve Que possa ser desilusão 22
Para quem gosta dele ameno Mesmo em altura de temporal Onde qualquer aceno A ser bem real Em desabrigo casual Pode resultar em constipação Que implique visita a hospital. O melhor é usar de continuação Na procura de mais tesouro Que ainda esteja intacto Com o passar de tanto facto Pela literatura mundial: “Adeus tranças cor de ouro” E, ainda, “A um retrato” Toda a gente quer “Paixão” Para dizer “Amo-te muito, muito!” “Amor místico” em construção? Talvez haja um “Anseio” fortuito Com “Cantigas” em dedicação Para mais tarde existir “Dúvida”. Quando se pensa em “Amores, amores” Há que saber dizer “Perdão” Quando tal seja necessário E sem quaisquer rancores A visitar o próprio imaginário Que ali pode ter seu horário. Mais um de global desejo Chama-se simplesmente “Beijo” E pode encontrar-se em “Noite de amores” Que tem tantos calores. O “Amor” é muito falado E faz sempre algum estrago. “Não sei o que há de vago” Também traz “Saudade” Mas o amor sempre se assome Na literatura, com tal importância. A recapitulação tem continuidade Pelos livros com “O seu nome” “N’um album” dá mais ânimo Para enfrentar “Desânimo”. Depois deste, há mais atenção Quando sente a “Atracção” Toda ela tem sua justificação E para “11 de Maio” também há explicação 23
Como em tudo na vida. O essencial é que exista “Simpatia” Recebendo sempre uma bela melodia Sem que apareça “Melancolia.” Caso esta seja recebida É melhor dizer “Adeus”. Alguém pode gritar “Espera!” Antes que haja salto para outra esfera Com a protecção de Deus A estar “Sempre!” ali presente Na real mente. Mais um poema, “Enlevo”. Foi uma carreira de relevo Sem qualquer “Lamento”. Hoje, existe notoriedade Para com seu talento E o seu lugar actual É naturalmente visitável Num Panteão admirável E, na cidade, sem outro igual. O último poema a sentir Em seu longo recordar É “Sede de amor” Afinal de contas, o que cada mortal Procura com algum humor Certamente, com muito vigor Em encontrar sua adorada flor Para viver história de amor Ou se for dama, à procura de senhor Um nobre cavaleiro Que seja um distinto cavalheiro. (91 versos)
Fantasias – Luís Amorim A gaveta Para dentro dela Como única cela Tudo era lá colocado Para estar desarrumado 24
No seu largo interior Sem nexo nem rigor. Até que um dia chegou E ela vedou Sua entrada Para nada mais dar entrada. Bem se tentou Por diversos meios Aceder ao seu espaço Mas nenhum se mirou Como eficiente alternativa Com aplicação positiva E com os adequados meios Para abrir a gaveta De cor preta Com um enfeite Em forma de vaso Por cima de si Onde mais papel se deite Desde que caiba ali Pois para dentro dela Parece urgente uma querela Como necessária exigência Para que a gaveta Se deixe de treta Ou o que lhe vai na alma Como desgostosa reticência Em receber mais papel Na sua aconchegante calma Ou mais tinta e pincel Que já não cabem Onde eles bem sabem. Daí o recurso À gaveta, onde até um urso De peluche lá está Posto por criança má Ou então pelo seu pé Para não se chamar ré À menina traquinas Que se esconde atrás de cortinas Quando julga ser prudente Devido a algum incidente Por si provocado 25
Deixando alguém irado. Mas não há maneira Da gaveta fazer cedência Por muito que se queira No presente instante Da parte de gente interesseira Assim a gaveta pensa Enquanto haja Alguém à sua beira Ou como ser por diante. Surge enfim a desistência E a gaveta fica em conferência Consigo própria Quando já há tanto tempo queria Ficar em ambiente sossegado Sem mais nada ser encaixado Ao seu lado Nem em si desarrumado Por nada estar organizado. (66 versos)
27 Flores – Luís Amorim Contentores «Chegaram os contentores E há que conferir os valores Que lá dentro estão E se serão Adequados a esta editora Literária que mora Em zona urbana.» «Se não der para esta Dará para sua mana Para que continue a festa.» Os contentores são arrumados Para serem revelados Seus enigmáticos conteúdos De onde saem ruídos Que deixam confundidos Os que desconhecem 26
As coisas que se encontram Nos interiores que abanam Talvez procurando saída Pois certamente querem Respirar outra vida. «Este contentor pesa mais Do que aquele ali.» «É porque têm demais Obra publicada Noutra temporada Conforme eu já li.» Os contentores são abertos E saem ainda despertos Todos os jornalistas Encomendados como artistas Para futura edição Não importando a imaginação Se a terão ou não Desde que produzam algo Que se possa ler Como: «Eu fiz algo Para vos dar a saber.» Os jornalistas são tantos Que ocupam todos os cantos Esperando sua vez Em grupos de três. «Vocês poderão não ter Talento que se possa perceber Mas isso não interessa Pois são conhecidos E toda a gente cai nessa De comprar livros Dos jornalistas referidos Nos meios audiovisuais Como os certos sinais Para bem sucedidas edições Com lucros nas intenções Nossas, sem confusões Em quaisquer apreciações.» «Existem autores com criatividades De grandes originalidades Com floridas inspirações 27
Nas suas imaginações.» «É verdade Mas são desconhecidos. Dá flores de criatividade A estes bem-vindos E vais ver como sairá Prosa ou poesia Que até espantará Quem não se adia Como super-letrado Já antes identificado Em qualquer lado Por onde tenha passado.» Assim foi feito E houve flores para todos Os que ficaram em modos De interior criação Para escrito como conceito De literária obra Em expectante recepção Cheia de gente A qual se dobra Vergada na decepção Mesmo à frente Dos jornalistas Que apenas dão Como visíveis pistas Uma certa imaginação Que não será por aí além Pois cada bem Entregue em flor Murchou de imediato Causando um rubor De vergonha no acto Ao futuro editor Que começa a balbuciar Não sabendo explicar O que se está a passar. (96 versos)
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Histeria Cenário de histeria Com motivo justificado Como já não se via Desde tempo ultrapassado. «Vem até aqui Ver o que eu senti No recente instante Sobre o que acontecerá Caso se levante Revolta ainda maior. Parte dela já está Em andamento constante Mas o pior Certamente virá Conforme eu pressenti Com aquilo que vi.» «Mostra lá o que viste.» Muita flor triste E outra em altercação Com a chegada dele À varanda das cerimónias Recebido com chavão Talvez sem haver noção Do que era dito. Ele quis salvar a pele E regressou ao seu salão. «Então tu dizias Ou insinuar pretendias Que caso ele ficasse Haveria pior que levasse Para outras histerias? Achas que nisso eu acredito?» «Ele originou isto Por isso insisto Que os ânimos subiriam De tom para níveis Onde seriam inúteis Quaisquer leis Que se aplicariam.» Estão eles em debate 29
Quando a histeria bate Seus maiores recordes Justificando certos acordes Na pós-produção Em local emissão Pois o directo tem atraso De segundos para o caso Da necessidade de cortes Ou censuras por mortes Que não se justificam Porque vivos todos ficam. A histeria é pacífica Apenas violenta Nos decibéis que se comenta Entre nós como dica Do que estará para vir Depois da reentrada Dele mesmo a sorrir Para a parte camarada Que o apoia Como salvadora-bóia Para não se afogarem Sem os privilégios Que têm desde os colégios Para bem falarem E melhor cantarem Suas reais vaidades Pelas belas raridades Em tais multiplicidades Que já não existem unidades Suficientes na registadora Para dar a certa conta De suas posses na hora Onde o que se conta É que tal pode ruir Pois o outro lado Está sempre a subir Também no discurso dado De antemão à imprensa Que ainda pensa Como irá dar notícia Pois aqueles dois retidos Ainda estão entretidos Com seus latidos 30
Feitos rafeiros Que até já chegaram Com a sua polícia Para tratarem dos desordeiros E demais sendeiros Que ali estejam. Entretanto, eu subi Para o palco improvisado E, de imediato, te pedi O refrão acertado: «A nossa hora chegou E o poder vacilou Com justiça adequada À ditadura terminada.» Há quem saia de cena Sem haver grande pena E a histeria acalma Porque é serena cada alma Presente na história A ser contada em directo Havendo quem esteja repleto De assuntos em estória Onde aí, sim, há histeria Que já se antevia Com os dois ao lado Num passar desadequado Pelo histórico momento Com tanto assento A cada flor reservado Que dá como aclamado O democratizar ansiado Há tempo demasiado. (116 versos)
A ceia do bispo É posta a mesa Com agradável certeza Na esperada afluência Dos ilustres representantes Da terra onde a vivência Se faz com reverência 31
Agora como antes Ao bispo que ilumina Toda a gente fina Em seus privilégios E outra sina Nos menos egrégios Em posses visuais Mas com seus laborais Contributos essenciais. É hora de ceia Na mansão bispal E tanta candeia Tem percurso final Para dar participação Com sua devoção Pelo bispo aclamado Por ser de bom trato Com todo o povoado Que não leva prato Nem qualquer oferenda Esperando haver merenda Ou algo que se coma Em ceia que se soma Na lista de faustosos eventos Onde existirão assentos Espera-se, para todos Os que terão modos Tão disciplinados Previamente solicitados Para haver boa figura Sem constante rasura Em ser que embarace E dessa forma mace O bispo atencioso Com manjar vistoso No cear mais saboroso. Tudo pronto E chegam convidados Finalmente avistados Como os primeiros Que eu conto A pedido do bispo Em escritos certeiros Que bem avisto 32
Como tarefa fácil Pois aos mil Não se chegará Disse eu a sorrir Em conversa de descontrair Com o bispo a anuir No exagero que não passará Dali, pensámos nós A uma só voz. Entram duquesas E outras realezas Nobres e frades Com suas vontades De apetites vorazes Ao passo que os ases Das corridas de circuitos Como príncipes de muitos Também aparecem Sem que neles tropecem Pelo menos por enquanto À procura de canto Para autógrafo dado Quando tal for solicitado. Membros paroquiais E conselheiros coloquiais Chegam com antecipação Aos deputados que na eleição Última em consideração Se tornaram vitais Para os problemas locais Serem bem resolvidos Sem saírem esquecidos Mas podendo ser lembrados Pelos também apresentados Como outrora deputados Que perderam tais funções E que serão comilões Como os anteriores Caso contrário Não dariam seus humores Pelo cear que vazio No fim mostrará O apetite que durado terá Enquanto houve comida 33
A ser servida. Governantes e assessores Secretárias e bajuladores Dos poderes prometedores Aparecem às cores Para que se distinga De que lado pinga O suor melhor percebido Já imaginado em partido No lugar atribuído Como conjunto remetido À certa ala Na enorme sala Que mais parece salão A perder de vista Quando o que se regista É que a multidão Não tem cessação Pois banqueiros E demais cavaleiros Da patronal economia Entraram quando eu abria Uma nova secção Na minha contabilização. Agora, vejo advogados E juizes aperaltados Sendo diagnosticados Pelos médicos arranjados Com maior simplicidade Mas sem perderem a vaidade Também em presença Com a arte extensa Que com ou sem licença Se distribui por realizadores Alguns endinheirados produtores E actrizes com parceiros Que me parecem actores Com pontuais encenadores Misturados com escritores E suas belas flores Todos com elegantes roupeiros Como ajustados suportes Também para suas consortes Que não sejam famosas 34
Mas tenham vistosas Curvas para exibição Perante quem lhes dá exposição Num tal mediatismo A revelar o jornalismo Que me deixa estupefacto Pois pensei que neste acto Eles não estivessem Mas como não se esquecem De tudo o que for mediático Só posso dar conclusão Que fui lunático Quando dei mal suposição À jornalística ausência Que daria incidência A uma boa disposição Ao bispo de excelência Caso ele soubesse de antemão O que eu revi em previsão Já na sua residência De tanta opulência Que deixa em conferência Quem vem para ceia Para não sair meia Como pessoa esfomeada Mas sim de barriga cheia E bem comentada Pelo traje de entrada Em noite estrelada Com gente de nomeada. Catedráticos professores E necessários instrutores Com menor mediatismo Mas tão fundamentais Desde todo o baptismo Dão seus sinais Com a esperada assiduidade Em honra de individualidade Como bispo que nem dá conta Onde estará a ponta Em extremidade de visitas Algumas bem esquisitas Outras apenas em humildade Ou tributo na verdade 35
Ao senhor que recebe Quem dele não se esquece Independentemente das razões Nas próprias motivações Como haver quem tanto bebe Comendo tudo o que lhe apetece. Todas as profissões Parecem estar nas adições Que eu vou controlando À medida que apontando Com dificultada destreza Apenas com a certeza Que terei má defesa Caso cumpra menos bem Tarefa que convém À estatística de bispo Que eu não insisto Como realmente acessória Não importando a consideração Que me vem à memória Sobre esta ocupação. Operários não faltam E até me saltam Para fora da mente Conjecturas de nada indiferente Ponto de vista preocupante Que estaremos perante Mais gente no salão Do que com habitação Na terra em atenção Pelo bispo tão importante Pois se assim não fosse Não haveria radiante Multidão que se coce Por fome que lhe roce Onde ela não é satisfeita Por nem ser feita Em quantidade apreciável Como sucede por aqui Com prato ofertável Em ceia tão agradável. E quando eu penso Que tudo já vi Eis que não há censo 36
Que ainda me valha Pois o pouco espaço Já me atrapalha Por não ter Sequer pequeno maço Para tanto escrever Sobre visitantes vários Que trazem armários E até dromedários Para carregarem comida Que apetitosa seja percebida Quando eu dou saída Pois acabou o papel E eu perdi a conta Na chegada da milésima tonta Alma ou figura de cordel Que nem parece fiel À realidade que se conta Como sendo de monta Em valor que se aponta Tal e qual eu fiz Para o bispo que me diz Estar orgulhoso de mim Quando para uma, olha Como casual folha Que até está no fim Da resma que agrupei E assim mesmo lhe mostrei Ficando eu admirado Como ele parece arredado Do conteúdo enquadrado No salão povoado Inclusive com bichos de porte Que carregam futura sorte Em alimentos de sobra Para quem muito cobra À bispal boa satisfação Por ter tantos amigos Vindos de inúmeros abrigos E quase todos em degustação Havendo quem só prefira provisão Para ter condição De vida em futuro Quando eu auguro 37
Que pouco haverá De alimento por cá Para satisfazer todos Ansiando por tais rodos No tempo que virá. O cenário até dará Para escrita mais Mas não tenho sinais Da parte do senhor De que poderei pôr Tudo em prosa Dificilmente cor-de-rosa Mesmo que ele prefira Poesia que não fira Mentes mais susceptíveis Eventualmente consumíveis Com determinado enredo. Como ainda é cedo O bispo traz mais papel Para eu dar início Ao anterior indício Que ele também idealizou Para o meu papel De escritor oficial Do bispo sem outro igual Que bem se lembrou Desta comezana Que ainda abana O salão de festas Onde todas as arestas Estão apinhadas E até sufocadas De pessoas e coisas Bichos e intrigantes loisas Que não quiseram Ficar de fora Na melhor hora Em que puderam Viver tudo isto Para a escrita onde insisto Com relato que não resisto A torná-lo fidedigno E de criatividade digno Com os dois num belo misto 38
Para o enredo que visto Com recursos estilísticos Que sejam nobres dísticos Para depois ser visto Por toda a gente que registo Com mais alguém imprevisto A ficar igualmente bem-visto Lendo “A ceia do bispo”. (322 versos)
(Des)Encontro (In)Esperado – Olga Resi 1.ª parte: Primavera
I Esperei por ti… Esperei como quem aguarda o sol Após meses a fio sem chuva! Esperei por ti… Grávida de esperanças, Como se fosses a última redenção. Meu salvador, Meu condutor, Meu mundo… Como se mais nada existisse Mais nada importasse, Apenas a tua chegada, Tão aguardada, 39
Tão desejada! Esperei por ti… Como se a vida se limitasse a isso. Coisas pequenas, Madredeus
II Chegaste! Sol, luz, alegria! A noite deu lugar ao dia! Ainda hoje relembro: A tua figura na porta. Trazias o pôr-do-sol. Questionei alguém com o olhar: O gesto de afirmativo – sim, eras tu! – Deixei de viver e comecei a sonhar. O sonho passou a ocupar, Cada instante, cada momento. Deixei de caminhar E passei a flutuar! Era tão fácil sorrir! Contigo! Esquecendo o perigo! Apenas me deixei ir! Chegaste! E o esperado improvável aconteceu! Stick with you, Pussycat Dolls
III Poesia… 40
A tua perplexidade. Daquela verdade! O sentido que não encontravas nas palavras. Palavras sentidas, vividas e sofridas. Palavras de quem amava para além das palavras. O que te incomodava? Algo que não querias e em ti encontrava? O rap, afinal, é um poema. E o amor é o mesmo tema! O amor de que fugias? O amor que temias? Ou nada era como dizias? Na poesia, O nosso amor nasceu. Palavras de ironia, De quem amou e sofreu! Ninguém (é de ninguém), João Pedro Pais
IV O primeiro encontro! Aquele primeiro encontro! Tantas vezes combinado e adiado. Encontro que no tempo se perdeu… Encontro tão fantasiado e nunca vivido. Apenas na minha cabeça existia? Ou não era isso que ouvia? Promessas. Promessas de um encontro que não existiu. Promessas de algo que nunca ninguém viu! Mas só – e apenas – a promessa Trouxe tanta vida! 41
Ressuscitou toda a esperança perdida! Ainda me lembro de dormir, Feliz e a sorrir, Sempre a acreditar Que o sonho viera para ficar! If you give up, Hands on Approach
V Aquele dia. Que eu recordo com mágoa e desilusão. Quando te disse o que não devia. Quando deixei falar o coração. Não devia? Não podia? Não queria? Mas fiz e pronto! E tive de pagar pela ousadia! Precipitação? Paixão? A tua resposta: ilusão? As palavras. Sempre as palavras, iguais. Palavras que são de mais?!! As minhas foram, Para além de todos os limites! Cada lugar teu, Mafalda Veiga
VI Música… O canto de sereia ao meu ouvido. 42
Sons de quem tinha sofrido. Aquela melodia, Versos com os quais sorria! A música me conquistou. A teus pés, completamente rendida, Encurralada e sem saída! Completamente pelo sonho tomada, Que a Vida comandava. E foi apenas seguir: Embalada pela canção, Que me falava ao coração, Perdendo toda a Razão! Nas asas do sonho me deixei ir! A pessoa que vias em mim, Me deslumbrava, apaixonava, Numa ilusão sem fim! Louco (por ti), João Pedro Pais
VII A praia… Repleta de nevoeiro, Num dia de véspera de Verão. A praia… Misteriosa, efabulada, Encerrando a saudade. Tinha sido uma despedida. Assim o pensei. Mas estava enganada. No meio do nevoeiro, ali estavas, Correndo, no meio das ondas. Realidade ou alucinação? Quando pensava que nunca mais te veria, 43
A curva do destino parecia dar-me o que pedia. Nunca ninguém me alertou: Cuidado com as armadilhas Que a vida nos preparou! Vi aquilo que quis, Acreditei na Vida, Acreditei que iria ser feliz! Porquê, Anjos
Infiel – Olga Resi O dia do casamento O dia estava bonito, perfeito mesmo! Com muito sol, o perfume das flores que inundava o ar. Finais de Maio. Perfeito também era o ambiente, de requinte, risinhos, senhoras com grandes chapéus e vestidos de sedas coloridas. Os sapatos de saltos enormes equilibravam, como que milagrosamente, todas aquelas figuras de uma enorme feminilidade e elegância, que desfilavam os modelitos do grito da moda, trocando impressões sobre esses aspectos tão valorizados que muitos adjectivavam de futilidades. Os homens, por seu lado, giravam copos de mão em mão, discutindo negócios, ostentando vitórias fantasiosas. E era esta a cena que Luísa e Miriam apreciavam nos jardins da antiga quinta, enquanto aguardavam a cerimónia de casamento da amiga de ambas: Carolina. – Dá para acreditar que a Carolina vai casar? – Miriam entretinha-se a escolher os salgadinhos que tinham o aspecto mais interessante. 44
– É um dos dias mais bonitos da nossa vida… - suspirou Luísa, que era a tristeza em pessoa. – Não! Não! Pára por aí! O que é que falámos? – Miriam encarou a amiga absolutamente furiosa. – O que foi? Eu não disse nada! – a tentativa de disfarce de Luísa – Pois! Mas pensaste! – E desde quando pensar é proibido? – Desde que os pensamentos te ponham triste. – E quem é que está triste? Eu não! Hoje é dia de festa! – Exactamente, é um dia de festa. - brindam. O burburinho que de repente se começou a ouvir despertou a atenção das duas amigas: era Joana que se aproximava, a sedução em pessoa, quase sem dar por isso, sendo alvo de olhares lascivos por parte da vertente masculina e de inveja e ciúmes pela claque feminina. – Uff! Que calor! Há alguma coisa que se beba? - Joana arranca os copos das mãos das amigas e bebe-os de um gole só. – Ei, miúda, vai com calma! – o conselho de Miriam – Não és tu que vais casar! – Luísa tentou gracejar. – Luisinha, meu amor, a desgraça de uma de nós representa a desgraça de todas! – retorquiu a amiga. – Casar não é nenhuma desgraça! – Pois não! É uma catástrofe natural! – Tu e essas tuas teorias. – Luísa ria com vontade. – Vivemos no século XXI, meu amor. Essa coisa de cozinhar, limpar, arrumar e passar o serão a coser as meias e as cuecas do marido já não é para nós! – Um dia ainda havemos de te ver casar, tal como manda o figurino. – Miriam, que até então se mantivera calada. – Eu?!!! Mas nunca, nunquinha! Nem nesta vida nem na noutra! – Joana, não podemos dizer desta água não beberei! – Eu digo! Nem bebo água, só champanhe, meu amor, champanhe. - Joana serve-se de mais uma taça que um dos empregados distribui pelos convidados. – Como é que estará a nossa amiga? – questiona Miriam observando o grande casario que se ergue no outro lado do jardim, rodeada por árvores centenárias. – Porque é que não vamos dar uma espreitadela? – sugeriu Joana. O edifício, antigo, havia sido a habitação de uma família nobre, cujo brasão, ainda bem visível, dava as boas vindas a quem se aproximava do grande portão de entrada. No interior, numa sala que havia sido transformada para a ocasião, com um espelho e alguns sofás, a noiva examina-se ao espelho. – Posso?! – era Tomás que espreitava à porta. – Podes. Mas acho que não devias. Dá azar ver a noiva antes da cerimónia. – fingiu ralhar. 45
– Não resisti. – imitando uma careta. – Fizeste muito bem! – Carolina atira-se nos braços do rapaz, beijando-o apaixonadamente, mas ele acaba por afastá-la. – É melhor não irmos por aí. – E porque não?! – a rapariga ignora o pedido de Tomás e volta a beijá-lo apaixonadamente, acabando por fazerem amor ali mesmo. No exterior, o grupo de amigas continua a dar conta dos pratinhos de aperitivos que aparecem a voar de um lado para o outro, graças aos empregados de um profissionalismo exemplar. – É como vos digo, casar é uma praga em vias de extinção. – Joana estava muito convicta da sua teoria. - Nem todas nós nos queixamos. – retorquiu Miriam. – Miriam, minha querida, tu és uma excepção! Tu não tens um marido, mas sim um deus grego que se tornou escravo do teu amor! – Até parece! – Queixas-te? – Não, não me queixo. Mas nem tudo é perfeito. – A perfeição é monótona. É uma seca! – Imagino que sim! – concorda Miriam, rindo. – Para muitos, o casamento é mesmo um alvo a abater! Vejam o Eduardo… Luísa, que se mantivera calada até àquele momento. – Não, não, não! Hoje não há Eduardo, nem tristeza por causa do Eduardo, nada disso! Esquece-o, pelo menos por hoje! – Miriam fazia de tudo para que o ânimo da amiga melhorasse. – Pois eu acho que não vai ser possível. Olhem quem acabou de chegar! – anunciou Joana. As amigas observam Eduardo e Inês, ao longe, cumprimentando todos animadamente. – Eu não acredito! Como é que ele foi capaz? – a fúria de Luísa – Tem calma! Ele tinha de vir, é sócio do Bernardo! – a tentativa vã de Miriam. - Mas não devia tê-la trazido. É só para me afrontar! – Minha querida, não vais entrar em parafuso por causa disso. Ignora-o. Melhor! Dá-lhe o troco! – Joana e as suas teorias de mulher do séc. XXI. – Dar o troco?!! Como? – Com tanto homem bonito aqui nesta festa, não há-de faltar quem não consiga resistir aos teus encantos, minha linda! – Eu não estou preparada para voltar a ter outra pessoa na minha vida. – Eu não estou a dizer para encontrares alguém para casar e teres bebés com ele. Eu estou a falar de dar uma voltinha. De te enroscares, percebes? Uma boa noite de amor e tu esqueces logo esse teu ex-marido mauzão e sem graça! – a argumentação de Joana fez com as amigas rompessem às gargalhadas.
