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A PRÁXIS FILOSÓFICA NO PENSAMENTO DE EMMANUEL MOUNIER EM TEMPOS DE GLOBALIZAÇÃO Claudemiro Godoy do Nascimento

Resumo: pode-se afirmar que o pensamento de Emmanuel Mounier continua sendo muito atual para nossa realidade planetária e, principalmente, latino-americana. O Personalismo de Emmanuel Mounier traz uma reflexão que questiona a sociedade pelos muitos niilismos e ceticismos de nossos tempos, bem como traz uma nova compreensão acerca do ser humano. A valorização da Pessoa Humana se faz necessária e urgente. Pessoa Humana se faz na comunidade e o homem torna-se um ser de comunicação consigo, com o outro e com o mundo que o rodeia. Eis o princípio de alteridade comunitária apresentado pela revolução personalista. Mounier é o educador que propõe aos nossos tempos uma reflexão ética e global acerca do ser humano, despersonalizado e desumanizado por muitos movimentos que fazem acontecer uma forte tendência que navega por uma Ideologia do Individualismo. Palavras-chave: pessoa, personalismo, sociedade, filosofia

ão poderíamos deixar de lembrar e refletir acerca do pensamento de Emmanuel Mounier numa data em que se comemorou o centenário de nascimento desse filósofo da práxis e do engajamento. Bem sabemos que a realidade mundial vive tempos de incertezas neste início do século XXI. Mounier, com seu pensamento filosófico, pode ajudar na construção e na reflexão da tão sonhada sociedade diferente. A lógica do capital está lançada no mundo como único modelo que determina as condições materiais de existência para o ser humano. Com isso, percebemos o grande desvio axiológico do homem pós-moderno, se é que podemos falar de pós-

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modernidade. Poder-se-ia dizer que a existência humana está ameaçada por valores que estão a serviço do mercado, do consumo, do lucro e da acumulação do capital especulativo. Isto torna a sociedade voltada para si, distante de sua concepção primeira e vocação por excelência que é a de voltar-se para o todo. A sociedade vem perdendo sua vocação de abertura ao diálogo. Uma sociedade não dialógica (FREIRE, 1987; 1996) torna-se uma sociedade estática. O homem em sua dimensão mais antropos possível vive sendo formado e condicionado pelos princípios que regem esta sociedade do consumo que o torna um ser estático, imutável, dualista, denso a cair nos extremismos de uma época apologética e fundamentalista. Mounier vem chamar a atenção de nossos tempos. Quando Mounier aborda a necessidade de se ter uma revolução personalista e comunitária, é no sentido de re-fazer a humanidade, re-fazer a civilização como paradigma necessário que proponha novas alternativas ao ser humano que tem diante de si um único modelo, a saber, ‘o capitalista’. Por isso, deve-se passar da propriedade privada e capitalista para uma noção de propriedade humana. A essência do cristianismo vem abordar exatamente esta dimensão. O cristão deve ser a pessoa que se transforma em oposição aos modelos centralizados no paradigma todo-poderoso, a saber, o capitalismo. Mounier não apóia explicitamente o marxismo, pois percebe seus limites, sem negar que o capitalismo exclui a pessoa humana de participar do mundo, ficando renegada aos porões da desumanidade. Mounier é o homem/filósofo do engajamento. Com certeza, é um filósofo que assumiu a condição de pessoa preocupada com os rumos da humanidade e como cristão é indiscutível sua contribuição para a realização do Concílio Vaticano II (1962-1965), que teve como meta principal (re)fazer a caminhada da Igreja para que estivesse presente no mundo e com o mundo ajudando as pessoas a serem mais humanas. O HOMEM DO ENGAJAMENTO: MOUNIER E SEU TEMPO Seu tema preferido tornou-se a pessoa, no seu valor transcendente, isto é, na sua relação com Deus. Emmanuel Mounier nasceu em Grenoble, sudeste da França, no dia 1o. de abril de 1905. Em 1927, terminou o curso de licenciatura em Filosofia, em sua cidade natal, com o professor Jacques Chevalier. Em Paris, no ano de 1928, prepara-se para a agregação em Filosofia, sendo recebido em 2o. Lugar. Foi professor de Filosofia no liceu de Saint-Omer, norte da França. Enquanto lecionava, tentava definir um tema para sua tese de doutorado em Filosofia sobre questões de personalidade e mística. 118

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Em 1930, desiludido com a estrutura da Sorbonne, abandona a carreira do magistério, redescobre Péguy (filósofo francês cristão) e planeja, com alguns amigos, lançar uma revista que se abra aos problemas colocados ao homem dos anos 30 pela civilização nascente; e aqui, iniciaram-se os primeiros contatos com os círculos de Jacques Maritain e de N. Berdiaeff. Mounier poderia ser chamado por muitos de apenas mais um pensador cristão que tenta renovar a Igreja em declínio, mas prefiro aqui colocá-lo como o cristão, o filósofo, o educador, o homem de ação e contemplação, o polemista e, principalmente, um homem voltado para a ação política. Deixou sua carreira acadêmica por um ideal maior, fundando, em 1932, a revista Esprit, em Paris, chegando a se opor à idéia academicista e carreirista existente em sua época. Sua obra célebre – O Personalismo – destaca-se pelas circunstâncias na qual foi escrita, num período de pós-guerra e apenas três meses antes de sua morte repentina. Em seu pensamento não há doutrinas (MOUNIER, 1978), pois, se existissem, estariam repletas de sistematizações. Entretanto, Mounier nos apresenta uma filosofia nova, filosofia da pessoa em relação ao outro, ou seja, do espírito na forma pessoal que lhe é conatural e necessária. Contudo, a pessoa não está encerrada em si mesma, mas ligada, através da consciência, a um mundo de pessoas que são os outros e a comunidade. Sua filosofia não admite sistemas prontos e acabados, dando sentido ao conceito de liberdade humana, outrora esquecida até mesmo pela filosofia. Em 1935, Mounier casa-se com Paulette Leclercq, instalando-se em Bruxelas, a fim de poder ministrar cursos no liceu francês. No mês de março de 1938, nasce Françoise, sua primeira filha que, aos sete meses de idade, foi atacada por uma encefalite vacinal. Em setembro de 1939, Mounier, como simples soldado, fica confinado na região de Grenoble. Com isso, a doença de Françoise revela-se incurável e, em julho de 1940, Mounier, desmobilizado, instala-se em Lião com a família. Um ano depois a revista Esprit é suspensa pela censura. Em janeiro de 1942, Mounier é posto na prisão em Vals e entra numa greve de fome. Em outubro do mesmo ano, é julgado em Lião e libertado somente em 1943. A revista Esprit reaparece somente em dezembro de 1944. A revista edita, de 1945 a 1950, vários números especiais e grandes estudos sobre os desafios daquele momento. Em 1950, no dia 22 de março, Emmanuel Mounier morre de enfarto, às três horas da manhã (ABBAGNANO, 1984). Evidentemente, na filosofia elaborada por Mounier há um conjunto de idéias coordenadas em seu ato de formular o pensamento. São idéias sem corpos rigidamente formados e preestabelecidos, pois é a partir do homem FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 17, n. 1/2, p. 117-136, jan./fev. 2007.

