Portugal Post Março 2012

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PORTUGAL POST ANO XIX • Nº 212 • Março 2012 • Publicação mensal • 2.00 € Portugal Post Verlag, Burgholzstr. 43 • 44145 Dortmund • Tel.: 0231-83 90 289 • Telefax 0231- 8390351 • E Mail: correio@free.de • www. portugalpost.de • K 25853 •ISSN 0340-3718

Entrevista com Luísa Coelho, leitora do Instituto Camões na Humboldt Universität (HU) e na Freie Universität Berlim (FU) Págs. 6 e 7

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MULHER Como consegues caminhar com os pés descalços sobre as águas dos esgotos esgravatar os restos de comida no meio do lixo dar o seio murcho ao filho que vai morrer abrir as pernas à violência do bêbado beber a água que a terra não quis sobreviver à febre picada na pele comer o peixe coberto de moscas dançar as mágoas na areia da praia à lua cheia limpar as ramelas dos filhos com o teu próprio cuspo lavar a roupa sem água limpa fazer-te bonita sem a magia do espelho catar os piolhos nos cabelos dos outros dar força aos mais velhos na caminhada dormir num chão de baratas e ratos parir um filho por ano enterrar as pernas das crianças que saltam nas minas saciar a fome dos mais novos nos teus seios transportar tanto peso na cabeça esboçar um sorriso quando te pergunto o preço das mangas abre-me os olhos, mulher, explica-me como consegues porque há dias em que sou eu que não aguento

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Kunuar, Luísa Coelho, 2009

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› Dia Internacional da Mulher

Schwäbisch Hall recebe avalanche de pedidos de emprego de portugueses Pág. 8

Evoca o 8 de Março Dia Internacional da Mulher Págs. 6, 7 , 11, 12 , 14, 16, 17, 18, 19 e 25 Editorial por Cristina Krippahl Pág. 2 Publicidade

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PORTUGAL POST Nº 212 • Março 2012

Editorial Cristina Krippahl

PORTUGAL POST Agraciado com a Medalha da Liberdade e Democracia da Assembleia da República Fundado em 1993 Director: Mário dos Santos Redação e Colaboradores Cristina Dangerfield-Vogt: Berlim Cristina Krippahl: Bona Joaquim Peito: Hanôver Luísa Costa Hölzl: Munique Correspondentes António Horta: Gelsenkirchen Elisabete Araújo: Euskirchen Fernando Roldão: Frankfurt/M João Ferreira: Singen Jorge Martins Rita: Estugarda Manuel Abrantes: Weilheim-Teck Maria dos Anjos Santos: Hamburgo Maria do Rosário Loures: Nuremberga Colunistas António Justo: Kassel Carlos Gonçalves: Lisboa Helena Ferro de Gouveia: Bona José Eduardo: Frankfurt / M Lagoa da Silva: Lisboa Marco Bertoloso:  Colónia Paulo Pisco: Lisboa Rui Paz: Dusseldórfia Teresa Soares: Nuremberga Tradução Barbara Böer-Alves

A União faz a força

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m 8 de Março assinala-se o Dia Mundial da Mulher. Os restantes 364, claro está, continuam a ser dos homens. Que um dia por ano um fazem um esforço juntando-se às manifestações, às celebrações e aos depoimentos, confiantes de que no dia 9 tudo volta ao normal. Muitos jornais cedem o espaço do editorial a uma mulher, como fez o director do Portugal Post na presente edição. Subentende-se que devo falar do tema, indignar-me com a persistência dos salários desiguais, a falta de representação política adequada, a ausência de mulheres nos conselhos de fiscalização e administração de empresas públicas e privadas, e por aí diante. Ou, lançando um olhar mais longe, protestar contra a discriminação criminosa das mulheres em certos países islâmicos ou do Terceiro Mundo, e reivindicar o respeito universal

pelos Direitos Humanos. É um discurso bonito que fica bem a tod(a)os. Em vez disso vou fazer aquilo que aconselho a todas as mulheres praticarem no dia-a-dia: agarrar qualquer oportunidade que os homens nos ofereçam, inadvertidamente ou não, para subverter as expectativas. Vou pois abusar deste espaço para alertar para uma questão que me preocupa: a deterioração das relações entre alemães e portugueses e entre o norte e o sul da Europa de uma forma geral. Não falo dos governantes. Esses entendem-se muito bem porque defendem os mesmos interesses: os próprios. Falo do fosso crescente entre os cidadãos, que se olham com cada vez mais rancor e incompreensão. E que permitem que políticos populistas ou inconscientes e jornalistas que não merecem o nome deitem achas nessa fogueira, que já no passado provocou incêndios que conduziram

a guerras. A União Europeia não recebeu o nome porque calhou não haver outro melhor sem direitos de autor. Chama-se assim porque se pretende que os europeus juntos façam frente aos problemas comuns: a união faz a força. Unidos, os europeus teriam melhores hipóteses de impedir que o ónus do saneamento das contas públicas recaísse exclusivamente sobre os contribuintes e trabalhadores em toda a Europa, em vez dos bancos e responsáveis políticos na origem da crise que agora atravessamos. Entende-se que esse é um cenário que interessa pouco aos governantes. Assim como interessa pouco aos homens que as mulheres finalmente se solidarizem de verdade, no trabalho e no espaço privado, única forma de impor uma verdadeira igualdade. Uma solidariedade que também tarda e que não acontecerá ainda neste 8 de Março.

Assuntos Sociais José Gomes Rodrigues

Fotógrafos: Fernando Soares Publicidade Alfredo Cardoso Agências: Lusa. DPA Impressão: Portugal Post Verlag Redacção, Assinaturas Publicidade Burgholzstr. 43 44145 Dortmund Tel.: (0231) 83 90 289 Fax: (0231) 83 90 351 www.portugalpost.de EMail: portugalpost@free.de www.facebook.com/portugal post Registo Legal: Portugal Post Verlag ISSN 0340-3718 PVS K 25853 Propriedade: Portugal Post Verlag Registo Comercial: HRA 13654

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Despedidas

PORTUGAL POST Nº 212 • Março 2012 MANUEL DA SILVA, VICE-CÔNSUL DE PORTUGAL EM OSNABRÜCK

Adeus e até sempre!

Chegou o dia de dizer adeus, de me despedir das portuguesas e dos portugueses residentes na área consular de Osnabrück. Digo “adeus” como titular do Vice-Consulado de Portugal em Osnabrück, mas não me despeço como defensor dos interesses de toda a Comunidade Portuguesa residente nesta área consular ou em qualquer outra. Nessa qualidade poderão contar comigo, hoje e no futuro! A todos que de alguma forma enriqueceram a minha vida, aos membros da FAPA, aos Conselheiros das Comunidades, ao Conselho Consultivo, aos responsáveis das Missões Católicas e dos Ran-

chos Folclóricos, aos membros das Comissões de Pais, aos representantes dos partidos políticos, aos dirigentes das associações portuguesas e aos milhares de portugueses que tive o privilégio de conhecer e de servir, agradeço o bom trato que sempre senti. Espero ter contribuído para o bem-estar desta Comunidade Portuguesa e faço votos que continuem a defender, com a mesma força e dedicação, aquilo que nos une e que para todos nós é tão importante: Portugal! Recordo com muito agrado e felicidade todos os projetos que conjuntamente realizámos, como por exemplo a estadia da seleção nacional e a visita de Sua Excelência o Presidente da República, mas também, e sobretudo, todos os eventos que vocês organizaram e em que tive o prazer de participar. Não escondo, e, muito menos me envergonho, de vos dizer que mesmo antes de partir já sinto saudades destes 23 mil portugueses, estes verdadeiros embaixadores que com o seu trabalho de voluntariado, dia após dia, durante mais de quatro décadas, representaram o nosso país. Vocês são, sem dúvida, um orgulho para Portugal! Não me posso despedir da Comunidade Portuguesa sem me dirigir também às três funcionárias deste Vice-Consulado. Foi graças à sua capacidade de trabalho, ao brio profissional e le-

aldade, que me foi possível, durante mais de 8 anos, defender os interesses de Portugal e da Comunidade Portuguesa. Sei que o dinamismo, a vontade de vencer, o patriotismo e a defesa dos interesses da Comunidade Portuguesa não serão afetados pelo encerramento do Vice-Consulado de Portugal em Osnabrück. Acredito que este virar de página venha contribuir para uma união ainda maior em defesa de causas nobres. Desejo que cada um de vós se aperceba que sendo mais unidos poderão melhorar o vosso bem-estar. Apelo a que fortaleçam estas vossas coletividades, dando-lhes um maior impulso e uma nova vida adaptada à nova realidade. Faço votos que a data de encerramento final do Vice-Consulado também fique marcada como o ponto de partida de uma comunidade ainda mais organizada, mais unida, com mais e melhores projetos comuns. Só vocês, cada um de vós, ditarão o vosso futuro! Acreditem no associativismo como um verdadeiro “projeto de gerações”, uma herança de sonhos, transmitido de geração em geração, onde cada um procura salvaguardar o que herdou, na perspetiva de o deixar melhorado aos seus filhos. Deixo-vos um grande abraço de gratidão e de solidariedade.

ABÍLIO RODRIGUES, VICE-CÔNSUL DE PORTUGAL EM FRANKFURT/M

“Até logo“

É muito difícil para mim escrever em poucas palavras um depoimento de despedida nesta ocasião de encerramento do nosso posto consular de Frankfurt. Os pensamentos jorram atabalhoadamente e atropelam-se uns aos outros. A inspiração parece ter sido atingida pela seca. Apesar disso, vou tentar alinhavar algumas ideias. Como descreveu um amigo na nossa página do facebook, para ele “este encerramento equivale a perder um amigo”. O Consulado não era apenas o local da administração pública onde os nossos concidadãos se dirigiam a tratar de assuntos ou de documentação. Era uma referência com que se identificaram, al-

EMBAIXADOR DE PORTUGAL EM BERLIM

Mensagem de despedida à Comunidade Portuguesa e Luso-descendente na Alemanha Ao terminar a minha missão na Alemanha quero prestar homenagem à Comunidade Portuguesa e Luso-descendente residente neste país que muito me impressionou, ao longo destes mais de cinco anos, pelo seu valor e pela forma digna como representa Portugal. A Comunidade Portuguesa e Luso-descendente – pela sua maneira de estar, pelo seu esforço, pelo seu labor e pela pujança dos seus sentimentos – contribui de forma exemplar e determinada para o desenvolvimento da Alemanha e, simultaneamente, para a projecção e bom nome de Portugal e para o reforço das nossas relações bilaterais. Foram sempre referências elogiosas as que, por toda a parte, ouvi às Autoridades alemãs, Federais e Estaduais, e que mais uma vez me apraz registar. Nesta ocasião, quero também deixar uma palavra de gratidão e reconhecimento pela maneira como os Portugueses e Luso-descendentes sempre me receberam nas deslocações que efectuei por todo o país, nos contactos directos que com eles estabeleci, nos encontros e visitas a Associações, Clubes, Escolas e Liceus e outras instituições onde tive a oportunidade e o gosto de conviver com os meus compatriotas e de partilhar interesses, preocupações e esperança num futuro melhor. Foi um privilégio e uma honra representar na Alemanha a Comunidade Portuguesa e Luso-descendente que tanto dignifica Portugal. A todos desejo as melhores felicidades, saúde e muitos êxitos pessoais e profissionais.

guns há mais de quarenta anos. A primeira palavra de gratidão vai para todos estes nossos compatriotas, razão de ser da existência deste posto consular. Na minha actividade no campo social desde Outubro de 1976, encontrei no meu percurso muita competência e empenho por parte de assistentes sociais da Caritas, das missões católicas, de professores do ensino da língua materna, de membros das associações portuguesas, de activistas sindicais, de muitos concidadãos nossos residentes nos sítios mais remotos desta área de jurisdição consular, todos empenhados em apoiar quem de ajuda ia necessitando. Tenho-os todos em boa memória, mas não me atrevo a nomeálos com receio de esquecer algum. Vivemos juntos uma experiência enriquecedora. Obrigado a todos pela colaboração. Uma palavra de agradecimento também para as nossas associações que durante estes anos têm tido um papel relevante na integração e apoio à nossa comunidade. Manifesto a todas elas a nossa gratidão pelo bom relacionamento institucional que sempre tiveram com este posto consular. Sinto que no meu trabalho fui caixa de contacto anónimo ou pessoal, fonte de aconselhamento e ajuda dentro das minhas possibilidades,

mas também de frustração quando não se encontravam soluções adequadas. Com colegas de trabalho, companheiro(a)s de percurso, vivi horas de muito empenhamento, de confraternização, de desencanto, de desabafo, de solidariedade, de luta, mas também de profunda tristeza quando há precisamente 25 anos partiu do nosso meio uma colega na flor da idade, a nossa querida Deolinda. Todos eles significam uma grande página neste meu percurso profissional. Para os que comigo se encontram nesta fase difícil, o meu reconhecimento pela dedicada colaboração nestes últimos anos em que exerci funções de titular do posto. Um abraço amigo de gratidão também para todos os membros do nosso Conselho Consultivo. Por decisão superior, continuarei a minha caminhada no CG em Estugarda. Outros colegas deste posto me acompanham. Estou convencido de que, juntos, nos empenharemos por continuar a prestar um bom serviço à comunidade. Às colegas que decidiram deixar-nos nesta fase do percurso, a minha gratidão pela amizade e por ter tido oportunidade de com elas ter convivido e trabalhado todos estes anos. Por último, uma palavra de conforto! Esta despedida afinal não é um adeus. Se quiserem, pode ser um „até logo“.

Berlim, 24 de Fevereiro de 2012. José Caetano da Costa Pereira Embaixador de Portugal

Foto de despedida. O Embaixador reuniu todo pessoal diplomático e funcionários da Embaixada numa foto de grupo para registar a sua despedida para a posteridade. Foto: Embaixada. PUB

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Nacional & Comunidades

PORTUGAL POST Nº 212 • Março 2012

Mulheres emigram cada vez mais mas Remessas continuam afastadas da liderança no Angola já é a terceira maior origem das remessas de emigrantes associativismo Apesar de estarem a emigrar cada vez mais, as mulheres permanecem “mais invisíveis” nas comunidades portuguesas no estrangeiro e afastadas da liderança das associações, destacaram vários intervenientes que participam num seminário. “Os homens têm maior visibilidade” nas comunidades emigrantes portuguesas e “as mulheres não estão nos órgãos de gestão das associações”, reconheceu o deputado Paulo Pisco (PS), eleito pelo Círculo Fora da Europa. Isto apesar de – apontou – as mulheres que emigram apostarem “mais [do que os homens] na formação e na valorização profissional”. Elas “são mais descomplexadas e cosmopolitas”, tendo deixado meios rurais e recomeçado “tudo em meios urbanos, onde se reinventam com mais autonomia”, o que veio “desestabilizar os papéis de género”, descreveu o deputado socialista. “Se a comunidade portuguesa não se assume, se se esconde, as

mulheres muito mais, apesar de terem sido sempre aquelas que tiveram mais estudos”, sublinha José Machado, ex-presidente do Conselho das Comunidades Portuguesas, órgão consultivo que liderou durante seis anos e que sempre lamentou ser “apenas composto por homens”, defendendo a “imposição de quotas”. Isabelle Oliveira, diretora da Faculdade de Línguas Estrangeiras Aplicadas da Universidade de Sorbonne, em Paris (França), distingue homens e mulheres pelo tempo de emigração – com eles a optarem por “formas mais temporárias” e elas a “tomarem decisões definitivas e radicarem-se”. “As mulheres conseguem uma melhor integração”, analisa a professora universitária, que nasceu em Barcelos “por acidente” e viveu toda a vida em França, tendo aprendido português apenas na faculdade e dirigindo hoje um departamento que conta com 200 alunos da língua de Camões, que a aprendem “aplicada aos negócios”.

Angola já a terceira principal origem das remessas de emigrantes portugueses, tendo sido a fonte de 147 milhões de euros em remessas em 2011, segundo dados divulgados esta semana pelo Banco de Portugal (BdP). Num ano em que as remessas totais dos emigrantes se mantiveram quase iguais às do ano anterior, o montante enviado pelos portugueses residentes em Angola cresceu quase 10 por cento. Nos números do BdP, as remessas dos portugueses em Angola estavam assim em 2011 já bastante acima das recebidas de destinos tradicionais da emigração portuguesa, como os Estados Unidos (130 milhões de euros), a Alemanha (113 milhões), o Luxemburgo (68 milhões) ou o Canadá (40 milhões). No entanto, as principais fontes de remessas de emigrantes continuam a ser a França e a Suíça. Estes dois países representaram mais de metade dos valores enviados para Portugal em 2011:

868 milhões de euros no caso da França, 681 milhões de euros no caso da Suíça. Os países da União Europeia continuam a representar um pouco mais de metade das remessas dos emigrantes portugueses, mas o valor das transferências intracomunitárias reduziu-se de 2010 (1413 milhões de euros) para 2011 (1354 milhões de euros). Principais países de origem das remessas dos emigrantes portugueses (2011) País Remessas (milhões de euros) França 868 Suiça 681 Angola 147 Estados Unidos 130 Alemanha 113 Reino Unido 105 Espanha 88 Luxemburgo 68 Canadá 40 Holanda 27 Fonte: Banco de Portugal

Observatório da Emigração criado em Deputados do PS contra 2008 desaparece e funções passam encerramento de seis postos para a direcção-geral

consulares

O Observatório da Emigração, criado em 2008 pelo Governo e pelo ISCTE, vai desaparecer e as suas funções passam para a Direcção-Geral dos Assuntos Consulares, em parceria com várias universidades, disse o secretário de Estado das Comunidades. „A Direção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas (DGACCP) sempre fez uma análise dos fluxos migratórios, independentemente de haver Observatório ou não. O Observatório vai manter-se, mas fundamentalmente nos serviços da direçãogeral, tal como foi feito no passado recente“, explicou José Cesário. O Observatório da Emigração foi criado em 2008, com base num protocolo entre a DGACCP e o Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa (ISCTEIUL). Em Janeiro de 2009 começou a produzir e disponibilizar informação sobre a evolução e as características da emigração e das comunidades portuguesas, contribuindo para a definição de políticas públicas neste domínio, pode ler-se no seu site. Agora, a observação das tendências da emigração será feita no âmbito da DGACCP, „com acordos pontuais com instituições universitárias“, disse José Cesário. „A exclusividade da parceria com o ISCTE acabará com cer-

teza“, afirmou o governante, referindo tratar-se de uma „alteração estratégica“: „É mais fidedigno um trabalho feito com várias instituições do que este modelo“. O secretário de Estado recordou que no passado o trabalho de observação foi feito pela DGACCP com especialistas da área e resultou „sempre em dados extremamente fidedignos“. Agora, o Governo pretende „retomar em parte essas colaborações e, por outro lado, encontrar parceiros nas instituições universitárias“. Essas instituições, considerou José Cesário, têm hoje uma maior atenção para a realidade migratória. „É um fenómeno recente. Tinham deixado de se debruçar sobre isso e agora retomaram esse interesse“, disse. O protocolo assinado em 2008 pelo então secretário de Estado das Comunidades, António Braga, e pelo presidente do ISCTE, Luís Reto, previa que o Observatório da Emigração tivesse um custo anual de cerca de 75 mil euros. No Conselho Científico, o observatório tem elementos do ISCTE, do Instituto Superior de Economia e Gestão, da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e da Universidade Aberta e tem ainda uma equipa técnica composta por sociólogos, antropólogos e economistas do ISCTE.

Deputados socialistas apresentaram um projecto de resolução que recomenda ao Governo o não encerramento de seis postos consulares na Europa. No projecto de resolução, datado de 13 de Fevereiro e divulgado hoje, os deputados Maria de Belém Roseira, Alberto Martins, Paulo Pisco, Ferro Rodrigues, Basílio Horta e Gabriela Canavilhas sugerem, simultaneamente, que o executivo “proceda a uma avaliação das necessidades em meios humanos e técnicos dos postos em causa” - Nantes, Lille e ClermontFerrand, em França; Frankfurt e Osnabrück, na Alemanha; e Andorra. “Uma rede consular competente e funcional é fundamental para apoiar as comunidades de portugueses que estão espalhadas pelo mundo”, sustentam os socialistas. Sublinhando que “a importância das estruturas consulares vai muito para além da simples resolução das necessidades administrativas e burocráticas dos cidadãos”, os deputados destacam também o seu papel social, cultural e económico. Defendendo que “a rede consular portuguesa tem de ser considerada (…) um serviço de proximidade insubstituível”, os deputados do PS consideram que o encerramento daqueles seis pos-

tos consulares é “um enorme revés” para as comunidades portuguesas e “um flagrante desperdício do potencial de desenvolvimento da diplomacia económica nas regiões onde estão localizados”. Os postos consulares – sustentam – “são geradores de receitas importantes e constituem um serviço público indispensável e de grande simbolismo”, não havendo “nenhum argumento plausível” que justifique o seu encerramento. Os deputados do PS pedem, no projecto de resolução, que a Assembleia da República recomende ao Governo que “reconsidere a sua decisão de encerrar os postos consulares na Europa e suspenda esse processo”, “dote os postos consulares dos recursos humanos e técnicos necessários para o cumprimento da sua missão” e avalie as “potencialidades económicas das regiões onde existem postos consulares” para “melhor desenvolver a diplomacia económica.

FLASH Cristiano Ronaldo O internacional português Cristiano Ronaldo assumiu no Facebook o objetivo de vencer o Campeonato da Europa de futebol de 2012. "Estas são as cores que vamos defender no Campeonato da Europa. Com um único objetivo: conquistá-lo", refere o avançado do Real Madrid, na sua página oficial, em que partilha uma imagem dos novos equipamentos da seleção lusa. No domingo, o selecionador português, Paulo Bento, apontou "os quartos de final" do torneio como objetivo mínimo da equipa das "quinas" na competição, que vai ser disputada de 08 de junho a 01 de julho, na Polónia e na Ucrânia, admitindo que depois de atingido será reformulado. No Euro2012, Portugal vai disputar o acesso aos quartos de final no Grupo B, juntamente com Alemanha (09 de junho), Dinamarca (13 de junho) e Holanda (17 de junho). Catorze dos 22 convocados pelo selecionador Paulo Bento partiram hoje para Varsóvia, devendo os restantes oito juntar-se já na capital polaca, durante a tarde, para defrontar a a Polónia, no Estádio Nacional de Varsóvia, na quarta-feira, às 20:45 locais, num jogo que vai ser arbitrado pelo israelita Alon Yefet.


