Espetáculo Conceição, do Grupo Experimental. Foto: Alex Ribeiro.
Janeiro/2011 - edição 46 www.sesctv.org.br
Dança Contemporânea
FIPA 2011
Faixa Curtas
Festa popular e religiosa inspira coreografia do Grupo Experimental
SescTV representa o Brasil na mostra competitiva
Programa abre espaço para curtas-metragens de ficção, de ontem e de hoje
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Artista Bororó - Banda Quarteto Paulista. Foto: Nilton Silva
Instrumental Sesc Brasil
Programas Inéditos Todas as segundas, às 22h
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Histórias traduzidas em movimentos
A cultura é viva porque está em constante transformação. A todo momento, novas experiências e olhares são incorporados às mais diversas manifestações culturais e artísticas, renovando-as e reinventando-as. A experimentação é parte desse processo permanente de construção, gerando uma complexidade sadia e bem-vinda. O resultado dessa pulsante renovação é a diversidade, que transparece em sons e ritmos musicais, nas artes visuais, no cinema, na literatura e em movimentos de dança, presentes na programação do SescTV, que inicia 2011 com uma programação de espetáculos inéditos de Dança Contemporânea. Em comum, os espetáculos trazem aos palcos a diversidade na tradução de experiências, pesquisas e vivências de bailarinos e coreógrafos. Os dançarinos, ao dar um mergulho no tema proposto, descobrem e desvendam histórias e rituais; transportam, então, o resultado dessa reflexão para o universo dos movimentos, os quais, encadeados intencionalmente, criam um diálogo com o público no campo sensorial. Assim, provocam ora encantamento, ora estranhamento. E proporcionam a reflexão. E por falar em Dança Contemporânea, outro episódio integrante do acervo do canal, o espetáculo Kafka in Off, da Cia. Borelli de Dança, foi selecionado para a mostra competitiva do FIPA 2011 (Festival International des Programmes Audiovisuels). O evento acontece todos os anos em Biarritz, na França, e reúne produções audiovisuais do mundo todo. Trata-se de um importante reconhecimento ao canal e à sua proposta de difusão cultural. Diversidade também é o foco de outra série que o canal estreia neste mês. Faixa Curtas abre espaço para a exibição de curtas-metragens de ficção reunidos tematicamente em episódios de uma hora de duração. Diferentes linguagens, origens e propostas misturam-se, dando um panorama da produção desse gênero audiovisual no Brasil. A Revista do SescTV traz, neste mês, entrevista com Francisco César Filho, curador da Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, a qual completou cinco edições em 2010. Ele analisa a apropriação de temas relacionados aos Direitos Humanos pelas produções audiovisuais e os avanços no entendimento mais ampliado dessa questão por realizadores e espectadores. No Último Bloco, notícia da participação do SescTV no Encontro de TVs Públicas e Culturais da América Latina, realizado em Recife, no mês passado. Boa leitura! Danilo Santos de Miranda Diretor Regional do Sesc SP
destaques da programação 4 entrevista - Francisco César Filho 8 último bloco 11
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Dança Contemporânea
Profissão de fé Espetáculo Conceição, do Grupo Experimental | Foto: Alex Ribeiro
dela chegou a Recife. Essa festa dura quase dez dias e tem como ponto forte a data de 8 de dezembro, quando uma procissão de milhares de pessoas passa por lá”, explica Mônica Lira. Depois de assistir a um documentário sobre os festejos e de impressionar-se com as histórias que ouviu, Mônica fez o convite ao grupo para realizar uma pesquisa. “Fomos à festa para ver de perto as pessoas e a forma como elas iam com tanta fé e esperança em busca de algo”, relata. Mônica explica que essa manifestação de fé mexeu com os integrantes do grupo, que traduziram a vivência em cenas ricamente simbólicas, compondo a coreografia. “Esse espetáculo tem um sentido especial para cada um de nós, já que todos têm um porquê na vida. Para mim, ali e no decorrer das apresentações algumas respostas surgiram: a relação do ser humano com a forma de viver e se sustentar no dia de hoje; aquilo que a gente tem como alicerce em nossa vida”, conta Mônica. O espetáculo tem trilha sonora original de Tomaz Alves Souza. Neste mês, também serão exibidos os seguintes espetáculos inéditos: Jardim Noturno, da Cia. Maurício de Oliveira e Siameses, dia 05/01; Corpos Ilhados, de Vera Sala, dia 12/01; e Pianíssimo, da Cia. Oito Nova Dança, dia 26/01. A faixa Dança Contemporânea tem direção geral de Antonio Carlos Rebesco “Pipoca”.
