REVISTA No 4 - FEV/2019 ISSN: 2526-4354
LAURY GARCIA, UM POETA DA CAMPINA E DE OUTROS CARNAVAIS
SOLAR BARÃO DO GUAJARÁ NA CIRCULAÇÃO
FOTO: CLÁUDIO FERREIRA
MULHERES E ATIVISMO NA CIDADE VELHA
PROJETO CIRCULAR
ÍNDICE
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Editorial: Território e identidade .................................................................................................................
O que é Ser Circular? ......................................................................................................................................... Laury Garcia: Poesia, Música e Carnaval ...................................................................................................
Mercedário/UFPA aberto ao público .............................................................................................................
Mulheres e ativismo na Cidade Velha ........................................................................................................... Artigo: Cultura, conexões e descobertas – Andrea Sanjad .................................................................
IHGP: Museu e Casa de Memória ................................................................................................................. Ensaio Fotográfico – Otávio Henriques...................................................................................................... De boutique de carne à espaço cultural......................................................................................................
Retrospectiva do Fórum Circular ................................................................................................................. Galeria do Circular - Cláudio Ferreira .......................................................................................................
TERRITÓRIO E IDENTIDADE
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artilhar território não é apenas coexistir em proximidade. É preciso se conhecer e, no caso do centro histórico de Belém, a relação entre vizinhos, parceiros e colaboradores, também é acompanhada de questões de identidade que vão determinar objetivos e expectativas, ideais e ações em diálogo com o patrimônio cultural e arquitetônico que caracterizam os bairros mais antigos da cidade. Esta tem sido uma reflexão constante do Circular. Desde o ano passado, o projeto vem reunindo gestores, moradores e colaboradores, promovendo o conviver, dividindo fragilidades e potencialidades. Nesta edição, trazemos um pouco dessas discussões. Conversamos com o fotógrafo e educador Miguel Chikaoka, coordenador das dinâmicas que resultaram no Mapa Mental do Circular. Ele conta como esse processo identificou a existência de um organismo sociocultural e educativo, atuante e responsável em seu território, chamado de ‘Ser Circular’. Ana Brahuna, Lorena Rodrigues, Virginia Maura e Ursula Bahia. Retratamos a história de vida e afeto dessas quatro mulheres que atuam de diversas maneiras no movimento de ativismo cultural da Cidade Velha. E por falar em história, também fomos visitar uma das personalidades culturais do bairro da Campina, o escritor, poeta e carnavalesco Laury Garcia. Entramos em sua casa, na Aristides Lobo, e reviramos suas memórias. Destacamos o prédio antigo do Mercado Francisco Bolonha, onde a tradição de vender carnes deu espaço à economia criativa. Além de gastronomia, numa feirinha que funciona de segunda a sábado, estão iniciativas artísticas das mais variadas, como moda, arte popular, artesanato caboclo e indígena, música. Tudo em pleno Complexo do Ver o Peso. Andando um pouquinho mais para chegar à Praça D. Pedro
II, rompendo as fronteiras do bairro da Campina com a Cidade Velha, encontramos o Solar Barão do Guajará, tema do ensaio fotográfico desta edição, assinado pelo fotógrafo Otávio Henriques. O instituto é um dos mais novos parceiros do projeto, que abrirá com programação nas edições do Circular. Flagramos um dos momentos mais incríveis da celebração dos 403 anos de Belém, quando o historiador Michel Pinho entrou, no dia 12 de janeiro, com centenas de pessoas no Convento dos Mercedários, como vai dar para conferir nas fotos de Cláudio Ferreira. Teve parabéns e tudo, tocado ao vivo pelo grupo de saxofones da UFPA. O lugar, que já foi um dos cenários sangrentos da Revolução da Cabanagem, hoje, está ocupado pelo Laboratório de Conservação e Restauro da UFPA. O prédio abrigará cursos de graduação e pós-graduação na área do patrimônio e restauro, além de oferecer galeria, livraria e programação sociocultural, abertos à comunidade, como nos contou a professora e arquiteta urbanista Thais Sanjad, uma das coordenadoras do espaço. Nesta edição trazemos, por fim, um panorama do que foi discutido durante o Fórum Circular – Patrimônio, Sustentabilidade, Cidadania, evento de quatro dias, realizado em setembro de 2018, no Mercedários/UFPA. Andrea Sanjad, profissional da área editorial, ou simplesmente Guardadora de Livros, como ela se intitula, é nossa colaboradora nesta edição. Em seu artigo, ela faz uma reflexão sobre o projeto Circular. Boa Leitura!
Luciana Medeiros Editora
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O QUE É SER CIRCULAR? INICIANDO COM UMA TEMPESTADE DE PALAVRAS E IDEIAS, O MAPA MENTAL DO CIRCULAR FOI CONSTRUÍDO POR PENSAMENTOS COLETIVOS QUE DESENHARAM O TRONCO DE VIDA DE UM SER, CUJOS MOVIMENTOS E ATITUDES CAMINHAM DE ACORDO COM OS PRINCÍPIOS DO CIRCULAR CAMPINA CIDADE VELHA.
Por CAMILA BARROS Fotos CLÁUDIO FERREIRA E OTÁVIO HENRIQUES
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rganismo que existe e atua no Centro Histórico de Belém com o propósito de revalorizar e ressignificar essa área com benefícios de diversas naturezas e com repercussão em toda a cidade. O Ser Circular foi desenhado ao longo de alguns encontros realizados aos sábados, entre novembro de 2018 e janeiro e fevereiro deste ano, no Fórum Landi. O Mapa apontou para quatro eixos de atuação. No eixo de Valores está a cidadania, inclusão social e diversidade. No Afeto, uma rede de parceiros que agrega amor, diálogo, interesse pela memória e o sentimento de pertencimento. E no eixo de Sustentabilidade, a busca pela permanência do Ser Circular, em seu Território de atuação e protagonismo. Morador do bairro da Campina e parceiro do projeto por meio da Fotoativa, o fotógrafo e educador Miguel Chikaoka coordenou as dinâmicas, que tiveram objetivo de compartilhar com os moradores dos bairros históricos e outras pessoas interessadas, a essência do projeto Circular.
