Nós por Nós

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NÓS POR NÓS

Arte de Monica Garwood

JUNTASRESISTIMOS


feminismo(s) Eu levanto a minha voz, não para que eu possa gritar, mas para que aqueles sem voz possam ser ouvidos... não é possível prosperar quando metade das pessoas ficam para trás. Malala Yousafzai, ativista paquistanesa.

D

os telões dos shows da cantora Beyoncé às palavras de ordem da passeata EleNão, considerada maior manifestação de mulheres da história do Brasil pela professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Céli Regina Jardim Pinto, uma coisa é inegável: o feminismo é pauta em destaque atualmente. A palavra “feminismo” vem se popularizando no vocabulário mundial, sendo cada vez mais temática em discussão na sociedade, seja por indivíduos adeptos desse posicionamento ou por aqueles que veem nele uma ameaça à ordem social. Mas afinal, você sabe o que é feminismo ? O feminismo, de forma geral e sintética, é o movimento das mulheres que se organiza para buscar

equalidade na sociedade, desconstruindo uma estrutura que as oprime, e conquistando igualdade de direitos sociais e políticos ao redor do mundo. É necessário lembrar que as reivindicações das mulheres se alteram com a temporalidade, a sociedade em que estão inseridas, o regime político e até mesmo quais mulheres estão reivindicando. Ou seja, o feminismo é um recorte, e é mais correto utilizarmos a palavras FEMINISMOS para que as diferentes frentes do movimento sejam reconhecidas. Há muitas ideias falsas ligadas a palavra feminismo, como a concepção de que ser feminista equivale a odiar homens, de que feministas são “desleixadas”, que o movimento é ditatorial e por ai vai, todas hipóteses que não correspondem a realidade, mas sim à uma tentativa dos opositores de desmoralizar o movimento aos olhos da sociedade. Como já bem disse a escritora Andrea Dworkin: “O feminismo é odiado porque as mulheres são odiadas”. Muitos dos direitos que essa parte da população possui hoje é resultado da luta incansável de mulheres por seu lugar na sociedade.


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Terceira Onda A terceira onda, a partir da década de 90, assemelha-se a segunda, mas trás o conceito de interseccionalidade e desnaturalização do gênero à discussão. Analisa as identidades e mostra que não há um universalismo, mas sim especificidades na opressão de cada mulher.

Segunda Onda A segunda onda caracteriza o período de 1950-1990 e tem como temática central a questão dos direitos reprodutivos e a sexualidade. Marcada pela ascensão do feminismo radical, a onda é responsável pelo início das discussões de sexo e gênero e crítica a construção social destes.

Inclusive Femninists Blog

QG Feminista

Primeira Onda Surgiu no final do século XIX e início do século XX, e focava suas reivindicações no direito ao voto, à participação política, acesso a vida pública e abolição da escravatura. A questão da escravidão, apesar de levantada por mulheres brancas, era pautada pela ação de mulheres negras e pelo movimento racial.

Gazzetta Del Sud

Historicamente as mulheres já apresentavam descontentamento com a posição subjugada que ocupavam na sociedade, mas é a partir do século XIX que estas se organizam enquanto movimento. As ações por elas iniciadas são divididas em Primeira, Segunda e Terceira Onda, muito ligadas aos direitos reivindicados.


A Luta das Mulheres pelo Mundo

Nos últimos séculos, as mulheres conquistaram direitos, chegaram aos principais cargos políticos e suas participação na força de trabalho mundial nunca foi tão grande. No entanto, a igualdade entre homens e mulheres está longe de ser atingida, e a luta pela ampliação dos direitos femininos se dá nas mais diferentes esferas da sociedade.