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No fundo do jardim, o coreto havia sido transformado num altar de contos de fadas, rodeado por cordas com imensas flores coloridas e perfumadas, que tinham debaixo as cadeiras dos convidados. Bernardo e Tomás conversam. – Então? Cheguei a pensar que tinhas desistido. – Bernardo espicaçava o amigo, que desaparecera por longos minutos. – Eu…eu…bem… – Relaxa! Estás muito nervoso! – Estou bem! – Tomás, tentando controlar o nervosismo. – Respira fundo! Até porque daqui a nada chega a noiva e vais ficar sem respiração! – Bernardo consegue arrancar um sorriso tímido ao amigo - Mas o noivo e o padrinho também não estão nada mal! Hã? Que te parece? No jardim, Miriam serve-se de um petisco, junto a uma mesa, quando, alguém nas suas costas, sem que ela veja, lhe sussurra ao ouvido: – Não comas tudo! - Miriam ergue o olhar da mesa, perplexa, e fita em frente, por alguns segundos, sem se voltar. Respira fundo e vira-se para trás, verificando tratarse de Miguel. Com o espanto, deixa cair o prato no chão, que se desfaz em mil pedaços. – Desculpa, não queria assustar-te. – Não…eu…desculpa…é que… - Miriam baixa-se para apanhar os pedaços do prato. Miguel pega-lhe nas mãos, para evitar que ela o faça. – Não faças isso! Ou queres cortar essas tuas lindas mãos? – Miguel segura-lhe nas mãos. Miriam paralisa por uns instantes, mas rapidamente recupera e retira-lhe as mãos das suas. – Claro! Desculpa! – Não precisas de me estar sempre a pedir desculpas. – Eu sei, desculpa. – O que é que eu acabei de dizer? - ambos riem. – O que é que estás a fazer aqui? – a seriedade de Miriam. – Eu?!! Não sei bem. Como, bebo. Ah, e acho que daqui a pouco vai haver uma cerimónia de casamento. E se calhar tenho de assistir. Ou achas que parece mal continuar a comer e a beber? – Miguel tenta imprimir um pouco de humor à conversa. – Já percebi! É que…bem… não esperava encontrar-te… muito menos aqui! – Esperavas nunca mais me encontrares? – Sim…quero dizer, não sei…sim, não pensei voltar a ver-te. – Pensaste como? Do género: “será que nunca mais o vou ver?” ou “Espero nunca mais o ver!”. – Eu…bem… Gostei muito de te ver! – Miriam vira-lhe as costas com a intenção de se afastar, mas Miguel impede-a, puxando-a por um braço. – Desculpa, estava a brincar contigo. Vamos recomeçar, tá? Olá! Há quanto tempo! Por aqui? O que tens feito? - Eu tenho mesmo de ir! – E não tens um tempinho para mim? Para conversarmos? – Mais logo, talvez! Agora tenho de ir auxiliar a noiva. Que a hora importante está a chegar! Até já! - Miriam afasta-se e Miguel fica desolado. 47
Joana e Luísa, junto da porta de entrada da casa, estranham a demora de Miriam. – Mas onde é que a Miriam se meteu? – A Carolina já deve estar a estranhar não aparecermos lá! – Ali vem ela! – aponta Joana para Miriam, que entretanto chega. - O que foi? Parece que viste um fantasma! – De certa forma, vi! – O que aconteceu? – quis saber Luísa. – Vi o Miguel. – O Miguel? O Miguel, Miguel? – O Miguel, Miguel! – O quê? O Miguel, Miguel, que nós sabemos? – Esse mesmo! – Não pode ser! – Joana e Luísa exclamaram em simultâneo. – Tanto pode, que foi! – E o que é que ele está aqui a fazer? – a curiosidade de Joana. – Veio ao casamento. – Da Carolina?!! – a perplexidade de Luísa. – Pois! Não há aqui mais nenhum! – Acham que a Carolina… - ia a sugerir Joana, logo interrompida por Luísa. – Não, ela não seria capaz! Ou seria?!! – Não se ponham com ideias! A Carolina sabe o quanto eu sofri por causa do Miguel. Não o ia convidar sem me dizer! – Vamos perguntar-lhe. E assim já tiramos todas as dúvidas! – a decidida e prática Joana. No interior do edifício, as jovens surpreendem a noiva. – Já estava a pensar quando é que vocês iriam aparecer! - Carolina abraça as amigas. – Achaste que te escapavas, não? – O que acham? – questiona Carolina, dando uma voltinha para mostrar o vestido. – Linda! – exclama Luísa, verdadeiramente emocionada. – Oh! – Carolina abraça-a. - Não quero que fiques triste! – Lu, nada disso, meu amor. Hoje é dia de festa. Não há tristezas! – a ajuda de Joana. – É a festa de casamento da Carolina. O resto é para esquecer. – relembra Miriam. – Desculpa! – Luísa recompõe-se, dirigindo-se a Carolina - Não quero estragar o teu dia! – Não! Nada disso! Não estás a estragar o meu dia! – a noiva refutou. – Pois não! Estragado já está ele desde o momento em que te decidiste casar! – a viperina Joana – Joana! – ralhou Miriam. 48
– Deixa, Miriam! Ela fala porque agora é a única solteira, pois todas nós já demos o passo importante! – ajudou Carolina. – Para a forca, isso sim! – resmungou Joana. – Pára com isso, Ju! Casar não é assim tão mau! Um dia ainda hás-de ser tu a usares um vestido destes! – a insistência de Miriam. – Eu?!! Nunquinha na vida! Mas não te faças de santa, que há bocado bem que deves ter desejado não estar casada! – Porquê?! – Quando viste o Miguel, não? – Pois é! Tu convidaste o Miguel e não disseste nada? – Luísa dirige-se à noiva. – Que Miguel? – a confusão de Carolina. – O Miguel da Miriam! – Calma lá, que ele não é nada meu! – Miriam vexada. – O Miguel está cá?! – Não sabias? – Não! Mas…está cá a fazer o quê? – Veio assistir ao casamento. – Ao meu?!! Mas como? – Ele diz que foi convidado. – Só se é convidado do Bernardo, alguém do escritório ou isso. Mas…espera lá…é o Miguel! Há quanto tempo é que não o vês? – a noiva dirige-se a Miriam. – Cinco anos! – Luísa respondeu pela amiga. – Já passou assim tanto tempo? – Joana estranhou. – E o que é que ele te disse? – a curiosidade de Carolina. – Nada de especial. Apenas nos cumprimentámos! – O quê?!! Reencontraste o grande amor da tua vida, após 5 anos, e não disseram nada de especial? – a picardia de Joana – Ele não é o grande amor da minha vida! – Meninas! Ela casou com o Martim! – relembrou Luísa. – Lu, meu amor, nem todas pensam que casaram com o homem da sua vida! Até porque eu acho que qualquer marido perde o encanto passada a lua-de-mel, logo nunca poderiam ser o Homem-da-nossa-vida! – insiste Joana. – Joana, no seu melhor! – a ironia de Miriam. – Ainda me hão-de dar razão, minhas amigas! – Meninas, deixemo-nos de conversas, que a hora especial se aproxima! – aconselhou Luísa. – Ai! Só me apetece gritar! – a ansiedade da noiva. – Tem calma! Respira fundo e segue em frente! – aconselhou Luísa. – Ainda bem que aqui estão, senão acho que não seria capaz! – Carolina dá as mãos às amigas. – Estás arrependida? Ainda vais a tempo de desistires! – a frontalidade de Joana. – CALA-TE! – gritaram Miriam e Luísa. – Acham que estou a fazer a coisa certa? – a indecisão de Carolina. – Claro que sim! O Bernardo é um príncipe! – o incentivo de Luísa. 49
– Sim…Vamos embora! – Carolina, pouco convencida. – Vamos! Relaxa! Toda a noiva fica nervosa! – Luísa toca no ombro da noiva para lhe transmitir confiança. – É isso! Que a festa comece! – o entusiasmo de Miriam. Saem todas, as amigas auxiliando a noiva com o vestido. Junto do coreto, Carolina é conduzida pelo pai, até ao altar. Bernardo e Tomás estão lado a lado. A noiva olha-os, emocionada, e derrama algumas lágrimas. Os dois rapazes estão igualmente ansiosos e comovidos. Carolina, duvidosa, olha para as amigas, que a incentivam a prosseguir. Olha novamente para os dois rapazes. Mas, afinal, o noivo é Bernardo e não Tomás. Carolina olha para Tomás, que tenta disfarçar a comoção. A cerimónia prossegue, com as lágrimas do rapaz e a incerteza de Carolina. Já na sala de banquetes, Miriam, Joana e Luísa tentam descobrir onde se vão sentar. – Já descobriram qual é a nossa mesa? – Joana, de copo na mão. – Penso que é aquela, junto da mesa dos noivos. – apontou Miriam. – Só espero que nos tenham colocado como companhia assim uns bonitões de arrasar! – E eu espero que a Carolina não se tenha esquecido de sentar o Eduardo e a Inês bem longe de mim. – desabafou Luísa. – Por falar em maridos, onde é que anda o teu, Mi? – relembrou Joana. – No escritório, como sempre! Ligou-me a dizer que vai chegar atrasado, para variar! - Miriam fez uma careta. – Ele está a tratar do caso daquela senhora que foi despedida por ter apresentado queixa de assédio sexual no local de trabalho, não é? – justificou Luísa. – Esse mesmo! – Se ele ganhar, vai ser uma bolada de dinheiro! – E eu espero que ele me saiba compensar por todo o tempo em que não está comigo! Aqui a patega à espera dele… – Não te queixes, que ele é um marido maravilhoso! – É, quando está comigo! – Não te queixes! Não quiseste casar? Agora, atura-o. – Joana e a sua língua viperina. – Quem te ouvir falar, há-de pensar que és uma santa. – contrapôs Luísa – Eu não engano ninguém! Até porque não devo satisfações da minha vida a ninguém! – Essa conversa daria pano para mangas! Adiante! As 3 amigas dirigem-se para a mesa que lhes está destinada. No WC, Carolina, lava a cara e olha-se ao espelho, manifestando inquietação. Tomás entra, claramente abalado. – O que estás a fazer aqui? Podem descobrir-nos. – a aflição da rapariga. – Nós não devíamos ter feito isto! 50
– Eu não devia ter casado! – Não! Fizeste bem em casar. Como é que eu poderia roubar a noiva ao meu melhor amigo? – Traí-lo é melhor! – a ironia de Carolina – Cometemos um erro. Só temos de esquecer e fazer de conta que nada aconteceu. – Esquecer? Fazer de conta que nada aconteceu? E como vou ignorar o que sinto por ti? – Tens de matar esse sentimento, Carolina, é o melhor para todos! – Para ti é muito fácil falar. – a rapariga vira-lhe as costas. – Não, não é fácil! Ou pensas que acho piada a isto tudo? Que não tenho sentimentos?! – Tomás puxa-a para si. – Pois não parece! – O que queres que faça? Que pegue em ti e que desapareça? – E porque não? Irmos para longe, onde ninguém nos conheça, vivermos o nosso amor em paz! – Tomás liberta-a e vira-se de costas, colocando as mãos na cabeça. - Não! Não! Não! Se fosse com outra, não hesitaria. Mas tu és a noiva do Bernardo, que é como se fosse meu irmão! – Isso é uma desculpa para a tua falta de coragem. Ou para a tua canalhice! É mais fácil traí-lo, não? – Se ao menos pudesses compreender… - Tomás tenta abraçá-la. – É melhor mesmo esquecer tudo. Fazermos de conta que nunca nos conhecemos! – Carolina afasta-o e fita-o directamente nos olhos. - Volta para a Bélgica, amanhã mesmo e nunca mais me procures. Apaga-me das tuas lembranças. Tomás olha-a intensamente, vira costas, desolado; quando chega perto da porta, volta rapidamente para trás e beija-a apaixonadamente; acabam por se amar na casa-debanho. Miriam dirige-se ao WC, mas é interceptada por Miguel. – E agora? Já tens tempo para mim? – Tenho de ir ao toilette. – Mais uma desculpa para fugires de mim? – E porque é que havia de fugir de ti? Tenho algum motivo? – Não sei. Diz-me tu. – Não tenho nada a dizer! – Não? Nem para me dares aqueles sermões que costumavas dar? Sobre o que eu deveria ser, como deveria fazer? – Não tenho nada a ver com a tua vida! – Não?!! Porquê? – Olha, não me apetece muito conversar! – Mudaste tanto assim? Ou é por vingança? – Vingança?!! – Sim. – E de que me vingaria eu? 51
– Por eu não ter agido muito bem contigo. Enfim, por ter sido um…estúpido, como tantas vezes me disseste. – Disse?! Não me lembro. Com licença! - Miriam faz tenções de ir embora, mas Miguel impede-a. – Vais então querer convencer-me de que já não te lembras de nada da nossa história? – a rapariga fita-o muito séria. – Se alguma vez houve uma história foi de uma outra Miriam, imatura, apaixonada, ingénua, sonhadora, romântica. Mas essa Miriam não existe mais. Morreu! Há já alguns anos. – Não acredito! – Pouco me importa se acreditas ou não. E se andas à procura dessa Miriam, que tu conheceste, há 5 anos atrás, lamento, mas ela já não existe! - OK! Eu mereço ouvir isso! – Miguel baixa os olhos e assume uma expressão de desolação. – Não sei se mereces ou não. Digo-o porque é a mais pura verdade! – Eu mereço essa tua frieza, porque não me portei bem contigo! – Eu! Eu é que não me portei bem comigo própria. Por ter lutado por um sentimento que não valia a pena. Por ter insistido e insistido. Por ter sido cega e burra. Por não ter logo percebido que só me aturavas por pena. – Eu não tive pena de ti! – Tiveste, sim! Por isso me aturavas. E lá aceitavas encontrar-te comigo, depois de muita insistência da minha parte! – Eu adorava estar contigo! – Imagino que sim! – a ironia de Miriam. – Nunca conheci ninguém como tu! Nunca me senti como me sentia quando estava contigo! – Fazia bem ao teu ego, não era? Teres ali um tapete onde podias pisar! – Não! Não! Nada disso! Eu simplesmente fugia de ti. Ou melhor, fugia de mim. Dos meus sentimentos. – Miriam faz uma pausa, quase que se comove, mas rapidamente fica muito séria. – Não importa! Isso faz parte do passado. E, como diz o ditado, “águas passadas não movem moinhos”. - Miguel olha-a, desolado, mas Miriam não se deixa comover E, agora, se me dás licença… - a rapariga afasta-se. Miriam entra no WC, deparando-se com Carolina e Tomás a beijarem-se. – Desculpem, não queria atrapalhar os pombinhos! - só então repara tratar-se de Tomás - Mas…eu pensei que…é melhor voltar mais tarde! – Não! Não, Mi, fica. Por favor! – Carolina suplica. – Bem, eu…vou andando. – Tomás troca uma olhar cúmplice com Carolina e sai. – Desculpa, eu não sabia… - o desconforto de Miriam. – Ainda bem que apareceste! Estava mesmo a precisar de alguém com quem falar! Senão acho que ia explodir! – Eu…nem sei o que dizer. 52