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PROJETO CIRCULAR
“Existem parceiros que abrem os espaços apenas focados na programação, por ser bacana participar do projeto, mas e no decorrer do ano? Esse parceiro circula? Conhece outros parceiros?”, instiga Miguel, morador da Campina. Ele percebeu que em seu bairro, poucas pessoas pouco sabiam sobre o Circular, ou pensavam nele apenas como um evento. Por isso, o Ser Circular representado no Mapa Mental é um embrião a ser cuidado. O objetivo é agregar parceiros sensíveis, dispostos a participação e com disposição a interação em rede, sendo cada um responsável por suas atitudes individualmente e dentro do coletivo. “É como ir na casa da vizinho e fazer o trabalho que já realizas em casa. Desta forma, conheces o trabalho dele e agregas o teu valor e o público, que pode conhecer esse espaço novo e vice-versa. É uma construção que se propõem para conhecer como um todo o seu próprio bairro”, exemplifica Chikaoka. n
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PROJETO CIRCULAR
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LAURY GARCIA: POESIA, MÚSICA E CARNAVAL EM UMA TARDE DE JANEIRO, BATEMOS NA PORTA DE UMA CASA ANTIGA, NA CAMPINA. AO ENTRAR, FOI POSSÍVEL VIAJAR NO TEMPO.
Por CAMILA BARROS Fotos CLÁUDIO FERREIRA
A
recepção calorosa foi do casal Laury Garcia e Edina Bouth Garcia, casados há mais de quatro décadas. Acompanhados pela neta Sophia, de 11 anos, eles reviveram o passado e suas histórias entrelaçadas com o centro histórico de Belém. Filho de comerciante, Laury Garcia cresceu entre os livros, no bairro do Umarizal. O pai ouremense era dono de uma livraria na rua Oliveira Belo, e o filho, ainda adolescente, na década de 1950, dedicava-se a ajudar o pai no ofício de vender títulos literários. Com o passar dos anos, a arte foi tomando conta cada vez mais da vida de Laury.
O jovem foi convidado por um amigo para substituir o cantor que havia faltado em uma boate que eles frequentavam. Laury conhecia os donos, os atendentes e os frequentadores da casa de drinks e não recusou a proposta. Esta foi a primeira vez que ele cantou para o público e era uma canção de Nelson Gonçalves. Daí por diante, todas as vezes que o cantor titular faltava, era Laury que o substituía. “Eu cantava músicas românticas. As pessoas gostavam de escutar muitos boleros sobre o amor”, conta. Laury participou de concursos, programas de rádios, gravou discos, fez turnê e circulou por bares, casas noturnas, no Norte, no Nordeste e no Rio de Janeiro.
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PROJETO CIRCULAR
Realizo todos os anos o sonho de desfilar no carnaval.” — LAURY GARCIA
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NA HISTÓRIA DO SAMBA DE BELÉM Desde criança ele adorava contemplar o carnaval, mas via que os foliões, naquela época, eram marginalizados. Seu sonho era brincar o Carnaval nas ruas junto com a comunidade. Anos se passaram e ele recebeu o convite, na década de 1970, do ex presidente Carlos Abel Aguiar, para assumir a direção da Sociedade Recreativa Cultural e Carnavalesca Império de Samba Quem são Eles. Naquele momento, então, o sonho se realizou. O intuito era de reunir as pessoas. Laury promoveu a primeira roda de samba do Estado. E virou moda. A primeira edição ocorreu em um terreno alugado, num dia chuvoso, mas com o passar do tempo, foi agregando convidados, tais como João de Jesus Paes Loureiro, Luis Guilherme Pereiro, Alfredo Oliveira e outros artistas da época. A escritora Eneida de Moraes foi homenageada pela escola de samba. Em 1973, sua história era cantada no samba-enredo. Não havia dinheiro para fazer o desfile naquele ano, então, os foliões saíram da sede da escola em direção à Presidente Vargas, em um cortejo animado. Em 1974, Laury assumiu a direção artística do Rancho Não Posso me Amofinar e conquistou o segundo lugar no Carnaval daquele ano. Na década de 1980, porém, ele retornou ao Quem São Eles e hoje, há mais de 40 anos, como benemérito “realizo todos os anos o sonho de desfilar no carnaval”, diz.
CARNAVAL NA CAMPINA O Carnaval na Campina era realizado na Universidade de Samba Boêmios da Campina. Com direção de José Peixoto da Costa, os amigos se reuniam no prédio de mesmo nome para brincar. A Escola figurava entre as mais bonitas e conquistou vários prêmios. Sua relação com o bairro da Campina o inspira a produzir o seu terceiro livro de poemas. Até agora, já são 45 versos escritos que narram bem a história do poeta e sua família. Além deste título, Laury Garcia, no auge de seus 81 anos, também prepara um livro intitulado “Histórias do Carnaval”.
