Novembro/2012 - edição 68 sesctv.org.br
negritude a identidade negra representada e discutida em ciclo de cinema
INSTRUMENTAL SESC BRASIL GUILHERME ARANTES APRESENTA VERSÕES PARA SUCESSOS DE SUA CARREIRA
DANÇA CONTEMPORÂNEA
Foto: DIVULGAÇÃO
ismael ivo compara pessoas a livros em biblioteca del corpo
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Crédito: Exposição FILE 2011. Foto: Julia Moraes - FIESP
artes visuais quartas, às 21h30
youtube.com/sesctv
@sesctv
IDENTIDADES EM CONFLITO
No mês em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, o SescTV apresenta um ciclo de cinema para discutir o protagonismo e a questão da identidade negra no Brasil. São sete filmes: Em Quadro – A História de 4 Negros na Tela (2009), de Luiz Antonio Pilar, que trata das carreiras dos atores Zezé Motta, Ruth de Souza, Lea Garcia e Milton Gonçalves; Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro Andrade; Compasso de Espera (1973), de Antunes Filho; A Negação do Brasil (2000), de Joel Zito Araújo; Quase Dois Irmãos (2004), de Lúcia Murat; Cafundó (2005), de Paulo Betti e Clóvis Bueno; e Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá (2006), dirigido por Silvio Tender. Antes de cada exibição, especialistas fazem um comentário a respeito dos temas abordados nos filmes e debatem as questões raciais levantadas nas obras. Com essa mesma proposta, o artigo desta edição da revista traz o professor Noel dos Santos, que desenvolve pesquisa de pós-doutorado em cinema e identidade cultural no Departamento de Multimeios da Unicamp. Ele aborda o conflito da identidade brasileira e o despertar da autoestima por meio do audiovisual. A programação do SescTV inclui também uma apresentação inédita de dança. Na coreografia Biblioteca del Corpo, concebida por Ismael Ivo a partir de um conto de Jorge Luis Borges, as pessoas são comparadas a livros, metaforizando o aprendizado na condição humana em seu significado mais amplo – decifrar o mundo a partir da compreensão do outro. O cineasta Isaac Julien, na entrevista desta edição, expande sua percepção crítica para além da intolerância a homossexuais negros, tema de seus primeiros trabalhos. A primeira mostra individual do artista no Brasil acontece no Sesc Pompeia, em São Paulo, e o SescTV é uma das plataformas de mídia da exposição com o programa Videobrasil na TV. Boa leitura! Danilo Santos de Miranda Diretor Regional do Sesc São Paulo
CAPA: Ator Grande Otelo no filme Macunaíma, dirigido por Joaquim Pedro Andrade. Foto: Divulgação
destaques da programação 4 entrevista - Isaac Julien 8 artigo - Noel dos Santos Carvalho 10 3
Instrumental sesc brasil
O pop sem palavras Guilherme Arantes. Foto: Mariana chiarella
reconhecimento na elite da música. Ele veio através da Elis e marcou uma virada na minha vida.” Para o público, essa reviravolta foi a voz da intérprete para Aprendendo a Jogar. Porém, nos bastidores, a artista fez-se presente em outro sucesso de Guilherme, Pedacinhos, que está no repertório do show instrumental. “A música saiu de borbotão, porque eu estava me separando”, lembra o pianista. “Foi justamente nesse período em que me envolvi com a Elis e tive que abrir o jogo em casa. Aí fiz aquela letra supersincera. E quando existe muita verdade, quando se está vivendo mesmo aquilo, a credibilidade é forte. A coisa sai, assim, muito espontânea.” Essa sinceridade implica o envolvimento percebido nas leituras femininas das peças. Reunir algumas dessas versões motivou um projeto do DJ Zé Pedro, entrevistado no programa. Fundador da gravadora Joia Moderna, Pedro organizou um disco com 20 faixas de Guilherme Arantes interpretadas por “mulheres de todas as gerações”, que iam “gravar sem ler a letra”, recorda. Ele define como “momentos mágicos” os sinais de emotividade das cantoras durante as sessões no estúdio. Caso de Fafá de Belém, que registrou Planeta Água em “um take só, aos prantos”. No show que será mostrado pelo SescTV também não falta sentimento às intervenções vocais, que surgiram a cargo da plateia, notadamente em Um Dia Um Adeus e Meu Mundo e Nada Mais – outra dotada da “credibilidade do sofrimento”; no caso, a dor do Guilherme adolescente, que se isolava no escuro do quarto. O Instrumental Sesc Brasil exibe ainda neste mês apresentações de Arismar do Espírito Santo, no dia 5; Silvia Goes, no dia 19; e The Mutants, no dia 26.
