Maio/2014 - edição 86 sesctv.org.br
Bienal Sesc de Dança
Pesquisa e fusão de linguagens em quatro espetáculos
Documentário
Um retrato de Augusto Boal e seu Teatro do Oprimido
Literatura
Clarice Lispector
Foto: Adi Leite
Trio Corrente
ST SE RU SC ME BR NT AS AL IL
dia 11/5, domingo, Ă s 21h30
Acompanhe o SescTV: s e s c t v. o r g . b r
Olhares compartilhados
A arte possibilita infinitas formas de diálogo entre o artista e o público, rompendo barreiras de tempo e de espaço. Ao se apropriar de uma expressão ou de uma linguagem que transpõe para o campo do simbólico suas dores, angústias, alegrias e esperanças, o artista cria uma conexão com o mundo, universalizando sua obra e, assim, sua interpretação sobre aquilo que lhe é essencial. O público empresta do artista esse olhar sensível para confrontar, entender e processar suas próprias percepções. Era dessa forma que Clarice Lispector gostava de ter sua obra conhecida. Sua escrita – seja em textos sobre temas do cotidiano, em colunas de jornais e revistas, seja em densos contos e romances – revelava o íntimo de seus personagens, com questionamentos e complexidades. Neste mês, o SescTV propõe um mergulho ao trabalho e ao legado de Clarice Lispector, em três programas: De Corpo Inteiro – Entrevistas (ficção); O Ovo (curta-metragem); e Panorama, uma entrevista concedida pela escritora à TV Cultura de São Paulo, em 1977. A literatura brasileira também é retratada no documentário inédito Bruta Aventura em Versos, sobre a poetisa Ana Cristina Cesar. As contribuições do fazer artístico vão além dos palcos, das telas e das galerias, como mostra a repercussão do trabalho de Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido. Hoje, além de ser aplicado na formação de atores, este método é usado para trabalhos sociais, como mostra o documentário Augusto Boal e o Teatro do Oprimido, de Zelito Viana, que o canal exibe neste mês. Na faixa musical, destaque para o grupo cuiabano Vanguart, que traz uma mistura de pop, rock e folk. A Revista do SescTV deste mês entrevista o cineasta e diretor de TV Zelito Viana, que fala sobre os bastidores da realização do documentário sobre Boal. O artigo da professora e pesquisadora Nádia Batella Gotlib aborda o legado da obra de Clarice Lispector para a cultura brasileira. Boa leitura!
Danilo Santos de Miranda Diretor Regional do Sesc São Paulo
CAPA: Programação de literatura, sobre a obra da escritora Clarice Lispector. Foto: Divulgação
destaques da programação 4 entrevista - Zelito Viana 8 artigo - Nádia Batella Gotlib 10 3
Documentário
Arte que liberta DIVULGAÇÃO
Seu trabalho consistia em oferecer a qualquer ser humano a oportunidade de interagir com a arte. “Todo o início da vida é pensamento sensível, não é pensamento simbólico. Então, sensível é a arte. O início da vida é arte, é estética”, ensinava. Para ele, ao experimentar o teatro, a pessoa se liberta de visões de mundo limitadas. “Todo mundo que entra em cena diz o que pensa, conta suas emoções. Você descobre quem você é”. Boal defendia o acesso à arte não somente como espectador, mas como participante do processo criativo, como uma questão de cidadania. “Ser cidadão, meus companheiros, não é viver em sociedade, é transformar a sociedade em que se vive, com a cabeça nas alturas, os pés no chão e mãos à obra”, afirmava. “Sonho com o dia em que no Brasil inteiro e no mundo haverá, em cada vilarejo, um pouco de cultura, onde a cidadania possa expressar a sua arte a fim de compreender melhor a realidade que deve transformar” O SescTV exibe, neste mês, o documentário Augusto Boal e o Teatro do Oprimido, com direção de Zelito Viana. No filme, Boal conta sua trajetória, expõe suas ideias e resgata o processo de desenvolvimento do Teatro do Oprimido. O documentário reúne imagens de momentos da vida de Boal, como seu exílio na França, durante o regime militar, sua passagem pela Argentina e pelo Peru, e traz trechos de festivais de teatro influenciados por seu trabalho, em Moçambique e na Índia. Dentre os entrevistados estão o poeta Ferreira Gullar, os músicos Chico Buarque e Edu Lobo, o diretor teatral Aderbal Freire Filho e a viúva Cecília Boal. O filme estreia em 2 de maio, data que marca os cinco anos de sua morte. “A vida a gente sabe sempre como termina. Acho que a natureza permite a vida, mas exige a morte. Temos a obrigação de inventar um outro mundo, pois sabemos que um outro mundo é possível. Cabe a nós construí-lo, com as nossas mãos, entrando em cena no palco e na vida”.
