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Jesus pleno do Espírito Santo e Jesus exposto á tentação, as duas coisas ao mesmo tempo: é difícil imaginarmos o que significou tudo isso para ele. De um lado, vemos um Jesus que há poucos dias ouviu a voz do Pai que o saudou como o Filho predileto sobre o qual repousou o Espírito; De outro lado, assim que deixou a margem do rio Jordão, vemo-lo sendo conduzido pelo mesmo Espírito ao deserto para que seja tentado pelo diabo. E o evangelista fez questão de frisar que o diabo deu tudo de si, quando escreveu: “Tendo acabado toda a tentação”. O demônio exauriu todo seu estoque de tentações em seu duelo com Jesus. Não era a primeira vez que um homem experimentava a tentação. Adão, seu antepassado, caiu ao ser tentado e depois dele outros mais. O homem que foi Jesus, portanto, teve por sua vez, que enfrentar a tentação. Contudo, este homem era também Deus: então algo novo iria mesmo suceder. Não é que a tentação foi mais doce para Jesus e que ele ficou menos aturdido. Nada disso. Jesus teve realmente fome, entreviu a embriaguez do poder, suou sangue diante de uma morte prematura, tão horrível e aparentemente tão inútil. Enfim, diante deste algo novo que iria emergir daquele duelo podemos conjecturar também que a extrema delicadeza de Jesus-homem lhe tenha fornecido uma sensibilidade suplementar para sofrer toda tentação. Mas a novidade absoluta de Jesus era o seu amor: ele amava o Pai com um amor que nem Adão e ninguém pode jamais plagiar. É este AMOR que lhe garante de não ceder à tentação, embora não lhe facilite a tarefa. Aliás, Jesus sofreu as coisas DESSE AMOR e NELE foi afligido mais que qualquer outro ser humano. NESTE AMOR, aliás, é morto. De fato, para Jesus o único modo de triunfar sobre a tentação foi a morte, mas uma morte por AMOR ao Pai e por todos os homens: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). E a tentação não foi eliminada nem mesmo para nós que vivemos depois de Adão e depois de Cristo. Está sempre presente: aguarda-nos, inevitavelmente. Contudo, em Jesus nos
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foi aberto um caminho. Isso não quer dizer que agora é possível fugir da tentação ou enfrentá-la com mais astúcia. Muitas vezes nos disseram que era suficiente fugir diante das ocasiões de pecado e reforçar a nossa resistência com exercícios vigorosos. Infelizmente, aquilo que não foi possível a Jesus também não o é para nós. O discípulo não está acima do mestre: como Jesus, assim também nós devemos atravessar a tentação. Existiriam, talvez, duas formas para procurar evitá-la. Conhecemos bem a primeira forma, porque cada um de nós já a utilizou uma ou outra vez: seguir os passos de Adão e ceder à tentação. Ilusão por certo tempo, porque cedo ou tarde, mesmo para os pecadores mais impenitentes, não haverá outra saída senão a de atravessar a tentação - talvez então por desespero – mas atravessá-la com Jesus. A segunda forma de tentar escapar da tentação, talvez mais refinada, consistiria em manter-se longe do abrigo da tentação, tão longe dela que o simples pensamento que possa vir-nos a contaminar mesmo que minimamente nos pareça já inconveniente. Outra ilusão, outra prorrogação. Um belo dia chegará o nosso momento, do qual não podemos mais fugir e seremos constrangidos a olharmos nos olhos da tentação, e devemos atravessá-la, junto com Jesus. Esta travessia será a nossa Páscoa. Jesus nos mostrou como enfrentar a tentação. Primeiramente, aceitando a realidade de que a tentação existe e que nos chicoteia com vigor, que revela aos nossos olhos e ás vezes aos os olhos dos outros, a nossa estrema fragilidade, e isso nos dá a consciência de não sermos melhores que os outros. Em tal momento, esta simples humildade é já a salvação. Depois vem a oração confiante e insistente em obediência a Jesus que pediu: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação” (Mt 26,41). Enfim, assim como para Jesus, haverá para nós o amor. Porque é a este ponto e em semelhante situação de desconforto experimentada por Jesus que aprendemos a que ponto o Pai nos ama. A tentação tem somente
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o objetivo de revelar-nos este grau extremo de misericórdia: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. AMÈM.