Dissociar palavras e melodias nas composições de Guilherme Arantes não é tarefa das mais simples. E, de certa forma, esse seria o desafio na apresentação do artista, que vai ao ar no dia 12 deste mês no programa Instrumental Sesc Brasil. “É uma incógnita, porque eu tenho mania de querer cantar as músicas”, diz ele sobre o show. “Mas elas saem perfeitamente no piano.” Se dependesse da ambição paterna, seu talento para construir canções tão populares teria seguido outros rumos. “O que meu pai cobrava de mim era no mínimo [ser] um Tchaikovsky”, conta. “Mas eu era da música popular. Eu era fanático por Roberto Carlos, pela idolatria que havia em torno da Jovem Guarda.” A porção mais favorável da herança foi o ecletismo, reconhece. “Essa a influência do meu pai, que era louco pelos Beatles, louco por Pixinguinha, por Tom Jobim, pelos Demônios da Garoa, por Adoniran. Ele que me ensinou a ouvir um pouco de tudo.” Assimilada a variedade de estilos, o fascínio pela figura do compositor marcou sua trajetória desde o início. “Eu queria ser aquele que faz as músicas nos bastidores. Foi assim que eu comecei a compor e a mostrar minhas músicas para as cantoras.” A aproximação de Elis Regina, afirma, foi um divisor entre patamares. “A Elis pediu música, dizendo: ‘Você é um compositor de mão cheia’. Eu estava no terceiro ano de carreira e ainda não tinha conseguido um
GUILHERME ARANTES FAZ UMA RELEITURA DOS SUCESSOS DE SUA CARREIRA
INSTRUMENTAL SESC BRASIL
Segundas, às 22h
Arismar do Espírito Santo Dia 5/11
Guilherme Arantes Dia 12/11
Silvia Goes Dia 19/11
The Mutants Dia 26/11
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dança contemporânea
Biografia humana Espetáculo: biblioteca del corpo, com a cia. arsenale della danza. Foto: Pedro abude
a uma estante, que “arquiva” os bailarinos em compartimentos lacrados por vidros. “A um ponto esses vidros se rompem, e os corpos são liberados para iniciar essa caminhada, uma viagem dentro do seu percurso existencial”, descreve Ivo. A tensão evolutiva, nessa biblioteca em que impera não o silêncio, mas sim o ruído, desenvolve-se em uma ambientação sombria. As trilhas se cruzam em suas sinuosidades, formando os pontos de apoio da teia constituída entre os dois extremos da solidão: o do útero e o da câmara mortuária. Entre eles é que se deve procurar equilibrar-se. A iluminação brinca com os claros e escuros das manifestações humanas e os símbolos a elas associados – que, em vez de facilitar, podem travar a comunicação. As intervenções sonoras, a determinado momento, marcam a indiferença do tempo para com os que ficam pelo caminho – ou que nem chegam a iniciá-lo. Ao final, segundo Borges, o consolo, reduzido a um esqueleto, é “ser mais um dado histórico arquivado na memória da humanidade”, expressa Ismael Ivo. “Isso é a biblioteca do corpo.”
