VERSÕES DA ASSINATURA | TRADICIONAL
Jornal Laboratório do Curso de Comunicação Social Ano 15
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Número 98
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Setembro de 2015 |
Belo Horizonte / MG
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D E S M A S C A R A N D O RACISMO Gêneros Sexuais deve ser debatidos em escola?
Fora da onda gourmet, mas seguindo a tradição
Categoria de base e o futuro do futebol brasileiro
Legisladores barram a discussão de gênero no Plano Nacional da Educação
Restaurantes tradicionais da Capital Mineira não aderem à gourmertização
Brasil tornou-se um grande exportador de talentos
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02 • Opinião
Editor e diagramador da página: Marcella Souza
Belo Horizonte, setembro de 2015
O Ponto
“Elogios”: só que não
Cristiana Corrieri 4 º Período Você pode não ter ouvido o termo “assédio de rua”, mas, se você for uma mulher, provavelmente você já experimentou: assobios, olhares, comentários infames, toques indesejados e olhos desconhecidos te acompanhando pela rua. De acordo com uma pesquisa realizada pelo site “Think Olga” sobre assédio sexual no espaço público, 83% das mulheres não gostam dessa abordagem. Tal como acontece com outras formas de violência sexual, os homens são os perpetuadores de assédio na rua e as mulheres, vítimas - embora as vítimas também possam ser
alvo devido à etnia ou orientação sexual. Embora possa ser tentador negar tais ocorrências “inofensivas”, há um corpo substancial de pesquisas que nos diz isso não é o caso. Os impactos do assédio na rua dependem do contexto e vão desde as respostas imediatas, de raiva, repulsa e choque, e podem chegar a efeitos a longo prazo, tais como ansiedade, depressão e, em alguns casos, o transtorno de estresse pós-traumático. Assédio de rua também tem um impacto muito real sobre o uso do espaço público para mulheres. Elas relatam que limitam seus movimentos em público, a fim de evitar as cantadas e os toques indesejados.
Assédio de rua é parte contínua da violência dos homens contra as mulheres, o que inclui o que se podem considerar formas mais “graves” de violência baseada no gênero, tais como agressão sexual, estupro e abuso físico. São formas diferentes de comportamento, mas estão interligados e todos contribuem para a opressão e a desigualdade das mulheres. Apesar disso, um mínimo de atenção tem sido dada à forma como podemos prevenir e responder o assédio. Existem poucos recursos legais ou outro para as mulheres que sofreram assédio rua. O “Chega de Fiu Fiu” é um site especializado em luta contra o assédio em locais públicos. No site você
Cultive antônimos Janderson Silva 6º Período Visto a discussão iniciada no debate promovido no Sextas de Primeira, na FUMEC, da recente onda de intolerância que desova nos meios sociais e de comunicação, do preconceito sexual, étnico, da misoginia, das mais variadas fobias até chegar no princípio de todo a moda do ‘ódio gratuito’. A falta de respeito com o outro, esquecendo de sua humanidade, pretendi falar do assunto. Lembro-me de escrever em redações sobre a dificuldade de viver com as diferenças. Isso, desde meus primeiros anos da escola. Passados mais de 15 anos, o tema é ainda contem-
porâneo, só que agora é necessário uma atualização: porque é tão difícil viver com o que lhe é diferente? Na proporção da dificuldade está a facilidade em odiar, hoje, escancarada; ultrapassando limites. Tudo é odiável (até mesmo o Uber). Volto o olhar para o debate. De lá me ocorreu outro questionamento: a pessoa negra teve a ela um “problema” imposto, construído culturalmente, passado os anos, eras. Então o preconceito, leitor, lhe foi atribuído. O ódio não lhe é opcional. Então exercite: anule tudo que você construiu, envolto às crenças e gostos adquiridos, construídos, até chegar a uma mente não preenchida, nula de qualquer visão preestabelecida. Desconstrua.
Mais espantoso é este cenário inserido na perspectiva do acesso aos meios digitais de informação – palco de muita vergonha, da pluralidade de vozes e do amplo espaço para o conhecimento (mesmo consciente de que não para todos, mas para aqueles que possuem já é de se assustar). É como um retrocesso, antes jamais visto. Uma fala de uma conhecida ilustra “O que é essa sociedade contemporânea? Era mais fácil assumir sua verdadeira identidade nos anos 80”. Então, para o seu ódio, flores. Para rebater de forma proporcional essa onda que atinge nosso cotidiano. Por isso, cultive seu jardim, deixe-o sempre florido.
pode, anonimamente, denunciar uma violência sofrida ou uma violência testemunhada. Com isso, o site deseja criar as cidades mais seguras para as mulheres ao relacionar geograficamente os locais e motivos que aumentam a incidência em casos de assédio e assim, fazer a diferença para mudar essa realidade. Intervenção do espectador é uma resposta à violência, e oferece um grande potencial quando se trata de prevenção. A intervenção pode significar confrontar diretamente o autor - onde é seguro fazê-lo - e de outras ações tais como perguntar a vítima se ela está bem. O movimento “Vamos juntas?” é um exemplo: um incentivo
para mulheres se ajudarem em situações de perigo. A falta de respostas ao assédio às mulheres, é decepcionante. Algumas vítimas podem preferir acessar o sistema de justiça tradicional, outros podem desejar respostas inovadoras, tais como expressar a sua experiência online. Então vamos deixar claro: é assédio. Nunca elogio. Por mais educado que o homem seja, ele é apenas uma pessoa desconhecida na rua. Mesmo um bom-dia pode ser assédio, quando é direcionado a uma mulher sozinha andando na rua. Uma coisa é clara: é hora de parar de apenas falar sobre o assédio de rua e fazer algo.
o ponto Coordenação Editorial Profa. Ana Paola Amorim (Jornalismo Impresso) Prof. Aurelio Silva (Redação Modelo) Projeto Gráfico Dunya Azevedo · Professora Orientadora Daniel Washington ( Técnico Lab. Prod. Gráfica) Logotipo Giovanni Batista Corrêa Universidade Fumec Rua Cobre, 200 · Cruzeiro Belo Horizonte · Minas Gerais Tel: 3228-3014 · e-mail: jornaloponto@fumec.br Presidente do Conselho Curador Prof. Pedro Arthur Victer Reitor da Universidade Fumec Prof. Dr. Eduardo Martins de Lima Diretor Geral/FCH Prof. Antônio Marcos Nohmi Diretor de Ensino/FCH Prof. João Batista de Mendonça Filho Coordenador do Curso de Jornalismo Prof. Ismar Madeira Técnico Lab. Jornalismo Impresso Luis Filipe Pena Borges de Andrade Monitores de Jornalismo Impresso Clara Barbi e Maria Clara Gonçalves Monitores da Redação Modelo Camilla Quirino e Cristiana Corrieri Monitores Mídias Digitais Jackeline Oliveira Monitores de Produção Gráfica Ingrid Vieira VERSÕES DA ASSINATURA Monitores Voluntários
| TRADICIONAL
Anna Júlia Ramos, Ana Luiza, Marcella Souza, Marina Fernandes e Samara Reis Tiragem desta edição: 3.000 exemplares Jornal Laboratório do curso de Jornalismo
Crédito: https://www.flickr.com/photos/31065898@N08/7944444540
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Os artigos publicados nesta página não expressam necessariamente a opinião do jornal e visam refletir as diversas tendências do pensamento
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Comportamento • 03
Editor e diagramador da página: Jackeline Oliveira e Amanda Magalhães
O Ponto
Belo Horizonte, setembro de 2015
A difícil tarefa de falar sobre gênero
A adoção do tópico “gênero” no Plano Nacional de Educação (PNE) toma a mídia e causa discussão Ilustração: Luis Filipe Pena
Ana Júlia Ramos 2ºPeríodo Em 2014, a inclusão das práticas que debatem a questão de gênero, raça e orientação sexual no Plano Nacional de Educação – que já existia desde 2010 e visava incluir a ideologia de gênero em pauta nas escolas foi barrada no Plenário do Congresso Nacional. Um ano depois, já em âmbito municipal, não foi diferente: as cidades votaram contra o projeto que visa à formação de indivíduos tolerantes e conscientes quanto às diferenças que os cercam, além de seguir em direção à diminuição do preconceito. A justificativa para o veto gira em torno dos padrões familiares tradicionais, que estabelecem que “homem é homem” e “mulher é mulher”, sem espaço para eventuais mudanças. O Plano Nacional de Educação tem metas com validade de 10 anos e tem como objetivo alcançar desde a educação básica até o ensino superior . Visando, à erradicação do analfabetismo, promoção dos princípios do respeito aos direitos humanos e à diversidade. O PNE primeiramente é analisado pela câmara e senado, para após ser encaminhado aos deputados que podem aceitar o texto proposto pelos senadores. O assunto tomou conhecimento geral ao criar polêmica e lutas contra a adesão de certos tópicos ao plano. Público ou privado? O vereador Elvis Côrtes, que foi contra a adoção do assunto no Plano Nacional de Ensino é enfático. “A ideologia de gênero é uma afronta aos princípios básicos da constituição e das relações culturais”. Ele continua, dizendo que o assunto pode ser debatido em seminários e dentro de casa com os pais, mas não nas escolas. “Não acredito que seja papel do estado intervir nas relações familiares”, afirma. Em publicação feita pela Associação Brasileira de Antroplogia denominada “Manifesto pela igualdade de gênero na educação: por uma escola democrática, inclusiva e sem censuras”, a introdução da questão de gênero nas escolas é defendida e são apresentados pontos para que isso acon-
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teça. Um dos pontos é o fato de que o conceito de gênero realmente existe e não é algo como uma “ideologia” ou “doutrina”, sustentadas por crenças ou fé. “Gênero, como um conceito, identifica processos históricos e culturais que classificam e posicionam as pessoas a partir de uma relação sobre o que é entendido como feminino e masculino. É um operador que cria sentido para as diferenças percebidas em nossos corpos. É nesse sentido, que o conceito de gênero tem sido historicamente útil para identificar mecanismos de reprodução de desigualdades no contexto escolar.” Contra estereótipos A professora Gláucia Carneiro, é a favor da adoção do assunto nas escolas. Ela afirma que vivencia a todo tempo
bullying, violência e racismo. “Em defesa do pluralismo, defendo que é um direito fundamental dos estudantes brasileiros o acesso aos conhecimentos e pesquisas produzida pelos estudos interdisciplinares sobre o conceito de gênero”. A professora vai na contramão do que o Veriador Côrtes defende e afirma, que não é dever do estado impor uma filosofia que vai totalmente contra as maiores conquistas da Constituição. A falta da abordagem do assunto nas escolas reforça estereótipos que se transformam em fatos. Meninas acabam tendo um menor desempenho em matérias “exatas” como a matemática, além de sofrerem desdém e falta de incentivo da propria escola. Sendo assim, acabam acreditando que isso é biológico, um fato consumado.
