ARTE SOBRE FOTO: acervo da Cinemateca Brasileira
julho/2012 - edição 64 sesctv.org.br
documentário O DIRETOR SILVIO TENDLER INVESTIGA O MITO GLAUBER ROCHA
entrevista
sala de cinema
SÉRGIO VAZ E O CINEMA NOVO DA PERIFERIA DE SÃO PAULO 1
O HUMOR E A SERIEDADE DOS PERSONAGENS VIVIDOS POR OTÁVIO AUGUSTO
Poéticas do Invisível A série reúne obras cinematográficas que discutem a visão sub-normal de 16 a 22 de julho, às 23h Direção Geral: Lucila Meirelles Produção: Armazém Mídia Artes
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A ARTE EM TRANSFORMAÇÃO
O caráter transformador da arte manifesta-se pela transgressão a padrões e pelo afrontamento ao senso comum. O cinema é uma forma de expressão que transita desde sua manifestação como indústria às formas mais subjetivas e provocativas da arte. No cinema brasileiro um dos expoentes disso é Glauber Rocha. O cineasta, que foi categorizado como incompreendido pelos seus próprios pares de profissão, sem dúvida foi um dos mais polêmicos criadores brasileiros. Com sua morte, as ideias que plantou foram aos poucos colhidas por meio da reeducação do olhar que, atônito diante da vivacidade presente do diretor, conseguiu posicionar-se em relação à vanguarda por ele manifesta. Neste mês, o SESCTV apresenta Glauber o Filme, Labirinto do Brasil, documentário dirigido por Silvio Tendler que explora justamente a inquietude que Glauber provocava naqueles com quem convivia. Muitos deles concluem que, mais que entendê-lo, era necessário senti-lo. Um dos grandes desafios de uma criação artística é permanecer além de seu tempo. Tal veredito requer de fato a espera para uma avaliação retrospectiva. Por sua vez, um dos maiores desafios do artista é saber reinventar-se. Esse processo é mais dinâmico, e a retrospecção que exige é praticamente ininterrupta, um exercício contínuo na busca de novos caminhos. Não é de hoje que muitos dizem que o rock morreu. O gênero, porém, revela valores e descobre vertentes a cada aniversário. No mês em que se comemora o Dia do Rock (13 de julho), o canal exibe uma programação especial que inclui novos e “velhos” nomes da cena roqueira, de Lobão e Raul Seixas a Pato Fu, Cachorro Grande e Fernando Catatau. Da série Temporal, o episódio inédito Microfonias e Psicodelias mostra, por meio de parcerias com músicos de gerações mais recentes, a revitalização de expoentes como Sérgio Dias, do grupo Os Mutantes, e Lucinha Turnbull, que tocou com Rita Lee na década de 70. O entrevistado pela Revista do SESCTV deste mês é o poeta Sérgio Vaz, criador do projeto Cinema na Laje, que incentiva a produção de documentários sob a ótica da periferia paulistana. O artigo do jornalista e crítico de cinema Ruy Gardnier discute o legado de Glauber Rocha para a arte cinematográfica brasileira. Boa leitura! Danilo Santos de Miranda Diretor Regional do Sesc São Paulo
CAPA: Arte sobre foto do roteiro do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Foto: Acervo da Cinemateca Brasileira
destaques da programação 4 entrevista - Sérgio Vaz 8 artigo - Ruy Gardnier 10 3
DOCUMENTÁRIO
A câmera em revolução Foto: Divulgação
Em um trecho, ele prevê que iria morrer em breve, o que de fato aconteceu. Mais adiante, o documentário aborda os desvarios do artista ao perder, com seu último filme, A Idade da Terra, o Leão de Ouro no Festival de Veneza para o francês Louis Malle, em 1980. O retrato delineado, assim, cursa entre o humano e o sobre-humano, entre o falível e o infalível, entre a satisfação do ego e a preocupação social. O caráter inovador – e incompreendido – da personalidade criativa do cineasta é ressaltado pelos depoentes. Eles dizem que, em meio à excentricidade no comportamento, havia o arrojo de um visionário, a intenção do gênio de romper com padrões estabelecidos – tanto em forma como em conteúdo. A amplitude de seu engajamento político se evidencia no parecer de nomes como Andrés Racz, cineasta chileno; Paul Leduc, diretor mexicano; Régis Debray, filósofo e escritor francês. Eles relembram episódios das incursões da lente de Glauber por conflitos governamentais de países como Chile, Cuba e Portugal, no período em que esteve exilado. Embora os militares da ditadura brasileira o odiassem, ouviu do presidente João Figueiredo que ele gostava de seus filmes. A perplexidade que cotidianamente o diretor suscitava nos próximos de seu convívio e também nos que o enxergavam a uma distância “segura” atingiu seu ápice na noite em que morreu. As reações ao fato, corroboradas pelas declarações dos entrevistados, indicam que, se não era fácil viver com Glauber e entendê-lo, difícil mesmo era conformar-se com a passividade de seu semblante inanimado, quieto enfim, não manifesto. No estranhamento do silêncio, desenvolveramse aos poucos o culto, a aceitação de suas ideias de vanguarda e a conclusão de que, na verdade, muitas vezes foi Glauber o violentado, pelas distorções da realidade que enfrentou com sua arte, até o limite.