Espetáculo inédito Conceição, do Grupo Experimental, inspira-se na Festa do Morro da Conceição, que reúne milhares de fiéis em Recife
Festas populares e ritos religiosos são, frequentemente, ponto de partida de coreógrafos na elaboração de novos trabalhos. A dramaticidade presente nos rituais, na música e nos movimentos serve de inspiração para dançarinos, que reconstroem e criam novos significados para experiências distintas. A Festa do Morro da Conceição, realizada em Recife no mês de dezembro, sempre instigou a coreógrafa Mônica Lira, que enxergava na reunião de fiéis um rico material para a montagem de um espetáculo. Juntamente com bailarinos do Grupo Experimental de Dança, ela acompanhou os festejos numa pesquisa in loco, que resultou no espetáculo Conceição (foto), que o SescTV exibe neste mês na estreia de episódios inéditos da faixa Dança Contemporânea. “A festa acontece num bairro chamado Casa Amarela, que tem um morro com o nome da santa, Conceição, há mais de cem anos, desde que a imagem
dança contemporânea Quartas-feiras, 24h Jardim Noturno – Cia. Maurício de Oliveira e Siameses Dia 05/01 Corpos Ilhados (Vera Sala) Dia 12/01 Conceição (Grupo Experimental) Dia 19/01 Pianíssimo, Cia Oito Nova Dança Dia 26/01 Verifique a classificação indicativa em www.sesctv.org.br
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faixa curtas
Curtas histórias Curta-metragem Tempo de Ira. Dir.: Marcélia Cantaxo e Gisella Mello. Foto: Divulgação
televisão ainda é pequeno, especialmente na TV aberta”, explica. Ele cita o Canal Brasil, a TV Cultura e, mais recentemente, a TV Brasil como emissoras que, assim como o SescTV, abrem espaço para a exibição de curtas-metragens. “A perspectiva para 2011 é muito boa. Os realizadores também devem ficar atentos a essas mudanças”, alerta Soares. Para a seleção dos filmes que compõem o Faixa Curtas, Soares recorreu a um acervo de produções antigas e mesclou-as com filmes mais recentes. No total, cerca de 130 filmes serão exibidos, numa média de três curtas-metragens por programa. Compõem o episódio de estreia, que tem como tema Cinema e Solidão, os curtas: Cotidiano, de Joana Marian (2008), premiado nos festivais de Miami (EUA) e Vitória, em 2009; Chapa, de Thiago Ricarte (2009), premiado nos festivais de Cannes (França), Santa Maria da Feira (Portugal), São Paulo, Rio e Goiânia, entre 2009 e 2010; e Náufrago (1998), de Amílcar M. Claro, que recebeu mais de 17 prêmios, entre eles, os festivais de Huesca (Espanha), Santiago (Chile), Salvador, São Paulo, Brasília, Recife, São Luís, Rio de Janeiro e Cuiabá. Também é destaque na série, neste mês, o episódio Cinema e Literatura, que exibe, entre outros filmes, o curta-metragem A Partida (2003), de Sandra Ribeiro, feito a partir da obra de Osman Lins, e tendo como protagonista Paulo Autran.