Duas pesquisadoras da Universidade de Winsconsin, nos Estados Unidos, desenvolveram uma análise e chegaram à conclusão de que esse menor aproveitamento não é algo biológico – mas sim algo construído socialmente. O mesmo acontece com os meninos, Marilia Pinto de Carvalho estudante da Universidade de São Paulo apresentou uma pesquisa que confirmou o fato de que meninos têm saído cada vez mais da escola em razão de estereótipos, como o da “masculinidade”. Tais referenciais fazem com que eles abandonem os estudos e contribuam cada vez mais para que taxa de evasão somente cresça. A pesquisa denominada “Sucesso e fracasso escolar: uma questão de gênero” ainda acrescenta o fato de que o preconceito com crian-
ças em decorrência da falta de abordagem do assunto existe e acontece com frequência. “Há ainda muita coisa a se conhecer melhor, por exemplo, a relação entre as crianças, as culturas infantis. Perceber como aquele menino que vai bem na escola e é elogiado pela professora acaba sendo desprezado pelos colegas, chamado de “bicha” ou de “mulherzinha”, e para afirmar sua masculinidade acaba tendo que recorrer até ao mau desempenho escolar, à indisciplina”, segundo a pesquisa. Enquanto medidas vão sendo tomadas aos poucos nas cidades, o que prevalece no geral é uma forte divisão de opinião. Votações continuam acontecendo e como foi o exemplo de São Paulo que teve manifestações contra e a favor ao ato. Embora haja esse retrocesso, quatro faculdades da capital aderiram ao nome social. São elas o Centro Universitário UNA e a PUC, além das públicas UFMG e UEMG. A exigência para que o nome seja aceito no caso da PUC, foi baseada na Portaria R /Nº 021/2015 que diz em seu artigo 1º que fica assegurado o direito àqueles que solicitarem, quando sua identidade civil não reflete adequadamente, sua identidade de gênero. Aqueles que aderirem o nome social serão tratados exclusivamente pelo respectivo nome, sem a necessidade do nome que consta na identidade civil seja exposto nas mais diversas situações. A medida foi muito comemorada por estudantes de toda a cidade, mas há quem veja o caso com um pouco mais de delicadeza. Paulo Bevilacqua afirma que a medida pode ser vista como algo paliativo. “Ela não resolve o problema, mas ajuda a amenizar os danos e atrair pessoas trans que ainda não modificaram documentos a frequentarem aquele estabelecimento sem medo de serem ridicularizadas, por exemplo, na hora da chamada”. O nome social está presente nas chamadas, nos boletos bancários e em todos os outros documentos oficiais do aluno - fazendo com que o constrangimento diminua e mais um entre os vários direitos da comunidade LGBT, muitas vezes ignorados, seja garantido.
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Cidade • 05
Editor e diagramador da página: Jackeline Oliveira
O Ponto
Belo Horizonte, Setembro de 2015
Um convite ao descanso
Foto: Jackeline Oliveira
Até o fim do ano, é esperada a construção de vinte novas varandas urbanas nas ruas da capital mineira
As varandas urbanas são locais de uso público e abertos à utilização de qualquer pessoa Jackeline Oliveira 3º Período Em meio ao movimento acelerado de carros e ao vaivém de pedestres em áreas agitadas da capital, o belo-horizontino passou a ter novos espaços para relaxar, bater papo, ouvir música, ler, encontrar amigos, se divertir ou apreciar a paisagem. Inspirados nos “parklets” norte-americanos e com finalidade de disponibilizar para a população um espaço de convivência como se fosse uma praça, a Prefeitura de Belo Horizonte e a Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL-BH) se uniram para as instalações das varandas urbanas nas ruas da capital mineira. Em ruas com grande movimento de pedestres e com intenso comércio, elas proporcionam uma melhoria no ambiente da região, tornando a experiência de compras em lojas de rua muito mais prazerosa. O gerente de loja Cristiano aproveita o ambiente para namorar e descansar durante o seu horário de almoço. “É um momento que tenho para relaxar, este espaço é um ótimo local para fazer isso, principalmente aqui no centro da cidade, que não temos muitos locais com essa finalidade”, conta, enquanto relaxa no banco do ''parkelet''. Os mobiliários foram construídos com material reciclado parecido com madeira e têm iluminação fotovoltaica. Algumas possuem pisos, bancos e postes inspirados em praças das cidades do interior de Minas. O espaço da Avenida Bandeirantes segue um estilo mais contemporâneo e moderno. Mas todos os estilos contam com bicicletário. A estudante Mônica, 18, gosta mesmo da interação que o espaço tem com a natureza. “É um ambiente muito agradável para passar o tempo e tem uma harmonia bem legal com a natureza”, afirma a estudante. As varadas urbanas são locais de uso público
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e abertos à utilização de qualquer pessoa, e não podem ser usados com exclusividade pelo seu mantenedor. Já o vendedor Joaquim acha lindo o lugar, mas se preocupa mesmo é com a conservação das varandas. “A ideia é boa, deixa a cidade mais bonita e sendo assim eu espero que a população respeite e mantenha esses espaços limpos e bem cuidados”, afirma Joaquim. A loja de Marcos é uma das apoiadoras deste projeto e ele conta como a criação desses espaços é importante para a população mineira. “É preciso entender a dinâmica de cidade que se deseja e a vida das pessoas no seu dia a dia. Os espaços públicos devem refletir as necessidades e os anseios dos seus usuários, para só assim serem realmente utilizados”, conta Marcos.
“É preciso entender a dinâmica de cidade que se deseja e a vida das pessoas no seu dia a dia“ Marcos A legislação que regulamenta a instalação das varandas urbanas em Belo Horizonte foi elaborada pela Secretaria Municipal Adjunta de Planejamento Urbano. O financiamento e as instalações desses espaços ficam sob responsabilidade da CDL-BH junto com um grupo de lojas parceiras que serão também responsáveis pela manutenção dos espaços. O custo de cada varanda urbana varia de acordo com as características do projeto arquitetônico e materiais definidos pela CDL-BH. Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, até o fim do ano, a previsão é implantar na capital cerca vinte unidades desses espaços.