Meu avô é minha inspiração. Um dia vamos escrever poemas juntos”. — SOPHIA POESIA NA VEIA Apaixonado pela nossa cultura paraense, além da música e do carnaval, Laury tem outra paixão: a poesia. Como poeta, ele tem dois livros publicados, “Poesia Nua” (2005) e “Embalando Rimas” (2008). Ambas falam sobre a cidade e seus síbolos, como o Círio, o Ver-o-Peso, a Praça da República, além de trazer poemas sobre a saudade e o amor. A neta Sophia, 11, segue os passos do avô. Escreveu seu primeiro poema aos nove anos e hoje sonha em escrever junto com Garcia. “Meu avô é minha inspiração. Vejo ele escrever e fico encantada. Um dia vamos escrever poemas juntos”, almeja a menina.
Laury saiu do Umarizal e foi morar no Centro Histórico de Belém. Edina Bouth Garcia nasceu e foi criada na Travessa Campos Sales, já no bairro da Campina. Quando se casaram se mudaram para uma casa centenária, não muito longe dali, na Rua Aristides Lobo. “Já são mais de quatro décadas aqui nesse bairro. Vimos muita coisa. Vivenciamos muitas histórias. Da boemia a zona de meretrício. Graças às leis, continuamos em um bairro que sofreu poucas interferências urbanísticas e que até hoje mantém a sua história viva, sem prédios altos”, frisa Garcia. n
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MERCEDÁRIO/ UFPA ABERTO AO PÚBLICO CONHECIDO COMO PRÉDIO DA ALFÂNDEGA, O CONVENTO DOS MERCEDÁRIOS, FOI CEDIDO PARA A UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ (UFPA) EM 2018, PASSANDO ESTA A SER A INSTITUIÇÃO RESPONSÁVEL PELA OCUPAÇÃO DO PRÉDIO, ONDE HAVERÁ ATIVIDADES DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO VOLTADAS À PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO ARQUITETÔNICO DA CIDADE, ALÉM DE SE TORNAR UM PÓLO CULTURAL MARCANTE NO CENTRO HISTÓRICO DE BELÉM.
Por LUCIANA MEDEIROS Fotos OTÁVIO HENRIQUES
O
público já tem visitado e aprovado a iniciativa. Em setembro do ano passado, a UFPA abriu suas portas pela primeira vez ao público, para realizar, em parceria com o circular, o Fórum Circular Patrimônio, Cidadania e Sustentabilidade. No último dia 12 de janeiro, centenas de pessoas visitaram o prédio, levadas pelo historiador Michel Pinho, que realizou uma caminhada para celebrar a data. Uma multidão ocupou e cantou os parabéns dos 403 anos de Belém em um dos prédios mais antigos da cidade construído em 1640.
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O prédio histórico dos Mercedários está ocupado pela UFPA com o seu Laboratório de Conservação, Restauro e Reabilitação (LACORE), coordenado pelas arquitetas e professoras Thais Sanjad, Rose Norat e Flávia Palácios. Além de um curso de graduação em Conservação e Restauro, o Lacore oferecerá pós-graduação em Ciências do Patrimônio Cultural, que terá um enfoque interdisciplinar. “Esse curso será voltado a um público bastante diversificado em termos de formação, mas que queira se especializar na questão da preservação de conservação e restauro do patrimônio cultural”, diz Thais Sanjad. Além das salas de aula, laboratório e áreas administrativas, o projeto prevê ainda a integração e apoio técnico de restauro para a Igreja das Mercês, localizada ao lado do Convento e a realização de atividades culturais.
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“Teremos uma galeria de arte, livraria, área destinada a escola de musica, e salas em que se possa ter cursos específicos de curta duração abertos a sociedade, com um curso de canto gregoriano, por exemplo. Estamos aqui para contribuir para a preservação e conservação do centro histórico. O Mercedários é para a sociedade”, finaliza. Outra área de interesse do Lacore é criar uma área museológica viva, em que se possa contar a historia da edificação em conexão com cidade, em que se discuta também arquitetura, abordando materiais e técnicas construtivas. “O Lacore já está funcionando, os alunos já estão frequentando o espaço, estamos preparando o edifício. O curso de mestrado vai iniciar em abril de 2019, neste primeiro semestre. E o curso de graduação de conservação e restauro, em agosto de 2019”, finaliza. n
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Estamos aqui para contribuir para a preservação e conservação do centro histórico. O Mercedários é para a sociedade” — THAIS SANJAD
SERVIÇO: MERCEDÁRIO/UFPA – Entradas pelo Boulevard Castilho França e Rua Gaspar Viana s/n – Campina.
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RETRATOS DO BAIRRO
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MULHERES E ATIVISMO NA CIDADE VELHA
PERTENCIMENTO E AFETO SÃO PALAVRAS QUE SIMBOLIZAM AS HISTÓRIAS DE ANA BRAHUNA, VIRGÍNIA MAURA, LORENA MOREIRA E URSULA BAHIA, QUATRO MULHERES QUE ESTÃO EM PLENO ATIVISMO NO BAIRRO DA CIDADE VELHA, ONDE SE CONHECERAM. ENTRE VIVÊNCIAS ANTIGAS OU MAIS RECENTES, TODAS INTEGRAM A REDE SEREIA, COLETIVO QUE BUSCA A REVALORIZAÇÃO CULTURAL DO BAIRRO, INCENTIVANDO O EMPREENDEDORISMO. Por CAMILA BARROS Fotos CLÁUDIO FERREIRA
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orena Moreira, com experiência na gestão de projetos culturais, planeja ações futuras em prol da Cidade Velha, entre elas, o mapeamento de espaços culturais do bairro, a fim de fortalecer os pequenos empreendedores locais. Ana Brahuna, que dirige uma fábrica de velas, sonha em transformar sua casa em um centro cultural, iniciativa que de certa forma já vem sendo adotada por Virgínia Maura, no espaço Xibé Cultural, e por Ursula Bahia, no Atelier Galeria Jupati.
