Revista SescTV - Junho de 2013

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Junho/2013 - edição 75 sesctv.org.br

O GRITO KRAJCBERG O pensamento, a arte e o clamor pela preservação ambiental

Coleções A manifestação da fé em festas populares

Tributo a Gonzagão

Foto: fRANS kRAJCBERG

Uma releitura dos clássicos do Rei do Baião



Manifestações do simbólico

Manifestar-se por meio dos traços, das cores, das formas e dos movimentos e, assim, estabelecer um diálogo com a sociedade. Ao transpor para o simbólico os desejos e as interpretações de fatos, histórias e relações, artistas das mais diversas vertentes expõem sua visão de mundo, permitindo infinitas novas interpretações, num processo que dá vida e independência aos próprios projetos. Essa foi a escolha do polonês radicado no Brasil Frans Krajcberg em sua militância pela preservação ambiental. No lugar de palavras de protesto, o artista plástico usa sua habilidade e sensibilidade para transformar toras, galhos e restos de florestas queimadas em esculturas, num clamor em prol do meio ambiente. A história, o pensamento e a arte de Frans Krajcberg estão no documentário inédito O Grito Krajcberg, que o SescTV exibe neste mês. Com direção de Renata Rocha e narração de Maria Bethânia, o filme acompanha a rotina do artista em seu sítio, no sul da Bahia, e seu engajamento com o tema. Outro destaque do canal é a série Coleções, que traz neste mês dois episódios inéditos sobre festas religiosas celebradas em junho, nas cidades de Manaus (AM) e Conceição do Mato Dentro (MG). A programação musical apresenta o espetáculo Clássicos do Baião – Tributo a Gonzagão, no qual a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte faz releituras das canções de Luiz Gonzaga. O espetáculo é uma realização do Sesc RN em parceria com a universidade potiguar. O Instrumental Sesc Brasil traz Ivan Lins, acompanhado da banda Guanabara, relembrando sucessos da carreira do músico e compositor. A Revista do SescTV deste mês entrevista a produtora, diretora e professora Ariane Porto. Ela fala sobre a relação do audiovisual e a pauta do meio ambiente. No artigo, o cineasta Belisario Franca correlaciona as diversas vertentes e manifestações da cultura popular brasileira e o audiovisual. Boa leitura! Danilo Santos de Miranda Diretor Regional do Sesc São Paulo

CAPA: Documentário O Grito Krajcberg. Foto: Frans Krajcberg

destaques da programação 4 entrevista - Ariane Porto 8 artigo - Belisario Franca 10 3


Meio Ambiente

Um clamor à vida O Grito Krajcberg Foto: Djanira Chagas

Nova Viçosa, na Bahia, e denuncia, com sua arte e sua voz, a destruição do meio ambiente. “Estão destruindo a Amazônia como fizeram com a Mata Atlântica. E são sempre os mesmos”, alerta. “As queimadas continuam. Eu sou um homem queimado.” O SescTV exibe, neste mês, o documentário O Grito Krajcberg. Dirigido por Renata Rocha, o filme, produzido em 2010 e lançado no ano seguinte, tem narração de Maria Bethânia e traz entrevista com Krajcberg e depoimentos dos artistas plásticos Anna Letycia, Carlos Vergara, Emanoel Araújo e Justino Marinho; do crítico de arte José Antônio Saja; dos atores Victor Fasano e Christiane Torloni; e do governador da Bahia, Jaques Wagner. O documentário compõe uma programação especial do canal em celebração ao Dia Mundial do Meio Ambiente. Também será reapresentado o ciclo de cinema Inclusão e Sustentabilidade (confira no quadro). Nas palavras de Krajcberg: “Tudo que nasce neste mundo tem direito de viver”.