– Não me condenes, por favor! Pelo menos não sem antes eu te explicar tudo! – Não tens de me explicar nada. A vida é tua. – Mas eu preciso. Tenho de desabafar! – E eu estou aqui para te ouvir. – Eu amo o Tomás. – E o Bernardo? – O Bernardo é uma pessoa muito especial. Amigo, companheiro. Por quem eu tenho um enorme carinho… – Mas por quem não estás apaixonada! – Eu não sei explicar o que sinto quando estou com o Tomás. É como se me invadisse uma força…não sei…algo que eu não consigo controlar. Penso nele 24 h por dia. Só quero estar com ele. Mesmo longe, sinto o seu perfume, ouço a sua voz a chamar por mim… o toque da sua pele…o gosto dos seus beijos… – Isso, minha amiga, chama-se paixão. – Parece que enlouqueço quando não estou com ele. E quando estou…não me controlo. – Mas…porque é que casaste? – Acredita, se tivesse encontrado uma forma de evitar este casamento… – Mas tu tiveste todas as oportunidades! – Eu não queria, percebes? Assim que vi o Tomás…não sei…foi como se algo despertasse dentro de mim. E, naquele momento, eu soube que haveríamos de ter uma história. E eu tentei evitar, acredita! Fiz de tudo para fugir a este sentimento…mas foi inevitável! – Eu compreendo… – Lembras-te quando falavas do Miguel? Do que sentias? Como ele quase te punha louca? Aconteceu o mesmo comigo! – Por isso é que estou preocupada, minha amiga! A paixão destrói-nos, seca-nos por dentro. É um fogo que nos consome. – Mas tudo aquilo que sentimos… Tu mesma sempre disseste que nunca sentiste com outro homem o mesmo que sentias quando o Miguel te beijava. – Oh, minha amiga, como eu gostaria que não estivesses nessa situação! Se soubesses a dor… – Não entendes! Comigo é diferente! O Tomás não tem medo de assumir aquilo que sente por mim! – Ai não?!! Então porque é que ele deixou que te casasses? – Ele não quer magoar o Bernardo. Prefere sofrer ele. – Até pode ser! Mas, se fosse a ti, não descartava a possibilidade de o Tomás estar a querer aproveitar-se da situação. – Como assim?! – Não te quero magoar… – Eu quero saber o que pensas. – Não estou a dizer que é assim. Mas já pensaste: o Tomás vem de férias para o casamento do melhor amigo, envolve-se com a noiva dele - quem ele nunca poderá assumir por causa da amizade que diz ter pelo Bernardo - e, depois do casamento, volta 53
para Bruxelas, para a vidinha dele. – Miriam olha para a amiga e vê o sofrimento na cara dela. – Olha, esquece, sou só eu a falar. – Talvez tenhas razão. Ainda há pouco ele me falou em esquecermos tudo, como se nada tivesse acontecido. – Ele tem razão. Se casaste com o Bernardo, por alguma coisa foi. Então, esquece tudo o que aconteceu. Guarda as memórias lindas destas 2 ou 3 semanas num canto bem escondido do teu interior e abres o baú sempre que te apetecer. – Eu não vou conseguir viver longe dele! – Vais sim, minha amiga! Vais sim! As amigas são interrompidas por Bernardo. – Desculpem, mas já estava a ficar preocupado com a minha mulherzinha! – Perdoa-me, amor… - Carolina abraça-se ao marido. Luísa circula pela sala, esbarrando em Inês. – Desculpa, Lu! – As desculpas não se pedem, evitam-se. – O que queres dizer com isso? Mais uma das tuas indirectas? – Inês, exasperada. – Eu sou muito directa. Digo o que penso. – a fúria de Luísa. – Agora és dona da verdade? – Sabes qual é a verdade, muito melhor que eu! – Tu é que te recusas a compreender! Um pouco de empatia, é só o que te peço! – Empatia?! Empatia?! – a ironia de Luísa – Não sei…nunca me imaginei a roubar o marido de alguém. – Eu não te roubei o Eduardo. São coisas que acontecem. – Coisas que acontecem?! Só para quem não tem consciência! É tão fácil justificar o mal que fazemos… – Nunca quis magoar-te, Lu! Somos irmãs! – Não te lembraste disso quando me roubaste o Eduardo. – Eu não roubei nada. Nós tínhamos sido namorados muito antes de vocês se conhecerem. – Agora só falta acusares-me de ter sido eu a roubar-te o Eduardo. – Não distorças os factos. Apenas quero que entendas que o sentimento que me une ao Eduardo é muito anterior ao vosso casamento. – E isso dá-vos o direito de destruir a felicidade dos outros! E o Tiago? Já pensaste nele? Ele comprou-te uma casa! Estava a construir uma vida para os dois. E o que lhe fizeste?!... – Casar com ele é que teria sido um erro. Fui-lhe leal. Enganá-lo seria muito pior. – Foste leal com o Tiago?!! – Eu nunca o enganei. Deixei-o muito antes de reatar com o Eduardo. – E isso deixa-te de consciência tranquila.
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– Tenho a consciência tranquila, sim. Porque nunca enganei ninguém. Nem a ti! Quando percebemos que ainda nos amávamos, eu e o Eduardo, abrimos o jogo contigo. O que preferias? Que te tivéssemos traído? – Preferia que tivesses deixado o meu marido em paz! – Também eu preferia. Se pudesse voltar atrás, nunca me teria separado do Eduardo. Ele foi o meu primeiro amor e éramos muito jovens! Mas devíamos ter lutado pela nossa relação. – Mas quando eu to apresentei como meu noivo, devias ter dito alguma coisa. Eu não podia adivinhar que ele tinha sido o teu namorado de adolescência e o grande amor da tua vida! – Vocês iam casar! Eu não tive coragem de dizer nada! Até porque não sabia se o Eduardo ainda me amava. Aliás, acreditei que ele te amasse. E amava! – Amava. Até te meteres no nosso casamento e destruíres tudo! – Mas eu nunca me meti. Nunca disse ao Eduardo o que sentia. – Não directamente. Mas o facto de teres acabado tudo com o Tiago, a poucos meses de se casarem, deu a dica ao Eduardo de que ainda estavas interessada nele. – Luísa mal se conseguia controlar. – Eu não podia ser desonesta com o Tiago. E se o Eduardo interpretou esse facto dessa forma, foi porque ele assumiu o que sentia. E eu nunca o incentivei a reatarmos. Eu queria ir para bem longe, como tu sabes! Eu ia mudar de país. Ele é que não o permitiu. – Foi tudo uma chantagem barata. Estavas livre e deste-lhe a entender que nunca mais te veria, para ele ficar desesperado, para ir atrás de ti, para impedir que fosses! Um truque muito velho! – Não foi truque. Eu queria mesmo ir para bem longe, para preservar o teu casamento. E se o Eduardo não sentisse nada por mim, ter-me-ia deixado ir! – Inês tenta justificar-se. – Claro! A culpa é dele! Tu és completamente inocente! – a ironia de Luísa. – Não me podes culpar por algo que não é da culpa de ninguém! – Não me venhas agora com a história de que é o destino, blá, blá, blá! – Destino ou não, não sei! O que é certo é que não foi algo planeado, pensado, com apenas o intuito de te magoar! – Claro! Vocês fizeram tudo isso a pensar em mim. E nos meus sentimentos! – O que é que pensas? Que, há 10 anos atrás, combinei com o meu namorado: “Olha, nós agora separamo-nos, daqui a 8 anos conheces a minha irmã, casas com ela e depois deixa-la para ficares comigo!” – Não me venhas com tretas! – É isso que tu pensas? Que é tudo uma treta? Que a minha relação com o Eduardo é só para te afrontar? Onde é que está a Luísa sensível, compassiva, solidária? Isso só é válido para os outros? Quando se trata de ti, da tua família, então já é diferente! – Como é que te atreves a julgar-me? Fazes alguma ideia do que sinto?
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– E tu? Fazes alguma ideia do que EU sinto? Fazes alguma ideia do que é ser olhada de lado por todos? “Olha, lá vai aquela que roubou o marido à irmã!” Ou então chegar a casa dos pais e ser tratada com frieza? – A culpa não é minha! – Pois eu também não tenho culpa de amar o Eduardo… Joana e Miriam, junto a uma mesa de bebidas. Joana observa 2 casais, ao fundo da sala. – Eu não acredito! Mas é que eu não acredito mesmo! – a incredulidade de Joana. – O que foi? – a estranheza de Miriam. - O Júlio! Mas o que é que ele está a fazer aqui? E ainda por cima com a mulher! – Qual é o espanto? Se eles são casados, é normal que vão a festas juntos! – Mas não pode ser! – A mulher dele sabe…do vosso caso? – Claro que não! Mas não é por causa da mulher do Júlio. É o Alberto! – O Alberto…? – a perplexidade de Miriam. – Sim, o Alberto, Alberto! – Ah, o Alberto! E também está cá? – Está! Com a mulher! – E estás com medo que as mulheres descubram? – Não! Elas não fazem a mínima ideia! – E então? – O problema são eles! Sabes como são os homens: têm várias mulheres, mas depois querem ser os únicos nas nossas vidas! – Então tens medo que eles venham a saber um do outro! – Achas que eu ia esconder uma coisa dessas?! – Desculpa? Eles sabem…um do outro?!! – Claro! Eu não engano ninguém! – Pois! – a ironia de Miriam. – É verdade. Eles sempre souberam um do outro! – E as mulheres deles? – Elas não são problema meu! Eles que lhes contem. Não sou eu que tenho que fazer isso! – Admiro a forma como tu resolves essas questões de consciência! – Já sei que te faz confusão este meu estilo de vida. Mas apenas sou honesta! – Se tu o dizes! – Desculpa, podes acusar-me de muita coisa, menos de ser traiçoeira. Para começar, não me caso, porque já sei que não vou honrar o compromisso. Ou seria melhor arranjar marido mesmo sabendo que lhe iria enfeitar a testa? Só para ficar bem vista pela sociedade? Hipocrisia, minha amiga! – Eu não te julgo. Da tua vida sabes tu! – Não me julgas, pois! Nunca concordaste com esta minha opção. – Não é discordar. É mais não compreender! 56
– O que não compreendes? – a perplexidade de Joana. – Sinceramente? O facto de te relacionares com dois homens ao mesmo tempo, ainda por cima casados! – Minha amiga, para tudo há explicação! Eu só me relaciono com homens comprometidos, porque eu sei que eles jamais deixarão a mulher (porque eles nunca deixam!) e assim não corro o risco de ter que assumir uma relação mais séria! Fico só com a parte divertida! – E as mulheres que lhe cosam as meias, não? – Exactamente! – E porquê dois? – Não é lógico? Um é lindo de morrer! E o outro é culto, inteligente, romântico… Enfim, os dois juntos fazem o homem perfeito! E não é o que todas queremos? O homem perfeito?! – Olha, parece que os teus “namorados” estão um pouco exaltados um com o outro. – Miriam olha para o fundo da sala. – Estás a ver?! É sempre assim! – Joana verifica que os dois homens estão envolvidos numa discussão acesa. – Mas as mulheres deles estão aqui! Eles não são loucos! – Arranjam sempre um motivo para fazerem confusão, mas, na verdade, discutem por minha causa! – Mas eles conhecem-se? – As mulheres são primas! – Tu metes-te em cada uma! – É uma questão de raciocínio: assim um ajuda a esconder o segredo do outro porque não quer o seu próprio segredo revelado! – Que grande embrulhada! Se a bomba rebenta… – Não rebenta, fica descansada! – Queria ter essa tua confiança! Bernardo encaminha a noiva para o seu lugar. Tomás aproxima-se acompanhado por uma rapariga. – Então? Desapareceram! – comenta Bernardo. – Estava a mostrar os jardins à Bianca! – explica Tomás – Querida, acho que ainda não te apresentei a noiva do Tomás. – Bernardo dirige-se a Carolina – Noiva?!!! – a rapariga olha estarrecida para Tomás, que não a consegue encarar. – Mas eu pensei… - olha para Bianca, perplexa. – Muito prazer! Peço desculpa não ter conseguido assistir à cerimónia, mas os negócios em Bruxelas retiveram-me por muito mais tempo do que eu gostaria. – desculpou-se Bianca. – Eu não sabia que …o Tomás…tinha uma noiva! – Carolina, titubeante. – É! Ele gosta de manter a nossa relação secreta! – Bianca brinca. – Não é bem assim! Trouxe-te a Portugal, ou não? – Tomás, visivelmente irritado. 57
– Meu amor, estava apenas a brincar! – Bianca tentou acalmá-lo. – Mas…já namoram…há muito tempo? – a curiosidade de Carolina. – Perto de 3 anos! Mas este maroto dá um passo de cada vez! E muito lentamente! – a noiva de Tomás ri-se. – Devagar se vai ao longe! Qualquer dia são vocês a casar! – sugeriu Bernardo. – Só se eu lhe apontar uma arma à cabeça! – Bianca e Bernardo riem. Tomás continua sem conseguir encarar Carolina. – Os homens são todos assim! – a irritação de Carolina. – Não sejas injusta! Eu é que te pedi em casamento! E não nos conhecíamos assim há tanto tempo! – Bernardo, meigamente. – Oh, que bonito! Amor à primeira vista? – Bianca enternecida. – É! Pode-se dizer que sim! – muito terno, Bernardo dá um beijo na face da noiva, que continua com uma raiva contida. – Dão-me licença? Preciso de trocar duas palavras com as minhas amigas! – Carolina desculpa-se. – Já viram? Ainda agora me casei e já sou trocado pelas amigas! – a boa disposição de Bernardo. No jardim, Carolina junta-se às amigas. – O que foi? Estás cá com uma cara! – a preocupação de Luísa. – Joana, dá-me um cigarro! – a noiva ordenou. – E desde quando é que tu fumas? – a estranheza da amiga. – Vou começar hoje. Dá cá! – Calma! Porque é que não nos contas o que aconteceu? – Miriam segura a amiga pelos ombros. Carolina chora, mas faz um esforço para se controlar – Não me digas que o Bernardo… – Não! Muito pior! – Pior? Então, quem é que descobriu? – Não, ninguém descobriu. – Importam-se de parar com essa conversa de loucos? – gritou Joana. – Descobrir o quê? – a curiosidade de Luísa. – Há uma coisa que vocês não sabem… Carolina olha para Miriam, indecisa, não tendo coragem para revelar o seu segredo. – O quê? – a insistência de Luísa. – Conta-lhes! – o conselho de Miriam. – Tu já sabes do que se trata? – Joana interroga Miriam. – A Mi só o descobriu hoje. Por acaso… – a justificação de Carolina. – É! Abri a porta da casa de banho… – Miriam cala-se quando repara no que ia dizer. – E encontrou-me aos beijos com o Tomás. – concluiu Carolina deixando as outras duas perplexas. – Bem…hum…só fazes bem. Dar uns amassos naquele deus grego! Porque, meninas, convenhamos, aquele Tomás é um pedaço de mau caminho! – concordou Joana. 58
– Joana! – ralhou Luísa. – Qual é o problema? Ela está casada, não está morta! Fazes tu muito bem! retorquiu Joana. – Pára! – a fúria de Luísa. – Retrógrada! – a resposta da outra. – Meninas! O caso é sério! – Miriam tentava acalmar os ânimos. – Eu não queria! O Bernardo é…o sonho de qualquer mulher…mas, quando vi o Tomás…não sei…aconteceu! Pimba, estava apaixonada. Completamente de quatro! – a justificação de Carolina. – Na, na, ni, na, não! Carolzinha, mas, com estes anos todos de convivência, e tu não aprendeste nada comigo? Apaixonar não vale! Isso é ainda pior do que casar! Não viste o que aconteceu com a Lu? E a Miriam? – o conselho de Joana. – Hei! Inclui-me fora dessa! – a irritação de Miriam. – Não sei porquê! Sofreste que nem uma condenada por causa daquele Miguel. Andaste com a vida para a frente e 5 anos depois, pimba, aí está ele novamente: lindo e moreno a dar-te uma enorme colher de chá! E, confessa, tremeste na base. Ou não? – Não! Não! Eu não sou o assunto! – Mas…Carolina… e agora? – interrompeu Luísa – Agora? No dia do meu casamento, o Tomás disse-me que é para esquecermos tudo! Pior, apareceu-me com a noiva. Uma duquesa belga! Que ainda por cima me esfregou isso bem na cara! – seguiu-se um silêncio de consternação. – Pensa que foi melhor assim! E fazes o que ele te disse: esqueces! – opinou Miriam. – Nunca poderei esquecer. É impossível! – Então, guarda bem dentro de ti essa bela memória. E segue em frente. Com o Bernardo, que é absolutamente maravilhoso! – Isso é! - Carolina chora e Luísa conforta-a. – Então? Hoje é o dia do teu casamento. O dia mais feliz da tua vida! – Oh miúda! Ânimo! Pensa que a tua vida está a começar agora! – Joana, comovida. – E o que me espera, hã?