ATIVISMO PELA ARTE A professora de Artes Lorena Moreira mora há dois anos no bairro. Veio do outro lado da cidade para apostar a moradia na Cidade Velha. “Eu morava na Marambaia”, diz ela, que atualmente ocupa um apartamento próximo da fábrica de velas de Ana Brahuna. Junto com o marido Abel Lins, Lorena também integra a Rede da Sereia, sendo a pessoa responsável pela montagem e logística da Feira Movimenta. O trabalho para a feira é voluntário e promove a integração entre os moradores do bairro, desde a sua criação, em dezembro de 2017. “Completamos um ano, reunindo uns 25 expositores em cada ação, que movimenta os negócios dos pequenos empreendedores”, observa.
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A coletividade está presente nos projetos em que Lorena faz parte. Além da Rede Sereia, ela e outros amigos criaram a primeira Cooperativa de Música e Artes Performáticas do Norte. “Há uma ligação muito forte entre nós moradores. Somos vizinhos e muito amigos. Um ajuda o outro”, destaca.
MEMÓRIA COM VISTAS AO FUTURO Inquieta, Ana Brahuna é uma das idealizadoras da Rede da Sereia, que agrega moradores da Cidade Velha. Uma das ações da rede já conhecida do público é a Feira Movimenta, realizada, há um ano, sempre uma vez ao mês na lateral da Igreja da Sé. Os expositores são pequenos empreendedores que moram no bairro e que vendem produtos gastronômicos e artesanais. “O bem é coletivo e juntos podemos construir muitas coisas. É necessário que as pessoas entendam que precisamos nos organizar e pensar como ‘eu-coletivo’. Fico feliz que estamos caminhando juntos e movimentando o nosso bairro”, diz. Nascida em uma casa da Dr. Assis, nos arredores da Catedral Metropolitana de Belém, Ana Lucia Chaves Brahuna é herdeira da tradicional fábrica de velas “São João”, fundada em 1938 pelo pai dela, o português João Agostinho de Moraes Chaves. Formada em Comunicação Social, desde que o pai faleceu, ela assumiu, ao lado dos irmãos e da mãe Lucinda, o empreendimento da família, mantendo assim, uma tradição de 80 anos, presente no bairro da Cidade Velha, ponto inicial da procissão do Círio de Nazaré, no mês de outubro. Criada na Cidade Velha, Ana conhece e tem muitas histórias sobre o bairro, que parece ainda manter algumas outras tradições de um tempo que fica cada vez mais distante. Todos os dias, ela recebe, às 7h, o pão pelas mãos do padeiro. O açougueiro também faz a entrega de produtos na porta da casa onde Ana vive há 61 anos. Pela manhã, ela costuma caminhar na praça Frei Caetano Brandão, que fica em frente à Igreja da Sé, no Complexo Feliz Lusitânia, e sonha em transformar sua residência em um espaço cultural, onde se possa realizar cursos, palestras e rodas de conversa.
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ANA BRAHUNA
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VIRGINIA MAURA
EMPREENDEDORISMO NO BECO DO CARMO Virginia Maura, 55 anos, também é conhecida na Cidade Velha. A produtora cultural foi indicada pelos moradores do Beco do Carmo para representá-los como presidente da Associação de Microempreendedores da Passagem do Carmo (AMPCCV), criada em 2015 e que atualmente conta com 56 moradores da região. “Eles se organizaram para resguardar os seus direitos, tal como utilizar a praça durante grandes eventos como o Carnaval e o Círio, para garantir uma renda”, diz. A maioria das famílias que mora no Beco do Carmo é liderada por mulheres. Empreendedoras, elas são participativas nas ações da associação durante todo o ano. O trabalho realizado de forma voluntária por Virgínia Maura ajuda na independência destas mulheres. Virgínia Maura se envolve com as questões do bairro há muitos anos, e sua ligação com o movimento cultural do bairro vem de família. Na década de 1950, o pai de Maura tinha um bloco
carnavalesco chamado “Surgiram da Lama”. A família veio de Barcarena para Belém e se instalou na Cidade Velha, em 1986, encontrando nova morada em uma casa antiga na Rua Cametá. É possível encontrar na casa peças decorativas que pertenceram à sua mãe, como o altar localizado logo na entrada, além de louças e um piano no canto da sala. O hábito de receber os amigos em casa para tocar, ouvir música e conversar, acabou gerando um negócio criativo, o Xibé Cultural, que ela organiza junto com o companheiro, o músico Messias Lyra, 53. Aberto desde junho de 2018, ele funciona em diversas ocasiões, inclusive nas edições do Circular, trazendo na programação música e gastronomia paraense. “Aqui somos um espaço que preza pelo nosso regionalismo e busca fomentar esse caldeirão cultural que estamos inseridos. Estamos abertos para agregar manifestações artísticas, como fotografia, pintura e, claro, a música”, pontua Messias Lyra. “Idealizamos o Xibé por gostarmos de reunir as pessoas em casa”, frisa Maura.