“É função do artista violentar.” A frase aparece em letras pretas sobre o fundo vermelho da tela logo no começo do documentário Glauber o Filme, Labirinto do Brasil. Ela define com adequação o princípio norteador do cineasta ao constituir a filmografia expoente do chamado Cinema Novo. O diretor Silvio Tendler parte das circunstâncias que marcaram a morte de Glauber Rocha para discorrer sobre o impacto que sua obra exerceu não só no âmbito cultural, mas ainda nas discussões sociais e políticas do turbulento Brasil das décadas de 1960, 70 e 80. As imagens de seu funeral dão a medida da intensidade com que mobilizava seus pares. As cenas inéditas, gravadas pelo próprio Tendler, intercalam-se com depoimentos de ícones nacionais da literatura, da música, da crítica e do cinema, caso de João Ubaldo Ribeiro, Arnaldo Jabor, Cacá Diegues, Jards Macalé, Hugo Carvana e Paulo Autran, entre outros. Esses testemunhos e as aparições de Glauber, ora verborrágico, ora inerte no caixão, constroem e desconstroem o mito, seguidamente.
GLAUBER O FILME, LABIRINTO DO BRASIL REVISITA OS CAMINHOS PARA A CONSAGRAÇÃO DO CINEASTA
DOCUMENTÁRIO Direção: Silvio Tendler
Glauber o Filme, Labirinto do Brasil Dia 29/07, às 23h
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instrumental sesc brasil
De Debussy a Baden e Vinícius Foto: Dario zalis
A trajetória profissional de Eumir é assinalada por parcerias como a constituída com Frank Sinatra e por um repertório que inclui autores da envergadura de Vinicius de Moraes e Baden Powell, com os quais diz que “se comunicava muito bem”. “Eu sempre fiquei intrigado pela divisão que ele [Baden Powell] fez, bem afro-brasileira; e aquele ritmo que ele usou ficou muito marcante, aquilo me impressionou”, afirma, em referência à composição Berimbau, uma das que mostra no episódio da série Instrumental SESC Brasil. Operando o teclado na apresentação, o artista explora as possibilidades rítmicas do jazz funk acompanhado de Marcelo Mariano no contrabaixo e de Renato Massa Calmon na bateria. Como arranjador, trabalho que realiza desde os 17 anos, Eumir ressalta que não impõe suas ideias sobre o que determinada música teria de ser. “E isso é o que sempre me fez ficar de bem com todo mundo”, considera. “Não só o compositor, o cantor e o intérprete têm que se sentir bem [com o arranjo], mas também a companhia de discos.” O Instrumental SESC Brasil exibe ainda na programação do mês shows com o quinteto Jazz Seis, incluindo o escritor Luís Fernando Veríssimo no saxofone; Sérgio Hinds, guitarrista e vocalista do grupo O Terço, que se apresenta em quarteto; o trio Jogando Tango, que adapta grandes arranjos do gênero para o formato com três instrumentistas; e as Choronas, conjunto paulista de choro que interpreta Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim e Chiquinha Gonzaga. Os espetáculos foram gravados no SESC Consolação, na capital paulista.
