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No momento do nascimento de Jesus os Anjos haviam anunciado a paz a todos aqueles que Deus ama. No Evangelho de hoje, ao contrário, Jesus fala somente de divisão: “Pensais que vim para estabelecer a paz sobre a terra? Não, eu vos digo, mas uma divisão”. Então que tipo de paz era aquela do Natal? E quais são estas divisões de hoje? Jesus está implicado nisso pessoalmente. Juntamente com as divisões e o fogo que ele tem pressa de ver aceso, existe também o batismo que ele próprio deve receber e que impacientemente espera. Batismo pelo qual Jesus desceu sobre a terra, em vista do qual foi primeiramente batizado no Jordão e em direção do qual doravante ele avança, porque o batismo pleno deve-se cumprir em Jerusalém. Batismo na morte, na nossa morte humana, para ressuscitar em vida eterna e para conceder esta mesma vida a toda a humanidade. Poupar este caminho a Jesus? Mesmo se quisesse, ninguém estaria em grau de fazê-lo. A cada tentação que se lhe apresenta de abandonar este caminho para pegar um outro,
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Jesus resistirá, às vezes com violência, como quando dirá a Pedro: “Arreda-te de mim, Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens”(Mc 8,33). Para Jesus o caminho para a luz atravessa as trevas, o caminho para a vida passa pela morte e o caminho para a paz eterna é antes de tudo o caminho da traição por parte de alguém que lhe está próximo, o caminho da dispersão e do abandono dos seus amigos, o caminho da negação de Pedro e enfim da condenação da morte na cruz. Segundo a profecia de Simeão não deveria se tornar sinal de contradição para a ruína de uns e a ressurreição de outros (Lc 2,34)? Os discípulos não estão acima do seu mestre (Mt 10,24). Como para Jesus, da mesma forma o caminho deles para a paz, atrás de Jesus, será o mesmo: uma via crucis. Portanto, os discípulos, por sua vez, onde quer que vão, serão sinais de contradição, suscitarão oposição e divisão: “Se o mundo vos odeia, sabeis que me odiou primeiro... aliás, chegará o momento em que quem vos matar pensará estar oferecendo um sacrifício a Deus”. A paz prometida por Jesus
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é claramente diferente das realidades sóciopoliticas do mundo que circundam a paz, e que está destinado a passar, pois como diz São Paulo: A figura deste mundo passa” (1 Cor 7,31). Sim, Jesus prometeu a paz aos seus discípulos, porém, como ele mesmo esclareceu: “Não vo-la dou como o mundo dá” (Jo 14,27). Sem dúvida que existe uma paz fácil, um pouco idílica, uma paz que responde às visões dos homens, aquela que o apóstolo Pedro desejava a Jesus procurando poupá-lo da difícil prova da sua Páscoa: uma paz que poderia se tornar também ela uma verdadeira tentação para os discípulos e uma fonte de ilusões. Uma paz conquistada a preço baixo entre os homens, com o abuso da força, por exemplo, ou através de concessões excessivas, “para estar em paz”, como se diz. Esta paz fáil significa “cada um na sua”, o que não é nada mais que uma rede de compromissos ou habilidade em iludir os doces convites da graça para o amor, pois como alguém já disse: “Paz não é ausência de conflitos, mas presença de amor”.
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A paz que Jesus dá não será nunca fácil. Por outro lado, ela não está em primeiro lugar nas circunstâncias ou nos acontecimentos, quer estes sejam idílicos ou apocalípticos. E não está nem mesmo naquilo que às vezes esperamos ouvir: São Paulo nos deseja “uma paz que excede toda compreensão” (Fl 4,7). Na verdade, uma paz que é mais profunda de qualquer sentimento. De fato, a paz está situada antes de tudo em um outro sobre o qual estamos fundados e ao qual permanecemos ancorados. Por meio de sua Páscoa Jesus é ele mesmo a nossa única paz. Com esta promessa Jesus termina o discurso depois da Última Ceia e inaugura a sua paixão dizendo: “Eu vos disse tais coisas para terdes paz em mim. No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo!” (Jo 16,33). AMÉM.