Onde os olhares humanos enxergam a destruição, Frans Krajcberg vê arte. É das cinzas das árvores e dos troncos chamuscados pela queimada que ele extrai sua matéria-prima para criar. Polonês que elegeu o Brasil como pátria, em 1971, Krajcberg faz de cada escultura um clamor pela natureza. Suas obras são uma denúncia à destruição, ao desmatamento e às queimadas que, ano a ano, destroem quilômetros de hectares de floresta, afetando ecossistemas, ameaçando espécies, num processo sem volta. Ao utilizar troncos, toras e outras sobras dessa destruição, Krajcberg dá sobrevida a essa natureza e transpõe, para a linguagem artística, seu grito de protesto. “A minha cultura é a natureza. Essa natureza me deu a grande possibilidade de continuar vivendo.” O próprio Krajcberg é um sobrevivente. Lutou na Segunda Guerra, como oficial do exército soviético, e perdeu toda a família nos campos de concentração da Polônia, em 1945. Em seu recomeço, escolheu o caminho das artes; estudou diferentes técnicas e, ao chegar ao Brasil, descobriu-se apaixonado pelas paisagens, pela natureza e por sua gente. “Nasci deste mundo que se chama natureza e o grande impacto da natureza foi no Brasil que senti. Foi aí que eu nasci uma segunda vez.” Pouco a pouco, esse deslumbramento foi sendo assimilado e transformado em obras autênticas. “Sou inteiramente ligado à natureza. Dela dependem minha sobrevivência e minha criatividade”, diz. Aos 92 anos de idade, completados em abril, Krajcberg segue uma rotina de artista-militante. Cuida pessoalmente de uma reserva ambiental, em seu sítio em

Documentário traz o pensamento e a arte de Frans Krajcberg, que faz de sua obra um apelo à natureza

meio ambiente Documentário O Grito Krajcberg Direção: Renata Rocha Dia 5/6, 20h

Ciclo Inclusão e Sustentabilidade Vidas no Lixo, de Alexandre Stockler, e Boca de Lixo, de Eduardo Coutinho Dia 1/6, 22h

As Coisas que Moram nas Coisas, de Bel Bechara e Sandro Serpa, e À Margem do Lixo, de Evaldo Mocarzel Dia 6/6, 0h

O Gigante de Papelão, de Bárbara Tavares, e À Margem da Imagem, de Evaldo Mocarzel Dia 7/6, 22h

Estamira, de Marcos Prado Dia 8/6, 22h

Efeito Reciclagem, de Sean Walsh Dia 13/6, 0h

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Coleções

Sinais da fé Procissão Fluvial de São Pedro. Foto: Giros Produções

dias, romeiros vindos de diversas regiões do País se reúnem para celebrar o Jubileu do Bom Jesus de Matosinhos. A origem da festa data de 1734, quando o escravo Antônio Angola encontrou uma imagem de Jesus crucificado, a qual seu patrão considerou ser a de Bom Jesus de Matosinhos, evocando a uma tradição de Portugal. “Naquele mesmo ano começaram as romarias. Quando se completariam 50 anos dessas peregrinações, o padre da época foi a Roma pedir autorização ao papa Pio VI para a aprovação do jubileu de ouro. A partir daí, a festa passou a receber esse nome”, conta o padre Marcello Romano. Mais de 80 mil pessoas seguem para a região para celebrar a fé e pagar promessas. Muitos acampam em frente à igreja e contam com a solidariedade para partilhar o alimento e garantir abrigo nos dias mais frios. “As histórias são muitas e a gente as conhece, principalmente, na Sala dos Milagres, onde as pessoas vão pagar suas promessas. Vão desde a cura das enfermidades do corpo até espirituais, traumas, rancores”, relata padre Marcello. O SescTV exibe, neste mês, dois episódios inéditos da série Coleções sobre o tema Festas Religiosas. Os programas trazem entrevistas com brasileiros de diferentes perfis e origens, mas que têm em comum a celebração e a partilha de sua fé. Coleções tem direção de Belisario Franca.