O carioca Eumir Deodato diz que uma de suas maiores satisfações na carreira é o contato com o público. “É uma das coisas que mais me emocionam, porque vejo as pessoas que escutam o que eu fiz e que gostam [disso].” Sua iniciação na música, relembra, se deu com um acordeom. “Chateei a minha mãe para me dar um porque, em uma estação de águas de Minas Gerais, vi uma menina bonita tocando um acordeom também bonito, e eu queria que ela o emprestasse para mim. Ela disse ‘não, isso é só para quem sabe tocar’.” Ele, então, quis desenvolver tal habilidade. Tratava-se, porém, de uma “opção mais barata” em relação ao preço de um piano, que considerava “o ideal”. Assim, cismou que tinha de evoluir para o aprendizado desse instrumento – e logo com uma composição clássica do músico francês Claude Debussy, Clair De Lune. Diante de uma nova negativa, a de uma professora que “riu muito” da proposta e queria ensinar-lhe primeiro A Marcha do Soldadinho de Chumbo, optou pelo autodidatismo a partir de um disco de 45 rpm com a canção de Debussy executada por um pianista europeu. A esse registro aliou a “pouca instrução” que teve de acordeom para ler a partitura da peça. “Pouco a pouco fui assimilando o que estava vendo na leitura com o que ele estava tocando e comecei a botar os pingos nos is. Foi assim que eu aprendi a escrever música.”
O ECLETISMO DO REPERTÓRIO DE EUMIR DEODATO EM ARRANJOS DE JAZZ FUNK
INSTRUMENTAL SESC BRASIL Segundas, às 22h
Jazz Seis Dia 02/07
Sérgio Hinds Dia 09/07
Jogando Tango Dia 16/07
Choronas Dia 23/07
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SALA DE CINEMA
As muitas faces da interpretação Foto: Plateau produções
Vagabundo II (1991), com direção de Hugo Carvana. Nos longas de Flavio Tambellini, Relatório de um Homem Casado (1974) e A Extorsão (1975), a comédia é deixada de lado e o drama dá o tom da interpretação. “A Extorsão era um filme ‘brabo’ para a época”, classifica. A ousadia da trama, cita, incluía a abordagem de relações homossexuais. Com Ana Carolina, conta ter experimentado diálogos “às beiras” do absurdo em Mar de Rosas (1977). “Mas, na verdade, se você for ver, é o que passa na cabeça da gente. A Ana capta muito bem a fantasia de cada um.” A polivalência profissional incluiu a participação em pornochanchadas. Houve um período em que “as próprias distribuidoras de filmes estrangeiros davam dinheiro só para fazer pornochanchada e esculhambar o cinema brasileiro”, confabula. Mas diz ter tido sorte ao trabalhar com “grandes roteiros” nesse gênero. Otávio Augusto é o entrevistado de um dos episódios inéditos de Sala de Cinema de julho. O programa mostra passagens de filmes e depoimentos do diretor Ugo Giorgetti, que descreve Augusto como alguém que tem “uma máscara muito interessante, um rosto muito interessante”, daqueles que são favorecidos pela “mediação que existe entre câmera e tela”. Sala de Cinema traz ainda neste mês episódios com o roteirista Di Moretti, a atriz e diretora Ana Maria Magalhães e a produtora Zita Carvalhosa, que criou o Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo.
A versatilidade do ator Otávio Augusto já transitou por papéis diversos tanto em cinema como no teatro e na televisão. Foi nos palcos, aliás, que ele iniciou a carreira, dirigido pelo dramaturgo Zé Celso. No currículo, Augusto contabiliza mais de 50 filmes, entre eles Sábado e Boleiros, Era uma Vez o Futebol..., de Ugo Giorgetti; Central do Brasil, de Walter Salles; e Mar de Rosas, de Ana Carolina, que lhe conferiu prêmios de atuação como o do Festival de Toronto, no Canadá. Entre os tipos que incorporou ao longo de sua trajetória quase cinquentenária destacam-se alcoólatras, boêmios, mulherengos. Essas figuras um tanto estigmatizadas do convívio social, avalia o artista, exigem uma caracterização ao mesmo tempo cômica e dramática. “O bêbado é risível, mas procuro nunca perder seu lado trágico”, afirma. Ele diz assumir aspectos do comportamento das personagens em seu cotidiano pessoal durante as produções como “parte do ensaio” para encarná-los. O equilíbrio entre humor e seriedade é marca de sua performance como um policial em Vai Trabalhar