Foto: Jackeline Oliveira
Cristiano e Cristina aproveitam o tempo livre para namorar
O espaço da Av. Bandeirantes segue um estilo mais moderno
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06 • Em pauta: Consciência negra
Editor e diagramador da página: Maria Clara Gonçalves
Belo Horizonte, setembro de 2015
O Ponto
Afirmativas:
Foto: Leon Elias
a resposta às desigualdades?
Para acelerar o processo de igualização racial e, o governo utiliza um programa de ações afirmativas. GUILHERME DRAGER 4º PERÍODO Desde o início da colonização do Brasil, nossa história é marcada por um processo de hegemonização por parte da cultura ocidental europeia que aqui se instalou. Com a suposta superioridade da raça branca, logo a escravidão se instalou por aqui. Foram cerca de três séculos marcados pelo abuso e desumanização aos quais os negros eram submetidos até que a abolição da escravatura se deu por meio da Lei Áurea de 13 de maio de 1888. No Brasil, a igualdade racial só foi regulamentada com a Lei 12.288 de 20 de Julho de 2010, pouco mais de 120 anos depois da Lei Áurea. O que realmente aconteceu foi que, no papel, negros e brancos possuíam os mesmos deveres, os mesmos direitos e as mesmas condições de acesso, mas isso não condizia com a realidade, como ainda não condiz. O que se via eram pessoas brancas ocupando uma parte quase inteira das vagas nas faculdades públicas, ocupando cargos de maior remuneração e tendo oportunidades privilegiadas em comparação aos negros. Para garantir, de fato, a igualdade entre as raças, o Estado adotou medidas conhecidas como ações afirmativas ou medidas afirmativas. Segundo o sociólogo Everton Pereira, as ações afirmativas fazem parte de uma política pública. As ações tiveram início nos Estados Unidos para que os negros ,que historicamente foram desfavorecidos social e financeiramente, tivessem acesso a cargos públicos, a vagas nas universidades públicas e que em algum momento eles pudessem disputar com igualdade e condições aos mesmos cargos. De acordo com Everton, as ações afirmativas são necessárias no nosso país a fim de evitar processos de exclusão gerados pela segregação e racismo. “O racismo no Brasil é velado, não é direto como é nos Estados Unidos. O que torna natural que só existam médicos brancos, advogados brancos, presidentes brancos e para reparar esse contexto é necessário que o Estado intervenha”, explica. “A ascensão
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social não ocorre de fato. O que acontece são casos esporádicos em que um negro ascende por causa de um talento excepcional, como foi Pelé, como é Seu Jorge. Aí essas pessoas são usadas para defender a ideia de que o negro não precisa da intervenção do Estado”, complementa o sociólogo. Na opinião de Pereira, com essas ações, o Estado visa dar acessos iguais a todos, eliminando de forma mais rápida barreiras histórico-sociais e fazendo valer os direitos igualitários previstos pela Constituição. Uma ação afirmativa muito conhecida e comentada é a Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012, mais conhecida como Lei das Cotas , que determina uma porcentagem das vagas nas universidades sejam destinadas aos negros. Essa lei também designa uma porcentagem de vagas a estudantes de escolas públicas e índios. Recentemente, foi aprovada a lei 12.990 de junho de 2010, que reserva 20% das vagas de concursos públicos a pessoas da raça negra. O que ainda se discute são os critérios de classificação que determinam se uma pessoa é negra ou não. Esse tema chamou a atenção do país quando, em 2007, dois irmãos, Alan e Alex Teixeira, gêmeos univitelinos, ou seja, idênticos, se inscreveram no vestibular da Universidade Nacional de Brasília, UNB, pelo sistema de cotas e foram surpreendidos quando apenas um dos irmãos, Alan, foi declarado negro e teve o pedido aceito, enquanto seu irmão, Alex, teve o pedido negado. O jovem acabou recorrendo à decisão e, por fim, a UNB resolveu aceitar o jovem como negro pelo sistema de cotas. Segundo pesquisa do Instituto Ethos, em parceria com o IBOPE Inteligência, realizada em 2010, sobre o perfil racial das 500 maiores empresas do país, os negros que ocupam cargos de diretoria representavam 62 pessoas num grupo de 1162 pessoas, um total de 5,3% dos cargos executivos. O estudo aponta que a situação é ainda pior para as mulheres negras, essas ocupam cerca de 0,5% dos cargos executivos no país.
As Sextas de Primeira O seminário “Consciência negra, igualdade racial” inaugura uma série de debates dentro do curso de jornalismo chamada de “Sexta de Primeira”. Os eventos são promovidos em conjunto pelos laboratórios de Jornalismo Impresso e Redação Modelo do curso de Jornalismo da Universidade Fumec, com o propósito de estimular o debate aprofundado sobre temas atuais. Uma vez por mês, sempre às sextas-feiras, convidados participam de mesas de discussão e de debate. Produzido pelo curso de jornalismo, os eventos contam com a coordenação da professora Ana Paola Amorim e do professor Aurélio José da Silva e são abertos a toda a comunidade acadêmica. O objetivo do pro-
jeto é auxiliar na construção de uma crítica social, a partir dos debates oferecidos. Neste primeiro encontro, o tema da igualdade racial foi discutido por Etiene Martins, editora do jornal Afronta, Makota Celinha, coordenadora do Centro Nacional de Africanidade e Resistencia AfroBrasileira, Carlandreia atriz e produtora da peça “Bitita: o coração que nunca silenciou” e Everton Pereira, sociólogo e bailarino de danças afro. O debate contou com a presença de cerca de 300 pessoas, entre alunos, professores e funcionários da universidade que discutiram sobre as dificuldades diárias de ser negro, a falta de oportunidades de empregos, na mídia e de reconhe-
cimento na sociedade, também foram tratados assuntos como a intolerância religiosa, as cotas para universidade e a falta de conhecimento histórico sobre o nosso passado. O evento contou ainda com a presença da estilista Énia Dará, que falou sobre a moda afro e empreendedorismo e apresentou em um desfile alguns turbantes. Os bailarinos Everton Pereira e Priscila Rangel fizeram uma apresentação de dança afro, representando a cultura e as crenças africanas. Para os próximos eventos já foram escolhidos dois temas, sobre a maioridade penal e a questão de gênero e estão previstos para os dias 2 de outubro e 6 de novembro.