Vinte e nove de junho não é dia de pescaria para os trabalhadores de Manaus (AM). A data em que se celebra a memória de São Pedro é dedicada a festas e homenagens. Afinal, é ele o padroeiro dos pescadores, para quem são dirigidas as orações para retornar sempre em segurança – e com os barcos cheios – após um dia de trabalho. “Nessa data, no ano de 65 ou 66, São Pedro foi condenado à morte, juntamente com São Paulo”, explica Dom Luiz Vieira, arcebispo de Manaus. Todo ano, nesse período, a comunidade se organiza para realizar os festejos, que são divididos em quatro etapas. Começa com a celebração de uma missa, seguida por uma procissão pelas ruas, em que a imagem de São Pedro é carregada pelos fiéis. Depois, todos entram nos barcos e percorrem um trecho do rio Negro. A festa termina com a premiação do barco mais bem paramentado. A participação dos pescadores é intensa. “É uma região marcada pela presença da água e pela pesca. Temos grandes rios – Negro, Solimões, Amazonas, Tapajós, Madeira. Esses pescadores se identificam muito com São Pedro, porque ele próprio foi um pescador da Galileia”, afirma Dom Luiz. Junho também é mês de festa no município mineiro de Conceição do Mato Dentro. Durante oito

Dois episódios inéditos da série apresentam o sincretismo e a celebração presentes nas festas religiosas

coleções Festas Religiosas: Jubileu do Bom Jesus de Matosinhos Dia 20/6

Festas Religiosas: Procissão Fluvial de São Pedro Dia 27/6

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Instrumental

O pai de Madalena

Foto: divulgação

compositor. Até que começamos a perceber que esses festivais não davam continuidade a uma esperada carreira. Em 1970, resolvemos nos juntar e fazer um movimento de cunho universitário, que se chamou MAU, Movimento Artístico Universitário”. A gravação de sua música Madalena pela cantora Elis Regina, em 1970, deu a ele projeção nacional, abrindo portas para outros trabalhos. “Depois que a Elis resolveu gravar Madalena, a música estourou. Ela é a grande madrinha da minha carreira”, diz. No palco, Ivan Lins é acompanhado pelos músicos Marco Brito, nos teclados; Teo Lima, na bateria; Nema Antunes, no baixo; João Castilho, na guitarra e violão; e Marcelo Martins, no saxofone. E é justamente com Madalena que Ivan Lins encerra o espetáculo, dando uma canja também como cantor. Ainda neste mês, o SescTV exibe outros quatro espetáculos inéditos da série Instrumental Sesc Brasil: Celso Pixinga e All Stars; Ska Maria Pastora; Blues Etílicos; e Carlos Lyra. Direção artística de Max Alvim. Eclético. Assim costuma ser definido o estilo do músico e compositor Ivan Lins por colegas e críticos que acompanham seu trabalho. Autor de canções que ficaram conhecidas em interpretações suas e de inúmeros cantores brasileiros e internacionais – dos quais se destacam Elis Regina, Gal Costa, Emílio Santiago, Quincy Jones e Ella Fitzgerald –, Ivan Lins também compõe trilhas para cinema e temas instrumentais, vertente não tão difundida de sua carreira no Brasil, mas disseminada em vários outros países, especialmente os Estados Unidos. “Faço música instrumental ocasionalmente, gosto de fazer temas instrumentais e já tenho alguns deles gravados no mundo todo”, conta Ivan Lins. Em dezembro do ano passado, ele se uniu ao quinteto da banda Guanabara para montar um repertório, apresentado no projeto Instrumental Sesc Brasil, no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação. “Esse repertório foi pinçado de diversos espetáculos em festivais de jazz que a gente fez no mundo todo”, explica. O show foi gravado e será exibido neste mês pelo SescTV. Além de apresentar os novos arranjos de suas composições, como Dinorah, Dinorah; Daquilo que Eu Sei; Velas Içadas; e Madalena, Ivan Lins também relembra, em entrevista, sua trajetória musical. “Comecei como pianista de jazz e bossa nova, em 1965. Passei a compor quando entrei na universidade, em 1968. Participava de festivais universitários, como intérprete e como