Nacional & Comunidades

PORTUGAL POST Nº 212 • Março 2012

PIEGUICES

E assim somos dez milhões de portugueses Joaquim Peito

O senhor primeiro-ministro, o Piegas Passos Coelho (PPS) segundo o JN, decidiu chamar aos portugueses “piegas!” Apelou aos portugueses para serem mais “exigentes”, “menos complacentes” de pararem de se “lamentar com as medidas” com os feriados, com o Carnaval e de serem menos “piegas”, porque só assim será possível ganhar credibilidade e criar condições para superar a crise em que se encontra atualmente o país. Inaugurado por Durão Barroso em 2002 com o discurso da “tanga”, os portugueses ouvem há dez anos a retórica da crise e os pedidos de sacrifícios consecutivos. A esperança de prosperidade prometida com a adesão ao euro tem sido esquecida, frustada pela onda de austeridade. O piegas PPS não esclarece a notícia qual será a pieguice que ele encontra nos portugueses a braços com uma crise que não conheciam há muitos anos, que estão diariamente a perder direitos que muito lhes custaram a adquirir, entregam aos bancos as casas que com tanto sacrifício tentaram comprar, engrossam as filas à porta dos centros de emprego, dos centros de caridade, têm taxas que lhes retiram parte de subsídios que lhes serviam para endireitar a vida, veem o seu ordenado e pensões não serem aumentados e até serem diminuídos, sentem o agravamento dos impostos, pagam mais pela educação, pela saúde e pelos transportes, e na generalidade ganham um ordenado miserável. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), no terceiro trimestre de 2011 existiam 720 mil desempregados e 2 milhões de pobres em Portugal. Segundo Eurostat, 25,3% dos portugueses vivem em situação de pobreza, a nona pior percentagem da Europa e certamente estes “piegas” não vão parar de aumentar. Um em cada três portugueses com menos de 25 anos está desempregado (30,8%). Os jovens têm sido um dos grupos mais prejudicados pela crise. 84% dos que estão à procura de trabalho não têm direito a subsídio. No total, a taxa de desemprego atingiu em dezembro o valor recorde de 13,6%, a quarta mais elevada da zona euro. As previsões da troika apontam para um crescimento do desemprego em 2013, para uma taxa média de 13,7%. O ordenado mínimo em Portugal está fixado nos 485 euros, ape-

sar de, para comparação internacional se considerar 565,83 euros, devido à inclusão do 13º e 14º mês. Compare aqui com os outros países europeus. No final de 2010, os trabalhadores portugueses por conta de outrem tinham um ordenado médio de 1118 euros por mês. Serão os portugueses piegas? O primeiro foi Afonso Henriques, tão piegas que resolveu fundar Portugal. O piegas “O Lavrador” D. Dinis, monarca excecional como governante, diplomata e homem de cultura. Mas há mais: D.João I, Nuno Álvares Pereira e os que se atreveram a vencer em Aljubarrota. Os navegadores piegas aventureiros que chegaram à Àfrica, à Índia ao Brasil. Há os conjurados piegas que em 1 de dezembro de 1640 restauraram a independência. E os piegas que desembarcaram no Mindelo para fazer a revolução liberal. Há ainda os piegas que em 5 de outubro de 1910 implantaram a República. E os piegas que resistiram à ditadura, os militares piegas que depois de aguentarem 14 anos de guerra em África decidiram fazer o 25 de Abril. O piegas Saramago, nobel da literatura. O piegas Ronaldo, génio da bola. Somos uns piegas. Os milhões de portugueses obrigados a emigrar por esse mundo fora e os que cá dentro estão desempregados ou em vias de perder o emprego. Somos uns piegas.Talvez os políticos sejam piegas, mas não os portugueses. O primeiro ministro está muito mal informado sobre o que sãos portugueses. Claro que, quem nunca passou

por tais assados, talvez ache que é uma pieguice os queixumes que se ouvem contra este estado de coisas, pois lá em casa ainda se está na fase de reduzir ao dispensável ou ao supérfluo, talvez que um dia, se chegar aos cortes nas coisas verdadeiramente importantes se recordem da pieguice que atacava os que já não podiam cortar mais. Há uns meses atrás, as mesmas figuras, muito antes de tão duros e violentos cortes clamavam por se estarem a pedir sacrifícios demais aos portugueses! Os portugueses têm demonstrado grande capacidade de sobrevivência e resistência e isso não se consegue com pieguices. Agora, chamam-lhes piegas! O Piegas Passos Coelho (PPC) devia ter cuidado com o que diz, não vão os piegas zangar-se. Óh Pedro, você está sendo “piegas”. Se achar “piegas” não use! O que são Piegas: Piegas significa um apelo excessivo à comoção. Por vezes, utiliza-se de forma depreciativa para designar alguém que dá muita importância a coisas insignificantes. O termo piegas é normalmente aplicado a uma pessoa extremamente sentimental e que se emociona com facilidade. Um indivíduo que passa a vida lamentando-se ou queixando-se de tudo o que acontece ao seu redor, é apontado como um piegas. Pieguice é a postura ou o ato praticado por alguém considerado piegas. Um livro, uma canção ou uma situação podem também ser considerados piegas quando têm o sentido melodramático. Num sentido religioso, é considerado como piegas o indivíduo que é muito devoto, sendo as suas ações caraterizadas como pieguice religiosa. Algumas vezes o termo piegas é utilizado para caraterizar uma pessoa romântica. Esta confusão pode ter origem na corrente do realismo literário, que criticava o romantismo pela sua artificialidade, centrado na imaginação e com ideais utópicos. O poeta romântico vê a realidade através do sentimento e da emoção. Um bom exemplo de alguém piegas é o personagem Tomás de Alencar do livro “Os Maias”, de Eça de Queirós. O personagem era psicologicamente caraterizado como antiquado ou artificial, simbolizando o romantismo piegas. Era um poeta do ultra-romantismo, um homem sem defeitos, com coração grande e generoso.

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Deputados do PSD sugerem “algumas alterações” à Lei da Nacionalidade A discussão ainda não tem data, mas caso o Governo venha a reavaliar a Lei da Nacionalidade, os deputados do PSD eleitos pelos círculos Europa e Fora da Europa já sugeriram “algumas alterações”. Carlos Gonçalves e Carlos Páscoa foram recebidos em audiência pelo secretário de Estado Adjunto do ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Feliciano Barreiras Duarte, a quem deixaram sugestões para “algumas alterações” à Lei da Nacionalidade, alterada pela última vez em 2006. Sem querer adiantar detalhes sobre as “alterações” propostas, Carlos Gonçalves disse apenas que se relacionam com as comunidades portuguesas, nomeadamente com “o direito

de os portugueses residentes no estrangeiro que não detenham nacionalidade portuguesa a virem a obter”. A Lei da Nacionalidade, “como qualquer lei, pode ter alterações”, realçou, acrescentando que entende „que, em relação às comunidades portuguesas, se pode ir um pouco mais longe“. O deputado acrescentou que apresentaram também “algumas sugestões” sobre a RTP Internacional a Feliciano Barreiras Duarte, mas de novo sem adiantar mais pormenores. “É o nosso canal”, referiu apenas, considerando que a RTP e a Lusa são “dois instrumentos fundamentais para a lusofonia e para a língua portuguesa no mundo”.

Três portugueses detidos por manterem trabalhadores em semi-escravidão A Guarda Civil espanhola prendeu três portugueses de uma mesma família, radicados há vários anos em Burgos, em Ribera del Duero, por manterem em regime de “semi-escravidão” cinquenta trabalhadores portugueses e do Magrebe. O sargento da Polícia Judiciária que liderou a operação, Carlos Lacalle, explicou que os detidos, de 45, 42, e 22 anos, residentes em San Martín de Rubiales, escolhiam as vítimas entre as classes mais humildes nos seus países de origem. Uma vez em Espanha, os portugueses retinham os documentos dos trabalhadores “para que não pudessem fugir ou denunciar a sua situação”, obrigavam-nos a trabalhar no campo em jornadas muito prolongadas e a viver em condições precárias, naquilo que o sargento Lacalle classificou de “celas”. A maioria dos trabalhos era realizada nas vinhas da área de Denominação de Origem da Ribeira do Douro, em explorações cujos donos contratavam os seus serviços através dos três acusados, mas que desconheciam a real situação dos trabalhadores. Na época alta da actividade chegava a haver até 20 trabalhadores nessa situação de “semi-escravidão”, mas na época baixa mantinham entre quatro e seis, entre homens e mulheres. Na operação também foram presos outros três portugueses, de 23, 34 e 55 anos, que supostamente foram “pressionados” pelos empregadores, agora detidos, a cometer furtos e pequenos roubos em outras propriedades. Segundo a investigação, os portugueses chegaram a realizar uma centena de roubos.

O tenente coronel da Guarda Civil em Burgos, Miguel Salom, explicou que, ainda que se trate de roubos de menos quantia, provocaram uma grande sensação de insegurança entre os agricultores da região, que haviam pedido maior vigilância e presença da Guarda Civil. Entre o material recuperado, estão 1.500 litros de gasóleo, sete andaimes, tubos isolantes, dois computadores portáteis, vinte relógios, 42 telemóveis e documentos pessoais e bancários, segundo a Guarda Civil espanhola. Também foram apreendidos um revólver e munição, uma caçadeira de calibre 12 milímetros, uma espingarda de calibre 4,5 milímetros, uma pistola e vinte e seis armas brancas. PUB


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Entrevista

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Luísa Coelho, uma mulher em permanente viagem

“Não é viver que me assusta, o que me assusta é pensar que não vivi” Luísa Coelho é uma mulher invulgar e multifacetada. Para além de leitora do Instituto Camões na Humboldt Universitaet (HU) e na Freie Universitaet de Berlim (FU) desde Outubro de 2010, é uma apaixonada pela literatura e língua portuguesas e escritora com onze livros publicados. Doutorada em Literatura Portuguesa pela Universidade de Utreque, Mestre em Teoria e Ciências Políticas pela Universidade Católica de Lisboa e licenciada em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a escritora é uma mulher internacional e global, com muita curiosidade por outras culturas e pessoas e diz sentir-se em casa em todo o mundo. Foi docente e leitora em várias universidades nos países em que viveu e conjuga magistralmente a sua actividade profissional e criativa com a sua vida privada como esposa, mãe e avó. Em Berlim, Luísa Coelho veio dinamizar a vida cultural lusa. As suas palestras, sobre os mais variados assuntos relacionados com o nosso país, têm suscitado muito interesse no público e registado um elevado número de participantes. E a escritora afirma que “Já poderia ter enchido um estádio de futebol! Porque de cada vez aparece gente diferente e as salas estão sempre cheias”. Em Berlim estreou mundialmente o filme Tabu, em parte filmado em Moçambique, trazendo à ribalta internacional o colonialismo português. Aliás, a Luísa deu recentemente uma palestra sobre o colonialismo português aqui em Berlim. O tema parece estar em voga! Como é que a Luísa viveu a sua infância colonial? E como foi deixar Angola e ir viver para Portugal? Como é que isso influenciou a sua vida?

poder alimentar o sonho. A minha poesia fala do que encontrei.

Nascer em Angola naquela época foi um privilégio. Às vezes até parecemos muitos, os que ali nascemos, mas afinal somos tão poucos! Foi uma infância que não se consegue descrever porque se fala de um espaço contemporâneo que se evaporou sem deixar rasto e de que não se consegue provar a existência. Ou falamos sozinhos, ou falamos apenas de cheiros e cores, de sons e sabores. De loucuras. É impossível explicar, a quem lá não viveu, uma infância feliz num país em guerra colonial. A literatura bem tenta, mas ainda não inventou as palavras para o dizer. A minha família vivia, por motivos profissionais do meu pai, intermitentemente, entre Portugal e Angola. Gostava das diferenças que encontrava e aproveitavaas bem. Portugal era o frio de inverno e o rigor de uma sociedade fechada, conservadora e classista, onde os meninos não aprendiam na mesma escola que as meninas. Mas também era a loja das bonecas dos Restauradores, o pai Natal do Chiado, os lanches do café Nicola com o meu avô e a casa no Alentejo. Angola era o tempo quente todo o ano, o dia de Natal na praia, os calções e os pés descalços, uma imensa liberdade mas, ao mesmo tempo, a distância forçada da família ausente que as histórias da minha mãe tornavam presente. Sair de Angola não foi difícil. Não sabia ainda que não voltaria. O que foi difícil foi um dia, finalmente, poder regressar e por isso deixar de

A escrita, de ficção ou não, é para mim sempre um ato de reflexão. Escrever é perguntar mais do que responder. Escrevo mais para mim do que para o possível leitor. Nunca sei se o que estou a escrever será publicado, mas escrevo na mesma e com a mesma obstinação. Quando saí de Portugal para ir trabalhar para a Holanda encontrei a Europa. Portugal, embora na Europa, era um outro lado de um mesmo caminho. O primeiro livro que escrevi e publiquei, data desse encontro, e fala sobre diferenças. Foi uma época em que terminada a formação académica e profissional geral era necessário começar a desenhar o caminho de um trabalho útil, agradável e aventureiro. Sempre pensei que ele seria em África e eis-me chegada ao norte da Europa. É aí que as coisas comuns, do dia a dia, começam a fazer-me refletir sobre questões de pertença, sobre assuntos mais profundos, sobre identidade. Em Angola, as castanhas e as cerejas chegavam embrulhadas em papel de celofane e eram um bem precioso, na Holanda, elas caíam das árvores e derramavam-se pelo chão, oferecidas a quem as quisesse apanhar. As mangas, pelo contrário, que em Angola se apanhavam no chão das ruas, surgiam nas lojas holandesas embrulhadas num belo papel transparente de presente. O meu primeiro livro “O canto de amor das baleias” é um livro muito biográfico, no sentido em que parto do que vivo para contar

Para além de, Leitora do Instituto Camões, Luísa é escritora e tem onze livros publicados, bastante diversos entre si. Publicou mesmo um livro erótico. Quer falar-nos da sua escrita? Quando começou a escrever, porquê, e quando passou da escrita pessoal para o primeiro projecto de livro?

Luísa Coelho estórias e fazer perguntas, como todos os outros o vão ser, também, aliás. Foi publicado em 1994 e não foi difícil arranjar editor. Acho que foi aceite pelo primeiro editor que consultei. Penso que não é, ou pelo menos não era, muito difícil publicar. O que é difícil é encontrar uma editora que acredite na obra e que esteja disposta a fazê-la chegar junto dos leitores, o que não é a mesma coisa. Em Portugal o livro é publicado, vende-se no lançamento e depois evapora-se, nunca mais ninguém o vê. É um produto muito efémero, dura apenas algumas horas. Como é que os lugares em que tem vivido influenciaram e influenciam a sua escrita? A minha escrita é sempre um reflexo da minha vida. Escrevo de acordo com o que observo, leio e vivo no momento. Como mudo bastante de cidade, país e continente, forçosa-

mente a minha escrita espelha essa mudança e a influência que ela tem no meu olhar. Mantém, no entanto, o traço constante da minha presença no texto. Por exemplo, quando em 2006 cheguei a Angola, escrevi o meu primeiro livro infantil. Ao ver nas ruas da cidade de Luanda porquinhos que se passeavam em grupo, atravessavam a rua e remexiam no lixo, lembrei-me de um porquinho chamado Fortalhaças que tínhamos tido, eu e as minhas irmãs, quando éramos crianças. Escrevi, nessa altura, uma estória de que ele é o herói. Tem organizado palestras sobre assuntos diversos e interessantes ligados à cultura portuguesa em Berlim. De onde lhe vem esta energia produtiva muito para além do empenho que lhe exige o leitorado do Instituto Camões? Repare que eu “trabalho” exatamente naquilo de que gosto: ler, escrever, dialogar, ensinar a língua a

literatura e a cultura portuguesa e aprender com quem ensino. Não há, na minha vida, diferença entre o trabalho e o lazer. Então, o que para as outras pessoas pode parecer um extra é apenas uma continuação de uma atuação que me preenche. De uma forma de vida. Gosto de dar as aulas e continuar as conversas com os alunos no café, na biblioteca, na cantina. Gosto de trocar ideias com pessoas interessadas na cultura portuguesa, de aprender tudo quanto puder sobre Berlim e a Alemanha e para isso é preciso encontrar os outros, estar recetivo e viver no presente. Quer falar-nos sobre os eventos que organizou e que planeia organizar ainda este ano? As atividades extracurriculares do ano letivo de 2011/2012 começaram com a divulgação da Língua Por(Contunua na página seguinte)


Entrevista

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Luísa Coelho, uma mulher em permanente viagem tuguesa na Expolingua que teve lugar na Russischeshaus no mês de Outubro. Nesse mês recebi também na Embaixada de Portugal e na Humboldt um Professor da Universidade de Braga que veio falar sobre o Novo Acordo Ortográfico. No dia 11 de Novembro iniciei um ciclo de apresentações sobre temas de interesse cultural português, dirigidas no sentido da diplomacia económica que têm tido lugar numa sala gentilmente cedida pelo Hotel Pestana, falando sobre o “Vinho e as Palavras”. No mês de janeiro, apresentei o segundo tema “A cortiça”. No início de fevereiro, festejámos o dia da Língua Portuguesa na Humboldt com a presença do intérprete/tradutor Fernando Almeida que nos falou sobre “A importância da Língua Portuguesa nas organizações internacionais” e onde eu falei sobre “Império, Colonialismo e Pós-colonialismo” e no dia 1 fevereiro também dialogámos nós as duas sobre o seu livro “Um ano em Telavive” na Livraria de Língua Portuguesa aqui em Berlim. Paralelamente, criei, com um grupo de amigos e conhecidos, um Club do Livro em Língua Portuguesa que pretende reunir e cruzar diferentes olhares sobre um mesmo tema. Tenho vários projetos para este ano, ainda. No fim do mês de abril haverá uma nova palestra no Hotel Pestana, desta vez, dedicada ao “Azulejo”, seu imaginário, sua origem e suas utilizações, como objeto

estético ou também estético/funcional. No mês de maio, teremos na sala da Biblioteca da Embaixada de Portugal a presença do músico e compositor Américo Lopes Vasques que nos virá falar sobre a criação de uma obra de arte musical a partir de um texto literário. Em junho, haverá o Dia da Língua Portuguesa na FU onde poderemos ver uma exposição sobre Fernão Mendes Pinto que será servida com algumas palestras sobre o tema da literatura de viagens em Língua Portuguesa e onde contamos ter a presença do escritor Gonçalo Cadilhe. A 12 de junho, nas instalações da Comissão da União Europeia em Berlim, teremos um encontro com o escritor Gonçalo M. Tavares que nos vem falar da sua obra em geral e da sua mais recente tradução para alemão. Se o dinheiro chegar, teremos também entre nós o jovem escritor angolano Ondjaki. Entretanto, e para terminar o período letivo de 2011/2012, haverá uma outra Palestra no Hotel Pestana sobre “O Azeite também ilumina a noite”, nas primeiras semanas de julho, e que fechará este ciclo. Seguirse-á um ciclo dedicado à Literatura em Língua Portuguesa, no próximo ano letivo. Para alguns internacionais “home is my family”, ou seja, o meu lar é onde está a minha família. Porém, a Luísa vive entre cidades: aquela onde trabalha, a

outra onde vive o seu marido, e ainda aquela onde vive o seu filho e o neto. Como é viver entre três cidades? Sente que pertence a algum sítio em especial? Ou tem um pedaço de si em todo o lado por onde passa? Se me pergunta onde é que escondo fotos, cartas, livros, gravuras,

Em Angola, as castanhas e as cerejas chegavam embrulhadas em papel de celofane e eram um bem precioso, na Holanda, elas caíam das árvores e derramavam-se pelo chão, oferecidas a quem as quisesse apanhar. As mangas, pelo contrário, que em Angola se apanhavam no chão das ruas, surgiam nas lojas holandesas embrulhadas num belo papel transparente de presente.

casacos de invernos passados, guardanapos de linho bordados, chávenas da avó, o colar da mãe? Eu digo-lhe que é em Bruxelas, na minha casa da floresta e que o João, o meu marido, é o guardião dos meus tesouros. Mas, de uma maneira geral, sinto-me bem em todo o lado. Saber que posso voltar de onde parti e que me esperam, éme fundamental. Ouvir uma voz pelo telefone ou receber uma mensagem escrita aquece-me o coração. Procuro, nos lugares onde estou, tirar partido do que me é agradável e único naquele espaço e, apesar de prestar muita atenção ao que me desagrada, não deixar que isso amargue a minha existência. Julgo que a minha pertença a um lugar que já não existe, a África da minha infância, influência esta minha maneira neo-nómada urbana de estar no mundo. Não procuro nenhum lugar em especial, há muito que sei que ele já não existe, quero viver a vida como uma aventura, dando importância aos pequenos pormenores que me motivam. Tenho uma imensa curiosidade por tudo e gosto de investigar o possível porquê e as relações que se tecem entre as coisas. A rotina agonia-me. Gosto de fazer conjeturas, comparar situações, inventar possibilidades e vidas novas. Entrar a fundo no que me parece importante naquele momento e terminar sempre o que começo. Depois, começar de novo. Uma e outra vez. Sem descanso. Não é viver que me assusta,

o que me assusta é pensar que não vivi. Quais são os seus projectos de vida e de trabalho, literários e pessoais, e onde quer viver quando andar de bengalinha? Vivemos numa época em que tudo é muito vulnerável e frágil. É sensato não fazer muitos projetos. Mas quero continuar a ensinar e a escrever (o que não quer forçosamente dizer publicar). Cada vez me interessa mais escrever para um público jovem e quero escrever uma peça de teatro para os meus alunos representarem. Daqui por uns anos, após a reforma obrigatória do serviço público, gostava de poder viver metade do ano num hotel, cada meio ano numa cidade diferente: Florença, Tóquio, Goa ... Durante esse meio tempo não ter de me preocupar com os afazeres de uma casa e poder beneficiar de um “nãolugar”, de um espaço onde diferentes pessoas se cruzam todos os dias sem se chegarem a conhecer e imaginar as vidas que viveriam se parassem para se olhar. No fundo, o meu grande projeto é continuar a sonhar a vida que vivo. Entrevista conduzida por Cristina Dangerfield-Vogt (respostas escritas ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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EMPREGO

CONSULADOS

Schwäbisch Hall recebe avalanche de pedidos de emprego de portugueses

Conselheiro mostra desagrado por falta de informações sobre presenças consulares na Alemanha

O jornal Diário Económico publicou numa das suas edição de meados de Fevereiro uma reportagem de uma sua jornalista enviada a Schwäbisch Hall a convite das autoridades locais, convite esse estendido também a jornais da Espanha, Grécia e Itália.

Um conselheiro das comunidades portuguesas na Alemanha, Alfredo Cardoso, manifestou desagrado pela falta de informação do Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre os locais e horários das futuras presenças consulares e pelo encerramento dos vice-consulados de Osnabrück e Frankfurt. “Até agora nada. Nada foi publicado (sobre as presenças consulares)“, disse o conselheiro das Comunidades Portuguesas (CCP) da área de Osnabrück. As permanências/presenças consulares consistem no deslocamento de funcionários do MNE a áreas que não possuem um consulado próximo, com o objectivo de atender a comunidade portuguesa. “No passado dia 24 de Janeiro, o Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, informou os cidadãos nacionais de que os horários e as localizações das permanências consulares iriam ser disponibilizados pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros na Internet”, disse o conselheiro. (ver edição do PP de Fevereiro) O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, anunciou em 16 de Novembro, o encerramento de sete embaixadas e cinco postos consulares em França (Nantes, Clermont-Ferrand, Lille) e na Alemanha (Frankfurt e Osnabruck). Segundo Alfredo Cardoso, as permanências consulares implicarão “uma série de custos acrescidos para o Estado português, tais como o equipamento e a deslocação dos funcionários, algumas de longa distância”. “Também o cidadão que recorre às permanências irá ter um acréscimo de custos já anunciado, que parecem ser camuflados pelo comodismo da proximidade geográfica da sua residência”, referiu o conselheiro. Para Alfredo Cardoso, “há provas de que (os vice-consulados) não estavam a dar despesas ao Estado português e,

O convite tinha como objectivo apelar aos portugueses, gregos, espanhóis e italianos desempregados para virem trabalhar e viver para aquela cidade/região carente de mãode-obra especializada, isto é, licenciados em determinadas áreas que não encontram trabalho no seu país de origem. Após a publicação da reportagem num suplemento do Diário Económico, o jornal noticiava o envio de “mais de cinco mil candidaturas, em apenas três dias”. Adiantava ainda o diário que “os portugueses responderam em massa ao convite da cidade alemã de Schwäbisch Hall para concorrerem às cerca de 2.700 vagas disponíveis na cidade”. Também nas redes sociais muitos licenciados em situação precária solicitavam informações sobre alguns questões relativas à cidade e à Alemanha, querendo saber coisas práticas como facilidade em encontrar casa, custo de vida, etc.. Quem não teve mãos a medir foi a Agência de Emprego de Schwäbisch Hall que se

Aspecto do centro histórico de Schwäbisch Hall

viu inundada de respostas. Segundo o Diário Económico, “a resposta foi de tal forma massiva que a caixa de correio electrónico deste organismo bloqueou”. O jornal divulgou ainda que o email da Câmara Muncipal “recebeu mais de 100 candidaturas. A cidade ficou surpreendida com o elevado número de respostas. Engenheiros, arquitectos, médicos, advogados e um sem número de profissionais portugueses estão a candidatar-se a estes lugares“. A notícia do Diário Económico dava conta que “o salário médio na cidade é de 2.700 euros brutos e um engenheiro pode ganhar cerca de 3.500 euros em início da carreira. Já

um electricista tem um rendimento bruto de 2.500 euros. O instituto de emprego avisa que a carga fiscal média no país é de cerca de um terço do rendimento auferido”. „Segundo a agência federal de emprego, o salário médio na Alemanha é de 3.500 euros brutos. Nesta cidade, a taxa de desemprego jovem é de 2%, 15 vezes menor que o valor registado em Portugal. Na Alemanha, há mais de 400 mil empregos à espera de candidatos. Os engenheiros estão no topo da lista das profissões mais procuradas, mas há um sem número de sectores a precisar de quadros qualificados.”, acrescentava o Diário Económico. PUB

Alfredo Cardoso

pelo contrário, foram encerrados esses organismos para criar outros que vão dar mais despesas”. Segundo dados oficiais, que o deputado Paulo Pisco divulgou a partir de uma resposta do Governo a uma pergunta do parlamentar, os vice-consulados de Osnabruck e Frankfurt, registaram em 2010 despesas de 251 mil e 455 mil euros, respectivamente. Por seu lado, os consulados de Estugarda e Hamburgo – que, juntamente com o de Dusseldorf e a secção consular de Berna, na Suíça, continuarão a servir os mais de 100 mil portugueses na Alemanha - apresentaram despesas de 549 mil e 683 mil euros. Na resposta que o MNE deu ao deputado Paulo Pisco, o posto de Osnabruck registou 46 mil euros de receita em 2010, enquanto Frankfurt apresentou 62 mil euros. Os consulados de Estugarda e Hamburgo apresentaram, em 2010, 76 mil e 56 mil euros de receita, respectivamente. O secretário de Estado das Comunidades, José Cesário, esteve reunido, em Dusseldorf, no final de Janeiro, com conselheiros do CCP. Alfredo Cardoso disse que José Cesário pediu “sugestões” sobre as questões consulares aos conselheiros durante a reunião. “Se realmente necessitava de sugestões dos conselheiros das comunidades na Alemanha, deveria ter perguntado antes de dar a ordem de encerramento dos consulados“, finalizou o conselheiro.