Nova série apresenta curtasmetragens de ficção em episódios temáticos, com uma hora de duração
A produção de curtas-metragens passa por uma fase favorável no Brasil. Se na década de 1990 a realização de filmes desse gênero não ultrapassava 150 produções anuais, hoje chega a mil novos filmes todos os anos. “O advento da tecnologia digital e a democratização do acesso aos equipamentos permitiram essa expansão da produção”, afirma o produtor Luiz Carlos Soares, curador da série Faixa Curtas, que o SescTV exibe a partir deste mês. A nova série, em programas com uma hora de duração, será dedicada à exibição de curtas-metragens de ficção organizados por temas tais como Cinema e Literatura; Cinema e Terceira Idade; e, entre outros, Cinema e Relacionamento. Para Soares, o crescimento das produções trouxe também significativa melhora na qualidade e na diversidade dos filmes. No entanto, o acesso do público a esses filmes ainda é restrito. “Muitos curtas circulam pelas diversas mostras e festivais, mas o espaço na
faixa curtas Segundas, às 21h. Cinema e Solidão Dia 10/01 Cinema e Terceira Idade Dia 17/01 Cinema e Literatura Dia 24/01 Cinema e Destino Dia 31/01 Verifique a classificação indicativa em www.sesctv.org.br
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sala de cinema
Cineanimação Foto: divulgação
que nos estúdios Disney contava com 400 profissionais. “O animador nasce com a capacidade e vontade de ver suas imagens em movimento e não se satisfaz com o desenho parado. Ele quer que aquilo se mova e aconteça com o passar do tempo”, afirma Marcos Magalhães, considerado um dos principais nomes da animação brasileira na atualidade. Sua estreia no cinema ocorreu em 1982, com o curta-metragem Meow, vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes daquele ano. Formado em Arquitetura, Magalhães abriu mão dessa profissão para dedicar-se ao cinema de animação. Fez estágio no National Film Board e teve contato direto com McLaren, que o inspirou a realizar o filme Animado (1983), que mistura várias técnicas de animação para mostrar o processo de criação do animador. De volta ao Brasil, Magalhães foi convidado a coordenar a realização de um curso de animação, numa parceria do instituto canadense com a Embrafilme, estatal brasileira de distribuição de filmes criada em 1969 e extinta em 1990. Parte desse grupo iniciou um movimento em prol da animação no Brasil, que resultou, entre outras coisas, na realização do Festival Anima Mundi. Para Magalhães, o Brasil vive um bom momento na produção de animação, como prova a realização de séries infantis exibidas na TV. “O público brasileiro gosta de se reconhecer”, conta Magalhães, em entrevista ao Sala de Cinema, que o SescTV exibe neste mês. Sala de Cinema apresenta, ainda em janeiro, entrevistas inéditas com o crítico Inácio Araújo, dia 6/01; Zelito Vianna, dia 20; e Miguel Faria Jr., dia 27. Direção de Luiz R. Cabral.
O desenho animado surgiu no início do século 20 para atender ao público adulto. Entre os primeiros temas abordados naquele momento estavam o erotismo, a política e o terror. Somente mais tarde é que as produções se voltam para o público infantil, direcionamento consolidado pelo produtor norte-americano Walt Disney, com longas-metragens que imortalizaram fábulas e personagens, marcando a infância de várias gerações. Outro pioneiro na história da animação mundial, o escocês Norman McLaren, é citado ainda hoje como uma das principais referências para produtores de diversas nacionalidades. Tendo trabalhado no National Film Board do Canadá, McLaren inovou em técnicas, como a de criar animações desenhando direto na película. No Brasil, o cinema de animação tem como marco inicial o longa-metragem Sinfonia Amazônica, de 1951, realizado pelo visionário Anélio Latini Filho. Produzida sem grandes recursos, a animação caiu no gosto do público por tratar de temas nacionais. Um making of que precedia a exibição do longa dava demonstrações da ousadia desse brasileiro ao realizar, sozinho, o trabalho
Programa apresenta entrevista inédita com Marcos Magalhães, considerado um dos principais nomes da Animação no Brasil
sala de cinema Segundas, às 22h Inácio Araújo Dia 06/01 Marcos Magalhães Dia 13/01 Zelito Vianna Dia 20/01 Miguel Faria Jr. Dia 27/01
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especial musical
Encontros sinfônicos Foto: divulgação
Neste mês, o SescTV exibe quatro programas inéditos em que a Jazz Sinfônica apresenta repertório de músicos consagrados mundialmente. Na estreia, a Orquestra brasileira homenageia o músico norte-americano Duke Ellington, considerado um dos mais importantes compositores para big bands. “Duke Ellington é um dos maiores compositores norte-americanos. Ele tem muitos álbuns gravados, teve banda desde os anos 1930”, diz o saxofonista Maurício de Souza. “Tocar essas músicas dá uma nostalgia até de uma época que eu não vivi. É uma música que tem uma esperança, uma alegria, que muda o estado de espírito”, elogia a violoncelista Patrícia Ribeiro. Para montar o repertório, Galindo explica que estabeleceu alguns critérios: “Primeiro, tinha de ser uma coisa variada. Então, nós temos duas peças só com a big band; depois, a Orquestra toda entra, faz algumas baladas, umas com solistas, outras não. No final, coloquei três peças de grande envergadura, uma delas muito ousada, que mistura elementos da música erudita. Com isso, fiz um programa bastante contrastante e variado. Eu evito a monotonia e procuro agradar ao público”, justifica. “O outro critério é mostrar as diversas facetas do Duke Ellington: o mais dançante, o mais melódico, e a possibilidade que ele dá de criar obras mais sofisticadas”, completa. Além de imagens dos espetáculos, os programas trazem também gravações dos bastidores e dos ensaios, e entrevistas com o regente e com os músicos participantes. Os episódios trazem ainda concertos com repertório de Moacir Santos, dia 12/01; Stan Kenton e Fuego Cubano, dia 19/01; Miles Davis e Gil Evans, dia 26/01.