Músico Ivan Lins apresenta versões instrumentais de canções como Dinorah, Dinorah e Daquilo que Eu Sei

Instrumental Sesc Brasil Domingos, 21h

Celso Pixinga e All Stars Dia 2/6

Ska Maria Pastora Dia 9/6

Blues Etílicos Dia 16/6

Carlos Lyra Dia 23/6

Banda Guanabara e Ivan Lins Dia 30/6

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música

Foto Roberto Assem

Ao filho de Januário

ternacional, sem perder as características de sua origem. E Luiz Gonzaga fez isso muito bem”, relata Muniz. Para o espetáculo, foram convidados intérpretes nordestinos que deram novas versões para as conhecidas canções. “A gente procurou fazer releituras e dar uma nova paisagem sonora para cada uma das músicas. A gente não poderia pegar uma Orquestra Sinfônica e executar as músicas exatamente como foram feitas. E não foi fácil selecionar o repertório, porque a obra de Luiz Gonzaga é muito vasta”, explica Muniz. Dentre os cantores, Khrystal, Valéria Oliveira, Camila Masiso, Wigder Valle e o ator e cantor Caio Padilha, que também apresenta o espetáculo. Neste mês, o SescTV apresenta o show Clássicos do Baião – Homenagem a Gonzagão, gravado em dezembro do ano passado no Sesc Pinheiros. No repertório, músicas como Baião; Assum Preto; Que nem Jiló; Paraíba; Xote das Meninas; e uma versão de Luar do Sertão, com participação do sanfoneiro Zé Hilton. O espetáculo também traz imagens de Luiz Gonzaga, projetadas num telão, cedidas pela TV Cultura de São Paulo e pelo Sesc RN. Direção para TV de Antônio Carlos Rebesco.

A vestimenta sugeria os preparativos para uma revolução: o chapéu de couro, réplica do que era usado por Lampião; o gibão, proteção do vaqueiro no trabalho no campo; e, no lugar da arma, um instrumento musical: a sanfona. Luiz Gonzaga foi, de fato, protagonista de uma revolução, a que levou a música, a cultura e os costumes nordestinos Brasil afora. Nascido em Exu, Pernambuco, em 1912, Luiz Gonzaga cantou a vida, as tristezas e as injustiças de seu povo, apresentando o cenário árido nordestino, em canções embaladas pelo ritmo do xote, do xaxado e do baião. O filho de dona Santana e seu Januário – um trabalhador da roça que também tocava o acordeão – aprendeu ainda menino a tocar e logo passou a se apresentar em bailes e feiras. Em suas composições, Gonzagão expunha a dura realidade do morador do sertão, como na sua mais célebre obra, a música Asa Branca. “Costumo dizer que nós temos três hinos nacionais: o oficial; a abertura de O Guarani, de Carlos Gomes; e Asa Branca, de Luiz Gonzaga”, afirma o maestro André Muniz, regente da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Em 2012, ano do centenário do nascimento de Luiz Gonzaga, Muniz e sua Orquestra aceitaram o desafio de homenagear o Rei do Baião, com releituras de suas principais canções. A iniciativa, uma realização do Sesc RN em conjunto com a universidade, integra o projeto Parcerias Sinfônicas Sesc, com o intuito de valorizar a cultura potiguar por meio da formação musical e do incentivo aos novos talentos. “Nada é mais emotivo e eloquente – ainda mais para músicos do Nordeste – do que a gente ter um resgate dessa pessoa que faz uma trajetória que muitos ainda tentam fazer: de sair do local e atingir o nacional e o in-

Orquestra Sinfônica da UFRN homenageia Luiz Gonzaga com releituras dos clássicos do Rei do Baião

