SÃO CAMILO PASTORAL DA SAÚDE INFORMATIVO DO INSTITUTO CAMILIANO DE PASTORAL DA SAÚDE ANO XXXII N.350 ABRIL 2016
VÃO-SE OS ANÉIS... ANÍSIO BALDESSIN
“Vão-se os anéis e ficam os dedos; depois da tempestade vem a bonanza; tudo tem o seu lugar; tudo tem a sua hora; basta olhar para frente e ter em mente que tudo tem seu lado positivo; o lado positivo existe sempre, mesmo quando não conseguimos enxergá-lo; mantenha seus pensamentos positivos, porque seus pensamentos tornamse realidade; veja sempre o lado positivo; jamais sofra antecipadamente; tudo tem o lado bom”. Essas são apenas algumas das muitas frases feitas que as pessoas costumam repetir quando querem “consolar” alguém que teve um drama na vida. Seja ele causado pela morte de uma pessoa querida, um acidente ou assalto, a perda do emprego, a descoberta de uma doença grave e até mesmo por alguma decisão equivocada que trará consequências ruins no futuro. Na Bíblia, mais especificamente o livro de Jó, narra um desses dramas. Por isso, embora muitos, inclusive eu, já tenha escrito artigos sobre os dramas de Jó, nesta reflexão quero mostrar como Deus, em Sua “ação pastoral”, respondeu os inúmeros questionamentos e ajudou Jó no enfrentamento dos seus infortúnios. Todas essas respostas se é que podemos chamar de respostas, estão contidas no capítulo trinta e oito do referido livro. Vou citar apenas algumas delas. ”Então Javé, do meio da tempestade, respondeu a Jó e disse: «Quem é esse que escurece o meu projeto com palavras sem sentido? Onde você estava quando eu colocava os fundamentos da terra? Diga-me, se é que você tem tanta inteligência! Você sabe quem fixou as dimensões da terra? Quem a mediu com a trena? Onde se encaixam suas bases, ou quem foi que assentou sua pedra angular, enquanto os astros da manhã aclamavam e todos os filhos de Deus aplaudiam? Quem fechou o mar com uma porta, quando ele irrompeu, jorrando do seio materno? Quando eu coloquei as nuvens como roupas dele e névoas espessas como cueiros? Quando lhe coloquei limites com portas e trancas, e lhe disse: ‘Você vai chegar até aqui, e não passará. Aqui se quebrará a soberba de suas ondas’? Alguma vez em sua vida você deu ordens para o amanhecer, ou marcou um lugar para a aurora, a fim de que ela agarre as bordas da terra, e dela sacuda os injustos? Por acaso você deu ordens à terra para ela se transformar como argila debaixo do sinete e se tingir como vestido, negando luz para os injustos e quebrando o braço que ameaça golpear? Você já chegou até as fontes do mar, ou passeou pelas profundezas do oceano? Já mostraram a você as portas da morte, ou por acaso você já viu os portais das sombras? Você examinou a extensão da terra? Se você sabe tudo isso, me diga.
Por onde se vai até a casa da luz, e onde é que vivem as trevas, para que você as leve ao território delas e lhes ensine o caminho para casa? Certamente você sabe disso tudo, pois já então havia nascido e já viveu muitíssimos anos. Você entrou nos reservatórios da neve e observou os celeiros do granizo, que eu reservo para o tempo da calamidade, para os dias de guerra e batalha? Por onde se espalha o calor, e se difunde sobre a terra o vento leste”? (Jó 38, 1-24) Esses versículos trazem um ensinamento muito importante para todos os que são chamados a prestar assistência espiritual às pessoas assoladas por um dos dramas acima citados, e principalmente, para os que assistem espiritualmente aos doentes. Um detalhe fundamental é a atitude de Deus diante das palavras (reclamações) de Jó. Ou seja, num primeiro momento Deus se mantém calado. Não responde nenhuma pergunta e muito menos tenta mostrar o lado bom da vida. É claro que Deus, mesmo em meio a tanto sofrimento, sabia da existência do lado positivo das coisas. Ao mesmo tempo, Ele também sabia que aquele que estava sofrendo não tinha condições de visualizá-lo. Por isso, sabiamente só ouve as lamentações. Os agentes de pastoral da saúde bem como aqueles que prestam assistência espiritual aos doentes, devem aprender essa bela lição. Ou seja, não querer explicar ou mesmo mostrar o lado bom das coisas quando aquele sofre não tem condições de entendê-las. Eu tenho a impressão, para não dizer certeza, que se Deus tivesse feito todas as reflexões que estão contidas no capítulo trinta e oito quando Jó ainda estava apresentando seu drama, certamente ele não teria parado para ouvir e muito menos se sentido um pouco melhor. Deus entendeu que diante de todos aqueles dramas, a melhor ação era estar perto. Pois quem é bom ajuda quem está perto. Mas, quem ama realmente, sempre está perto para ajudar. Ou seja, o que mais agradou a Jó não foi o fato de Deus ter mostrado o lado bom da vida e sim saber que Deus estava ao lado. Por isso, todas as vezes que você se defrontar com alguém invadido por uma enxurrada de sofrimento, antes de falar ou mostrar o lado bom dos acontecimentos, fique próximo daquele que sofre. Pois mesmo que às vezes, vão-se os anéis e ficam os dedos, quase sempre, temos a impressão que foram os dedos também. Anísio Baldessin, padre camiliano, é diretor do Instituto Camiliano de Pastoral da Saúde.