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ANOTE:
ATELIÊ GALERIA JUPATI Trav. Gurupá nº 250, entre Rua Dr. Rodrigues dos Santos e Rua Cametá – Cidade Velha. Contatos: 91 989160763 /99987-4378/ Redes sociais: www. facebook.com/ateliejupati/ Instagram:@ ateliejupati FABRICA DE VELAS SÃO JOÃO R Doutor Assis, 52 - Cidade Velha Contato: 91 3241-5135 XIBÉ CULTURAL Rua Cametá, 113, entre Joaquim Távora e Pedro Albuquerque. Bairro: Cidade Velha. Contatos: 91 98166-9368 e-mail: maura.prezende@gmail.com
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O Circular me fez procurar uma casa no centro histórico. Quando a encontrei, não pensei duas vezes e transformei a casa no meu estúdio e galeria. Alio o útil ao agradável” — URSULA BAHIA
REINVENTANDO PARA OCUPAR E CRESCER Bem próximo ao Xibé Cultural, o Ateliê Jupati, está localizado na rua Gurupá, em um casarão transformado em galeria fotográfica. O projeto é uma idealização da fotógrafa e publicitária Ursula Bahia, 42 anos. Na infância, ela estudou no Colégio do Carmo e aos 15 anos descobriu seu amor pela fotografia, que já a fez morar em outros Estados, como Belo Horizonte (MG) e São Paulo (SP), onde se especializou em seu ofício. Trabalhou para grandes veículos de Comunicação no país, tal como Estadão e Folha de São Paulo. Em 2015, retornou para Belém e em 2018 tornou-se moradora da Cidade Velha. “O Circular me fez procurar uma casa no centro histórico. Quando a encontrei, não pensei duas vezes e transformei a casa no meu estúdio e galeria. Alio o útil ao agradável”, continua a fotógrafa que recebeu, em outubro de 2018, a exposição coletiva “Marias”, com registros fotográficos de 15 fotógrafas, realizou bate papos, oficinas e promete ser mais em 2019. “Precisamos criar outra forma de mercado, buscar clientes interessados em melhores preços aliados a qualidade. Estamos abertos a propostas de exposições e oficinas, e vamos continuar com a Foto Feira”, diz Ursula sobre a ação que realizada pela primeira vez, em janeiro, na ocasião do aniversário dos 403 anos de Belém. Aberto a outros artistas, as possibilidades de ações e atividades no casarão ocupado pelo Ateliê Galeria Jupati são enormes, mas nem tudo interessa a Ursula Bahia, que foca em seu trabalho de fotografia e princípios que dão ao espaço um caráter colaborativo e de formação em arte. A casa também funciona como hospedagem temporária para quem visita Belém. n
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URSULA BAHIA
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ARTIGO
A cidade é uma aventura coletiva por essência.”
CULTURA, CONEXÕES E DESCOBERTAS Por ANDREA SANJAD Fotos OTÁVIO HENRIQUES/ CLÁUDIO FERRERIA
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os últimos anos, em várias cidades brasileiras, grupos organizados, associações de bairro, de artistas, ecologistas têm reivindicado o direito à cidade. Com isso, ajudando a revitalizar praças, calçadas, sinalizações por meio de muitas ações coletivas e provocado o poder público a também oferecer melhores condições para a qualidade de vida das pessoas. São experiências férteis que comprovam a máxima: “quanto mais se ocupa a rua, menor a violência do lugar”. Em geral são ações pontuais que criam uma nova energia capaz de revitalizar um bairro inteiro. Em Belém, pelo modo como foi conduzido, o movimento adquiriu contornos especialíssimos. Um dos projetos mais queridos - que alcançou reconhecimento nacional ao ser indicado e ganhar, em 2018, o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Iphan -, o “Circular Campina-Cidade Velha”, chega, em abril, na sua 25ª edição . Acontece a cada dois meses, sempre aos domingos, quando somos convidados a circular pelos dois bairros por onde a cidade começou e que foram até o início dos anos 1930 o núcleo principal – o centro - de Belém.
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A programação, vasta e diversificada, envolve artistas, artesãos, chefes de cozinha, empresários e moradores dos bairros e é divulgada previamente a cada edição. Ao circular, fico especialmente entretida com a beleza das edificações e com os detalhes preciosos que algumas casas ainda oferecem. Aliás, mesmo quando se tenta escondê-los ( e como tentam!...), ainda resta, imponente, algum elemento. Como deve ter sido aprazível a gratuidade dos ‘largos’ em meio a ruas estreitas de traçado assimétrico. Gosto da mistura de residência e comércio.
Da riqueza da diversidade que sustenta o centro comercial. Gosto do burburinho das pessoas entrando e saindo dos lugares. Gosto de entrar nas casas onde as programações acontecem: a disposição generosa de todos os envolvidos e a celebração dos encontros. Há música, exposições, teatro, dança, livros, leitura, palestras, jardinagem e passeios guiados. Há ótimas comidinhas que rendem uma tarde de conversa deliciosamente regada ao mormaço de dias quentes ou chuva redentora. Se é verdade que ter gente na rua traz segu-
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mental de (seu) lugar. De identidade. Do mesmo modo, assegurar a liberdade de ir e vir dos jovens, sendo justamente o melhor sinal de saúde social encontrar a juventude ocupando as ruas e usufruindo a cidade. Uma vida com mais qualidade precisa rever a forma como circulamos na cidade e aceitar o decisivo papel das cidades para a construção do futuro comum. n
rança, pois movimento significa vida, é incontestável a importância da cultura para estabelecer conexões, descobertas . Nesse sentido, conhecer a cidade em que moramos, compreender seu traçado, nos oferece a possibilidade de real convívio com nossa história e a possibilidade de estabelecer as relações sociais, políticas, econômicas, culturais e ambientais próprias da cidadania. Essa identidade, essa ligação com o entorno é uma conquista. É preciso saber. A psicanalista Teresa Pinheiro, acertadamente, considera que “a gente só pode pensar em per-
tencimento se a gente pensar em bem comum.” É nossa tarefa pensar que tipos de condutas éticas são necessários para preservar a vida em nossa cidade. É nossa tarefa apresentar a cidade às crianças para que desenvolvam a noção funda-
*Andrea Sanjad nasceu em Belém. ‘Guarda-Letras’ como editora - por ofício e anota sonhos por vocação. Na feira livre da vida tem ideias pra dar e vender. É casada com Nelson e mãe da Nina, do Chico e do J.P.