Música Clássicos do Baião – Tributo a Gonzagão Dia 26/6, às 22h

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entrevista

“Temos de sair da zona de conforto” Foto: Pedro Abude

Como você se aproximou do audiovisual? Minha aproximação com a arte começou no teatro; fiz parte do Grupo Rotunda, em Campinas [primeiro grupo de teatro profissional do interior do estado de São Paulo, fundado em 1967], ao qual estou ligada até hoje. As artes sempre nortearam minhas atividades. Eu me formei em Ciências Sociais, na Unicamp. Depois, fui para a Escola de Comunicações e Artes da USP fazer mestrado, doutorado e pós-doutorado, daí já me voltando para a questão audiovisual. Em 1989, fundamos o Centro Cultural São Sebastião Tem Alma e começamos a usar o audiovisual como ferramenta. Passamos a registrar tudo em vídeo. Trabalhávamos com as comunidades litorâneas tradicionais e eu sentia uma separação grande feita entre cultura e meio ambiente. Era como se a preservação das culturas tradicionais não pudesse se relacionar com a preservação do meio ambiente. No intuito de dar voz a essas comunidades, começamos a produzir documentários. O audiovisual serviu como mediação. Vi que essa estratégia era acertada, principalmente para falar com o público infantil. Fizemos, então, um curta-metragem de animação, A Folha de Samaúma, para tratar da questão ambiental com as crianças, e que conta com Lima Duarte como roteirista. A partir desse contato, criamos o projeto Bem-Te-Vi, que consiste em deixar os equipamentos com as crianças, para que registrem sua visão de mundo. O interessante foi notar que, ao deixar a criança livre para escolher o tema de abordagem, em noventa por cento das vezes ela escolhe tratar sobre questões ambientais. Qual foi o impacto da Eco-92 na introdução da pauta ambiental na produção audiovisual? Foi também o ponto de partida para criar o Ecocine – Festival de Cinema e Meio Ambiente? A Eco-92 trouxe esse debate para a sociedade civil. Este foi o grande ganho: criar um espaço para falar sobre o meio ambiente, mesmo dentre os movimentos sociais que não tinham esse tema como foco central de seus trabalhos. A criação do Ecocine ocorreu no mesmo ano, com o intuito de levar essa discussão para o audiovisual. A ideia era ter um festival de caráter nacional, que não fosse apenas um espaço para exibir, mas também para pensar e

Ariane Porto é produtora, diretora e professora de audiovisual. Formada em Ciências Sociais, com mestrado e doutorado em Comunicação, ela entende a linguagem audiovisual como uma ferramenta de mobilização. Trabalha em projetos de Educomunicação, na capacitação de crianças e de grupos comunitários para o uso do audiovisual como forma de expressão. Há 20 anos, Ariane criou o Ecocine – Festival de Cinema e Meio Ambiente, com o intuito de ampliar o debate público e aguçar o olhar crítico do espectador sobre esse tema.

“Se você consegue mudar o olhar, gera mudanças na zona de conforto da sociedade. E a arte, como um todo, e o audiovisual têm essa capacidade”