Promover um encontro da música popular com a erudita, dando uma roupagem sinfônica a obras populares do mundo todo, e em especial às composições brasileiras – essa era a motivação de Arrigo Barnabé e Eduardo Gudin quando decidiram criar a Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo, a qual teve como convidado, em seu memorável concerto de estreia realizado em 1990 na cidade de Campos do Jordão, ninguém menos que Antônio Carlos Jobim. A Orquestra, que em sua formação reúne as características de uma big band popular e as de uma orquestra tradicional, é mantida pela Associação Paulista dos Amigos da Arte (APAA), em convênio com a Secretaria de Estado da Cultura. Nessas duas décadas de trabalhos ininterruptos, a Jazz Sinfônica apresentou novos arranjos para canções de Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gal Costa, Edu Lobo e João Bosco, entre tantos outros. “A gente quebra as barreiras. Com essa proposta, [a Orquestra] tem trazido um público cada vez maior para nosso trabalho”, afirma o diretor artístico João Maurício Galindo, regente titular da Orquestra.
Quatro programas inéditos apresentam espetáculos em que a Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo homenageia compositores consagrados
Especial Musical Jazz Sinfônica Quartas feiras, às 22h Sobre Duke Ellington Dia 05/01 Sobre Moacir Santos Dia 12/01 Sobre Stan Kenton e Fuego Cubano Dia 19/01 Sobre Miles Davis e Gil Evans Dia 26/01
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entrevista
Foto: Nilton Silva
O cinema dos Direitos Humanos
Francisco César Filho é formado em Cinema
Como começou sua carreira e em que momento passou a envolver-se com curadoria de mostras de Cinema? Estudei Cinema no curso da ECA e tive a sorte de conviver com uma turma muito empreendedora e talentosa. Alguns de meus colegas foram as cineastas Tata Amaral e Anna Muylaert, só para citar dois nomes. Antes mesmo de pegar na câmera, eu já estava organizando o primeiro ciclo de cinema por lá. Queria assistir aos filmes, mas não estavam disponíveis no circuito. E toda minha trajetória tem compreendido essa organização e curadoria de mostras.
pela Escola de Comunicações e Artes da USP, e desde 2008 assina a curadoria da Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, que já soma cinco edições. Realizada em 20 cidades de todas as regiões do País, entre as quais Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Rio de Janeiro, São Paulo e Teresina, a Mostra apresenta filmes de diferentes gêneros e origens e que abordam temas ligados aos Direitos Humanos. A Mostra, criada pela Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República para celebrar os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2006, vem-se firmando como um espaço de reflexão, inspiração e promoção do respeito à dignidade intrínseca da pessoa humana.
Quando e em qual contexto foi criada a Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul? Em 2006, ano de celebração dos 60 anos da Declaração dos Direitos Humanos, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República decidiu criar um evento que chamasse a atenção do público para o tema. Tinha de ser algo que mostrasse a dimensão dos Direitos Humanos, mas que não parecesse didático demais. Foi nesse contexto que surgiu a ideia da realização de uma mostra de cinema. A intenção era de que houvesse um rodízio de curadores desse evento. Fui chamado para assinar a terceira edição, e, nos anos seguintes, a Secretaria entendeu que eu deveria continuar. Em 2010, completamos cinco edições e ampliamos para 20 cidades de todo o Brasil. É uma honra assumir essa responsabilidade, porque não se trata apenas de arte e cultura. São temas sérios, importantes e urgentes para o País.