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10 DE JUNHO EM DÜSSELDORF

SINGEN

Não há festa para ninguém! › Vontade não ultrapassa barreiras A grande força de vontade de um punhado de portugueses não conseguiu ultrapassar as dificuldades e obstáculos para levar a cabo as comemorações do Dia de Portugal 2012 em Düsseldorf. Há uns meses atrás a convite da Cônsul-Geral, a Dra. Maria Manuel Durão, encontrou-se no Consulado um grupo de pessoas dirigentes de associações, ranchos folclóricos e outros para estudar formas de organização dos festejos do 10 de Junho. Na segunda reunião formou-se uma Comissão de Festas e grupos de trabalho e decidiu-se que o lugar dos festejos seria na Apolloplatz. Com o decorrer do tempo e após várias reuniões, começou a constatar-se a dificuldade que alguns elementos tinham em deslocarem-se a Dusseldorf para participara nas reuniões. Para além da distância, as reuniões eram muitas das vezes durante a semana e terminavam por volta da meia noite e uma hora da manhã. A força de vontade deste grupo começou a declinar ao perceber que isto seria um evento de grande envergadura, em que só nas coisas mais necessárias como o palco, tendas, água, luz, sanitários, licenças, seguranças, Cruz Vermelha, etc., orçava em cerca de trinta mil euros. Tudo isto sem artistas vindos de Portugal e outras despesas. Haviam sete pessoas que se dispuseram a emprestar

metade do montante desde que a festa apurasse receitas e lucros superiores aos 30.000 € inicialmente orçados. Como há sempre uma ou outra pessoa que se aprofunda mais na matéria ou tem mais experiência, chegou-se à conclusão que por cima de tudo isto teria que haver uma entidade responsável. Como o consulado não o podia ser, as associações não queriam arcar sozinhas com a responsabilidade. Foi neste entrementes que se decidiu formar uma Associação, com sede em Düsseldorf, para assumir a responsabilidade completa da organização. Os estatutos desta futura Associação foram lavrados e depois de revistos, chegou-se à conclusão que o melhor seria consultar um advogado e um gestor para que mais tarde não houvesse contratempos ou surpresas desagradáveis. Todos os membros da Comissão opinavam de forma diferente. Alguns deles pensavam que seria o consulado a tomar a responsabilidade (o que, em princípio, só seria possível por despacho do MNE, sendo que devido à situação em que o país se encontra, uma decisão só seria tomada aí para o 10 de Junho

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de 2050, isto tendo em conta antecedentes nada positivos). . Mais tarde, verificou-se que o consulado nem advogado próprio tem, havendo que recorrer como qualquer um de nós em caso de necessidade a um advogado qualquer. Além destes pequenos ou grandes contratempos, há a sublinhar que no dia nove de Junho há o jogo de futebol entre as selecções da Portugal e da Alemanha, o que gerou na maioria dos elementos o pressentimento de que a uma boa parte das associações não compareceria com o pessoal estipulado e estimado em cerca de 10 pessoas para a logística do evento. Colocar um ecrã no recinto da festa não era autorizado, e caso o fosse iria trazer mais despesas e dificuldades, porque se teria de requisitar um número muito maior de seguranças. Conclusão: com todas estas dificuldades e derivado já estarmos só a quatro meses da comemoração, decidiu-se não organizar a festa este ano e começar com tempo a pensar na comemoração do 10 de Junho de 2013. Convicção unânime foi a de que o tempo não foi perdido. Além de ficaremos mais ricos com mais uma experiência formou-se mais uma ou outra amizade. António Horta Correspondente

VPU

Bolsa de emprego Online A Federação dos Empresários Portugueses na Alemanha - VPU activou, nos inícios do corrente mês de janeiro, uma Bolsa de Emprego online. Este serviço está disponível no site da VPU em língua portuguesa e em alemão e destinase a divulgar a procura e a oferta de trabalho, com interligação entre Portugal e a Alemanha ou com componente bilingue. Este instrumento, estando disponível tanto para a procura como para a oferta de emprego, prestação de serviços e/ou estágios, pode ser utilizado por empresas e particulares em Portugal, na Alemanha ou internacionalmente. Os utilizadores poderão registarse diretamente em português e/ou em alemão, sendo que a inscrição será em seguida ativada, quando confirmada pela VPU. Convidamos todos os portugueses e todos aqueles que pretendam divulgar ofertas ou procura de emprego, a registar-se nesta bolsa e a fazer dela um instrumento vivo de divulgação. Visite o Site da VPU: www.vpu.org

A Casa de Portugal virou café de albaneses

Na década de 80 do século passado, um grupo encabeçado pelo Padre Manuel Janeiro, padre português para os portugueses da comunidade de Singen, incentivou um grupo por si selecionados a costruir algo diferente, uma obra faraônica, num prédio alugado, mesmo em frente à Séde do Centro Português de Singen. Loja min mercado com garrafeira e um Restaurante a que deram o nome CASA PORTUGAL. A localização da CASA PORTUGAL, provocou uma crispação fora do normal na comunidade, coisa incontornável. Muitos atores lançaram “BICADAS”uns contra a outros, a que se chegou a cortar relações entre A & B que ainda existem. Se não houver honestidade e caráter, de cima para baixo nem a sepultura as apaga, disse

Caro/a Leitor/a: Se é assinante, avise-nos se mudou ou vai mudar de residência

alguém!.... Logo nos primeiros tempos, ouve desentendimentos internos no grupo, alguns sócios mais estudados desejavam saír da organização e reaver o capital investido, Para o adquirirem o padre teve que ir a tribunal e sentares no banco dos réus. O juíz obrigou a devolver o capital. Melhores tempos se tempos se esperavam, o desgate físico de quem trabalhva começa a notar-se e a obra começa a decrecer, A loja encerra, o Retaurante aluga-se a portugueses e por último como já ninguém da comunidade estava interessado um Albanês toma conta da casa e substitui o nome de Casa Portugal por Grill Haus Adria. João Ferreira Conrespondente em Singen


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REPORTAGEM

Trio Fado: Bastidores e Concerto na Passionskirche fi A Passionskirche

Rossio e nota-se que ainda se sente alguma coisa por ela” – diz brejeiro. Um público que conhecia bem os músicos que há muito anos lhe arrebataram os corações. O Trio Fado cantou fado vadio, fado malandro, fado triste, fado moderno e até fado optimista – todo um repertório fadista com algum jazz caracterizado por improvisação instrumental “trialogante”! Foi um concerto muito típico de uma Berlim desconhecida daqueles que vieram para a cidade nos últimos anos. Uma Berlim que era uma ilha no meio da República Democrática Alemã, uma cidade em que todos se conheciam, ou quase todos. Era uma Berlim um pouco mais íntima, menos “cool” e “gemütlich”! A Queda do Muro abriu a cidade ao mundo e fê-la perder um certo carácter insular que todavia perdura na memória daqueles que por escolha aqui viviam.

O concerto do Trio Fado estava marcado naquele dia para as 8h da noite na Passionskirche, uma igreja evangélica construída no princípio do sec. XX, no estilo neo-românico, situada no bairro berlinense de Kreuzberg. Durante os tempos de ocupação de casas naquele bairro, a diocese procurou criar um espaço de concertação social e multicultural que pudesse contribuir para uma vivência pacífica entre os seus cidadãos. Foi um projecto de sucesso que culminou em a igreja não só continuar a sua função original como passar a ser também um espaço polivalente com eventos culturais. fi Antes do Concerto Quando entrei naquela luminosidade sacra, os músicos já estavam no palco e acertavam a música e os seus compassos, enquanto Maria de Carvalho dava os passos de uma modinha brincalhona e levantava os braços clicando castanholas imaginárias, sorrindo, enquanto António de Brito lhe respondia numa voz profunda e uns acordes de viola. O Benjamin Waldbrodt debruçado sobre o violoncelo dedilhava uns tons de jazz ao nosso cantar português. Faltava o Daniel. “Anda cá conhecer o Ivo Guedes que toca hoje a guitarra portuguesa” acenou-me Maria. “O Daniel decidiu fazer uma pausa durante uns tempos.” O técnico da mesa de som regulava o volume dos instrumentos com a voz de Maria para não se sufocarem mutuamente sem se perder naquele labirinto de botões. Um técnico colocava mais fita adesiva no labirinto de cabos que atravessavam o palco. No pequeno bar à entrada, ouvia-se um tilintar de copos que se juntava às vozes e aos instrumentos do grupo. fi O Camarim na Sacristia Acertados os últimos pormenores do palco, os artistas saíram por uma pequena porta, que dá acesso à sacristia, transformada em camarim provisório. Um Nosso Senhor de pedra, com os dedos quebrados e um braço partido, presidia aos preparativos profanos. Ainda estávamos a uma hora do espectáculo e cada um dos artistas parecia ter um modo muito pessoal de viver aquele tempo antes do espectáculo. O Ivo passou a ferro a roupa preta que iria vestir e depois resolveu ir “arejar um bocado”. O An-

fi Do Fado à Fé e da Fé ao Fado

tónio organizava os CDs produzidos pelo Trio Fado, “com que voz” e “portolisboa”, e perguntava onde estavam “os trocos” – todos se tinham esquecido desse pormenor. Benjamin sentava-se sereno, elegantemente vestido de preto, empinava o violoncelo, e dedilhava uns acordes. Ben é membro da Berliner Symphoniker, para além de participar em projectos musicais ligados ao Jazz. Maria voltejava em palmilhas de meias entre mil afazeres: desde coordenar a família pelo telemóvel a maquiar-se, passando pela difícil escolha entre o vestido vermelho de cetim ou o outro, o preto. Depois de muitas hesitações, decidiu-se pelo menos tradicional vermelho. Faltava ripar o cabelo enquanto cantarolava naquele exíguo WC. Bebeu um pouco de chá para clarear a voz. O António voltou e retirou a viola da caixa e com o Benjamin conferiram o programa do concerto, afinaram os instrumentos, verificaram as notas, fizeram umas emendas a lápis aqui e ali e Maria juntou-se-lhes com trémulos fadistas. “Não, essa nota está muito alta. Ouve bem!” António tocou um acorde, Maria cantarolou na nota certa e o Benjamin acompanhou sereno. “Onde está o Ivo? Já passou o fato?” Maria entreabriu a porta de acesso ao palco e espreitou. A sala já estava quase cheia embora faltassem uns

“Quando entrei naquela luminosidade sacra, os músicos já estavam no palco e acertavam a música e os seus compassos, enquanto Maria de Carvalho dava os passos de uma modinha brincalhona e levantava os braços clicando castanholas imaginárias, sorrindo, enquanto António de Brito lhe respondia numa voz profunda e uns acordes de viola.” quinze minutos para o início do concerto. Tocou o telemóvel. “A minha família não consegue entrar” – disse Maria. “Ainda não estou pronta, falta os sapatos e a écharpe! Vai lá buscá-los, Ben, não posso sair assim, bitte!” Entretanto, o Ivo reapareceu. “Oh, pá onde estiveste?” Num fechar de olhos, Ivo estava vestido de preto e de guitarra firmemente poisada na perna afinava as cordas absolutamente alheado da azáfama em seu redor. Uns acordes, um cantarolar, cinco minutos de absoluta concentração harmónica e o grupo estava pronto para pisar o palco. “Estás nervosa?” “Eu? Não!” – disse Maria levantando o rosto e atirando a écharpe num gesto de “vamos lá a isto”! O público, que esperava paciente, deveria andar entre os cinquenta e os sessenta anos. O produtor passeava de um lado

para o outro e controlava se estava tudo pronto para iniciar o espectáculo. fi Os Músicos sobem ao Palco Os músicos entraram no palco presidido por um Cristo de madeira pregado na cruz. Maria apareceu no fim da segunda música, avançando no seu vestido de cetim vermelho que lhe acentuava a figura esbelta e sensual e numa voz simultaneamente quente e frágil iniciou o trémulo do nosso fado. O Trio Fado cantou pela primeira vez o Ai Mouraria, o Mistério Lunar, a Saudade anda Comigo, o Santo Estêvão e o Antigamente. Mas também interpretaram fados modernos, alguns com arranjos e letras próprios. António Brito e Maria de Carvalho cantaram o fado “portolisboa” – da autoria do grupo: Maria cantou as estrofes portuenses e António as lisboetas. Ivo surpreendeu com guitarradas tradicionais bem conseguidas e Benjamin deu ao fado uns toques de Jazz. António Brito e Maria de Carvalho foram “os showmasters” animando o público, introduzindo alguns dos fados com garridice fadista e grande à vontade. Mas o que mais fez sorrir os presentes foi a apresentação boémia da Marcha da Recaída pelo António. “Encontra-se uma amiga antiga ali no

O concerto foi muito aplaudido, o público gostou e pediu “encore”. O fado numa igreja? E porque não? O fado sempre andou de mão dada com a religião, o pecado, o sentimento, a traição, a brejeirice e um humor malandro; a dignidade e a vibração interior da missa espelham-se no fado e vice-versa. Os fadistas sempre foram gente de fé. E o fado e a fé sempre andaram de braço dado. A própria igreja, que tentou banir o fado nos seus primórdios, reconheceu recentemente esta proximidade, entre o fado e a igreja, incorporando-o na liturgia. O fado, que no início era cantado nas tabernas e nas casas de passe, era sórdido e quezilento e vivia entre gentes pobres e de máfama. Os nobres levaram-no para os seus salões nos finais do sec. XIX. O fado é a catarses do povo luso e o salazarismo, ciente da sua utilidade, apropriou-se dele para os fins da ditadura. Mas o fado revolucionou-se e modernizou-se, libertou-se das amarras, saiu das casas de fado para as salas de concerto nacionais e internacionais. Permeável à múltipla interculturalidade musical da nossa história, o seu valor foi reconhecido pela sua classificação recente como património imaterial da humanidade. O Fado e os seus fadistas, os seus poetas e músicos têm sido, e continuam a ser, os embaixadores da nossa cultura no estrangeiro e, como tal, deveriam ser honrados por Portugal. Cristina Dangerfield


Comunidades

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CENTRO PORTUGUÊS DE MILTENBERG NA BAVIERA

Mulher aos comandos da associação Os portugueses estão espalhado por todo o mundo. Há mesmo quem fale em 5 milhões de compatriotas que, deixando Portugal, se aventuraram a outros desafios para ter uma vida que o país teima recusar aos seus. Não é, pois, de estranhar que se venham a encontrar portugueses na pequena cidade alemã de Miltemberg, situada na Bavária, com uma população de cerca de 10 mil habitantes. Cá estamos nós, em perfeita comunhão com os naturais, tentando ser alemão, mas nunca esquecendo a nossa origem. E para que isso aconteça, existe, desde 12 de Novembro de 1971 ,o Centro Português de Miltenberg. Vamos fazer uma visita guiada a esta colectividade pela mão da sua Presidente Fernanda Belfiore. Aqui, como em outros locais, as mulheres a darem a cara para não deixarem morrer as tradições, usos e costumes da sua terra natal. Sacrificando a sua vida profissional e pessoal, esta mulher, empresária e radicada na Alemanha há mais de trinta anos, aceitou este desafio de levar a colectividade ao lugar que merece e também , através do PORTUGAL POST, em dar a conhecer aquilo que se passa dentro destas paredes portuguesas,implantadas em solo alemão. Marcado o encontro para a visita às novas instalações, uma das regras dos portugueses não foi cumprida: chegámos ambos à hora combinada. Novo e amplo espaço,todo refeito com mão de obra dos sócios e de muitos amigos. A presidente, Fernanda Belfiore, não tinha palavras para elogiar todos aqueles que trasformaram um velho pavilhão,num moderno e acolhedor espaço de convívio. As palavras da presidente foram muito claras neste assunto e cito: -”Não vou referir nomes porque me posso esquecer de algum e não quero,magoar ninguém”. As perguntas quase não eram precisas, pois o diálogo, com um ou outro “pontapé” na língua portuguesa, saía fluído e carregado de convicções. Perguntámos o porquê desta mudança, já que o Centro tem cerca de 41 anos de porta aberta e de imediato foi explicado ao PORTUGAL POST, que, devido à necessidade da Caritas precisar do espaço onde estavam instalados, tinham que desocupar o mesmo. Foi uma travessia no deserto de cerca de 3 anos, até encontrarem este espaço cedido pela autarquia de Miltenberg por um período de 20 anos a uma renda

Fernanda Belfiore, presidente do Centro Português de Miltenberg. Foto: PP simbólica, ficando as obras necessárias de reabilitação a cargo do Centro. Fernanda Belfiore teceu uma palavra de apreço pela ajuda e empenho da autarquia, que para além desta cedência, comparticipou com um valor pecuniário para este projecto,completando assim,a verba que o estado Português, através do Consul de Stuttegard fez chegar ao Centro Português de Miltemberg. Estas ajudas, a somar a outras contribuições de empresas e particulares, deram um fortíssimo empurrão, para que este novo espaço se podesse tornar uma realidade,concretizando assim o sonho da direcção,sócios,famílias e amigos do Centro Português. Há que realçar também o contributo de algumas empresas, que nas palavras da presidente, merecem um destaque, pois foi graças a este conjunto de boas vontades e espírito de colaboração, que foi possível dar continuidade e forma a este projecto. A presidente, Fernanda Belfiore, pediu para não incluirmos nesta reportagem, nem os valores das compartipações pecuniárias, nem os nomes das empresas colaborantes. Contudo, esses valores e denominações dessas empresas, serão tornadas públicas na inauguração oficial, no mês de Maio, através de uma nota de agradecimento elaborada e divulgada pela direcção. Das velhas instalações situadas na Mainstrasse,19 para a Fahrweg 41 foi um salto de 3 anos. Nas palavras de Fernanda há também um merecido elogio para os outros membros da direcção, José Lopes ( Vice-presidente ), Rui Cerineu ( Tesoureiro ) e Elizabete

Paulo ( Secretária ), pois sem eles teria sido impossível levar as coisas até onde chegaram. “Estamos todos conscientes do enorme desafio que temos pela frente”,afirmou a presidente,muitas das actividades,praticamente irão ressurgir ,quase a partir do zero. Fernanda Belfiori lança daqui um apelo para que todos se empenhem em divulgar, conservar, estimar e valorizar este espaço que é de todos e para todos. Uma palavra especial para os mais novos para que criem mais laços ao centro e se preparem para serem os continuadores desta obra realizada por portugueses. Como referiu, na nossa conversa ,”a importancia de os portugueses estarem integrados e bem vistos pela sociedade alemã, ao ponto de haver muitas presenças de naturais.que nos visitam, que adoram a nossa comida, em particular a sardinha assada, e também a nossa música”. Esta óptima relação está dando bons frutos, pois, como dizia Fernanda com uma pontinha de orgulho, o Centro Português foi convidado a associar-se aos festejos dos 750 anos de Miltemberg como cidade. Este convite é extensivo a todos os portugueses e é ,também para todos , um orgulho. É o reconhecimento público da sua postura trabalhadora, ordeira e educada nesta comunidade. A pergunta habitual nestes casos tinha que surgir: quotas e sócios pagantes , quantos há e se há alguma ideia para esta situação? Antes da resposta , um sorriso apareceu estampado no rosto da presidente Fernanda, o que adi-

vinhava o melindre do assunto. ”São cerca de 80 sócios a pagar as suas quotas. O Centro tinha cento e tal, mas devido ao encerramento temporário e a esta paragem, alguns saíram e outros foram embora para Portugal. Temos que convocar uma assembleia-geral para podermos decidir o que fazer e como resolver esta situação, pois precisamos de receitas para podermos levar em frente este projecto.” O PP perguntou se tinha noção da quantidade de nacionais radicados em Miltenberg e a resposta foi inconclusiva: ”Não tenho ideia de quantos portugueses moram cá. Muitos foram embora e não tenho tido muito contacto com os mais novos”. O Centro só abre aos fins de semana e em alturas especiais. O dia 18 de Fevereiro foi a data escolhida para a reabertura aos sócios,estando a ser preparada a inauguração oficial para o mês de Maio. Esta terá como convidados o Cônsul de Portugal ,Burgermeister de Miltenberg, outras individualidades, os sócios, suas familias, amigos e a imprensa. Estão previstas algumas actividades e um lanche para a reabertura aos sócios. Futebol, rancho folclórico, dança e muitas outras actividades estão na manga desta direcção, presidida por uma mulher de mangas arregaçadas. Durante a conversa, animada, diga-se de passagem, o celular da presidente tocou...pediu licença e atendeu. Sem o PP perguntar nada, como mandam as regras da boa educação, a Dª Fernanda tomou a

iniciativa de explicar que era um português que pretendia ir de férias a Portugal e como já fazia muito tempo que não ia lá, veio pedir um conselho e uma ajuda. O nosso faro jornalistico reactivou-se num ápice e a pergunta tinha que surgir: Dª Fernanda!! ess não podia ser uma função do Centro Português de Miltemberg? Dar uma ajuda aos compatriotas que vão chegando de novo? Com esta abertura que a Alemanha está a dar para a entrada de portugueses no mercado de trabalho acha que faz sentido isso poder acontecer? A resposta foi pronta como todas as demais: “Eu pessoalmente tenho ajudado muitos portugueses que se me dirigem. Mais de 30 anos de Alemanha e empresária na área da restauração, fez com que as pessoas viessem ao meu encontro. Eu pessoalmente acho que podíamos ter um papel importante nessa área, não só para os que chegam de novo, como para aqueles que já cá estão. Acho que seria benéfico, mas primeiro temos que arranjar condições para o fazer”. Foi também feita a pergunta sobre o ensino do português no Centro. Fernanda Belfiori diz que no Centro não há professor, mas que vai um professor à escola alemã uma vez por semana. Para terminar, foi um prazer ter estado à conversa com a presidente do Centro Português de Miltemberg que nos deu toda a atenção para que o PORTUGAL POST possa cumprir com a sua função de informar ,estar sempre presente e perto da comunidade portuguesa da Alemanha, fazendo das suas colunas um eco das suas vozes e esperanças. Quermos também agradecer o convite que nos foi endereçado para estarmos presentes na sessão da inauguração oficial deste Centro. Não estando em Portugal é como se na realidade se estivesse, tal é a atmosfera que se respira neste novo espaço. Endereçamos aqui as maiores venturas no desempenho desta árdua tarefa. E para fechar com chave de ouro a DªFernanda convida todos os portugueses que venham visitar esta bonita cidade turistica,que quando o fizerem venham ao Centro Português de Miltenberg. Portugal e os portugueses presentes em todo o mundo,o PORTUGAL POST dá a notícia.