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A Batalha – Paulo Rondo de Melo ACTO I Reino de Wightland Ano 1534 Cena I A escuridão da noite é contrastada pela luminosidade existente dentro do castelo, festeja-se o aniversário de Andrew, o filho mais velho do Rei de Wightland. A festa está animada, o bater constante dos copos, os gritos de alegria e as danças típicas alegram o rosto enrugado do Rei John II, que sentado no seu trono ao lado da esposa, a Rainha Eleanor, não consegue esconder todo o seu contentamento. Rei: Eleanor, olhai como o nosso filho está feliz. Rainha: De facto, meu querido esposo, há muito que não o via assim. Rei: É verdade, nem nos aniversários precedentes... Rainha: É que este ano ele conheceu Mary, a quem entregou o seu coração e a todos nós a sua alegria. Rei: Ela é uma bela donzela, basta dizer que é filha do nobre Duque de Wallace. Mas onde está o nosso outro amado filho, Anthony? Rainha: Deve estar no jardim com uma das suas donzelas... Rei: Esse meu filho continua, constantemente, a trocar de dama. Rainha: Ele diz que o seu coração é do tamanho do nosso reino, por isso amar é, segundo ele, a principal essência da vida. Rei: Principal?! Eu diria a única, meu amor. Vede seu irmão Andrew, cujo senso de responsabilidade fez dele o melhor guerreiro do nosso reino,
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deixando o meu coração tranquilo, esperando que a natureza feche de vez os meus olhos cansados. Olhai Eleanor, Andrew chama-vos. Rainha: Dai-me licença meu esposo, vou ao encontro do nosso filho. Andrew tem cabelos loiros e curtos, olhos verdes, é de alta estatura e uma forte envergadura física, o brilho patenteado nos olhos espelha toda a felicidade que sente, à medida que sua mãe se aproxima... Rainha: O que quereis meu caro primogénito? Andrew: Convidar-vos para dançar. Rainha: Ah! Sabeis que já não possuo a elegância de outrora, o tempo não perdoa. Andrew: Para mim sois como o Sol, nasceis todos os dias. Para os meus olhos sereis sempre jovem e bela. Rainha: Hum... Estou convencida, vamos dançar. Andrew: Onde está o meu irmão? Rainha: Acho que está no jardim. A propósito, Mary não estava ainda agora convosco? Andrew: Estava, mas foi ao jardim apanhar um pouco de ar fresco. Rainha: Ela conquistou o vosso coração, vejo-o através do brilho dos vossos olhos quando falais dela. Andrew: Completamente! Ela é a prova que, afinal os sonhos se realizam. Neste momento ela é a dona dos meus pensamentos, dos meus actos, admito que preciso dela como do ar que respiro, no fundo sou apenas um escravo do amor. Estas palavras emocionaram a Rainha, uma dama quinquagenária de cabelo grisalho com alguns fios loiros, restos de uma juventude feliz. Mantém a doçura e elegância de outrora apesar do tempo ter-se encarregue de enrugar o seu belo rosto. Os seus olhos verdes eram conhecidos por terem mais brilho que a própria coroa que ostenta, sendo esse o resultado da estima que ainda detém no reino. Entretanto, o Rei e o seu conselheiro Randolph, conversam tranquilamente... Rei: Randolph, meu caro amigo, também fostes como um pai para Andrew, ensinastes-lhe a guerrear, destes-lhe sempre tanto apoio, estais feliz? Randolph: Como nunca, meu caro senhor. A criança que brincava pelos corredores do castelo cresceu e tornou-se um homem forte e inteligente e, indiscutivelmente, um motivo de orgulho para todo o reino. Neste momento, entra na festa Edward, um indivíduo de cabelos castanhos lisos e curtos, com olhos da cor do mel, a roupa preta que enverga contrasta com o ambiente colorido que o rodeia. O seu ar apático, distraído e a sua notória magreza mergulham-no nas redes do anonimato. 61
Randolph: Meu bom senhor, olhai quem acaba de entrar. Rei: Edward!! Ao ver o Rei, Edward vai ao seu encontro... Edward: Boa noite, Vossa Majestade. Rei: Boa noite, Edward, não vos esperava aqui hoje... Edward: Bem sei, mas como bom servidor deste reino, o convite representou um prémio e a minha presença uma obrigação, mas deveis reconhecer que tenho boas razões para aqui estar. Rei: Reconheço a verosimilhança das vossas palavras. Edward: Espero que a minha presença não seja um motivo de embaraço... Peço a vossa licença, vou dar um passeio no jardim pois está uma noite muito bonita. Rei: Com certeza. Por favor, tentai divertir-vos nesta noite de festa, meu filho. Edward sai demonstrando um certo desencanto no seu olhar. Rei: Randolph, esse pobre jovem provoca-me sempre sentimentos contraditórios. Randolph: Explicai-vos, por favor, Vossa Majestade. Rei: O meu coração salta de alegria sempre que o vejo, mas logo a seguir é inundado por um sentimento de enorme tristeza e culpa por não poder tratálo como aquilo que ele é, ou seja, meu filho, meu pobre filho bastardo, fruto indesejado de um pecado da minha turbulenta juventude, um erro que o faz sofrer e a mim traz o desespero, pois amo-o como aos meus outros dois filhos. Randolph: Deveis reconhecer que nunca lhe faltou nada. Vossa Majestade sempre assumiu todos os encargos para a sua educação. Rei: Sei que ele nunca passou fome, mas também nunca foi completamente feliz, pois nunca lhe pude dar o amor que merecia. Ele não teve nem sequer o amor da sua mãe, que como sabeis perdeu a vida ao dar à luz o meu pobre filho. Randolph: No entanto, a sua tia encarregou-se de criá-lo, com o vosso apoio material. Rei: Isso é verdade, no entanto Hilary aproveitou-se desse facto, desde o início, para garantir a si própria uma vida de luxúria. Sabeis bem que ela nunca foi capaz de lhe dar o amor que ele merecia, chegando até a maltratálo por diversas vezes. Randolph: É o que dizem, mas agora pouco interessa pois ela já faleceu. Rei: Mas antes contou toda a verdade a Edward. Randolph: Ele próprio prometeu-vos silêncio, Majestade. Rei: E renunciou a todo o apoio que eu lhe dava. 62
Randolph: A partir do momento que foi aceite na guarda real, tornou-se independente e orgulhoso.
Cena II No jardim, o silêncio abafa o barulho da festa, que apenas se ouve ao longe. A beleza abraçara a noite e o céu é um manto de estrelas que completa o brilho facultado pela gigante bola de neve que ilumina os corações dos amantes. Edward contempla todo este cenário algo maravilhado. Edward: Oh! Natureza, como sois bela! Dais tanta beleza aos nossos ingratos olhos, mas hoje nem a vossa luz pode iluminar a escuridão que sinto na minha alma. Todos se divertem menos eu, é o aniversário do meu irmão e não lhe posso dar um caloroso abraço, pois ele mal me conhece. O meu sangue real de nada vale, eu não valho nada, sou somente um bastardo! (olha para o chão) Maldita palavra!! Ouve-se um choro no meio da imensidão verde do jardim, ao aproximar-se lentamente do local, Edward vê uma donzela sentada num banco de mármore, com o seu corpo debruçado. Traz um lindo vestido rosa, as suas mãos afastam lentamente os seus longos cabelos, pretos e ondulados, do seu belo rosto, coberto de lágrimas. O seu olhar triste fulmina o jovem bastardo como um raio. Edward: Numa festa há sempre alguém que sofre, hoje pensei que fosse somente eu. Mary: (limpando rapidamente as lágrimas do rosto) Vedes agora que não sois. Edward: Como sois bela! A dor que corrompe a vossa alma está explícita nas lágrimas que escorrem pelo vosso doce rosto provocando no meu sofrido coração sentimentos que nunca sonhei poder sentir. Acreditais no amor à primeira vista? Mary: (surpreendida) O que dizeis!? Penso que não... Edward: Também não acreditava… mas dizei-me, porque chorais? Mary: Choro por não amar alguém que me ama demasiado; mas não acho que lhe possam interessar os meus problemas... Edward: Então o vosso coração é um pássaro preso numa gaiola. Mary: Fechada à chave, mas devo aceitar o destino traçado pelo meu amado pai. Edward: Quisera eu saber onde está a chave, pois neste momento é algo fundamental para a minha felicidade. Mary: Por que motivo a razão e o amor são, por vezes, tão incompatíveis? 63
Edward: A razão persegue o amor sistematicamente, pois inveja toda a sua força e imprevisibilidade. Quando o alcança, mata-o imediatamente, mas depois disso não consegue exultar pois sente-se irremediavelmente vazia. Mary: No meu caso, a razão matou o amor antes mesmo deste nascer, se ao menos pudesse escolher quem amar... deveríamos amar somente quem merece o nosso amor, mas nem sempre é assim... como eu gostaria de retribuir todo o amor que recebo... Edward: Como eu gostaria de receber todo o amor que dou. Mary: Qual é o vosso nome? Edward: Chamo-me Edward, e o vosso? Mary: O meu nome é Mary, sou a filha do Duque de Wallace. Céus, tenho de voltar à festa, já devem estar à minha procura! Adeus! (afasta-se a correr enquanto vai limpando o rosto) Edward: Oh vida! No meio das cinzas nasceu uma flor no horizonte da minha alma. Nesse instante, surge Robert, tem cabelos castanho-claros, uma testa larga que faz prever uma calvície num futuro próximo, longas patilhas e olhos castanhos. É conhecido pela sua elegância e pela voz algo aguda. O facto de ser afilhado do Rei tornou-o respeitado em todo o reino. Ao ver Edward, tosse propositadamente para chamar a sua atenção... Robert: As minhas saudações, meu caro. Edward: Como está o cavalheiro mais requintado do reino? Robert: Bem, obrigado. É deveras surpreendente ver a pessoa mais melancólica que conheço estar tão bem-disposta. Edward: A minha vida tem sido uma travessia penosa por um deserto, a escuridão cega-me, a solidão acompanha-me. Esta noite, no entanto, surgiu uma estrela que iluminou essa escuridão. Robert: Se essa luz significa a vossa felicidade, esforçai-vos para a alcançar de qualquer forma, não olhando a meios para o fazer, pois esses representam apenas um pormenor. Edward: Não sei se estarei à altura... Robert: Se não tentais como o sabereis? Edward: Tendes razão, mas sinto-me acorrentado pelos meus medos, traumas e complexos... perdoai-me, mas agora devo retirar-me. Tenho algo para sonhar esta noite. Se aqui ficar, correrei o risco de estragar o que comecei a construir. Adeus! Robert: Até breve.
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Cena III Novamente dentro do castelo, a festa continua animada, enquanto o Rei e a Rainha admiram os seus filhos a dançar com as respectivas damas. Entretanto, entra Robert. Robert: Saúdo-vos, caro Rei e encantadora Rainha. Rei: Meu caro afilhado, é com imenso prazer que vos recebo. Robert: O prazer é todo meu, mas onde se encontra Andrew? Rainha: Oh! Aí vem ele com a sua dama. Andrew: Robert! Meu amigo, agradeço-vos por enriquecerdes a minha festa com a vossa presença. Robert: Não podia faltar, tinha que dar-vos os parabéns. Anthony: Estais sozinho? Robert: Sim, mas vejo-vos bem acompanhado. Mary... (beijando-lhe a mão)... o vosso esplendor e beleza deixam-me sem palavras... Andrew: Mary é uma ladra. Mary: (ofendida) O que dizeis?!? Andrew: Haveis roubado o meu coração, isso torna-vos a ladra mais encantadora do mundo. Robert: A vossa felicidade emociona-me e torna ainda mais deslumbrante esta festa. Andrew: Meu caro irmão, penso que é altura de fazermos o anúncio que tornará esta festa memorável. Anthony: Estou de acordo. O príncipe primogénito dirige-se ao encontro de seu pai e pede que este ordene silêncio para que possa falar aos presentes. O seu pedido é imediatamente acedido. Andrew: Antes de tudo, agradeço-vos pela vossa presença na minha festa de aniversário. É uma honra! Pedi este momento de silêncio para anunciar-vos que o meu coração rendeu-se à beleza e graciosidade de Mary e, consequentemente, quando os pássaros anunciarem o fim da jovem Primavera, esposarei esta beldade, caso os nossos pais aprovem. (ouvem-se aplausos e gritos de alegria)... Rei: Oh! Meus caros filhos, dou-vos a minha bênção. Rainha: Eu também, com muito gosto. (a festa continua animada)...
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Rainha: Andrew, meu adorado filho, como é possível esconderdes uma notícia tão boa de mim? Andrew: Queria fazer-vos uma surpresa pois sei o quanto haveis esperado por este momento. Rainha: Sabeis que sempre considerei Mary uma donzela adorável e tenho a certeza que, no futuro, será uma boa Rainha. (a festa atinge o seu rubro, Robert convida Mary para dançar, esta aceita peremptoriamente, deslizando seus corpos suavemente pela sala) Robert: Dançais divinamente! Mary: Obrigado, meu senhor. Robert: Nunca vi Andrew tão feliz, não o censuro pois sois uma beldade única, uma obra-prima da natureza, o vosso pai tem razões para se sentir orgulhoso por haver gerado um ser tão belo. Se ele não estivesse ausente do nosso reino por certo estaria feliz por ver-vos assim tão deslumbrante. Mary: Sois muito gentil, senhor. (chega Andrew) Andrew: Caro Robert, peço-vos que me deixeis dançar com a futura Rainha. Robert: Claro que sim, mas depois fico à espera de ser o próximo felizardo... Posteriormente, Mary junta-se à Rainha, a pedido desta. Rainha: Chamei-vos para felicitar-vos pelo noivado. Mary: Agradeço-vos, Vossa Majestade. Rainha: Queria que soubésseis que aprovo incondicionalmente o vosso noivado, não sei como haveis conseguido, o meu filho mudou. O amor e a confiança que nele depositais farão com que o vosso nome fique escrito no seu coração para sempre. Andrew, ao amar-vos, encontrou-se a si próprio. Andrew aproxima-se e toma a noiva nos seus braços, dançando como se estivesse entre as nuvens. Andrew: Estais feliz, meu doce amor? Mary: Direi que ainda estou a tentar perceber o que se está a passar... Andrew: Eu sei que devia ter-vos feito o pedido na presença do vosso pai, mas não resisti a fazê-lo hoje pois sei que ele aprova incondicionalmente o nosso casamento. Mary: Sim, mas... Andrew: Eu sei que dois meses e meio é pouco tempo para os preparativos do casamento, mas tudo se resolverá. (beija-a) 66
A Vida é como um Livro – Sérgio Brázio CAPÍTULO I A triste menina Era uma vez uma triste menina. Ela tinha sete anos e chamava-se Ana. Era uma rapariga linda, baixinha, tinha o cabelo castanho claro quase loiro, pele clara e usava uns óculos com graduação azul. Os seus pais chamavam-se Roberto e Paulina. Ana desconhecia a profissão dos pais. Eles eram proprietários duma casa de prostituição, e chefes duma rede de pedofilia. Enganavam jovens raparigas, dizendo que seriam actrizes ou modelos, e raptavam crianças para depois vender a pedófilos. Os pais de Ana, discutiam muito com ela, e batiam-lhe sem razão. Um dia, Ana pergunta ao pai qual é a profissão dele e da mãe. Roberto estava bêbedo, e começa a bater e a rasgar a roupa da filha e viola-a. Depois de violar a pobre da menina, Roberto vai-se embora, vai para a casa de prostituição, e deixa Ana magoada e deitada no chão frio do seu quarto. Ana resolve fugir. E foge. Foge com sentimentos de repugnância, tristeza e ódio. Foge para casa duma vizinha muito sua amiga chamada Maria. Quando Ana chega a casa de Maria esta diz: – Oh meu Deus! O que te aconteceu? Ana vinha nua e a chorar. Tinha marcas de socos na face e corpo. Ana abraça logo Maria, e nada diz. Então Maria, leva Ana para dentro de casa. Liga para a polícia e chama uma ambulância. Maria começa a tratar dos ferimentos de Ana, dá-lhe roupa e tenta animá-la, para ela parar de chorar. 67
Quando Ana pára de chorar, Maria volta a perguntar: – O que é que aconteceu? Ana baixa a cabeça, e põe as mãos em cima da vagina. – Dói-me...- murmura. – Dói-te o quê? - pergunta Maria. Ana fica uns segundos calada, olha para cima e responde: – Dói-me o pipi. – Quem te fez mal? – O papá... – Pronto já passou. Agora estás a salvo. – Não quero viver mais com os meus pais. Quero viver contigo. – Oh Aninha! Eu ia adorar, mas...- Maria tenta explicar, que não podia ficar com ela assim sem mais nem menos. Mas a menina recomeça a chorar, e abraça Maria dizendo: – Gostava que a minha mãe fosses tu. Maria fica tão emocionada que resolve adoptar Ana. E entretanto, chega a polícia e a ambulância, que Maria tinha chamado. Explica à polícia o que aconteceu, e Ana é levada para o hospital e é, examinada por médicos para se saber se a menina foi abusada ou não. Os pais de Ana são detidos, e Maria vai a tribunal para conseguir a custódia de Ana. Felizmente, Maria consegue a custódia de Ana, e pela primeira vez na vida, a menina sente-se feliz. E vão viver para longe daquela zona.