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em si que se constrói a pessoa com sua personalidade, possibilitando, assim, que se possa interpretar seu pensamento como uma dimensão de testemunho e mensagem que irão dar a cada um, conforme sua realidade, o sentido da existência pessoal. Por isso mesmo, Mounier entrega-se, totalmente, à defesa da pessoa humana. Torna-se o homem de seu tempo, estabelecendo um diálogo franco com o mundo que o cerca. Sendo o filósofo da ação filosófica, não hesitou em sacrificá-la, ou seja, usando-a para despertar no outro uma atitude cristã e crítica em relação ao mundo. Poderia dizer que Mounier, em toda a sua vida, busca despertar no homem uma consciência filosófica que está em falta nos nossos dias (MOUNIER, 1978). Destaca-se o compromisso do homem Mounier que implica ação política no resgate da pessoa humana. Empenhando-se nisso, formulou seu pensamento teórico baseado no personalismo, que parte de um pressuposto existencial que o explica. Precipitado seria se o considerasse apenas como o filósofo ou o homem da práxis, mas, antes de tudo, Mounier é o homem do engajamento. Aquele que está engajado está aberto para caminhar até o fundo da ação, vinculando sua prática a uma meditação encarnada, concreta pelo testemunho da vida. Ricoeur, no Prefácio a O Personalismo de Mounier, afirma que a filosofia personalista de Mounier poder ser analisada como um ponto de partida: A sua filosofia nunca foi um ponto de chegada, mas um ponto de partida, e é no encontro com o homem ao longo das suas páginas, na fidelidade à sua iniludível vocação de homem da práxis que o podemos compreender como tal e apreender a sua dimensão (MOUNIER, 1976, p. 10). Seria um equívoco compreender Mounier apenas pela sua teoria filosófica. Precisamos assimilá-lo pela ação, enquanto homem que valorizou a pessoa na sociedade. Para Mounier, chega o momento de inverter os valores ideológicos estabelecidos e estabelecer outros, assumindo as opções pela vida. Opção significa assumir um compromisso concreto. O contexto em que surge o Personalismo no século XX se dá quando o mundo passa por uma crise política e espiritual, principalmente, na Europa. A revista Esprit, fundada em 1932, coloca o termo personalismo num contexto diferente do que era usado, anteriormente, por Renouvier, em 1903 e, também, por Walt Whitman, em 1867: A pessoa, para ele é antes de mais nada o não, a recusa de aderir, a possibilidade de se opor, de duvidar, de resistir à vertigem mental e 120

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correlativamente a todas as formas de afirmação coletiva quer sejam teológicas, quer sejam socialistas (MOUNIER, 1976, p. 18). Para muitos, até então, o personalismo era tido como sinônimo do egocentrismo: a pessoa, sozinha, é o centro do cosmos. No entanto, quando se fala do universo da pessoa humana, fala-se do homem (antropos) em si (MOUNIER, 1976). Como foi assinalado, o Personalismo não é um sistema com corpo formado, pronto e acabado. Ele se constrói no próprio homem. Por isso, é uma filosofia que desperta o homem para o engajamento. O que caracteriza o Personalismo de Mounier é o princípio (arché) da imprevisibilidade, com abertura hermenêutica, ecumênica e libertadora para o homem. São vários caminhos que o personalismo poderá seguir, pois não há uma única alternativa, não é um sistema. O Personalismo vem respeitar as diferenças culturais, étnicas e de classes, dando o sentido de ver que “não há um personalismo, ‘mas personalismos’” (MOUNIER, 1967, p. 10). No sentido universal, existe o conceito de personalismo diferenciado em cada realidade ou postura ético-moral. Como diria Teilhard de Chardin ao analisar o transcendente presente nas culturas: “O Transcendente é um meio universal; é o ponto final do qual convergem todas as realidades” (PENZO; GIBELLINI, 1998, p. 385). Uma pessoa é um ser espiritual constituído como tal por um modo de subsistência e de independência no seu ser; ela alimenta esta subsistência por uma adesão a uma hierarquia de valores livremente adaptados, assimilados e vividos por uma tomada de posição responsável e uma constante conversão; deste modo unifica ela toda a sua atividade na liberdade e desenvolve, por acréscimo, mediante atos criadores, a singularidade da sua vocação (MOUNIER, 1967, p. 84). O Personalismo não define a pessoa, pois ela não é objeto exterior do homem. Pode-se definir objetos, mas Pessoa não é objeto. Estaria construindo sistemas se a definisse (MOUNIER, 1976)1. O homem se faz pessoa em sua atividade criadora, na comunidade e na adesão. A experiência de se fazer pessoa pode converter os outros pelo testemunho, que não deixam de florescer em si essa pessoa humana. A grande proposta do personalismo de Emmanuel Mounier é fazer com que a humanidade se liberte do pesado sono em que se encontra, amortecida pelos horrores do século. FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 17, n. 1/2, p. 117-136, jan./fev. 2007.