Fernando Roldão Correspondente


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Livro

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A saga dos sem voz - os africanos no Portugal pós-colonial Surgiu do nada o livro “Os Pretos de Pousaflores” da socióloga luso-angolana, Aida Gomes. Conquistou os leitores portugueses e mereceu críticas elogiosas à imprensa especializada. Mas quem é e porque escreve Aida Gomes? Cristina Krippahl O romance de estreia da autora até à data desconhecida foca um tema no mínimo pouco popular em Portugal: a experiência de racismo e marginalização de negros e mulatos, contada a partir da história de uma família mista obrigada a abandonar Angola após a descolonização. Em “Os Pretos de Pousaflores”, Aida Gomes propõe-se a desconstruir as narrativas tradicionais sobre o fenómeno dos “retornados”. Sobretudo o discurso oficial, que aponta os portugueses das ex-colónias africanas como motor de inovação e progresso da sociedade portuguesa. Segundo a escritora, esta narrativa aplica-se apenas a um grupo muito restrito, pertencente à classe média de elevada formação. Uma elite bem sucedida em Portugal, decerto, mas também no Brasil, África do Sul ou Austrália, ou para onde quer que emigrasse, porque tinha condições para o ser. Outros, aos quais Aida Gomes é uma das primeiras a dar voz, tiveram uma experiência diferente: ”Há um grupo de retornados que nunca chegou a ser parte da narrativa

oficial”. São as famílias negras ou mulatas, remetidas para as margens da sociedade, refugiadas nos bairros degradados dos centros urbanos, “sem nunca serem considerados portugueses, claro, por causa da cor da pele”. Aida Gomes sentiu a diferença no tratamento na própria pele. Filha de uma africana, em 1975, apenas com oito anos, foi, sem mãe e com o pai branco, para uma pequena aldeia portuguesa. A literatura salvou-a da mentalidade provinciana e da estreiteza reinantes. Aos doze anos, os livros já lhe davam a certeza consoladora que o mundo era muito mais vasto do que a sua aldeia perdida no interior. E muito cedo surgiu a vontade de escrever. O que não significa que o romance seja uma autobiografia: “Eu quis explorar o que aconteceu entre Angola e Portugal e abordar assuntos que têm a ver com os vários momentos do colonialismo, como a descolonização, a guerra em Angola, o racismo, e também o desenraizamento” São experiências pelas quais passam os protagonistas dos “Pretos de

Aida Gomes Pousaflores”: um pai branco, levando pela mão três filhos mulatos de três mães negras diferentes, invade o universo fechado e mesquinho de uma aldeia no interior de Portugal. O que se segue é narrado em capítulos alternados pelos diversos intervenientes. Uma característica deste romance surpreendentemente maduro para um primeiro livro é a credibilidade das diversas vozes que nos contam a luta dos protagonistas para sobreviver e manter a dignidade humana em circunstâncias pouco favoráveis. A negação do racismo São temas que, quase quarenta anos após os acontecimentos, continuam a ser atuais num país como Portugal onde, diz a autora, não obstante uma certa cultura de raiz africana ter

conquistado o estatuto de chique, o racismo continua fortemente enraizado. Para a socióloga, trata-se também do resultado da grande desigualdade entre portugueses ricos e pobres, dominada por um machismo milenar. Aida Gomes narra uma série de experiência negativas chocantes neste contexto, como aquela vez em que “estava sentada do lado de fora de um centro comercial, quando passa um grupo de meninos bem e um cospe-me para cima”. Nem sequer são estas experiências de um racismo extremo e primitivo que mais incomodam a autora. Repugna-lhe, isso sim, a complacência com a qual a parte bem-pensante da sociedade, que se considera civilizada e evoluída, aceita, ao negá-lo, o racismo no país. Aida Gomes nem sequer pensou em participar este incidente à polícia, sabendo que não seria levada a sério. Em países do norte da Europa, diz a autora, que emigrou para a Holanda aos 17 anos, o caso teria tido repercussões. A indiferença do Ocidente Nesta perspetiva, seria compreensível que o desenvolvimento recente das relações entre Portugal e Angola, com a clara inversão de forças, pelo menos económicas, desse uma certa satisfação à escritora angolana. Não é esse o caso. Para Aida Gomes, o que se passa em Angola, e o pouco que isso interessa ao Ocidente, apostado

em tirar o máximo partido das riquezas angolana sem se preocupar com o fraco desenvolvimento da democracia e dos direitos humanos no país, não é motivo de regozijo: “É assim em muitos países africanos. As riquezas acabam por sustentar apenas o Ocidente e uma pequena elite nacional”. Como funcionária das Nações Unidas, que passou vários anos em missões de construção da paz em países como Angola, Guiné-Bissau, e Libéria, onde está estacionada neste momento, Aida Gomes conhece de perto esta realidade. Não esconde, porém, uma certa desilusão com um trabalho que inicialmente aceitou com grande idealismo: “Lembro-me que quando comecei a trabalhar nas Nações Unidas havia a noção de que os direitos humanos deviam ser respeitados”. Foi na altura em que surgiram os chamados “Objetivos do Milénio”, expressão da convicção de que seria possível criar um mundo mais justo num espaço de tempo concreto: “Mas nos últimos dez anos mudou tudo. Os direitos humanos deixaram de interessar. Agora defende-se a necessidade de investimentos e de explorar os recursos económicos. E há cada vez menos atenção aos aspetos sociais”. Talvez um tema para um próximo livro da autora de „Os Pretos de Pousaflores“, já aguardado com grande expectativa pelos muitos leitores recém-conquistados. Cortesia DW PUB

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Opinião Paulo Pisco*

O mito das permanências consulares Governo tem vindo a anunciar as permanências consulares como se fossem uma grande inovação e a resolução de todos os problemas. Na realidade, não são uma coisa nem outra. Querer considerá-las assim é apenas mais uma maneira iludir os portugueses residentes no estrangeiro. E também disse que se iniciariam em Janeiro, depois em Fevereiro, mas a verdade é que já estamos em Março e não se vê nada. Não são uma grande inovação, porque já existem há muito tempo. Aliás, o anterior Secretário de Estado das Comunidades do Partido Socialista deu orientações muito determinadas para que todos os postos fizessem permanências consulares, na medida das suas capacidades, é claro. Mas fê-lo num contexto em que os consulados tinham mais funcionários. Agora o Governo quer fazer o mesmo, mas centrado na recolha de dados para fazer cartões do cidadão e passa-

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portes. O problema é que há cada vez menos funcionários, que têm cada vez mais trabalho devido a um aumento generalizado dos fluxos migratórios, o que criará certamente dificuldades no atendimento consular nos postos de onde saírem para as suas deslocações. E, mesmo assim, nem todos os postos, mesmo uma grande parte, conseguiam então dispensar funcionários para as permanências. Por outro lado, o seu resultado nem sempre é uniforme. Numas cidades davam bom resultado porque afluíam alguns portugueses, mas noutras apareciam muito poucos, levando os chefes de posto a pôrlhes fim. Convenhamos que nem sempre é fácil as pessoas reterem que dentro de um ou dois meses um funcionário consular estará na cidade para tratar de alguns dos seus problemas. E também que, relativamente a alguns postos consulares que fecharam, muitos portugueses terão igualmente de fazer algumas centenas de quilómetros.

Não se pretende desta forma menorizar a importância das permanências consulares. Só que também não devem ser hipervalorizadas, porque isso releva mais de uma ação de propaganda enganosa. Elas devem pura e

Agora o Governo quer fazer o mesmo, mas centrado na recolha de dados para fazer cartões do cidadão e passaportes. O problema é que há cada vez menos funcionários, que têm cada vez mais trabalho devido a um aumento generalizado dos fluxos migratórios, o que criará certamente dificuldades no atendimento consular nos postos de onde saírem para as suas deslocações.

simplesmente ser consideradas naquilo que são realmente, um serviço complementar, que nunca substituirá a presença permanente de um posto. Trata-se de um serviço que, de tempos a tempos, facilitará a resolução de alguns problemas administrativos, mas pagos também de forma acrescida, o que certamente poderá afastar algumas pessoas. De resto, a grande ilusão que o Governo quer criar é que o encerramento de seis postos consulares será compensado com as referidas permanências, o que é uma grande desfaçatez. Com efeito, as permanências consulares nunca terão condições para fazer aquilo que os postos que têm responsáveis dinâmicos e próximos dos portugueses fazem, que é valorizar a comunidade, mobilizá-la na defesa dos seus interesses junto da administração local, descobrir e projetar aqueles que se destacam nas suas áreas de atividade, seja nas artes, na economia, na ciência ou no desporto, motivar a comunidade para ser mais coesa, dinâmica e

participativa do ponto de vista cívico. E isto é uma dimensão essencial que nenhuma máquina tem capacidade para fazer. Fazem muito bem, por isso, os conselheiros das Comunidades na Alemanha que têm abordado esta questão, designadamente o conselheiro Alfredo Cardoso, de Münster, que recentemente pôs a tónica na eficácia da prestação dos serviços, nos custos e na necessidade de haver informação sobre as localidades onde se realizarão, bem como nos meios humanos, técnicos e financeiros disponíveis. Por enquanto ainda não se sabe nada. O que se sabe é que o Governo encerrou os importantíssimos vice-consulados de Frankfurt e de Osnabrück na Alemanha, de forma insensata e incompreensível, e que isso é uma decisão que causará danos irreparáveis à nossa comunidade e à imagem do Estado Português. Mas isso para o Governo parece ter pouca importância…. * Deputado do PS eleito pelas Comunidades PUB


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Alemanha

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Quatro milhões de mulheres violadas pelo Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial n Requinte alemão nos seus bordéis para soldados e para prisioneiros António Justo

Segundo o jurista e publicista Heinz Nawratil, quatro milhões de mulheres e jovens foram ” vítimas de crimes sexuais praticados pelo Exército Vermelho e seus aliados”. Só em Budapest calcula-se terem sido violadas 50.000 mulheres. Nos territórios libertados dos nazis, os soldados do exército vermelho comportavam-se como bárbaros, tal como faziam nos Estados Bálticos, e nos Balcãs. Fazia lembrar a crueldade das antigas hordas mongóis, como refere o historiador Jörg Friedrich. Roubavam, violavam, massacravam e expulsavam. (16,5 milhões de alemães foram expulsos da Europa Oriental, tendo sido mortos cerca de dois milhões). Mulheres e crianças eram violadas por grupos de soldados a ponto duma mesma jovem/mulher ser violada no mesmo dia por vários soldados. Isto não constituía excepção. Em quase todas as famílias dos refugiados e das famílias da zona de administração russa se regista, pelo menos, uma vítima de violação por família (“Die Rote Armee” von Liddell Hart). Também Hannelore Kohl, a falecida mulher do ex-chanceler alemão Helmut Kohl, foi violada, aos doze anos, por soldados russos. O povo russo sofreu imensamente sob as abomináveis atrocidades dos exércitos alemães. (Segundo a Wikipedia, 5,7 milhões de soldados do Exercito Vermelho foram aprisionados pelos exércitos alemães, 3,3 milhões dos prisioneiros não sobreviveram. Dos 3,15 milhões de soldados alemães sob custódia russa não sobreviveram 1,11 milhões). Estaline não olhava a meios, como demonstra o seu comando n° 0428 de 17 de Novembro de 1941. Nesta instrução ordena aos partisanos russos que se vistam de uniforme alemão e incendeiem e liquidem a população russa civil “40 a 60 km atrás da linha principal de combate”. Incentivava assim o ódio contra os alemães invasores sacrificando o próprio povo para fins propagandísticos. Isto para se ter uma ideia da barbaridade dum lado e do outro. Se num povo governava o diabo no outro governava o Belzebu. O ultrajo e a dor infringidos às mulheres durante as guerras são considerados, muitas vezes, como prejuízos colaterais das guerras e como tal de menor menção. Interesses políticos nas relações bilaterais internacionais (os tabus políticos) e a vergonha das mulheres estão, também, na base do silêncio do crime de violação. Para a mentalidade de então uma pessoa violada era pessoa desonrada. Nas Televisões alemãs não há dia sem um filme num canal a documentar as atrocidades dos alemães na guerra. Sobre o sofrimento de inocentes alemães só há poucos anos se começou timidamente a tematizar o problema das vio-

lações das mulheres alemãs. Nas investigações de Bárbara Johr em “Befreier und Befreite” são mencionadas dois milhões de mulheres e meninas alemãs violadas por soldados do Exército Vermelho. Estes dois milhões de vítimas distribuem-se por 1,4 milhões de mulheres/jovens nos territórios da Prússia Oriental, Pomerânia Oriental, Brandenburg e Silésia, 500.000 na zona de ocupação soviética e 100.000 mulheres em Berlim. 10% das violadas terão sido assassinadas de seguida. Este agir barbárico ainda assume maior gravidade pelo facto de ser usado e apoiado pela oficialidade. O genocídio dos alemães contra os judeus também assume uma gravidade acrescida na história pelo facto do holocausto aos judeus ter sido ordenado e organizado sistematicamente pelo Estado (Hitler). (De referir que Hitler para tornar o seu aparelho facínora mais eficiente, se serviu também de estudos sobre a maneira eficaz como a Turquia tinha efectuado o genocídio a cerca de dois milhões de arménios, em 1915). Aos soldados alemães era proibida a violação e a prostituição incontrolada. Também se registaram violações por soldados alemães mas devido à diferente estratégia seguida não pode ser comparada no mínimo ao comportamento russo. Soldados alemães, tal como americanos violadores eram julgados e condenados. Isto não desculpa nem um bloco nem o outro atendendo à desumanidade subjacente aos dois sistemas e que espreita em cada ser humano colocado em determinadas situações. Nas zonas ocupadas pelos alemães, em 1942 havia na França e na Europa do Leste mais de 500 bordéis das Forças armadas alemãs. Bordéis das Forças armadas alemãs foram regulados por decreto de 9 de Setembro de 1939 que apelava à autodisciplina dos soldados em questões sexuais (especialmente aos casados) e criava bordeis para soldados, insurgindo-se contra a prostituição selvagem que provocava doenças nos soldados. Estes estavam sob o controlo da inspecção sanitária das forças armadas. Estas controlavam as mulheres que trabalhavam nos bordéis e os soldados. Eram recrutadas prostitutas que se candidatavam. Num relatório do médico comandante da zona francesa ocupada de Angers, de Novembro de 1940 constata-se: “Os bordéis foram visitados em 14 dias por 8.948 soldados, dos quais 2.467 tiveram relações sexuais” (Vikipedia). (Tenho um vizinho que no tempo de soldado, como paramédico, tinha o

trabalho de pincelar o pénis dos soldados com desinfectante em bordéis para se evitar a transmissão de doenças.) Prostitutas e soldados eram examinados por médicos tendo muitos dos soldados de receber uma injecção antes do acto sexual. Para se ter uma ideia da dimensão daquele empreendimento basta dizer que só em França, num terço da zona francesa ocupada pelos alemães havia mais de 143 bordéis onde trabalhavam 1.166 mulheres para satisfação dos soldados. Na Rússia, era difícil recrutar mulheres para os bordéis militares porque lá não havia prostituição oficial. Com estas medidas o exército satisfazia as necessidades dos soldados, evitava doenças e impedia que eles ganhassem amizades com mulheres das zonas ocupadas que poderiam influenciar politicamente os soldados.

Mais tarde foram também criados oficialmente Bordéis para prisioneiros nos maiores campos de concentração. Esta medida tinha a finalidade de motivar os prisioneiros a maior produtividade laboral. Junta-se a exploração sexual da mulher à do Homem. Prisioneiros com maior desempenho laboral tinham como maior prémio a permissão de ir ao bordel, no máximo, uma vez por semana, durante 15 minutos. Está provado que em 10 bordéis se encontravam encarceradas 190 mulheres em serviço (Robert Sommer in “Das KZ-Bordell”). Eram mulheres alemãs “a-sociais” primeiramente recrutadas com aliciamentos, mulheres prisioneiras polacas, ucranianas, russas, e “ciganas”. Muitos prisioneiros repudiavam os bordéis por razões morais considerando-os também obra do cinismo. Era proibido frequentar os bordéis a prisioneiros judeus e russos. Entre

1940 e 1942 terão sido forçadas ao trabalho sexual, pelos nazistas, cerca de 35 000 mulheres (Cf. Helga Amesberger, Katrin Auer, Brigitte Halbmayr: «Sexualisierte Gewalt. Weibliche Erfahrungen in NS-Konzentrationslagern»). Muita gente procura cavalgar na culpa dos outros Esta era uma guerra ideológica (aniquilação de raças, bolchevismo e fascismo) ainda mais perversa que outras guerras. Não é legítimo cavalgar em cima da culpa alemã nem em cima da culpa russa para, assim, poder lavar a própria fachada e esconder atrás dela uma satisfação de bonzinhos na lavagem de agires menos dignos do dia-adia. Assim evitamos assumir responsabilidade pelos crimes que acontecem hoje no mundo. Em nome de culturas e de interesses económicos ou ideológicos ataca-se geralmente uma parte para, como Pilatos, se lavarem as mãos sujas da própria culpa. É fácil, a quem tem a graça ou desgraça de viver hoje, condenar os de ontem tal como os que terão a graça de viver amanhã terão a oportunidade de nos condenar a nós pelo que fizemos e deixamos de fazer. Isto não pode justificar a miopia que acompanha a contemporaneidade na sua necessidade ingénua de branquear o seu presente. Hoje cortam-se os clitóris a meninas, apedrejam-se mulheres infiéis e o politicamente oportuno leva-nos a aceitar isso como sendo um bem cultural a respeitar, até no meio da nossa cultura. Suportamos a exploração da mulher maometana e até criamos nichos onde o patriarcalismo possa ser respeitado. Suportamos famílias com ordenados de misérias e energúmenos com riquezas mastodônticas fruto da especulação. Usamos dois pesos e duas medidas em nome duma democracia açucarada e duma política aberta à exploração. É fácil a quem tem a graça ou desgraça de viver hoje condenar os de ontem tal como os que terão a graça de viver amanhã terão a oportunidade de nos condenar a nós pelo que fizemos e deixamos de fazer. Isto não justifica porém a miopia que acompanha a contemporaneidade e a sua necessidade ingénua de se branquear. As pessoas fracas precisam da culpa dos outros para melhor anestesiarem uma consciência que não deve ver o que se passa agora. Mentalidades massificadas de

ontem, personalizadas em grupos e em pessoas mascaradas de soldados abusaram das pessoas indefesas. Hoje pessoas fardadas de opinião oportuna condenam povos e grupos sob a apóstrofe de alemães, russos, comunistas, conservadores ou progressistas. Há sempre uma responsabilidade individual e colectiva. A lavagem cerebral feita ao povo e aos indivíduos facilita a prontidão para a subjugação e para o agir irresponsável. Para onde quer que se olhe, depara-se com gente uniformizada com uma maneira de pensar e julgar igual, não diferenciada e correspondente à mentalidade apregoada e tida por bem na opinião publicada. É assustador o pensamento em massa e em blocos hoje em voga. A pobreza é tanta que, por vezes, basta saber o jornal ou revista da leitura do interlocutor para conhecermos o seu pensar. O pior disto é que atrás duma opinião massificada se encontra uma trincheira. Naturalmente cada um escreve e pensa segundo a própria ciência e consciência… Quem se orienta pelo seu julgamento segundo o prisma da simpatia ou da antipatia sentida ou pelo simples afirmar ou negar de factos segue um mau conselheiro e prepara a guerra. Não se pode bagatelizar nem compensar os crimes e a dor dum lado com os crimes e a dor do outro. Este erro de lógica perpetua a injustiça e a maldade. Só quando as nossas lágrimas correrem sobre a nossa culpa e sobre a culpa dos outros nos poderemos compreender a nós e aos outros. O sangue dos nossos antepassados grita mas só o grito da nossa consciência poderá interromper a avalanche da violência e da injustiça de agora. Cada guerra, como cada ideologia, procura tirar o melhor de cada pessoa para si e o pior para os outros. O mesmo se diga da escrita da História que pressupõe sempre um historiador com uma ideia dela. A barbaridade, a violência não é um acto específico dum povo, raça ou pessoa, ela repousa na sombra de cada pessoa e de cada grupo. A violência não se torna melhor nem mais justificada se exercida pela direita ou pela esquerda. Seria cinismo com o sofrimento de pessoas querer glorificar a própria ideologia. O tribunal de Haia constitui hoje um aviso para o respeito que se deve às vítimas e como tal um primeiro passo em direito internacional para se diminuírem os crimes e os incendiários económicos, religiosos ideológicos e intelectuais. Em tudo isto se vê como o pobre povo sofre e ao mesmo tempo é usado para fazer outros sofrer.?A guerra ainda não acabou. Em nome da paz continua a faz-se a guerra, em nome da paz vive-se da guerra. O respeito deve-se às vítimas!


Cinema

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Realizador português ganha Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim

A curta-metragem “Rafa” de João Salaviza ganhou o Urso de Ouro para a melhor curta-metragem da Berlinale 2012. A longa-metragem “Tabu” venceu o prémio da crítica FIPRESCI e o prémio Alfred Bauer, criado em memória do fundador do festival, para as obras inovadoras. Portugal esteve excepcionalmente representado nesta 62ª edição do Festival de Cinema de Berlim. Mas foi claro desde o início que estes dois filmes lusos iriam dar que falar quando esgotaram os bilhetes para todas as sessões. O interesse dos vários participantes no festival, desde jornalistas, a críticos, produtores, distribuidores, e outros pelos filmes na sua primeira apresentação não pública, foi indicativo de que tanto Rafa como Tabu iriam ter visibilidade suficiente para se perfilarem neste festival. A curadora Maike Hoehne disse ao Portugal Post que tinha adorado Rafa e que lhe via uma beleza extraordinária. A curadora dos shorts da Berlinale afirmou também que tem um jeito especial

FOTO: REUTERS

Cristina Dangerfield-Vogt

'Rafa' de João Salaviza foi considerada a melhor curta-metragem da 62.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim. para descobrir pérolas e que Rafa era a sua curta preferida. Rafa foi escolhido pelo júri sem grandes dúvidas, apesar de ter concorrido com 27 curtas internacionais. Os seus competidores mais perigosos eram os suecos, conhecidos mundialmente pela qualidade e originalidade das suas curtas-metragens, feitas com bons apoios das instituições suecas – o governo sueco investe na cultura e na imagem do país.

Mas exactamente por João Salaviza não usufruir dos apoios financeiros das instituições portuguesas e, para mais, terem sido anunciadas recentemente medidas que irão retirar os poucos apoios que existem ao cinema português, João Salaviza mostrou que é um realizador excepcional e que com pouco faz muito! E, ao receber o prémio, afirmou irónico “que dedicava o prémio ao Estado português”. Rafa é um filme que não

é “piegas” mas também nos mostra o lado social e deficitário da nossa sociedade. Esta curta indica-nos um caminho cinematográfico para os filmes sobre problemas sociais e de intervenção sem cair em clichés nem em facilitismos ou versões simplificadoras dos fenómenos de tensão urbana – Rafa abre caminho aos filmes que podem ser, simultaneamente, intervencionistas e verdadeiramente artísticos. João Salaviza trabalha com película, dando ele próprio o exemplo de como trabalhar na “pobreza” dos apoios do nosso país. A Berlinale é conhecida como o festival de cinema mais político de todos e era de prever que o júri iria tomar esta faceta social do filme Rafa em consideração. E Rafa convence todos os membros do júri pela sua narração não convencional da pobreza relativa e pela qualidade do seu trabalho apesar da falta de meios financeiros – e, por isto mesmo, Rafa de João Salaviza terá vencido a competição de um dos mais importantes festivais de cinema do mundo. Maria João Mayer da Filmes do Tejo, a produtora de Rafa, afirmou numa entrevista que gostaria

de produzir o Almodóvar português. E como as curtas-metragens servem para apostar nos realizadores futuros, quem sabe se, com a sua próxima longa-metragem, cujas filmagens deverão começar no próximo verão, João Salaviza virá a ser o nosso Almodóvar. As curtas-metragens têm pouco valor comercial, segundo a produtora de Rafa, por Arena pagam 600 Euros. Os grandes distribuidores preferem as longas e como dizia, Maike Hoehne ao PP, seria fácil resolver a situação. “As curtas poderiam ser passadas antes das longas nas salas de cinema do circuito comercial”. Aqui fica a sugestão! Rafa de João Salaviza inserese na trilogia acidental das curtasmetragens, Arena e Cerro Negro. Arena venceu a Palma de Ouro de Cannes de 2009 para curtas-metragens.