A arte como elemento transformador; o teatro como impulso para a mobilização; a cultura como fator primordial para a democracia. Augusto Boal não foi apenas um homem das artes cênicas. Seus ensinamentos ultrapassavam os limites dos palcos, tornando-se ferramentas para os mais diversos usos, voltados ao engajamento e aprofundamento das relações humanas. Seu método, chamado de Teatro do Oprimido, não serviu apenas a atores, mas é replicado no mundo inteiro para o desenvolvimento do senso crítico e do protagonismo, seja para debater sobre a Aids, sobre doenças mentais ou sobre as situações dos presídios. “Não basta consumir cultura, é necessário produzi-la. Não basta produzir ideias, é necessário transformá-las em atos sociais, concretos e continuados”, dizia Boal.
Documentário dirigido por Zelito Viana mostra a trajetória de Augusto Boal e seu Teatro do Oprimido
Documentário Augusto Boal e o Teatro do Oprimido Direção: Zelito Viana Dia 2/5, 23h
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Literatura
Faces de Clarice Cena de De Corpo Inteiro – Entrevistas. Foto: Dvulgação
Nascida na Ucrânia, em 1920, veio com a família para o Brasil com um ano de idade. Passou a infância no Recife (PE) e cursou Direito no Rio de Janeiro. Casou-se com um diplomata e teve dois filhos. Clarice começou a escrever cedo. “Antes dos sete anos eu já fabulava, já inventava histórias” A produção continuou na adolescência, segundo ela, de forma “caótica, intensa e inteiramente fora da realidade da vida”. Oferecia seus contos a jornais e revistas. “Era tímida e ousada ao mesmo tempo. Chegava lá e dizia: tenho um conto, se você quiser publicar”. Com o pseudônimo de Helen Palmer, assinou uma coluna feminina no Correio da Manhã, com dicas de moda, beleza e comportamento. Dentre seus romances estão Perto do Coração Selvagem; Água Viva; e A Hora da Estrela. Não gostava de ser chamada de intelectual. “Às vezes o fato de me considerarem escritora me isola, me põe um rótulo”. Neste mês, o SescTV apresenta diferentes faces de Clarice Lispector, em três programas. De Corpo Inteiro – Entrevistas mostra a habilidade de entrevistadora de Clarice, função que desempenhou para a revista Manchete e o Jornal do Brasil, nos anos de 1960 e 1970. No programa, Clarice é interpretada por atrizes como Beth Goulart e Letícia Spiller. Na sequência, o canal exibe o curta-metragem O Ovo, inspirado no conto O Ovo e a Galinha. Ambos tem direção de Nicole Algranti. O canal também exibe Panorama, uma entrevista com Clarice Lispector realizada pela TV Cultura de São Paulo, em 1977. Completa a programação especial de literatura do canal, neste mês, o documentário Bruta Aventura em Versos, com um perfil da poetisa Ana Cristina Cesar, autora de A Teus Pés. Direção: Letícia Simões. “Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranquila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança... Sinceramente, não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.” As palavras são de Clarice Lispector, escritora e jornalista, que assinou colunas em jornais e publicou contos e romances, dedicando-se a temas de caráter existencial, trazendo revelações sobre o íntimo de seus personagens. “É comum encontrarmos, quando se fala em Clarice Lispector, o termo epifania: seus textos levam a uma revelação que só é feita através de uma entrega aos sentidos, nunca pela racionalização”, diz a pesquisadora Susana de Sá Klôh. A própria Clarice confirmava: “me entender não é uma questão de inteligência, mas de sentir, de contato. No fundo, eu escrevo muito simples, sabe? Eu não enfeito.”