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A idéia central no personalismo se baseia no modo pessoal de existir sendo a forma primordial da existência humana, pois esta busca seu crescimento na experiência de vida pessoal. O apelo pessoal como testemunho para o outro nasce da simplicidade dos mais humildes. A existência do homem deve ser conquistada para uma busca concreta de libertação, que não se dá de repente, mas é um processo de transformação da própria consciência. A libertação não se dará apenas e unicamente pela consciência do homem, mas também, no esforço do homem como pessoa em “humanizar a humanidade” humanizando-se (MOUNIER, 1976, p. 21), ou seja, na sua relação com os outros, por meio da comunidade. É exatamente por isso que Mounier aponta Platão como sendo um teórico do comunismo, ao “tentar reduzir a alma individual no nível duma participação na natureza e duma participação na cidade” (MOUNIER, 1976, p. 22). Ao considerar a história da filosofia, percebe-se que os gregos, desde Tales de Mileto até Plotino, afirmaram a dignidade do ser humano como processo de formação (Paidéia) do cidadão. O humanismo grego tem o seu ponto culminante na frase de Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”, caracterizada por Mounier como a grande revolução personalista na idade clássica da filosofia grega. O cristianismo é o “arauto duma noção decisiva da pessoa”, segundo Mounier. Para os gregos, o homem é um ser social, como disse Aristóteles no livro I da Política. Entretanto, os cristãos rompem e assimilam a singularidade desse ser social, ou seja, o homem é um ser social com suas particularidades pessoais. Para os cristãos, o próprio Deus se fez homem e veio fazer morada com a humanidade (Jo, 1,14), tornando-se pessoa encarnada na História e propondo que cada homem venha participar dessa divindade pessoal. Deus dá a liberdade de comungar com ele nesse ser pessoa. O homem, neste sentido, se faz pessoa no amadurecer a si para atingir o amadurecimento da humanidade. A concepção da Santíssima Trindade traz em si a própria negação da solidão. É interessante destacar que o dogma da Santíssima Trindade talvez seja o mais importante da Igreja Católica, desde a origem do Cristianismo, pois nos remete a uma concepção comunitária da vida eclesial. O mistério de Três Pessoas diferentes comungando o mesmo ideal é o maior exemplo de comunidade existente na história coletiva do homem (Cf. BOFF, 1999). E não há dúvida de que justamente a história da teologia trinitária deva constituir, a esse respeito, um lugar obrigatório que mereça atenção, evidenciando a correlação entre o homem, Deus e o mundo. O homem, pessoa humana que se faz na História, é um ser em si e para si, ou seja, é fermento que se constrói na história individual e coletiva da humanidade. 122

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Com Descartes, nasce o subjetivismo. Para ele, “a filosofia deixa de ser uma lição que aprende, como era costume na escolástica decadente, para ser uma meditação pessoal” (MOUNIER, 1976, p. 28). Poderia afirmar que Descartes nos propõe uma conversão da existência singularizada. A Idade Média se altera na transição do feudalismo para o capitalismo mercantilista. Mounier diz que a burguesia, neste período, torna-se corpo efetivo no exaltar o indivíduo, lançando as bases do individualismo econômico e espiritual, do qual, até hoje, todos sofrem conseqüências drásticas. O pensamento de Emmanuel Mounier retorna ao séc. XIX, com três pensadores que irão dar vida ao personalismo do século XX, a saber: Maine de Biran, Kierkegaard e Marx. Marx acusou Hegel de fazer do espírito abstrato, e não do homem concreto, o sujeito da história, reduzindo à Idéia a realidade viva dos homens. Esta alienação transcreve aos seus olhos a do mundo capitalista, que trata o homem trabalhador e produtor como objeto da história (MOUNIER, 1976, p. 30). No entanto, dois ramos diferentes se formam no século XIX contra as forças modernistas da sociedade burguesa e espiritualista da época. A primeira, com Kierkegaard, chama o homem a ter uma consciência de sua subjetividade e liberdade, e a segunda, com Marx, denuncia as mistificações das estruturas sociais (MOUNIER, 1967). Aqui se percebe o extremismo histórico das separações e dicotomias, pois, de um lado, temos o individualismo e, de outro, o coletivismo. A tentativa de Mounier é fazer com que as idéias de Marx e Kierkegaard ultrapassem as divergências para atingir a unidade. Daí o porquê de se estabelecer um conceito filosófico denominado personalismo. O próprio Mounier considera que o problema da civilização está no fato de se fazer desta dicotomia uma geração com o pensamento ideológico da burguesia capitalista, que irá usar o individualismo para possuir sua autonomia. Na verdade, o capitalismo não sobrevive se não existir o individualismo; um pressupõe o outro. No século XX, duas correntes filosóficas irão se manifestar como principais: o ‘existencialismo’, que tenta solucionar os problemas personalistas como liberdade e angústia, e o ‘marxismo’, que tenta propor a desmistificação do idealismo em relação ao homem. No personalismo, o homem tem sua particularidade, mas sempre em comum com o outro, pois é no seu interior e faz-se no social pelo diálogo. FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 17, n. 1/2, p. 117-136, jan./fev. 2007.