SÃO CAMILO PASTORAL DA SAÚDE
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DESAFIOS DA SAÚDE SUPLEMENTAR NO BRASIL MAILSON DA NOBREGA
O jornalista norte-americano Henry Louis Mencken cunhou uma frase que se aplica com perfeição ao setor de saúde no Brasil: “Para todo problema complexo sempre há uma solução clara, simples, e errada”. Em diversos países, os custos da saúde têm aumentado sistematicamente acima dos demais custos da economia. Esse fenômeno tem diversas causas e representa um desafio para a sustentabilidade desse importante e complexo setor, decisivo para o bem-estar e a longevidade da população. Conforme previsto na máxima enunciada acima, medidas simplistas tem sido usadas para atacar o problema e algumas já se mostram contraproducentes. A que mais chama a atenção é o controle de preços em alguns segmentos da indústria de planos de saúde. No de planos individuais, há controle dos reajustes anuais pelo órgão regulamentador, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), desde 1999. Diante da persistência do aumento do custo de prover o serviço, essa medida teve como consequência inexorável uma redução dramática na oferta dos planos, em prejuízo de quem não tem acesso a seguros em grupo (como trabalhadores autônomos). Tal prática intervencionista foi estendida aos planos coletivos empresariais com menos de 30 beneficiários em 2012, com consequências similares: planos coletivos por adesão, que na grande maioria não sofrem a mesma intervenção, pois normalmente têm mais de 30 beneficiários, absorveram parte do mercado, em detrimento dos planos empresariais para pequenas e médias empresas, tornando o controle de preços novamente instrumento de redução de oferta. Medidas dessa natureza, ao não atacarem as causas fundamentais da inflação da saúde, não geram efeitos positivos sustentáveis. Criam distorções. Uma vez que o fenômeno tem origem em fatores diversos, são necessárias ações estruturais para sua correção. Dentre as causas temos o aumento da expectativa de vida da população, decorrente da maior prosperidade material e do avanço da medicina. Doenças associadas a pacientes mais idosos, assim, tornam-se mais comuns e os tratamentos, mais complexos e caros. Parte do avanço na medicina decorre da introdução de novas tecnologias em equipamentos e remédios, algumas decisivas para o sucesso de tratamentos. Outras, no entanto, apesar do alto custo, apresentam pequeno incremento em relação a alternativas existentes. A adoção indiscriminada de novas tecnologias pelos provedores e sua inclusão na lista de tratamentos do SUS ou no rol de procedimentos de cobertura obrigatória pelos planos de saúde – outra intervenção do governo no setor – constituem uma das causas da inflação na saúde. Faz-se necessária, para preservar a modicidade de preço e a efetividade dos tratamentos, a criação de metodologia rigorosa para mensurar a relação custo/ benefício da introdução de novas tecnologias nos procedimentos cobertos. Outro fenômeno subjacente é a judicialização de questões relacionadas a saúde. Os tribunais tem sido favoráveis a pleitos de beneficiários para que os planos de saúde cubram condi-
ções não previstas nas listas de procedimentos. Em muitos casos, trata-se de procedimentos caros, para os quais há tratamentos alternativos com grau de efetividade semelhantes. Tal prática necessariamente encarece o valor dos planos, cujo principio é o do mutualismo: despesas são cobertas pela contribuição dos segurados e gastos extraordinários resultarão necessariamente em prestações maiores para todos os participantes. Também pode ser observado algum desalinhamento de incentivos entre os participantes da cadeira (planos, hospitais, médicos e segurados), uma vez que na maioria dos planos disponíveis no mercado não há nenhum tipo de coparticipação do beneficiário. Por perceber que não há custo nos procedimentos, há uma tendência a sua sobreutilização, encarecendo os planos. A adoção de franquias ou copagamentos, usuais em outros tipos de seguro, poderia atenuar essa distorção. Nessa mesma linha, o modelo de “conta aberta”, pelo qual hospitais e médicos são remunerados pelos serviços prestados aos beneficiários