1789 e 1792 No início da Revolução Francesa, Olympe de Gouges escreve a “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, manifesto reivindicando igualdade de direitos entre homens e mulheres. Na inglaterra, três anos depois, Mary Wollstonecraft lança a obra “A reivindicação dos direitos da mulher”. LADEPECHE

Olympe de Gouges

Baseado no Infográfico de Mauro C. Brosso Disponível em: https://bit.ly/2zaR6bw

Rita Lobato

1827 No Brasil, uma lei do imperador D. Pedro I autoriza as mulheres a receber educação primária. Elas só puderam ingressar nas universidades a partir de 1879, após a promulgação de uma nova lei que autorizava a presença feminina nos cursos superiores. 1893 A Nova Zelândia é o primeiro país a conceder o direito de voto às mulheres. A participação feminina em processos eleitorais cresceu ao longo do século XX, mas não foi uma luta fácil. Na Arábia Saudita, por exemplo, somente em 2011 o rei Abdullah autorizou a participação de mulheres nas eleições, medida que só entrou em vigor em 2015. Wikipedia

Kate Sheppard

Wikipedia


Clara Zetkin

1910 e 1917 Em 1910, a alemã Clara Zetkin propõe a criação de uma data que representasse a luta pelo direito das mulheres. Em 8 de março de 1917, trabalhadoras russas entram em greve por melhorias nas condições de trabalho. Nas décadas seguintes, a data ganhou força, principalmente pela incorporação, ao imaginário coletivo, da morte de trabalhadoras em um incêndio ocorrido em Nova York, em 25 de março de 1911.

Antonieta de Barros

Wikipedia

1927, 1928 e 1932 No Rio Grande do Norte, em 1927, Celina Guimarães Viana tornou-se a primeira eleitora do Brasil. No ano seguinte, Alzira Soriano tornou-se a primeira mulher eleita para um cargo político o país ao vencer as eleições para prefeitura de Lages (RN). Em 1932, o direito de voto é estendido para todas as brasileiras. No ano seguinte, Carlota Pereira de Queirós é a primeira deputada eleita no país. Em Santa Catarina, Antonieta de Barros foi a primeira deputada negra eleita, lutando contra o racismo e machismo no Estado.

1945 e 1951 A ONU declara a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Nesse período, o debate internacional se ampliou e, em 1951, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) aprovou a igualdade de remuneração para homens e mulheres no exercício da mesma função. Em 1955, Rosa Parks, mulher negra e norte-americana, se recusa a seguir as normas racistas dos EUA e sua revolta e prisão tornam-se emblemáticos para a luta contra o racismo no país.

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Símbolo da ONU

Hypeness


2006, 2007 e 2010 Chile, Argentina e Brasil, respectivamente, elegem mulheres ao cargo mais alto do país, a presidência da república. Ainda que, se comparada com a dos homens, a presença feminina em cargos eletivos seja pequena, as mulheres já alcançaram os cargos políticos mais importantes de vários lugares do mundo.

Michelle Bachelet e Dilma Rousseff

1ª Conferência Mundial sobre a Mulher

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1975 e 1977 Na Cidade do México, em 1975, ano definido pela ONU como Ano Internacional da Mulher, ocorreu a 1ª Conferência Mundial sobre a Mulher. Dois anos depois, o dia 8 de março foi consagrado pelas Nações Unidas como o Dia Internacional da Mulher. A data serviria para lembrar as conquistas sociais, econômicas, culturais e políticas das mulheres em todo mundo.

Carta Maior

2018 No Brasil e na Argentina a questão do aborto aparece em alta nos últimos anos. Os coletivos argentino Línea Peluda, e o brasileiro, Corpas em Risco, realizaram uma série de ilustrações abordando a temática. O assunto move tanto a população acerca da seguridade da vida da mulher que foi votado sua descriminalização em ambos os países, e mesmo vetados, marcam importantes momentos de poder político dos movimentos. No Brasil também deve se citar a reverberação do assassinato da vereadora Marielle Franco, que representava um recorte de minorias e gerou revolta social e o Movimento EleNão, que reuniu mulheres e demais minorias, nas ruas e na internet, como forma de resistência ao candidato do PSL, Jair Bolsonaro.


