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Comportamento: O Homem No Feminismo
Apesar de ocupar o centro de muitas das discussões atualmente, principalmente com o poder de comunicação das redes sociais, o feminismo existe há muito tempo. Movimento organizado por mulheres na metade do século XIX nasceu com um objetivo central: a conquista da igualdade de gênero. A causa, no entanto, não apenas em prol delas. Para tanto, é necessário entender o papel do homem no movimento e a importância da empatia dos mesmos aos seus objetivos.
EQUIDADE DE GÊNERO: O PAPEL DO HOMEM NO FEMINISMO
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O PAPEL DO HOMEM NO FEMINISMO
O primeiro passo é acabar de vez com uma confusão que ainda ocorre na sociedade. O feminismo não é o oposto e nem a versão feminina do machismo. Flavia Salim, associada do Paineiras e criadora e líder do Movimento Inspira Mulheres, acredita que o feminismo prega a igualdade de gênero, para uma sociedade em que mulheres e homens tenham, de fato, os mesmos direitos. Além de defender o direito que garante às mulheres a equiparação salarial aos homens, ao desempenhar a mesma função.
“É ser respeitada por suas escolhas de se casar ou não, ter filhos ou não, de usar a roupa que deseje sem ser vista pejorativamente, entre outras reivindicações. O feminismo desfaz a ideia incutida pela sociedade patriarcal que mulheres devem ser rivais entre si e ainda acrescento devemos viver mais a sororidade entre nós”, explica Flavia.
O feminismo também é fundamental para entender que algumas coisas tidas como naturais são fatores socialmente construídos. Segundo Isabela Venturoza, antropóloga, pesquisadora do Núcleo de Estudos Pagu (UNICAMP) e especialista em masculinidades, alguns papéis que são colocados para as mulheres quase que automaticamente são, mesmo que não declaradamente, muitas vezes impostos para o sexo feminino. Essa imposição, em muitos casos, colocam as mulheres em posição de desigualdade e subordinação.
“O feminismo vem justamente mostrar que a mulher pode sim ser mãe, se casar ou ter um papel de cuidado na vida das pessoas que estão ao redor. Mas de acordo com sua vontade e não seguindo essa “ordem” socialmente construída ao longo dos séculos. Esse lugar das mulheres como mães, esposas, pessoas do cuidado, domésticas e restritas a determinadas atividades é fruto dessa construção”, detalha Isabela. CONSCIENTIZAÇÃO DE HOMENS E MULHERES
O movimento possui um papel de educação que pode ser transformador para homens, mulheres e a sociedade como um todo. Ele não só conscientiza as mulheres sobre essa liberdade em escolher e poder realizar o papel que deseja em sua vida, mas também traz pontos de reflexão para homens relacionados à masculinidade e à construção masculina, que também é algo estimulado socialmente. Daí surgem os comportamentos que podem ser tóxicos para todos.
“Alguns fatores como o machismo, a agressividade e não-aprendizado do papel de cuidador são estimulados
e perpetuados pela sociedade. O feminismo se torna muito importante para o homem e, consequentemente para a sociedade, pelo fato de poder transformar essa realidade, mudando alguns comportamentos por meio da educação e conscientização. Podemos construir algo positivo nesse sentido, na busca pela equidade de gênero”, ressalta a antropóloga.
Isabela ainda destaca que os impactos dessa transformação não acontecem apenas para homens e mulheres, mas para todas as comunidades. Segundo ela, as melhoras poderão ser observadas em diversos pontos cruciais. De acordo com ela, a descentralização de trabalhos e responsabilidades atribuídas, pensando em masculinidade, pode ajudar a reduzir índices de mortes, alcoolismo, acidentes de trabalho e comportamentos de risco, fatores que custam muito em todos os sentidos para a sociedade. “Todos esses fatores custam muito à sociedade como um todo. Custa afetivamente, emocionalmente, psicologicamente e acaba custando também aos cofres públicos. Nesse sentido, o movimento feminista busca a equidade de gênero e esse equilíbrio é altamente positivo considerando o todo”, conclui Isabela.