Para mais informações leiam a nossa reportagem publicada logo após a estreia mundial de RAFA em: www.portugalpost.de PUB

Tony Carreira na Alemanha Wernau, dia 19 de Maio 2012 Venda e reserva de bilhetes: Manuel Abrantes: 0174 - 6417146 Célia Nascimento: 0160 - 4432042 email. fbms.management@hotmail.com

Local: Eisstadion Stadionweg 12 73249 Wernau


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Dia Internacional da Mulher

A propósito do Dia Internacional da Mulher, festejado todos os anos no dia 8 de Março, o PORTUGAL POST pediu a várias mulheres residentes na Alemanha um depoimento evocativo desse dia a partir das suas experiências e das suas perspectivas num mundo dominado por homens. Estes depoimentos servirão, cremos nós, como exemplos para todas as mulheres leitoras do PP

PORTUGAL POST Nº 212 • Março 2012 e é uma forma de homenagem que nem sequer deveria existir pela simples razão de que não há o dia internacional do homem. Mas como a sociedade ainda não aprendeu a respeitar a mulher – a respeitar e a considerá-la igual ao seu parceiro do sexo oposto – faz todo o sentido recordarmos aqui essa data.

“As Mulheres são a metade do céu” Quando cheguei à Alemanha...

Quotas para mulheres? Ainda é preciso perguntar?

O Privado é Político“

Quando vim morar para a Alemanha, em 1989, trazia na bagagem profissional uma vasta experiência na área dos apoios comunitários, e sabia perfeitamente que tipo de investimento em Portugal podia concorrer a apoios financeiros europeus a fundo perdido, pelo que acreditava que facilmente arranjaria emprego. Rapidamente me desenganaram: um funcionário do serviço de emprego explicou-me que esse tipo de trabalho é para ser feito por quadros superiores das empresas, e não por uma jovem imigrante que tirou o curso de Economia em Portugal; no máximo, eu podia tentar uma carreira como secretária de línguas internacionais. Mais caricato ainda: o sistema informático daqueles serviços só previa um máximo de três idiomas. Eu, que falava quatro, tinha de escolher qual deles omitir para concorrer ao mercado de trabalho alemão. Acabei por arranjar um emprego como elemento de comunicação entre uma empresa alemã e a fábrica portuguesa para onde tinham transferido parte da produção, despedindo trabalhadores na fábrica alemã. Por esse motivo, havia contra os portugueses uma espécie de má-vontade latente, de que eu acabava por ser também objecto. Durante um ano, tive inúmeros choques culturais: - o almoço despachado a correr em quinze minutos, em vez da hora de troca de ideias e boa disposição a que estava habituada em Portugal; - a fila de pessoas em frente ao relógio de ponto, que dava saltos de três minutos, porque preferiam esperar dois minutos em frente ao relógio a oferecer um minuto de trabalho à empresa; - em vez de estudar uma proposta minha para resolver imediatamente um problema que provocava valentes dores de cabeça aos responsáveis em Portugal, um dos chefes disse-me que enviasse a sugestão para os serviços centrais daquela multinacional (seis meses mais tarde recebi uma carta a agradecer, um ano depois deram-me um prémio chorudo – já eu não trabalhava nessa empresa há muito); - a recusa da empresa alemã aceitar sair do seu funcionamento bem organizado para resolver algum imprevisto ocorrido em Portugal (por exemplo, um esquecimento na lista de peças, parafusos que tinham de ir no camião seguinte – fui proibida de ir ao armazém buscar peças para dar ao motorista, porque – diziam - provocava demasiado stress aos funcionários. “Mas então a produção vai parar”, argumentei eu. “Paciência”, responderam eles, “se os portugueses não se conseguem organizar, a produção pára e eles aprendem”. O curioso é que esqueciam que a produção em Portugal duplicara sem meterem mais engenheiros de produção, e que tudo isso era lucro para a empresa mãe). Despedi-me. O segundo emprego que arranjei foi como tradutora numa empresa enorme, jovem e dinâmica. No sector de tradução trabalhavam sobretudo mulheres, mas – com raríssimas excepções - só os homens chegavam aos lugares de chefia. Apesar disso, foi uma bela experiência profissional. Quando tive o primeiro filho, reduziram sem problemas o meu horário para 19 horas, que mantive durante vários anos, até abandonar aquela empresa. Contudo, o maior choque cultural que sofri, vivendo assim entre duas culturas, foi o da maternidade. As pessoas, mesmo as mulheres da minha idade ou até mais novas, não compreendiam que uma mulher com filhos gostasse de trabalhar apenas pelo prazer de trabalhar, e não por necessidade financeira ou por tiques de carreirismo. O primeiro pediatra da minha filha não perdia uma oportunidade de me assustar, inventando na bebé doenças terríveis que ela teria apanhado no infantário. Até que mudámos de pediatra, e a miúda passou a ter doenças normais. Hoje, mais de vinte anos mais tarde, olho para tudo isto com um sorriso. São sociedades diferentes, ponto. Têm ambas umas coisas melhores, outras piores. Penso que agora teria alguma dificuldade em voltar a Portugal, àqueles dias de trabalho intermináveis com um longo almoço pelo meio, à falta de tempo para a família, ao sistema de “desenrascanço”: que dá uma adrenalina engraçada mas também complica muito a vida. Helena Araújo, Economista, Berlim

Passou uma década e nada aconteceu. Rigorosamente nada. O acordo voluntário para aumentar a representação de mulheres no topo das empresas entre o então governo alemão, o tal da geração de 68, e o empresariado foi, se quisermos ser benévolos, homeopático. Apenas 2,2 por cento dos actuais gestores de topo na Alemanha são do sexo feminino. E isto porquê? Há múltiplas razões, mas a principal causa continua a ser a impossibilidade das mulheres (e mães) conciliarem a família com a carreira profissional. A tão apregoada igualdade não é uma prática a nível salarial, a representação política das mulheres é muito diminuta – apesar das cinco ministras no gabinete da chanceler Angela Merkel – e a representação no topo das empresas é quase inexistente. Até no próprio farol da esquerda progressista, a Der Spiegel, se está longe da igualdade: existem 32 homens a chefiar secções contra apenas duas mulheres e há mais jornalistas homossexuais do que mulheres. Face a este triste cenário o Governo está a pensar seguir o exemplo norueguês (e francês) e Apenas 2,2 por cento dos introduzir quotas para mulheres nas empresas. esmo que a alguactuais gestores de topo na mas incomode a pedra no sapato Alemanha são do sexo fe- feminista ( e o atestado de falminino. E isto porquê? Há hanço de algumas correntes femúltiplas razões, mas a ministas alemãs) sem lei, na principal causa continua a Alemanha, a terra do “Ordnung muss sein não vamos lá”, não ser a impossibilidade das vamos lá. Quotas? Evidentemulheres (e mães) concilia- mente que sim e não é preciso rem a família com a car- explicar porquê. Nota breve: Nas legislativas reira profissional. passadas, passei a noite eleitoral, em Berlim, na sede da CDU, o partido democrata-cristão da senhora Merkel. Entre as muitas conversas que registei na memória há uma impagável. Falava eu com um autarca acerca de política para mulheres e o senhor muito simpático disse: “ nós (na sua autarquia) fizemos muito pelas mulheres”. Respondi “Ah sim, pode concretizar?”. “ Nós duplicámos o número de parques de estacionamento para mulheres”. Acho que fiquei com o maxilar deslocado até hoje. Helena Ferro de Gouveia, Bona, Jornalista

No fundo torna-se um pouco fatigante estar todos os anos de novo a lamentar problemas sobre a condição feminina. Porque falar sobre mulheres significa falar sobre a mundo de trabalho: As mulheres continuam a ser as enfermeiras dos médicos e as secretárias dos chefes; continuam a ter vencimentos inferiores aos dos seus colegas, desempenhando as mesmas funções. Porque falar sobre mulheres significa falar sobre divisão de tarefas no quotidiano: A responsabilidade pela educação dos filhos continua domínio de mulheres. Quem fica em casa quando é necessário, quem trabalha em Part-time e quem pede licença parental são na maior parte do casos as mulheres. Porque falar sobre mulheres implica falar sobre a diversidade feminina, o que implica a consideração da diversidade social e cultural e por isso a condição feminina ‘per se ‘ não existe, como também não existe a condição masculina. No entanto, onde começar e onde terminar neste pequeno espaço?

Ser mulher na Emigração A mulher, ao longo do tempo, na emigração, tem sido uma verdadeira heroína. Os testemunhos e as histórias, verdadeiras, de muitas compatriotas que nos são referidos e transmitidos nos congressos e nos encontros a que tenho assistido ao longo dos anos são um verdadeiro exemplo de coragem, de determinação e de vontade de construir e conseguir um lugar merecido. No associativismo, elas deixaram a cozinha para onde eram remetidas e fazem parte de direcções; na política elas provam que são capazes, por vezes com muito mais capacidade do que os homens, de desempenharem um papel de relevo, na participação e cidadania elas mostram que sem a sua participação e trabalho nada anda; no trabalho ela deixou de ser a ajudante a passa a ser uma chefe a quem são confiadas grandes responsabilidades; na família ela é a chave mestra que desempenha mil e uma tarefas, e ela é a MÂE. Para aquelas que lutam por aquilo que desejam e merecem desejo muita coragem e força para não desistirem. Maria do Céu Campos, trabalhadora, Revensburg

Diversidade Cultural A Alemanha como país protestante, é uma sociedade altamente determinada pelos valores da Ética Protestante com percepções especificas sobre o que é ser mulher ou ser mãe. Tanto assim que as mulheres que querem conjugar a vida profissional com a maternidade enfrentam não só falta de infra-estruturas A taxa de divórcios é elevada, como também mentalidades a taxa de mães em situação que designam mulheres que monoparental não menos eleconfiam os seus filhos a terceivada, sendo este um dos gruros como “Rabenmütter". Para muitas mulheres pro- pos mais afectados pelas venientes de outros países, crises económicas, em situacujas mães e avós sempre tra- ções de emprego precárias e balharam, aí a comunicação e a solidariedade entre mulheres mais em risco e empobrecidificulta-se e às vezes chega mento. aos seus limites. Digo isto sem querer insinuar algum ‘clash of civilizations’ neste campo. De um ponto de vista muito pessoal constato que o paternalismo, que neste caso seria maternalismo, também se tem vindo a viver entre mulheres: Por exemplo, quando se refere que Portugal tem sido um dos países na UE onde mulheres têm conseguido melhor conciliar emprego e família (logo a seguir a Dinamarca), muitas vezes enfrentamos caras surpreendidas, que logo sentem necessidade de encontrar uma explicação rápida para um ‘fenómeno’ tão incrível (sic!) e já se ouviu explicações como “as dinamarquesas são emancipadas, as portuguesas trabalham por necessidade..”!! Alianças na Diversidade Uma identificação e/ou ‘solidarização’ baseada na condição feminina parece-me muito reduzida. Mais óbvio parece-me que tal se desenvolva através da condição social. Em tempos de nómadas reais e virtuais a comunicação pisa novos terrenos e facilita novas alianças em espaços transculturais. Neste sentido, que haja, além de solidariedade feminina, cada vez mais uma ‘solidarização’ entre indivíduos conscientes e incluindo, como é óbvio, homens e mulheres. Enquanto a sociedade não aceitar a elevação e educação dos seus filhos como uma tarefa de responsabilidade maior e comum, e essa responsabilidade não seja assumida como tal, a mulher não terá a posição que lhe é própria na sociedade. Concluindo, a taxa de divórcios é elevada, a taxa de mães em situação monoparental não menos elevada, sendo este um dos grupos mais afectados pelas crises económicas, em situações de emprego precárias e mais em risco e empobrecimento. Por isso gostaria de deixar neste dia uma saudação especial particularmente a essas mulheres, que no fundo acabam por serem as minhas heroínas deste dia e do quotidiano além deste dia. Dora Mourinho, Socióloga, Essen


Dia Internacional da Mulher

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“As Mulheres são a metade do céu” Sindicalismo no Feminino

Discriminação e trabalho

Poetisa Emigrante

Em 1908, 15.000 mulheres marcharam sobre a cidade de Nova Iorque, exigindo redução do horário de trabalho, melhoria de salários e direito ao voto. Embora não tenha ficado registado o nome de quem as liderou, não restam dúvidas que só poderia ter sido uma mulher. Uma mulher corajosa e decidida, sem dúvida, capaz de lutar pelos seus direitos. Uma precursora das dirigentes sindicais do nosso tempo. Porém, mesmo agora no século XXI, embora seja considerado politicamente incorreto designar um cargo como “tipicamente masculino” ou “tipicamente feminino”, o facto é que continuam a existir preconceitos e estereótipos, mesmo no âmbito sindical . Dado que no passado o mercado de trabalho era dominado principalmente pelo elemento masculino, durante muitos anos os dirigentes sindicais eram quase Na minha experiência de exclusivamente homens, mas decerca de 20 anos em vários vido à evolução da igualdade de cargos sindicais, nunca me direitos tem-se vindo a assistir a deparei -felizmente - com uma progressiva feminização nesse campo e ao fim da predoobstáculos devidos ao facto minância masculina nos sindicade ser mulher, embora mui- tos. tas vezes pairasse no ar o Um sindicalista é, por definidesafio silencioso: “vamos ção, um indivíduo com capacide afirmação, lá ver do que é que ela é dade argumentação, lutador, tendo por capaz...” vezes, obrigado pelas circunstâncias, de mostrar uma certa agressividade positiva. Mas é também uma pessoa interessada pelos seus colegas de profissão e pelos seus problemas, disposto a defendê-los e protegê-los sempre que necessário. Poderão estas caraterísticas ser consideradas “ mais masculinas” ou “ mais femininas”? Se observarmos a realidade, vemos que a atividade sindical é nos nossos dias bem desempenhada tanto por elementos masculinos como femininos, havendo em Portugal muitos postos de dirigente sindical ocupados por mulheres, tendência crescente. Na minha experiência de cerca de 20 anos em vários cargos sindicais, nunca me deparei -felizmente - com obstáculos devidos ao facto de ser mulher, embora muitas vezes pairasse no ar o desafio silencioso: “vamos lá ver do que é que ela é capaz...” Pois, minhas caras colegas dirigentes e aquelas que o tencionam ser, somos capazes, sim senhor! Cada vez mais e cada vez melhor. Basta confiarmos em nós próprias e nas nossas capacidades, pois sendo o trajeto sindicalista o trajeto de procura de mais igualdade no mundo do trabalho, impõe-se a luta contra a discriminação. O Dia Internacional da Mulher é o dia 8 de Março, mas a luta pelos direitos da mulher é todos os dias. Pela igualdade de direitos de todas nós, em todos os países e todas as culturas. Uma saudação sincera a todas as mulheres. Maria Teresa Duarte Soares Secretária- Geral do Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas, Nuremberga

“ Numa sociedade moderna e globalizada como a que vivemos seria de esperar que toda a espécie de discriminação, especificamente no mercado de trabalho, já pertencesse ao passado. No entanto, as notícias com que somos confrontados no dia-a-dia, levam-nos a crer que este fenómeno apesar de ter vindo a perder importância, ainda persiste, pois o mercado de trabalho não privilegie a competência feminina. Dados publicados pela Comissão Europeia confirmam que as mulheres representam apenas 12 % dos membros dos conselhos de administração das maiores empresas cotadas em bolsa na União Europeia e só 3% delas são presidentes dessas instituições. A disparidade salarial entre homens e mulheres na União Europeia atinge os 17,5%. A maioria das causas associadas a estas disparidades não pode ser atribuída a factores objectivos. Em todos os Estados-Membros, as mulheres têm mais êxito nos respectivos percursos escolares e representam a maioria dos diplomados do ensino superior. É pois inexplicável que não obtenham melhores condições no mercado de trabalho. A luta em prol da redução das disparidades salariais entre homens e mulheres ultrapassa amplamente o quadro de intervenção da política. Por conseguinte, é necessário sensibilizar aqueles, em cujas mãos se concentram os poderes de decisão e intervenção.” Michaela Ferreira dos Santos, Advogada, Colónia

Tinha um sonho vir a ser escritora, mas não levava esse sonho a sério. Em Portugal por volta dos meus 18 anos, depois da leitura do poema “Tabacaria” de Álvaro de Campos comecei a escrever ora em cadernos, ora em folhas soltas de uma certa forma poética, com o destino gaveta. Até ao dia em que aqui na Alemanha, já por volta dos meus 34 anos mostrei os meus rascunhos a um jovem alemão, aqui de Nuremberga, que tinha acabado de ser premiado, como jovem poeta, pelo pelouro da cultura da pela mesma cidade. Ele disse-me que o que eu escrevia era muito bom. Por essa altura já escrevia os meus rascunhos em alemão, ao escrever rapidamente aquilo que me vinha da alma à cabeça só me saía na língua que ouvia em casa, na rua e nos média, a língua de Goethe. Comecei a publicar aqui em Nuremberga, na antologia anual “Wortlaut” publicada por um centro cultural desta cidade. Uma revista de design publicou um “portrait” da minha pessoa acompanhado por onze poemas meus apresentados de uma forma gráfica fabulosa. Na minha visita à Feira Internacional do Livro de Frankfurt em 1997 peguei nessa mesma revista meti-a no saco, que me acompanhava para todo o lugar, e ao chegar ao andar destinado aos meus interesses deparei com a editora Dr. Bachmaier Verlag de Munique, sobre a qual duas semanas atrás tinha lido um óptimo artigo no Süddeutsche Zeitung. Esperei que o senhor que eu julgava ser o doutor estar só no seu stand e nessa altura dirigime a ele apresentei-lhe a revista ele gostou, explicou-me como seria a edição e para eu lhe enviar o manuscrito. Na feira do ano de 1998 o meu livro era a atracção principal da editora. Moral da história fui entrevistada em Nuremberga pela radio, procederamse várias apresentações do livro, todas as grandes livrarias da cidade tinham o meu livro à venda vendendo todos os exemplares. A minha alegria solene deu-se quando recebi uma carta, de grande louvor ao meu livro, do em Janeiro falecido Senhor Curt MeyerClason, antigo director do Goethe-Instituts em Lisboa, assim como escritor e tradutor. Resumindo e concluindo: não sofri qualquer discriminação nem como imigrante nem como mulher! Maria do Rosário Lurdes, poetisa, Nuremberga

O Dia da Mulher – uma necessidade? Um dia a comemorar o empenho da mulher por mais e melhores condições de vida, por uma igualdade de direitos teoricamente incontestável. Será que nestes tempos „evoluídos“ não se justifique mais a existência do dia 8 de março que tem a sua origem nas manifestações de mulheres russas em 1917? Entretanto, 100 anos depois, a discriminação da mulher na vida profissional continua sendo um facto. Embora o nível de habilitações das mulheres tenha aumentado significativamente nos últimos 20 anos, os postos de chefia em empresas, sejam elas PME`s ou multinacionais, são ocupados sobretudo por homens. Além disso mantém-se uma desigualdade de remuneração base média entre homens e mulheres. Não se trata de nos colocarmos numa posição anti-masculina para encarar esta realidade injusta. Apesar de muito se falar nestes assuntos e de se criarem estratégias e estruturas para enfrentar as várias formas de desigualdade entre os sexos, os problemas continuam por resolver, de maneira que o Dia Internacional da Mulher não tem simplesmente a função de relembrar o passado feminista, mas sim de não esquecermos os desafios que ainda temos pela frente. Dra. Carla Batuca-Branco, Directora da agência de traduções, interpretação e leitorado BRANCO

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Geschichten aus der Geschichte

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Dona Maria II. (1819 – 1853)

Frau an der Macht in Portugal. Stolz und Vorurteil Joaquim Peito

Die Geschichte hatte ihr eine äußerst schwierige Rolle zugedacht: Sie bestieg den Thron dank der gesellschaftlichen Veränderungen, die Mouzinho da Silveira auf der Azoren-Insel Terceira losgetreten hatte und dank der Unterstützung der spanischen Liberalen. Erst gegen Ende ihres Lebens akzeptiert sie, dass der Frieden den Wechsel der Parteien verlangt und lernt, ihre moderierende Rolle als Königin zu nutzen. Ich beginne mit einem Zitat: “Es gibt als Gattin und Mutter keine tugendhaftere Königin. Ihr Haus kann Beispiel für jedes Haus in Europa sein“. Wer das über D. Maria II. schrieb, war ihr heftigster Gegner, Rodrigues Sampaio, ein radikales und hitzköpfiges Mitglied der Septemberrevolution. D. Maria II. regierte Portugal und die Familie als gewissenhafte Mutter auf dieselbe Weise. “Wenn ich sterbe, sterbe ich in meiner Rolle!“ Maria II. wiederholte diesen Satz während der Schwierigkeiten ihrer 12 Geburten. Sie konnte kaum wissen, dass sie damit ihr tragisches Geschick vorwegnahm. Sie starb mit 34 Jahren bei der Geburt ihres letzten Kindes. In ihrem Privatleben wenig beobachtet, hat sich im portugiesischen Gedächtnis das Bild ihres runden Gesichts mit streng gescheiteltem Haar und reichlicher Lockenpracht festgesetzt, das auf der alten Tausend-Escudos-Note verewigt wurde. Aber bitte, keine Wehmut wegen des verschwundenen Escudo. Als älteste Tochter des Kaisers von Brasilien, D. Pedro I. und der Erzherzogin von Österreich, D. Leopodina, wurde sie in Rio de Janeiro im Palast S. Cristóvão am 4. April 1819 geboren und mit vollem Namen Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga genannt. Es ist eine Ironie der Geschichte, dass diese „Brasilianerin“, die später den portugiesischen Thron bestieg, für die meisten Brasilianer eine Unbekannte ist. Es war eine stürmische Epoche, sowohl in Europa, wo die alten, traditionellen politischen Gefüge zusammenbrachen, als auch in Amerika, wo die Kolonien der europäischen Mächte um ihre Unabhängigkeit rangen. Ein ausdrucksvolles Beispiel war, wie man weiß, Brasilien selbst. Als D. Maria war gerade zwei Jahre alt war, kehrte ihr Großvater, König D. João VI., 1821 mit dem Hofstaat nach Portugal zurück und ihr Vater, der Erbe der portugiesischen Krone, rief gleich im darauffolgenden Jahr die Unabhängigkeit Brasiliens aus und wurde erster (konstitutioneller) Kaiser des neuen Landes. “Offizieller” Eintritt der kleinen Prinzessin in die Politik Mit dem Tode von D. João VI.