“Muita gente ainda vê os Direitos Humanos como defesa de bandido. Não entendem que trabalho, saúde e meio ambiente também são Direitos Humanos”
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Como curador da Mostra, quais são seus maiores desafios? De que forma é realizada a seleção dos filmes? Tenho alguns pontos de partida. O primeiro deles é contemplar os dez países produtores de cinema da América do Sul. Outro critério é que os filmes tratem de Direitos Humanos com o maior leque possível desse tema: violência, infância, mulher, etnias, educação, trabalho, meio ambiente sadio etc. A programação tem de caber num número pequeno de sessões: são seis dias de exibição, com quatro sessões diárias, em cada cidade. Desde que assumi o evento, apresentei a proposta de dar a ele características mais de um festival, seja na qualidade dos filmes ou no nome dos diretores. Mexi no desenho da programação criando duas atividades paralelas: uma Restrospectiva Histórica e uma Homenagem. Em 2010, o homenageado foi o ator argentino Ricardo Darín. Conseguimos trazer, para pré-estreia no País, seu novo filme Abutres (direção de Pablo Trapero), que foi um reconhecimento para nossa Mostra. Também foi criada uma convocatória, que circula pelos países sul-americanos. Assim, os diretores têm a chance de mandar seus filmes. Na primeira edição, recebemos 41 filmes. Agora, eles já chegam a 200. O desafio de assinar essa curadoria torna a missão muito sedutora.
“O audiovisual tem características maravilhosas em termos de instrumentalização: trabalha com o imaginário e com a sensibilidade”
uma ilusão de ótica aquela imagem em movimento, feita para que o telespectador tenha familiaridade com ela. E ele se deixa levar, permite envolver-se com a magia do cinema. Ele vivencia aquilo como algo real, mesmo que seja o universo fantástico proposto por Tim Burton. Isso é muito rico, porque o espectador absorve os ruídos e a música com sua sensibilidade. O resultado disso é algo apreendido pelo lado sensorial. E aí está a riqueza, que é maior do que em qualquer outro meio de fruição. Como você avalia o cinema sul-americano atual? A qualidade da produção cinematográfica sofreu transformações nos últimos cinco anos. Antes disso, já tínhamos boas produções no Brasil, na Argentina e no México. Às vezes sabíamos de algo vindo da Colômbia ou do Peru. Mas era mais difícil conseguir bons títulos. Só que a proliferação de equipamentos digitais expandiu a produção em todos os países e isso também se reflete na qualidade, ao ponto de, em 2009, o filme vencedor do Festival de Berlim ter sido uma produção peruana. Há cinco anos não se produziam filmes na Costa Rica e agora eles já ganham prêmios internacionais. Hoje, dá para se fazer uma Mostra de Cinema de Direitos Humanos com filmes representantes de todos os países.
E, na prática, a Mostra contribui para romper preconceitos. Sem dúvida. Há muita incompreensão sobre esse tema. Muita gente ainda vê os Direitos Humanos como defesa de bandido. Não entendem que trabalho, saúde e meio ambiente também são Direitos Humanos. O grande mérito da Mostra é aproximar o público desse tema. O cinema é palpável, é querido, trabalha com sensações. Por meio dele, não precisamos tratar os Direitos Humanos de forma apenas racional. É isso que dá a repercussão nacional que a Mostra tem. Temas ligados aos Direitos Humanos são os intrínsecos à pessoa humana, ou seja, dizem respeito à vida. A Mostra dá um panorama da diversidade de temas e linguagens sobre o tema Direitos Humanos, que não se restringe à escolha de documentários de denúncias. Exato. Entendíamos que, se exibíssemos apenas documentários, atrairíamos os militantes da causa. Seria como “pregar para convertidos”. Quando se opta por trabalhar com filmes comerciais de ficção, o espectador pode curtir essas projeções sem se dar conta de que são Direitos Humanos. O público se envolve com os personagens e com a trama. Mas, quando abre o programa da Mostra, identifica quais temas dos Direitos Humanos estão embutidos naqueles filmes. Você vê, por exemplo, como o filme O Signo da Cidade (direção de Carlos Alberto Riccelli, 2007), que tem a Bruna Lombardi e o Juca de Oliveira no elenco, aborda a temática dos direitos dos idosos, da adolescência, das drogas e do aborto. Tudo num filme de ficção. É um caminho mais sutil, que tem os Direitos Humanos como pano de fundo. Mas também temos filmes que abordam a questão de forma mais direta, como o Pra frente, Brasil (Roberto Farias, 1982), que mostra um cidadão comum sendo preso e torturado para confessar um crime que não cometeu. Esse filme causou extraordinária polêmica na época de seu lançamento.