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O HOMEM COMO EXISTÊNCIA INCORPORADA Desde o surgimento da filosofia na Grécia e, principalmente, com a cristianização do pensamento platônico, realizada por Santo Agostinho, houve uma grande divisão espiritualista na civilização ocidental. Essa divisão se dá entre o mundo e o homem. O mundo pode ser entendido como matéria e, a partir de Descartes, é identificado como racionalista. O homem é espírito na concepção defendida pela escolástica na Idade Média. Com o personalismo tal esquema dicotômico é desfeito, pois a proposta é exatamente unir o diferente apresentado pelas particularidades subjetivas e objetivas donde surgirá o homem novo, respeitado como um todo, não mais fragmentado. A natureza do homem não é a separação categórica desses dois pólos, mas a pessoa humana é corpo e espírito e, como diz Mounier (1976): Tanto corpo como a alma são integralmente corpo e espírito, pois ambos se completam. O pensamento cristão une corpo e alma, sendo que na visão cristã a alma está unida ao corpo (matéria) não podendo jamais ter uma separação, pois daí resultaria a morte do homem. Historicamente, pode-se rever que o cristianismo, em alguns momentos, negou essa acepção de que corpo e alma fazem parte do todo humano. Havia uma grande aversão ao corpo considerada matéria que não leva a Deus. É claro que se deve entender o momento histórico da época. No entanto, falar hoje que o homem tem um corpo e precisa cuidar da alma torna-se equívoco gravíssimo. O cristão que nega o corpo nega a própria tradição cristã. Por isso é chamado a acabar com esse dualismo, seja pela vivência encarnada e até mesmo no próprio pensamento, porque o homem é um todo em sua natureza. Para Mounier, as dicotomias existentes na humanidade são produtos da alienação do homem. A alienação do homem é a miséria material; é o não aceitar a pessoa como corpo e alma. Neste sentido, acabar com a miséria material colocaria também um fim à alienação. O homem, além de alienado, tornar-se-á impessoal, não correspondendo ao ser que é de fato (MOUNIER, 1976). O próprio Marx escreveu em sua obra intitulada Economia política e filosófica que “o homem é um ser natural, mas um ser natural humano” (MOUNIER, 1976, p. 43). A singularidade do homem se dá por meio da transformação que acontece na sua própria natureza, sendo o único capaz do ato de amar, abrindo-se ao outro. A natureza, neste sentido, já é predeterminada. Pode-se dar o exemplo a partir dos animais que agem conforme a situação que lhes é imposta. Eles são sempre os mesmos, nunca mudam, ou 124

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seja, seus hábitos são naturais. São determinados a ser aquilo que a natureza lhes ditar. O homem é diferente, age conforme o meio (cultural, social, político, econômico, religioso...), a situação do momento histórico que seu pensar lhe dá e fornece. O destino do homem é buscar um crescimento do corpo e da alma nessa postura de integração dialética. Esse destino do homem jamais está pronto e determinado por uma ação construtiva no decorrer histórico. O homem, como criador de sua própria natureza, adquire duas tendências de uma pessoa criadora. A primeira tendência é para a despersonalização, e a segunda se dá num movimento de personalização. A tendência para a despersonalização faz do homem um ser caído em si mesmo, rotineiro, incapaz de movimentar-se por si próprio, pois não vive a vida social (mundo) e a espiritual (transcendente). Já o movimento para a personalização tem esse desafio de ser seguro e estar socialmente integrado em suas relações. A realidade pessoal é movida pela vida do espírito, por paixões e sentimentos que enaltecem o materialismo. O materialismo tem razão quando faz com que o homem atinja sua humanidade, tirando-o da escravidão individual que a realidade e o sistema lhe impõem. É utopia pensar o homem como fruto de desejos e que somente a história e seus processos de transformações é que farão com que haja mudanças. Todavia, é o homem que faz a história acontecer. Neste sentido, não se pode classificar o personalismo como espiritualismo. Mounier salienta que o espiritualismo por si mesmo é impregnado de doutrinas moralizantes. O homem sabe-se, age pelo instinto segundo o conceito freudiano e pela economia na visão marxista. Isso remete afirmarmos a tese de que o ser humano está mergulhado nesse dualismo por meio das contradições históricas da humanidade. Neste sentido, o personalismo opõe-se ao idealismo quando este reduz a matéria a todo o espírito humano, o que vem dissolver o sujeito pessoal num amontoado de relações geométricas e inteligíveis. Essa matéria (corpo) acontece como relações (MOUNIER, 1976). Na verdade, o mundo só pode ser explicado se for vivido de forma que a relação da consciência seja percebida. Conforme Mounier, existe uma relação dialética entre matéria e consciência, pois a matéria é o corpo em sua ação e a consciência é o pensamento (nous) que está ligado ao transcendente (alma) do homem. A partir dessa colocação, o desafio está lançado pelo personalismo cristãoexistencial, em que a afirmação da pessoa torna-se “fator essencial da minha situação pessoal” (MOUNIER, 1976, p. 51). A existência corpórea (biológica) e subjetiva (pensamento) emana de uma mesma e única experiênFRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 17, n. 1/2, p. 117-136, jan./fev. 2007.

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cia humana, ou seja, não se pode dicotomizar as diferenças, mas aprender que o todo de cada uma o faz ser Homem, verdadeiramente humano. O ser que está ligado nessa realidade do ser pessoal como o amor ao corpo, poderá se entregar aos outros e a si próprio, lançando-se nessa busca constante de dignificar o mundo, humanizando a humanidade desumanizada. Por isso, é preciso servir, pois o serviço é o alicerce para a consciência. No serviço atinge-se o todo do mundo e do sujeito histórico que o cerca, e aqui reside um princípio fundamental do cristianismo. O ser é equilíbrio que integra o objetivo e o pessoal, separando-os, faríamos o não acontecer ideal do ser. A pessoa se transforma, e nessa ação criadora iniciam-se as possibilidades de humanização do mundo. Nessa transformação o homem afirma-se como pessoa que destrói os obstáculos e abre fronteiras. Transformar é libertar-se para um ato de libertação na sociedade. “Pessoa liberta, libertando. É chamada para libertar a humanidade como as coisas” (MOUNIER, 1976, p. 53; FREIRE, 1987). Todos os seres são chamados a construir a libertação. Fazendo a libertação ou libertando, afirma-se como pessoa integrada e libertando-se também pela práxis que têm no mundo. Desde as revoluções industriais ou tecnológicas, o capitalismo é a forma que aprisiona o homem em seu egoísmo. Para Marx, o capitalismo degrada tudo em mercadorias, em mecanismo de lucro, causando a degradação das coisas. O homem pessoa, por natureza, mantém relações dialéticas de permuta e ascensão no que se refere ao capitalismo e ao mundo. O homem transforma a natureza pura, ao humanizar a própria natureza pelas transformações. A natureza, quando transformada, constrói o mundo, produzindo e reproduzindo. Produzir é preciso e essencial, mas se deve esclarecer que a produção em si é a própria valorização da pessoa que edifica a natureza humanizadao o que na dialética se torna uma “atividade libertante e libertadora” (MOUNIER, 1976, p. 55). A crítica aos automatismos das máquinas e das técnicas feitas por Mounier levanta a problemática da despersonalização do homem, pois o automatismo tecnológico rompe os contatos (relação) humanos. Assim, no mundo globalizado neste novo milênio, o homem não passa de um objeto descartável. Se não pertencer ao bloco daqueles que fazem parte do mercado, estará automaticamente excluído da sociedade. Num outro aspecto, o automatismo tecnológico, anunciado por Mounier como um perigo para a humanidade, tornou-se na atualidade uma realidade que vem gerando muito desemprego, sendo o homem trocado por máquinas no trabalho que poderia estar nas mãos do próprio homem (CNBB, 1999). A tecnologia não tem um aspecto de sociabilidade, pois individualiza as pessoas a viverem em um mundo insensível. Nas palavras de Mounier (1976, 126