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Editor e diagramador da página: Marcella Souza e Maria Clara Gonçalves
Em pauta: Consciência Negra •07
O Ponto
Belo Horizonte, setembro de 2015
Atriz rememora vida e arte de Bitita Em homenagem ao centenário de Carolina Maria de Jesus, conhecida como Bitita, Carlandréia interpreta as diferentes facetas da escritora no espetáculo Memórias de Bitita – o coração que não silenciou
A atriz Carlandréia conta sobre a vida de Carolina Maria de Jesus em seminário sobre Igualdade Racial na FUMEC
Cristiana Corrieri Anna Carolina Deroma 4º Período A autora do famoso livro “Quarto de Despejo”, Carolina Maria de Jesus, foi inspiração para que Carlandréia Ribeiro produzisse o espetáculo “Memórias de Bitita – o coração que não silenciou”. Na base, os escritos de uma negra que morava na favela em seu quartinho de madeira, lata e papelão e sua concepção da vida. A peça traz a leitura da bravura e da firmeza daquela que, apesar de toda sua miséria, aventurou-se em se imaginar em uma situação melhor e fez o que foi preciso para chegar lá. O espetáculo “Memórias de Bitita – o coração que não silenciou” fala das memórias de uma mulher extraordinária, que estava a frente de seu tempo. A história da Carolina Maria de Jesus é a história do negro
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pobre no Brasil: batalha, força e firmeza. A apresentação é inspirada em seus diários e composições musicais. Carlandréia fez uma leitura própria nos escritos de Bitita, que relatam o cotidiano da poeta. Em entrevista com Carlandréia no evento Sexta de Pri-
Uma mulher que deixou além das publicações, duas obras póstumas, mostra que a escrita e a literatura eram coisas em que ela acreditava muito Carlandréia Ribeiro meira, realizado pelos alunos do curso de jornalismo e os professores Aurelio Silva e Ana
Paola Amorim da Universidade Fumec, ela fala sobre o espetáculo, sobre a personalidade de Carolina e também sobre o acontecimento do espetáculo. Carlandréia quis resgatar a memória de Carolina Maria de Jesus pelo centenário de seu nascimento. “Ela completaria 100 anos e, eu recebi um convite para a marcha das mulheres negras, através do coletivo, pra fazer uma intervenção poética com poemas femininos. Aí me veio Carolina de Jesus e, a partir daí eu fui mergulhando nesse universo, nessa mulher fabulosa. Então me veio a ideia de montar o espetáculo”, diz a atriz. Ao ler o livro “O Quarto de Despejo”, Carlandréia conta que ficou impactada ela lastima que os livros de Carolina estejam esquecidos. “É aquele negócio: como ela é pouco falada, pouco vista, pouco lida, acaba ficando ali. Eu tinha essa memória dela
e como eu trabalho com poemas femininos de Alzira Rufino, Esmeralda Ribeiro, Conceição Evaristo, entre outras, e eu faço pesquisas da escrita negra feminina, foi muito oportuno em retomar essa figura no seu centenário”, descreve. Questionada sobre a personalidade de Carolina, Carlandréia afirma que Bitita era arretada. “A mulher era “danada”, uma sobrevivente, de personalidade forte”. Carlandréia explica que se ela fosse fraca e deixasse a pressão e a dificuldade se tornarem um empecilho em sua vida, ela não teria escrito uma linha sequer. Para ela, Carolina escrevia para não enlouquecer. “Uma mulher que deixou além das publicações, duas obras póstumas, que é o “Diário de Bitita” e “ Onde Estás Felicidade” uma mostra que a escrita e a literatura eram coisas em que ela acreditava muito. Eu acho que ela escrevia para sustentar e contar para
o mundo o que ela via e vivia”, comenta. Falar de Carolina é falar de um lugar do Brasil que precisa ser visto. Sobre a repercussão do espetáculo “Memórias de Bitita – o coração que não silenciou”, Carlandréia comentou “Graças a Deus, tem sido boa, o público tem recebido bem, a gente tem recebido carinho e uma alegria muito grande do público em tomar conhecimento. A maioria do público não conhecia e está todo mundo ficando muito interessado”, conta. Carlandréia conclui a entrevista falando sobre a importância de eventos como o Sextas de primeira. “ É muito bom colocar alunos, professores juntos para conversarem e discutirem esses temas que são pertinentes, não só questões raciais, mas temas que estão aí em pauta e que precisam ser debatidos e discutidos para que possamos compreender e formar nossas opiniões”, observa.
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08 • Em pauta: Consciência negra
Editor e diagramador da página: Maria Clara Gonçalves
Belo Horizonte, setembro de 2015
O Ponto
Valorização da estética negra fotos: Ana Júlia Ramos
Foto: Marcella Souza
Énia Dará mostra passo a passo como se fazer um turbante
A estudante de moda Énia Dára Medina, 24 anos, dona da Grife Énia Dára – Moda Afro, Estilo e Cultura, conta que sempre se interessou pela cultura afro. Em entrevista para o jornal O Ponto, a estudante contou um pouco mais sobre sua trajetória e seus projetos Camilla Quirino Marcella Souza 4º Período
Quando você começou a se interessar pela moda afro? Sempre me interessei pela cultura afro. A partir de um evento que eu participei, o Festival de Arte Negra, criei minha grife e iniciei os meus trabalhos com vestuário, principalmente turbantes e depois disso desenvolvi novos projetos para serem realizados em escolas
valorização muito grande e eu tenho certeza que a tendência é só aumentar e se consolidar. A moda afro vai demorar a expandir ? Não. Eu acredito que a previsão no Brasil seja daqui a cinco, dez anos. A partir do momento que o negro reconhece o seu valor, a sua beleza e suas criações, portas são abertas para que outras pessoas tenham esse interesse.
bater o pé; o meu trabalho e o de outras pessoas vão ser reconhecidos. Nossa contribuição é negada, por isso devemos mostrar que temos uma contribuição e qual é ela.
As famílias deveriam ensinar que não existe diferença entre raças, entre gêneros, entre opção sexual, porque cada um traz uma beleza, cada um traz uma riqueza.
O que te motivou a montar sua grife? O que me motivou foi a minha origem, minha cultura. É algo que eu realmente amo e que eu valorizo e tem muito significado para mim. Só estou materializando algo que é muito além do físico. Não gosto de copiar e percebi que a moda em geral não me representava, fui buscar elementos com os quais me identifico, e que muitas pessoas como eu vão se identificar.
Quando a moda afro surgiu ? Isso se dá através da ascensão econômica e intelectual dos negros. O índice de negros no Ensino Superior é muito maior, os índices de profissionais negros em cargos elevados, também e ao mesmo tempo a classe média torna-se predominantemente negra. Com o aumento do poder aquisitivo, há uma busca por representação, ou seja, produtos que atendam aos negros e que valorizem a cultura afro brasileira.
Você aprendeu a fazer turbante sozinha? O turbante é uma inspiração que veio da minha mãe, ela sempre usou. E também tenho uma habilidade que só de olhar consigo reproduzir o modelo e ao mesmo tempo vou experimentando e desenvolvendo novos modelos
Como você vê a visibilidade da moda afro hoje? A moda afro ainda não é considerada moda. Tem pouco tempo que ela está em expansão e isso limita muito. Os elementos afros, como turbantes e estampas étnicas, têm mais relevância. Porém, para o público negro em geral, essa identidade está tendo uma aceitação e uma
Você estuda moda em busca de se representar? Eu sempre quis ser estilista, gosto muito de me vestir e de conhecer formas, tecidos, materiais, principalmente criar. O afro é um universo que tem muitas possibilidades a serem exploradas. Eu não vou deixar de ser quem eu sou para que eu consiga me capacitar, eu vou
O que é a Feira Ébano? A Feira Ébano é a feira afro mineira de moda, arte e beleza e é a maior feira afro de Minas. Foi criada por mim e minha irmã Iraê Mariana. Percebemos que tinha um índice muito grande de afro-empreendores em Belo Horizonte, mas são profissionais que não têm conões de ter uma loja e venderem com
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Énia Dará
regularidade. A Feira foi criada exatamente para reuir esporadicamente essas marcas e esse público que tem uma demanda grande desses produtos e serviços. Esses eventos reúnem o público e afro-empreendedores, e ao mesmo tempo trazem uma discussão sobre a valorização da estética negra. Como é o público dos eventos? É bem variado. Uma parte do público está usando a moda afro por ela estar se popularizando. A outra parte são pessoas negras que estão se conscientizando do seu papel político, social e cultural e querem representar isso através da estética; elas buscam formas que remetam a sua ancestralidade. Você já quis alisar o seu cabelo? No caso da minha família, sempre fomos valorizados pelo que somos, como negros, com o nosso cabelo, nossa cor e nossa cultura. Usávamos tranças, baião de dois, vários penteados, mas nunca alisamos o cabelo. Embora eu tenha cabelo crespo, sempre mudo de penteado, de cor, de acessório, para estar sempre renovando. Qual a relevância da discussão da igualdade racial? Acredito que é muito importante para quebrar o precon-
ceito, o diálogo faz com que as pessoas passem a pensar e questionar mais, além de buscarem entender melhor o porquê da segregação social e do preconceito. Apenas pessoas que vivem e estudam sobre negros vão saber esclarecer a importância dessa conversa, assim podemos criar diálogos através da arte, do jornalismo, da dança e da moda. Você já vivenciou algum tipo de preconceito? Quando eu era criança tínhamos uma vizinha racista explícita. Acho que, na época, o racismo nem era considerado crime, mas nunca fomos agressivos com ela, percebemos que deveríamos continuar com a mesma postura, sendo pessoas educadas. Quero que as pessoas que ousarem ter alguma postura preconceituosa em relação a nossa pele, ou ao nosso cabelo, se sintam envergonhadas, que percebam que o que elas estão fazendo não tem nada de engraçado, não tem nada de certo e que nós, antes de tudo, também temos opinião, somos seres humanos e devemos ser respeitados como qualquer outra pessoa. As famílias deveriam ensinar que não existe diferença entre raças, entre gêneros, entre opção sexual, porque cada um traz uma beleza, cada um traz uma riqueza, precisamos de todos para sobreviver.
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Editor e diagramador da página: Maria Clara Gonçalves
O Ponto
Belo Horizonte, setembro de 2015
Afronta: uma ação contra o preconceito A jornalista Etiene Martins cria o primeiro jornal voltado à cultura negra em Belo Horizonte Camila Madeira Samara Reis 4ºPeíodo
Ancestralidade Etiene conta que escolheu o nome “Afronta” como uma referência à ancestralidade, mas também como uma afronta ao racismo. “É uma afronta a todas as formas com que tentam nos embranquecer. Muitas vezes sou chamada de moreninha, como se isso me fizesse menos negra”, relata.