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ENSAIO FOTOGRÁFICO OTÁVIO HENRIQUES
UM SOLAR NA MEMÓRIA DA CIDADE
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m dezembro de 2018, o IHGP – Instituto Histórico e Geográfico do Pará – abriu pela primeira vez as portas para participar de uma edição do projeto Circular Campina Cidade Velha. Aproveitamos para conhecer e realizar o ensaio fotográfico. A visitação guiada foi uma verdadeira aula de história e encantou o público que circulou por lá naquele domingo. “Fiz questão de ficar no SOLAR até às 13h, horário do encerramento, e observei que os visitantes do SOLAR passaram a manhã inteira em um fluxo de pequenos grupos silenciosos que se demoravam no prédio observando, perguntando e fotografando tudo nos seus mínimos detalhes, tipo como fotografar os ladrilhos hidráulicos”, disse Anaíza Vergolino, presidente do Instituto. “Pude registrar o interesse dos grupos visi-
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tantes. Em resumo, eu diria que o IHGP/SOLAR entra no espaço do circuito CIRCULAR, como um MUSEU/CASA de MEMORIA e, neste sentido, terá que investir, desde já, em trabalhos nessa linha, maximizando seus acervos”, avalia a historiadora e mestre em antropologia social. De inspiração portuguesa, o Solar Barão de Guajará possui três pavimentos, sendo o último, em forma de camarinha. O pátio interno é de influência Moura da arquitetura Ibérica, transferida para a Amazônia. A fachada é revestida de azulejos, com desenhos em formas geométricas, nas cores brancas e azuis, provavelmente vindos de Portugal. O interior tem piso e forro de Madeira, e a escada para o segundo pavimento Possui guarda-corpo, com balaustrada e assoalho formando desenhos geométricos.
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Uma das mais antigas e belas edificações da cidade, o prédio é considerado um marco da decadência do patriarcado rural. Atualmente, conservado em suas características, tem no seu interior a biblioteca do “Barão de Guajará”, com estantes de jacarandá artisticamente trabalhadas. Não se tem informações exatas sobre a sua construção, mas sabe-se que o solar pertenceu, em 1837, a Ângela de Cácia Fragoso, que o recebeu de herança de sua mãe. Em 1939, passou a ser propriedade de Inês Micaela de Lacerda Chermont, que mais tarde o transferiu para seu irmão. O primeiro Barão e Visconde de Arari o remodelou, colocando gradis de ferro com seu monograma nas sacadas das janelas, até chegar a Domingos Rayol, o Barão de Guajará, que ao falecer deixou o Solar para seus herdeiros. Em 1942, a Prefeitura Municipal de Belém na gestão do Prof. Abelardo Leão Condurú o adquiriu do herdeiro, com móveis e biblioteca. Em 1943, o Conselho Administrativo Municipal baixou decreto pelo qual, em 1944 o Prefeito Alberto Engelhard fez a doação dos móveis, da biblioteca e do prédio Solar Barão do Guajará ao Instituto Histórico e Geográfico do Pará – IHGP. Em 1970 foi feita uma grande reforma na gestão do então Governador Cel. Alacid Nunes, que se tornou sócio benemérito do instituto. É um lugar que não se deve deixar de visitar em Belém do Pará. n
FONTES: IPHAN TRINDADE, Elna. (Solar Barão do Guajará. Belém: [mimeo], 1995, p. 12).
VISITE IHGP/SOLAR Rua Tomásia Perdigão, nº 64 – Praça D. Pedro II Cidade Velha. Segunda a Quinta, das 9h às 14h
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OTÁVIO HENRIQUES Formado em Engenharia de Produção pela Universidade do Estado do Pará, estudou linguagem e história da fotografia de forma autodidata e através de oficinas e cursos no Curro Velho, Fotoativa, Belém Photos e outros. Desde 2009, fotografa o cotidiano da cidade e interiores do estado onde vive, assim como outros estados já visitados. Nasceu em Belém (PA), em 1980, atualmente trabalha como fotojornalista e fotógrafo freelancer em Belém. Ministra aulas e oficinas de fotografia, já participou e ganhou vários concursos e exposições. É um dos fotógrafos oficiais do Circular Campina Cidade Velha.