O ATOR OTÁVIO AUGUSTO REVÊ SUAS INCURSÕES PELO HUMOR E PELO DRAMA
SALA DE CINEMA Quintas-feiras, 22h
Di Moretti Dia 05/07
Ana Maria Magalhães Dia 12/07
Otávio Augusto Dia 19/07
Zita Carvalhosa Dia 26/07
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TEMPORAL
O rock se renova Foto: divulgação
meados dos anos 60, então, parece não ter perdido um certo frescor. E a atualização se deu também de dentro para fora, com a entrada de novos membros, caso da cantora Bia Mendes e do multi-instrumentista Vitor Trida. “[O grupo] Os Mutantes se provou muito maior que seus elementos”, conclui Dias. Na terceira parte de “Microfonias e Psicodelias”, que vai ao ar no Dia do Rock (13 de julho), o cantor Edy Star fala com saudosismo dos dias em que tomava parte nas cenas de vanguarda da arte brasileira e trabalhava com Raul Seixas. Ainda na estrada, Edy frisa conservar a postura irreverente daquela época. “Até hoje meus shows, por mais bem comportados que sejam, têm surpresas”, afirma. “Rock é um estado de espírito cuja mola é a alegria. É um sinônimo de liberdade de expressão”, sintetiza a guitarrista Lucinha Turnbull no quarto e último bloco do episódio. A parceira de Rita Lee na década de 70 aparece como convidada especial em um show da banda O Terno, realizado em 2011 em São Paulo, no Clube Berlin, cenário de exposição de novos valores do gênero. Não é a idade biológica, mas a capacidade de se renovar que mantém atuante e atual a verve produtiva dos roqueiros. A série Temporal exibe ainda em julho os episódios inéditos Remédio da Alma (MPB), que aborda diversas facetas da música popular, O Meu Negócio É a Força, sobre halterofilismo e esportes relacionados, e Modestamente Eu Sou Poético, que apresenta personagens habituais dos parques paulistanos.
O rock’n’roll é uma manifestação da juventude. Esse ponto de vista é compartilhado por quem vivencia o processo criativo dessa categoria musical bem de perto, caso de Luiz Calanca, dono da loja de discos Baratos Afins, na Galeria do Rock, centro de São Paulo. “O rock sempre foi uma coisa juvenil, os caras [mais novos] tocam com vontade”, diz. Depois de bom tempo à frente de um balcão de vendas de discos de vinil e CDs povoado de aficionados por raridades e de músicos em busca de referências, Calanca resolveu lançar, ele mesmo, as gravações de artistas elencados no convívio com os clientes de seu negócio. Entre os nomes recrutados destaca-se o de Arnaldo Baptista, um dos expoentes do grupo Os Mutantes. Um trabalho seu estreou o selo Baratos Afins. A escolha aparentaria um contrassenso quanto à opinião manifesta sobre a faixa etária a ser ocupada pelos roqueiros, uma vez que já faz mais de 40 anos que o mítico conjunto empunhou a bandeira da revolução dos padrões de atitude sonora. Essa dedução é um convite à reflexão sobre o que é ser jovem nesse meio. A conversa com Calanca é mostrada na segunda parte de “Microfonias e Psicodelias”, da série Temporal, que, dirigida por Kiko Goifman e Olívia Brenga, enfoca a convivência entre diferentes gerações. Para o primeiro bloco do programa, Sérgio Dias, (na foto), outro ícone dos Mutantes, foi o entrevistado. O músico conta ter se surpreendido com a acolhida do público nas apresentações após o retorno da banda, em 2006 – sem a presença de Rita Lee, substituída na ocasião por Zélia Duncan. O que era moderno nos
EPISÓDIO MOSTRA QUE MÚSICOS DE DIFERENTES GERAÇÕES ESTIMULAM SEU POTENCIAL CRIATIVO EM PARCERIAS
Temporal Direção: Kiko Goifman e Olívia Brenga Sextas-feiras, 22h
Remédio da Alma (MPB) Dia: 06/07
Microfonias e Psicodelias Dia 13/07
O Meu Negócio É a Força Dia 20/07
Modestamente Eu Sou Poético Dia 27/07
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entrevista