CAPÍTULO II A menina feliz Passados três anos... Ana tem agora dez anos. Vive feliz com Maria, num pequeno apartamento em Oeiras. Maria arranjou emprego no Orfanato da Piedade, que fica em Sintra perto da Serra. Num sábado de manhã... – Vais trabalhar? - pergunta Ana, ao levantar-se e ver Maria na cozinha. – Sim Aninha. - responde Maria. – Oh! Mas hoje é Sábado. Disseste que íamos passear. – Eu sei. Desculpa. Mas a directora do orfanato, marcou uma reunião muito importante para hoje. Ana olha tristemente para as mãos, e depois levanta a cabeça e diz: – Não faz mal. – Eu telefonei à Joana. – A sério?! Vou passar o dia com ela? 68
Sim. Por isso vai vestir-te, pois ela deve estar a chegar. Ana vai logo a correr para o quarto. Tira o pijama cor-de-rosa, e veste uma t-shirt branca com riscas cor-de-rosa, uma saia cinzenta até aos joelhos e calça uns ténis azuisclaros. A campainha toca, e Maria abre a porta. – Olá Joana. - saúda Maria. – Olá Maria. A Ana está pronta? - pergunta Joana ao entrar. Joana era uma jovem de vinte e um anos. Alta, magra, com cabelo preto até aos ombros, e possuía uns belos olhos castanhos. Era proprietária duma livraria em Lisboa. A livraria O Poema do Amor sem Dor. – Sim. - responde Maria. - Ela está só na casa de banho a pentear-se. E passados poucos minutos, Ana sai a correr da casa de banho, e cumprimenta Joana com um abraço. – Olá Joana! – Olá pequena! Estás muito bonita! E Ana vai com Joana. E Maria vai para o orfanato. – Olá. - diz Ana a Lizete, ao chegar à livraria de Joana. – Olá! - saúda Lizete. Lizete era uma rapariga de dezoito anos, e nos tempos livres ia fazer umas horas na livraria. – Ana, queres ajudar-me a arrumar estes livros nas prateleiras? - pergunta Joana, ao apontar para umas caixas que estavam ao pé da porta de entrada. – Sim. - responde a menina com um doce sorriso. – São livros que chegaram hoje de manhã. – Vieram de onde? – Vieram de várias editoras. Ana pega numa caixa, e Joana noutra. Joana explica a Ana, como se arrumam os livros nas respectivas prateleiras. Entretanto, Maria chega a Orfanato da Piedade. Estaciona o carro, e entra numa enorme vivenda cor-de-rosa, com um esplêndido jardim á volta e com uma quita na parte de trás. Maria dirige-se para o gabinete da dona Teresa, a directora. Uma elegante senhora de sessenta e quatro anos. – Bom dia. - saúda Maria, ao entrar no gabinete. – Olá Maria. - saúda Teresa. - Esta é a Dra. Luísa. - apresenta-lhe uma mulher com ar bondoso, cabelo castanho, olhos desta mesma cor, pele bronzeada e rosto muito bonito e cheio de maquilhagem. – Prazer em conhecê-la. - dizem uma à outra. – A Dra. Luísa é uma agente social. – Aconteceu alguma coisa? - pergunta Maria preocupada. – Não Maria. Não te preocupes. Estávamos à tua espera para começar a reunião. explica Teresa. E Maria senta-se ao lado de Luísa, à frente da secretária de Teresa. – Eu vim cá, porque este é sem dúvida, o melhor orfanato do país. - começa Luísa. –
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Oh!...Obrigada! - agradece Teresa corando. – Eu quero saber, se têm condições para terem, uma criança de nove anos, que é paraplégica. – Sim. - responde Teresa. – Então esta criança anda numa cadeira de rodas? - pergunta Maria. – Sim. - responde Luísa, e abre uma mala e tira uns documentos sobre a criança, e mostra-os a Teresa e Maria. – Esta criança, é uma menina muito, mas mesmo muito querida. Infelizmente foi maltratada pelos pais. – É por isso que ficou paraplégica? - pergunta Maria. – Sim. – Que horror! - exclama Teresa, quando lê os documentos. – Como é que isto aconteceu? - pergunta Maria. – Quando Mafalda... – Mafalda? É este o nome dela? - pergunta Maria, interrompendo Luísa. – Sim. – Continue. - pede Teresa. – Quando Mafalda tinha seis anos, a sua mãe empurrou-a das escadas, e ela fracturou a coluna. Mas segundo alguns médicos, Mafalda pode voltar a andar. – A sério?! - perguntam Teresa e Maria ao mesmo tempo. – Sim. Por isso, se aceitarem a Mafalda aqui, têm de a levar duas vezes por semana ao médico, para fazer terapias. – Claro. - responde Teresa. – Fale mais sobre Mafalda. - pede Maria. – O que aconteceu aos pais? – A mãe da menina foi presa naquela altura, mas já está em liberdade. Mas está proibida de se aproximar de Mafalda. – E o pai? - pergunta Teresa e Maria ao mesmo tempo. – Depois da mãe de Mafalda ter sido presa, o pai ficou a cuidar dela. Mas um ano depois foi apanhado em flagrante, a tentar violar uma menina de três anos, no infantário onde trabalhava como porteiro. – O quê?! - diz Maria. – A Mafalda também foi abusada? – Não tenho a certeza. A menina nunca quis falar sobre isto. – O pai dela foi preso, não foi? - pergunta Maria. – Sim. Mas um ano e meio depois saiu em liberdade. Também está proibido de se aproximar de Mafalda. – Deixaram sair este monstro em liberdade! - exclama Maria. - Que raio de justiça é esta? – Tem razão. A justiça às vezes, é muito injusta. - responde Luísa. – Quando é que traz a Mafalda? - pergunta Teresa. – Trago-a na segunda-feira. Pode ser? – Claro. Entretanto na livraria... – Já arrumei os livros todos. - diz Ana. –
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Muito bem. És uma óptima ajudante. - elogia Joana. – Olá. Bom dia. - saúda uma jovem, ao entrar na livraria. – Então Rita. Vieste comprar um livro? - pergunta Joana. Rita era uma jovem muito bonita, de cabelo castanho ondulado, usava rabo-de-cavalo, tinha olhos pretos e rosto inocente, com um tom rosado. – Quem é esta menina? - pergunta Rita. – É uma amiga. - responde Joana. - Chama-se Ana. – Olá. - dizem uma à outra. – Vieste comprar um livro? - volta Joana a perguntar. – Sim. - responde Rita, e dirige-se para a secção de livros infantis. Passados uns minutos... – Vou levar este. - diz Rita, que chega ao pé de Joana com um livro. – «A Noite Fantástica da Ritinha». - diz Joana, ao ler o título do livro. – É bom? – Não sei. Ainda não li. Este livro chegou hoje. Rita paga o livro, e vai-se embora. – Quem era aquela senhora? - pergunta Ana. – É uma amiga. - responde Joana. - Ela trabalha aqui em frente, na Ópera Classical. – Ela é cantora? – Não, é pianista. – Ah!... – Bem. Vamos almoçar? - pergunta Joana, ao olhar para o relógio. – Sim. – Queres ir a onde? – Quero ir ao Mc Donald’s. – Está bem. E Ana e Joana vão almoçar. – Porque é que a Lizete não veio connosco? - pergunta Ana, ao dar uma dentada no seu hambúrguer. – Ela foi almoçar com o namorado. - responde Joana. Horas mais tarde, na livraria, por volta das cinco. – Vamos embora, Ana. – Já?! Mas não me vais levar a casa só às oito? – Sim. Mas não te vou levar já para casa. – Então vamos onde? – Vamos assistir a um concerto, na Ópera Classical. – Vamos ver a Rita? – Talvez. Joana diz a Lizete, que ela hoje é que fecha a livraria. E vão para a Ópera Classical. – Qual é o concerto que vamos ver? - pergunta Ana, ao chegar à ópera. – Vamos ouvir «As Quatro Estações» de Vivaldi, e o Concerto para Piano e Orquestra n.º1 de Tchaikovsky. Conheces estas peças? – «As Quatro Estações» de Vivaldi conheço. Mas o Concerto para Piano de Tchai...Tchaiii...Tchaikosgósgui... –
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É Tchaikovsky. – Ou isto. Não conheço. – Vais gostar, vais ver. Joana e Ana entregam os bilhetes, e entram no auditório. O auditório da Ópera Classical era belo e grandioso. O palco era grande. E havia um grande e majestoso lustre no tecto do auditório. A orquestra já estava no palco. Os músicos estavam a afinar os seus instrumentos. Passados pouco minutos, todo o público já tinha chegado. As luzes apagam-se. O maestro entra acompanhado pelo solista. O maestro era um senhor idoso. E o solista era um violinista alto, com cabelo preto pelo pescoço. Todos estavam bem vestidos, os homens com fraques e as mulheres com vistosos vestidos. Com ordem do maestro o concerto começa. Passados cerca de quarenta minutos, acabam os concertos de Vivaldi, e é intervalo. – Gostaste? - pergunta Joana. – Sim. Muito. - responde Ana encantada. - Tenho de aprender a tocar aquele instrumento. - pensa para ela. O intervalo é curto, e rapidamente começa o Concerto de Tchaikovsky. – Olha a Rita! - exclama Ana. – Agora vai começar o Concerto para Piano. - diz Joana. – Tem outra roupa. – Pois... Está muito bonita, não está? – Sim. Rita estava vestida com um belo vestido vermelho claro. De manhã, quando esteve na livraria, tinha vestido uma roupa muito diferente. Uma t-shirt cor-de-laranja, umas calças de ganga azuis claras e uns ténis brancos. Rita senta-se á frente de um belo piano de calda, e com ordem do maestro o concerto começa. No fim, Joana vai levar Ana a casa. – Olá. - saúda Maria ao abrir a porta de casa. - Como se portou a Ana? – Olá Maria. A Ana portou-se lindamente. - responde Joana. – Fomos a um concerto. - diz Ana. – A sério? Gostaste? – Sim. Muito. - responde Ana, e vai para o quarto descansar. Joana e Maria despedem-se. No dia seguinte, ao pequeno-almoço... – Maria? – Sim Ana. – Queria pedir-te uma coisa. - diz Ana, enquanto punha uma colher de leite e cereais na boca. – O quê? – Ontem gostei muito do violino. – É um instrumento muito bonito, não é? – Sim. Gostava de aprender a tocar. –
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Está bem. Eu depois telefono à Joana, para ela falar com aquela amiga dela. Acho que se chama Rita. – Mas a Rita é pianista! – Mas a Rita deve conhecer alguém que toque violino. – Tens razão. – Eu depois telefono à Joana. Ela vive com a Rita. Dividem o apartamento. – A sério? Ela nunca me falou disto! – Vá, agora despacha-te. Maria vai passear com Ana. – Oh! Vamos ver os peixes? - pergunta Ana, ao chegar ao Oceanário. – Sim. - responde Maria, quando vai á bilheteira comprar os bilhetes. Ana adorava ver os peixes e outros animais marinhos no Oceanário. Demoram a manhã toda. –
CAPÍTULO III A chegada de Mafalda No dia seguinte, Maria acorda cedo e vai acordar Ana, pois hoje era segundafeira, e Ana tinha aulas. Maria veste-se depressa e vai preparar o pequeno-almoço, enquanto Ana se levanta lentamente. Quando finalmente Ana chega à cozinha para tomar o pequeno-almoço, Maria diz: – Ana, eu hoje não te posso ir buscar à escola. – Porquê?! - pergunta Ana ao pôr uma bolacha na boca. – Porque hoje chega ao orfanato uma criança nova. E não sei a que horas venho. – Não faz mal. Eu venho sozinha. Quando Ana acaba de tomar o pequeno-almoço, Maria leva-a à escola, e depois vai para o orfanato. – Bom dia Teresa. - cumprimenta Maria ao entrar no gabinete de Teresa. – Olá. - saúda Teresa. – A Mafalda? Ainda não chegou? – Não. E passados poucos segundos, chega Luísa, empurrando uma cadeira de rodas, com uma menina. – Bom dia. Esta é a Mafalda. Mafalda era uma menina baixa, com cabelo castanho-escuro aos caracóis, olhos verdes e tinha um rosto belo e ar desconfiado. – Olá Mafalda. - cumprimenta Teresa. – Olá. Bem-vinda. - diz Maria muito contente. Mas Mafalda nada diz. E olha para Maria e Teresa com um olhar de desconfiança. 73
Ela não é muito faladora. Mas é boa rapariga. - diz Luísa. – Queres ir ver o teu quarto? - pergunta Maria. - E conhecer o orfanato e as crianças? E Maria mete-se atrás de Mafalda, para empurrar a cadeira de rodas. – Esta mala, - interrompe Luísa, e dá uma mala a Maria. - tem roupas e brinquedos de Mafalda. Amanhã trago o resto. – Obrigada. - agradece Maria. Depois de Maria sair do gabinete com Mafalda, Luísa pergunta a Teresa: – Podemos falar? – Claro que sim. E Luísa começa a falar sobre Mafalda. Sobre as idas ao médico. Passados longos minutos... – Bem. Acho que já lhe disse tudo o que deve saber sobre a Mafalda. - diz Luísa, e levanta-se. - Por isso vou-me embora. Mas quero despedir-me da Mafalda. – Claro. Eu levo-a ao quarto dela. E Teresa leva Luísa ao novo quarto de Mafalda, mas quando lá chegam, Mafalda e Maria não estavam lá. – A Maria e a Mafalda? - pergunta Luísa. – Onde estão? - pergunta Teresa, a uma funcionária, que estava a arrumar as roupas de Mafalda no roupeiro. – A Maria levou-a a ver os animais. - responde a funcionária. – Obrigada. - agradece Teresa. E Teresa leva Luísa ao jardim, que ficava na parte de trás do orfanato. – Uau! - exclama Luísa, ao ver o jardim. Tinha muitas árvores. Estava dividido em várias partes, umas com flores, outras com vegetais, e ainda, havia uma divisão, que ficava no fim do terreno, com uma cerca à volta. Aí havia: galinhas, patos, gansos, perus, porcos e uma vaca. – Vocês têm muitos animais. - diz Luísa. – Assim poupamos dinheiro nos ovos, carnes e leite. - responde Teresa. Olhe, ali estão a Maria e a Mafalda. Ao pé do lago a ver os patos. – Mafalda. - chama Luísa, enquanto se aproxima da menina. Mafalda olha para Luísa, e sorri. – Mafalda, tenho de me ir embora. Mas volto em breve. - Luísa ajoelha-se, ficando à altura de Mafalda, e abraça-a dizendo: - Não te preocupes, agora estás bem. E despedem-se. Na hora de almoço, Maria vai a casa almoçar, e Ana já tinha acabado as aulas. – Já falaste com a Joana? - pergunta a menina. – Sobre o quê? – Não te lembras? Para ela falar com a Rita. Para eu ter aulas de violino. – Ah sim! Eu falo depois. – Oh!... – Falo ainda hoje. Prometo. –
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Depois de almoço, Maria telefona para Joana. – Estou? - pergunta Joana, ao atender o telemóvel. – Olá Joana. Sou eu a Maria. - responde Maria. – Olá. Aconteceu alguma coisa? – Não. É que quero saber se a tua amiga Rita, conhece algum professor de violino. – Claro que conhece. Mas porquê? – A Ana gostou muito deste instrumento, e quer aprender. – Está bem. Eu falo com ela hoje. Vou almoçar com ela. – Obrigada. – De nada. Eu depois ligo. – Adeus. – Adeus. Assim que Joana desliga o telemóvel, Rita entra na livraria. – Olá. - saúda Rita. – Olá Ritinha. Preciso de falar contigo. - diz Joana. – Sobre o quê? – Lembras-te daquela rapariga que esteve cá no dia do concerto? – A... Ana? – Esta mesmo. Ela quer aprender a tocar um instrumento musical. – Piano? – Não. Violino. – Ah... Só podia... – Conheces algum professor? – Que raio de pergunta! Claro que conheço. - responde Rita, e abre a carteira, e tira um cartão. - Esta é a escola de música, onde eu dou aulas de piano e formação musical. A Isabel é violinista e professora. Também é minha colega da orquestra da Ópera Classical. - e dá o cartão a Joana. – Está bem. – Vamos almoçar? – Vamos lá. Horas mais tarde, Joana vai a casa de Maria. – Olá Joana. Entra.- convida Maria ao abrir a porta. – Olá. - cumprimenta Joana. – Olá Joana! - grita Ana, contente por ver uma amiga. – Tenho uma coisa para ti. – O quê? O quê? E Joana, tira o cartão da carteira, e dá a Ana. – Música Ilimitada. - diz Ana ao ler o cartão. – Sim. Alguém me disse que querias aprender a tocar violino. - diz Joana, olhando para Maria, que se ri. – A Rita também dá lá aulas? – Sim. Mas não de violino. Só de piano e formação musical. – Oh! Eu gostava que ela fosse minha professora. 75
Talvez seja Ana. Mas não de violino. Talvez formação musical. – Vamos lá no sábado de manhã. - diz Maria. – Tá bem. Dias depois, numa sexta-feira de manhã, quando Maria chega ao orfanato... – Boa Teresa, como está a Mafalda? – Está na mesma. Não quer sair do quarto. – Vou lá ter com ela. Hoje ela tem de ir ao médico. E Maria, vai ao quarto de Mafalda. Bate à porta e entra. – Bom dia Mafalda. – Bom dia. - murmura a menina. – Queres ir tomar o pequeno-almoço com as outras crianças? – Não. – E brincar com elas? – Não. – Queres ir... – Não. - grita Mafalda, interrompendo Maria. - Quero ficar aqui. Deixa-me em paz. – Calma Mafalda. Nós só te queremos ajudar. – Não quero a vossa ajuda. Não quero ajuda de ninguém. – Vá lá Mafalda. Não podes estar sempre aqui fechada, no quarto. Tens de conviver com as outras pessoas. Ter amigos. – Não. Não quero amigos. Não preciso deles para nada. – Toda a gente precisa de amigos. – Eu não. Não tenho e não quero. – Não tens amigos? – Não. – Nem a Dra. Luísa? Silêncio. Mafalda fica a pensar. – Ela é. - murmura muito baixinho. – Vês como tens. E eu também quero ser tua amiga. Silêncio. – Vim buscar-te para ires ao médico, fazer os teus tratamentos. – Não. Não quero. - grita Mafalda aterrorizada. - São muito dolorosos. – Mas tens de ser forte. Podes voltar a andar. Mafalda começa a chorar. – Vá lá. Não chores. Tens de ser forte, para voltares a andar. – Nunca vou conseguir. – Claro que vais. E nunca digas nunca. E Maria vai com Mafalda ao hospital. –
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A Noite Fantástica da Ritinha – Sérgio Brázio I Ritinha Era uma vez uma menina chamada Ritinha. Ela tinha sete anos. Era baixinha, linda, tinha cabelo loiro como o sol, olhos azuis como o mar, rosto claro como a neve e lábios vermelhos como uma rosa. Ritinha vivia numa vila, chamada Vila da Amizade, que tinha uma vasta floresta em redor. Ela vivia com os pais, numa pequena casa. Eram humildes. Os pais da menina, trabalhavam para uns ricos da vila. Nos tempos livres, Ritinha gostava de passear pela floresta. Ela não tinha amigos, pois as outras crianças achavam-na estranha, e gozavam com ela, porque Ritinha, gostava de falar com as flores e os insetos. Cantar com os passarinhos. E nadar com os peixes. Nesta vila, havia uma escola de música, onde Ritinha andava. Ela tocava flauta, mas como era pobre, ela só ia uma vez por mês às aulas de música, e não uma vez por semana como as outras crianças. Também não ia aos concertos, porque ela não tinha nenhum vestido lindo e belo, porque eram caros. Mas ela não se importava, ela preferia tocar flauta na floresta, para os seus amiguinhos animais.
II A festa Um dia, a mãe de Ritinha disse-lhe:
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– Ouve filha, eu hoje venho tarde, porque vai haver uma festa da casa dos meus patrões. – Posso ir, posso ir?! – pergunta Ritinha entusiasmada. – Não. A festa é só para gente rica, e não para pobres como nós. – Então porque vais? – Eu vou trabalhar. Servir o jantar. – E o papá? – Ele também vai. Vai servir champanhe aos convidados. – Oh…– suspirou Ritinha desanimada. – Vá lá, não fiques assim. Eu trago-te uns docinhos da festa. E ao ouvir a mãe dizer aquilo, Ritinha fica logo contente. – Agora despacha-te, senão chegas tarde à escola. – ordenou o pai. E rapidamente, Ritinha bebeu o seu leite com chocolate e comeu o seu pão com manteiga, e foi a correr para a escola. Ninguém brincava com ela nos intervalos. As outras crianças gozavam com ela e diziam que ela era estranha. Mas Ritinha, não se importava, e em todos os intervalos das aulas, ela falava com as flores que havia no jardim da escola, cantava com os passarinhos. No Inverno, ela gostava de brincar com as minhocas na lama. Na Primavera e Verão, gostava de ver as formigas a levar migalhas, que ela mesma dava. À tarde, quando as aulas terminaram, Ritinha foi para casa, mas seus pais já tinham ido para o trabalho, mas o lanche e jantar, já estavam prontos, era só aquecer. Ela vai para o quarto fazer os trabalhos da escola, e quando acabou, foi lanchar. Comeu uma grande fatia de bolo de chocolate que a mãe fez, e bebeu um copo de leite fresquinho. Depois, ela pega na sua flauta e mete-a no bolso da sua camisola. E sai a correr de casa e vai para a floresta. Aí, corria livre pelo campo cheio de flores, rebolava na verde e fofa relva, deitava-se de barriga para cima a ver as borboletas de mil cores a voar. Levanta-se, e vai a correr para a margem do lago. Olha com olhinhos de curiosidade, os pequenos e indefesos insetos, que andavam de um lado para o outro no chão. Olhava com olhos de encantar, a água clara e límpida do lago. Despe-se, e atira-se para dentro de água, e nada toda contente com os peixes.