“É uma afronta a todas as formas com que tentam nos embranquecer” Etiene Martins Seu intuito com o jornal é acabar com a ideia de que os negros têm os mesmos gostos, que todos são iguais, pois cada um tem as suas preferências em diversos assuntos. Em relação às oportunidades que o jornalismo voltado à cultura negra lhe trouxe, ela enfatiza que teve a oportunidade de entrevista pessoas negras, que tal-
vez fossem no âmbito da questão do “mundo branco”. “Tive a oportunidade de entrevistar Ronaldinho Gaúcho, Ruth de Souza e Thaís Araújo. Sem o jornalismo eu não teria esse alcance, e são pessoas que eu admiro”, observa a jornalista. Segundo Etiene, seu desejo inicial era fazer uma revista, mas suas condições não lhe permitiam, então ela criou o projeto do primeiro jornal voltado para o público negro. Mas as dificuldades não pararam por aí. Para manter o jornal, Etiene precisa conquistar anunciantes, já que o jornal vive da publicidade e é feito para ser distribuído gratuitamente e alcançando seu público alvo. Mas ao chegar numa empresa para tentar uma parceria, oferecendo um espaço de publicidade em seu jornal, Etiene não recebe muitas respostas positivas. “Ainda é muito vivo a imagem do negro como um consumidor sem potencial”, diz. A jornalista afirma não ter nada contra uma mulher loira
em um comercial, ou como capa de uma revista, mas uma pessoa negra também é consumidora. Para ela as pessoas tentam fingir que o negro não é um consumidor em potencial. “Por que os consumidores negros não são selecionados para comercias com tanta frequência quanto os outros são?” , questiona. Diante dessa questão, a solução encontrada pela criadora do jornal foi recorrer a empreendedores negros que trabalham com o público negro, já que existe uma resistência por parte de outras empresas em anunciar seus produtos e serviços num jornal que difunde a cultura negra. Etiene comemora o sucesso do seu jornal, que teve uma repercussão maior do que ela esperava, sendo tema de diversas pautas nacionais, e até internacionais. O jornal “Afronta” foi destaque do site blackwomenofbrazil.com, e a pretensão dela é de continuar o seu sonho na raça, afrontando o preconceito e buscando novos parceiros.
Fotos: Luiz Eduardo Oliveira
O problema da invisibilidade do negro na mídia estimulou a jornalista Etiene Martins a criar o jornal Afronta, primeira publicação independente de Belo Horizonte voltada para a cultura negra, escrito por e para os negros e negras da cidade. A trajetória desse empreendimento foi apresentada pela jornalista, que participou do seminário “Consciência Negra, igualdade racial”, promovido pelo curso de jornalismo da FUMEC no final de agosto. Em sua palestra, Etiene contou que sempre gostou de escrever e na faculdade teve a certeza de que o jornalismo impresso era aquilo com que queria trabalhar. No terceiro período do curso, ela começou a escrever para a Revista Raça Brasil, lançada em 1996, que foi o primeiro periódico voltado aos negros,
valorizando sua cultura e sua história. Ela relata também que, no ambiente acadêmico, sofreu preconceito até mesmo de um professor que sempre perguntava por que ela só falava sobre negros, já que em seus trabalhos e inclusive no tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso, ela enfatizava a presença do negro na sociedade. Por ter passado por inúmeras situações preconceituosas, ela se empenhou para dar à história do negro mineiro, principalmente, mais visibilidade, mais espaço na mídia e na sociedade que até hoje trata com desigualdade os negros, apesar de serem a maioria da população brasileira. Etiene conta que toda forma de racismo dói, mas que na infância essa agressão é mais marcante. “A pior parte do preconceito é na infância, é quando você vê por exemplo a professora abraçar e beijar só as crianças brancas e olhar pra você e te tratar com aquele olhar”, desabafa.
A primeira edição do jornal, teve como tema a macha das mulheres negras
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Em debate Etiene conta como é difícil o dia a dia do negro
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Editor e diagramador da página: Jackeline Oliveira
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O Ponto
Galeria Sextas de Primeira O evento ocorreu no dia 28 de Agosto reunindo alumos e professores da Univeridade Fumec para um bate-papo sobre Igualdade Racial Foto: Ana Júlia Ramos
‘‘A moda não considera a moda afro ainda, ou seja, a moda afro não é considerada moda. Mas a partir do momento que o negro reconhece o seu valor, a sua beleza e suas criações, portas são abertas para que outras pessoas tenham esse interesse, esse reconhecimento”
“Acho que é esse o problema do nosso pais, se alguém chegasse perto de mim e dissesse que não gostava de mim porque sou negra iria ser muito mais fácil de entender do que simplesmente ser eliminada” Etiene Martins
Énia Dára
“Falar que somos descendentes de escravos é coisa de colonizador, eu sou descendente de um povo inteligente sábio e esforçados, os mais capacitados porque ele só escravizaram esse povo para construir uma América” Makota Celinha
“Temos que meter o pé na porta todos os dias, para estarmos e nos colocarmos em uma sociedade, onde o mito da democracia social fez com que todos acreditassem que vivemos em uma pais onde o racismo não existe” Carlandreia
“O contexto social que emancipa a ideia de igualdade, de direito e deveres. Temos que reconhecer as diferenças e o papel social das pessoas. A população negra no Brasil é a maioria, mas é dita a minoria” Everton Pereira
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Editor e diagramador da página: Maria Clara Gonçalves
Em pauta: Consciência Negra• 11
O Ponto
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A violenta intolerância religiosa
Makota Celinha, iniciada no candombléfala sobre o preconceito com as religiões de terreiro Maria Clara Gonçalves 4º Período
Em debate, Makota contou as principais preconceitos que sofrem os iniciados em candomblé
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Em fevereiro deste ano, uma aluna do Rio de Janeiro foi afastada das aulas de uma professora por usar um adereço feito de palha e amarrado aos antebraços, conhecido no candomblé como contraegum. Em junho, terreiros de umbanda foram obrigados a melhorar a seguranças pelo aumento no número de violência e opressão. E no mesmo mês uma menina de onze anos foi apedrejada e insultada após sair de um culto de candomblé. Todas essas histórias aconteceram no Rio de Janeiro, mas se repetem em muitas cidades brasileiras. Para Makota Celinha (nome dado pela nação de candomblé para o cargo feminino de Zeladora de Orixás), jornalista e coordenadora do Centro Nacional de Africanidade e Resistência AfroBrasileira (Cenarab), a rejeição das religiões de terreiro vem da intolerância ao desconhecido, da fala de compreensão das tradições e da religião do outro, é a falta de respeito do que é diferente, a falta de conhecimento sobre o passado brasileiro e o seu contexto histórico. “Imaginem que em 1400 o colonizador chegou ao continente africano, com tradições religiosas em que ele é fruto do pecado de Adão e Eva, o corpo dele é reflexo de viver na terra, a mulher é o espelho do que não presta, do pecado. Ele chega à África com essas concepções, e ao chegar dá de cara com tambores, com um povo cantando e dançando em torno de um falo (representação de Exu, que na tradição religiosa é o Orixá da Comunicação: aquele que abre caminhos). Você tem um choque de cultura, e aí começa a demonização da tradição africana”, explica Makota. A jornalista conta que as práticas religiosas do candomblé são diferentes apenas em algumas questões, como terem significados próprios do que é sagrado e métodos de rezar diferente e por isso são discriminados por uma sociedade que não aceita o diferente. “Nós viemos de uma tradição milenar e a minha tradição traz fundamentos, regras e concepções étnicas e éticas próprias. O que não significa que é inferior, que o meu sagrado é menor que o seu. Temos mais
em comum com as outras religiões do que se pode imaginar. O que nos diferencia é simplesmente sermos descendentes de africanos”, argumenta. Para explicar as concepções e métodos diferentes de rezar, Makota dá o exemplo de como cada igreja professa a sua fé de uma forma diferente. Para arrumar um namorado os católicos cozinham Santo Antônio no feijão, os evangélicos vão ao culto dos solteiros e os iniciados no candomblé pedem um banho de cheiro aos pais de santo. Para ela, no fim está todo mundo procurando um namorado, mas de formas diferentes. “O pastor ergue a mão para poder orar, o padre usa a mão para abençoar, o Preto velho usa a mão para dar paz. Está todo mundo de alguma forma buscando através das mãos, dar uma benção. Esse estranhamento na verdade é uma ignorância, um desconhecimento”, completa. A contradição da intolerância Sobre o caso de Kailane Campos, a garota de 11 anos que foi apedrejada ao sair de um culto de candomblé, Makota desabafa: “Nos tempos de Jesus, os escribas e fariseus levaram a ele uma mulher que havia cometido adultério para ser punida. Ele então disse: ‘atire a primeira pedra quem não errou’. A sabedoria de Jesus naquele momento santificou a vida daquela mulher. Ele ainda disse para ela: ‘vá e não peque’, mas vá. Dois mil anos depois dessa passagem, as pessoas que falam em nome desse Jesus atiraram uma pedra em uma criança de 11 anos porque ela usava uma roupa branca, porque para elas, ela não tinha o direito de seguir com fé.” Makota afirma que não se pode deixar o Brasil continuar a omitir os atos de intolerância. Para ela, religião cada um tem a sua e deve ser respeitado independentemente de como seja, e o candomblé precisa ser respeitado como qualquer outra religião. “Para sabermos o que somos hoje, temos que saber o que fomos ontem. Eu sou descendente de reis e rainhas africanos, sou uma mulher ancestral que tem fé, mas não estou preocupada se vai para o céu ou o inferno. E você quem é?”