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aprender, com oficinas, debates e incentivo para novas produções, por meio dos prêmios de aquisição. O Ecocine passou a ser uma janela e inspirou outros festivais. Hoje temos o FICA [Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental], que é bem grande, além de outras mostras que fazem esses filmes circular. Como é feita a seleção dos filmes para o Ecocine? É um processo complicado. O festival tem uma curadoria, que indica os filmes, e também um júri de seleção. Usamos alguns parâmetros, dentre eles se o tema é tratado objetivamente no filme, mesmo que seja como pano de fundo. Por exemplo: neste ano, exibimos Xingu, de Cao Hamburguer, que aborda a questão indígena, mas também o tema ambiental. Outro parâmetro é se o filme gera uma reflexão ao espectador. E olhamos inclusive para as questões técnicas, da qualidade das produções. A partir de 2005, o Ecocine reajustou seu foco, incluindo a questão dos Direitos Humanos como parte da discussão ambiental. Porque, onde há violação dos Direitos Humanos, de alguma forma há impacto na questão ambiental também. Assim, procuramos selecionar não só os filmes que trazem a floresta, mas ainda questões sociais e urbanas. Como o Cinema tem trabalhado esse tema? De forma bem múltipla e variada. E mesmo esses blockbusters são válidos. Só não pode ser um filme com informações incorretas ou com preconceitos. E é preciso que os pais façam a mediação com seus filhos. De que adianta levá-los ao cinema para ver Avatar ou Wall-E, que abordam essa questão ambiental, e, depois da sessão, sair consumindo sem consciência? Vejo os adultos ainda numa zona de conforto, ou seja, numa situação que não provoca mudanças substanciais. Sou otimista e penso que as coisas podem melhorar, desde que haja um movimento nesse sentido. Está nas mãos dos educadores, dos pais e dos meios de comunicação. E você avalia que houve avanços na sociedade nesse sentido? Acredito que sim. A gente tem hoje uma geração mais consciente sobre a preservação da natureza. As crianças aprendem sobre a reciclagem na escola. Por outro lado, ainda falta um aprofundamento sobre a questão, para perceber que aquilo que compramos e que comemos também impacta no meio ambiente. Precisamos aprender a consumir menos e melhor. E as crianças são as maiores vítimas, porque estão vulneráveis às campanhas publicitárias, que se apro-

“A pauta ambiental ainda sofre preconceito nos meios de comunicação. Temos muito espaço para crescer ainda, aproveitando este amplo alcance que a televisão tem ”

priam desse discurso para fazê-las consumir. Ainda tratamos a questão do meio ambiente parcialmente; os adultos estão pouco preparados e as escolas têm uma visão muito rasa. O que está faltando na sociedade é uma relação direta, um bom senso entre o discurso e a ação. Falta coerência. E nós produtores culturais temos um papel importante também, porque trabalhamos com sonhos, aspirações, com o lúdico e as sensações. Então, tenho que ter uma postura ética e levar as pessoas a pensar. Se você consegue mudar o olhar, gera mudanças na zona de conforto da sociedade. E a arte, como um todo, e o audiovisual têm essa capacidade. O uso de termos como “sustentabilidade” tem se tornado comum na mídia. É um sinal de mudanças na sociedade? Não necessariamente. Brinco que algumas palavras deveriam ser proibidas, porque seu significado acaba sendo desvirtuado. Há uma apropriação desses termos, mas sem nenhum impacto significativo de mudança. Ou seja, perdem o sentido. Sustentabilidade é um deles. São usadas pelos setores de marketing das empresas, mas não correspondem às ações, porque não é orgânico, não tem conteúdo, não está impregnado, inserido nas atividades cotidianas. Tínhamos de trocar todos esses termos por uma palavra: educação. É ela que representa a cultura ou o cultivo. O resto é jargão. Na sua opinião, a televisão abre espaço para esse debate? A TV abre muito pouco espaço ainda. Se pensar na quantidade de canais disponíveis na TV aberta e na TV por assinatura, temos centenas de horas de programação, que poderiam ampliar e aprofundar essa discussão. Penso que a pauta ambiental ainda sofre preconceito nos meios de comunicação. Temos muito espaço para crescer ainda, aproveitando esse amplo alcance que a televisão tem.

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artigo

Caleidoscópio brasileiro

Quando levada a sério, é um espaço privilegiado para o exercício livre da criatividade e experimentação, tanto estética quanto narrativa. Se hoje o cinema vive um momento engessado, de fórmulas e formatos previsíveis, temos na televisão, mais do que nunca, a saída para infinitas possibilidades de criação. Aqui se pode – e se deve – inventar. Tem sido esse o caminho adotado por emissoras mundo afora.