(der, wie wir heute wissen, ermordet wurde) war es an ihr, der ältesten Enkelin, den Platz des Vaters einzunehmen, der sich geweigert hatte, nach Portugal zurückzukehren. Zu dieser Zeit war die erst Siebenjährige noch nicht alt genug um zu regieren. Deswegen musste sie per Ferntrauung ihren Onkel, den damals 24-jährigen Infanten D. Miguel heiraten, der zum Regenten des portugiesischen Königreichs ernannt wurde und das Gesicht des portugiesischen Absolutismus widerspiegelte. Als jedoch D. Pedro I. 1822 die Unabhängigkeit Brasiliens ausrief, beantragte D. Miguel im Rat der Drei Stände den Verlust der Erbrechte des Bruders, was sofort beschlossen wurde. Entschlossen, sich an die Spitze der absolutistischen Bewegung zu setzen, nahm er anstelle seiner Gemahlin den Thron ein und eröffnete damit einen der blutigsten Abschnitte der portugiesischen Geschichte. Es begann der Bruderzwist zwischen Absolutisten, oder „Miguelisten“, und Liberalen, oder „Pedristen“. D. Pedros I. Sorgen um den portugiesischen Thron und die politischen Niederlagen in Brasilien bewogen ihn, 1831 auf den brasilianischen Thron zu verzichten; er schiffte sich nach Portugal ein und überließ den Platz seinem erst fünfjährigen Sohn D. Pedro II. Mit Hilfe der Alliierten siegte er im Krieg gegen die Liberalen. Aber D. Pedro I., der die Regentschaft im Namen der Tochter führte, war schwer krank und sollte mit 36 Jahren Ende 1834 sterben. Daraufhin bestieg seine Tochter den Thron als konstitutionelle Monarchin. Sie war 15 Jahre alt. Man erzählt sich, ihre Ankunft in Lissabon habe beim Volk, das der vielen Jahre des Bruderkriegs müde war, unbändige Freude ausgelöst. D. Maria II. übte also die Herrschaft in Portugal aus und bewies Intelligenz und Achtung vor den Prinzipien der Verfassung. Die großen Wirren Noch 1834 wurde die Ehe mit D. Miguel aufgelöst und damit, da die erste Ehe ja nicht lange gedauert hatte, der Weg frei zu neuen Heiratsverhandlungen mit dem Bruder ihrer Stiefmutter D. Amelie von Leuchtenberg. Immer noch 15 Jahre alt, heiratete sie den jungen Prinzen August von Leuchtenberg, der jedoch zwei Monate danach starb. Die Zeit bis zur dritten Heirat war kurz. Drei Monate nach dem Tode des Gemahls waren die Verhandlungen für die neue Hochzeit bereits abgeschlossen. Der Bräutigam war ein Neffe König Leopolds von Belgien, von Geburt Österreicher wie die Familie der Braut mütterlicherseits. Ferdinand von Sachsen-Coburg-Gotha-Kohari eroberte das Herz der jungen Königin und am 9. April 1836, kaum mehr als ein Jahr nach dem Tode Augusts von Leuchtenberg, heirateten sie in der Sé (Bischofskathedrale) von Lissabon;

die Königin gebar ihm elf Kinder, darunter D. Pedro und D. Luís, die Könige von Portugal werden sollten. Er war ein wurderbarer Gatte. “Ich liebe ihn mehr als mich selbst”, schrieb D. Maria II. an die Königin von England. D. Fernando, ihr Gemahl, der als Mäzen an kulturelle Ereignisse gewöhnt war, brachte neues dynamisches Leben in den Palácio das Necessidades. Er führte D. Maria II. mit seiner Vorliebe zu literarischen Begegnungen, Theater und Musik. Mit angenehm modulierter Stimme sang der Gemahl der Königin bei Familienabenden zum Klavier. Das Königspaar machte aus den Sälen des Palastes einen Ort mit Geschmack und gesellschaftlichem Leben. Gewohnheiten des Königs, wie Spaziergänge in den Gärten, zu Pferd oder zu Fuß und Ausflüge in die Berge, wurden von da an Teil des täglichen Lebens von Maria II. Diese Freiluftaktivitäten führten dazu, dass die Königin von Fremden in flagranti in schmutziger und fleckiger Kleidung und mit Schweißperlen im Gesicht ertappt wurde, sodass sie als schmutzige und übelriechende Frau gesehen wurde, die wenig auf Körperhygiene gab. Aber es war der Beiname “dicke Königin”, der ihren Weg bezeichnen sollte. Mehr als vollschlank für ihre Größe war D. Maria II. korpulent und fettleibig, mit außerordentlich hervorstehender Leibesfülle. Während ihrer Herrschaft musste ein besonderer Thron für sie angeschafft werden, der ihr Gewicht und ihre Maße aufnehmen konnte. Der Sarg, in dem ihr Leib beigesetzt wurde, hatte ebenfalls außergewöhnliche Dimensionen, er maß neun Spannen in der Länge, viereinhalb in der Höhe und fast fünf in der Breite. In der Öffentlichkeit galt sie als jähzornig, herrisch, willkürlich und schwierig im Umgang. Aber zu Hause kann man D. Maria II. Weichheit nicht absprechen, vor allem nicht gegenüber Ehemann und Kindern. Im häuslichen Leben war sie nur „die gute Mutter“. Allmählich schwanden ihre mädchenhaften Züge unter der Last der Verantwortung einer Königin und gebärfreudigen Frau.

Die Erziehung der Kinder Trotz ihrer Pflichten als Regierende kümmerte sich D. Maria II. selbst um strenge Disziplin bei ihren Kindern. Spaziergänge und –fahrten mit den Kleinen waren an der Tagesordnung, in der Kutsche durch Lissabon oder zu Fuß im Jardim da Estrela. Der Spanier Bulhão Pato, ein Dichter, Essay- und Memoirenschreiber der portugiesischen Politik des XIX. Jahrhunderts, erzählt in seinen Memoiren, eines Tages, als D. Luís mit seiner Mutter spazierenging, sei er unerwartet von einem Kind umarmt worden. Der Prinz reagierte abwehrend und entfernte sich brüsk von dem Kind. D. Maria II. tadelte den Sohn öffentlich

und gebot ihm, sich bei dem Kind, das er beleidigt hatte, zu entschuldigen und die Umarmung zu erwidern. Sie verbot den Kindern auch, die Diener weniger respektvoll zu behandeln. Die Infanten durften auch den einfachsten Bediensteten des Palastes nicht duzen, ebensowenig wie die Lehrer, denen respektvollste Aufmerksamkeit zuteil wurde. Ihre Sorgfalt bei den Kindern war außergewöhnlich. Sie alle wurden sehr sorgsam und in großer Disziplin erzogen. D. Fernando las und kommentierte die Schulübungen der Kinder und D. Maria II. lugte sogar durch das Schlüsselloch, um zu sehen, ob sie lernten oder schliefen. Die Ergebnisse so großer Umsicht wurden weithin sichtbar, vor allem bei den beiden ältesten Söhnen, die, wie man weiß, D. Maria II. auf den Thron folgten. Sowohl D. Pedro als auch Luís I. waren ausserordentlich gebildete Prinzen. Während ihrer kurzen Regierungszeit, in der Phase der größten Wirren unserer Geschichte, führte D. Maria II. das Land durch eine besonders schwierige Zeit, Portugals Übergang vom Absolutismus zur konstitutionellen Monarchie. Verschiedene historisch bedeutende Ereignisse fielen in ihre Herrschaft: die Invasionen Frankreichs, der Bürgerkrieg, die Septemberrevolution, der Staatsstreich, bekannt als „Belenzada“ (Verschwörung von Belém), die Revolte der Marschälle (1837), eine Bewegung, die von den moderaten Kräften beendet wurde. Ein Jahr danach wird die Königin mit der Zustimmung zur Verfassung von 1838 konfrontiert. Darauf folgten immer weitere Revolten wie die der Maria da Fonte (1846-1847) und der Patuleia (1847). D. Maria II. war ständig Ziel einer schonungslosen Opposition, die aus den Kämpfen der Liberalen hervorgegangen war und nie die politischen Fähigkeiten der Königin anerkannte. Aber selbst angesichts vieler Revolten und einer schweren Finanzkrise gelang es D. Maria II. sich an der Macht zu halten. Der Kampf um eine neue Form monarchischen Regierens mitten im Aufstieg des Liberalismus bestimmte die politischen Zusammenstöße während ihrer Regierungszeit. Sie war eine konstitutionelle Monarchin, tendierte aber zu absolutischem Handeln - fast eine Familientradition - und hielt ihre Herrschaft immer mit Gewalt aufrecht, nicht nur mit politischer Klugheit und Diplomatie. Die extremistischen Parteien forderten sogar öffentlich ihre Abdankung inmitten der Volksaufstände. Die Königin lehnte dies mit Festigkeit ab, denn sie war der Auffassung, die politische Stabilität Portugals hinge von ihrer Rolle ab: “Eher würde ich auf den Straßen kämpfend sterben als abdanken”, sagte sie. Auch vor Verleumdungen der Opposition blieb sie nicht verschont. Rodrigo de Fonseca Magalhães, einer

der wichtigsten portugiesischen Liberalen, beschuldigte sie des Ehebruchs, eine der schwersten Beleidigungen für eine Frau ihrer Zeit und ihrer sozialen Stellung. Die Freundschaft der Königin für Costa Cabral, den politischen Gegenspieler von Fonseca Magalhães und starken Mann der Verwaltung während der Herrschaft Marias II., diente als Rechtfertigung für das „Gemurmel“ von einer Romanze, weil Cabral sich an der Regierung hielt, auch als Fonseca Magalhães schwere politische Krisen heraufbeschwor. Dona Maria II., die “Erzieherin” Die starke Hand, so bewundern ihre Biographen ihre Ruhe und Gelassenheit, mit der sie die Probleme des Staates anging, nachdem sie alle politischen Krisen in schwangerem Zustand durchlebt hatte. Maria II. beendete ihre Herrschaft endlich ohne Bürgerkriege. Sie war anerkannt als große Erzieherin wegen ihrer Tätigkeit im Bildungsbereich, wie der Reform der Universität Coimbra und der Schaffung von Gymnasien und Schulen für Medizin und Chirurgie in Lissabon und Porto. Sie beflügelte auch die kulturelle Entwicklung in Portugal, gründete die Schule für Dramatische Kunst, die Akademie der Schönen Künste und das Theater in Lissabon, das später den Namen D. Maria II. bekommen sollte. So blieb ihr Name mit dem Nationaltheater verbunden, nicht, weil sie stets eine Politik des Mäzenatentums gepflegt hätte, sondern weil der Eröffnungstag des Gebäudes genau auf ihren Geburtstag fiel. Zufälle der Geschichte! Anders als viele andere Königinnen, die sich aufgrund eigener Wünsche und Skandale aus der Rolle stahlen, die ihnen als Frauen ihrer Zeit zugemessen war, war die geborene „Brasilianerin“, die zur Herscherin Portugals wurde, stets darauf bedacht, zu ihren Wurzeln zurückzukehren. Sie war zuerst Frau und dann erst Königin. Diese auf ihre Persönlichkeit zutreffende Eigenschaft der Mütterlichkeit, die Mutter, die für die Kinder sorgt und sie behütet, aber auch erzieht und bewahrt, kennzeichnet ja auch die typische Identität des französischen Liberalismus, wenn auf dem Bild von Eugène Delacroix „Die Freiheit, die das Volk anführt“ Marianne die Nationalflagge hochhält. Maria II. starb am 15. November 1853 im Palácio das Necessidades, bei ihrer elften Geburt. Auf ihren Grabstein wurde ein letztes Lob ihres Gemahls eingemeißelt, mit dem sie auch heute noch im Gedächtnis des Volkes weiterlebt: “Die beste der Mütter und eine vorbildliche Ehefrau“. Eigenschaften, die selbst die Gegner dieser ungewöhnlichen Frau anerkannten.

(Übersetzung aus dem Portugiesischen von Barbara Böer Alves)


Histórias da História

PORTUGAL POST Nº 212 • Março 2012

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D. Maria II (1819 – 1853)

Poder feminino em Portugal. Orgulho e preconceito Joaquim Peito

A história reservou-lhe um dificílimo papel: ocupou o trono graças às alterações sociais desencadeadas por Mouzinho da Silveira na ilha Terceira e ao apoio dos liberais espanhóis. Só no fim da vida aceita que a paz exige a rotação dos partidos e aprende a usar o poder moderador. Começo por uma citação: “Não há rainha mais virtuosa como esposa e como mãe de família. A sua casa pode servir de exemplo a todas as da Europa”. Quem escreveu isto sobre D. Maria II foi o a mais violento dos seus inimigos, Rodrigues Sampaio, setembrista radical e exaltado. Mãe dedicada, D. Maria II governava Portugal e a família na mesma medida. “Se morrer, morro no meu papel!” Maria II repetia esta frase enquanto enfrentava as dificuldades dos seus 12 partos. Mal sabia que antecipava o seu trágico destino. Morreu aos 34 anos, ao dar à luz o seu último filho. Pouco exposta na sua intimidade, fixou na memória lusitana a imagem da face redonda, ladeada de cabelos penteados e fartamente cacheados imortalizada na antiga nota de mil escudos. Por favor, nada de saudosismo ao desaparecido escudo. Filha mais velha do imperador do Brasil, D. Pedro I, e da arquiduquesa da Áustria, D. Leopoldina, Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, de seu nome completo, nasceu no Rio de Janeiro no Palácio de S. Cristóvão a 4 de abril de 1819. Ironicamente, esta “brasileira” que assumiu mais tarde o trono português é desconhecida pela maioria dos brasileiros. Era uma época tempestuosa, tanto na Europa, onde os velhos sistemas políticos tradicionais estavam em derrocada, como na América, onde as colónias das potências europeias se agitavam para obterem a independência. Um exemplo expressivo foi, como se sabe, o próprio Brasil. Em 1821, quando D. Maria tinha dois anos, o rei D. João VI, seu avô, regressou, com a corte, a Portugal e logo no ano seguinte o seu pai, herdeiro da coroa portuguesa, proclamava a independência do Brasil e tornava-se o primeiro imperador (constitucional) do novo país. A entrada “oficial” da princezinha na política Com a morte de D. João VI (assassinado, sabemo-lo hoje), restou a ela, que era a neta mais velha, assumir o lugar do pai, que se recusara a voltar para Portugal. Nessa época, com apenas sete anos, não tinha idade para governar. Por isso, teve que se casar por procuração com o seu tio, o infante D. Miguel, então com 24 anos, que foi nomeado regente do reino português e era o rosto do absolutismo português.

Mas quando D. Pedro I proclamou a Independência do Brasil, em 1822, D. Miguel pediu ao Conselho dos Três Estados a perda dos direitos sucessórios do irmão, o que foi prontamente feito. Decidido a encabeçar o movimento absolutista, assumiu o trono no lugar da esposa, inaugurando um dos períodos mais sangrentos da história lusitana. Começava o embate entre absolutistas, ou “miguelistas”, e liberais, ou “pedristas”. As preocupações de D. Pedro I com o trono português e as derrotas políticas no Brasil levaram-no à abdicação do trono brasileiro em 1831, rumando para Portugal e deixando em seu lugar o filho de apenas cinco anos de idade, D. Pedro II. Com o apoio dos aliados, venceu a guerra liberal. Mas D. Pedro I, que exercia a regência em nome da filha, estava gravemente doente e viria a morrer, com 36 anos, nos finais de 1834. A sua filha subiu ao trono como monarca constitucional. Tinha 15 anos. Conta-se que a sua chegada a Lisboa marcou um dia de extrema alegria para o povo, cansado de muitos anos de guerra entre irmãos. D. Maria II exerce assim a regência em Portugal e mostra-se inteligente e respeitadora dos princípios constitucionais. A grande confusão Ainda em 1834, o casamento com D. Miguel foi dissolvido, abrindo caminho para os arranjos do segundo matrimónio, já que o primeiro pouco durou, com o irmão de sua madrasta, D. Amélia de Leuchtenberg. Ainda com 15 anos, casou-se com o jovem príncipe Augusto de Leuchtenberg, que morreu dois meses depois. O intervalo para o terceiro casamento foi curto. Três meses depois da morte do marido, as negociações para as novas bodas já estavam concluídas. O noivo era sobrinho do rei Leopoldo, da Bélgica, sendo austríaco de nascimento, como a família materna da noiva. Fernando Saxe-GothaCoburgo-Kohari roubou o coração da jovem rainha, e a 9 de abril de 1836, pouco mais de um ano após a morte de Augusto de Leuchtenberg, casaram-se na Sé de Lisboa, de quem teve onze filhos, entre os quais D. Pedro e D. Luís que viriam a ser reis de Portugal. Foi um marido excelente. “Gosto mais dele que de mim própria”, escreveu D. Maria II à rainha de Inglaterra. Mecenas habituado aos eventos culturais, D. Fernando, seu marido, trouxe para o Palácio das Necessidades uma nova dinâmica de vida. Influenciou Maria II com o seu gosto por encontros literários, teatro e música.

Com uma voz modulada e agradável, o rei cantava ao piano nos serões familiares. O casal real fez dos salões do palácio um local de gosto e de convívio social. Hábitos do rei, como os passeios nos jardins a cavalo ou a pé e as visitas às montanhas, passaram a fazer parte do quotidiano de Maria II. Essas atividades ao ar livre permitiram que muitas vezes a rainha fosse apanhada em flagrante por estranhos com vestidos sujos e manchados, além de borbulhante de transpiração, vindo a ser conhecida como uma mulher pouco dada à higiene corporal, suja e de mau cheiro. Mas foi o apelido de “rainha gorda” que marcou a sua trajetória. Portadora de uma estatura acima da média para a altura, D. Maria II era obesa e corpulenta, com um ventre abaulado, extraordinariamente projetado. Durante o seu reinado, foi necessário providenciar um trono especial que suportasse o seu peso e comportasse as suas medidas. A urna mortuária onde foi depositado o seu corpo também tinha dimensões fora da média, contando com nove palmos de comprimento, quatro e meio de altura e quase cinco de largura. Em público, era considerada geniosa, déspota, tirana e de difícil trato. Mas, no lar, não se pode negar a docilidade de D. Maria II, notadamente em relação ao marido e aos filhos. Na vida doméstica, ela era somente “a boa mãe”. Aos poucos, as suas feições de menina foram-se perdendo, entre as responsabilidades de rainha e a fecundidade de matrona. A educação dos filhos Apesar das obrigações de governante, D. Maria II cuidou diretamente da rigorosa disciplina dos filhos.

Eram rotineiros os passeios com os pequenos, de carruagem por Lisboa ou a pé no Jardim da Estrela. O espanhol Bulhão Pato, poeta, ensaísta e memorialista da política portuguesa do século XIX, conta nas suas Memórias que certo dia, quando o príncipe D. Luís caminhava com a mãe, foi inesperadamente abraçado por uma criança. O príncipe teve uma reação de repulsa, afastando-se bruscamente do menino. D. Maria II corrigiu o filho em público, obrigando-o a pedir desculpas à criança ofendida e a retribuir-lhe o abraço. Ela também proibia os filhos de usarem tratamento pouco respeitoso com os serviçais. Os infantes eram impedidos de tratar por “tu” até o mais esquecido criado do palácio, assim como os professores, aos quais eram dispensadas as mais respeitosas atenções. A sua preocupação com os filhos era enorme. Foram, todos eles educados com grande cuidado e grande disciplina, e sob a vigilância e pessoal dos pais. D. Fernando lia e comentava os exercícios escolares dos filhos e D. Maria II chegava a espreitar pelo buraco da fechadura, para ver se as crianças estavam mesmo a estudar ou a dormir. Os resultados de tanta atenção ficaram bem patentes, sobretudo, nos dois filhos mais velhos, que como se sabe, sucederam no trono a D. Maria II. Tanto D. Pedro como Luís I foram príncipes excecionalmente cultos. Durante o seu curto reinado, um dos mais conturbados períodos da nossa história, a raínha D. Maria II governou o país num período particularmente complicado da História de Portugal, quando se dava a passagem do absolutismo para o constitucionalismo. Vários acontecimentos históricos se passaram : as invasões francesas, a guerra civil, a revolução de setembro, o golpe de Estado que ficou conhecido como “Belenzada”, a revolta dos Marechais (1837), movimento levado a cabo pelos setores moderados. Um ano depois, a rainha é confrontada com a aprovação da Constituição de 1838. E a esta seguiram-se ainda mais e mais revoltas como Maria da Fonte (1846-1847) e Revolta da Patuleia (1847). D. Maria II foi alvo constante de uma oposição cruel, remanescente das lutas liberais, que nunca reconheceu a sua habilidade política. Mesmo diante de muitas revoltas e de uma grave crise financeira, D. Maria II soube manter-se no poder. A luta por uma nova forma de governo monárquico, no momento de ascensão do liberalismo, marcou os embates políticos do seu reinado. Sendo uma rainha constitucional, tendia a agir como absolu-

tista, quase uma tradição de família, e foi sempre pela força que o seu reinado se manteve, e não apenas pela astúcia política e pela diplomacia. Os partidos extremistas chegaram a pedir a sua abdicação em praça pública, em meio às revoltas populares. A rainha recusou com segurança, por entender que a estabilidade política portuguesa dependia de seu papel: “Mais depressa morreria combatendo nas ruas do que abdicar”, dizia. A oposição também lhe atirou difamações. Rodrigo de Fonseca Magalhães, um dos mais importantes liberais portugueses, acusava-a de adúltera, uma das maiores ofensas para uma mulher da sua época e posição social. A amizade da rainha com Costa Cabral, inimigo político de Fonseca Magalhães e homem forte da administração no reinado de Maria II, servia como justificativa ao “burburinho” do romance, posto se manter no governo mesmo diante de graves crises políticas por ele provocadas. D. Maria II a “educadora” De pulso forte, os seus biógrafos admiram a calma e a placidez com que enfrentou os problemas de Estado, tendo atravessado todas as crises políticas grávida. Maria II terminou o reinado já sem guerras civis. Foi reconhecida como grande educadora, em razão das obras no campo do ensino, como a reforma na Universidade de Coimbra e a criação de liceus e escolas médico-cirúrgicas em Lisboa e no Porto. Também incentivou o desenvolvimento cultural português, criando a Escola de Arte Dramática, a Academia de Belas Artes e o teatro em Lisboa, que receberia o nome D. Maria II. Viu assim o seu nome associado ao Teatro Nacional, não pelo facto de ter sempre implementado políticas de caríz mecenático, mas porque o dia da inauguração do edifício coincidiu precisamente com o dia do seu aniversário. Coincidências da história! Ao contrário de muitas outras rainhas, que se afastaram voluntária e escandalosamente dos papéis destinados às mulheres da sua época, a “brasileira” de nascimento que se tornou regente de Portugal fazia questão de sempre voltar à sua origem: fora mulher antes de ser rainha. Essa caraterística maternal criada em torno da sua personalidade, a mãe que cuida dos filhos e os guarda, mas que também educa e conserva, marca a identidade típica do liberalismo francês, quando a bandeira da pátria foi empunhada por Marianne no quadro “A liberdade guiando o povo”, de Eugene Delacroix. Morreu no Palácio das Necessidades, a 15 de Novembro de 1853 quando dava à luz pela décima primeira vez. No seu túmulo foi grafado o elogio final do marido, pelo qual ainda é lembrada pelo povo português : “A melhor das mães e o modelo das esposas”. Qualidades mesmo reconhecidas pelos seus inimigos desta mulher invulgar.