Foto: Nilton Silva
E é possível identificar uma linguagem comum aos filmes sulamericanos? Uma característica comum a esses filmes talvez seja a de se posicionar em relação à sociedade em que ele foi desenvolvido. Os filmes sempre estão falando de cultura e política para suas próprias sociedades. Temos tido, nas atuais safras de cineastas, muitos filmes que se relacionam aos Direitos Humanos. No Brasil, a gente vem tratando nossa realidade desde o Cinema Novo, nos anos 1960. Esse movimento foi extremamente importante. Talvez hoje já não fique tão evidente, mas foram os filmes do Glauber Rocha que mostraram para o País a miséria nordestina. Não havia imagens dela até então. Nem na TV. Isso foi revelado pelo Cinema Novo.
Quais contribuições o audiovisual traz na promoção do debate a respeito dos Direitos Humanos? O audiovisual tem características maravilhosas em termos de instrumentalização: trabalha com o imaginário e com a sensibilidade. A experiência mais comum é você se fechar numa sala escura e mergulhar naquele universo, que lança mão de elementos da realidade para ser criado. Tal como o conteúdo, é
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fipa 2011
SescTV participa de festival em Biarritz
Racionais MC’s. Foto Fábio Andrade
Kafka in Off. Foto Gal Oppido
Egberto Gismonti. Foto Divulgação
Kafka in Off, da Cia. Borelli de Dança, parte do universo do escritor tcheco Franz Kafka para construir uma coreografia que dialoga com o medo, a angústia e a solidão. A todo o momento, dançarinos expõem ao público questionamentos sobre a existência humana, suas contradições e incertezas. O espetáculo, gravado no Sesc Santana, será exibido pelo SescTV no dia 05/01, às 23h. O FIPA é realizado há 24 anos e reúne, durante seis dias, produções de ficção, séries, documentários, grandes reportagens e espetáculos de dança e música de diferentes países. “A particularidade desse festival é dar status aos programas de televisão que priorizam a qualidade, com rigor estético, de forma e de conteúdo também”, explica a produtora Daniela Capelato, representante do Festival no Brasil. “Eles valorizam uma produção que é feita para TV, mas que, em última instância, poderia ir para o cinema”, completa. Além da mostra competitiva, o FIPA seleciona programas de diversos gêneros para compor um catálogo internacional de produções de qualidade. Neste ano outros quatro programas do SescTV foram incluídos: o musical Racionais MC’s, produzido pela Fuego Digital com direção de Camila Miranda, o espetáculo de dança Wabi Sabi, de Susana Yamauchi, também da série Dança Contemporânea, e os musicais especiais Egberto Gismonti e Raul de Souza e João Donato, ambos também produzidos pela Pipoca Cine Vídeo Produções. Os programas foram gravados, respectivamente, no Sesc Santo André, no Teatro Itália Teatro de Dança e no Sesc Vila Mariana. Apesar de não comercializar seus programas, o SescTV já tem diversos programas incluídos no catálogo do FIPA para divulgação entre emissoras culturais e educativas de todo o mundo.
Evento realizado anualmente reúne produções audiovisuais do mundo todo, dando visibilidade para diferentes temas e linguagens
O Brasil participará da mostra competitiva do FIPA 2011 com um programa do SescTV. O FIPA - Festival International des Programmes Audiovisuels, é um dos mais importantes festivais internacionais de televisão, realizado anualmente em Biarritz, França. O programa selecionado pelo FIPA para representar o Brasil, na categoria música e espetáculo, é Kafka in Off, da série Dança Contemporânea, apresentada diariamente pelo SescTV. Produzida pela Pipoca Cine Vídeo Produções, sob a direção de Antonio Carlos Rebesco “Pipoca”, a série apresenta espetáculos de dança com diversos grupos brasileiros.