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p. 56), “é uma poderosa força de despersonalização”. O homem poderá, com o tecnicismo, situar-se num mundo diferente, globalizado, individualista. O PERSONALISMO NO SÉCULO XXI Para Mounier precisa-se fazer uma Revolução personalista e comunitária, o que Boff acredita ser a Revolução em sua face ética, no sentido de construir uma nova humanidade, integrada e cooperada. É o que vem alertando também todas as edições do Fórum Social Mundial, que se realizaram em Porto Alegre, no Brasil, e em Mumbai, na Índia. Desde o tempo de Mounier até nossos dias, a civilização vem passando por uma profunda crise. Crise da civilização burguesa/capitalista e da cristandade. Por isso, a grande importância de assumir um compromisso ético, ao assumir também os desafios desse momento histórico com um discurso que possibilite a articulação dialética com a ação e o engajamento. Os dois conceitos, pessoa e comunidade, são duas realidades que constituir-se-ão luz e força. O pensamento de Mounier é um programa reflexivo e acionário, diria práxico. Diante da crise mundial e crise da civilização que vem sendo desmoronada, Mounier propõe Refazer a Renascença, mediante uma revolução que formasse uma nova visão de pessoa e de comunidade2. Tanto em Mounier como em outros pensadores, percebemos a urgência em edificar a necessidade de refazer um mundo, uma humanidade diferente. A palavra revolução adotada por Mounier é também adotada por pensadores marxistas em muitos momentos, no sentido de se entender a revolução como mudança radical, conversão íntima e comunitária. Mounier é homem que tenta propor uma nova civilização. Esta nova civilização vai contra o conceito de civilização individualista e burguesa, que até então imperava e continua imperando em nossa sociedade. Vai contra também o conceito de uma civilização coletivista. Dessa maneira, o binômio pessoa e comunidade vem caracterizar a proposta personalista de Emmanuel Mounier. Para Mounier, pessoa se faz na comunidade, e a comunidade só pode ser entendida como comunidade de pessoas. O interessante é que Boff (1998a; 1998b) realiza a metáfora do pensamento de Mounier, onde a pessoa se faz como ser águia e ser galinha. Pessoa, no seu sentido mais puro, ontologicamente falando, pode ser entendida como corpo e espírito, ser individual e relacional, logo, interpessoal, movimento de interiorização e de exteriorização. Um dado que precisa ser levado em conta é o fato de que pessoa e comunidade jamais podem ser entendidas como realidades estáticas. FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 17, n. 1/2, p. 117-136, jan./fev. 2007.

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Quando se fala de Revolução Comunitária, estará se pretendendo fazer um ato pedagógico de iniciação à comunidade. O amor vai constituir-se como unidade na comunidade. Para Mounier, há diferentes maneiras de se viver em comunidade. Mas, para ele, a comunidade só pode ser entendida em seu sentido amplo como sendo comunidade personalista, chamada por ele de pessoas de pessoas. Leonardo Boff vem mostrando, ultimamente, seu novo estilo literário mais voltado para a reflexão sobre o Homem. Assim, percebemos sua intenção de se pensar uma humanidade livre, que tornar-se-á águia por excelência. Pode-se dizer que o Personalismo influenciou a civilização do século XX? É possível falar de personalismo cristão, em Mounier, e de personalismo da libertação, em Leonardo Boff? Como poderia o personalismo humanizar a civilização ocidental desumanizada? É viável afirmar que a teologia da libertação na América Latina retornou ao personalismo cristão para propor uma nova humanidade baseada na lei do Amor? São interrogações que podem ser aprofundadas, a partir do momento em que façamos uma retrospectiva histórica deste século que vai se findando. O século XX enterrou o homem num mundo de horrores e adversidades. Duas guerras mundiais que mostraram gemidos e lamentos de morte. O nazismo, na Alemanha, e o fascismo, na Itália, foram os grandes protagonistas da Segunda Guerra Mundial, que silenciou um povo, o povo de Israel, os judeus. Século marcado por uma geração de pessoas desesperançadas. Mounier fala das sombras de medo que foram acalentadas com as bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki, inaugurando uma era de angústia e fanatismo escatológico, com apologias ao fim do mundo. A escatologia é um tempo de apocalipse. As duas Guerras Mundiais tornaram possível visualizar a grande possibilidade do fim do mundo. Para eles, o fim do mundo tinha esse caráter apocalíptico. Precisa-se distinguir o fim do mundo do fim de um mundo (civilização, família, sociedade), pois o fim do mundo, para os angustiados do medo, é universal, já o fim de uma civilização é um processo histórico que sempre aconteceu com o desenvolvimento do homem e da sociedade, logo, é um fato particular. Por isso, uma coisa é a consciência apocalíptica do fim do mundo, outra é a consciência da decadência de uma determinada civilização. Na história da humanidade há três grandes erupções apocalípticas. A primeira partiu da geração apocalíptica cristã que julgava viver a uma breve distância do fim dos tempos. O ano 1000, um número bíblico e apocalíptico, gerou muito sofrimento e convulsões públicas. O clima era de calamidade 128