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LES ANGLONAUTES

LAGUNAINFOCO


feminismoliberal

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Feminismo liberal é uma vertente do feminismo que acredita no individualismo para a igualdade, ou seja, na capacidade das mulheres em manter a sua igualdade através de suas próprias ações e escolhas. O “liberal” aqui vem de liberalismo, uma forma de governo que prioriza a liberdade individual e do mercado, onde o Estado só age se alguém estiver sendo lesado. As mulheres dessa vertente propõe mudanças no sistema jurídico como maneira de garantir a equidade entre homens e mulheres, mas não apoiam mudanças nas estruturas sociais, de forma a manter a “liberdade individual”. Do ponto de vista liberal, a desigualdade de sexos tem origem na socialização de ideias distorcidas sobre homens e mulheres e ideias culturais que limitam a liberdade do indivíduo e o impede de viver como quiser. As soluções propostas por essas feministas, em geral, focam-se em mudar ideias e práticas culturais, reescrever livros usados nas escolas, reformar leis sexistas (como a proibição do aborto) e tornar ilegal a discriminação de qualquer maneira contra a mulher. O termo feminismo liberal

abrange desde as manifestações por reformas legais por equidade de gênero (como o direito ao voto, e o direito à educação), passando por questões mais recentes, como liberdade sexual e reprodutiva, igualdade no mercado de trabalho, assédio sexual, violência sexual e doméstica contra a mulher e sexismo. Representante do Movimento: Uma das primeiras feministas liberais de que temos notícia é Mary Wollstonecraft, uma escritora inglesa do século XVIII, filósofa e defensora dos direitos das mulheres. Seu trabalho mais conhecido é “Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher” (1792), no qual ela argumenta que as mulheres não são, por natureza, inferiores aos homens, apenas aparentam ser por falta de educação e escolaridade. Ela também sugere que tanto os homens como as mulheres devem ser tratados como seres racionais. O feminismo liberal é, no geral, um movimento branco de classe média/alta. Desde o princípio, as mulheres que se identificavam como feministas liberais lutavam para serem mais do que apenas mães e esposas, e comparavam


Para entender melhor: “A Mística Feminina” de Betty Friedan (1963). A autora retrata, após anos de pesquisa, a mistificação da mulher após a Crise de 1929 e mobilização para a Segunda Guerra Mundial, de forma a ser considerada fundamentalmente como mãe e esposa zelosa. Ela revela como a educação da menina não a estimulava a ser independente, mas a desenvolver habilidades para se casar e viver em função dos filhos e do marido. She’s Beautiful When She’s Angry é um documentário de 2014 que resgata a história do movimento feminista dos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970. Dirigido por Mary Dore, o longa conta a história das mulheres que criaram o movimento feminista nos anos 1960, fazendo uma revolução em todos os âmbitos sociais.

BETTY FRIEDAN

seus casamentos à escravidão. Enquanto isso, as mulheres de classe popular trabalhavam em fábricas para sobreviver, tendo altíssimas cargas horárias de serviço braçal e pouco tempo para se organizar politicamente (ao contrário das sufragistas). Diversos protestos foram organizados pelas trabalhadoras de fábricas, mas suas vozes não eram ouvidas como foram as das sufragistas (ainda que depois de muita luta). As feministas que afirmam que todas as mulheres são iguais e sofrem da mesma maneira – como as da segunda onda, ao tentar universalizar a mulher, pois achavam que todas sofriam com o patriarcado de maneira igual – excluem a luta dessas trabalhadoras e o que as mulheres de classe popular sofrem até hoje. Isso também acontece com as mulheres negras. De uma certa maneira, pode-se dizer que o feminismo negro nasce da diferença do feminismo liberal, já que as mulheres negras não se sentiam representadas pelas brancas, maioria no movimento. No século XIX, abolicionistas e feministas se uniam para lutar contra a escravatura e a favor do sufrágio feminino. No entanto, as mulheres negras não eram vistas como iguais pelas mulheres brancas, principalmente de classe média/alta.