Três programas traçam um perfil da escritora e jornalista Clarice Lispector
Literatura De Corpo Inteiro – Entrevistas O Ovo Dia 23/5, 23h
Panorama Dia 29/5, 21h
Bruta Aventura em Versos Dia 16/5, 23h
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Música
Alex Ribeiro
Para cantar o amor
Vem de Cuiabá, inspirado no cenário das terras mato-grossenses, o som da banda Vanguart. O rock e o pop se misturam ao folk norte-americano, numa sonoridade construída com a participação dos mais diversos instrumentos musicais: guitarra, baixo, bateria, violino, gaita, trompete, bandolim, teclado. São, nas palavras dos músicos, “melodias doces, ascendentes, com gosto de café da manhã”, combinadas a poesias que entoam o amor. “A gente faz o que faz e vem do coração”, afirma o guitarrista David Dafré. “Talvez/ Se a vida me trouxer o que eu pedi/ Te encontro e faço tudo o que quiser/ Te dizendo: o Sol renasce amanhã/A vida é tão mais vida de manhã”, diz a canção Meu Sol. Vanguart surgiu em 2007, a partir de uma reunião entre amigos que tinham a música como ponto em comum. “Vanguart nasceu pra que a gente sobrevivesse de alguma maneira, porque a realidade sem arte é muito dura. E veio como um grito primal, um chamado assim”, explica o vocalista, violonista e letrista Hélio Flanders. O tecladista Luiz Lazzaroto lembra que o grupo foi criado para que eles pudessem compartilhar entre si o gosto pela música. E essa amizade foi traduzida em declarações, ritmos e acordes, respeitando as particularidades do som que surgia daquela combinação. “É tudo verdadeiro e muito espontâneo”, diz a violinista Fernanda Kostchak.
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Em outubro de 2013, Vanguart se apresentou no Sesc Pompeia, na capital paulista, no lançamento de seu terceiro álbum, Muito Mais que o Amor. O show foi gravado pelo SescTV e será exibido neste mês, com direção para TV de Rodrigo Giannetto. O programa traz o repertório do novo trabalho, com as músicas: Estive; A Escalada das Montanhas de Mim Mesmo; Pelo Amor do Amor; e Meu Sol, além de canções dos trabalhos anteriores do grupo. O show é intercalado por intervenções poéticas, gravadas em vídeo, declamadas por Débora Rebechi, Darília Lilbé, Danilo Gangheia, Cida Moreira e Thiago Pethit. Vanguart é formado por: Hélio Flanders (vocal, violão e gaita); David Dafré (guitarra); Reginaldo Lincoln (baixo vocal); Fernanda Kostchak (violino); Douglas Godoy (bateria); e Luiz Lazzaroto (teclado e piano).
Grupo cuiabano Vanguart apresenta músicas de seu repertório, com influências do pop, do rock e do folk
Música
Vanguart
Dia 21/5, 22h
Dança
Reflexões sobre movimentos Espetáculo Têtes à Têtes. Foto: Alex Ribeiro
Neste mês, o SescTV exibe quatro espetáculos mostrados na última edição, em 2013. Dois deles pertencem ao grupo catarinense Cena 11 Cia. Dança. Em Sobre Expectativas e Promessas, o bailarino e coreógrafo Alejandro Ahmed apresenta um espetáculo solo, no qual procura reconhecer no próprio corpo as marcas dos processos de criação. Em Carta de Amor ao Inimigo, a companhia enxerga no encontro de opostos a construção de uma unidade em grupo. O livro A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, publicado por Charles Darwin em 1872, é ponto de partida da Cia. Atelier de Coreografia, do Rio de Janeiro, na criação de Aventuras entre Pássaros. E vem da Bélgica o espetáculo Têtes à Têtes, apresentado por Maria Clara Villa Lobos, levando ao palco o universo do desenho animado, em projeções lúdicas com as quais os bailarinos interagem. O espetáculo era destinado a crianças a partir de três anos, numa mostra de que a idade não é fronteira para a arte.
Como traduzir as angústias, incertezas e complexidades da vida contemporânea em movimentos? O diálogo através do corpo, na percepção, interpretação e manifestação de sentimentos diversos, numa busca por algo sem regras nem limites, desde que não seja estático. Assim são alguns dos caminhos percorridos pela dança atual. Bailarinos, companhias e coreógrafos tomam a pesquisa como base inicial de seu trabalho, não apenas no campo das artes, mas num processo interdisciplinar, que passa pela história, filosofia, literatura, música, sociologia e arquitetura. “Contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro. Todos os tempos são, para quem deles experimenta a contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente”, afirma o filósofo italiano Giorgio Agamben, que se dedicou, dentre outros temas, a estudos sobre a estética contemporânea. O contato com outras linguagens artísticas também caracteriza a dança contemporânea, numa fusão nem sempre simples, unindo e mixando elementos do teatro, do circo, da performance e do audiovisual. A intenção é produzir e pensar a própria dança e, assim, transformá-la, num processo nada hermético, cujo alcance pretende extrapolar os chamados públicos iniciados, ora encantando, ora provocando o espectador. Estes são alguns dos temas de reflexão da Bienal Sesc de Dança, realizada em Santos, na Baixada Santista. O evento recebe profissionais e pesquisadores da dança, que apresentam, assistem e discutem sobre trabalhos do País e do exterior.