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e medo, pois o mundo parou para que se chegasse à arrematação final, quando o Bem iria travar uma luta contra o Mal. Essa foi a segunda geração. A terceira se deu neste século XX, com as duas grandes Guerras Mundiais. No entanto, desde a Renascença o homem vem sendo destruído, aos poucos, em sua natureza. Mounier retrata a questão do fanatismo apocalíptico na seguinte frase: “Um homem, brutalmente privado do futuro, é um homem privado já da própria vida” (MOUNIER, 1979, p. 15). O homem cristão é o único que não deve crer no fim do mundo, crê no fim deste mundo que o deixa na miséria. O cristão acredita, sim, na mudança do Reino, ou seja, o fim do mundo para Cristo é a passagem do homem que está vivendo num reino miserável para atingir, definitivamente, o Reino de Deus: “Jesus respondeu: Meu Reino não é deste mundo. Se meu Reino fosse deste mundo, meus súditos teriam combatido para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu Reino não é daqui” (Jo 18,36). É digno salientar que “a verdadeira esperança cristã não é a evasão” (MOUNIER, 1979, p. 17). Assim sendo, pode-se perceber que quem irá determinar o fim dos tempos será o próprio homem que, pela sua vivência cristã, gerará o inicio da passagem do reino da miséria para o Reino de Deus. O verdadeiro cristão acredita na revelação divina do apocalipse, mas seu pensamento não está embasado no aniquilamento da raça humana, mas na continuidade da vida. Para Mounier, escatologia ou o fim dos tempos podem ser entendidos de duas maneiras: pelo espírito de apocalipse e pelo espírito de catástrofe. A terceira característica da grande erupção apocalíptica do mundo contemporâneo é a tortura. Visualizam-se homens cansados e angustiados, numa onda generalizada em busca da morte. Parece que o século XX se tornou um século sem esperança cristã. Para Mounier as duas grandes religiões do mundo são o Cristianismo e o Racionalismo. Os cristãos perderam o entusiasmo e a esperança, acabaram-se os sonhos. Percebe-se, até hoje, a forte influência do subjetivismo cartesiano de um princípio racionalista nas estruturas econômicas do capitalismo liberal, neoliberal em nossa atualidade e na vida social da humanidade. Tudo faz denunciar o anacronismo, a fraqueza, o absurdo da permanência de um mundo em estado de destruição e aniquilamento. O homem e seu tempo foram reduzidos à insignificância e ao esmagamento. Talvez haja explicação do fato de o existencialismo ateu basear-se nos clamores de que: “O homem está só, lançado por aí, para o nada, num mundo absurdo” (MOUNIER, 1979, p. 25). O século XX é marcado por um niilismo profundo, que difunde nos homens um pavor de uma singularidade baseada na paixão terrorista, com FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 17, n. 1/2, p. 117-136, jan./fev. 2007.

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inspiração no espírito catastrófico. O século XX é também um século de fuga para o artificialismo. É um tempo de paixão para o abstrato; tecnicismo exagerado, tornando-se técnica (robotização) da técnica (arte). O milagre provém da ciência e da técnica. Esses milagres estão em tudo, desde um acendedor automático de microondas até na comunicação visual entre o mundo todo, via aparelhos de comunicação. O milagre está em poder fazer; e o maior poder da técnica e da ciência é gerar o fim do mundo, no ato de mandar tudo pelos ares, o planeta e a humanidade, com a criação das bombas atômicas. A sociedade das máquinas há muito tempo lança ao mundo da miséria milhares de homens no desemprego (MOUNIER, 1979). O homem do século XX, na frase de Marx, seria um “membro vivo de mecanicista morto”. O grande problema não está no emprego das máquinas como recurso que ajude o homem a crescer, mas está no capitalismo como modo social que gera a exploração, deixando até mesmo a produção como secundária. Percebe-se, portanto, que o mecanicismo traz os germes da limitação humana (MOUNIER, 1979). A questão do trabalho na Grécia é que ele está ligado à identidade servil, por isso, não era bem visto pelos gregos. Os cristãos analisam a concepção do trabalho como obra criadora do homem e não em sua pureza ou em seu castigo. O nascimento das máquinas compromete a sobrevivência da técnica manual, conseqüentemente, o trabalho está afetado. É pela máquina que surge a guerra. O progresso da técnica militar se deu num desenvolvimento superior ao progresso de outras artes como a própria agricultura. Mecanizar a técnica significa mecanizar as almas. Existe no ser humano uma ordem natural das coisas que é imutável. Dentro dessa ordem existente, um conceito sagrado é inatingível. O grande paradoxo entre a natureza e o homem encontra-se no fato da primeira levar milhares de anos para se constituir uma ordem das coisas; já o homem, com o poder da técnica industrial, pode acabar com tudo em dois segundos. Uma coisa está clara e evidente: “a natureza se oferece para ser recriada pelo homem” (MOUNIER, 1979, p. 61). Nesta aventura humana de recriar as coisas já criadas, a natureza foi ameaçada e comprometida em sua existência. A natureza modificada pelo homem torna-se a modificação do próprio homem natural, pois o homem age pela força, a fim de transformar o já criado. Em lugar de realizar a hominização da natureza do homem pelo homem através da máquina, não corre o risco de acarretar a coisificação do homem pela máquina? (MOUNIER, 1979). 130