Idealizado a partir de um conto do escritor argentino Jorge Luis Borges, o espetáculo Biblioteca Del Corpo, da Companhia Arsenale Della Danza, compara os homens às obras literárias. “Cada pessoa tem um DNA que é diferente do da outra, cada indivíduo tem uma potência de originalidade em si”, considera Ismael Ivo, responsável pela concepção da coreografia mostrada neste mês pelo SescTV. A direção geral para a TV é de Antônio Carlos Rebesco “Pipoca”. Na grande biblioteca humana, cada livro “precisa ser aberto, precisa revelar suas capacidades, suas emoções, seus desejos, suas informações”, metaforiza Ivo. Dessa forma, a viagem pela vida, como insinuava Borges, consiste em buscar o conhecimento por meio de uma leitura integrada de estilos, recursos e movimentos que se complementam, mas também se conflitam. “Encontros, desencontros. Acordos, desacordos. Acertos, desacertos. Isso é a possibilidade de encontrar a sua escritura, de virar as páginas do seu próprio livro”, elabora o coreógrafo. “Corpos como páginas, como raízes que produzem livros, que produzem ideias, que produzem desejos, vocabulários da dança contemporânea.” A representação visual dessa proposta orbita em torno de uma instalação que se assemelha
ISMAEL IVO FAZ UMA LEITURA DAS INTERAÇÕES E DOS CONFLITOS ENTRE OS INDIVÍDUOS
DANÇA CONTEMPORÂNEA Biblioteca Del Corpo – Cia. Arsenale Della Danza Dia 31/10, quarta, às 24h
Pares, Olhares Sobre Um Só (Dans Le Noir/ Tempo Escasso) – Grupo Divina Dança Dia 7/11, quarta, às 24h
Tráfego – Cia Nova Dança 4 Dia 14/11, quarta, às 24h
Um Conto Idiota – J.Gar.Cia Dança Contemporânea Dia 21/11, sábado, às 24h
Todas as Tardes – Silvia Geraldi Dia 28/11, quarta, às 24h
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especial musical
Foto: AMANDA LOUZADA
Três amplificadores
No Brasil, a guitarra não é protagonista somente quando se trata de estilos sonoros herdados de culturas estrangeiras, como o rock. Alguns artistas a escolheram para desenvolver um repertório enraizado no cancioneiro do país, caso de Olmir “Alemão” Stocker, Hélio Delmiro e Heraldo do Monte. E, ao adotá-la, contam terem enfrentado ressalvas por parte de um certo nacionalismo artístico – o qual julgam infundado. Afinal, argumentam Heraldo e Olmir, o pandeiro, o cavaquinho e o violão, sustentáculos do samba, também não são de origem nacional. No programa Trilogia da Guitarra Brasileira, que vai ao ar no dia 21 deste mês, o trio reitera sua brasilidade ao interpretar obras de relevância da trajetória cultural do país: de Tom Jobim (Samba de uma Nota Só e Wave) a Waldir Azevedo (Pedacinhos do Céu), de Chico Buarque (Joana Francesa) a Ari Barroso (Na Baixa do Sapateiro) e Lamartine Babo (Serra da Boa Esperança), chegando a Villa Lobos (Estudo nº 1). Coincidentemente, nenhum dos três aprendeu seu ofício no instrumento que os consagrou. “Toquei clarinete na orquestra da escola”, lembra Heraldo. Em seguida, diz, começou a estudar violão. A guitarra só apareceu quando um cantor de seu bairro o convidou para apresentar-se com ele em uma boate de Recife. A iniciação de Delmiro foi com o cavaquinho, antes de aventurar-se pelos acordes dissonantes da bossa nova ao violão. “Um dia eu me vi num momento de ter que tocar mais alto, envolvendo outros instrumentos. Aí tinha que tocar guitarra”, conta. Olmir empunhou o violão aos sete anos, passou depois pela “fase do cavaquinho” e teve contato com a guitarra quando servia o Exército. Outra característica comum entre eles é a
improvisação. Nos shows do Quarteto Novo, grupo do qual Heraldo fez parte, a alquimia da experimentação misturava frases de repentista, composições de Luiz Gonzaga e o som das bandas de pífanos do Nordeste. Hélio Delmiro, a exemplo do jazzista americano Wes Montgomery – mas sem ser influenciado por ele –, explorava as oitavas musicais da partitura. Quando escutou Montgomery pela primeira vez, diz, chorou “um mês inteiro”. A presença de grandes nomes da música entre os figurantes de histórias relatadas ao longo do programa denota o status conquistado pelos três. Do espaço “privê” no Montreux Jazz Festival, na França, Hélio Delmiro emocionou-se com uma performance de Elis Regina, com quem trabalhou por quatro anos, e Hermeto Pascoal. Em uma gravação na RCA, foi a cantora americana Sarah Vaughan quem interrompeu as sessões para apreciar os solos de Delmiro. Antes de integrar Os Wandecos, conjunto de Wanderleia na Jovem Guarda, Olmir Stocker recusou o convite para fazer parte da banda de apoio de um cantor que despontava à época – ninguém menos que Roberto Carlos.