Pesquisas e interlocuções com outras linguagens artísticas marcam trabalhos contemporâneos
Bienal Sesc de Dança Sextas-feiras, 21h
Sobre Expectativas e Promessas Dia 9/5
Carta de Amor ao Inimigo Dia 16/5
Têtes à Têtes Dia 23/5
Aventura entre Pássaros Dia 25/4
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entrevista
divulgação
‘Boal era um contador de histórias’
Como o cinema e a TV entraram na sua vida? Meus primeiros contatos profissionais com o audiovisual ocorreram a convite de Leon Hirszmann, que era meu colega de turma na Escola Nacional de Engenharia do Largo São Francisco, no Rio de Janeiro. Comecei tentando terminar o Cabra Marcado pra Morrer, dirigido por Eduardo Coutinho [no qual participei como produtor], o que viria a fazer 20 anos depois.
Zelito Viana é cineasta, produtor e diretor de TV. Dentre seus trabalhos estão a direção dos programas Chico Total e Chico Anysio Show, na TV Globo, apresentados pelo humorista e seu irmão, Chico Anysio. No cinema, foi produtor de Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha. Dirigiu Villa Lobos – Uma Vida de Paixão e Augusto Boal e o Teatro do Oprimido,
No documentário Augusto Boal e o Teatro do Oprimido você conta que a motivação para realizar o filme foi a história relatada por ele a respeito do trabalho com as empregadas domésticas. Em que aspectos esse fato mexeu contigo? Augusto Boal era para mim um ídolo. O trabalho dele no Teatro de Arena, em São Paulo, e no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, eram objetos da minha admiração. Tive o privilegio de conviver com ele mais proximamente e de ser seu amigo. Quando fiz a primeira entrevista para um futuro documentário, descobri em Boal outra grande vocação sua, que era a de contador de histórias. Particularmente, a história das Marias [sobre o trabalho de oficinas teatrais feito com um grupo de empregadas domésticas] me tocou pela sua sensibilidade.
que o SescTV exibe neste mês.
“Quando fiz a primeira entrevista para um futuro documentário, descobri em Boal outra grande vocação sua, que era a de contador de histórias”
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Como você avalia a atual produção de documentários no Brasil? E de que forma a televisão pode contribuir para o debate a respeito da contribuição de outras linguagens artísticas – como o teatro – para a vida em sociedade? Minha avaliação pessoal é de que o documentário brasileiro vive um momento extremamente fértil, sobretudo com a vigência de lei da televisão por assinatura. E acredito, sim, que a televisão é, sem sombra de dúvidas, o grande meio de divulgação e discussão de ideias. É assim em todo o mudo, mas particularmente no Brasil, dada a sua extensão geográfica e o baixo grau de escolaridade.
“Os valores defendidos por Boal são (ou deveriam ser) conquistas do ser humano. A humanidade está carente dos valores e sentimentos defendidos pelo Teatro do Oprimido”
“A televisão é, sem sombra de dúvidas, o grande meio de divulgação e discussão de ideias. É assim em todo o mudo, mas particularmente no Brasil”
O filme é rico em imagens de inúmeras passagens do trabalho de Boal, no Brasil e no exterior. Como foi o trabalho de pesquisa para reunir e organizar esse material? Para realizar este documentário contei muito com a colaboração da Cecília Boal [viúva de Augusto Boal], que me abriu os arquivos fotográficos da família. Já para ter acesso aos filmes usados como referência de imagem neste documentário, conseguimos com os diversos grupos do Teatro do Oprimido pelo mundo afora, que foram extremamente generosos. Quais foram os desafios para produzir o filme? Havia um roteiro pré-determinado ou a entrevista com Boal foi a orientadora do processo? O grande desafio para produzir o filme foi a morte imprevista de Augusto Boal [em maio de 2009]. A partir do falecimento dele, tudo mudou e fomos obrigados a editar o material que tínhamos e abdicar do que estava previsto. A experiência de entrevistar o Boal tinha sido fantástica. Boal, como mencionei, era um excepcional contador de histórias. As entrevistas terminavam sempre com muito pesar de toda a equipe.