Cinema Livre Foto: Pedro Abude
Qual a importância do cinema nacional na inclusão da parcela mais carente da população? A arte tem o poder de transformar as pessoas em cidadãos. O Cinema na Laje busca fomentar o público de cinema. Hoje, imaginar que o cara na periferia de São Paulo não tem dinheiro para ir ao cinema é um engano. Não vai porque não tem esse hábito. Eu sempre fui ao cinema, mesmo sendo pobre. É uma grande contradição: cada dia há mais filmes e menos cinemas no Brasil, e cada dia se vendem mais filmes piratas. Portanto, as pessoas gostam de filme e não gostam de cinema. Nossa ideia não é exibir o filme pelo filme, pois é preciso haver o debate para a formação de público. Assistir a um filme do Glauber Rocha e discuti-lo são duas coisas diferentes. Um filme como
Titanic é lindo, mas não gera discussão. As salas de exibição, de uma maneira geral, afastam esse público? Elas intimidam, o shopping intimida, elitiza. E não é pelo preço da sessão. O Cinema na Laje tem um lanterninha vestido a caráter, como havia nas salas antigas, e a pipoca é grátis. Chegamos a receber pessoas de 60 anos indo pela primeira vez ao cinema, a um projeto de cinema. Como surgiu a ideia do Cinema na Laje? Sempre gostei muito de cinema. Lembro-me de certa vez ter assistido a Cinema Paradiso e pensado: “Que coisa mais simples! Quem quer fazer cinema, que faça. Quem quer ser visto, é visto”. Um dia falei pro Zé, dono do bar do Batidão, que podíamos fazer um cinema, e ele topou. Disse a ele que, se desse a pipoca, eu arrumaria alguém para projetar. E assim surgiu o Cinema na Laje, um lugar para passarmos documentários pertinentes à nossa realidade – nada de reproduzir filmes de Hollywood. Não é o caso de tratar as pessoas da comunidade como se elas fossem pobrezinhas e estivéssemos fazendo alguma coisa por elas. Projetamos curtas feitos por garotos da comunidade. No ano passado fizemos nossa primeira mostra, com oito documentários de curta metragem, com o apoio do Itaú Cultural. Em agosto devemos realizar outra. O foco é dar vazão à produção da periferia. Não temos apoio do governo – a maioria das coisas que fazemos é na raça. Nunca participamos de editais. Há editais que só um
O poeta Sérgio Vaz, 47, criador da Cooperifa, movimento de valorização da cultura na periferia promovido na região do Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, inaugurou em 2008 o Cinema na Laje, projeto que fomenta a produção e a exibição de documentários pela comunidade local. Realizadas em uma sala de cinema montada ao ar livre, na cobertura do Bar do Zé Batidão, as sessões contam com a presença de diretores, atores e produtores, que após os filmes participam de debates. As projeções, gratuitas e com distribuição de pipoca, ocorrem na primeira e na terceira segundas-feiras do mês.
“NOSSA IDEIA NÃO É EXIBIR O FILME PELO FILME, É PRECISO HAVER O DEBATE PARA A FORMAÇÃO DE PÚBLICO”
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escritório pode fazer, um ser humano que faz arte não consegue – são cem páginas, termos técnicos. E nem sempre as empresas gostam de associar sua marca a projetos que despertam as pessoas. É legal quando uma empresa patrocina, participa, discute, mas não interfere na produção. Algumas interferem.
“COMEÇAMOS A ESCREVER SOBRE NOSSAS HISTÓRIAS SEM UM ATRAVESSADOR, POR ISSO ÀS VEZES AS LÂMINAS PARECEM MAIS AFIADAS”
Eu sou um entusiasta, sou o cara que acorda o bando, que bota fogo e depois vê como apaga. O sonho é assim: às vezes dá certo, às vezes dá errado. Se você
nossas histórias sem um atravessador, por isso às
fizer a conta, fizer cálculo, não é sonho. Como você
vezes as lâminas parecem mais afiadas. Que tipo de
percebe a receptividade dos diretores brasileiros ao
linguagem predomina nessas produções? Sempre a
projeto? Eles não só liberam os filmes como vêm aqui
de denúncia. Não chegamos ainda à fase da ficção.
