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Quando o filho pródigo decide voltar para a casa do pai, à sua frente há ainda um longo caminho a ser percorrido, que foi apenas iniciado. O que em pouco tempo fez ainda lhe ainda ressoa em sua consciência: esbanjou a fortuna e agora se encontra miserável e com fome. Então começa a refletir sobre todo o conforto que tinha quando estava com o seu pai. Porque não se encher de coragem e procurar salvar pelo menos algo das benesses que perdeu? Seu pensamento, contudo, não vai além, mas mantém-se aquém, não o permitindo abraçar a plenamente a totalidade do bem-estar que perdeu. Aos seus olhos tudo está claro: não merece mais ser chamado de filho. Doravante se contentará com a nova condição de ser simples dependente do seu pai, como tantos outros. Comporta-se agora como se pudesse renunciar a posição de filho! E como se alguma vez em sua vida houvesse merecido o amor do pai! Certo, uma primeira vez cedeu às tentações, as da carne. Mas eis que está preste a ceder a uma nova tentação, muito mais insidiosa, muito mais temível, que está presente no íntimo de cada ser humano: a tentação de duvidar do amor do pai. “Pai, pequei... não sou mais digno de ser considerado teu filho”. Por que não? Como assim? Como se ser filho fosse o fruto de um contrato, como se pudesse adquirir o amor do próprio pai e a misericórdia de Deus, bastando
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ser responsável e correto para receber a graça. De modo que, o filho apenas iniciou a frase, mas não teve tempo de terminá-la. Ele, um dos funcionários? Nem pensar. O pai imediatamente já se precipita dentro da pequeníssima espiral de pensamentos e sentimentos que seu filho acaba de abrir, assim como já antes havia se precipitado ao sem encontro quando ainda era apenas um vulto ao longe. Certo, o filho pródigo agora reconhece o seu pecado, fez a dolorosa experiência da sua fraqueza e de todos os sofrimentos que daí resultaram. Mas existe ainda muita coisa para aprender. Ainda que tenha voltado para a soleira da sua casa paterna está somente na metade do caminho. Agora terá a possibilidade de descobrir até que ponto o amor do seu pai é absolutamente gratuito e que não o mereceu jamais, como tão pouco jamais o desmereceu apesar dos acontecimentos, e ficará sabendo que este amor vai literalmente afogar todos os pecados. Também o outro filho, o mais velho, deve aprender porque também ele está ainda longe da percepção deste amor. E o seu aprendizado será mesmo bem mais árduo. Para o momento tem somente palavras de condenação para este irmão decaído que é vergonha da família. Ele pelo menos é irrepreensível e assegura a honra da família. Seu pai devia dar-lhe mais atenção: “Tantos anos eu te sirvo, e jamais transgredi um
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só dos teus mandamentos.” Ele se vê como alguém correto e aos seus olhos é o pai que não respeito as condições do contrato: “E nunca me preparou um churrasco para festejar com meus amigos”. Como se tivesse merecido mais do que aquilo que o pai lhe tinha dado, como se não tivesse já recebido tudo na mais completa gratuidade do amor e da presença constante do pai: “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu”. Que mais podia pedir? Mas precisamente isto, o filho mais velho não havia percebido. Tinha olhos somente para as próprias virtudes, para os próprios méritos, para os próprios direitos. E isto agora só aumentou, uma vez que o mau comportamento do outro irmão, um notável pecador, lhe valoriza aos seus próprios olhos sempre mais. A parábola termina neste insucesso do filho mais velho, como se Jesus quisesse insinuar desta forma que o caminho será muito longo para quem ficou cego de tanto olhar para os próprios méritos e se acha melhor que os outros. Este é um dos paradoxos mais desconcertantes da mensagem de Jesus, ou seja, que os pecadores têm sempre vantagens infinitamente maiores que as pessoas que se julgam corretas e justas. Isto é uma interrogação e pedra de tropeço hoje assim como no tempo de Jesus a quem acusaram:
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“Este ai, recebe os pecadores e come com eles� (Lc 15.2).