dos planos, também enseja distorções. Uma vez que os prestadores recebem segundo os procedimentos realizados, quanto mais procedimentos e materiais consumidos, maior é a sua remuneração. Desse modo há um claro estímulo à realização do maior número possível de procedimentos, mesmo que o beneficio para o paciente seja reduzido. A alternativa defendida por especialistas, e já adotada com sucesso em outros países, prevê uma remuneração fixa ao prestador segundo grupos de diagnósticos. A remuneração, neste caso, não aumentaria de acordo com o número de procedimentos, dependendo somente da enfermidade a ser tratada. Esse arranjo, quando complementado por outros estímulos – por exemplo, premiação por outros indicadores de desempenho do prestador, como a não reincidência da enfermidade -, pode ser decisivo para tornar o sistema mais econômico e acessível para a população. Por fim, existem desafios ligados à maneira como a informação no setor de saúde é disseminada. Há pouco compartilhamento de dados sobre o sistema, dificultando avaliações acerca da qualidade de médicos e prestadores de serviço. Mesmo quando há informações sobre um paciente, barreiras impedem o acesso e seu uso, se isso vier a ser necessário. A adoção de rankings de hospitais, o monitoramento de remuneração de médicos por fornecedores de dispositivos e materiais e a adoção de prontuário eletrônico contribuíram para reduzir essas assimetrias de informações. Este momento de crise é propício à discussão de ideias para aperfeiçoar o funcionamento dos mercados como o de saúde suplementar. Só o combate efetivo às causas dos problemas resultará em soluções sustentáveis e permanentes. Saídas simples, que miram os efeitos, tendem apenas a aprofundar desequilíbrios e a tornar o sistema insustentável. Mailson da Nobrega é Economista, e foi ministro da fazenda.
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SÃO CAMILO
PASTORAL DA SAÚDE
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CADEIRA OU LEITO PE. ZEZINHO
Eu gostaria que fosse apenas um poema e não uma tragédia. Mas tragédia se tornou. Há cadeiras e vagas para milhões de torcedores de futebol nos novos e modernos estádios, para o Brasil fazer feio ou bonito perante o mundo. Houve dinheiro para isso, porém custou caro e sobre tal fato pesa a suspeita de superfaturamento. Mas não há nem remédios, nem aparelhos, nem cadeiras, nem macas, nem leitos, nem vagas para milhões de enfermos, muitos deles terminais. Cidades pobres e grandes centros assistem ao triste espetáculo de doentes empilhados nos corredores à espera de médicos ou cuidados que não vêm. Não falo de jornais que li. Eu vi, fui lá, protestei e presenciei a reação de mães em desespero. É verdade que vi excelentes serviços, bons médicos e enfermeiros e enfermeiras, hospitais bem cuidados e excelentes atendentes, mesmo quando não havia dinheiro sobrando. Mas hospital é como restaurante: tem de haver higiene, cuidado e o mínimo necessário de iguarias para o freguês. Se os governos não providenciarem e se os atendentes não se esmeram, é justo que a imprensa denuncie e, com ela,
as faculdades e as Igrejas. Se os políticos no comando entenderam que o País tem capacidade para assumir copas mundiais e olimpíadas, então também tem capacidade para assumir os seus doentes, até porque os impostos são escorchantes. HOSPEDAR O DOENTE – Se não há vagas nem grutas, manjedouras e cochos com feno por perto, mães e meninos nem isso encontram. Lá fora há carros lindos, ônibus com ar condicionado, motos incrementadas enchendo a avenida de ruídos do progresso. Nos corredores, faltam macas, cadeiras e um colchão. Somos um País que canta e fala bonito, mas, na hora de hospedar um doente, a burocracia manda para casa um enfermo moribundo porque faltou um documento e um carimbo de alguém no comando. Os planos de saúde? Pois é: os planos de saúde! Eles também fazem de tudo para não ter que gastar o dinheiro que arrecadaram dos futuros pacientes. Pagam adiantado, e muitas vezes o chefão não carimba a ficha de internação. E o povo insiste em votar nesses representantes. Triste e trágico! E você, votou nessa gente! Pe. Zezinho, scj Escritor, cantor e compositor.
