1995-avieira-ArquipMadeiraSecXV

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0 ARQUIPÉLAGO DA MADEIRA NO SÉCULO XV LUÍS DE ALBUQUERQUE E ALBERTO VIEIRA 1. O PROBLEMA DO RECONHECIMENTO OU DESCOBRIMENTO DO ARQUIPÉLAGO MADEIRENSE A dar crédito a algumas cartas geográficas quatrocentistas e a uma anónima e célebre narrativa de fantasiosas viagens que as informou ou decorrente de alguma delas, hoje desaparecida (pois nenhum mapa existente em tais condições é anterior ao texto), o grupo insular da Madeira já seria tão bem conhecido, em meados do século XV, que os cartógrafos puderam representá-lo nos seus desenhos com espantosa precisão. A ideia de que em tais delineamentos do arquipélago, aliás com uma toponímia que não se alterou até aos nossos dias, os contornos das lhas da Madeira, do Porto Santo e das Desertas podiam ter sido acrescentadas nas cartas posteriormente à data da execução dos seus traçados originais, chegou a ser admitido e deu lugar a acesas controvérsias, mas está hoje posta de lado, e com fundamento em boas razões. De facto, se parece absolutamente aceitável que, em determinadas circunstâncias, um ou outro pormenor de interesse náutico se anotasse ou corrigisse em uma certa carta preparada para a navegação, é de todo em todo incompreensível que um arquipélago, só descoberto no século XV (como sustentaram os defensores de tal ideia), fosse acrescentado em todas ou quase todas as cartas do século anterior que se construíram a partir de determinada data; tem de se pensar que tais espécimes cartográficos não estavam certamente então na posse do mesmo marítimo, do mesmo erudito ou do mesmo cartógrafo, que seria a via mais fácil para se compreender que tais acréscimos se apresentam mais ou menos uniformes; de outro modo, parece 5 bem pouco provável, para não dizer inadmissível que a notícia da necessidade de tais acrescentos se fazer a luz de descobrimentos recentes tivesse chegado em tempo útil a todos os diversos possuidores de tão valiosos exemplares da cartografia. Aliás, se de acréscimos se tratasse, seria desde logo de esperar que a caligrafia dos topónimos que acompanham as manchas insulares, porventura introduzidas numa carta já antiga, fosse diferente do calígrafo que nesta obra interviera; ora um estudo atento das cartas nestas circunstâncias mostrou que tal se não verifica e que, pelo contrário, a letra se apresenta com o mesmo talhe em toda a extensão das áreas costeiras representadas. É certo que este argumento não convenceu todos os historiadores nem todos os críticos; sem negarem a uniformidade apontada, eles obtemperaram que a letra manuscrita anterior ao século XVI, e sobretudo anterior ao século XV, se indiscutivelmente varia, a sua transformação é muito lenta com o correr dos anos, mantendo-se por largos períodos de tempo com características mais ou menos constantes e impessoais; quer isto dizer que dificilmente se poderiam reconhecer pelo formato da letra das palavras que os acompanham, os acrescentamentos desenhados numa carta, se acaso eles tivessem sido feitos não muito depois de elaborado o documento em que foram supostamente introduzidos. Esta observação pode parecer oportuna ou pertinente, mas quem alguma vez teve de se dar à leitura de textos manuscritos de um qualquer período do século XIV, sabe bem que o facto da letra ser então mais desenhada do que o foi posteriormente não apaga em absoluto um cunho pessoal de quem escreveu. Todavia; mesmo que admitíssemos que dois calígrafos tinham a mesma letra, a tinta que usaram, essa foi decerto diferente, é não há em tais cartas o mínimo indício de tal diferença. Além disso tem de se reconhecer que as ilhas do arquipélago madeirense não estão representadas de um modo estereotipado em todas as cartas trecentistas em que aparecem, verificando-se que os seus contornos e as suas posições relativas estão mais próximos dos verdadeiros nas cartas mais recentes; só a toponímia é a mesma, apenas com as inevitáveis variantes de carácter linguístico. E tal facto pode ser interpretado como consequência de um melhor conhecimento da posição das ilhas com o curso dos anos, ou seja, depois de sucessivas visitas, aperfeiçoando-se os desenhos a partir dos dados em cada uma recolhidos. Postas estas considerações gerais, se procedermos ao estudo comparado na cartografia trecentista que representa o Atlântico ao largo da costa da Península Ibérica e do norte africano até o Cabo Bojador (nessas cartas quase sempre já assinalado pelo seu nome actual), temos de aceitar definitivamente que o arquipélago madeirense foi conhecido de europeus, ou pelo menos de alguns navegadores e cartógrafos italianos e ibéricos, desde meados do século XIV; efectivamente, se a carta de Dulcert de 1339, apesar de anotar algumas das Canárias, ainda não representa as ilhas madeirenses (pese embora a opinião oposta de alguns autores), estas aparecem desenhadas pouco depois (em 1351) numa carta do chamado atlas Mediceo; e logo a seguir: numa carta atribuída aos irmãos Pizzigani, de 1367; numa folha do planisfério catalão de Abraão Cresques, de 1375 (muitas vezes designado


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