HÉLIO DELMIRO, HERALDO DO MONTE E OLMIR “ALEMÃO” STOCKER REVERBERAM NA GUITARRA SUA BRASILIDADE
ESPECIAL MUSICAL Direção para TV: Daniela Cucchiarelli
Trilogia da Guitarra Brasileira Dia 28/11, às 22h
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CICLO DE CINEMA
Voz da consciência Filme: Quase dois irmãos, de lúcia murat Foto: divulgação
Antonio Pilar, documentário em que os atores Zezé Motta, Ruth de Souza, Lea Garcia e Milton Gonçalves falam de suas carreiras. A Negação do Brasil (2000), de Joel Zito Araújo, que examina a participação dos atores afro-brasileiros na história da telenovela no país, e Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, consagração de Grande Otelo na figura do herói do romance de Mário de Andrade, são comentados pelo historiador e escritor Joel Rufino dos Santos. O ator e diretor Zózimo Bulbul avalia as referências culturais na construção dos personagens de Compasso de Espera (1973), de Antunes Filho, e Cafundó (2005), de Paulo Betti e Clóvis Bueno. A relação entre dois amigos de etnias diferentes em Quase Dois Irmãos (2004), de Lúcia Murat, passa pela leitura crítica do diretor Jeferson De. O ciclo tem consultoria do pesquisador e sociólogo Noel dos Santos Carvalho.
A arte negra, em termos mundiais, tem produzido frutos que, ao longo da história, contribuem para pensar a participação da etnia no contexto sociocultural de diferentes regiões. Como exemplo dessa produção podemos citar os primeiros filmes do cineasta Isaac Julien, que tratam de problemas enfrentados por negros homossexuais. Ser Negro no Brasil o que é?, ciclo temático de cinema que integra a programação do mês do SescTV, traz a reflexão para a realidade brasileira ao tecer paralelos entre o status do negro na produção audiovisual do país e sua inclusão em nossa sociedade. A ideia do ciclo, que vai ao ar entre os dias 20 e 25 e marca as comemorações do Dia Nacional da Consciência Negra (20/11), partiu de artigo publicado na Folha de S.Paulo em maio de 2000, Ser Negro no Brasil Hoje, do geógrafo Milton Santos, protagonista de um dos filmes mostrados pelo canal, Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá (2006), com direção de Silvio Tendler e que discute os efeitos da globalização em diferentes localidades. Cada sessão é precedida de um debate com um especialista, que aborda um tema relacionado ao filme a ser exibido na sequência. Três aspectos principais norteiam as análises: a presença dos personagens negros na dramaturgia e na literatura, muitas vezes relegada a um papel secundário, a trajetória dos atores negros no cinema e na televisão brasileiros e a condição do negro na sociedade. O antropólogo Dagoberto José Fonseca revê o filme de Silvio Tendler sobre Milton Santos. Sueli Carneiro, diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, é a convidada para discorrer sobre Em Quadro – A História de 4 Negros na Tela (2009), de Luiz
SER NEGRO NO BRASIL O QUE É? DISCUTE A CONDIÇÃO DOS NEGROS NA ARTE E NA SOCIEDADE
SER NEGRO NO BRASIL O QUE É? Macunaíma (1969) Direção: Joaquim Pedro Andrade Dia 20/11, às 23h
Compasso de Espera (1973) Direção: Antunes Filho Dia 21/11, às 23h
A Negação do Brasil (2000) Direção: Joel Zito Araújo Dia 22/11, às 23h
Quase Dois Irmãos (2004) Direção: Lúcia Murat Dia 23/11, às 23h
Cafundó (2005) Direção: Paulo Betti e Clóvis Bueno Dia 24/11, às 23h
Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá (2006) Direção: Silvio Tender Dia 25/11, às 20h
Em Quadro – A História de 4 Negros na Tela (2009) Direção: Luis Antônio Pilar Dia 25/11, às 23h
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entrevista
Foto: divulgação
Representações multiculturais