fonte PINTEREST


feminismoradical

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pessoal é político - o que acontece na esfera individual é reflexo do coletivo e de estruturas sociais externas ao indivíduo. Com essa bandeira, no século XX, outra vertente do feminismo se delineou o radical. Os conceitos e defesas desse movimento se baseiam, principalmente, nas obras de Shulamith Firestone, Kate Millet e Simone de Beauvoir. Ao contrário do que muitos pensam, o radical não significa extremismo, vai além disso. A etimologia dessa palavra é “algo que vai à raiz”. Assim, essa vertente vê o seximismo como a raiz das opressões sofridas pelas mulheres. Também, defende que essa submissão é orquestrada pelo patriarcado - conjunto de instituições criadas por homens que reafirmam seu poder e reforçam a submissão feminina e, ele deve ser completamente eliminado. Literalmente, combater o mal pela raiz. Com uma análise mais estrutural - baseada na história, política e economia -, essa vertente coloca as experiências das mulheres no centro de suas discussões e afirma que todas - sem exceção - sofrem com a opressão. Dessa forma, faz um

apelo por uma luta mais coletiva de todas as mulheres. Algumas defesas do feminismo radical causam - e sempre causaram - polêmicas. A questão da prostituição, por exemplo. Para o radfem essa prática representa a opressão em sua forma máxima, logo, deve deixar de existir. Para isso, não bastaria proibir as mulheres de venderem seus corpos, mas sim criminalizar àqueles que compram desses serviços, pois são eles que alimentam tal mercado. Representante do Movimento: ““Se as mulheres realmente escolhem a prostituição, por que é que, em geral, são as mulheres marginalizadas e em situações desvantajosas que o fazem?”

Janice Raymond

“O mundo é o que as mulheres fazem dele. Esse ponto é crucial nós temos que fazer algo dele.” Janice Raymond

Janice Raymond é uma fervorosa ativista do feminismo radical. Ela tem como principais alvos de combate a violência contra mulher, assim como sua exploração sexual. É autora de diversos livros e artigos que englobem essas temáticas, e -


por meio deles - é possível ter uma maior clareza sobre os princípios do radfem. Na obra “The Transsexual Empire: The Making of the She-Male”, a teórica transcorre sobre a questão da transsexualidade dentro do movimento feminista radical. Já em seu artigo “Ten Reasons for Not Legalizing Prostitution and a Legal Response to the Demand for Prostitution” - que obteve uma grande repercusão mundial - ela aborda sobre a questão da prostituição, defendendo a penalização dos clientes desse “mercado”. Para se informar mais: A Youtuber Sofia, dona do canal “sofiainthesky” fez um vídeo intitulado “O que é feminismo radical?” em 2016. Nele, ela relata sua própria experiência dentro do movimento - no formato de um depoimento. Assim, ela tenta mostrar como as pautas do radfem se inserem no cotidiano e refletem nas relações sociais dela.

dical luta?” foi escrito por Gabriela Pires, e veiculado no blog “Blogueiras Negras”. Nele, ela defende que o feminismo radical não é capaz de abarcar suas experiências e vivências como negra - não é capaz de responder a seus anseios e preocupações. Disponível em https://bit.ly/1jStIEi

Já a carta aberta “De pretas para pretas” foi redigida por feministas radicais negras e divulgada no site do Instituto Geledés. Nela, elas fazem a defesa de que é possível haver um equilíbrio de pautas, isto é, pode-se incluir o combate ao racismo à batalha constantes contra o patriarcado. Disponível em https://bit.ly/2S4B4aa