ou mandam alguém da produção para o debate. Já
Somos privilegiados porque não temos a arrogância daqueles que dizem saber tudo sobre cinema: todo mundo aprende junto. E, nos documentários e nos curtas, as pessoas se parecem com a gente, são os pardos, os negros, os brancos pobres. O cara da sua cor beija na boca e diz “Eu te amo”. Cria-se uma empatia. O grande cinema nacional de hoje ajuda nessa identificação? Acho que ajuda. Nas novelas, não vejo personagens negros relevantes, estão sempre na cozinha. O cinema consegue fazer essa reparação. O 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos
exibimos Utopia e Barbárie [2010], do Silvio Tendler. Quando exibirmos Quebrando o Tabu [2010], o Fernando Grostein [Andrade] virá para o debate. Vamos passar Febre do Rato [2012] com a presença do Cláudio Assis. Para eles é um orgulho que seus filmes passem na “quebrada”. Esse envolvimento alimenta a produção cinematográfica na própria periferia? Surgem diretores e atores. Só os saraus culturais na Cooperifa geraram cerca de dez documentários. Arrisco-me a dizer que a periferia de São Paulo hoje vive a mesma efervescência cultural que a classe
[2010] é um filme sem violência feito na favela. É um olhar que começa a ser um pouco mais romântico sem ser pedante. Os cineastas que frequentam o Cinema na Laje incorporam o engajamento da comunidade a suas ideias? Essa integração ajuda a constituir uma linguagem característica, forte, do cinema brasileiro? O cineasta deve entender o povo, e não o povo entender o cineasta. É muito mais fácil para ele pegar os R$ 20 milhões de uma lei de incentivo e fazer o filme que quiser, sem se preocupar se o público vai gostar ou não. Ele já tem o dinheiro, não precisa da bilheteria. Se ele se preocupar em fazer um filme que gere discussão nos bares, nas praças, aí teremos um cinema brasileiro, sem imitar o europeu, o iraniano ou o americano. O cineasta precisa ser engajado. Uma parte do valor que recebe da lei deveria ser obrigatoriamente destinada à formação de público, e já no projeto ele teria de especificar como se daria essa formação, se seria levar o filme às escolas, se os artistas fariam palestras, ou se haveria exibições em praças públicas. O Estado tem a obrigação de fomentar a cultura, mas não há contrapartida. Se existe prato popular, se existe albergue, por que não criar um cinema popular via leis de incentivo?
média vivenciou nos anos 1960 e 70. Estamos vivendo a nossa primavera periférica, o que alguns não enxergam, veem como uma moda. Não é uma moda; as pessoas estão se apoderando da arte. Em sua opinião, qual o potencial criativo dessa população? A arte desperta o jovem. A juventude não cabe na gente, é necessário extravasar, e muitos fazem isso na violência, na bebida, na droga. A arte oferece um caminho diferente, o cara consegue ser pulsante produzindo, com autoestima, com cidadania. E, como ela está chegando agora à periferia, uma coisa nova para todos nós, há muito mais paixão, muito mais entrega. Esse tem sido o fator de multiplicação. Sem serem coitadinhas, essas pessoas agora são os protagonistas, com uma outra linguagem, um outro foco. Não se trata de alguém que chega com R$ 10 milhões para fazer uma ONG na periferia para evitar que todo mundo seja drogado, como se todo mundo fosse virar drogado se essa ajuda não viesse para nos salvar. Essa é a lógica dos jesuítas, a de catequizar. Nós queremos manter a nossa pegada, a nossa cultura de periferia, o jogo de várzea, o samba na laje, a feijoada, a pipa. Começamos a escrever sobre
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artigo
O QUE RESTA DE GLAUBER NO CINEMA BRASILEIRO? unificou todos esses esforços individuais na busca de um movimento. “Cinema Novo é quando o Glauber está no Rio”, dizia Nelson Pereira. Mas foi muito mais que isso: foi uma fonte de inspiração, autoestima e energia para toda uma geração de cineastas que se empenharam em captar o espírito do tempo e do lugar, como Paulo Cezar Saraceni, Joaquim Pedro de Andrade, David Neves, Gustavo Dahl, Leon Hirszman, Carlos Diegues e outros. Mas são os filmes, não a movimentação ideológica, que dão a maior envergadura à trajetória e eternizam o nome de Glauber Rocha na história do país. Em termos de repercussão, dois filmes se destacam, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe, lançados respectivamente em 1964 e 1967. O primeiro dramatizava a vida de um trabalhador nordestino explorado que recorria primeiro à fé, simbolizando a insurreição de Canudos, e depois às armas, simbolizando o cangaço, em busca de justiça. Mais importante do que a fábula, no entanto, era a linguagem visual: uma luz áspera e a exaustão do tempo, associados a um modo épico, febril, de atuação, e a uma montagem por vezes abrupta, de choque, criavam um estilo intenso e original. No ano seguinte, em 1965, num congresso em Gênova, Glauber falava em “estética da fome” (em francês ele preferia chamar de “estética da violência”) para tentar definir um estilo terceiro-mundista que seria o do Cinema Novo mundial, brasileiro, cubano, africano etc. Com Terra em Transe, seu longa seguinte, Glauber carnavalizou o processo político brasileiro, criando um redemoinho desesperado em que populismo, messianismo religioso, exploração multinacional, entreguismo da burguesia e impassibilidade do povo eram jogados na cara do espectador, ofendendo teses da direita a da esquerda. Apesar de sua indelével permanência no imaginário do cinema brasileiro, nossos filmes parecem não beber muito de sua fonte. Mesmo aqueles filmes que se querem mais radicais não fazem uso da principal articulação criada por Glauber, a de linguagem visual e política (a vanguarda brasileira hoje, se há uma, aponta mais para lirismo do que para a provocação e a investigação – o que é lícito, diga-se, pois os tempos são outros). Em todo caso, mesmo sem influência direta, sua aura ainda faz diferença, às vezes até como um ícone confortável. A marca radical, porém, jamais será apagada.