Você expôs em alguns filmes características particulares da cultura negra, em diferentes momentos e contextos. Como fez essas escolhas de personalidades e movimentos? No começo dos anos 1980, coletivos de filmes de negros surgiram como resposta a questões de representação na mídia e à falta de diversidade de imagens disponíveis. Grupos nos quais eu estava envolvido – como o Sankofa Film and Video Collective e o Black Audio Film Collective – eram parte de uma geração de artistas e cineastas que queriam fazer filmes no cinema de arte negra, o qual tratava de questões de representação, sem compromisso com os aspectos formais e estéticos da realização dos filmes. Entre 1980 e 1984, eu vinha tomando parte do Sankofa Film and Video Collective enquanto estudava pintura, cinema e fotografia no St Martin’s College. Isso nos capacitou a responder a paradigmas de relações raciais na mídia dominante antes impossíveis de se contestar, e o fizemos utilizando em nossos filmes estratégias de estética e avant-garde, em trabalhos como Territories (1984) – meu projeto de graduação, uma crítica das representações da mídia para o Carnaval, em um estilo poético de abordagem fílmica; Who Killed Colin Roach (1983), um videodocumentário sobre a reação de uma família/comunidade negra às circunstâncias suspeitas em torno da morte de seu filho Colin Roach; e longas, como Young Soul Rebels, que ganhou o prêmio Semaine de la Critique em Cannes,
Isaac Julien, nascido em 1960 em Londres, cidade em que vive e trabalha, é formado em pintura e cinema de arte. Sua obra já esteve em mostras em Paris, Miami, Nova York, Boston, Lisboa, Madri, Xangai, Londres e Sydney. Sua primeira exposição individual no Brasil, Isaac Julien: Geopoéticas, com curadoria de Solange Farkas, parceria entre Sesc e Videobrasil, acontece no Sesc Pompeia até 16/12.
“AS PREOCUPAÇÕES POLÍTICAS SÃO AS MESMAS PARA MIM, QUER SEJAM TRANSMITIDAS EM UM CENÁRIO LOCAL, QUER, COMO É O CASO DE TEN THOUSAND WAVES, EM UM CONTEXTO MUNDIAL”
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fragmentou nossas experiências visuais, e a questão das multiplataformas e das interações na cultura da imagem em movimento em geral é extremamente diversa. É interessante que isso não necessariamente significou o surgimento de uma avant-garde artística radical, mas o efeito oposto, em que há até, talvez, uma padronização, e assim é importante continuar a fazer intervenções formais nos contextos de filme e imagem, continuar a desenvolver uma linguagem artística que conteste os modos dominantes de ver e de produzir imagens. Claro que esse ponto de vista é também fundamental para a voz de quem fala, por assim dizer, ou produz imagens, que precisa ser considerada, especialmente no contexto da globalização. Quem fala, quem tem de representar perspectivas, quem faz arte se torna crescentemente importante, junto com o questionamento das formas dominantes de mídia e arte. Como surgiu seu interesse sobre a China ao fazer Ten Thousand Waves [instalação de nove telas que explora os movimentos de pessoas através de países e continentes]? Como percebe a evolução de diferentes comunidades ao redor do mundo? Você pretende chamar a atenção para suas idiossincrasias? Na verdade, minha China começou na Inglaterra – enquanto fazia Ten Thousand Waves (2010), minha pesquisa começou no norte da Inglaterra, em Lancashire, onde 25 apanhadores de moluscos se afogaram na baía de Morecambe, pela falta de conhecimento sobre as marés costeiras. Levei quatro anos para desenvolver a percepção de como diferentes comunidades de um lugar tão distante quanto a província de Fujian, no sudeste da China, poderiam tomar parte em um trabalho que eu tentaria fazer. Finalmente eu consegui, através de pesquisa e com muita ajuda, situar essa tragédia sob a perspectiva de Mazu, a deusa do mar em Fujian, uma divindade venerada no sudeste da China, interpretada por Maggie Cheung e de quem os apanhadores de moluscos tomariam conhecimento no filme. Esse fato e o conhecimento prévio me levaram à realização de Ten Thousand Waves. Claro, a cultura chinesa é muito mais antiga que a ocidental e, por essa razão, o aprendizado é contínuo ao longo do processo em um trabalho como esse. Mas obviamente a questão da comunidade é tão importante em Ten Thousand Waves quanto foi em meus primeiros trabalhos, como Who Killed Colin Roach (1983). As preocupações políticas são as mesmas para mim, quer sejam transmitidas em um cenário local, quer, como é o caso de Ten Thousand Waves, em um contexto mundial.