Disponível em: https://bit.ly/2Dlkkam

JANICE RAYMOND

Numa vertente em que o principal objetivo é erradicar o patriarcado, haveria espaço para as pautas e especificidades das mulheres negras? O texto “Por quais mulheres o feminismo rafonte RADFEMCOLLECTIVE


feminismonegro

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xistem ainda as mulheres que passam por uma opressão dupla - de gênero e de raça. Mulheres que enfrentam o machismo, mas também o racismo. Seriam suas demandas e anseios as mesmas de suas irmãs brancas? A resposta é não. Mas como reivindicar suas demandas quando seu espaço dentro de outros movimentos é negado? No movimento negro, consideradas inferiores por serem mulheres. No feminista, invisibilizadas pela ideia de uma identidade unitária e fixa capaz de representar todas as opressões sofridas por uma mulher. Tendo em vista isto, no século XX, em solo norte-americano, teóricas afrodescendentes, como Patricia Hill Collins, bell hooks, Kimberle Crenshaw e Audre Lorde, passaram a teorizar considerando a dupla submissão das negras. Desde então, o feminismo negro tem buscado sanar dúvidas e dar um lugar de fala para que essas mulheres possam se organizar e batalhar contra as opressões de raça e gênero pelas quais são submetidas e limitadas. Dentre as demandas dessa vertente feminista é importante destacar a visibilidade da mulher negra na sociedade - seja na mídia, no mercado

de trabalho, na educação, na saúde e por aí vai. Assim como, buscam igualdade dentro do próprio movimento negro, que sejam consideradas e tenham suas pautas ouvidas.

Representante do Movimento: “Hoje, quando refletimos sobre o processo de empoderamento das mulheres afro-americanas, nossas estratégias mais eficazes continuam sendo aquelas guiadas pelo princípio adotado pelas mulheres negras do movimento associativo. Precisamos nos esforçar para “erguer-nos enquanto subimos”. Em outras palavras, devemos subir de modo a garantir que todas as nossas irmãs, irmãos, subam conosco”.

Angela Davis em ‘Mulheres, Cultura e Política’.

Uma teórica muito famosa do feminismo negro é Angela Davis. Ela cresceu em um contexto de forte opressão racial e sexual - nasceu em 1944 no sul dos Estados Unidos. Conviveu com os ataques a famílias negras em sua cidade e com a existência da Ku Klux Klan - movimento supremacista branco que defendia uma purificação da sociedade norte-americana, por meio, principalmente, do extermínio dos negros.


dos no Brasil e no mundo. No dia sete de março de 2017, o tema foi o feminismo negro. Para tratar do assunto as entrevistadas foram: Charô Nunes - comunicadora e idealizadora do “Blogueiras Negras”, Mara Sylvia - jurista e presidente do Geledés Instituto da Mulher Negra - e Emanoela Tomaz - militante do movimento. Disponível em: https://bit.ly/2OO3AuI Blogueiras Negras: O site é de livre produção, isto é, permite que mulheres negras produzam conteúdos variados e em diversas linguagens. O principal objetivo é dar um local de fala para elas e, dessa maneira, atingir uma maior visibilidade para suas causas. Disponível em: https://bit.ly/ 2FpBh6b

ANGELA DAVIS

No meio de toda essa esfera, Angela, desde muito jovem, colocou-se a estudar e teorizar sobre as experiências que vivenciava. Ela foi militante das causas raciais e de gênero, o que incomodava muita gente. Prova disso é o fato de que por estar associada ao Partido Comunista Americano e aos Panteras Negras - grupo que unia os conceitos marxistas à luta contra o racismo -, ela foi demitida de seu cargo como professora na Universidade da Califórnia - em 1969 - e presa em 1970. Sua prisão foi feita sob indevidas acusações de conspiração, assassinato e sequestro - ela chegou a ser colocada na Lista dos Dez Fugitivos Mais Procurados do FBI. Essa injustiça gerou uma grande reação por parte da população. E, com a pressão popular, um ano e meio após o aprisionamento, o júri a inocentou das falsas alegações. Algumas de suas obras que podem te ajudar a entender melhor as demandas e a história do movimento feminista negros são “Mulheres, Cultura e Política” e “Mulheres, Raça e Classe”. Para se informar mais: Feminismo Negro: pautas e representatividades O programa “Conexão” do canal Futura traz entrevistas que buscam analisar de forma mais crítica assuntos que estejam sendo debati-