MOSTRAS, PREMIAÇÕES E EXPOSIÇÕES COLETIVAS
2017 l Selecionado no Concurso “A moda e os códigos de vestimenta, com a exposição coletiva no Salão Cultural da Aliança Francesa de Belém, Pará, Brasil. l Vencedor do “Prêmio de Jornalismo em Turismo Comendador Marques dos Reis”. Categoria #MeuBemPará – Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo do Estado do Pará (ABRAJET/Pará), Secretaria de Estado de Turismo (SETUR),
da Secretaria de Estado de Comunicação do Pará (SECOM), ABRAJET/Nacional e do Sindicato dos Jornalistas do Pará (SINJOR/PA). l Premiado no edital Pauta Livre 2017 da Fundação Cultural do Pará (FCP), com a exposição coletiva ”Na beira da feira”, Galeria Theodoro Braga, Belém, Pará, Brasil
2011 l Concurso Cultural Mais
Kodak, 2º Lugar, Exposição Virtual no site do concurso. l Concurso e Exposição Coletiva, “Internacional Online Digital Photo Competition”, Nicósia, Chipre l Exposição Coletiva, “Mostra fotográfica Outubro”, Fórum Landi, Belém, Pará, Brasil
2016
2010
l Concurso, “Olhar Noturno
l Exposição Coletiva, Salão
sobre Val-de-Cans”, 1º Lugar, Aeroporto Internacional de Belém, Pará, Brasil l Exposição Coletiva, “Olhar Noturno sobre Val-de-Cans”, Aeroporto Internacional de Belém, Pará, Brasil
Nacional de Fotografias “Brasil Afro”, Grupo Imagem - Núcleo de Fotografia e Vídeo de Sorocaba, Fundec, em Sorocaba, e na Caixa Econômica Federal, em Votorantim, São Paulo, Brasil
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DE BOUTIQUE DE CARNE À ESPAÇO CULTURAL 38
REVISTA No 4 - FEV/2019
Por LUCIANA MEDEIROS E MARIA PAULA MALHEIROS Fotos OTÁVIO HENRIQUES
P O MERCADO BOLONHA É UM MARCO NA HISTÓRIA DE BELÉM. CONSTRUÍDO EM 1867, EM ALVENARIA, APÓS A REFORMA DE 1908, FEITA PELO ENGENHEIRO FRANCISCO BOLONHA, GANHOU ENTRADAS LATERAIS, CONTORNOS NEOCLÁSSICOS E UM PORTÃO DE FERRO FRONTAL ORNAMENTADO. SEMPRE FOI MAIS CONHECIDO PELA COMERCIALIZAÇÃO DE CARNES BOVINA E SUÍNA, MAS HOJE É TAMBÉM UM ESPAÇO CULTURAL DE ARTESANATO, ARTE E MODA CRIATIVA, ALÉM DE GASTRONOMIA E ATÉ DE UM FESTIVAL DE MÚSICA INSTRUMENTAL EXPERIMENTAL QUE É REALIZADO ANUALMENTE.
assear pelos corredores e pavilhões do Mercado Bolonha é fazer de certa forma, uma viagem no tempo. É uma joia da arquitetura da Belle Époque paraense. Possui um famoso observatório formado por uma escada helicoidal em Art Noveau. Os vendedores de carne resistem e ainda é possível encontrar por lá os mercadores tradicionais, como os comerciantes de farinha, utensílios domésticos, produtos de Umbanda, ervas para chá e até discos vinis. Atualmente, uma feirinha vem chamando atenção, com artesanato Kaiapó, Awaeté e até Warao, etnia dos indígenas venezuelanos que se encontram refugiados de seu país, com muitos deles morando no centro histórico de Belém. Também há boxes que vendem redes, moda criativa, arte popular, vinis e outras coisas. Aos sábados, a rede de artesãos e artistas que ocupam os boxes, realiza o “Corredor Cultural”, com desfiles e até sorteios para o público. Há também venda de comida, que vai do popular peixe frito, a pratos mais sofisticados, e para beber, tem até cerveja artesanal. Ao longo dos últimos anos, o público vem se diversificando também.
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PROJETO CIRCULAR
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FOTO: BRUNO CARACHESTI
Por quatro anos, o Mercado Bolonha ficou fechado, reinaugurando somente em 2011, após um restauro completo. Da cobertura aos forros, passando pela substituição e restauro de pisos, dos expositores refrigerados para carnes nos talhos. Foram revistas e substituídas instalações hidrosanitárias e elétricas, ficou, como se diz naquela gíria, “um brinco”. Um público novo passa a frequentar o mercado, a partir dessa reinauguração, que teve apresentação de trechos do espetáculo ‘Ver de Ver-o-Peso’, com o Grupo Experiência, dirigido por Geraldo Salles. Lá se vão oito anos e o Mercado Bolonha segue entrelaçando o tradicional com o contemporâneo, permanecendo um patrimônio na memória afetiva de muitos paraenses. Talvez tenha sido naquele momento que se percebeu sua potencialidade para se tornar um espaço cultural. Por sua beleza, o espaço histórico do Mercado Bolonha chamou atenção de profissionais que atuam na área da produção cultural, como Marcelo Damaso e Renée Chalu, da Se Rasgum. Há quatro anos eles desenvolvem o Festival Sonido, uma iniciativa que vem transformando mais uma vez aquela paisagem, levando para lá um público mais novo e mais jovem, com muita gente que entrou lá pela primeira vez nestes últimos anos. “O Sonido proporciona esse contato com a música experimental e instrumental, ao mesmo tempo em que apresenta um espaço de patrimônio da cidade de uma outra forma, aproximando um novo público do centro histórico”, diz Marcelo Damaso. O festival vai para o quarto ano em 2019, com data agendada de 14 a 16 de junho. “Voltará a ser em três dias de programação. Esse ano queremos expandir um pouco mais com ações que se remetam ao Ver-O-Peso. Estamos estudando essas coisas. A expectativa é receber cerca de 10 mil pessoas durante as três noites”, comenta o produtor. n
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FESTIVAL SONIDO
REVISTA No 4 - FEV/2019
VISITE FUNCIONAMENTO DO MERCADO MUNICIPAL De segunda a sexta-feira, das 7h às 16h; sábado, das 8h às 13h. Endereço: Avenida Boulevard Castilho França, s/n – Campina.
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RETROSPECTIVA DO FÓRUM CIRCULAR
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REVISTA No 4 - FEV/2019
POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO, PRESERVAÇÃO E AUTO SUSTENTABILIDADE AÇÕES E POLÍTICAS VOLTADAS AO PATRIMÔNIO E FORMAS DE OCUPAÇÃO DE ESPAÇOS PÚBLICOS SITUADOS NO CENTRO HISTÓRICO DE BELÉM. O FÓRUM CIRCULAR: PATRIMÔNIO, CIDADANIA E SUSTENTABILIDADE REUNIU MORADORES, GESTORES DE ESPAÇOS CULTURAIS E CONVIDADOS DE OUTROS PROJETOS E DO PODER PÚBLICO.