FALAR SOBRE MÁS NOTÍCIAS JOSÉ CARLOS BERMEJO
Falar, calar, escutar são três dimensões que configuram o tripé sobre o qual se sustenta uma boa comunicação. Se alguma delas se hipertrofia ou se minimiza, em detrimento das demais, o sistema fica manco e pode cair. Toda relação deveria manter o equilíbrio entre esses três aspectos da comunicação para conseguir uma perfeita harmonia. FALAR Falar por falar, quer dizer, relatar todos os pequenos detalhes que ocorrem cada dia não necessariamente supõe maior comunicação. O charlatão fala muito, mas transmite pouco. Mas também é certo que um mutismo absoluto não indica uma boa comunicação. O falador deveria estar também atento às necessidades do outro; e o silencioso deveria esforçar-se em ser partícipe aos demais de suas preocupações, temores e projetos. DEZ “MOTIVOS” PARA FALAR - Falo para contentar meu parceiro (a) ou a meus pais; - Falo para evitar que me perguntem sobre o que não quero falar; - Falo para esquecer as dores ou não “pegar o touro pelos chifres”; -Falo para compartilhar minhas alegrias, dores e projetos; - Falo para buscar solução a um problema; - Falo pelo prazer de trocar opiniões; - Falo por obrigação: é um dever; - Falo porque me aterra enfrentar-me com meus próprios fantasmas e preocupações; - Falo porque necessito que o outro me escute; - Falo para ser simpático a todos. CALAR Geralmente entendemos por silêncio a ausência de pala-
vra ou ruído. Assim, silêncio se equipara a mutismo. Entretanto, o silêncio é uma vivencia muito mais complexa e pode ter diversos matizes. Há silêncios agressivos (resposta a uma palavra malsonante ou contra uma ofensa); pode significar surpresa (como ante uma mostra de carinho inesperado); pode indicar amargura ou luto (silêncio em um funeral); pode ter a característica de boa educação ou de respeito (silêncio em uma igreja) ou significar medo ou vergonha (silêncio em um elevador); pode significar protesto (as manifestações de silêncio diante dos atentados) ou aborrecimento (calar-se em um encontro com outras pessoas). Em todas essas circunstâncias o silêncio transmite uma mensagem (de ofensa, de amargura, etc.), pelo que podemos afirmar que o silêncio é comunicação. E é, pois, um elemento fundamental em todo diálogo. Sem silêncio não poderíamos entender-nos. Por isso, não sem razão na religião budista se chega a dizer: “há uma comunicação autêntica quando alguém se expressa sem ter que usar a boca e escuta sem ter que usar os ouvidos”. Para o budismo, pois, o silêncio é uma forma de comunicação significativa. O silêncio verbal pode ser acompanhado de uma mensagem não verbal (postura, gesto, olhar, etc.) que pode comunicar mais que a própria palavra. Nossa cultura ocidental é pouco sensível ao silêncio e segredo. Tudo se fala e tudo se expõe pela TV e o rádio. Está se perdendo o pudor pela intimidade. De alguma maneira temos nos convertido em “voyers” das falhas dos outros: suas infidelidades, seus problemas de herança, etc. Por isso, quando alguém guarda silêncio nos parece estranho e algumas vezes patológico. Até a esse extremo chegamos. DEZ “MOTIVOS” PARA CALAR - Calo porque não tenho nada a dizer;
O boletim “São Camilo Pastoral da Saúde” é uma publicação do Instituto Camiliano de Pastoral da Saúde - Província Camiliana Brasileira. Provincial: Pe. Antonio Mendes Freitas / Conselheiros: Pe. Mário Luís Kozik, Pe. Mateus Locatelli, Pe. Ariseu Ferreira de Medeiros e Pe. João Batista Gomes de Lima/ Diretor Responsável: Anísio Baldessin /Secretária: Fernanda Moro / Diagramação: Fernanda Moro / Revisão: José Lourenço / Redação: Av Pompeia, 888 Cep: 05022000 São Paulo-SP - Tel. (11) 3862-7286 / E-mail: icaps@camilianos.org.br / Site: www.icaps.org.br / Periodicidade: Mensal / Tiragem: 1.000 exemplares / Assinatura: O valor de R$20,00 garante o recebimento, pelo correio, de 11 edições. O pagamento deve ser feito mediante depósito bancário em nome de Província Camiliana Brasileira, no Banco Bradesco, Agencia 0422-7, Conta Corrente: 89407-9.