fonte HYPENESS


transfeminismo

O

movimento transfeminismo é uma vertente do feminismo hegemônico (cis, não trans) que surge da mesma ideia do feminismo negro (ou afrofeminismo): não se discute sobre essas mulheres no movimento tradicional. É um movimento novo no Brasil, que objetiva incluir a pauta de travestis, transexuais, transgêneros e não-binaries na agenda feminista, e levar o feminismo ao movimento trans – que, assim como mulheres cis, não está livre do machismo. O transfeminismo questiona, principalmente, o que significa ser uma mulher, desafiando a ideia de gênero como um fato biológico. Argumenta-se que o transfeminismo tenha surgido no meio da segunda onda feminista, em forma de crítica ao feminismo da época. O feminismo de segunda onda reforçava a ideia de uma representação universal da mulher, onde todas as mulheres estariam ligadas de alguma forma por um fator comum: sofrerem o patriarcado igualmente (ignorando negras, trans, lésbicas, mulheres de classe baixa, entre outras classes). Por isso, a segunda onda feminista foi combatida pelo transfeminismo e por novas cor-

rentes feministas (terceira onda) no que diz respeito à universalização e biologização do corpo “feminino”. Além disso, as pessoas trans também são afetadas pelos padrões de beleza e comportamento hegemônicos. Assim como no meio cis, valores machistas e ideais de beleza são inconscientemente reproduzidos na esfera trans, principalmente quando transicionam. No geral, isso acontece ao julgar o “quão” mulher ou homem alguém é de acordo com os padrões de feminilidade e masculinidade hegemônicos – não ter feito mastectomia, por exemplo, faria de um homem trans não ser “homem de verdade”. Dessa forma, o movimento transfeminista utiliza dos estudos feministas dentro da lógica trans, para diminuir essas crenças. Representante do Movimento: Judith Butler é uma das principais pensadoras dos estudos utilizados pelo transfeminismo, a Teoria Queer. Segundo a teoria, os gêneros são socialmente construídos, ninguém nasce “homem” ou “mulher”, aprende a desempenhar esses papéis. Com a publicação do livro de Butler “Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade”, inicia a consolidação da Teo-


português e a maioria dos termos utilizados também estão em inglês. Existe pouco material original em portugês.

Para entender melhor:

Transfeminismo, Teorias & Práticas, por Jaqueline Gomes de Jesus. Esse livro aprofunda reflexões dessa linha de pensamento e ação, reconhecendo as contribuições práticas dos movimentos sociais e as observações do meio acadêmico, propondo conexões que, além de estimular diálogos e estudos, incentivam iniciativas políticas fundamentadas.

O que é transexualidade?, por Berenice Bento. A socióloga brasileira busca refletir, em seu livro, sobre como a cultura pode interferir na produção do masculino e feminino, o que é gênero, e o que é normalidade e anormalidade. O livro está disponível no site democraciadireitoegenero.files.wordpress.com.

JAQQUELINE GOMES

ria Queer. Segundo a obra, haveria técnicas que determinam como um indivíduo vai viver em sociedade segundo normas específicas de “ser homem” ou “ser mulher”. Para Butler, tanto o sexo quanto o gênero são culturalmente construídos por um discurso regulador. Algumas das principais pautas do transfeminismo são: o combate ao linguajar cissexista reproduzido e visto como o “natural”; luta por formas de aborto seguro e/ou gestação segura para homens trans e combater a ideia de que a gestação é algo “feminino” ou exclusivo da mulher cis; opor-se aos discursos psiquiatrizadores e patologizadores, que afirmam que pessoas trans têm suas respostas/ações alteradas pela atuação hormonal no corpo, logo não tem capacidade de decisão por si mesmas, e que possuem um transtorno mental que as impede de decidir por si; lutar por um atendimento médico seguro que não condicione suas identidades/experiências a “transtornos”, tirando a obrigação de um aval médico para existirem no campo político/social e jurídico. Ainda assim, o movimento tem falhas quanto à inclusão e percepção das particularidades de mulheres trans negras ou pessoas trans de classe popular. Além disso, grande parte do material de estudo sobre gênero não foi traduzido para o