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Será um AVC motivo de despedimento? Miguel Krag, Advogado

Uma crença errónea muito comum é a de que o empregador não poderá despedir um trabalhador durante o período em que o mesmo esteja doente. Se o despedimento for justificado, o trabalhador tanto poderá ser despedido quando estiver de boa saúde, como quando se encontrar doente. Em certos casos, o despedimento será mesmo justificado por uma enfermidade. Contudo, para que uma rescisão de contrato causada pela incapacidade para o trabalho devido a doença possa ser

justificada socialmente ao abrigo da lei de protecção contra rescisões ilícitas, deverão persistir os pressupostos seguintes: 1. Um prognóstico negativo da enfermidade 2. Uma afectação considerável dos interesses da empresa 3. Uma ponderação de interesses, cujo resultado seja a favor do empregador Terá de persistir em primeiro lugar um prognóstico negativo da doença. Isto quer dizer que a saúde do trabalhador não se restabelecerá em tempo determiná-

vel. Além disso, será ainda necessário que os interesses da empresa sejam afectados de forma considerável e, finalmente, que se ponderem

os interesses do empregador e do trabalhador. O despedimento apenas será considerado justo se prevalecerem os interesses do

empregador. No ano passado, o Tribunal Regional de Trabalho de Colónia decidiu que não teve justa causa o despedimento de um trabalhador que havia sofrido um AVC. Apesar de existir um prognóstico negativo da enfermidade e de serem consideravelmente afectados os interesses da empresa, o tribunal considerou que, para proceder ao despedimento, o empregador deveria ter esperado mais do que os 3 meses e meio que se seguiram ao AVC. Foi assim dada primazia aos interesses do trabalhador e esteve manteve o seu lugar de trabalho. PUB

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José Gomes Rodrigues

Participaçou em Simpósio Internacional em Lisboa Enviado do PORTUGAL POST membro do KAB

O Mundo do Trabalho no contexto Europeu

O papel do Assistente Social é complexo e multifacetado. Ha quem exija dele a solução de problemas que surgem no seu dia a dia: desde o levantar ao deitar, desde o nascimento até à morte com o funeral. Seria uma espécie de tapaburacos para suprimir a incapacidade de soluções políticas, o fechar a lacuna que a lei possa apresentar. Seria a longa mão dos políticos ou uma espécie de almofada para manter numa paz silenciosa, mas enganosa e irreal a sociedade? Claro que não é isso. O Assistente Social pode ser a voz, muitas vezes dissonante, que interpela os políticos e responsáveis para problemas sociais e prementes. Procura soluções em conjunto com os intervenientes. Fortalece vontades para não desfalecerem na luta. Motiva e dá razões para uma ação concertada, mas com metas concretas e realizáveis, através de etapas tangíveis, sendo a sua eficiência averiguável. Intenta, em conjunto com as mais diversas forcas sociais, aplanar o caminho, retirando as pedras que impedem a condução duma vida de acordo com os parâmetros duma sociedade, onde cada cidadão tem o seu espaço, vivendo com dignidade, detentor dos seus direitos e deveres. Foi neste contexto que, desta vez, usamos desta página para nos dedicarmos a um tema de suam importância: O trabalho no contexto Europeu, convencidos da sua importância neste campo social. O MUNDO DO TRABALHO PROCURA URGENTES RESPOSTAS Uma das maiores preocupações da atualidade é a pobreza que vai espreitando e entrando, sem pedir autorização, em muitos lares da Europa, corroendo a saúde, o bem-estar e subtraindo até a dignidade sagrada de cada ser humano. É o racionamento e a precariedade dos lugares de trabalho, provocados pela dificuldade no escoamento da produção. Foi o aparelho do estado que se agigantou, sem nenhuma força política a querer inverter a marcha. Os ordenados vão sendo reduzidos. Abundam empresas que, esquecendo os mais fundamentais deveres da ética e da moral sócio laboral, deixam famílias na penúria. A incapacidade financeira de respeitar os compromissos com os bancos, provocam a perda dos seus haveres, a sua habitação. A incerteza no dia de amanhã grassa todas as idades, pausando nos mais jovens. Discriminação é outra palavra chave que invade o dicionário laboral. Vão-se notando sinais de escravidão por parte de quem trabalha que é considerado, quase exclusivamente, como um objeto para angariar riqueza que se pode manipular ou deixar de lado. Esta situação é aproveitada pelos empresários para destruir paulatinamente os seus direitos, muitas vezes com a colaboração direta do Estado. Direitos estes conquistados com muito suor e sangue, numa luta constante de dezenas de anos e até de séculos. Esta problemática ultrapassou já as fronteiras do país, passando a ser um tema na boca de todos, cuja solução só pode ser encontrada numa visão nova e global do mundo. Deixou de ser um problema Europeu para ser uma preocupação a nível mundial. A China

que, numa atitude de desprezo pelos mais elementares direitos humanos e de trabalho, vai colocando no mercado ao desbarato, produtos fabricados não só com o suor, mas até com sangue duma escravidão escondida e camuflada. Estamos numa Europa que viveu muitos anos e até séculos dependendo das matérias primas arrancadas ao desbarato e à custa da pobreza dos paises colonizados e despidos dos seus elementares direitos e da dignidade humana. Apesar destes nefastos resultados, a história repete-se, talvez com outros atores mais agressivos. Devemos ter mais consciência da história e sem receio de a procurar descrever de novo, mas com outros parâmetros. EM LISBOA PARA EM DEBATE E PROCURA DE SOLUÇÕES ABRANGENTES Esta é uma das situações mais agravantes que tem alimentado as discussões de organismos responsáveis, desde sindicatos a movimentos de trabalhadores, a nível nacional e europeus. Em todos os quadrantes, vão se procurando responsáveis, culpados e soluções, através de sérias reflexões. Encontrar um denominador comum, não tem sido fácil. Foi com este intuito que o movimento português BASE-FUTE (Frente Unitária de Trabalhadores), o CFTL (Centro de Formação e Tempos Livres) e com o apoio da Comissão Européia e em estreita colaboração com a EZA (Centro Europeu de Trabalhadores), com sede em Königswinter, Alemanha, convidaram outros organismos similares nacionais e Europeus para um encontro-debate internacional, de 9 a 12 de Fevereiro num Hotel em Lisboa. O debate centrouse no tema: “Igualdade de Oportunidades e a Estratégia 2020: Desafios para a União Européia”. A FIDESTRA, (movimento de formação de trabalhadores), a LOC / MTC, (Liga dos Operários Cristãos) e a BAGIV (Confederação Nacional das Associações de Imigrantes na Alemanha e elementos independentes dos diversos sindicatos, marcaram igualmente uma presença sempre ativa e atenta. QUAL O RUMO DAS POLÍTICAS SOCIAIS EUROPEIAS Poderá ser cinismo fixar 2020 para a concretização duma meta para instaurar um objetivo de tamanha importância: igualdade de Oportunidades, tendo em conta a situação tão turbulenta na Europa. Uma Europa que esqueceu o tratado de Roma, um tratado que previa a previa como um espaço de Paz de Solidariedade, com direitos humanos e serem preservados e respeitados. O que temos visto nestes anos é mais uma Europa de mercado que esta esquecendo a Europa Social, mas de aglutinação de riquezas, competindo agressivamente com os palcos mundiais das finanças. É o que se tem constatado ultimamente, mesmo que os mais elementares direitos dos trabalhadores sejam reduzidos e até dizimados. Uma Europa na qual a entre ajuda pouco tem a ver com a solidariedade, expressando-se esta em empréstimos a paises mais vulneráveis, com juros elevadíssimos, continuando a empobrecer cada vez mais os elos mais fracos e empobrecidos. E tudo se faz como se os trabalhadores tenham sido os maus da fita, o

6. Necessidade de um quadro jurídico que fundamente uma ação sindical européia. 7. Que as mudanças que ocorrem nas diferentes legislações nacionais e do normativo da UE não subvertam os elementos nucleares do direito laboral que são a proteção dos trabalhadores e os direitos alcançados ao nível das condições de trabalho, que a contratação coletiva foi materializando ao longo dos tempos.

Aspecto do Simpósio realizado em Lisboa que é a eles totalmente alheio. É uma Europa a duas ou três velocidades, procurando uns poucos manter e fortalecer a dependência e a hegemonia sobre os outros. É a guerra da supremacia de uns poucos. Não será uma nova edição duma guerra de poder sem as armas tradicionais e visíveis? Desta forma não terá já a Europa renegado os seus valores milionários, ditos cristãos, que a orientaram e a uniram? Este procedimento leva a uma resposta afirmativa. Não levarão estes valores a um respeito sagrado para com a pessoa humana, colocando-a no centro da economia e nas suas mais fundamentais decisões? Não estará o respeito, a tolerância, a igualdade de oportunidades, entre outros, enraizados neste espírito, abrindo-nos a um mundo diversificado? Não seria necessário, antes de mais, apaziguarnos reencontrando as raízes comuns para usarmos uma linguagem comum a todos? PARTIDOS E SINDICATOS - NECESSÁRIA UMA NOVA DEFINIÇÃO? Perante esta visão, vai-se constatando que os partidos políticos estão cada vez mais divorciados dos seus eleitores. O interesse do partido e a salvaguarda do enriquecimento dos seus membros têm todo uma certa supremacia nas decisões políticas. O bem comum vai esvaziandose no seu sentido. A perda de confiança perante os eleitores esta a ser cada vez mais notória e os lindos discursos não corresponde muitas vezes aos anseios da população. Não deixam de constituir uma retórica de lindas palavras para se manterem ou regressar ao poder. Os seus militantes deixam-se manipular facilmente pelo partido, deixando espelhar na base o mesmo espírito, não conseguindo ver mais longe e libertar-se de esquemas muitas vezes longínquos da realidade. Os sindicatos que tem tido um papel fundamental na luta da classe operária, vai, neste contexto perdendo a confiança dos seus sócios. O trabalhador torna-se mais passivo e vai desistindo das fileiras destas forças necessárias e reivindicativas. Uns porque seguem quase à risca as ordens dum determinado partido, deixandose atrelar a ele, seja de que cor for, outros porque dão a mão mais facilmente aos estratos laborais que mais benefícios usufruem. Um sindicalismo responsável e forte deve ser mais europeu e que tenha condições de diálogo com as forças sociais que estejam enraizados no bem comum e não se deixarem manipular pelo partido. Que se crie mais riqueza e que seja devidamente repartida, proporcionando uma maior

qualidade de vida. É necessário e urgente inventar medidas para incentivar a confiança entre o partido e os seus possíveis eleitores, entre sindicatos e os seus sócios de forma a provocar uma maior interesse, responsabilidade e participação política e sindical de todo o povo. Estas foram algumas das linhas gerais da reflexão de Lisboa, sempre coadjuvada por especialistas bem fundamentados em teoria e em experiência e sempre enriquecida pela participação ativa dos muitos, mais de seis dezenas, que vieram da base e que servirão como multiplicadores das mesmas. O seminário permitiu uma ampla e livre reflexão sobre os atuais caminhos da União Européia, num grave e preocupante contexto de crise financeira, econômica e social agravada ainda pela crise da moeda única. Os participantes, oriundos de Itália, Espanha, Polônia, Alemanha, França, Romênia, Republica Checa e Portugal, quiseram deixar algumas importantes recomendações, recados que transcrevemos:

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ASSISTENTE SOCIAL UMA VOZ INTERROGANTE E A REDEFINIr

1. A necessidade urgente de criar condições para a correção das trajetórias, políticas, econômicas e sociais, retomando os princípios inspiradores do tratado de Roma, centrado na Paz e na Solidariedade, na mudança e harmonização do progresso e bem-estar dos povos. 2. A necessidade duma forte aposta em políticas de emprego e combate à pobreza, em particular nos paises mais vulneráveis, reforçando a solidariedade e a coesão econômica e social. 3. A necessidade urgente duma política fiscal européia e de controlo das transações financeiras de modo a reforçar a governação política sobre a economia, colocando esta ao serviço das pessoas. 4. A necessidade de revitalizar e credibilizar a democracia através da participação dos cidadãos e suas organizações, de modo a que a Europa seja efetivamente um espaço de liberdade e de Paz. 5. A necessidade de revitalizar e resolver o problema da divida soberana, através de políticas sustentáveis que permitam o crescimento dos povos da União e evitem situações de alerta social como na Grécia, Irlanda, Portugal, Itália e Espanha.

8. Que ao nível do tempo de trabalho se promova o equilíbrio entre a vida profissional, familiar e social. É absolutamente necessário manter e desenvolver os tempos de trabalho, descanso e de vida (oito, mais oito, mais oito) promovendo um melhor aproveitamento das novas tecnologias que devem também beneficiar os trabalhadores. 9. Que se desenvolva uma política para os cuidados dos idosos, numa perceptiva eminentemente preventiva com o devido envolvimento dos profissionais e voluntários, potenciando nomeadamente a economia social. Esta política de cuidados será um contributo valioso para a conciliação e a igualdade. 10. Promover o prolongamento da cláusula de caducidade (sunset Clause) para as políticas de ação positiva (descriminação positiva) nas áreas: da formação e educação para a cidadania ativa; reforçar a integração da igualdade de oportunidades nos currículos escolares; motivar o emprego jovem e o envelhecimento ativo. 11. Promover, através da legislação especifica, a renovação e o esforço de incentivos financeiros na criação de emprego e a substituição da ausência por maternidade, por trabalhadores jovens e seniores ativos. 12. A União Européia deverá criar uma diretiva no sentido de impedir o empobrecimento das famílias monoparentais através de regulamentação, fiscalização e celeridade nos procedimentos de regulação paternal. 13. Recomendamos que a reconhecida precariedade não poderá ser motivo para descriminação, nem social, nem laboral, nem remuneratória. 14. Recomendamos que os Estados criem condições de benefícios financeiros e fiscais às empresas no que concerne a manutenção e contratação de mulheres grávidas. 15. Recomenda-se um maior aprofundamento do que é o tempo de trabalho nas sociedades modernas, nomeadamente tendo em conta as novas TIC`s, bem como as formas de gestão por objetivos.

Os participantes constatam e reconhecem os avanços significativos que os paises da União Européia realizaram no campo da igualdade e conciliação da vida profissional, familiar e social. Estes avanços não podem sofrer qualquer retrocesso tendo como pretexto a crise que se vive. O tema continua em aberto e passível de novos avanços que beneficiarão a economia e o bem estar das pessoas.


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PORTUGAL POST Nº 212 • Março 2012

Agenda Tome Nota

IMPORTANTE Às associações, clubes, bandas , etc.. As informações sobre os eventos a divulgar deverão dar entrada na nossa redacção até ao dia 15 de cada mês Tel.: 0231 - 83 90 289 Fax :0231-8390351 Email: correio@free.de

Endereços Úteis Embaixada de Portugal Zimmerstr.56 10117 Berlin

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Tel: 040/3553484 Consulado-Geral de Portugal em Düsseldorf Friedrichstr, 20 40217 -Düsseldorf

Tel: 0211/13878-12;13 Consulado-Geral de Portugal em Stuttgart Königstr.20 70173 Stuttgart

Maria da Piedade Frias Telefone: 0711/8889895 piedadefrias@gmail.com Fernando Genro Telefone: 0151- 15775156 fernandogenro@hotmail.com AICEP Portugal Zimmerstr.56 - 10117 Berlim Tel.: 030 254106-0 Federação de Empresários Portugueses (VPU) Hanauer Landstraße 114-116 60314 Frankfurt Tel.: +49 (0)69 90 501 933 Fax: +49 (0)69 597 99 529 Federação das Associações Portuguesas na Alemanha (FAPA) www.fapa-online.de Postfach 10 01 05 D-42801 Remscheid

Tel. 0711/2273974 Conselho das Comunidades Portuguesas: Alfredo Cardoso, Telelefone: 0172- 53 520 47 AlfredoCardoso@web.de Alfredo Stoffel Telefone: 0170 24 60 130 Alfredo.Stoffel@gmx.de José Eduardo, Telefone: 06196 - 82049 jeduardo@gmx.de

Grupo de Fados Gerações Actuações em qualquer parte da Alemanha e em todos os tipos de eventos

Contacto: 0173-2938194

FERNANDO ROLDÃO ORGANISTA / CANTOR BAILES - CASAMENTOS FESTAS - EVENTOS - KARAOKE ALEMANHA CONTACTOS 0151 451 724 90 eferrenator@gmail.com

Citações do mês "Amo-me a mim próprio demasiado para poder odiar seja o que for. Rousseau , Jean Jacques "A sorte ajuda os audazes. Virgílio

MARÇO 2012

10.03.2012 – HAGEN- Festival de Folclore. Local: Fritz-Steinhoff Gesamtschule, Am Bügel 20 10.03.2012 – NEUSS – Noite de Fados na Associação Portuguesa de Neuss. Local: Breitgasse 3a. Início: 19h30 10.03.2012 – HAMBURGO – Festa e baile. Restaurant Sporting Hamburg, Wandalenweg 4. Reservas de mesa/Tischreservierung: Tel. 040 - 35 70 47 21 17.03.2012 - WANGEN IN ALLGÄU - Tradicional festival de folclore do rancho folclórico Leões de Wangen Local:SstadtHalle de Wangen in Allgäu Início: 18h00. Participacao de vários ranchos .Música de baile e muita animação. 17.03.2012 – DORTMUND - " Tem Mulher Solteira Aí " ??? Local: Guacara Club Lundwigstraße 14, 44135 Dortmund, Germany 23.03.2012 - HAMBURGO Immobilie in Portugal? Alles was Recht ist. Für alle, die eine Immobilie in Portugal besitzen oder erwerben wollen, gibt die luso-hanseatische Rechtsanwältin Natália da Silva Costa eine Einführung in das portugiesische Immobilienrecht. Ort: das neue Restaurant Nau, Ditmar-

Koel-Str. 13. Ab 19:00 Uhr Gelegenheit zum geinsamen Essen und persönlichen Gesprächen. Anmeldung: Tel. 31 78 48 50, Fax 31 78 48 48, Email hallo@nau-hh.de

31.03.2012 – Felbach - Festa do 15 Aniversario no dia 31 de Março a partir das 18h00. Local Festhalle em FellbachSchmiden na Hofäcker Str.2, 70736 Fellbach-Schmiden

INFORMAÇÃO ÚTIL Tabela de Emolumentos Consulares Acto consular Certificado de registo consular Passaporte Pass. para menores de 12 Pass para idade superior 65 Não apresenta passap. Anterior Titulo de viagem única Passaporte temporário Cartão de cidadão Intervenção de funcionário Paradeiro - sede posto Paradeiro - fora da sede Proc. casamento Cert. de nascimento Cert. negativa de registo cert. Fins militares ou Ssocial Atribuição nac. nascimento maior Perda nacionalidade Procuração Reconhecimento assinatura Tradução estrang - port. (por lauda) Tradução português - estrangeiro Fotocópia autenticada

Até 31.12.2011 6,50 € 70,00 € 50,00 € 60,00 € 30, 00 € 10,00 € 120,00 € 20,00 € 17,00 € 7,00 € 28,00 € 100,00 € 16,50 € 23,00 € 8,00 € 175,00 € 195,00 € 37,00 € 11,00 € 32,00 € 37,00 € 20,00 €

A partir do 01.01.2012 10,00 € 75,00 € 75,00 € 75,00 € 40,00 € 25,00 € 150,00 € 20,00 € 30,00 € 15,00 € 40,00 € 120,00 € 20,00 € 25,00 € 10,00 € 220,00 € 220,00 € 50,00 € 15,00 € 40,00 € 45,00 € 23,00 €


PORTUGAL POST SHOP - Livros Ler + Português

Os Portugueses Autor: Barry Hatton Preço: € 29,00 Barry Hatton vive em Portugal há quase 25 anos. Correspondente da Associated Press em Portugal, o jornalista britânico revela no livro Os Portugueses aquilo que somos enquanto país e enquanto povo. Pelo menos aos olhos dos estrangeiros. No livro "Os Portugueses", Hatton relembra os principais momentos históricos que marcaram a nação, desde o período áureo dos Descobrimentos aos anos governados por Oliveira Salazar, sem esquecer a pela peculiar relação com Espanha, e termina com uma análise sobre a modernidade. «A minha intenção é lançar algumas luzes sobre este enigmático canto da Europa, descrever as idiossincrasias que tornam único este adorável e, por vezes, exasperante país e procurar explicações, fazendo o levantamento do caminho histórico que levou os portugueses até onde estão hoje.», avança o autor na nota prévia da obra. Paralelamente, a construção da identidade de Portugal enquanto povo e os vários estereótipos que (ainda) reinam além fronteiras são abordados e apresentados através de episódios vividos pelo autor ou por pessoas que lhe são próximas. De leitura obrigatória para todos quantos desconhecem a verdadeira alma lusa, portugueses ou não, "Os Portugueses" é uma obra obrigatória, escrita de forma apaixonada por um dos correspondentes mais antigos da imprensa internacional no nosso país.

CONTOS POPULARES PORTUGUESES Preço: € 12,00 Contos Populares Portugueses são contos de todos os tempos e de todas as idades. Uma obra que nos devolve o imaginário e o maravilhoso da nossa cultura popular, e de que faz parte, entre outras, «História da Carochinha», «A Formiga e a Neve», «O Coelhinho Branco», «A Raposa e o Lobo», «O Compadre Lobo e a Comadre Raposa» e «Os Dois Irmãos».

Eça de Queirós A CIDADE E AS SERRAS Preço: 11.50 
A Cidade e as Serras
Eça de Queiros
 O romance foi publicado em 1899 (um ano antes da morte de Eça) na Revista Moderna, e saiu em livro em 1901. Pertence à última fase do escritor, quando Eça se afasta do realismo e deixa a crítica dura que fazia à sociedade portuguesa da época.

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Jorge Amado Capitães da Areia Preço: € 10,00
 Capitães da Areia é o livro de Jorge Amado mais vendido no mundo inteiro. Publicado em 1937, teve a sua primeira edição apreendida e queimada em praça pública pelas autoridades do Estado Novo. Em 1944 conheceu nova edição e, desde então, sucederam-se as edições nacionais e estrangeira, e as adaptações para a rádio, televisão e cinema. Jorge Amado descreve, em páginas carregadas de grande beleza e dramatismo, a vida dos meninos abandonados nas ruas de São Salvador da Bahia, conhecidos por Capitães da Areia.

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José e Pilar Os dias de José Saramago e Pilar del Rio Um filme de Miguel Gonçalves Mendes Preço: € 30,90

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A Viagem do Elefante, o livro em que Saramago narra as aventuras e desventuras de um paquiderme transportado desde a corte de D.João III à do austríaco Arquiduque Maximiliano, é o ponto de partida para José e Pilar, filme de Miguel Gonçalves Mendes que retrata a relação entre José Saramago e Pilar del Rio. Mostra o Dia-a-dia do casal em Lanzarote e Lisboa, na sua casa e em viagens de trabalho por todo o mundo, José e Pilar é um retrato surpreendente de um autor durante o seu processo de criação e da relação de um casal empenhado em mudar o mundo – ou, pelo menos, em torná-lo melhor. José e Pilar revela um Saramago desconhecido, desfaz ideias feitas e prova que génio e simplicidade são compatíveis. José e Pilar é um olhar sobre a vida de um dos grandes criadores do século XX e a demonstração de que, como diz Saramago, “tudo pode ser contado doutra maneira”.

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Encomenda de Livros

CONSULTÓRIO ASTROLÓGICO E-mail: mariahelena@mariahelena.tv TELEFONE: 00 351 21 318 25 91

Como Cortar Trabalhos de Bruxaria Formato: 14x21cm Páginas: 152 Preço: 25,00 € Um ritual de magia negra posto em acção contra alguém pode prejudicar avítima e destruir a sua vida de forma brusca e surpreendente. Todas as áreasestão sujeitas a ficar afectadas. Tudo à sua volta parece ruir. E, mais graveainda, a vítima de magia negra não consegue encontrar forças para reagir. Neste livro de carácter prático, a autora apresenta rituais fáceis de executar quepermitem criar uma aura de protecção.

Orações aos Anjos da Guarda Formato: 14 X 21 cm. Páginas: 144 Preço: 25,00 € Na primeira parte desta obra encontrará um vasto número de orações aos anjos da guarda, que certamente serão do seu inteiro agrado. Na segunda parte deliciar-se-á com a listagem completa dos 72 anjos protectores. Cada um destes anjos confere características particulares mao modo de ser e de amar dos seus protegidos.

Grande Livro de Orações Formato: 14x21cm Páginas: 340 Preço: 25.99 É uma extensa antologia com centenas de orações a saantos, anjos, arcanjos e toda a corte celestial. Nestas páginas encontra uma mensagem de esperança, um motivo para acreditar que a fé existe e que nos rodeia em todos os momentos da nossa vida. É o companheiro ideal, pois as suas orações têm o poder de transmitir ao espírito a energia que restaura a alegria de viver e a confiança no amor, na paz e na esperanaa para o futuro.