Quando se está diante da obra de Glauber Rocha, a tendência é recorrer logo a superlativos para caracterizar sua contribuição não somente ao cinema brasileiro mas à cultura brasileira do século XX em geral: além de cineasta, ele foi também homem de letras – poeta, romancista, dramaturgo –, agitador cultural e um incansável polemista que discutia com propriedade e tinha olhares originais sobre nosso processo cultural, sobre nossa literatura e, como um esquerdista utópico/cósmico/heterodoxo, sustentava teses singulares sobre política e economia mundial. A tendência aos superlativos é, portanto, natural, mas ela exprime pouco. De um lado, ela é um atalho fácil para dar conta da diversidade e da intensidade de sua obra no ambiente intelectual/estético da segunda metade do século passado. Do outro, ela suscita um endeusamento automático que não faz nenhum bem ao artista, sobretudo alguém que viveu e criou no meio do turbilhão – e cuja arte não só exprime, como, sim, é o próprio turbilhão, um “riverão”, parafraseando o título de seu único romance publicado, traduzindo o opulento riverrun de James Joyce. Uma das teses comuns afirma que a existência de Glauber Rocha se confunde com a existência do cinema brasileiro. É um evidente exagero, porque o cinema brasileiro era ativo e potente muito antes de Glauber rodar seu primeiro metro de filme – desde o forte apelo popular das chanchadas até os prêmios no exterior, especialmente o prêmio concedido em Cannes em 1953 para O Cangaceiro, de Lima Barreto – e sua morte não impediu que nosso cinema continuasse a seguir seu curso. Esse exagero, no entanto, carrega uma real carga de verdade: foi graças aos filmes de Glauber Rocha e a seu sistemático bombardeio nos meios intelectuais que o cinema brasileiro passou a ser um tema sério de discussão em termos de arte e indústria no país, fazendo um giro brutal de 180° em relação ao desprezo e achincalhe habituais com que era recebido nos círculos dos doutores. Mesmo antes de rodar seu primeiro longa, Glauber Rocha foi o principal artífice do que veio a ser denominado de Cinema Novo, um cinema jovem, ágil, que afrontasse os ilusionismos e a ideologia de entretenimento do cinema vigente – Hollywood em primeiro lugar – para ser um instrumento de compreensão das formas de vida do brasileiro e das estruturas (mentais, políticas, sociais etc.) que norteiam sua existência. Esse tipo de olhar já era visível em cineastas surgidos nos anos 50, como Nelson Pereira dos Santos (Rio 40 Graus) e Roberto Santos (O Grande Momento), mas foi Glauber aquele que
Ruy Gardnier é jornalista e crítico de cinema. Trabalhou durante cinco anos com Paloma Rocha, filha de Glauber. 10
FÓrUM BRASIL DE TV O SESCTV, durante o Fórum Brasil de TV, realizado em São Paulo, nos dias 4 e 5 de junho, participou apresentando os bastidores da série de documentários Caminhos, com direção de Heloisa Passos. Com coprodução da Maquina Filmes, e fomento da ANCINE, a
Foto: divulgação
último Bloco
série, que estreou em fevereiro no SESCTV, fala sobre crianças, jovens e adultos a caminho da escola. A apresentação discutiu as possibilidades de coprodução entre o canal exibidor e uma produtora independente.