Dança Contemporânea Kafka in Off Cia. Borelli de Dança Dia 05/01, às 23h
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foto: divulgação
foto: gudin foto:joana divulgação
último Bloco
ações coletivas
Samba de Sampa
Uma das características comuns atribuídas à fase da adolescência é a busca de referências que extrapolam a vida familiar e que, frequentemente, aproximam o jovem de outros parceiros com as mesmas afinidades, gostos e anseios. Em alguns casos, essa aproximação faz aflorar o interesse por realizações conjuntas mais perenes e consistentes. Assim, surgem os Coletivos, organizações que reúnem pessoas com desejos e projetos em comum, geralmente com regras pré-determinadas ditadas pela participação, cooperação e as decisões democráticas. Esse é o tema explorado no episódio inédito Coletivos, da série HiperReal, que o SescTV exibe no dia 14/01, às 21h. Ainda neste mês, o canal apresenta os episódios A Casa dos Doutores, sobre a formação de jovens médicos, dia 07/01; Gatinho Provocante, sobre o funk paulistano, dia 21/01; e Revolta e Correria, sobre o movimento punk, dia 28/01. Direção: Kiko Goifman.
O músico Eduardo Gudin é destaque na programação do SescTV no aniversário de São Paulo. O canal apresenta o espetáculo inédito Notícias dum Brasil, gravado com o cantor, compositor, arranjador e produtor de MPB paulista. Dono de uma carreira que já soma quatro décadas, Gudin fez sua estreia nos palcos ao lado de Elis Regina, em 1966, no programa O Fino da Bossa, com um solo de violão. Participou dos festivais musicais da TV Record e gravou ao lado de músicos consagrados, como Elizeth Cardoso, Clara Nunes e Jair Rodrigues. Dia 25/01, 19h. Reapresentações: 29/01, 17h; 30/01, 21h.
Encontro Reúne TVs Culturais no Recife Representantes de canais públicos da América Latina reuniram-se em Recife (PE), entre os dias 6 e 8 de dezembro, no Encontro de TVs Públicas e Culturais da América Latina, organizado pela TV TAL (TV da América Latina). O SescTV participou da mesa Programação de Qualidade na TV, debatendo com porta-vozes da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura; da TV Tal; do Instituto Escocês de Documentário; do Baka Fórum, da Itália; e de universidade colombiana. Entre os temas discutidos ao longo do encontro esteve a necessidade de se promover uma aproximação cultural entre os países latino-americanos e de estabelecer laços de cooperação, dinamizando a produção e a difusão de conteúdos audiovisuais.
SescTV na Mostra do Audiovisual Paulista Três programas do SescTV foram exibidos na 22ª edição da Mostra do Audiovisual Paulista, em dezembro passado. O episódio Corpos Modificados, da série HiperReal, dirigida por Kiko Goifman e que retrata a juventude da metrópole; o curta-metragem Carnaval dos Deuses, dirigido por Tata Amaral; e o episódio Universo Diferenciado da Cantoria do Ceará, da série Poéticas do Invisível, que aborda a questão da deficiência visual, com direção e curadoria de Lucila Meirelles, integraram a programação da Mostra. O evento tem por finalidade apresentar a intensa produção audiovisual de São Paulo. A curadoria é de Francisco César Filho.
Verifique a classificação indicativa e horários em www.sesctv.org.br
Para sintonizar o SescTV: Aracaju, Net 26; Belém, Net 30; Belo Horizonte, Oi TV 28; Brasília, Net 3 (Digital); Campo Grande, JET 29; Cuiabá, JET 92; Curitiba, Net 11 (Cabo) e 42 (MMDS); Fortaleza, Net 3; Goiânia, Net 30; João Pessoa, Big TV 8, Net 92; Maceió, Big TV 8, Net 92; Manaus, Net 92, Vivax 24; Natal, Cabo Natal 14 (Analógico) e 510 (Digital), Net 92; Porto Velho, Viacabo 7; Recife, TV Cidade 27; Rio de Janeiro, Net 137 (Digital); São Luís, TVN 29; São Paulo, Net 137 (Digital). No Brasil todo, Sky 3. Para outras localidades, consulte www.sesctv.org.br
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EspEcial Musical
O TenOr PerdidO
em fevereiro
Ilustração atribuída a Balthasar Denner, retrato de um grupo de quatro músicos (detalhe). Reproduzida com a gentil autorização da Internationale Bachakademie Stuttgart.
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