fonte YOUTUBE


feminismointerseccional

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lguns grupos feministas acreditaram por algum tempo, principalmente durante a segunda onda feminista, que todas as mulheres tinham um elo em comum: sofriam o sexismo da mesma maneira. Várias críticas foram feitas à essa crença, e a partir daí o conceito de interseccionalidade começou a ser usado. Interseccionalidade é, segundo a professora estadunidense Kimberlé Crenshaw, “A visão de que as mulheres experimentam a opressão em configurações variadas e em diferentes graus de intensidade. Padrões culturais de opressão não só estão interligados, mas também estão unidos e influenciados pelos sistemas interseccionais da sociedade. Exemplos disso incluem: raça, gênero [em questão homem/ mulher e cis/trans], classe, sexualidade, capacidades físicas/mentais e etnia”. A realidade é que certos grupos de mulheres têm que lidar com múltiplas facetas na vida, para além de seu gênero. Uma mulher negra enfrenta tanto o racismo como o sexismo durante sua vida. Um tipo de feminismo feito por mulheres brancas e pensando nessa realidade

apenas não a contemplaria, já que o fato de ser negra muda completamente a sua experiência, inclusive a maneira como sofre com o machismo. Trabalhar fora sem a autorização do marido, por exemplo, jamais foi uma reivindicação das mulheres negras/de classe popular – as negras porque ainda lutavam para se livrar das amarras da escravidão; as de classe popular porque já trabalhavam em fábricas em jornadas altíssimas –, assim como a universalização da categoria “mulheres” tendo em vista a representação política, foi baseada na mulher branca de classe média. Assim, principal crítica que o feminismo interseccional tenta fazer é evidenciar que o feminismo “tradicional” é branco, classe média, cisgênero e capacitista, e, dessa forma, representa apenas esse de ponto de vista. Não se reflete sobre as experiências de diferentes mulheres, e como a opressão sentida por elas se difere por suas particularidades. O Feminismo Interseccional teve como suas precursoras principalmente mulheres negras dos anos 60 e 70, que visavam trazer um holo-


Para entender melhor: O que é feminismo interseccional? de Djamila Ribeiro. A filósofa, feminista e acadêmica brasileira Djamila Ribeiro, durante uma entrevista com Angélica Kalil, explica o que é a interseccionalidade e sua importância para o feminismo. O vídeo está no Youtube pelo canal “Você é feminista e não sabe”. A urgência da interseccionalidade por Kimberlé Crenshaw. O TED da professora estadunidense explica, de forma educativa e com analogias, porque a interseccionalidade é uma pauta tão presente e necessária. Apesar de ser inglês, o vídeo têm legendas, e pode ser encontrado no site TED.com.

KIMBERLÉ CRENSHAW

fote maior para a questão racial no feminismo. Mais tarde isso viria a originar um vertente só para falar sobre esses assuntos: o Feminismo Negro. Uma dessas mulheres foi Kimberlé Crenshaw, estadunidense, professora em tempo na Faculdade de Direito da UCLA e na Columbia Law School, onde se especializa em questões de raça e gênero. Crenshaw é conhecida pela introdução e desenvolvimento da teoria interseccional, o estudo de como identidades sociais interseccionadas se relacionam com sistemas e estruturas de opressão, dominação ou discriminação. Seus estudos foram essenciais no desenvolvimento do feminismo interseccional como subcategoria da teoria interseccional. Ela também é fundadora do Centro de Interseccionalidade e Estudos de Política Social da Columbia Law School (CISPS) e do Fórum de Política Afro-Americano (AAPF). Hoje, as teorias interseccionais são utilizadas no movimento transfeminista, feminismo lésbico, feminismo classista, etc. Suas reivindicações são amplas, pela grande quantidade de movimentos representados (lésbico, trans, negro, classista, etc.), e vão do fim do binarismo de gênero (classificação apenas de homem/ mulher), até cotas raciais, criminalização da lgbtfobia, entre outros.