E quando o documentário em questão se propõe a falar sobre as nossas manifestações culturais, nossa identidade sempre em movimento, temos em mãos uma matéria-prima privilegiada. Um material infinito e muito pouco explorado. Tal combinação de fatores permite leitura e releitura livres, de maneiras diferentes. Recortes ilimitados de uma imensidão: seja na arquitetura, na música, na dança, na gastronomia, nos autos populares, na poesia, nas cidades históricas, nos ofícios, nos imigrantes, na religião, nas rotas históricas, nos hábitos, seja nos festivais... Essa liberdade de abordagem e transmissão é, contudo, o maior desafio de se apropriar de um assunto que é tão rico quanto pouco visitado. A tradução de uma cultura já é, em si, um ponto de vista sobre o tema. Dessa forma, a escolha narrativa é posta em xeque. Como narrar Mário Quintana? Como mostrar o ritmo do Carimbó? Quais caminhos tomar para falar sobre a Vaquejada? Qual a melhor maneira de filmar a Festa da Carpição? De que forma imprimir multidões de pessoas reunidas com o objetivo de festejar, manter vivas tradições ancestrais, estar em grupo e sentir a pulsação de uma comunidade? Para cada tema, uma nova linguagem; para cada linguagem, um novo desafio. Seja qual for a narrativa eleita, o resultado de propagar a cultura nacional a seus próprios habitantes é a satisfação de ter acesso às reações do público. Mas toda realização artística já nasce incompleta, uma vez que é feita em torno do que falta dizer. Essa incompletude é o que motiva e deixa como resíduo uma produção. Cada documentário é um pretexto para um novo fazer. Fazer no tempo, fazer para o tempo. De novo. De uma nova forma. Realizar documentários traz sentimentos contraditórios. De um lado, a satisfação de perceber que aos poucos um inventário começa a formar corpo. De outro, a responsabilidade de confirmar mais uma vez a marca de um encontro essencial. Assim como a televisão, nossa cultura está, e estará sempre, em uma inevitável formação. É incompleta porque o caminho ainda não terminou. E está longe de terminar.

O documentário na televisão é capaz de encantar, estimular e explorar linguagens inovadoras. Consegue repensar e renovar as bases do gênero. Guarda a possibilidade de buscar o inédito. A televisão não precisa ser efêmera.

Belisário Franca é cineasta e diretor da série Coleções, do SescTV.

Se alguns aspectos da nossa cultura são conhecidos e divulgados a ponto de simbolizarem toda uma nação, muitos outros estão em processo de extinção e/ou jamais foram documentados. Ao longo de 8.515.767,049 quilômetros quadrados, se espalham pelo território brasileiro um sem fim de cores, ritmos, aromas, sons e sabores. A maior particularidade da manifestação verde e amarela é a sua multiplicidade. E nosso inventário cultural é um bem precioso que só existe, resiste e se transforma graças ao esforço de seu maior criador: o povo. Onde quer que estejam os 194 milhões de habitantes deste País de muitas faces, somos todos herdeiros de tradições seculares influenciadas pelos elementos naturais e humanos das regiões em que afloram, e fundamentais para a construção de nossa identidade. Assim segue o Brasil, atravessando a contemporaneidade: envolvido pelas influências mais essenciais e rudimentares, cultuando suas raízes mais profundas, cada vez mais patrimônio da humanidade, material e imaterial, cultural e natural. Nossos costumes e tradições originais ainda estão vivos e pulsantes, e precisam ser vistos, divulgados, revisitados e reprocessados por outras gerações. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2011 dão conta de que 59,4 milhões de lares contam com, pelo menos, uma televisão. Isso corresponde a 96,9% do total de casas brasileiras. O alcance das imagens já supera as ondas do rádio. Para os criadores de conteúdo, a TV é um canal poderoso, estimulante e encorajador de transmissão de conhecimento. Fala sem interlocutores com praticamente todos os habitantes do País. São muitas pessoas. Muito diferentes.