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Com o século XX, permanece nos homens a não crença na felicidade. Todos esperam um futuro incerto (MOUNIER, 1979). Assim a idéia de progresso é uma idéia moderna e pode ser analisada sob quatro aspectos: primeiro, a história tem um sentido: a história do mundo e, em seguida, a história dos homens; segundo, esse movimento dirigido da história vai de um impulso profundo contínuo para um impulso melhor. É esse movimento, um movimento de libertação do próprio homem; terceiro, o que caracteriza a idéia moderna é o desenvolvimento das ciências e da técnica, constituindo um momento decisivo do processo de libertação e, por último, o homem tem a missão de ser sujeito da própria libertação. Nenhum povo, etnia ou civilização possui, desde os remotos tempos da Grécia, a idéia de tempo e história. Para eles, o tempo é eterno. Apenas os judeus possuíam essa dinâmica temporal que caracteriza a importância da história no processo de libertação dos judeus. O mundo tem uma história una e universal, assim dizia o judaísmo. Os judeus professavam o monoteísmo, enquanto outros povos eram politeístas, sendo que suas esperanças como nação eram depositadas no Messias que estava por vir. Era a esperança coletiva de um povo. O cristianismo é herdeiro dessa tradição judaica que, baseando-se em três dimensões teológicas, poderia associar a unidade do Todo como unidade de Deus, unidade da História, a unidade do Gênero Humano. Assim, há a idéia de progresso coletivo da humanidade. O cristão é, por excelência, transcendente e imanente. O cristianismo é progressivo e escatológico. O progresso do cristianismo não é uma acumulação do ter (bens, poder, conforto), mas uma marcha para a perfeição do ser. O progresso da história segundo o Cristianismo não é um processo de acumulação contínua, como o progresso técnico, cuja lei é muito mais sumária. É antes de tudo ascese, e segue, na humanidade, como no indivíduo; a lei de toda ascese é: sacrifício, ressurreição, transfiguração (MOUNIER, 1979, p. 125). Na perspectiva cristã, existem duas verdades substanciais e constitutivas, que mostram o homem como ser cristão no mundo, chamado por Mounier de humanismo cristão: a primeira é que não existe mal no mundo, tudo é bom3, a natureza, a carne, a matéria, o espírito. Assim, o homem em si é por natureza bom. Aliás, neste sentido, Mounier busca fontes seguras em São Bernardo e em Rousseau, para assegurar que a natureza, e FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 17, n. 1/2, p. 117-136, jan./fev. 2007.

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principalmente, a carne e o corpo são valores que darão sentido ao existir espiritual, pois estes estão anexados, na concepção cristã, ao desenvolvimento vivo do Reino de Deus (MOUNIER, 1979). Diz Mounier (1979, p. 141-2), ao refletir sobre o papel do cristianismo no que se refere à carne e ao corpo: Se a encarnação é completa e a Ressurreição total, o Homem novo é ao mesmo tempo convidado a fazer uma terra nova, o mundo dos corpos deve colaborar, com todas as energias, não apenas no contar, mas ainda, no construir a glória de Deus. Mounier coloca duas proposições que constituem o universo do homem completo, como pessoa: dizer não aos extremismos teocêntricos e antropocêntricos, mas unificá-los em uma dialética que os faça na história. O homem recebe a promessa da divinização e a missão de divinizador do cosmos (MOUNIER, 1979). A humanidade se fará lentamente e progressivamente. Por isso, não se espera um Pascal, um Kierkegaard, mas construtores de obras e esperanças para toda a humanidade (MOUNIER, 1979). Contudo, o cristianismo não foi feito para dar soluções aos problemas da terra. Como Cristo se fez homem, todos devem também se tornar homens, plenamente humanos. Precisam se fazer homens, plenamente homens. O espírito de catástrofe do século XX, na visão mounieriana, foram os terrores dos campos de concentração que exprimiram a grande fraqueza européia e humana. É preciso reconhecer a enfermidade da humanidade. Por isso, ao invés de catastróficos, deveríamos ser humildes, serenos, complacentes com a realidade, sem dramatizações inúteis (MOUNIER, 1979). CONCLUSÃO A época de Emmanuel Mounier traz muitas reflexões a respeito do homem e da sociedade. Persistiam as velhas tentações teocráticas que tentavam dominar a sociedade no tradicionalismo liberal, numa espécie de conservadorismo social que dirigia o destino da fé com regimes ultrapassados. Como já foi dito, o cristianismo, para Mounier, não terá um fim. A cristandade e o seu modelo conservador e doutrinário é que terá um fim, para que se forme outra sociedade cristã onde haverá um retorno ao cristianismo primitivo da era apostólica. Na verdade, o Personalismo cristão propõe esse retorno às suas fontes primitivas. Essa nova civilização não será nem teocrática, muito menos liberal, mas munida de transcendência, encarnação 132

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primitiva dos conselhos evangélicos. Por isso, a crise do século XX não é do cristianismo em sua essência, mas dos valores religiosos de um mundo niilista. Precisa-se, urgentemente, de uma nova civilização que busque libertar-se desses valores anticristãos que silenciam a vida plena. Torna-se necessária à participação de todos nesse desafio maior, de construir uma nova realidade, abrindo as fronteiras do advento do Reino. Para isso, tornase imprescindível avaliar o passado, refletir o presente e ouvir o apelo dos novos desafios para este novo milênio que vem chegando. Todos são convocados a renovar a Igreja de Jesus. Para isso, é preciso afrontar as doutrinas, os sistemas e as estruturas de morte que impedem com que o homem se torne pessoa. Renovar a Igreja de Jesus significa redescobrir a mística e a espiritualidade e ser edificador do Reino como foram em seus respectivos tempos: São Francisco de Assis, São João da Cruz, Charles de Foucauld e outros tantos e tantas. A mística do Reino mostra uma ética evangélica que se faz uma exigência coerente a partir da dinâmica da história. Ser místico do Reino presume com que todos os cristãos busquem identificar-se com a proposta de Jesus: “Eu tive fome e me deste de comer. Tive sede e me deste de beber”4. O místico é uma figura perigosa, que afronta. É perigoso para as estruturas, até mesmo da Igreja, no entanto, para os místicos a Igreja não é absoluta, absoluto é o Reino de Deus. O socialismo é o sonho do futuro, no sentido de que, para mim, a busca e o sonho de construir o Reino de Deus promoverá o socialismo que tem sua essência verdadeira no cristianismo primitivo. É uma questão aritmética de partilha de bens. A eucaristia é um sacramento comunista, logo personalista. A cada momento que se celebrar a eucaristia estará se questionando a ordem social. Por isso, a nova civilização personalista deve ser uma civilização mística, em que todas as pessoas tenham condições reais de vida e vida em plenitude. Ter vida significa ter direitos e direitos de cidadania, de vida em plenitude, por natureza do Reino, à alimentação, à escolaridade, à saúde digna, ao trabalho, ao lazer. Direito de ser pessoa significa ter condições de manifestar sua prática religiosa, seja na meditação pessoal como na exterioridade do mundo. Todos são vocacionados dessa nova civilização que caminha para o século XXI, incerta, do que virá e do que poderão realizar para sua transformação. Guerras absurdas continuam nos dias atuais, denunciando a fraqueza humana. Iraque, Afeganistão, Haiti, Colômbia, e outros países que se encontram sob a égide de conflitos civis, enfim, vários países que estão FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 17, n. 1/2, p. 117-136, jan./fev. 2007.