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O Ponto
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Categorias de Base: problema ou solução? A equipe de O Ponto entrevistou o diretor das categorias de base do Atlético, André Figueiredo, que falou sobre o momento do futebol brasileiro e da seleção brasileira. Figueredo comenta a questão da modernidade e do conceito de jogo como o principal problema do futebol atualmente. Ele enfatiza que o Brasil ainda produz grandes jogadores, porém a crise financeira dos clubes não permite que esses jogadores construam uma carreira vitoriosa dentro do futebol brasileiro. Por isso o Brasil é considerado um grande exportador de jovens talentos para o futebol internacional. Diretor das Categorias de Base do Atlético BRENO GALANTE CAROL CASTILHO 3º PERÍODO
Qual a idade mínima para o processo de captação dos talentos para a Categoria de Base? Hoje a gente capta numa escolinha de 13 anos e já começa um trabalho de iniciação esportiva e aos 14 anos efetivamente passa a ser jogador do Atlético. O jogador fica na Categoria de Base dos 13 anos até que idade? Até os 20 anos. Com 20 anos ele não pode mais jogar na base e automaticamente tem de ir para o profissional e fazer o que chamamos de transição profissional. Dentro de um ano, você consegue imaginar quantos jogadores entre 13 e 18 anos
estarão na Categoria de Base? E desse número, quantos são aproveitados no profissional? Aproximadamente 150 a 160 atletas durante o ano. No mirim, se você captar 30 jogadores, quando chegar no juvenil, metade vai ser descartada. Dentro de toda uma avaliação criteriosa que nós temos, escolhemos os 15 melhores. Para a categoria Júnior, cortam-se mais cinco atletas e para o profissional chegam apenas de dois a quatro atletas. Você concorda que o principalmente problema da Seleção Brasileira está nas Categorias de Base? Discordo absurdamente. O problema do futebol brasileiro, na seleção inclusive, é questão de modernidade. Jogamos num conceito de jogo antigo. Os nossos treinadores, na minha visão, são antigos, não se modernizaram. Eles acham que o talento
do futebol brasileiro vai ganhar sempre. A Europa se organizou e joga em conceito moderno e está sendo um antídoto para os nossos talentos. Se nós não nos modernizarmos, vamos continuar perdendo. Qual a sua visão geral das Categorias de Base dos times do Brasil? Os clubes, se estruturaram muito na base. Dão condição de formação que não davam antigamente. Os profissionais são extremamente capacitados. São preocupados com fases sensíveis de treinamento das crianças, o que antigamente não eram. Não se pode pegar um jogador com 17 anos e colocar no profissional e achar que ele vai resolver o problema. Tem época para esse jogador subir, e na minha visão quem pode determinar essa época é o departamento profissional junto com o departamento de
base. Não acredito que um treinador do profissional veja um treino de um jogador um dia e já achaeque ele está pronto para jogar. Tem de saber o histórico desse jogador. O que você coloca como principal causa para os jogadores que estão na seleção brasileira não terem tido uma carreira num clube no Brasil? Má gestão e a crise financeira dos clubes. Como é a relação de parceiria entre a Categoria de Base e a do profissional do Atlético, inclusive na parte de transição dos atletas? Atualmente ela é muito boa, porque nós temos o Levir Culpi, extremamente consciente do que está fazendo. Eu tenho um tempo dentro do time que me proporciona ter acesso ao departamento profissional e
isso ajuda muito nesse processo de transição. Treinamos todos os dias com os profissionais. Hoje, o Atlético deve ter o melhor processo de transição do país, que talvez não seja o ideal, mas tenho certeza que é o melhor. O Centro de Treinamento do Atlético é adequado para os meninos que estão na Categoria de Base? Acho que podemos sempre melhorar. Hoje temos assistente social, psicóloga, nutricionista, ortopedista, fisioterapeuta, dentista dentro do Centro de Treinamento. Nós temos toda uma estrutura que atende e muito bem os atletas da base. As ferramentas que temos para esse processo de formação são excelentes. Estamos construindo um campo sintético para melhorar a qualidade dos outros campos e para não deixarmos de treinar em dias chuvosos.
Somos uma universidade feita por professores. Nascemos da paixão por ensinar. E n s i n a n d o , aprendemos. Em 50 anos, fizemos de sonhadores, realizadores. Descobrimos que o mundo é dos inconformados, dos curiosos. Dos que não temem os nãos. Dos que buscam r e s p o s t a s p a r a a s g r a n d e s q u e s t õ e s . Dos que pensam no todo. Acreditar nas ideias, no que nunca foi feito, faz tudo valer a pena. Porque o tempo passa e o conhecimento fica.
Fumec, 50 anos.
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O tempo passa, R FRQKHFLPHQWR êFD
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Editor e diagramador da página: MArcella Souza
CRÔNICA
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Um viva aos árbitros Eduardo Pires 2º Período Nos conta o jornal que o árbitro mineiro Wanderson Alves de Sousa, que apitou a partida entre Lajeadense (RS), time da casa, e Volta Redonda (RJ), time visitante, realizada pela série D do Campeonato Brasileiro, relatou ter sofrido ameaças de morte por parte do dirigente do Lajeadense, Jorge Baldo. Segundo o árbitro, o dirigente invadiu o gramado da partida após o apito final e teria proferido xingamentos e o ameaçado: “Vocês são uns filhos da p..., corruptos, desgraçados! Eu vou mandar matar vocês na estrada essa noite. Quero ver vocês saírem daqui!”. A irritação do dirigente teve origem na expulsão de dois jogadores do Lajeadense e seria de se esperar que tanto ódio e violência significasse que o time da casa tivesse perdido a partida. Ledo engano, pois, apesar das duas expulsões, ainda assim o time da casa se sagrou vitorioso. Vitória que não foi capaz de aplacar a ira do dirigente. O acontecido poderia chamar a atenção pelo fato de que o futebol é capaz de provocar emoções extremas, chegando mesmo até ao ponto de se ameaçar a vida de alguém, o que poderia também ser um reflexo dos nossos tempos, quando o que não nos é favorável ou de nossa concordância leva até o ponto do desprezo à vida
do outro por motivos que poderiam ser classificados como fúteis. Afinal de contas, “O futebol é a coisa mais importante das menos importantes”, diz a frase de autor desconhecido. No entanto, o que chamou a atenção deste que lhes escreve foi uma reflexão mais amena, mais especificamente sobre a personagem mais odiada do futebol. O juiz é aquele que é sempre xingado, seja por uma torcida ou pela outra, pois sempre será o vilão para uma das torcidas. O juiz é aquele que só será lembrado no caso de ter errado. Pode acertar 99% das vezes, mas, caso erre, todos os seus acertos serão nulos. Jamais será parabenizado por aquele impedimento muito bem marcado. Jamais será ovacionado por apitar aquele pênalti justo ou por aquele lance difícil e que foi bem resolvido por ele. O juiz jamais será parado por um fã para distribuir um autógrafo. Jamais terá sua camisa vestida por alguém na rua após uma partida apitada por ele. Mas caso venha cometer um erro, sua vida não será a mesma. Ele será ameaçado, será xingado, e, se tiver um pouco mais de azar, poderá apanhar, por um jogador injustiçado, um torcedor ressentido ou um dirigente raivoso. Terá sua mãe xingada, sua mulher desrespeitada. Seu caráter e sua honra serão postas em dúvida. E toda decisão tomada carregará o peso da irritação de toda a torcida adversária.