SÃO CAMILO PASTORAL DA SAÚDE - Calo porque me sinto mal e aborrecido comigo e com o mundo inteiro; - Calo, pois me interessa saber o que dizem os demais; - Calo, pois não gosto de compartilhar minhas preocupações; - Calo, pois considero que ninguém pode me ajudar; - Calo, pois temo não ser compreendido; -Calo, pois gosto de estar com meus pensamentos; - Calo, pois considero que o que se está falando é irrelevante; - Calo, pois não tenho confiança nos outros; - Calo, pois gosto de escutar. ESCUTAR Segundo os entendidos caminhamos para uma sociedade onde não se compartilharão nem projetos nem emoções, e onde cada pessoa construirá sua própria “torre de cristal” (tarefas domésticas, trabalho, computador) sem sentir a necessidade de transmitir ao outro o próprio sentimento (alegria, raiva, pena, etc.). Escutar bem é uma habilidade que implica em ser capazes de captar não somente as palavras e frases que nos transmitem, mas também a mensagem da qual está impregnada. Alguns autores chamam de metaescuta essa capacidade de decifrar e de ler nas entrelinhas. Ser capazes de ter uma atitude de “escuta ativa” exige que antes tenhamos escutado a nós mesmos e tenhamos descoberto todas nossas luzes e nossas sombras. A partir daí, podemos construir o edifício de uma “boa escuta”. Escutar bem é tarefa difícil, e às vezes exaustiva, pois obriga a atender à pessoa em sua totalidade: a “letra” e também a “música” de seu discurso. O que nos diz explicitamente e o que nos transmite no fundo (raiva, medo, esperança, etc.). Para isso devemos ser como uma boa esponja: empapamos da dor alheia, mas saber expulsá-la depois. Nunca diante da comunicação de um conflito podemos dizer: “Esse é teu problema”. Desde que nos fazemos receptores dele, desde esse momento, de alguma maneira, também é nosso problema. Saber escutar, pois, implica saber aproximar-se do outro, para sentir com ele, mas depois distanciar-se para manter nossa autonomia e a do interlocutor. DEZ “MOTIVOS” PARA ESCUTAR - Escuto porque o outro me importa; - Escuto porque gosto de saber o que acontece em minha família; - Escuto para depois poder transmitir o que ouvi aos de-
Página 4 mais; - Escuto, pois sempre me interessa o que os outros dizem; - Escuto, pois assim aprendo com as experiências dos outros; - Escuto, pois não sei o que dizer nesse momento; - Escuto por mera cortesia; - Escuto, pois gosto de observar as pessoas e aprender com suas falhas e acertos; - Escuto por deformação profissional; - Escuto, pois sinto-me bem assim. SABER ESCUTAR EM FAMÍLIA Comunicamos com a palavra, mas também com o corpo, os gestos e o silêncio. Há muitas maneiras de dizer a um filho que lhe queremos: com a palavra, com a renúncia a uma viagem para estar junto dele, ou escutando seus pequenos ou grandes problemas cotidianos. É frequente que a mulher se queixe de que o marido fale pouco, mas isto não necessariamente supõe falta de comunicação. O que pode significar este fato são dois modelos de entender a relação: contar tudo o que acontece, ou dizer somente com palavras as grandes experiências, guardando-se os pequenos detalhes. Ambas as fórmulas podem ser válidas, sempre e quando nenhuma delas se entronize como a única verdadeira. Mas comunicar implica saber escutar: ser receptivos diante da necessidade de transmitir as experiências. Mas, aprender a escutar é como aprender a dirigir: também neste caso a prática é fundamental. Comunicar e escutar não se improvisa. A criança deve mamar desde o berço. Deve viver em um ambiente onde tudo se possa dizer e expressar, mesmo que seja negativo, o rancor, o ódio, a inveja, etc. O patológico não é ter esses sentimentos, mas o não poder expressá-los. Sentir não “é mau”; “o mau” é ter que ocultar ou reprimir essas emoções. E mais, uma autêntica comunicação não deve ser isenta de tensão. O diálogo pais-filhos, às vezes, é como os carrinhos de trombar dos parques: não causam dano, mas é necessário o contato para que a viagem tenha emoção... A comunicação (a palavra, o corpo e o silêncio) pode provocar mal-estar ou sofrimento, mas a partir desse momento pode-se crescer e amadurecer. Aí reside o poder da palavra e do silêncio. Artigo extraído e traduzido da revista espanhola “Humanizar”, de nov/dez-2015.
São Camilo PASTORAL DA SAÚDE
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