Para Flavia, em uma sociedade que promove igualdade de gênero é possível manter o equilíbrio nas mais diversas áreas, como educação, saúde, política e corporativa. “Pois a mulher pode compreender mais facilmente e dar maior ênfase às necessidades de outras mulheres. Compreender o que precisam em termos de saúde, educação e direitos” completa.
QUEBRANDO BARREIRAS DE COMPREENSÃO
Mesmo sendo um movimento que, em sua essência, é benéfico para todos, independentemente do gênero, o feminismo encontra algumas barreiras para ter sua ideia compreendida, especialmente entre os homens. São pontos que são vistos com alguma estranheza e fazem com que, parte das pessoas não se aprofundem ou entendam a causa como em seu real sentido.
“É fundamental entender que o feminismo não é um movimento de ódio contra os homens e nem algo que promova uma superioridade das mulheres em relação a eles. Mas ele pode sim ser visto como uma recusa da mulher em aceitar os papéis previamente atribuídos a ela, pré-concebidos em uma sociedade que se construiu dentro de comportamentos machistas. É necessário entender que, acima de tudo, é a busca por uma sociedade mais justa. Para entender o movimento precisamos acabar com os achismos e as ideias limitadas e preconceituosas”, ressalta Isabela.
Ela ainda reforça a importância da inclusão dos homens em discussões sobre feminismo e equidade de
gênero, afirmando que os homens precisam ter acesso a esse conteúdo e conhecer as coisas sob o ponto de vista feminista. Na mesma linha, Flavia acredita que o extremismo pode não ser um aliado nesse aprendizado. “Em qualquer filosofia ou idealismo, o extremismo não torna as pessoas melhores, e sim inflexíveis”, pontua.
REFLEXÃO E REVISÃO DE COMPORTAMENTOS
A empatia do homem com o feminismo pode ocorrer de diversas maneiras. Ao entender o movimento, os homens passam a ter ferramentas que ajudam a lidar com suas fragilidades, cuidar melhor da saúde e se repensar em termos de masculinidade. “É a possibilidade de o homem rever alguns comportamentos que podem tornar sua vida melhor e mais saudável em todas as relações que ele tem”, indica Isabela.
Esse também acaba se tornando o melhor caminho para que muitos homens reflitam e parem de repetir alguns comportamentos machistas. Há uma série de atitudes que, incomodam, reprimem e constrangem e violentam mulheres. São hábitos enraizados, muitas vezes tidos como brincadeiras, mas que são o ponto de partida para problemas ainda mais graves do que a desigualdade de gênero, como a restrição de acesso e a violência física contra mulheres.
“As mulheres ainda sofrem muito com o machismo no mundo, e no Brasil, apesar das leis que são cada dia mais claras e protetoras é necessária uma mudança de cultura e isso leva anos, pois vivemos numa sociedade machista e patriarcal, em que se tolera a ideia de que mulheres são inferiores aos homens”, afirma a idealizadora do Movimento Inspira Mulheres.
ENSINANDO DESDE CEDO
A reavaliação de comportamentos e posturas é fundamental e necessária para a criação de uma sociedade mais justa. Mas esse movimento pode ser ainda mais viável se houver o ensino e a conscientização das pessoas em relação à causa do feminismo desde cedo.
“É na escola que essa conversa deve começar. Precisamos colocar assuntos como feminismo, equidade de gênero, masculinidades e diversidade logo na escola. Lá, é o momento da formação das pessoas que, no futuro, vão poder se posicionar de uma forma ou de outra”, sinaliza Isabela.
Flávia, por sua vez, acredita que o assunto não deve ser tratado um mito e sim uma realidade. Deve ser algo que traga desde a infância informações que homens são iguais a mulheres e vice-versa, que um homem não precisa ser mais forte só por ser homem, e que uma mulher não precisa ser mais sensível só por ser mulher, que não se pode fazer isso ou aquilo, por conta de gênero, e sim que ambos temos e podemos exercer estes papéis na vida pessoal, profissional ou social”, finaliza.
Desde cedo, por meio do compartilhamento do conhecimento e trocas reais de experiências, é sempre possível evoluir, em busca de comportamentos mais saudáveis e de uma sociedade mais justa.