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LIDANDO COM O “NINHO VAZIO”
Nem sempre é fácil ver os filhos partindo em busca de seus sonhos em objetivos. Às vezes, pode ser difícil lidar com as saudades e começar uma nova etapa da vida.
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Éa realidade de muitas famílias dentro do clube: chega o tão sonhado dia dos filhos partirem em busca de seus objetivos e sair de casa. Seja para fazer faculdade ou pós-graduação e até mesmo por boas oportunidades de trabalho em outra cidade ou país, as “crias” iniciam novas vidas querendo conquistar o mundo. Mas e quem fica? Nem sempre o início dessa nova etapa dos pais, principalmente das mães, é fácil e tranquilo. Nesse momento é que pode surgir a chamada síndrome do ninho vazio.
De acordo com Artur Launadi Mucci, professor da Sociedade Brasileira de Psicanálise Integrativa, a síndrome do ninho vazio é caracterizada pelo sofrimento dos pais após a saída dos filhos de casa. “É um período de mudanças na vida dos pais que pode agravar sentimentos de depressão e baixa autoestima”, pontua.
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O professor afirma que, segundo estudos, somente a saída dos filhos de casa não é suficiente para desencadear a síndrome. Mas fatores sociais e culturais e as particularidades de cada caso são fatores que influenciam bastante. “O modo que cada um lida com ausências, lutos, desejos e frustrações se conecta naquela história. A síndrome, portanto, se situa na pósmaternidade/paternidade, mas não é uma consequência direta disso” explica.
Sintomas De Ninho Vazio
A SNV é nomeada pela Classificação Internacional de Doença como Problemas de adaptação às transições do ciclo de vida. De acordo com Mussi os quadros de síndrome do ninho podem variar de intensidade e sintomas vão de acordo com essa variação. Há casos em que o problema pode gerar choro compulsivo, sentimento de solidão, abatimento e desmotivação, além de raiva, melancolia, alterações no sono e na alimentação, redução da libido, depressão e podendo até apresentar episódios pontuais de ansiedade aguda.
“Nos dias de hoje, com conexão constante via celular e redes sociais com os filhos, situações de dificuldade de entrar em contato, uma mensagem não visualizada ou um telefone fora de área, pode desencadear episódios agudos de aflição para quem sofre da síndrome”, observa Mucci.
Quando há uma dedicação exclusiva aos cuidados com a família, a saída dos filhos tende a causar um impacto maior. Isso acontece mais frequentemente com as mães, que assumem a responsabilidade integralmente e chegam a anular seus planos e sonhos.
HÁ COMO SE PREVENIR?
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A síndrome do ninho vazio não é um tema recente, logo há muita informação disponível sobre o tema, incluindo conteúdo relacionado à prevenção dessa situação. “Isso nos torna mais capazes de nos prevenir. O diálogo e o estabelecimento de interações saudáveis precisam estar no horizonte. O que tem que ser evitado são situações extremas, como chantagem para que o filho não saia ou uma ruptura abrupta. Isso pode resultar em experiências negativas e traumatizantes”, detalha Mucci.
No clube, muitas famílias vivem essa realidade. Esse, por exemplo, é o caso de Patrícia Padilha, mãe de Bruno, Alejandro e Diego. Seus três filhos não moram mais em sua casa. Ela foi uma das maiores estimuladoras para que eles batessem as asas e buscassem seus sonhos e objetivos. Segundo ela, mães e pais criam filhos para o mundo e ela sempre quis que eles fossem jogar tênis, estudar no Estados Unidos e aprenderem a viver sozinhos.
“No começo é estranho. Em casa tem quatro quartos, mas você entra e vê que três estão vazios, porque eles foram embora. Mas cada vez que eu começava a ficar triste, eu pensava que eu que tinha os incentivado e ajudado a criar essa oportunidade para buscarem essas experiências tão importantes para a vida deles”, enfatiza Padilha.
Mesmo com a permanente saudade de seus meninos, Patrícia não viveu nenhum quadro profundo da síndrome. A associada, inclusive, lidou da maneira mais indicada e orientada para famílias que estão aprendendo a viver sem suas “crias”. “Outro ponto que ajuda é a pessoa pensar que todas as fases são passageiras. Então é fundamental ter essa consciência e o mais importante: os pais precisam ter suas vidas próprias. Manter seus amigos, sua vida social e continuar fazendo as coisas que gostam”, indica.
Lidando E Superando
O sofrimento causado pela síndrome do ninho vazio não funciona de forma exata e é difícil prever a duração, já que se manifesta de maneira singular em cada pessoa. Além da construção e manutenção de projetos de vida particulares, e a fomentação de desejos e interesses pessoais, há como tratar o problema que, muitas vezes, acaba sendo inevitável.
Nesse tratamento o mais importante é a construção de um sentido de vida, uma direção; ela que, apesar do luto e dor, continua. Desta forma é preciso determinar que a vida persiste e sua duração não se encerrou, ela continua com novos desafios decorrentes das mudanças em seu ciclo vital. Para tanto, buscar ajuda pode ser essencial. E essa ajuda pode vir de vários pontos.
“Pela proximidade, o acolhimento com um familiar ou amigo pode validar essa dor e legitimar o desejo por melhoras, além de suporte para esse processo. Há também as clínicas de saúde mental, onde o primeiro passo é sempre a escuta, ou seja, a pessoa será ouvida de fato. Às vezes, o primeiro passo é saber que precisa de ajuda”, explica o professor da SBPI.
Nesse contexto, a psicologia tem procurado entender melhor todas as aflições psíquicas com que lida diariamente. Muitos estudos clínicos e quantitativos estão sendo realizados sobre a emergência de quadros depressivos associados à perda do papel de cuidadora/o com a partida dos filhos. Entretanto os estudos também mostram que a maioria dos casais se reencontra e vive bem física, social e psicologicamente, com mais qualidade de vida.
APOIO, MESMO À DISTÂNCIA
E até mesmo os filhos que partiram podem ter um papel importante nessa história. “Eles devem sempre observar sinais de melancolia, ansiedade e mesmo a ira, bem como procurar meios de interação. Muitas vezes a comunicação entre pais e filhos é marcada por ruídos, distanciamentos e não ditos. Evitar assuntos inacabados, exercitar o diálogo e praticar o cuidado fazem parte do papel desempenhado pelos filhos”, ressalta Mucci.
A síndrome do ninho vazio ainda é um quadro difícil de diagnosticar, porque seus sintomas podem ser atribuídos a outros problemas de saúde, que normalmente surgem com o avanço da idade. Também é comum confundir a SNV com outras desordens, como transtornos depressivos.
Mas o importante encerrar o ciclo anterior para iniciar uma nova etapa. Cultivar o contato com os filhos também é essencial para superar a síndrome do ninho vazio. Entretanto, os pais precisam compreender que a relação agora é diferente e a dinâmica atual envolve pessoas maduras, que dispensam cuidados e que precisam de sua independência e privacidade respeitadas.
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