“É IMPORTANTE CONTINUAR A FAZER INTERVENÇÕES FORMAIS NOS CONTEXTOS DE FILME E IMAGEM, A DESENVOLVER UMA LINGUAGEM ARTÍSTICA QUE CONTESTE OS MODOS DOMINANTES DE VER E DE PRODUZIR IMAGENS”
em 1991. Você estendeu seu trabalho para além do filme tradicional devido a restrições do formato para mostrar o que você pretendia comunicar? Quais seriam essas restrições? Em meados dos anos 1990, comecei a questionar as expectativas de estilo da indústria cinematográfica comercial para os filmes narrativos, porque eu vinha de uma educação em arte cuja expectativa era questionar o modo como eram feitos os filmes tradicionais, nos quais predominavam formatos de tela única e técnicas de narração linear. Isso se tornara muito limitante, e, além do mais, estava em curso a revolução digital, em termos de tecnologia e produção de imagem, por meio da qual, no começo dos anos 2000, era possível sincronizar várias telas. Comecei a evoluir rumo a um cinema expandido, criado pelo movimento para o contexto da galeria de arte. Isso me permitiu colocar em primeiro plano em meu trabalho questões formais e me capacitou para uma aproximação experimental ao fazer trabalhos de videoarte e de imagens em dinâmicas em geral. Aquele movimento também inseriu os filmes em um contexto de arte e me colocou em contato com diferentes públicos. Gosto da ideia de ser capaz de ocupar posições duplas, realizando e mostrando trabalhos tanto no contexto de arte como no de cinema, da maneira que Derek (2008), filme biográfico sobre o cineasta Derek Jarman, foi exibido no Channel 4 de televisão [rede inglesa] ao mesmo tempo em que foi apresentado em uma exibição, da qual fui curador, do trabalho de Jarman na Serpentine Gallery, em Londres, em 2008. Em sua opinião, quais são hoje os principais desafios, em termos de formato, em cinema e nas artes em geral? Como encontrar a linguagem apropriada, dentre tantas opções, para expressar determinados pontos de vista? O fator que mais influenciou formatos e questões estéticas relacionadas a filmes e trabalhos de imagens em movimento está ligado à revolução da imagem computadorizada e digital, em que o tempo
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artigo
O povo é o negro brasileiro O século XX foi o da luta dos negros. No Brasil, nos Estados Unidos e na África do Sul, o combate foi o mesmo: contra a invisibilidade gerada pelo preconceito. Aqui, reivindicou-se uma “verdadeira abolição”, já que a de 13 de maio de 1888 não se efetivara. Lutou-se pela integração do negro na sociedade, uma vez que o racismo marginalizara milhares de trabalhadores negros, e combateu-se a crença que apregoava não haver racismo no Brasil. Em várias frentes dessas lutas, quando o saldo foi positivo para os negros, também o foi para a sociedade. A razão é muito simples: suas reivindicações se fundem à luta da maioria da população por cidadania. Nos períodos democráticos, a agenda dos movimentos negros caminhou paralela às demandas dos partidos populares, sindicatos e organizações de classe. O negro é um forte índice da nacionalidade. O que, aliás, os intelectuais mais sensíveis ao âmago do país entenderam rapidamente. Nos anos 40, o historiador Sérgio Buarque de Holanda criticou os estudos culturalistas sobre o negro que, segundo ele, reduziam sua contribuição na formação da nacionalidade1. Mais incisivo, o sociólogo Guerreiro Ramos escreveu: “(...) carece de significação falar em problema do negro puramente econômico, destacado do problema geral das classes desfavorecidas ou do pauperismo. O negro é povo, no Brasil.”2 Os golpes contra a democracia foram muito duros com essa parcela da população, duplamente violentada, como cidadãos brasileiros e como negros. A ideologia autoritária e conservadora, sabemos, anda de braços dados com o racismo. Os estados policiais sempre foram mais vigilantes e intolerantes com as minorias étnicas, o que explica a adesão incondicional das entidades negras aos valores democráticos. A ditadura varguista fechou a Frente Negra, que congregava milhares de militantes em suas fileiras. Com o final do Estado Novo, os artistas do Teatro Experimental do Negro (TEN) aderiram às forças democráticas e ao pacto populista. Organizaram-se politicamente nos partidos de esquerda e nos populistas, realizaram congressos para discutir sua condição, pautaram as pesquisas nos principais centros acadêmicos do país e construíram uma agenda que denunciava o racismo e reivindicava sua integração na sociedade. O novo retrocesso veio com o golpe militar em 1964 e o menu de barbárie que se seguiu. Os anos 1970 foram de lenta e subterrânea reorganização. No final da década, a fundação do Movimento Negro Unificado (MNU) somou-se às centenas de entidades que lutavam por democracia, porém com agenda