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último Bloco Foto:Perin Movimento Violão Pablo Márquez. foto Adauto

O teatro das periferias

Foto: Divulgação

Quatro episódios da série Teatro e Circunstância apresentam, neste mês, companhias e projetos focados no tema Inclusão e Periferia. Os programas trazem entrevistas com atores e diretores de grupos teatrais que buscam, nas regiões periféricas dos centros urbanos, a pulsação, a energia e a criatividade para criar novos trabalhos. Com direção de Amílcar M. Claro e roteiro de Sebastião Milaré, a série é exibida todas as terças-feiras, às 22h, abordando o teatro contemporâneo em interação com outras artes e vertentes. Confira programação completa no site.

Violão em múltiplas vertentes Diferentes timbres, estilos e técnicas a partir de um mesmo instrumento. Essa versatilidade é apresentada no projeto Movimento Violão, série de concertos que o SescTV exibe todas as terças-feiras, às 20h. Com curadoria de Paulo Martelli, traz virtuoses do violão instrumental, com repertório erudito e popular. Neste mês, estão programados os espetáculos de Eduardo Isaac, dia 4/6; Pablo Márquez, dia 11/6; Marco Pereira, Paulo Martelli e Orquestra Metropolitana, dia 18/6; e Duo Assad, dia 25/6.

Produção infantil em debate

A arte de Cerveny

Produtores, diretores e pesquisadores na área da infância reúnem-se, entre os dias 3 e 7 deste mês, no Sesc Consolação, para participar do ComKids Prix Jeunesse Iberoamericano Brasil 2013, uma correalização do Sesc, Midiativa e Singular. O festival é uma versão do Prix Jeunesse Internacional, realizado na Alemanha, e apresenta produções audiovisuais e digitais para crianças e adolescentes, sendo um espaço de formação e discussão para os profissionais envolvidos. Neste ano, o SescTV participa do festival com o Prêmio Aquisição, para incentivar a produção infanto-juvenil com linguagens inovadoras.

A série Artes Visuais visita, neste mês, o ateliê do artista plástico Alex Cerveny. Desenhista, ilustrador, pintor e escultor, Cerveny iniciou sua carreira como autodidata e recebeu orientações de Valdir Sarubbi, no desenho e pintura, e Selma Daffré, para os trabalhos de gravura em metal. Na década de 1980, trabalhou no jornal Folha de S.Paulo, ilustrando os textos de colunistas. Dia 5/6, 21h30. Também neste mês, serão exibidos os episódios inéditos Poesia Visual, dias 12/6 (parte 1) e 19/6 (parte dois); e Sofia Borges, dia 26/6. Direção de Cacá Vicalvi.

Para sintonizar o SESCTV: Anápolis, Net 28; Aracaju, Net 26; Araguari, Imagem Telecom 111; Belém, Net 30; Belo Horizonte, Oi TV 28; Brasília, Net 3 (Digital); Campo Grande, JET 29; Cuiabá, JET 92; Curitiba, Net 11 (Cabo) e 42 (MMDS); Fortaleza, Net 3; Goiânia, Net 30; João Pessoa, Big TV 8, Net 92; Maceió, Big TV 8, Net 92; Manaus, Net 92; Natal, Cabo Natal 14 (Analógico) e 510 (Digital), Net 92; Porto Velho, Viacabo 7; Recife, TV Cidade 27; Rio de Janeiro, Net 137 (Digital); São Luís, TVN 29; São Paulo, Net 137 (Digital). Uberlândia, Imagem Telecom 111. No Brasil todo, pelo sistema DTH: Oi TV 28 e Sky 3. Para outras localidades, consulte sesctv.org.br

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Direção Executiva: Valter Vicente Sales Filho Direção de Programação: Regina Gambini Coordenação de Programação: Juliano de Souza Coordenação de Comunicação: Marimar Chimenes Gil Redação: Adriana Reis Divulgação: Jô Santina, Jucimara Serra e Glauco Gotardi Envie sua opinião, crítica ou sugestão para atendimento@sesctv.sescsp.org.br Leia as edições anteriores em sesctv.org.br Av. Álvaro Ramos, 776. Tel.: (11) 2076-3550

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