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A liturgia propõe hoje um dos trechos fundamentais da Bíblia, fonte perene de inspiração para quem quer ser cristão. É o célebre “Hino á caridade”, isto é ao amor: um trecho para memorizar ou trazer escrito na palma da mão. Encontra-se na primeira Carta de São Paulo os cristãos de Corinto (12,31-13,13). Passando ao evangelho: a primeira frase que ouvimos é “Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem das Escrituras”. Esta foi também a última frase que ouvimos do evangelho de domingo passado: continuamos, portanto, com o episódio de Jesus na Sinagoga de Nazaré, com o anúncio-bomba de que o Messias esperado por séculos finalmente chegou, é ele. A reação dos seus conterrâneos, depois do primeiro estupor, foi de incredulidade: como pode ser o Messias, o enviado de
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Deus para realizar grandes coisas, este homem que viveu sempre aqui entre nós, sem jamais dar indícios de ser diferente de nós? Como pode resgatar o nosso povo, este filho de José, carpinteiro como seu pai? Ouviu-se dizer que fez milagres em Cafarnaum; pois bem, se quer que acreditemos nele, que faça milagres também aqui, na sua cidade, diante de nós! “Ninguém é herói para a sua camareira.” Montaigne era filósofo e disse isto no contexto de sua “filosofia do espírito”, onde a “camareira” é tomada como símbolo da “consciência”. Para o nosso propósito vamos tomar a camareira aqui como “aquela pessoa que arruma seu quarto”, que pode ser sua mãe ou a empregada. Tomando a “camareira” neste sentido vemos que este célebre dito de Montaigne pode elucidar bem o
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fato de que a familiaridade, a convivência com uma pessoa nos dá apenas a ilusão de conhecê-la, fazendo-nos esquecer de que cada pessoa é um mundo nunca completamente explorado; cada um em realidade carrega dentro de si pensamentos, sentimentos e recursos insuspeitáveis que, se manifestos, deixam as pessoas boquiabertas. Ainda mais se se manifestarem fora do contexto habitual de vida; neste caso lamentavelmente são vetados pelos preconceitos dos outros. Aos seus conterrâneos incrédulos, de certo modo antecipando o filósofo Montaigne, Jesus respondeu com uma frase lapidar que se tornou proverbial: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”, e para demonstrar isso citou dois exemplos tirados da antiga história de Israel, episódios de incompreensão e rejeição dos
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profetas, justamente por parte do povo para quem Deus os havia enviado. Elias, hostilizado e perseguido na pátria, realizou prodígios a favor de uma estrangeira, uma pobre viúva libanesa que acreditou nele, assim como outro estrangeiro, um general sírio, deu crédito ao profeta Eliseu (os dois episódios são narrados respectivamente em I Rs 17,8-6 e II Rs 5,1-14). Mas a reprimenda de Jesus não teve efeito: “diante dessas palavras, todos na sinagoga se enfureceram. E, levantando-se, expulsaram-no para fora da cidade e o conduziram até um cimo da colina sobre a qual a cidade estava construída, com a intenção de precipitá-lo de lá”. Daquela vez os compatriotas de Jesus não conseguiram fazer o que tencionavam; mas a narração do evangelista soa como um prenúncio
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daquilo que aconteceria em seguida: rejeitado precisamente pelos seus ao ponto de ser condenado á morte, ele encontrou largo acolhimento entre os estrangeiros, estendendo assim os seus benefícios para além dos confins de seu povo, justamente para aqueles que Israel considerava excluídos das amorosas solicitudes de Deus. Por isso, o episódio de Nazaré é também um convite para considerar que ninguém está excluso, independente da nação a que pertence da divina misericórdia; entendemos então quão artificiosas - e por isso injusta, e perigosa enquanto fonte de conflitos são as barreiras que os homens se esforçam para erigir entre eles: os muros, os guetos, as recíprocas exclusões de raça, religião, grau de instrução, e assim por diante. E, ao contrário disso tudo, podemos considerar o quanto brilha a Igreja
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querida por Jesus, onde ao cume, isto é, á santidade, podem chegar o dissoluto e o justo, o analfabeto e o instruído, o rei e o plebeu, homens e mulheres, jovens e velhos; a Igreja, que não conhece confim, e no seu universalismo indica um caminho seguro rumo a um mundo pacificado; a Igreja, onde ninguém é estrangeiro, porque todos são filhos de Deus. Amém.