Por CAMILA BARROS Fotos OTÁVIO HENRIQUES/CLÁUDIO FERRERIA
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ealizado de 26 a 30 de setembro de 2018, no Mercedários/UFPA, o fórum contou com debates, palestras e grupos de trabalho, experiências de projetos nacionais e internacionais, além da entrega do documento com indicativos que gerem novas diretrizes ao futuro do projeto e também possam nortear políticas públicas para o centro histórico. Tendo como tema as “Experiências de parcerias para reabilitação de áreas protegidas e desenvolvimento local” houve relatos sobre o Caso de Penedo, a experiência do IPHAN em Alagoas e sobre o projeto Porto Digital, de PE.
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PROJETO CIRCULAR
O superintendente do IPHAN/AL, Mário Aloísio Melo relatou o trabalho realizado pela instituição para resgatar a história da cidade, aproximando a população da riqueza do patrimônio histórico. “Nosso instrumento de trabalho é o monumento. Através de sua preservação pudemos proporcionar atividades turísticas que geram melhorias à comunidade”, comentou Melo. Já o Porto Digital de Pernambuco, é um dos maiores parques tecnológicos do país e lugar de inovação com reconhecimento internacional, que levou o reconhecimento de Recife (PE) como centralidade regional de serviços modernos e promotor do repovoamento do bairro do Recife e seu entorno. Antônia Ferreira, do Núcleo de Ações Educacionais Museu da Favela, no Rio de Janeiro; Filipa Bolotinha, coordenadora da Associação Renovar a Mouraria, de Lisboa (PO) e a professora Goretti Tavares, do projeto Roteiro Geoturístico abordaram as “Possibilidades de desenvolvimento socioeconômico”.
IDEIAS COLETIVAS E A ARTE COMO FATOR SOCIAL Experiências desenvolvidas em Belém também foram compartilhadas. Na mesa “Potencialização do capital humano e produção de conhecimento do centro histórico”, o público pode conhecer um pouco mais o trabalho realizado pelo Coletivo Aparelho junto à comunidade do Porto do Sal, localizada às margens da Bahia do Guajará. Idealizadora do Coletivo, Josiane Dias relatou ações direcionadas à comunidade, tais como atividades arte-educativas, valorização de artistas residentes, a implantação de uma biblioteca e a criação de um coral formado por crianças. “A atuação do Fórum Landi no centro histórico de Belém” foi exposta pelo professor e coordenador do Fórum Landi, da Universidade Federal do Pará (UFPA). Flávio Nassar contou suas experiências de ocupações que ultrapassaram as dependências do prédio histórico e mobilizaram todo o seu entorno atingindo as redondezas do bairro da Cidade Velha. Intervenções urbanas e grandes projetos Os grandes projetos de intervenção urbana sob os patrimônios, organização social e desenvolvimento socioeconômico do Patrimônio Histórico estiveram em pauta durante as discussões. A mesa “Cidade, patrimônio e participação social” contou com a participação das arquitetas e urbanistas Drª Márcia Sant’Anna (BA) e Drª Natália Miranda Vieira (PE).
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Na mesa “Cidades, patrimônio e participação social”, o debate trouxe como tema “O patrimônio cultural frente às grandes intervenções urbanas e parcerias público-privadas”, mediado pela professora doutora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Márcia Sant’Anna. Ela contou sua experiência a partir da preservação de sítios históricos através de projetos desenvolvidos no centro histórico de Salvador. Na ocasião foi abordada importância da preservação sustentável do valor cultural do Pelourinho, o qual serviu de inspiração para outros projetos
desenvolvidos pelo país. Com o tema “Patrimônio cultural, planejamento e participação social”, a professora doutora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Natália Miranda Vieira relatou outros casos desenvolvidos no Nordeste: o bairro do Recife e o bairro da Ribeira, em Natal. No primeiro, determinou-se a permanência do uso habitacional enquanto diretriz de preservação, a qual envolve a participação da comunidade do Pilar – considerando um dos bairros mais pobres do Recife. No segundo momento,
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foi relatado o projeto da Ribeira Desenhada, onde através de inúmeras ações direcionadas ao público do bairro e de outras áreas foi possível desenvolver o resgate da cultura e de manifestações populares da região. Foram também debatidas propostas e projetos com impacto no Centro Histórico de Belém”, como os projetos “Porto Futuro” e “Desenvolve Belém – Centro Vivo”. “Patrimônio vivo: projeto, reuso e participação social” foi tema da palestra ministrada pelo arquiteto e urbanista da Universidade Federal da Bahia, Drº Nivaldo Andrade. A palestra contou
com a mediação do antropólogo e Superintendente do Instituto do Patrimônio Artístico e Nacional (IPHAN), no Pará, Cyro Almeida. A mesa “Experiências de organização e participação social com atuação na defesa de interesses urbanos e turísticos” teve participação da coordenadora da Associação Renovar a Mouraria, Felipa Bolotinha, de Lisboa, Portugal; e o arquiteto e urbanista Drº Cristiano Borba, que compartilhou sua vivência no projeto Direitos Urbanos, em Recife (PE), com a mediação de Armando Sobral, artista plástico que atualmente responde pelo Sistema Integrado de Museus neste novo governo estadual. n
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PROJETO CIRCULAR
GALERIA
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CLÁUDIO FERREIRA
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PROJETO CIRCULAR CAMPINA CIDADE VELHA EQUIPE GESTORA
COORDENAÇÃO GERAL
Tamara Saré PRODUÇÃO EXECUTIVA
Yorranna Oliveira COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO
Luciana Medeiros
REVISTA CIRCULAR
DESIGNER GRÁFICO
Edição 4
Márcio Alvarenga
ISSN
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2526-4354
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EDIÇÃO
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