Minha aldeia global Cristina Baracat
Belo Horizonte já foi bem diferente. Morei numa rua chamada Alameda Líbano. O ano era de 1972 e eu tinha apenas 7 anos de idade. Em frente à minha casa, havia uma chácara com pés de limão e laranja. De manhã, o carroceiro passava e deixava na porta o leite e o pão. Assim, a vida passava em meio à mansidão... No meio do meu quintal, havia um enorme abacateiro e uma gangorra amarrada por cordas. Não havia nada melhor do que gangorrar. É o mesmo que ir longe e voar. Minha mãe sempre dizia, talvez para dar um ar de "progresso" ao lugar onde morávamos: uma grande avenida vai passar aqui perto, ela está em construção. Havia dois caminhos para chegar à escola onde eu estudava. O primeiro, mais movimentado, passava rente às casas populares, e outro, mais ermo e interessante para a minha idade. Este, é claro, minha mãe não aprovava, e quando indagada por ela, eu cruzava os dedos e dizia que passava pelo primeiro. Comecemos pelo início do trajeto: da minha casa à escola eu andava umas 4 quadras, então havia uma outra chácara que vendia couve e outras espécies de folhas. Virava à direita, pegava um trecho com algumas dezenas de casinhas populares e depois pegava um atalho. Nesse trecho, eu atravessava um clarão rodeado por árvores frondosas, e, bem ao centro, encontrava uma mina de água clara. Aproximava-me das lavadeiras, esfregando a roupa branquinha e dividia com elas a água naquele oásis. Depois de sorver aquele líquido cristalino, subia uma enorme pedra e logo atrás estava a escola. Primeiro, fazíamos a fila no pátio e em seguida as professoras ministravam as canções antes de entrar para a sala de aula: Terezinha de Jesus, numa queda foi a chão, acudiram três cavalheiros, todos três chapéu na mão... Vivi neste lugar pouco mais de um ano. Tempo suficiente para reter em minha memória parte de uma infância onde a natureza e a simplicidade me faziam feliz. Agora, com meio século de idade, fui convidada para um aniversário pelo meu colega de trabalho e descobri que sua casa ficava bem perto da Escola Municipal Tenente Penido, onde eu estudei, e só agora digo o nome. Difícil reconhecer o lugar. Não havia mais a mina de água cristalina. Somente casas e centros comerciais. Em tempo: a avenida citada por minha mãe se chama Tereza Cristina. Então, lanço um desafio com pistas já dadas. Dou um doce para quem adivinhar que 1
pedaço de BH era o bairro onde eu morei e que fez parte da minha infância e talvez de muitos. Tem o mesmo nome de uma aldeia visitada por Jesus em Casa de Marta, Maria e Lázaro. Matou a charada? Morei no bairro Betânia. É um pedacinho da nossa aldeia global em Belo Horizonte, Minas Gerias.
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