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na miséria e o parlamento mundial (ONU) nada faz, pois obedece somente às ordens do império econômico dos EUA. A África, em vários países está assolada pela fome. Os países da América Latina e da Ásia vivem à custa do FMI e do Banco Mundial, que cobram horrores de impostos e juros especulativos por causa dos empréstimos. Esses empréstimos são determinados pelos próprios donos da economia mundial, que controlam os mercados e as bolsas de ação financeira. Na verdade, homens e mulheres sem entender nada, ficam presos, sem nada poder fazer. Inspirar-se no sonho de Jesus, o Reino, que se realiza já na história, começando pelos últimos e sempre onde houver verdade, justiça e amor. Re-criar o comprometimento de Jesus com os excluídos e com os empobrecidos na luta contra sua pobreza em favor da vida e da libertação. Falar de Deus e de sua graça a partir da experiência do mundo, da história do sofrimento e da certeza que a última palavra não é morte, mas vida, não é cruz, mas ressurreição. Dar centralidade à misericórdia e à ternura porque são elas que salvam a vida e o amor e revelam o rosto materno de Deus. Compreender o ser humano como um projeto infinito, como a própria Terra que sente, pensa, ama e venera. Cuidar da Terra, a Grande Mãe, Pachamama e Gaia, com a qual se tem a mesma origem e a mesma destinação de ser metáfora da Fonte originária de todos os seres. A humanidade é chamada a re-viver a piedade cósmica e a confraternização universal com todas as criaturas, com todos os povos da terra, no seguimento de Clara, Francisco de Assis, Charles e outros(as). Isto é uma idéia central do personalismo de Mounier. Construir e formar esta nova civilização requer adesão por parte da humanidade, dos cristãos, da Igreja, das comunidades, das famílias, enfim, adesão do homem. O personalismo influencia a civilização, pois se não tivesse influenciado, não poderia estar refletindo sobre tal assunto. Mounier e outros tantos como Gabriel Marcel, Maritain e os teólogos da libertação na América Latina são cristãos que se dispuseram a pensar o homem em sua liberdade e em sua existência como um todo, corpo e alma. O cristianismo, tanto em Mounier e para eles, implica que o homem busque e almeje a liberdade. Para isso, é necessário que haja a libertação em sua totalidade. A nova civilização exige de todos um retorno aos princípios do Evangelho, que trata a pessoa com dignidade e liberdade. O amor pela vida se dá na doação e na opção preferencial pela pessoa. O sonho de todos os cristãos, homens e mulheres, comprometidos com o Reino, é ver um dia o sonho se realizar. O sonho dessa nova civilização exigirá, no entanto, que se faça a Revolução Personalista neste século XXI. 134

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Notas 1

2

3 4

Pessoa não é construída exteriormente pelo homem, mas se faz de dentro, a partir do ser transcendente. Assinala-se o pensamento de Mounier no sentido da dimensão teológica da pessoa. Pessoa significa a máscara teatral através da qual ressoa o seu dizer, cujo homem é a personagem (em grego, prósopon, em latim, persona). Quando Mounier aborda a questão do ato de refazer a Renascença não significa de modo algum uma volta ou retorno da Cristandade. Aliás, Mounier se coloca contra a idéia de cristandade ao proporcionar um retorno à eclesiogênese das primeiras comunidades cristãs. Cf. Gen, 1-2. Cf. Mt 25, 31-46.

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Abstract: It can be affirmed that Emmanuel Mounier’s thought continues being very current for our planetary reality and, mainly, Latin-American. Emmanuel Mounier’s Personalism brings a reflection that questions the society for the many nihilisms and skepticisms of our times, as well as he/ she brings a new understanding concerning the human being. The Human Person’s valorization is made necessary and urgent. Human person is made in the community and the man becomes a to be of communication I get, with the other and with the world that surrounds him/it. Here is the alter beginning/other community one presented by the person’s revolution. Mounier is the educator that it proposes at our times an ethical and global reflection concerning the human being, non person and inhuman, for many movements that make a strong tendency that navigates for an Ideology of the Individualism to happen. Key-words: person, personalism, society, philosophy

Este artigo é uma forma de comemorar o Centenário de nascimento desse filósofo cristão Emmanuel Mounier (1905-2005). No ano de 2005, Mounier completaria 100 anos de vida. Morreu jovem, com 45 anos. Porém, deixou-nos um legado atual para que possamos compreender a atitude do filósofo e da própria filosofia do engajamento político na história da humanidade. CLAUDEMIRO GODOY DO NASCIMENTO Mestre em Educação pela Unicamp. Professor na Universidade Estadual de Goiás em São Miguel do Araguaia. Coordenador do Grupo de Estudos Movimentos Sociais, Educação e Cidadania (GEMEC). Membro da Rede de Movimentos Sociais. Filósofo. E-mail: claugnas@gmail.com

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