que ia além da política tradicional e exigia para o negro reparação simbólica, reavaliação de seu papel na história, valorização da sua cultura e combate sistemático à folclorização da sua imagem. Em 1988, nos 100 anos da Abolição, reivindicações históricas dos movimentos negros ganharam a agenda nacional: o Estado reconheceu as desigualdades raciais, assegurou a posse das terras para os remanescentes de quilombos, criou a Fundação Cultural Palmares e a lei que pune a prática do racismo. A capa da Veja de 11 de maio de 1988, revista de maior circulação da época, estampava fotos de personalidades e anônimos negros com a palavra “Negros”. Um artigo do historiador Luiz Felipe de Alencastro colocava para o público o que os ativistas vinham denunciando nos últimos 100 anos: a existência do preconceito racial na base da desigualdade social.3 Atualmente o movimento negro combate os estereótipos raciais na literatura, cinema e TV na perspectiva de construir uma educação que valorize a diversidade étnica. Este é o objetivo da Lei 10.639, que obriga o ensino da cultura afro-brasileira e africana nas escolas. Há o entendimento de que os produtores de audiovisual podem ser aliados dos educadores se capazes de construir narrativas que valorizem a autoestima de um povo sem renunciar à crítica e à arte. É sabido o quanto os estereótipos ofensivos pesam na autoimagem das crianças e afetam sua formação. A história do século XX mostrou que as conquistas do povo negro irradiaram-se em direitos para outros grupos. O debate sobre cotas raciais levou à inclusão de indígenas e egressos da escola pública nas universidades. A luta contra os estereótipos na literatura e no audiovisual deve construir uma nova narrativa para o Brasil. Hoje há o consenso de que o combate a todas as formas de preconceito é a condição para a civilidade e a democracia entre nós.
Noel dos Santos Carvalho é sociólogo, professor de cinema no curso de Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e pesquisador colaborador do Departamento de Multimeios da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). 1- Ver: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Cobra de Vidro. São Paulo: Perspectiva, 1978. 2- RAMOS, Alberto Guerreiro. Introdução Crítica à Sociologia Brasileira. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995, p. 200. 3- ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Centenário de um Mau Século: o Deprimente Brazil dos Escravos de 1888 Tem Razões para Inquietar o País de Hoje. Veja. São Paulo, ano 20, n. 19, p. 20-40, maio 1988.
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último Bloco operador de metro. FOto: divulgaçao Foto:
CULTURA GLOBAL As condições políticas e psicológicas do indivíduo contemporâneo, moldadas pelos deslocamentos característicos da sociedade global, são analisadas pelo pensador e psiquiatra italiano Mauro Maldonato no programa Derivações, que vai ao ar no dia 16, às 19h (livre). O debate conta ainda com a participação dos professores Franklin Leopoldo e Silva, do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Carlos, e Leila Leite Hernandez, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, e é mediado por Ulisses Capozzoli, doutor em História da Ciência pela FFLCH-USP e editor da Revista Scientific American Brazil. Com direção geral de Marcelo Vaz, o programa tem direção de arte de Osmar Miranda e trilha sonora de Duda Mack. A diversidade cultural também é tema dos episódios de HiperReal, dirigido pelo cineasta Kiko Goifman: Angolanos, no dia 2 (14 anos); Bolivianos, no dia 9 (12 anos); Coreanos, no dia 16 (12 anos); Palestinos, no dia 23 (10 anos); e Kasher, Klezmer e Pop, no dia 30 (10 anos). Sextas, às 21h.