Aprenda a Viver Sem Stress Formato: 15,5 X 23 cm. Páginas: 100 Preço: 20,99 Quanto mais tempo da sua vida é que está disposto a desperdiçar? Quanto mais tempo da sua vida está disposto a continuar a sofrer? Quanto da sua vida está disposto a finalmente reivindicar hoje? Quanto mais tempo vai deixar que os outros mandem nas suas escolhas? E, se reivindicar a sua vida, acha que fica a dever alguma coisa aos outros? Quando você cede ao stress, você não está ser você mesmo. Quando você cede ao stress, você passa ao lado da vida, da sua vida. Você vive em permanente sobrevivência. E quem sobrevive, sofre. E quem sofre, vive em stress. . "Aprenda a Viver Sem Stress" é um livro que o ajuda a reencontrar-se.

Orações para Todos os Males Formato: 14x21cm Páginas: 90 Preço: 22,00 € Por razões de saúde, familiares, afectivas, materiais ou espirituais, todos mpassamos em algum momento por situações difíceis. Nesta obra encontrará uma centena de orações adequadas a cada caso. Orações para encontrar mcompanheiro/a, para conseguir casar-se com o seu namorado, pela paz da família, contra doenças, etc.

Cupão de Encomenda a: PORTUGAL POST SHOP na Pág.23

Por Maria Helena Martins

Características da Mulher de cada Signo

Cada mulher encerra em si segredos e mistérios. Através da Astrologia, é possível conhecer um pouco melhor as características da personalidade de cada uma, por isso escrevi este artigo especialmente a pensar em si. Deixe-se levar nesta viagem astral de auto-conhecimento e aprenda a conhecer-se melhor.

CARNEIRO A mulher de Carneiro é independente e decidida. De todas as mulheres do Zodíaco é aquela que menos precisa da presença de um homem na sua vida porque sabe que é capaz de desempenhar sozinha todas as tarefas, até mesmo as mais pesadas. Isto não quer dizer que não se apaixone ou que não possa amar alguém, antes pelo contrário, esta nativa não pode viver sem amor, no entanto é capaz de suportar as piores desilusões com a sua coragem desmedida. Destemida, determinada e optimista, encara a vida como se de uma batalha se tratasse e da qual pretende sair sempre vitoriosa. TOURO A mulher de Touro é meiga, carinhosa e afectuosa. Dotada de uma forte capacidade de resolver problemas, é forte, determinada e corajosa. Como tem uma personalidade vincada e dominadora, por vezes pode assustar o seu companheiro. Capaz de gestos nobres e grandiosos chega a sacrificar-se pelo bem-estar da sua família, por isso é considerada uma grande mulher. GÉMEOS A mulher de Gémeos é intensa, inquieta e temperamental. Dotada de uma inteligência e perspicácia fora de série, esta mulher procura alguém com quem possa partilhar as suas ideias inovadoras. Curiosa por natureza, está sempre em busca de novos conhecimentos, por isso é frequente vê-la rodeada de livros. Como tem tendência para se sentir bem em qualquer lugar, adaptase com facilidade a todo o tipo de situação, mas se não fizer o que gosta nunca se sentirá realmente feliz. CARANGUEJO

A Mulher de Caranguejo é meiga, leal e sensível. Fiel às suas amizades e aos seus sentimentos, detesta a hipocrisia e o cinismo, por isso, quando não gosta de algo ou de alguém não é capaz de o esconder. Desta forma, a verdade é um dos valores que impera na sua vida. Preocupa-se muito com o que se passa ao seu redor mas, principalmente, com as pessoas que são importantes na sua vida. É uma pessoa pacata, não gosta de confusão, apreciando a paz e a tranquilidade. Tenta manter-se afastada de lugares muito agitados e frequentados, preferindo a calma do lar, pois simboliza o seu porto seguro. A Mulher de Caranguejo admira a tranquilidade, o conforto e a sintonia entre os seres. LEÃO A mulher de Leão não descura qualquer pormenor que saliente o seu aspecto físico e gosta de ser elogiada e sentir-se especial por isso. É perspicaz, segura e eficiente nos momentos cruciais. Afectivamente, é uma pessoa que idolatra a fidelidade, é uma amante criativa e uma companheira bastante presente. Prefere homens corajosos e que as valorizem. VIRGEM A mulher de Virgem é uma mulher que dá atenção a tudo o que a rodeia. Tende a ser muito exigente consigo própria e com os outros, nomeadamente com o seu companheiro. Nunca se interessará por homens imaturos. Somente aqueles que têm a vida bem traçada e os seus objectivos bem delineados são alvo do seu interesse. BALANÇA A mulher de Balança é muito meiga, carinhosa e sensível. Trata todos os que a rodeiam com muita gentileza, e gosta que a tratem da mesma maneira. O homem que deseje conquistar uma mulher de Balança, deverá ser afectuoso e carinhoso e terá que a tratar como se fosse uma rainha. Vaidosa, não resiste à oferta de uma jóia ou um de perfume de boa marca. ESCORPIÃO A mulher de Escorpião é uma apaixonada incondicional e preza valores

morais em detrimento da futilidade e da superficialidade. A mulher deste signo pode apresentar dois perfis distintos: rígida nas suas acções e modo de encarar a vida ou sedutora que, vê a vida de uma forma alegre. Na vida amorosa, possui um carácter um pouco complexo, pois a sua possessividade pode condenar as relações vividas. SAGITÁRIO A mulher deste signo aprecia homens que sejam aventureiros e que não voltem costas a um bom desafio. Não suporta a rotina e adora ser surpreendida. Não liga às aparências e prefere um bom livro a uma jóia valiosa. Gosta de saber sempre mais, por isso está sempre à procura de novos conhecimentos. Tem um carácter expansivo e extrovertido A melhor forma de a conquistar é demonstrar-lhe que é honesto, que tem uma mente aberta e um coração totalmente dedicado a ela. CAPRICÓRNIO A mulher de Capricórnio dá grande valor à estabilidade financeira. Não sendo materialista, aprecia o bemestar e o conforto proporcionado pelo equilíbrio económico. Conquistar o seu coração também não é fácil, pois só os homens bem sucedidos lhe suscitam interesse. AQUÁRIO O que mais se destaca numa mulher deste signo é a importância que confere à amizade e à sinceridade. Tem uma mente livre de preconceitos e não admite homens possessivos. Nunca lhe minta, pois é algo que ela jamais perdoará. Para a conquistar, seja além de tudo muito romântico e original pois ela saberá reconhecer o seu esforço de conquista. PEIXES A mulher de Peixes vive a sua vida na procura do grande amor. Para conquistar o seu coração basta ser extremamente romântico. Fazer uma declaração de amor ou surpreendê-la com um jantar à luz de velas é algo que muito aprecia. Adora saber que é querida e respeitada pelo seu par.

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Vidas

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A história de uma mulher corajosa Caros senhores, Tal como muita gente que para aí manda histórias sobre a sua vida ou sobre coisas que viveram de perto, também eu pensei escrever sobre uma senhora minha vizinha já há muito falecida . Antes quero dizer que vivo aqui na Alemanha vai para cerca de 40 anos. Como vim para aqui com 10, podem adivinhar a minha idade. Aqui fui à escola e aqui vivi. Houve uma pequena interrupção na Alemanha de 5 anos porque o meu pai decidiu enviar-me para Portugal para aprender melhor português. Isto foi quando acabei o ensino secundário aqui na Alemanha. Mas depois desse curto período em Portugal retornei à Alemanha para continuar a viver aqui, para sempre. Penso que, habituada que estou a este país, não mais voltarei para Portugal. Não que eu não goste de Portugal, pelo contrário. Mas já não me dou lá, pronto!. Assim não penso mais nisso e faço a minha vida aqui . Quando tinha para aí uns 20 anos, tinha como vizinha uma senhora alemã já idosa. Chamava-se Irma Jacob. Ela tinha vivido a guerra e os tempos que a antecederam pontuados pela subida ao poder do partido nazi que levou a Alemanha à destruição material e ao sofrimento e à morte de milhões de pessoas. A senhora Jacob não tinha antecedentes judeus. O seu nome de casada, Jacob, herdou-o do seu marido, esse sim judeu, que trabalhava num negócio conjuntamente com o seu pai e uma sua irmã. Vê-se, portanto, que a senhora Jacob estava metida em maus lençóis. Naquela altura, aos olhos das bestas dos nazis, pior do que judeu era alguém de “raça” alemã juntar-se ou casar-se com judeus. Era muito mais que uma traição à pura raça teutónica. A senhora Jacob era também uma jovem destemida, militante jovem do SPD e lutadora na altura contra os esbirros nacional-socialistas. Encurtando. Ela casou-se com o então também jovem militante do SPD e judeu Simon Jacob, estando longe de adivinhar o sofrimento que esse casamento lhe traria. Não por causa do marido, que ela ainda idosa o guardava no coração. Como ela me disse, o casamento resultou de um amor intenso entre os dois e estava convencida que aquele casamento era para a vida. Mas não foi. Forças estranhas intrometeram-se e roubaram-lhe o marido, a vida e a felicidade. Isto aconteceu uma noite quando o

casal, que morava no mesmo prédio onde os pais do marido habitavam, uma grupo que ela me disse pertencerem aos chamados SS, uma uma organização paramilitar ligada do partido nazista , invadiu o prédio e levaram quase toda a gente: o seu marido, irmã, pais e restante família e ainda vizinhos judeus que moravam no prédio, ao todo quatro famílias. Chagados à rua, foram encaminhados para camiões e levados para um destino que ela desconhecia. Foi a última vez que viu o marido. Quanto a ela, dias mais tarde levaram-na para um edifício dos SS e colocaram-na numa cela. Após ter sido interrogada, insultada e maltratada por membros dos SS, que ela até conhecia por serem vizinhos dos seus pais, deixaram-na na cela mais uns dias, sendo depois levada para um campo de concentração algures na Alemanha. Os pais dela que intercederam junto dos SS foram também ameaçados mas nada lhes aconteceu a não ser o medo com que viverem sempre até ao final da guerra. No campo de concentração – contava-me a senhora Jacob – os homens estavam separados das mulheres. Chegada lá meteram-na numa fila com muitas mulheres que tinham chegado naquele dia e uma voz através de um alto-falante dizia para que elas se despissem e se preparassem para tomar duche. Antes de seguirem para o chuveiro, passavam por uma barraca onde se encontravam homens prisioneiros com uma tesoura na mão ao lado de verdadeiras montanhas de cabelo. Claro que, contava-me a senhora, eles não estava ali para fazer cortes bonitos, cortavam muito simplesmente o cabelo muito rente e irregular o que nos dava um aspecto de loucas. Depois davam-nos um sabão para nos lavar. Aquilo era uma confusão grande. Mulheres haviam que se agarravam umas às outras desesperadas num choro ora surdo, ora convulso, possuídas pelo medo porque pensavam que o duche era de gás. Eu nova, levada pela primeira vez para um campo, pensava que só podia ser equívoco ou um pesadelo. Eu, desesperada, agarrava-me a outras mulheres num choro desesperado. Depois do duche, deram-nos um vestido às riscas e encaminharam-nos para as barracas que se perfilavam ao longo do campo. Os vestidos tinham todos um símbolo para identificar os motivos de internamento das pessoas. O meu era um triângulo vermelho, o que significava deportada política. Havia ainda as de triângulos ver-

des, de delito comum. Muitas destas internadas eram aquilo que no campo se chamavam de Kapos. Era gente que nos odiava e era uma espécie de cães de fila dos SS. Depois as internadas judias que tinham como identificação uma estrela amarela. Essas eram as mais maltratadas não apenas pelas Kapos como por toda asa hierarquia os nazis que controlavam o campo. Para além do campo para mulheres, havia ou outro para homens e um outro para crianças, mas todos separadas e vigiados, diziame a sra. Jacob. Puseram-na numa barraca que ela ainda se lembrava de ser conhecida como a “barraca 52”, perto das latrinas. A barraca era um corredor de terra batida ladeado por uma espécie de cacifos que funcionavam como camaratas. Não havia colchões nem cobertores e dormia-se assim em cima das tábuas. Contava-me a sra. Jacobe que, em condições mais ou menos normais, cada camarata comportaria quatro pessoas estendidas, mas naquela barraca, como na outras, diga-se, dormiam sete ou oito mulheres acamadas como numa lata de sardinhas. Felizmente que ali se emagrecia e muito, o que facilitava um pouco. O melhor desta situação era no inverno: como estávamos tão chegadas umas às outras dava para nos proteger um pouco do frio. Havia camaratas onde as mulheres dormiam em cima de palha , isto apesar do fedor nauseabundo e medonho que aquela palha com o correr do tempo produzia. Muitas mulheres para não perderem o lugar no cacifo evitavam ir à latrina e pode-se imaginar – dizia-me ela - o cheiro daquilo. Mas o pior era que a maior parte das mulheres sofriam de desinteria, daí que se possa fazer uma ideia do ambiente nas barracas. Outras sofriam de tifo, e outras de várias doenças. Foi nessa situação que a sra. Jacob chegou à barraca 52. Como chegou ainda com boas cores cercaram-na para saber o que para lá do arame farpado do campo se passava. Outras mulheres tão magras que mal se sustinham de pé perguntavam se ela tinha de comer e revistavam-na na vã tentativa de encontrar uma côdea de pão. Era Abril quando a sra Jacob chegou. Passado três meses tinha emagrecido 15 quilos. Quando o inverno começou pesava apenas 37 quilos e, como todos, sofria de desinteria e tinha hemorragias de sangue quando ia às latrinas. O inverno chegou. A barraca estava superlotada, tanto que os „cadáveres vivos“, como ela dizia,

revezam-se para dormir. Era macabro, mas esperávamos que algumas morressem de noite para ocupar o lugar delas para dormir. Isto passava-se todas as noites. Doentes, esfomeadas, cadavéricas, sem esperança de viver, as mulheres arrastavam-se pelas redondezas da barraca onde se acumulavas montes de cadáveres com medo dos Kapos e evitando as chamadas de controlo que fazia de vez em quando para a selecção. Se não era a fome e as doenças era o frio que matava. Naquela situação só as mais fortes e aquelas que conseguiam de comer por truques que não contavam a ninguém conseguiam sobreviver. O comer que lhes davam era uma mistela que os SS diziam ser sopa. Era uma malga com uma água gordurenta morna que depois de bebida piorava as crises de diarreia. Às vezes passavam-se dias que não isso nos davam. A nossa sorte era os conhecimentos que tínhamos no campo que nos arranjavam de comer, mas para isso era preciso saber escolher os amigos. Normalmente havia solidariedade entre os de triângulo vermelho, nomeadamente entre os comunistas que estavam muito bem organizados. Todos os dias na nossa barraca morriam mulheres. Muitas delas, fracas, magríssimas, não se podia, levantar e rastejavam dos cacifos para ir à latrina e morriam pelo caminho. Habituei-me depressa ao fedor, a todos os fedores, aos dos vivos e dos mortos que ali se amontoavam à espera para irem para o crematório. Esse trabalho era para as mais fortes que recebiam pão seco. Eram normal-

mente deportadas com o triângulo verde que faziam esse trabalho. Passaram os anos. A minha vizinha estava convencida que ia morrer ali, mais tarde ou mais cedo. Às vezes pensava no marido e muitas das suas companheiras diziam-lhe para esquecer porque nunca mais o iria encontrar. Uma dia, quando dava uma pelo exterior da barraca, viu que nas torres de vigia não estavam os militares armados. Achou aquilo muito estranho, porque não era normal os nazis deixarem as torres. Minutos depois ouviu o chiar de motores dee tanque de guerra a entrarem pelo arame farpado. Em vez da cruz, o símbolo do exército alemão, os tanques tinham uma estrela branca: eram os americanos. Não podia acreditar quando viu centenas de presos cadavéricos a correrem como podiam e a rastejarem-se como doidos e a gritar que estavam livres. O coração de algumas não poderem conter tanto contentamento e tombaram ali quando olhavam incrédulas os seus libertadores. Nesse dia a sra. Jacob pesava 29 quilos e tinha 21 anos. Sobreviveu, mas nunca mais viu o marido nem a sua família. Foi isto o que ela me contou. Maria Eduarda Munique

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Economia & Negócios

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Segredo do Made in Germany

Formação profissional na Alemanha exemplar a nível mundial António Justo

A Alemanha é, depois da China, o país de maior exportação mundial. É o centro do comércio internacional, plataforma giratória para o tráfego rodoviário aéreo e marinho. No ano 2011 fez exportações no valor de 1,06 trilhões de Euros (1.060.000.000.000 euros) e importações no valor de 902 bilhões (902.000.000.000 euros). Os produtos alemães impõem-se no mercado mundial devido à sua qualidade e inovação. O aumento da produção globalmente competitiva, a moderação salarial de sindicatos e empregados, constituem

a mistura que possibilita o milagre alemão. De referir no entanto, que os produtos alimentares e de necessidades básicas, são mais baratos na Alemanha do que nos países vizinhos. O segredo da qualidade dos produtos feitos na Alemanha vem do sistema dual (1) de ensino profissional baseado na colaboração entre escola e oficinas patronais de cada região. As empresas têm um grande componente familiar e continuam na tradição das (guildas) associações profissionais medievais (2) . Na Alemanha, ainda hoje são as câmaras do comércio e da indústria que examinam os aprendizes e passam os diplo-

mas profissionais. Segundo uma investigação da OECD sobre o ensino profissional em 17 países, a Alemanha recebe a qualificação de muito bom. Países de grande relevância para o futuro, como é o caso do Brasil e países emergentes deveriam orientar-se pela Alemanha. O ensino está todo ele orientado para a aquisição qualificada duma profissão média, até mestre e para uma especialização no ensino superior técnico e universitário. A minha experiência, quer a nível superior quer a nível de escolas do secundário levoume a gostar dum sistema que antes questionava com o receio de ser demasiado selectivo. PUB

Durante o ensino obrigatório, os alunos são obrigados a interromper a escola por algumas semanas (geralmente no oitavo ou nono ano) para fazerem um estágio em firmas liberais, industriais ou do comércio. As firmas colaboram com a escola e estão enquadradas legalmente para o fazer. Há sempre professores encarregados da relação aluno-oficinaescola. O aluno tem de passar por todas as secções da firma e no fim fará um relatório avaliativo do que fez e viu fazer. O relatório será depois analisado e qualificado em aula na escola. Deste intercâmbio aproveita o aluno em termos de orientação escolar e profissional e aproveita a empresa integrada no meio ambiente. Um dos segredos do “made in Germany” está na interligação de ensino teórico e prático já nos verdes anos da vida. Unem de forma excelente a teoria à praxis, além de contribuírem para a integração das famílias, das escolas e das firmas na aldeia/vila/cidade. Muitos dos alunos que fizeram o estágio nas firmas deixam vestígios nelas que lhes podem facilitar a sua integração profissional, uma vez acabada a formação. O aluno alemão que escolhe o currículo profissional médio, para tirar um curso de pedreiro, electricista, padeiro, serralheiro, etc., depois do 9°/10° de ensino obrigatório tem de frequentar a escola profissional durante três anos num sistema de ensino dual. Isto é, passa, semanalmente, três dias na oficina/escritório e dois dias na escola profissional do seu ramo. Depois de três anos adquire a qualificação profissional com o grau de oficial (Geselle), podendo depois doutros três anos de profissão adquirir o grau de mestre, grau este que o habilita a poder fundar firma do ramo. Os exames são feitos perante a Câmara do Comércio e da Indústria. Estas é que estão habilitadas a passar os diplomas de oficial e de mestre. Há também a possibilidade de, uma vez terminada a escola profissional, frequentar escolas técnicas superiores. Todos os jovens em formação e jovens trabalhadores entre os 16 e os 25 anos têm direito, além das férias normais, a 5 dias de formação político social por ano. Um país que queira seguir as pegadas de sucesso alemão deveria entrar em diálogo com as câmaras de comércio e indústria das representações alemãs no respectivo país. As firmas alemãs radicadas no estrangeiro ofereceriam uma

oportunidade ideal para o fomento dum tal ensino dado possuírem a experiência que trazem da Alemanha. Os chineses estão a manifestar grande interesse pelo sistema de ensino profissional dual, enviando delegações a escolas profissionais alemãs. A capital da economia brasileira é S. Paulo. A Câmara do Comércio e da Indústria de S. Paulo já está muito activa neste sentido. O Brasil estaria bem aconselhado se privilegiasse a Alemanha como modelo de formação profissional por todo o lado. A filosofia das empresas alemãs ainda não se encontra contaminada pela filosofia utilitarista doutras firmas só interessadas no produto e no lucro. Com o tempo, ao abrir-se aos accionistas mundiais poderão dar-se transformações. O alemão é trabalhador, sério e com vontade de ajudar ajudando-se também. O Equador tem um plano para introdução do sistema dual. O Equador poderá com este sistema dar resposta às tradições benéficas em favor dos autóctones que os jesuítas iniciaram nos começos da colonização para os defender da especulação dos comerciantes espanhóis. Estes para poderem explorar melhor os nativos conseguiram da coroa espanhola a expulsão dos jesuítas. Portugal depois do 25 de Abril, deslumbrado pela ideologia, acabou com um sistema de formação profissional de boa qualidade, então existente, para favorecer a formação abstracta como se fosse possível transformar a nação numa escola de candidatos a doutores. De referir que Portugal já tem algum projecto de profissionalização em hotelaria em colaboração com alemães. Pelo que observo, a reforma universitária a nível europeu fica muito atrás do modelo alemão. A Alemanha viu-se obrigada a reduzir o estudo do secundário de 13 para 12 anos para não ser prejudicada na concorrência internacional, porque, doutro modo os seus alunos entravam na universidade um ano mais tarde que nas outras nações. Sindicatos Alemães mais responsáveis que os seus parceiros noutros países Se observarmos as lutas sindicais na Alemanha e em países do sul constata-se uma atitude destes diametralmente oposta perante o Estado e perante o patronato. Enquanto no sul, em geral, os sindicatos se comportam como rivais na Alemanha comportam-se

como parceiros. Os do sul são orientados pela ideologia enquanto os sindicatos alemães se orientam pela realidade social e económica concreta. Os sindicatos alemães reconhecem que o segredo do desenvolvimento do sucesso da Alemanha assenta na inovação, produtividade e flexibilidade. São pragmáticos e por isso mesmo interessados em não estragar a economia nacional e não abusando do Estado em nome da ideologia. Entram em concorrência com o patronato mas sem perder os interesses da nação e do bem-comum. Em vez da inveja domina a ideia de pertença e esta assenta na família e nação. São, naturalmente, questionados por um precariado que não encontra trabalho ou se ocupa em actividades a tempo parcial e que vê cada vez mais nos sindicatos uma força de interesses grupais. Em 1990, 35% dos trabalhadores eram membros dum sindicato; hoje são-no apenas 20%. Encontram-se um pouco desorientados pelo facto de os serviços terciários terem aumentado e pelo facto do turbocapitalismo internacional impor também na Alemanha mais desigualdade entre as partes.

(1) Ensino dual porque é adquirido ao mesmo tempo na escola e na oficina (2)Guildas eram associações medievais de profissionais artesanais (eram corporações artesanais que, dentro da cidade, defendiam os seus interesses de classe e segredos profissionais, vivendo em ruas próprias, como testemunha também a rua dos Correeiros em Lisboa, entre outras) foram os antecessores das escolas profissionais e dos sindicatos. Na Alemanha esta tradição foi continuada nas Câmaras do Comércio e da indústria e nos sindicatos. As Câmaras ainda hoje mantêm a sua independência perante o Estado sendo elas a passar os diplomas profissionais, depois dos exames feitos perante elas embora no júri de exame se encontrem também professores representantes da escola oficial. Esta tradição contribuiu imenso para que o trabalho manual seja considerado em grande estima. O contrário do acontece nos países do sul, onde a formação livresca oprime a profissional. Quando vim estudar para a Alemanha fiquei muito impressionado com a simplicidade no porte e no trajo dos professores de universidade. Faltava-lhes aquela aura que o pó do trabalho prático destrói. Os mestres profissionais das oficinas na Alemanha têm tanta estima e reputação como um doutor em Portugal. Unem a cabeça aos braços enquanto nos países do sul a cabeça despreza os braços. Esta é a diferença entre o sul e o norte, aquilo que também explica a diferença na qualidade de vida.



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