E o que leva uma pessoa a optar por tal martírio? Um mistério. Fico imaginando se, quando criança, o árbitro Wanderson Alves de Sousa, ao invés de sonhar com gols de placa, dribles desconcertantes ou passes mirabolantes, se admirava com os sons que saíam dos apitos daqueles homens. Será que ao invés de correr atrás da bola, como todos os outros meninos, preferia estragar o prazer do gol marcado ao anulá-lo, com base naquela mão na bola que ninguém mais conseguiu enxergar? Enfim, acho que jamais chegaremos a responder tal questão. No entanto, é por causa da irracionalidade da ideia de alguém optar por ser juiz que devemos valorizar essa figura do mundo do futebol. Ruim com eles, pior sem eles, e na sua ausência, sem alguém para redimir todas as dezenas de conflitos que ocorrem em cada partida de futebol, sem alguém para impor uma decisão, estariam invibializadas todas as partidas de futebol, que não chegariam ao fim, suspensas pelos inúmeros impasses que se formariam em seu decorrer. Ou seja, sem os juízes, as figuras mais odiadas do futebol, todo jogo terminaria em uma guerra entre os times. Assim sendo, se ninguém, algum dia, jamais tenha escrito, agora eu escrevo: viva os juízes de futebol! Pelo menos, até o dia em que um deles prejudique o meu querido Flamengo.
O mar de Minas Silvania Capanema 1º Perîodo Surpreendi-me com a notícia e não fui a única. Parece que mais de oitocentos leitores do jornal enviaram seus comentários diante da notícia que Minas agora tem mar. A foto de capa da edição do Estado de Minas de 19 de agosto último mostra uma bucólica praia com barquinhos coloridos e, em primeiro plano, um talvez pescador que nos vira as costas a olhar o marzão besta de mão no queixo. Nosso Mar? Pergunta o título. Sei lá, respondo eu. Analisei a notícia. Contam que, nos idos de 1910, ao final de uma negociação de falência da empresa ferroviária, Minas comprou da Bahia uma estreita faixa de terra de 12 por 142 quilômetros que margeia os trilhos da extinta ferrovia Bahia-Minas. Esta tal faixa liga o território mineiro, na altura de Serra dos Aimorés, com o Porto de Caravelas, no extremo sul da Bahia. Então, se o negócio for reconhecido, seremos donos ou não desta passagem para o mar? O texto diz que na década de 1940 - passados trinta anos - Minas reivindicou a posse
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das terras. Os baianos deram resposta? Não. Minas tornou a cobrar? Também não. Ficou o dito pelo não dito. Em 1973, o saudoso jornalista Fernando Brant (isto mesmo, nosso querido compositor parceiro de Milton Nascimento na canção Ponta de Areia, feita exatamente sobre este tema) ressuscitou a história nas páginas de O Cruzeiro. Diz que o caso se arrastava desde 1910, encoberto por um inexplicável silêncio. Silêncio de mineiro, este ser desconfiado, circunspecto, introvertido e sonhador. Alma fechada e altaneira, orgulhosa como as montanhas que cercam a sua terra adorada. Mineiro que tem a nostalgia do mar herdada dos portugueses. Como diz Rubem Alves, “Minas não tem mar. Minas tem montanhas, matas e céu. Minas não tem mar, lá quem quiser navegar tem de aprender que o mar é em outro lugar. O mar de Minas não é no mar. O mar de Minas é no céu, pro mundo olhar pra cima e navegar sem nunca ter um porto pra chegar.
Nossa terra sem mar forjou a personalidade do mineiro. Tantos cantaram a presença onipotende da montanha e a ausência nostálgica do mar de água salgada em poesias, crônicas e versos. Drummond definiu: “Ser mineiro é viver nas montanhas, é ter vida interior, é ser gente. Guimarães Rosa explicou: “o mar, meu filho, é uma espécie de saudade...” Saudade eu tenho, muita, da minha vida de menina em férias, solta na praia de Copacabana. Do mar cujas ondas me levavam onde bem queriam e eu me deixava levar, flutuando, entregue, a ver a largueza do céu. Tantas vezes voltei a ti. Viajei por tantos mares mundo afora, porém todas as vezes ansiosa por voltar pra casa, acordar e ver logo cedo, da janela do meu quarto, o paredão de serra que é metade do meu céu. A alma mineira não quer saber de ser proprietária de um filetinho de praia, só pra falar que tem mar. A montanha é onipresente e o mar é um sonho distante. Vamos esquecer este assunto e deixar o mar para os baianos, eles sim, como Dorival Caymmi e Jorge Amado, têm a alma do mar.
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Editor e diagramador da página: Jackeline Oliveira
Comportamento • 15
O Ponto
Belo Horizonte, setembro de 2015
Gourmet, aqui não! Longe da sofisticação dos chefes de cozinha, receitas simples são a fórmula do sucesso
Foto: Jackeline Oliveira
Café Palhares localizado no centro é um do mais antigos e tradicionais resturantes da capital o restaurante mantém a originalidade e aposta na tradição Foto: Jackeline Oliveira
Jackeline Oliveira 3ºperíodo Segundo o gastrônomo francês Jean Anthelme Brillat-Savarin, em seu livro Fisiologia do Gosto (1825), o termo gourmet surgiu para designar aquele que tem paladar apurado. Mas com a ajuda do marketing, o significado da palavra mudou um pouco e hoje é usada para classificar tudo aquilo que traz alta qualidade e apresentação sofisticada, diferente do convencional. Mas afinal, será que todos estão aderindo a essa nova “onda”? E os tradicionais pratos mineiros, como ficam com essa história toda? O tradicionalíssimo restaurante da capital mineira fundado em 1938 por dois irmãos, Café Palhares, hoje administrado por João Lúcio e Luiz Fernando, é um ponto de encontro dos moradores mineiros com a tradição da boa comida. Localizado na Rua Tupinambás e famoso por seu prato denominado “Kaol” (arroz, couve, ovo e linguiça), o Café Palhares, que se tornou uma referencia gastronômica, acredita que gourmet mesmo é a tradição e a história que o prato tem, como conta André, terceira geração do restaurante. “Essa onda gourmet não afeta em nada a nossa clientela, pelo contrário, cada dia mais a nossa clientela aumenta, devido à tradição da casa. Essa coisa gourmet, eu arrisco dizer que é algo passageiro, não passa de uma moda”, comenta. Já para Luiz Fernando, segunda geração do restaurante, essa onda depende somente do cliente. “Quem tem de decidir é o cliente, ele que dá a resposta final e para atraí-lo, o Café Palhares aposta na tradição e na boa escolha dos alimentos que são oferecidos nas nossas refeições”, diz. Outro restaurante que também não aderiu a essa nova moda e segue apostando na tradição é o Bolão, O Rei do Espaguete, loca-
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Kaol, tradicional prato do Café Palhares faz sucesso com os admiradores da boa comida
Rochedão, um dos pratos mais conhecidos e pedidos do restaurante Bolão
lizado no bairro Santa Tereza, um dos mais antigos de Belo Horizonte. Famoso por seu espaguete à bolonhesa e o rochedão (arroz, feijão tropeiro, ovo frito e bife) com fritas (cortadas com a delicadeza de um Ogro), o Bolão é um dos bares mais conhecidos da capital e o mais premiado como o melhor fim de noite de BH. Carlos, atual dono do restaurante, conta como a casa conquistou essa tradição: “Não tem segredo nenhum a não ser o carinho no preparo. Eu acho que é a simplicidade que faz a fama”. É justamente a simplicidade que faz o empresário Israel, 53, escolher o Bolão e não esses famosos restaurantes gourmets. “Não existe nada melhor do que você chegar ao restaurante e sentir aquele cheirinho de comida caseira, de coisa feita com amor e ao mesmo tempo tão simples. Nada dessas comidas requintadas, que servem apenas para o cliente pagar caro e comer pouco”, declara Israel. Já a estudante Camila, 24, conta que acha legal essa onda gourmet, mas não aderiu por causa dos altos preços dos pratos. “Eu como fora de casa todos os dias, não tenho condições de ficar pagando caro, por isso prefiro pagar mais barato e ter a mesma qualidade, senão melhor”, diz. Apesar de tudo, o termo gourmet não deve se esvaziar tão cedo, mesmo com a overdose do uso; pelo contrário, os renomados chefes de cozinha afirmam que ainda tem muita coisa a ser gourmetizada pelo mercado. “O que deve evoluir é o conceito, podemos juntar, por exemplo, tradição e sofisticação, e dessa forma agregar públicos de todos os gostos. O que não podemos negar é que o gourmet ainda tem uma sobrevida grande no meio gastronômico”, afirma o renomado, tradicional e experiente Chef Tulio, proprietário do butiquim Chef Tulio há dezoito anos.