No dia 5, estreia nos intervalos da programação do SescTV a série Ofícios, dirigida pela videoartista Lucila Meirelles. Cada episódio de até três minutos, por meio de uma narrativa poética, mostra um ofício configurado em sua origem e suas semelhanças com profissões atuais, além de fragmentos que nos remetem a uma memória coletiva. Muitas atividades extinguiram-se devido às transformações tecnológicas ou sociais. Entre as profissões elencadas pelo projeto destacam-se as de serigrafista, datilógrafo, ascensorista, pintor de placas e letreiros, verdureiro, amolador de facas, engraxate, chapeleiro, funileiro de panelas de alumínio, lavadeira e fotógrafo lambe-lambe.
DRAMATURGIA ÉTNICA A série Teatro e Circunstância, com direção de Amilcar M. Claro e com roteiro, pesquisa e entrevista de Sebastião Milaré, apresenta o tema Teatro Comunitário e Teatro Étnico, que destaca diretores e companhias teatrais que realizam produções nas periferias de várias regiões do país. No dia 13, o episódio Militância com Arte (12 anos) exibe os grupos Grita, de São Luís do Maranhão, ZAP 18 e Grupo do Beco, de Belo Horizonte, e II Trupe de Choque, de São Paulo. Em Quando a Periferia é o Centro (12 anos), no dia 20, é a vez de Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes e Grupo Clariô de Teatro, de São Paulo, Cia. Candongas e outras Firulas, de Belo Horizonte, e Grupo Via Magia de Teatro, de Salvador. Teatro da Negritude mostra, no dia 27, artistas que falam da condição e da representação do negro na dramaturgia brasileira. Terças, às 22h (12 anos).
Helvécio ratton. Foto: ligia gbrosch
PROFISSÕES DO PASSADO
QUEM MEXEU NO MEU QUEIJO? O queijo de Minas foi tombado e tornou-se produto de determinações políticas com as leis sanitárias de 1952 e os interesses em que a iguaria não ultrapassasse fronteiras. O cineasta Helvécio Ratton abordou essa questão no documentário O Mineiro e o Queijo (2010), sobre o qual fala no programa de Sala de Cinema, dirigido por Luiz R. Cabral, do dia 8 (16 anos). A atriz Imara Reis, no dia 1 (14 anos); o diretor, roteirista e montador Giba Assis Brasil, no dia 15 (16 anos); e o professor de cinema e montador Máximo Barro, no dia 22 (16 anos), estrelam os outros episódios inéditos do mês. Quintas, às 22h.
Para sintonizar o SESCTV: Anápolis, Net 28; Aracaju, Net 26; Araguari, Imagem Telecom 111; Belém, Net 30; Belo Horizonte, Oi TV 28; Brasília, Net 3 (Digital); Campo Grande, JET 29; Cuiabá, JET 92; Curitiba, Net 11 (Cabo) e 42 (MMDS); Fortaleza, Net 3; Goiânia, Net 30; João Pessoa, Big TV 8, Net 92; Maceió, Big TV 8, Net 92; Manaus, Net 92; Natal, Cabo Natal 14 (Analógico) e 510 (Digital), Net 92; Porto Velho, Viacabo 7; Recife, TV Cidade 27; Rio de Janeiro, Net 137 (Digital); São Luís, TVN 29; São Paulo, Net 137 (Digital). Uberlândia, Imagem Telecom 111. No Brasil todo, pelo sistema DTH: Oi TV 28 e Sky 3. Para outras localidades, consulte sesctv.org.br
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Fafá de Belém
“Canto das Águas”
Crédito: Guilherme Licurgo
em dezembro
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