fonte SOURCEOFTHEWEEK


feminismolésbico

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s mulheres lésbicas enfrentam - ao mesmo tempo - a homofobia e as imposições patriarcais. É uma vida permeada tanto pela lesbofobia, quanto pela misoginia. Por meio da visão da existência dessa dupla opressão, começou-se a teorizar sobre o feminismo lésbico entre as décadas de 70 e 80. Alguns nomes importantes quando se fala dessa vertente são: Charlotte Bunch, Adrienne Rich, Marilyn Frye, Mary Daly e Audre Lorde. Para compreender melhor como opera essa dupla opressão e as pautas da vertente, é necessário entender um do seus conceitos centrais a heterossexualidade compulsória. Essa concepção desenvolvida por Adrienne Rich, refere-se a como as mulheres têm a autonomia de sua vida sexual e afetiva retirada - são colocadas como seres passivos com a função de responder apenas aos desejos e ao prazer masculino, tendo os delas colocados em segundo plano. Todas as mulheres - lésbicas ou não - estão imersas nesse sistema repressivo, que é reproduzido por meio de uma narrativa heterossexual - na qual a felicidade e o sucesso femininos só são alcançados

ao lado de um homem - que lhes é imposta desde a infância. Assim, a lesbianiadade representa uma trangressão ao sistema e ao patriarcado, uma vez que significa a mulher exercer sua autonomia sexual e direcionar o seu desejo a outra mulher. A lésbica representa uma negação da subalternidade em relação à figura masculina. Logo, punições recaem sobre elas, como - por exemplo - o estigma da promiscuidade. Representante do movimento: “As conexões com e entre mulheres são as mais temíveis, as mais problemáticas e as forças mais potencialmente transformadoras no planeta.” Adrienne Rich foi uma professora e poeta norte-americana - reconhecidamente feminista e lésbica. Como ela mesma afirmou, sua produção artística era política e engajada. Suas obras - poéticas e teóricas - defendem e abordam sobre os direitos das mulheres. Exemplos disso são: o livro “Snapshot of a Daughter-in-law”, o poema “Power” - sobre Marie Curie - e a obra “Bread and Poetry” - no qual ela desenvolve sobre o conceito de heterossexualidade compulsória.


glossário

Patriarcado: Forma de organização política, econômica, religiosa e social baseada na ideia de autoridade e liderança do homem sobre a mulher. O poder histórico dos homens sobre a sexualidade e a reprodução das mulheres e de seus filhos e filhas. Ordem simbólica perpetuada como a única estrutura possível, através de mitos e religião. Neste sistema fomos todos educados. O feminismo o questiona e tenta erradicá-lo. propondo um modelo igualitário. Sexismo: É a ferramenta do qual o patriarcado se vale para manter em situação de inferioridade, subordinação e exploração as mulheres. Ideologia que defende a subordinação das mulheres e métodos utilizados para perpetuar a desigualdade entre homens e mulheres.Subjaz nossa construção como seres sociais. Machismo: Discriminação baseada na ideia de que homens são superiores à mulheres. Se manifesta de forma consciente e inconsciente através de “piadinhas”, comentários, observações...

Gênero: Construção social que designa papéis e estereótipos baseados no sexo biológico. “Os meninos não choram (masculino)”, “as meninas gostam da cor rosa (feminino)”, por exemplo. Androcentrismo: A ideia de que o mundo se define no masculino e o homem é o parâmetro para todas as coisas. Historicamente todas as ciências partiram de uma perspectiva masculina. fonte Infográfico de Nieves Ramírez


Produzido por:

Julia Breda, Leon Ferrari e Nicolas Santos

Este produto é referente ao trabalho final da disciplina de Jornalismo e Gênero do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina Orientação de: Fernanda Nascimento

Arte rte de Vander Ploeg A de LSibby amantha Hahn

SEM INTUITO COMERCIAL. PROIBIDA VENDA.


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