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Quando saiu da água, deitou-se na margem a secar ao sol. E depois de seca, Ritinha veste-se. Tira a flauta do bolso da camisola, e começa a tocar. Ritinha só sabia músicas fáceis e simples. E os passarinhos, que estavam nas árvores, acompanhavam Ritinha, com os seus cantos. Ao fim da tarde, Ritinha regressa para casa e janta. Quando acabou de jantar, resolve ir ver a festa. Sai de casa, e vai para o palacete dos ricos. Chega-se ao pé de uma janela, e espreita. E lá estavam, pessoas todas bem vestidas, homens com fatos caros e elegantes, mulheres com vestidos compridos como os de uma princesa, e colares e outras joias caríssimas e brilhantes. As pessoas dançavam ao som das valsas. A sala era tão grande que cabia lá uma pequena orquestra. E Ritinha, começou a pensar nos sons que os músicos tocavam, e a pensar em sons da Natureza que se pareciam. E pensou: “O som calmo do piano, parecem pedrinhas a cair na água; o bater forte do tambor, parece o gritar da trovoada; o guinchar do violino, parece o cantar dos pássaros; o som do violoncelo, parece o murmurar do vento; o som do…” Até que… – Quem és tu?! – perguntou um homem, que apareceu de repente ao pé de Ritinha. – Hã…Eu sou… – tentou dizer Ritinha, mas estava assustada. – És uma ladrona! – Não sou não. E não é “ladrona” é ladra que se diz. – Não me corrijas. – grita o homem, e leva Ritinha para a sala grande. Leva-a à presença dos donos da casa. – Meus senhores, esta criaturazinha, estava a espreitar pela janela. Para depois roubar. – diz o homem que trouxera Ritinha. – Que horror! – exclama a dona da casa com um ar de superioridade e desprezo. – O que ias roubar? Hã!?! – grita o dono da casa, com voz horrível que assusta Ritinha. – Rita o que estás aqui a fazer? – pergunta a mãe. – Mamã… - murmurou Ritinha assustada, e começou a chorar. A sua mãe só lhe chamava Rita, quando acontecia algo grave. 79
– É a sua filha? – pergunta o dono da casa. – Sim… o que fez ela? – Ela andava a rondar a casa, para depois roubar. – respondeu o homem que trouxera Ritinha. – É mentira. Eu só queria ver a festa. – explica Ritinha aflita. – O que se passa? – perguntou o pai da Ritinha, que chegara entretanto. – A vossa filha ia assaltar a casa. – diz o dono da casa. – O quê?! Não acredito. – diz o pai da menina, pois sabia, que ela nunca roubaria. – Eu só queria ver a festa. – repete novamente Ritinha, a choramingar e aflita. – Mãezinha, – diz uma rapariguita, que se chegava ao pé da dona da casa. – ela anda na minha escola. Porta-se mal e é má aluna. – É mentira! Eu não me porto mal! – grita Ritinha. – A vossa filha é uma vergonha. Olhem para ela, toda suja, despenteada e vestida com estas roupinhas, ou melhor, trapos. – goza a dona da casa. – Como se atreve a dizer isto? Ainda não reparou na mentirosa da sua filha? – diz o pai de Ritinha. – Desapareçam! Estão despedidos! – grita o dono da casa. Ritinha começa a gritar e a chorar, e foge para a floresta. Os pais vão atrás dela, mas eles não conheciam a floresta como a Ritinha, então ela consegue desaparecer na escuridão da noite.
III O novo amigo Ritinha sentou-se na margem do lago. Começou a chorar. Os animais vinham vê-la, pois nunca a tinham visto triste. Ritinha sente uma brisa atrás de si, sente arrepios, mas ignora. De repente, sente algo tocar-lhe. Vira-se, e… Atrás de Ritinha estava um estranho ser. Parecia um menino, mas era pálido e quase invisível. Ela percebeu que era um fantasma. 80
Assustada, grita, e começa a fugir, mas apercebe-se que o menino fantasma ficara triste. Por isso, aproximou-se lentamente, e disse: – Olá. Eu chamo-me Rita. Mas toda a gente me chama Ritinha. – apresentou-se a menina, ainda com alguma cautela. O fantasma virou-se, sorriu e disse: – Eu sou o Júlio. Ritinha fica uns segundos em silêncio, e depois pergunta: – Tu… tu és… tu és um fantasma? – Sim. – Como… como morreste? Júlio ficou uns segundos calado. Fica com olhar triste, mas acaba por começar a contar: – Um dia, eu e os meus pais, viemos fazer um piquenique, a esta floresta, aqui perto da margem. Eu, sem querer, caí no lago, e afoguei-me. – Oh! Lamento… – Não faz mal, já foi há muito tempo. E tu? Porque estás triste? Ritinha respira fundo, e começa a contar o que tinha acontecido. Depois disto, vão os dois dar um passeio. – Eu vejo-te todos os dias. – diz Júlio. – Ah, sério? – Sim. A correr, a contar, a tocar flauta, a nadar, a brincar, a… Ritinha sorri. – Vamos onde? – Já vais ver. Vou mostrar-te a magia da noite. Júlio dá a mão a Ritinha, e vão caminhando pela floresta dentro, onde a menina nunca tinha ido.
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A Doce Vingança – Sérgio Brázio Capítulo I A menina do papá – Olha papá! – disse a pequena Samantha Seoane, ao seu pai, quando andava de bicicleta, pelo jardim da sua casa. Pela primeira vez a menina andava sem estabilizadores, aos quais ela chamava as rodinhas de apoio. – Muito bem pequenina! Estás a crescer. – disse o seu pai, Eduardo Seoane. Samantha era uma rapariguita de cinco anos, com cabelo castanho até aos ombros, olhos azuis e pele muito clara. Eduardo era um homem de trinta anos, com cabelo preto, olhos castanhos e pele morena. Enquanto Samantha andava livremente de bicicleta pelo jardim, o seu pai, que era escritor, estava sentado num banco de madeira em frente de uma mesa, a escrever um livro infantil, que seria dedicado à sua filhota. E chegou, um homem. Gordo, de cabelo grisalho, na casa dos quarenta e poucos anos. – Olá. – saudou ele. – Eu bem podia estar a tocar à campainha. – continuou, e sentou-se ao lado de Eduardo. – Tio Manel! Olá! – saudou Samantha. – Olha tio, já consigo andar sem rodinhas de apoio. – continuou Samantha, com voz infantil e orgulhosa. – Muito bem Samantha. Este homem, era Manuel Fernandes, tio de Samantha, e cunhado de Eduardo. 82
– Olá. – saudou Eduardo, sem tirar os olhos do caderno, e sem parar de escrever. – Estás a escrever um livro infantil? – perguntou Manuel. – Sim. – respondeu Eduardo. – Porque não escreves policiais, como eu? – perguntou Manuel, que também era escritor, mas ao contrário de Eduardo que só escrevia romances, novelas e livros infantis, Manuel dedicava-se só a escrever policiais. – Policiais?! Eu não gosto deste género literário, se é que se pode chamar isso. – Está bem… como queiras. Amanhã queres ir comigo, ao lançamento do primeiro livro de um amigo meu? Ele vai agora começar a carreira de escritor. – Que tipo de livro ele vai lançar? – Um livro de terror. – Vai começar a carreira de escritor, com um livro de terror?! – Qual é o problema? – Escritor que é escritor, escritor a sério, só escreve romances, novelas, poesia e livros infantis. Nunca terror. – Francamente! Nem acredito no que oiço! Como podes pensar assim? Escritor é todo o artista que escreve livros, seja em que género seja. – Hum… – Vens comigo ou não? Além disso, este meu amigo, é um grande fã teu. – O quê?! Estás a gozar comigo? – Não, estou a falar a sério. Vens ou não? Eduardo reflectiu um pouco, fechando os olhos, e metendo a mão na testa, e depois, com voz pausada respondeu: – Está bem. Eu vou. No dia seguinte, era segunda-feira. – Acorda filha. – disse Eduardo, ao entrar no quarto da filha. Samantha dormia como um anjo, na sua pequena cama, com colchão macio e lençóis cor-de-rosa. Dormia agarrada a um ursinho de peluche branco, que sua mãe lhe oferecera quando ela nasceu. – Acorda pequenina. 83
Samantha abriu lentamente os olhos. – Bom dia papá. – Vá levanta-te. Vou preparar-te o banho. Eduardo saiu, e foi para a casa de banho, e encheu a banheira de água morna, enquanto Samantha se levantava lentamente. Quando Samantha chegou à casa de banho, Eduardo ajudou-a a tirar o pijama amarelo, e deu-lhe banho. O banho de Samantha, demorava cerca de uns dez minutos, cinco para se lavar e outros cinco para brincar com a espuma, patinho de borracha e barcos de plástico. Quando acabou o banho cheiroso, Eduardo secou a filha e ajudou-a a vestir-se. Vestiu-lhe um belo vestido de seda cor-de-rosa, e calçou-lhe uns sapatos de menina pretos. Depois levou-a para a sala de estar, e acendeu a TV, no canal dos desenhos animados, para meter Samantha entretida. Eduardo voltou para a casa de banho, e tomou um duche. Quando acabou, foi para o quarto, vestiu-se. Vestiu-se de preto. Viu na mesa de cabeceira, uma moldura com a foto dele e da falecida esposa, Luísa Seoane. Sentou-se na cama e pegou na moldura. Aquela foto tinha sido tirada há seis anos atrás, no dia do seu casamento. Luísa era uma bela mulher, de pele clara, cabelo pelos ombros de cor castanho, olhos escuros, muito bonita. Na foto, ela estava vestida com um belo vestido de casamento, de cor branca, tão elegante, que lhe dava um ar de princesa. Eduardo estava vestido com um fraque preto. Eduardo passa a mão pela foto. Fecha os olhos, e vêm-lhe memórias, de acontecimentos, de um dia feliz. Também lhe vêm outros, como acontecimentos do dia a dia, como: o dia em que jantavam num restaurante italiano, e pediu-lhe em casamento; quando eram adolescentes, e iam para o bosque ou praia deserta namorar; e quando Luísa cozinhava massa à bolonhesa, que era a sua especialidade; etc… E por fim, vêm-lhe à cabeça, o dia em que foi à morgue, reconhecer o corpo falecido de Luísa. – Papá! – chamou Samantha, ao empurrar a porta do quarto, e entrando. Eduardo levantou-se rapidamente. Pousou a moldura na mesa de cabeceira, e virou-se de costas para a filha, e limpou as lágrimas que tinha nos olhos. 84
Samantha, deu mais uns passinhos em frente. – Tenho fome. – queixou-se ela, esfregando a mão na barriguita. – Vamos já tomar o pequeno-almoço. – disse Eduardo, fazendo festinhas na cabeça da filha. E foram para a cozinha. Samantha, sentou-se à frente da mesa, enquanto o seu pai, abria a despensa, e via o que havia para comer. – Queres papas de aveia? – perguntou Eduardo. A manina abana a cabeça negativamente. – E leite com cereais? Desta vez a menina afirmou afirmativamente, abanando a cabeça para cima e para baixo. – E qual é os cereais que queres? – Os do macaco. – respondeu Samantha, com voz doce e infantil. Os cereais do macaco, eram uns cereais de arroz com chocolate, Samantha dizia que eram cereais do macaco, porque na caixa tinha um macaco desenhado. Eduardo encheu uma tijela com leite e cereais, e deu à filha. Depois preparou o seu pequeno-almoço, torradas e chá preto. Quando acabaram de terminar o pequeno-almoço, Eduardo levou Samantha ao infantário. Já fazia um mês, que Samantha andava num novo infantário. Ela antes andava no infantário das freiras. Era um infantário que pertencia à igreja de Algueirão, mas fechara devido a problemas económicos. Este infantário chamava-se Crianças do Céu. Agora, Samantha andava em outro infantário, chamado Flores Infantis, que ficava na zona de Cascais. Era um edifício cor-de-rosa creme. Era um pouco mais longe de casa, do que o infantário anterior, mas este tinha melhores condições para ter crianças, e muitas atividades, como: natação, jardinagem, expressões artísticas e ballet. E Samantha adorava ballet. Mas apesar deste infantário, ser melhor que o anterior, pelo menos aparentava sê-lo, Samantha parecia mais triste desde que mudara de infantário. Eduardo pensou, que talvez ela estivesse triste, porque deixara de brincar com os seus amiguinhos, e agora tinha de fazer amigos novos. E ela era uma menina muito tímida.
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– Bom dia senhor Eduardo. – cumprimentou Diogo Martins, o diretor do infantário Flores Infantis. – Bom dia. – saudou Eduardo, e dão um aperto de mão. – Olá Samantha, como estás? – perguntou Diogo, à menina. – Bem… – murmurou a menina, escondendo-se atrás do pai. Diogo era um homem alto, com um físico invejável, realmente um homem muito belo e atraente, quase todas as mães das crianças que andavam naquele infantário, suspiravam por ele, e era loiro de olhos azuis. Diogo acompanhou Eduardo e Samantha à sala do infantário, onde as crianças brincavam e passavam o seu tempo. – Olá Samantha. – saudou a educadora, Amélia Santos. Mas a menina só esboçou um sorriso forçado. – Eu venho buscá-la logo. Adeus Samy. – despediu-se Eduardo, dando um beijo na boceja da filha. E Samantha foi para uma mesa fazer um desenho. Diogo acompanhou Eduardo à porta de saída. – Até logo senhor Eduardo. – despediu-se Diogo. – Até logo. Eduardo entrou no seu carro, de cor cinzenta, e de marca japonesa, e dirigiu-se para Oeiras. Ia a casa de Manuel. Manuel vivia num apartamento. Quando Eduardo chegou, tocou à campainha. – Oh! Olá. – saudou um jovem na casa dos vinte e poucos anos, que lhe abriu a porta. Era um rapaz magricela de cabelo preto, olhos pretos, e pele pálida. Ainda por cima, ele estava todo vestido de preto, t-shirt preta com uma caveira desenhada, calças largas pretas e tinha calçado uma botas, parecia um vampiro. Eduardo ficou espantado, e olhou para cima, para uma pequena chapa de metal, que estava em cima da porta, onde estava o número do apartamento, para ver se ele não se tinha enganado. Mas não, era o 3º C, o apartamento de Manuel. – Quem é você? – perguntou Eduardo. – É um enorme prazer conhecê-lo. 86
– Não respondeu à minha pergunta! – Entra Eduardo. – gritou Manuel, que estava no seu quarto a calçar uns sapatos novos, e ouvira Eduardo a discutir. Eduardo segue o jovem para a sala de estar. Mo centro da sala, estava uma pequena mesa de vidro, e em cima desta mesa, estava um livro. Eduardo reconheceu logo o livro. Era um livro infantil escrito por ele, com o título “As Fadas”. – Eu chamo-me Luís Antunes. – apresentou-se finalmente o jovem. – E comecei agora a minha carreira de escritor. – Ah! O Manel falou-me de si. Então o seu primeiro livro é de terror? Um livro de terror? – disse Eduardo com alguma frieza. – Sim. Adoro terror. Mas também sou um grande fã seu, adoro os seus livros infantis e novelas. – A sério?! – perguntou Eduardo com voz de gozo. – Sim. – respondeu Luís. – Gostava que autografasse o livro. – continuou Luís, pegando no exemplar “As Fadas”, e dando a Eduardo, para ele autografar. – Claro. Eduardo pegou no livro, e na folha onde está o título, escreveu: “Para o amigo Luís Antunes, um abraço de amizade. Obrigado por ler.” E por baixo assinou seu nome. – Muito obrigado! Muito obrigado mesmo! – agradeceu Luís. – De nada. – disse Eduardo, que ainda estava espantado, porque não esperava ver um dia conhecer um fã tão estranho. – Tome, é para si. – disse Luís, e deu a Eduardo um livro, um exemplar do livro de terror escrito por ele. – Obrigado. – agradeceu Eduardo, fazendo um sorriso forçado. – “Medos e Pesadelos”! – exclamou ao ler o título do livro. Como os sapatos eram novos, Manuel estava a calçá-los devagar e com cuidado, para não correr o risco de os estragar. Na sala, Eduardo estava a ficar um pouco desconfortável, com a ausência de Manuel, e pelo facto de Luís, não parar de olhar para si, com olhos de admiração. Luís acabou por dizer: 87
– É magnífico ser escritor, não é? – Os escritores aproveitam-se das personalidades dos seus conhecidos, para criarem personagens. Dos acontecimentos diários, para criarem histórias. E depois escrevem livros, e ganharem milhões de euros. Luís ficou espantado a olhar para Eduardo. Era claro que aquilo era real, mas ele não entendeu porque Eduardo disse com um tom de voz forte e antipático. E a parte de “ganharem milhões de euros”, é só para os escritores da modinha. – Vou dizer-lhe o que é que escritores fazem às pessoas. – O quê? – perguntou Luís curioso. – Os escritores como você, que escrevem livros de terror, assustam as pessoas, que depois não conseguem andar sozinhas na rua de noite, nem dormir com a luz apagada. – Luís achava aquilo um exagero, mas nada disse, e continuou a ouvir Eduardo a falar. – Os escritores como eu, que escrevem novelas, romances e livros infantis, fazem as pessoas acreditar no amor, fazem as mulheres acreditarem em príncipes encantados, e a criancinhas acreditarem em fadas e outros seres imaginários. Os escritores como o Manel, que escrevem policiais, fazem que as pessoas pensem que irão ser assaltadas ou assassinadas se saírem à rua. – Isto é o que acontece, se as pessoas se deixarem levar pela imaginação. – Não! Isto quer dizer que os escritores são os maiores cabrões que existem no Mundo! Luís queria dizer a Eduardo, que ele estava errado, mas não se atreveu a dizer uma única palavra. Manuel tinha-lhe dito, que Eduardo era uma boa pessoa, muito simpático e divertido, mas desde que a esposa morreu, ele passou a ser um pouco mais frio. A sua simpatia e alegria só voltavam, quando ele estava com a sua filha. – Bom dia Eduardo. – saudou Manuel, ao sair do quarto e ir para a sala. – Olá. – Finalmente. – suspirou Luís, respirando fundo, ele já não estava a aguentar estar sozinho com Eduardo. Manuel tinha vestido um fato castanho, camisa branca e sapatos pretos novos. – Vamos tomar o pequeno-almoço? – perguntou Manuel. – Já tomei o pequeno-almoço. – respondeu Eduardo. – Não faz mal. Tomas outra vez. Estás tão magro. – Ao contrário de certas pessoas. 88
– O que estás para aí a falar? Eu não estou gordo… talvez um pouco barrigudo, só isso. No infantário Flores Infantis, o diretor Diogo Mateus, foi à sala onde estava Samantha e as outras crianças, e pediu à educadora Amélia, para levar Samantha ao seu gabinete. – Samantha, – disse Amélia, ao chegar ao pé da menina, que estava num canto da sala a fazer desenhos. – o senhor Diogo quer falar contigo. Samantha ficou apavorada, e disse assustada: – Não! Não quero ir! Quero acabar o desenho. Estou a desenhar a mamã, o papá e eu. – Não quero saber! Vais ao gabinete do diretor. E a educadora de infância, rasgou o desenho de Samantha, e pegou na menina por um braço, e levou-a ao gabinete de Diogo. – Está aqui. – disse Amélia, ao entrar no gabinete, deixando lá Samantha, e vindo-se embora. Samantha ficou parada e assustada ao pé da porta. – Vem pequena, – chamou Diogo. – não tenhas medo. – continuou Diogo, que estava sentado em frente da sua secretária. À frente, estavam dois homens, um padre, que visitava muitas vezes o infantário, ele chamava-se João, e outro homem muito bem vestido. Samantha não se moveu. – Vem pequena, vem. – chamou desta vez o padre João, estendendo a mão. Ele era um velho careca. Samantha deu passos vagarosos, na direção dos homens. O homem que estava bem vestido, com um fato azul-escuro de marca caríssima, e tinha também óculos de sol, e no seu pulso um relógio de ouro, aproximou-se de Samantha, e exclamou, fazendo festas na cabeça dela: – És tão bela como a tua mãe! – Ela é perfeita para o que queremos. – disse o padre. – Podemos ir para o mesmo sítio de sempre? – perguntou o homem de fato a Diogo. – Sim, podem ir para o pavilhão da piscina. Para o balneário, ou armazém.