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16 • Eu conto no Ponto
Editoras e diagramadoras da página: Jackeline Oliveira
Belo Horizonte, setembro de 2015
O Ponto
Eu conto no Ponto... C o m Cri st
Coluna das lamentações
ia na
C o r r ie r i
Mulher no volante, destreza constante Mariana de Matos em depoimento a Cristiana Corrieri Combinamos de ir para o sítio de um amigo do meu namorado da época. Era um programa de casal: eu, meu namorado, o Caio e a Ana. Pegamos a estrada de tardinha e a pista da direita estava recapeando sendo que na 381 são apenas duas pistas. Fui dirigindo com a Ana no banco da frente e os dois atrás bebendo vodca. Estávamos indo tranquilos, quando, de repente, um cara começou a colar na minha traseira, ele piscava farol, acelerava, e piscava o farol de novo. Mas não tinha o que fazer, já que a outra pista estava sendo recuperada. Eu e Ana estávamos muito tensas já que o homem não parava de piscar farol e decidiu colocar farol alto no meu retrovisor, foi quando surgiu mais uma pista na estrada, dei seta para a direita e deixei ele passar. Enquanto isso, os meninos atrás estavam muito bêbados, fazendo brincadeiras e gritando. Quando ele passou ao nosso lado, o meu namorado, Lucas, fez a chamada “bunda lelê” para o homem irritado. Logo após esta cena, ele foi freando e colou o carro do meu lado, abriu o vidro e apontou uma arma para mim. Comecei a acelerar muito, cortei carros,
caminhões e tudo que eu fazia o homem fazia também. Continuamos isso por mais uns 10 minutos, o homem impetuoso colando o carro dele no meu, piscando farol, ou seja, tentando me desconcentrar. A partir deste ponto, honestamente, eu não sabia mais o que fazer. Neste momento, eu estava na pista da direita e ele na da esquerda, foi quando eu vi uma placa de S.O.S. para virar à direita, uma saída da estrada. Não dei seta e no último segundo eu virei de uma vez para que ele não conseguisse virar também, mas ele atravessou a estrada inteira e continuou a perseguição. Nesta saída, tinha uma rotatória, que tinha um canteiro do outro lado da pista. Eu estava tão concentrada em fugir daquela situação, que continuei acelerando. Peguei a tal da rotatória e quando eu vi, o ponteiro estava marcando 180 km/h: carro cantou pneu e estava quase de lado. Nesse instante pensei: vamos capotar. Consegui fazer a rotatória e o meu carro voltou ao normal, quando olhei no retrovisor para ver onde o homem furioso estava, tive uma surpresa: ele bateu no canteiro e ficou por lá mesmo. Não fiquei lá para ver o que aconteceu, fomos embora correndo dali.
Os alunos Pedro Lacerda (Engenharia Civil), Lucas Dias (Administração), Pedro Flecha (Administração), Ailton Costa Junior (Engenharia Civil), Vitor Corrieri (Design Gráfico), Lucas Koh (Design de Produto), entre outros, lamentam MUITO a existência do lixo na calçada nas imediações da universidade. Ele é colocado pelos funcionários da Fumec no período da noite, deixando quase ou nenhum espaço para a passagem das pessoas (além do mau cheiro) e na manhã seguinte o cheiro de chorume é insuportável. Na última edição deste jornal foi feita essa reclamação, mas nada foi realizado pela administração da Universidade Fumec. E aí gente? Resposta: A coleta de lixo realizada pela SLU é proibida de entrar nos estabelecimentos para retirar o lixo. Coletam somente o lixo depositado na calçada. A Universidade FUMEC estudava uma alternativa, mas não se mostrou viável. Apesar da calçada ter aproximadamente 2,50 metros de largura, estamos verificando a viabilidade de colocar cestas metálicas a 40 cm do piso para deposição dos sacos de lixo. Vamos solicitar ao pessoal de limpeza que lavem a calçada diariamente.
O aluno de Jornalismo, Janderson Silva, lamenta que a cantina da FEA não esquente mais o almoço que ele traz de casa. O aluno acrescenta: “Qual a necessidade disso? Somos obrigados a comprar a comida que ele faz?” Resposta: Segundo o dono da cantina, Emerson Nogueira, os alunos que compram o almoço reclamam dos outros alunos que pedem para esquentar a marmita no microondas da cantina. Pois o tempo que leva para esquentar, atrapalhava quem compra o almoço.
O aluno de Administração, Carlos Eduardo Capucio, lamenta o mau cheiro do banheiro masculino do 2º andar da FACE. Ele diz que o local não possui descarga automática, e como não desce água, o cheiro fica acumulado. Resposta: Os banheiros da FACE estão previstos de passar por uma reforma da rede hidráulica. Alguns aspectos não serão alterados. Apenas melhorias nas tubulações. Os mictórios citados dispõem de registro, com acionamento manual, enquanto os mictórios do 1º pavimento possuem válvula com acionamento manual. Falaremos com o pessoal do serviço de limpeza para melhorar a periodicidade de verificar os banheiros.
Envie suas lamentações para nós: monitoriaoponto@gmail.com
Segurança não oferece segurança Anna Carolina Deroma em depoimento a Cristiana Corrieri Em uma dessas sextas-feiras de abril de 2014 eu resolvi fazer uma coisa que eu não faço sempre: ir a uma casa noturna. Só fui, porque tinha terminado um namoro e queria sair com as minhas amigas. Cheguei lá e ganhei pulseiras de dois camarotes diferentes, onde tinha open bar de Vodca, outra coisa que não costumo fazer: beber vodca. Além de tudo ser diferente de mim, ainda resolvi ir de salto: uma coisa que eu realmente nunca faço. Chegou um ponto da noite que eu precisava descansar. Lá pelas 2h40 eu fui ao banheiro para assentar. Por conta da vodca, perdi a noção do tempo, estava mexendo nas redes sociais, no Whatsapp e fiquei quase 20 minutos dentro de uma cabine do banheiro. Minhas amigas ficaram preocupadas e foram me procurar, uma delas começou a gritar meu nome: “Carol, Carol! Cadê você?” e eu respondi: “tô aqui”, foi quando uma das seguranças da boate que ficam fazendo ron-
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das no banheiro pra ver se está tudo certo, abordou minha amiga e disse: “você não vai entrar aí, sua amiga tá cheirando pó”. Confesso que perdi a cabeça e falei: “tá ficando louca moça? Eu to descansando meu pé”. Ela não hesitou, me pegou pelo braço e saiu me arrastando pela boate inteira até o famoso “quartinho preto”. PS: a casa noturna não era pequena, imagina a situação: meu pé fervendo de dor por conta do salto e eu sendo arrastada por uma mulher que inventou uma coisa que eu não fiz. Quando cheguei no famoso “quartinho”, ela me mandou sentar e calar a boca, mas eu pedi pra ir embora, foi quando ela começou a me agredir: me dava socos e tapas na cabeça para não ficar marcas no meu corpo. Minha amiga viu isso e tentou me defender, mas foi em vão: continuei apanhando. Voltando à história do salto: meu pé estava doendo, tinha uma tira de couro no meu tornozelo apertando
muito e quando eu abaixava para tentar desamarrar o sapato ela me batia de novo. Eu não tinha saída, estava bêbada, apanhando e com muita dor no pé: só queria ir embora dali. Depois de um tempo ela me mandou ir embora, me jogou pra fora, mas minha chave, a comanda e minha identidade ficaram na salinha preta e eu precisava delas para ir embora. Fiquei gritando por muito tempo até que alguém me atendeu e levou minhas coisas lá fora. Fui pra casa da minha amiga que me aconselhou a ir para a delegacia. Fiz o boletim de ocorrência, exame de corpo de delito, e processei a boate e a segurança. Felizmente, o processo contra o estabelecimento foi resolvido e eu ganhei R$7.000,00 na justiça como indenização por danos morais e o processo criminal contra a agressora ainda está caminhando na justiça.
10/8/15 10:48:35 AM