divulgação
Augusto Boal defendia uma postura transformadora sobre a vida e seu modo de viver inspirou outros trabalhos, muito além do teatro e das artes, em diversas partes do mundo, como mostra o documentário. Seu discurso encontra ecos na sociedade atual? Eu acredito que a proposta de Augusto Boal e do Teatro do Oprimido é cada vez mais atual, mas, infelizmente, o resultado vai se tornando cada vez mais remoto. Tomara que seu discurso continue encontrando espaço nos dias de hoje, pois os valores defendidos por Boal são (ou deveriam ser) conquistas do ser humano. A humanidade está carente dos valores e sentimentos defendidos pelo Teatro do Oprimido.
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artigo
O impacto e as contribuições da obra de Clarice Lispector Quando Clarice publicou o seu primeiro conto na imprensa carioca, em 1940, creio que não poderia imaginar que, dali a algumas décadas, sua obra escrita ao longo dos 37 anos seguintes teria tamanha repercussão no Brasil e no exterior. É bem verdade que o romance de estreia, publicado em final de 1943, Perto do coração selvagem, foi lido e aprovado por críticos argutos e rigorosos, como, para citar apenas um exemplo, Antonio Candido, em meados de 1944. Portanto, os primeiros críticos garantiram um lugar de destaque à romancista novata, então com seus 23 anos, que afirmou ter ficado surpresa diante deste seu primeiro sucesso. Daí para diante houve uma crescente recepção de sua obra, com alguns lamentáveis intervalos, promovidos, em parte, por algumas editoras que nem sempre aceitaram publicar seus textos... E com muitos ganhos, como sua colaboração na revista Senhor, que levou suas crônicas e contos a um público brasileiro mais amplo. E com a tradução de sua obra, que começou ainda nos anos 1950, na França e nos Estados Unidos, marcos de um longo e corajoso trabalho que haveria de se estender para outros tantos países. A divulgação progressiva da obra durante as décadas subsequentes foi tamanha que, atualmente, conta com tradução em cerca de mais de 20 línguas e 30 países. Há textos publicados, por exemplo, em japonês e croata, em coreano e holandês, em finlandês e hebraico. E, ainda este ano, terá edições em romeno, justamente no país em que a família Lispector, de judeus russos ucranianos, conseguiu passaporte para prosseguir sua viagem em direção ao Brasil. A que atribuir tamanho sucesso? A resposta pode ser simples: o sucesso deve-se à qualidade da sua literatura, cujo nível excepcional a situa entre os nossos melhores escritores. Com uma característica singular: Clarice escreve textos de vários gêneros - crônicas, contos, romances, páginas femininas, literatura infantil, cartas, entrevistas, adaptações -, dirigidos a leitores de diferentes idades. Capta com sutileza situações peculiares à realidade brasileira, como a migração nordestina para a cidade do Rio de Janeiro. E os textos têm marcas comuns: a narradora mostra-se muito atenta aos detalhes do que acontece na intimidade dos seres, nas suas profundezas, e, muitas vezes, ao criar essa experiência interior, confere ao leitor a ilusão de que estaria tudo acontecendo no instante mesmo em que está sendo escrito, ou lido. Além disso, as pessoas, ainda que morando em diferentes lugares e falando diferentes línguas, ou seja,
apesar da diversidade cultural, têm lá seus denominadores comuns, que advêm da sua condição humana, tão bem retratada pela nossa escritora, com suas sensações, emoções, dores, surpresas, decepções, encantamentos... Talvez seja esse o motivo de sua obra ser traduzida para muitas línguas. E ser adaptada para diversas outras linguagens - a do cinema, teatro, TV, música. No Brasil, a primeira adaptação para o teatro data de 1965, com o pioneiro espetáculo Perto do coração selvagem, baseado em romances e contos de Clarice, dirigido por Fauzi Arap, com José Wilker no elenco. No cinema, relembro o premiado longa-metragem A hora da estrela, de 1985, dirigido por Suzana Amaral, com atuação de Marcela Cartaxo, José Dumont e Fernanda Montenegro. Mais recentemente, a cineasta Nicole Algranti, aliás, sobrinha-neta de Clarice, filmou entrevistas que Clarice fez com várias personalidades, na maioria artistas, para revistas cariocas, incluindo no elenco atores e atrizes de renome. Nos dias de hoje, um novo veículo de divulgação, a internet, encontra-se disponível para tornar ainda mais conhecida a obra de Clarice, além das edições, traduções, adaptações e críticas de sua obra. Pena que as redes e os sites, pretendendo divulgar Clarice, nem sempre divulguem Clarice, ao compartilharem textos que nunca foram por ela escritos. Portanto, o melhor mesmo é ir até a própria obra de Clarice, até os seus livros. Talvez passando por certas antologias que têm sido recentemente publicadas, sim, mas apenas como um passo num caminho bem mais longo e também mais completo, o da leitura dos textos tais como ela os organizou em vida, além, naturalmente, de alguns textos póstumos. Afinal, os textos publicados em vida têm a garantia da autenticidade da autoria também na sua organização: na sequência dos capítulos, se for romance; na seleção e sequência dos contos em volumes. Aí teremos a autora Clarice mais presente em cada livro seu, e é sempre essa escritora Clarice, o mais presente possível na elaboração de cada livro seu, que também e sobretudo nos interessa.