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Fora do edifício do infantário, nas traseiras, havia outro edifício mais pequeno, azul, que era a piscina. O padre João e o homem de fato, levaram Samantha, e foram para o armazém, onde estavam guardados utensílios de natação, produtos de limpeza do edifício, cloro para a água, bilhas de gás para o esquentador, etc. – Não tenhas medo. – disse o padre, que se sentou num banco, e tirou uma máquina de filmar da mala. O homem de fato encosta Samantha à parede, ficando à frente do padre. – Agora pequena, tira o vestido, e olha para o padre João, com um olhar sensual. Se te portares bem, dou-te um doce. – disse o homem de fato. – Não quero! – exclamou Samantha a chorar. – Queres, queres! – gritou o homem de fato, e rasga o vestido da menina. – E se contares a alguém, mato-te a ti e ao teu pai. A menina começou a chorar. Na sua pequena mente de criança, ela não entendia aquilo, o que se passava, o que estavam a fazer com ela. Mas ela sabia, que era algo errado. O padre João começou a filmar, babando-se e acariciando o seu pénis, quando o homem violava Samantha. Apesar de ter cinco anos, a menina sabia que aquilo que lhe faziam era mau. Começou a gritar, conseguiu libertar-se do homem, deu-lhe um pontapé nos testículos, e fugiu. O homem do fato caiu, e bateu com o braço numa bilha de gás, e sem reparar, desapertou a tampa, começando assim, a libertar gás. – Temos de apanhá-la. – disse o padre, guardando a máquina na malita, fechando a breguilha, e limpando as mãos à roupa. Os dois saíram do armazém, e começaram a procurar Samantha, pelo edifício da piscina. Samantha fugira para o balneário das meninas, e trancara-se numa casa de banho, sentara-se em cima de uma sanita a chorar, mas fazia um grande esforço, para se manter em silêncio. Pouco depois, entrou no armazém, a empregada das limpezas. Ela sentiu um cheiro estranho, mas não o associou ao gás. – Encontraste-a? – perguntou o homem de fato, ao padre, eles estiveram a procurar Samantha por todo o edifício da piscina. 90
– Não. – Eu não vou para a prisão. – Não te preocupes, ela não irá fazer queixa de nós. Ela deve estar escondida aí algures. No armazém, a empregada, resolveu acender um cigarro, e, o lume do isqueiro, junto com o gás que flutuava no ar, causou uma explosão. O edifício da piscina, tremeu com a explosão. O padre, que estava perto da piscina, caiu na água. – Ajuda-me! – gritou ele. – Não sei nadar. – Dá-me a mão. – disse o homem de fato, e puxou o padre para fora da piscina. Ele quis certificar-se que a água não tinha estragado a sua preciosa máquina de filmar, mas não, a mala de transporte era impermeável. No balneário, onde Samantha estava escondida, a porta soltou-se e caiu em cima da menina, uma parte do teto também. Em Lisboa, na livraria O Poema do Amor Sem Dor, onde estava a haver a apresentação do livro de Luís, Eduardo teve uma estranha sensação. – Estás bem? – perguntou Manuel, ao ver que Eduardo estava estranho. – Sim. – respondeu Eduardo, um pouco baralhado. Eduardo sentira um arrepio frio, um aperto no coração, e na sua mente, veio a imagem da sua filha. No infantário, os bombeiros são chamados. O homem de fato e o padre, foramse logo embora. Um bombeiro, entrou no balneário, e viu Samantha, deitada, com a porta e teto em cima dela. Aproximou-se, e agachou-se ao pé da menina, pegou em seu pulso, para ver a pulsação. O coração batia lentamente. O bombeiro chamou dois colegas para o ajudarem, a tirar a menina debaixo dos destroços. Assim que começam a tirar os destroços de teto e porta, Samantha não abriu os olhos, mas reagiu à dor. Quando Diogo viu os bombeiros a levar Samantha para a ambulância, ficou nervoso, pegou no telemóvel, e ligou ao homem do fato.
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– Armando, onde estás? – Vim-me embora. – O que é que aconteceu? – A miúda fugiu. E depois houve uma explosão. Não te preocupes, ela deve estar morta. – Não, ela não morreu. Eu acabei de vê-la. Foi levada para o hospital. E se ela contar alguma coisa a alguém? – Nós já fazemos isto há um tempo, e ela nunca contou a ninguém. E também não me interessa, o problema é teu agora. – Armando, Armando! – gritou Diogo, mas Armando tinha desligado. – Merda! Pouco depois, Luís, Manuel e Eduardo, foram almoçar a um restaurante em Lisboa. – A livraria vendeu os livros todos. – disse Luís, quando punha na boca uma garfada de bife malpassado. – Sim. O lançamento correu bem. – disse Manuel. De repente, o telemóvel de Eduardo tocou. – Estou? – perguntou Eduardo, ao atender o telemóvel, e ouve um médico a dizer o que se tinha passado. – O quê?! Não! E desligou o telemóvel. – O que aconteceu? – perguntou Manuel. – A Samantha está no hospital. – respondeu Eduardo, nervoso e a chorar. – Tenho de ir ter com ela. – Eu vou contigo. – disse Manuel. – Eu também. – disse Luís. – Não… tu estás a festejar o lançamento do teu livro, e o Manuel também… – tentou dizer Eduardo, mas é interrompido. – Ela é minha sobrinha. – disse Manuel. – E eu sou seu amigo… – disse Luís. – Também não estás em condições de conduzir. – continuou Manuel. – Obrigado. – agradeceu Eduardo. 92
E foram rapidamente para o hospital. Pelo caminho Eduardo explicava o que o médico lhe tinha dito, a Manuel e Luís. Quando chegaram ao hospital, o médico falou com Eduardo. – A Samantha é a sua filha? – perguntou o médico, para se certificar. – Sim… – respondeu Eduardo. – Como está ela? – perguntou Eduardo com voz aflita. – Ela… ela está mal. Devido à explosão, o teto, parede e uma porta, caíram em cima dela. Ela partiu algumas costelas, que se espetaram nos pulmões e outros órgãos… – Eduardo ficava a olhar para o médico, ele não conseguia deixar de pensar na sua filhota. – … o que resultou em hemorragias internas. O médico calou-se, fazendo uma longa pausa. – Pode ajudá-la? – acabou Eduardo por perguntar, com um terrível medo da resposta. O médico respirou fundo, e respondeu: – Lamento, mas não se pode fazer nada. – Não… não, não! – gritava Eduardo, a chorar. – Ela é tão novinha, isto não pode acontecer. – Lamento… – disse o médico, com voz impotente. – Enfermeira, leve este senhor para o quarto 313. A enfermeira obedeceu, e acompanhou Eduardo ao quarto onde estava a sua filha. – Vocês são familiares? – perguntou o médico a Manuel e Luís. – Eu sou, – disse Manuel. – sou o tio de Samantha. E ele, é um amigo. – continuou, apontando para Luís. – Eu tenho algo para lhe dizer. – disse o médico. – Diga. – disse Manuel. – Eu preferia que fosse em privado, senão se importar. – Claro, – disse Luís. – Eu estou na sala de espera. E Luís afastou-se, deixando o médico e o amigo sozinhos. – Pode dizer, que se passa?
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– Eu sei que devia dizer isto primeiro ao pai da Samantha, mas ele não está em estado de receber uma notícia destas. – Por favor! Diga o que se passa?! – Com os exames que fiz, apercebi-me que a menina foi abusada sexualmente antes do acidente. Manuel ficara espantado ao ouvir aquilo, nem queria acreditar. – Sabe quem foi? – Eu tentei falar com ela, ela mal respondeu, o que é normal, com o choque e ferimentos que tem. Mas pelo que entendi, foi no infantário. – explicou o médico. – Ufa. – respirou fundo Manuel, que começara a pensar que tinha sido Eduardo a abusar da filha, mas ele sabia que Eduardo nunca faria nada de mal à sua bebé. – Como deve compreender, tive de chamar a polícia, que vem a caminho. – Claro, claro, fez bem. Por fim, a conversa terminou, e o médico afastou-se, Manuel, foi para a sala de espera, onde estava o seu bom amigo Luís. Ele queria também ver Samantha, mas achou melhor deixá-la sozinha com o pai. Sentou-se numa cadeira, e começou a chorar. Luís, aproximou-se, e sentou-se ao lado de Manuel, e abraçou-o, e encostou a sua cabeça no ombro dele. Não havia palavras para momentos daqueles, de extrema tristeza, o melhor é sempre um ato de carinho e amizade. – Não posso acreditar, – acabou Manuel por dizer. – A Samantha foi violada, como a mãe. Luís largou o amigo, Manuel limpou a lágrimas. – Lamento… – murmurou Luís. – Que aconteceu à sua irmã? – Foi violada e estrangulada, quando Samantha tinha um ano. O cabrão que lhe fez isto, nunca foi preso. Não havia provas. – Eu… eu posso ajudar nalguma coisa? – perguntou Luís, que não sabia o que dizer. – Obrigado. – agradeceu Manuel, metendo a mão no ombro de Luís. – Não sei como serão as coisas a partir de agora. A Samantha, era… era a menina do papá. O Eduardo vivia só para ela. Temo que ele volte a tentar suicidar-se. Eduardo já tinha chegado ao quarto onde estava a filha. Ele sentara-se, num banco ao pé da cama, onde a filha dormia, com fios ligados a seus braços, um para o soro, outro para medir a pulsação. Ela tinha vestido uma batinha branca, bem, era mais 94
uma espécie de pijama branco. As paredes do quarto também eram brancas, mas era um branco sombrio. O único som que se ouvia, era da máquina que verificava a pulsação: pi, pi, pi… – Samantha… – murmurou Eduardo, pegando na mão da filha. – Papá… – respondeu ela, abrindo os seus pequenos e inocentes olhitos de menina-criança, um olhar que refletia tanta confusão e tristeza. – Samantha! – exclamou o pai, levantando-se. – Oh, filha! – Papá… que disse o médico? – Ele… el-el-e-ele disse que vais… vais ficar boa. – respondeu Eduardo, gaguejando. – Papá, – disse Samantha com uma voz tão doce, esboçando um meigo sorriso. – tu não sabes mentir-me. – Desculpa… – murmurou Eduardo, começando a chorar. – Não tens culpa. – Perdoa-me! – exclamou Eduardo, e encostou a cabeça no peito da filha, ouvindo o seu pequeno coração a bater. – Perdoa-me, o dever de um pai é proteger a sua filha. E eu falhei. – Não… – murmurou Samantha, metendo a mão na cabeça do pai, fazendo festinhas. – Eu amo-te papá. Estás sempre comigo, a tratar de mim, a dar-me coisas que gosto, a levar-me ao parque para brincar, e brincas comigo. Poucas crianças podem dizer o mesmo. Eduardo chorava mais, abraçou a filha, e beijou-a na bochecha. Samantha mantinha-se calma, calma demais até. Seria o fim que estava próximo, por isso mais valia estar calma, ou então o efeito de algum medicamento que a mantinha calma. A máquina que media a pulsação, e fazia aquele som repetitivo e irritante, sempre que detetava um batimento cardíaco, começou a fazer sons mais pausados. – Eu vou ter com a mamã? – acabou por perguntar Samantha. Eduardo limpou as lágrimas, e disse, tentando sorrir: – Sim. – Lembras-te daquela noite, em que tive um pesadelo, e tinha medo do escuro? Eduardo acenou com a cabeça. – E lembras-te do que fizeste? 95
– Não… – Papá, levaste-me para o jardim, e deitámo-nos na relva, a olhar o céu cheio de estrelas, lua gorda, e pililampados… – Pirilampos. – corrigiu Eduardo. – Sim… isto. E tu começaste a contar fadas, e eu adormeci depois, e tive um sonho bonito. – Ah… sim, lembro-me. – Podes contá-las outra vez? – perguntou Samantha, com voz cansada, a máquina que media a pulsação começava a ficar cada vez mais lenta. Eduardo percebeu, o fim estava próximo. – Claro Samy... Eduardo deitou-se ao lado de Samantha, e abraçou-a. – Uma fada cor-de-rosa, vai ajudar-te a dormir bem. Duas fadas, uma cor-derosa, e outra amarela, vão ajudar-te a dormir bem e a não teres pesadelos. Três fadas, uma cor-de-rosa, uma amarela e uma vermelha, vão ajudar-te a dormires bem, a não teres pesadelos e a sonhar com o amor. Quatro fadas… A máquina que verificava a pulsação pára, e repete o mesmo som: piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii… – Samy… – murmurou Eduardo. – Samanthaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! – gritou ele, quando abraçava o corpo morto da filha, chorando, chamando por ela, com esperança que a menina acordasse, mas nada, ela estava morta.
As Fadas – Sérgio Brázio Amigo das fadas
Oh menino lindo, com encanto de Portugal Que sonha com fadas E as verá na luz do luar 96
Que com sua magia tirarás o véu Que cobre teus belos olhos.
Oh espírito que vive neste mundo Que incorpora o amor Nunca deixe de sorrir Abandone-se e viaje na luz da amizade Assim receberá asas e sempre livre será.
Poema escrito por Bárbara Vieira, dedicado a mim. Não resisti em usá-lo como introdução do meu livro, já que é sobre fadas. Muito obrigado amiga, adorei o poema, e mais teu carinho, amizade e amor.
I Margarida
Era uma vez, uma menina chamada Margarida. Ela tinha 9 anos, cabelo castanho aos caracóis, era alta e linda. Os seus olhos eram azuis, e muito sonhadores. Ela vivia com os seus pais num belo vale. Vale das Flores era o nome da vila que se situava aí. Margarida não tinha muitos amigos, pois era gozada na escola, porque ela acreditava em fadas. Nos recreios, das aulas, ela falava com as plantas, porque pensava que as fadas a iriam ouvir. Em casa, todas as noites, deixava no parapeito da janela, um doce para as fadas. – És ridícula! – disse num dia, uma colega de turma a Margarida. 97
– Não sou nada! – gritou Margarida. – És sim. Acreditas em fadas. – E qual é o problema? E todos os seus colegas se riram e gozaram com ela. Pouco depois, no fim das aulas, a mãe, foi buscá-la à escola. – O que foi? – perguntou a mãe, ao vê-la triste. – Gozaram comigo. – respondeu Margarida, com voz infantil, e lágrimas nos olhos. – Porquê?! – Porque acredito em fadas. – Oh Margarida. Tu já tens 9 anos. Já não tens idade para acreditar nestas coisas. Quando chegou a casa, Margarida foi para o seu quarto, atirou-se para cima da cama, agarrou-se à almofada, e desatou a chorar.
II Como chamar uma fada?
No dia seguinte, era sábado, e Margarida, foi dar um passeio pelo campo. Ela adorava, e assim, talvez visse uma fada, era o que ela sempre pensava. Margarida chega ao pé de um canteiro com vários tipos de flores, como: rosas, amores-perfeitos, gladíolos, narcisos, e as suas favoritas, margaridas. Ela põe-se de joelhos, tirou um papel do bolso, e começou a ler em voz alta, para as flores, uma espécie de poema, que ela tirou de um livro, que explicava como encontrar fadas, era uma espécie de cântico mágico. Era assim: “Fada querida fada, Vem até mim.
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Leva-me contigo a voar, Pelo teu Mundo de Encantar. Fada minha fada, Voa para mim. Dança e canta, Para mim. Mostra-me a tua magia.” Margarida, ouviu passos atrás de si, e levantou-se rapidamente. – Desculpa, não te queria assustar. – disse um homem, alto, magro, de cabelo preto despenteado, que estava vestido de fato preto, e casaco comprido. – Não faz mal. – respondeu Margarida. Ela ficou a olhar para o homem. O seu rosto não lhe era estranho, mas ela não se lembrava. – Eu chamo-me António, e tu? – Eu chamo-me Margarida. – É um nome muito bonito. É um nome de flor. A menina ficou corada e em vergonha. – Ouvi-te falar. Era um poema para chamar fadas, não era? – Sim. – Eu também gosto muito das fadas. – A sério?! – Sim, tenho centenas de livros, que falam sobre fadas, em minha casa. Queres ir ver? Margarida ficou pensativa. A mãe dela sempre lhe dissera para ela não falar com estranhos. António, apercebeu-se disto, e tentou convencê-la. – A tua cara não me é estranha. Gostas de ler? – Sim, muito. – Já compraste algum livro com o título “As Fadas”? – Sim, é o meu favorito. 99
E aí, Margarida lembrou-se de quem António era, ele era escritor, o autor do seu livro favorito. Ela não lhe estava a reconhecer com aquele cabelo despenteado. – Tu compraste-o na livraria O Poema do Amor ser Dor, não foi? Margarida respondeu com um aceno de cabeça, e grande sorriso. – Numa sessão de autógrafos. – Sim. – Queres ir a minha casa? Ver meus livros sobre fadas, que eu tenho. E comer bolinhos e beber chá? – Sim, iria adorar. E foram para a casa de António, que viva mesmo ali ao lado, numa grande casa antiga de cor amarela, com grande jardim em redor. Margarida ficou encantada. Entraram, e dirigiram-se para uma sala cheia de estantes com livros, uma secretária, um sofá encostado a uma, e com uma mesa no meio da sala. – Espera aí, vou fazer chá. – disse António, e foi para a cozinha, e deixou a menina ali, naquela sala, a ver os livros. Margarida começou a dar uma volta pela sala, completando os livros que havia na estante, livros de vários temas, em geral sobre fadas. Olha as paredes de cor verde, com várias molduras com fotografias e quadros. Vê, encostado à parede, um velho piano. Aproximou-se para o ver melhor. – Gostas de música? – perguntou António, ao voltar, trazia consigo um tabuleiro com chá e bolinhos. – Sim muito. Sentaram-se cada um, numa cadeira, que estavam em redor de uma mesa. António serviu o chá que era de uma marca chamada Hibachi, em chávenas de cor azul. Num prato grande de cor branca, estavam vários bolinhos e bolachas, de aspeto de serem caseiras. – Hum! – exclamou Margarida. – É muito bom! – continuou, depois de dar uma dentada num bolinho, e bebendo um gole de chá. – Ainda bem. Fui eu que fiz. – Adoro. Margarida, não deixou de reparar num vaso, que estava no parapeito da janela. Tinha várias espécies de flores neste simples vaso de barro. Todas bonitas e coloridas. 100
– Gostas daquelas flores? – perguntou António, reparando que a menina não deixava de olhar para elas. – Sim. – respondeu Margarida. – Parece que estão a olhar para nós. É uma estranha sensação. – Isto acontece quando há uma fada lá. – Hã?! – Sim. As fadas, muitas vezes vivem nos vasos, onde há flores que são bem tratadas. Depois há esta sensação que falaste, que parece que algo lá nos observa. – A sério? – Sim, mas tem-se de cuidar muito bem das flores, e ir falando com elas. – Oh! Quando António terminou de lanchar, levantou-se, e foi para a frente de uma estante com livros. Margarida continuou a comer. – Onde está? Hum… Ah! Está aqui! – disse ele, depois de ter ficado a olhar para a estande, a procurar algo. Pegou num livro, e voltou-se para Margarida. – Que é? – perguntou a menina, terminando de comer. – É um livro que fala de fadas. Toma! É para ti. – Obrigado. – agradeceu Margarida, pegando no livro, que era bem velho por sinal. – Aí diz, como podes chamar fadas, ir para o mundo delas, etc. – A sério?! – interrogou-se a menina, encantada, folheando o livro. – Sim. – Muito obrigado. – Para ir para o Mundo das Fadas, é através do Círculo das Fadas, está a explicar como fazer este ritual, está na página… treze. – Vou ler tudinho quando chegar a casa. Depois, voltaram a comer o resto dos bolinhos e chá, e Margarida, agradeceu o lanche, e mais uma vez a prenda, despediu-se e foi para casa. Correu. Ela queria ler o livro o mais rápido possível. – Diz à Rainha, que encontrei a guerreira perfeita. – disse António, falando para as belas flores que estavam no vaso no parapeito da janela. E dito isto, uma luz forte 101
surgiu, saindo das flores. Era uma luz cor-de-rosa, que ganhou forma de uma borboleta de várias cores. A borboleta saiu pela janela, e voou para o bosque. Quando Margarida chegou a casa, os seus pais não estavam, eles estavam no trabalho, trabalhavam num restaurante. A menina foi a correr para o seu quarto, deitouse na sua cama, e começou a ler o livro. O título era… bem, ela não conseguiu entender, estava escrito à mão com tinta preta, e parecia ser em latim. Mas o restante estava em português, também escrito com tinta preta e à mão. A capa era castanha, parecia ser de pele. Ela leu e releu o livro. Nem deu pelo tempo passar. Quando os pais a chamaram para jantar, ela comeu rapidamente, e voltou logo para o seu quarto para ler o livro de novo. Em geral a página 13. Nesta página dizia: “Se quiseres ir ao Mundo das Fadas, tens de encontrar, num bosque, um círculo de cogumelos. Este é o Circulo das Fadas, e é um portal para o mundo delas. Para conseguires entrar, tens de pôr o pé direito dentro do círculo, e o esquerdo fora, e caminhares em sentido dos ponteiros do relógio, e dizer em voz alta e cantável: Fadas, belas fadas. Quero ser vossa amiga. Deixem-me entrar no vosso Mundo. Se tiveres fé, acreditares nas fadas, e fores boa pessoa, o portal abrir-se-á. Tens de fazer este ritual numa noite de Lua Cheia.” – Tenho de fazer este ritual numa noite de Lua Cheia. – disse Margarida para si própria, levantou-se, e olhou pela janela. Olhou o céu escuro, noite calma. Olhou o céu, sem nuvens e cheio de estrelas, e viu a Lua Cheia no centro, grande e brilhante. – Hoje é noite de Lua Cheia. Vou ao bosque procurar o Círculo das Fadas. E com grande entusiasmo, ela saiu do quarto, e espreitou pela fechadura da porta do quarto dos pais, ela queria ver se eles estavam a dormir, e sim, dormiam profundamente. – Boa! – exclamou ela baixinho. – Posso ir já! Foi buscar uma lanterna, e saiu de casa fechando a porta com muito cuidado e silêncio para os pais não a ouvirem, e foi a correr para o bosque.