Foto: divulgação/giros produções Foto:
AS IDENTIDADES DO ROCK O rock comemora seu dia em 13 de julho. Para celebrar a data, o SESCTV preparou programação especial com shows que evidenciam a multiplicidade de vertentes do gênero. No dia 13, sexta, das 17h às 21h, vão ao ar Stereo Tipos e Porcas Borboletas (12 anos), Lobão (12 anos), Mangue Beat (10 anos), Viagens: Raul Seixas. O Início, o Fim e o Meio (12 anos) e Karnak (12 anos). No dia 15, domingo, das 14h às 18h, é a vez de Autoramas e Cachorro Grande (12 anos), Magic Slim (livre), Pato Fu (livre) e Tropicália (12 anos). O Instrumental Sesc Brasil, por sua vez, exibe a série especial Rock Instrumental (livre), do dia 9, segunda, ao dia 15, domingo, às 20h, com apresentações de Macaco Bong, Pata de Elefante, Fernando Catatau, Rainer Tankred Pappon, Chimpanzé Clube Trio e Burro Morto.
ARQUITETURA EM DESTAQUE
PRODUÇÃO INFANTOJUVENIL EM MUNIQUE
Neste mês, Coleções apresenta episódios da série Mestres da Arquitetura. As obras de Lúcio Costa, parceiro de Niemeyer no Plano Piloto de Brasília, no dia 5; de Affonso Eduardo Reidy, que planejou o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no dia 12; e de Sérgio Bernardes, conhecido por seus projetos residenciais e pela experimentação com estruturas metálicas, no dia 19, são os destaques, além do programa que analisa o Plano Piloto de Brasília, no dia 26. Quintas, às 21h30.
O SESCTV esteve presente, em junho, do Prix Jeunesse International 2012, realizado na cidade de Munique, na Alemanha. O canal foi convidado pela Fundação Prix Jeunesse e pela ONG Midiativa, que representa o festival no Brasil e na América Latina. O objetivo do evento, que reúne produtores de todo o mundo, foi conhecer, discutir e estimular a produção audiovisual voltada para o público infantojuvenil. O SESCTV exibiu produções premiadas no Prix Jeunesse Iberoamericano, edição 2011.
O SESCTV é credenciado pelo Ministério da Cultura como canal de programação composto exclusivamente por obras cinematográficas e audiovisuais brasileiras de produção independente em atenção ao artigo 74º do Decreto nº 2.206, de 14 de abril de 1997 que regulamenta o serviço de TV a cabo. Para sintonizar o SESCTV: Aracaju, Net 26; Araguari, Imagem Telecom 111; Belém, Net 30; Belo Horizonte, Oi TV 28; Brasília, Net 3 (Digital); Campo Grande, JET 29; Cuiabá, JET 92; Curitiba, Net 11 (Cabo) e 42 (MMDS); Fortaleza, Net 3; Goiânia, Net 30; João Pessoa, Big TV 8, Net 92; Maceió, Big TV 8, Net 92; Manaus, Net 92, Vivax 24; Natal, Cabo Natal 14 (Analógico) e 510 (Digital), Net 92; Porto Velho, Viacabo 7; Recife, TV Cidade 27; Rio de Janeiro, Net 137 (Digital); São Luís, TVN 29; São Paulo, Net 137 (Digital). Uberlândia, Imagem Telecom 111. Na GVT, canal 228. No Brasil todo, pelo sistema DTH: CTBC 227; Oi TV 28 e Sky 3. Para outras localidades, consulte sesctv.org.br
SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC Administração Regional no Estado de São Paulo
Presidente: Abram Szajman Diretor Regional: Danilo Santos de Miranda
A Revista é uma publicação do Sesc São Paulo sob coordenação da Superintendência de Comunicação Social. Distribuição gratuita. Nenhuma pessoa está autorizada a vender anúncios. Rua Cantagalo, 74, 13.º andar. Tel.: (11) 2227-6527
Direção Executiva: Valter Vicente Sales Filho Direção de Programação: Regina Gambini Coordenação de Programação: Juliano de Souza Coordenação de Comunicação: Marimar Chimenes Gil Redação: Edson Valente Divulgação: Jô Santina e Jucimara Serra
Coordenação Geral: Ivan Giannini Editoração: Ana Paula Fraay Revisão: Maria Lúcia Leão Supervisão Gráfica e editorial: Hélcio Magalhães
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Este boletim foi impresso em papel fabricado com madeira de reflorestamento certificado com o selo do FSC® (Forest Stewardship Council ®) e de outras fontes controladas. A certificação segue padrões internacionais de controles ambientais e sociais.
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Tão Próximo Quasar Cia. de Dança
30/8, quinta-feira, à meia-noite
Foto: Lu Barcelos
Lina Chamie Na nova temporada do Sala de Cinema
16/8 às 22h
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