Nádia Batella Gotlib é professora e pesquisadora de literatura brasileira, com ênfase na obra da escritora Clarice Lispector.
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acervo vocacional gvive
último Bloco Amor maduro
Ana Fuccia
A série Contraplano debate, neste mês, como o cinema aborda o tema da afetividade na terceira idade. O professor e curador Tadeu Criarelli e o artista plástico Luiz Aquila refletem sobre relações afetivas na maturidade a partir dos filmes Chuvas de Verão, direção de Cacá Diegues; Lugares Comuns, de Adolfo Aristarian; O Outro Lado da Rua, de Marcos Bernstein; e Dois Irmãos, de Daniel Burman. Questões como a delicadeza na construção de um relacionamento amoroso após os 60 anos e a finitude da vida são retratadas nas obras cinematográficas. Dia 16/5, às 22h. Direção de Luiz R. Cabral.
Um modelo pioneiro de educação Um projeto inovador de educação, aplicado no ensino público de São Paulo, na década de 1960, e interrompido pelo regime militar. Este é o tema do documentário Vocacional: Uma Aventura Humana, direção de Toni Venturi, que o SescTV exibe em duas partes, nos dias 5/5 e 12/5, às 20h. O filme retrata a experiência dos Ginásios Vocacionais, idealizado pela educadora Maria Nilde Mascellani e inspirado nas teorias do filósofo francês Emmanuel Monier, e que ainda hoje é tido como pioneiro na educação brasileira. A obra reúne depoimentos de ex-alunos e professores.
Histórias da vida real
Mostra Mini INPUT
Suas experiências de vida são, por si só, histórias que valem a pena ser contadas. É o que mostra o episódio inédito Personagens, da série CurtaDoc, que o SescTV exibe no dia 27/5, às 21h. O programa reúne três curtas-metragens, do gênero de documentário, produzidos em diferentes países da América Latina: El Predicador, de Guillermo Brinkmann (Venezuela); e os brasileiros Miguel Batista, Construtor de Imagens, de José Luis de Freitas; e Cerveja Falada, de Demétrio Paranarollo, Guto Lima e Luiz Henrique Cudo. “Quando eu fecho num personagem, eu torno sua história individual uma narrativa da qual eu posso criar uma relação de identificação ou de observação teórica”, opina o crítico de cinema Rodrigo Fonseca, que comenta o episódio. Direção de Kátia Klock.
O Sesc São Paulo e o festival INPUT realizaram, no mês passado, a Mostra Audiovisual – Mini INPUT Brasil, com a exibição de uma seleção de programas de TVs internacionais que participaram da última edição do INPUT - International Public Television, em 2013. Durante quatro dias, foram exibidas dez produções, com séries, documentários e filmes de ficção, de países como Finlândia, França, Estados Unidos e México. Os programas apresentam um panorama da atual produção audiovisual dedicada à difusão educativa e cultural. A abertura do evento contou com um debate sobre a produção de programas de qualidade e a ética na televisão, com participação do jornalista e professor Gabriel Priolli; do sociólogo e apresentador do Ver TV, Laurindo Leal Filho; e do artista multimídia Lucas Banbozzi; e mediação do diretor executivo do SescTV, Valter Vicente Sales Filho.
Para sintonizar o SescTV: Se você ainda não é assinante, consulte sua operadora. O canal é distribuído gratuitamente. Assista também em sesctv.org.br/aovivo.
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