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III O Círculo das Fadas
Margarida caminhou, lentamente pelo bosque, escuro e frio. Com ajuda da lanterna, iluminava o caminho. Ela não se apercebe que é seguida. A meio do caminho, ouviu um barulho atrás de si, assustada, virou-se para trás, e apontou a lanterna para iluminar, quem ou o quê, que pudesse estar ali, mas nada, nenhum ser se encontrava ali, só árvores e arbustos. – Por pouco ela via-me. – murmurou um homem, que se escondera atrás de uma árvore, ele seguia Margarida. Margarida continuou o seu caminho, e parou. Tinha ouvido um ladrar. Era-lhe familiar. Então a menina correu na direção do som canino, e chegou perto da margem do rio. – Rostavini! Que fazes aqui? – perguntou Margarida, ao ver o seu cão de estimação ali. Rostavini era um cachorrinho castanho e pequeno. Ele ladrava e saltava, e a menina reparou, que o cão estava ao pé de um círculo de cogumelos, o tal Círculo das Fadas que Margarida tanto procurava. – Encontraste! Oh! Encontraste o Círculo das Fadas! – exclamou a menina, pegando no cão ao colo. – Boa Rostavini! – Ão ão. – ladrou o cãozinho, que começou a lamber a cara da dona. Depois, Margarida tirou um papelito do bolso, onde tinha apontado o ritual, para não se esquecer. Lê-o e relê-o, até decorar bem, e voltou a guardar o papel. Põe o pé direito dentro do círculo, e o esquerdo de fora, e começa a cantar: – “Fadas, belas fadas. Quero ser vossa amiga. Deixem-me entrar no vosso Mundo.” E, um forte feixe de luz, branca apareceu, e Margarida desmaiou.
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Os Escolhidos – Sofia Lory 1º ACTO 1ª CENA – CARTA O ambiente inicial da peça é escuro e silencioso. As cortinas abrem devagar com o som de uma música bizarra e contagiante. Todas as personagens estão em palco menos o Raul. Cada uma delas permanece num local estratégico em que se possa ter a noção certa das suas expressões. Todas elas estão a ler uma carta que Raul escreveu a convocá-las para um primeiro contacto e a explicar-lhes parte do que pretende fazer. A sua voz soa em toda a sala com essa mesma música de fundo. Este momento deve ser curto e misterioso, e dá o primeiro contacto visual das personagens e também indícios de toda a história de Raul. As personagens devem estar imóveis enquanto um foco de luz vai passando por cada uma delas, iluminando-as uma a uma até ao final da carta… “Escolhidos!” «Isto vai parecer-vos louco ou talvez completamente irreal, mas certamente se forem tão inteligentes como ao longo destes dias me demonstraram ser, penso que será uma ideia momentânea que passará pela vossa cabeça, mas que rapidamente a esquecerão… Esta não é uma carta vulgar, nem uma situação banal na vida de cada um de vocês! Sim, você é um dos escolhidos, mas não o único! Deve estar com certeza sozinho, pois certifiquei-me disso com muita antecipação! Gostava que soubesse que está prestes a descobrir uma nova forma de vida, uma nova oportunidade que vai possibilitar tudo o que sempre sonhou, mas para isso precisa da sua força física e psicológica, que sei ter dentro de si… Afinal todos 104
temos, mas uns mais do que outros! Sou um homem com muito dinheiro e muito poder mas com muito pouca saúde, que me restam poucos dias de vida aqui neste mundo em que me encontro neste momento… Tenho um cancro nos pulmões e muitas mágoas ao longo desta minha vida, mas tudo isto é um simples pormenor com o qual tenho me habituado a lidar… Quantos de nós afinal vivem com os seus pequenos pormenores? Porém, tudo isto pode ser modificado, porque não existe nenhum direito em permitir que se sofra tanto neste mundo e a mando de quem, porquê? Nunca se perguntou o porquê de todos estes sacrifícios e sofrimentos? Não seria mais fácil se tudo pudesse ser controlado por algo superior, e que finalmente pudéssemos escolher o nosso destino, as nossas alegrias, as nossas tristezas, as nossas perdas, o nosso verdadeiro caminho… Tudo isto será possível a partir de uma nova forma de vida que poderá ser continuada por você… É certo que estamos em 2013, e ainda temos algumas limitações, mas com o dinheiro e o poder que posso oferecer-lhe toda a vida, certamente não precisará de fazer mais nada… É uma oportunidade única que surge na sua vida… Porquê eu? Não pergunte… Procure dentro de si a explicação e vai perceber que você tem em si essa chave… Você pode ser a salvação de todas as pessoas que nunca conseguiu salvar e tem agora esse poder… De mudar o que sempre quis e nunca o pôde fazer… Não fale desta carta a ninguém, é uma missão secreta e como deve perceber, envolve muito mais do que esta simples carta… Neste momento, você está a ser observado por todo o lado… Espero por si à meia-noite, só precisa de estar à sua porta vinte minutos antes e passará um carro preto que o vai trazer até mim… Agora que já leu… Tome a sua decisão e destrua esta carta… Sem demora! E não se esqueça, estou a observá-lo todos os segundos…» No final desta primeira cena, a luz baixa e todos ficam imóveis e pensativos… A cortina fecha rapidamente por segundos e volta a abrir com o tocar de um telefone.
2ª CENA – MONÓLOGO DO MIGUEL No cenário está uma cama desfeita e sobre essa cama está Miguel e um monte de roupa entre diversas outras coisas. Está também uma mesa com um computador, alguns cd’s e um telefone… Miguel está a fumar um cigarro e tem um cinzeiro cheio de cinzas da carta que queimou… O telefone toca, mas Miguel não atende! São 23h30… Miguel – Quem poderia escrever uma coisa destas? Escolhidos? Até parece o nome de um filme de terror… (Sorri.) Sou um dos escolhidos? Bem, são onze e meia, tenho de tomar uma decisão… Mas porquê eu? Um rapaz perfeitamente estúpido e falhado qb… (Levanta-se, apaga o cigarro e começa a revelar um nervosismo crescente.) Tudo bem, até tem alguma lógica! Se me matarem no meio da noite, ninguém falará sobre o meu desaparecimento, talvez até queiram apenas algum dos meus serviços e estejam mais 105
envergonhados, ou queiram fazer uma cena em grande! (Sorri com algum nervosismo, mas de repente a sua expressão torna-se completamente diferente.) Agora já estou para aqui a fazer filmes e o tempo vai passando! (Senta-se na cama e olha para todos os lados do seu quarto.) Ok! Calma, tem calma… Eles estão a ver-me todos os segundos… (Levanta-se e anda pelo quarto.) Ok Miguel, se te dissessem que o Pai Natal estava à tua espera para te dar os presentes que nunca te deu quando eras puto, também acreditavas, estou a ver… (Acende outro cigarro…) Bem, o melhor é ficar por cá… Ainda me meto em alguma confusão, para variar, e de problemas com a polícia já me chega os que tenho… (Liga a música no computador e senta-se na cadeira a tentar trabalhar…) Vou trabalhar, fazer qualquer coisa de útil, pôr uma música e esquecer esta cena estranha… (Pausa… Toca o telefone. Desliga a música. Miguel desta vez atende.) Estou? Estou? Ei… Estão a brincar comigo? Que cena é esta… Desliga agressivamente e, por momentos, fica parado. Ouve-se a mesma música do início da peça. Pega subitamente no casaco e sai de casa… (As luzes baixam e o cenário é modificado.)
3ª CENA – MONÓLOGO DA ÍRIS Surge um cenário semelhante ao anterior, mas este tem uma cama com uma colcha mais sensual e leve. Na cama está Íris a dormir e algumas das suas coisas… São 23h30… Ouve-se um telemóvel a despertar… Íris lentamente vai acordando e espreguiça-se, sentando-se de seguida na cama com um ar bastante sonolento… Íris – São onze e meia… (Pega na carta que tem debaixo da almofada.) Está na hora de ver o que este palhaço quer com uma mulher tão maravilhosa como eu… (Dá uma gargalhada forçada.) Ainda bem que hoje não tive trabalho, senão também queria ver como é que saía daqui… (Destapa-se e está sobre a cama com uma camisola de alças e de cuecas. Veste rapidamente uma saia que está sobre a sua cama. Pega na mala que está também sobre a cama e tira de lá uma carteira.) Só tenho 20 euros, boa Íris! Que grande vida! Que mulher tão maravilhosa! (Põe-se de joelhos de um lado da cama à procura das suas botas.) Trabalhar, só trabalhar sem mais nada… Um cliente mais abençoado e outros que nem vale a pena suar… Enfim, tenho de me pôr a mexer que este pode valer a pena e eu sempre a desperdiçar estas oportunidades… Ok, uma bota já tenho e a outra? (Continua a procurar a bota do outro lado da cama.) Já está mais que na altura de me tornar numa princesa e deixar de ser a gata borralheira… Pois, pois… (Muda o tom de voz.) Encontrei! (Enquanto calça as botas sentada na cama.) Porquê eu? (Imita a voz de um homem qualquer da carta.) «Deve ser uma gaja fácil. É só mandar uma cartinha e dizer que tenho muito dinheiro e a gaja aparece até antes da 106
hora!» Não pensem que estão a meter-se com uma qualquer… (Morde sensualmente o lábio superior e faz um olhar matreiro.) A Íris é muito espertinha, meninos… (Levantase e tira o maço de cigarros da mala.) Não menosprezem a inteligência das mulheres, somos mais espertas do que vocês imaginam… (Tira um dos cigarros e o seu isqueiro… Subitamente toca o seu telemóvel e Íris atende, atirando-se para cima da cama onde está o telemóvel, não chegando a acender o cigarro.) Estou? Estou? Sim??? Boa noite para ti também… Ouve-se a música do início da peça. Íris desliga, vira-se de barriga para cima e acende o cigarro. Fica ali uns segundos a fumar. Apaga-o, pega no casaco que está também sobre a sua cama e sai apressada… (As luzes baixam e o cenário é modificado.)
4ª CENA – MONÓLOGO DO DANIEL Um quarto com pouca iluminação, com uma cama feita como se nunca alguém dormisse nela. Uma mesa com uma garrafa de whisky, um copo e um telefone. Ouve-se alguém a cantar uma música depressiva com uma voz bastante arrastada… Na cama está Daniel, deitado numa posição invulgar, atravessado horizontalmente e imóvel. Daniel – (Canta com o seu olhar fixo e uma voz arrastada.) «Põe-me o braço no ombro, eu preciso de alguém; dou-me com toda a gente, não me dou a ninguém. Frágil, sintome frágil. Faz-me um sinal qualquer se me vês falar demais. Eu às vezes embarco em conversas banais. Frágil, sinto-me frágil. Frágil, esta noite estou tão frágil. Frágil, já nem consigo ser ágil…» (Levantando-se da cama com um sorriso falso e dirigindo-se a uma mesa onde está uma garrafa de whisky.) Mais um copo para ver se consigo dormir e esquecer esta carta ridícula… Sou maluco, assumo, mas não sou estúpido. (Pausa) Acho eu! Vou tentar dormir e amanhã é outro dia! (Bebe tudo num só gole e torna a encher o copo.) Porque terá este homem escrito uma coisa destas? Está como eu, certamente!! Que pergunta, Daniel… (Muda o tom de voz.) Mas mesmo assim… Porquê eu? Fraco de espírito, vulnerável… (Fica pensativo e sorri com ironia.) Boa estratégia, mas ainda não sou um caso completamente perdido… Pelo menos por enquanto… (Bebe novamente tudo num só gole e volta a deitar-se. Toca o telefone e Daniel levantase e atende.) Estou? (Pausa) Estou? Não sabia que existem outras formas de contacto para os mudos? (Do outro lado desligam.) Afinal era mudo… Desligou! (Muda de expressão e fica imóvel a olhar para o telefone. Começa a calçar os sapatos com pressa.) Vou e que se lixe… Também não estás sempre a tentar morrer, Daniel, então porque estás sempre com medo de tudo? Ahn? (Pausa) Vai! Vai! A morte é o máximo 107
que te pode acontecer! Pelo menos livro-me desta vida de merda! (Pega num casaco e sai…) (As luzes baixam e o cenário é modificado.)
5ª CENA – MONÓLOGO DA ELIANA Este é um quarto simples de um apartamento pobre com apenas uma cama e um rádio velho no chão. Existem roupas espalhadas pelo chão e pela cama. Ouve-se já uma música com muita energia ainda mesmo com as luzes baixas. No quarto está Eliana a treinar uma coreografia, ou pelo menos está a tentar. Eliana – (Ouve-se uma música com muita energia. Eliana dança mas está nervosa e tem tantas coisas na sua cabeça que começam a confundi-la e isso transfere-se para a forma como dança. Engana-se e acaba por desistir, sentando-se no chão derrotada…) Que cena, hoje tudo me corre mal! Tenho de ir queimar a porcaria da carta e esquecer isto tudo, tenho de me concentrar nesta coreografia! (Enquanto procura na sua mala um isqueiro e mostra muito nervosismo na sua postura.) Eli, estás a estragar tudo! Concentra-te… (Encontra e começa a queimar a carta.) Agora é só acabar com este pesadelo que arruinou o meu dia… (Pausa) Amanhã é a audição e não posso estar a desperdiçar tempo… Calma, vai correr tudo bem! (Tenta acalmar-se e respira fundo. Certifica-se que está tudo apagado e atira-se para a cama.) Não está nada bem! (Mostra realmente que está desesperada.) Não estou a fazer nada, isto não é dançar, Eli, o que é que estás a fazer? Que merda! Tudo corre mal na minha vida, tudo… Para além dos meus pais me tentarem arruinar, agora é uma carta maluca que nem sei quem a escreveu! (Pausa) Ok! (Levanta-se e põe-se a mexer no rádio para tentar novamente a sua coreografia.) É só uma carta de um maluco qualquer que não está muito satisfeito com a vida… Não é uma má ideia controlar o nosso destino, mas daí a ser possível!!! Eli chamada à realidade… (Toca o telemóvel, Eliana procura-o na sua mala e atende.) Estou? Não estou a ouvir nada? És tu, Camila? Estou??? Ouve-se a música do início da carta. Eliana fica imóvel a olhar para o telefone. Veste um casaco, pega nas suas coisas e sai a correr… (As luzes baixam e o cenário é modificado.)
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6ª CENA – MONÓLOGO DA JÚLIA Um quarto vazio, aparentemente arrumado e calmo… Entra no quarto Júlia, completamente cansada, a mala vai para o chão enquanto se deita na cama como um autómato… E fica ali, imóvel a pensar… Liga o rádio que tem perto da sua cama e ouve-se uma música melancólica que retrata muito dos seus sentimentos e mágoas… Júlia – (Fica deitada na cama com a carta na mão e com uma fotografia que não chega a olhar para ela… Está com uma bata de médico que ainda nem chegou a despir… O seu mundo é reduzido e solitário e a sua expressão é completamente nula. Vai rasgando a carta lentamente e vai deixando cair os bocadinhos de papel. Tira os sapatos e enfiase dentro do edredão mesmo vestida e fica enrolada na cama preparando-se para adormecer… Subitamente toca o seu telemóvel. Júlia atende com um gesto singular e mecânico.) Sim? (Pausa) Sim, sou eu. (Pausa) Tenha calma, Marta. Estive agora mesmo com o seu filho e está a recuperar bem, a quimioterapia tem esses efeitos… Sim, agora tem de ser você a força do seu pequenino. (Pausa) Não se preocupe, vai correr tudo bem. (Pausa) Confie em mim, eu não deixo que nada aconteça ao seu menino. (Pausa) Faço tudo o que posso! (Pausa) De nada, Marta! (Pausa) Adeus, querida. Até amanhã! (Desliga o telemóvel e atira-o para o chão.) Realmente cada um tem a sua parte má nesta vida… Faz parte das funções do humano… (Pausa) Mas de quem seria aquela carta estranha… Hoje em dia já nem sabemos o que é verdade e o que não é… Ordem do dia… Arriscar, arriscar… Ou então… (Olhando para o telemóvel novamente, ficando pensativa…) Quem será? (Atende novamente…) Estou? (Pausa) Estou? (Desliga e fica a pensar com o telemóvel na mão. Levanta-se, despe a bata, pega na mala e sai…) (As luzes baixam e o cenário é modificado.)
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Segredo do Poder – Herbert Porto / Roberto Alves
CAPÍTULO 1 EM BUSCA DO PODER
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