DESCOBRIR O ATLÂNTICO NOS SÉCULOS XVIII E XIX ALBERTO VIEIRA
O descobrimento do Atlântico aconteceu em dois momentos. O primeiro, que decorre até ao século XV conduziu à revelação de novos espaços agricolas, mercados, rotas e portos comerciais. Já no segundo, a partir do século XVIII, o europeu partiu à procura do quadro natural do mundo Atlântico e do desfrute das belezas e clima com a definição de ilhas e espaços litorais como health resorts e hotéis. Na verdade, o homem do século dezoito perdeu o medo do mundo circundante e fez dele o motivo de experiencia, deleite e estudo1. Estes dois momentos marcaram uma atitude distinta do europeu e tiveram reflexos evidentes na produção literária que envolve o processo. A par disso a opção dos viajantes, que dão forma ao Grand Tour europeu da época moderna, é diferente daqueles que primeiro sulcaram o oceano à procura de ilhas e portos de abrigo2. Da primeira já temos conhecimento quase suficiente, enquanto a segunda ainda se mantem no quase total esquecimento. Contribuir para a alteração deste estado de coisas chamando a atenção dos investigadores para este inovador domínio é o objectivo que nos persegue agora. A Europa partiu no século XV à procura do Éden bíblico ou da literatura clássica grecoromana. Este foi um dos motivos do empenho de Colombo e dos navegadores portugueses3. O seu (re)encontro era encarado como uma conciliação com Deus e o apagar do pecado original. As ilhas materializam este retorno ao Éden, que aos poucos se perdeu tal como sucedera aos primogénitos Adão e Eva. Aos descobrimentos dos séculos XV e XVI sucederam-se os dos séculos XVIII e XIX. Aqui as ilhas foram de novo o paraíso a ser redescoberto pelo viajante, tísico e turista, e recuperado ou revelado ao cientista, seja ele inglês, alemão ou francês, através das recolhas ou da recriação dos jardins botânicos. A imagem bíblica do Éden está presente na maioria dos que visitaram ou nos legaram escritos sobre as ilhas. O Paraíso está teimosamente presente e domina todos ou quase todos os testemunhos daqueles que tiveram o privilégio de redescobrir as ilhas a partir do século XVIII. Aliás, na Antiguidade Clássica, o paraíso confundia-se com as ilhas e para o mundo grego elas eram sinónimo das Afortunadas, Hespérides, que é o mesmo que dizer as ilhas do Atlântico Oriental4. A primeira visão é quase sempre complementada de outras reveladoras da forma como se delineou a relação do homem com o meio. A sua presença e influencia no cenário do mundo natural é o motivo de atenção. Ele é o centro de tudo e evidencia-se na expressão dominadora e domadora do quadro natural, por isso, o deslumbramento da paisagem, agreste e florida confunde-se obrigatoriamente com a exaltação da presença humana. A literatura científica e de viagens definiu, desde o século dezoito, este conjunto de ilhas como uma unidade merecedora de atenção. São as Western Islands que encabeçam os títulos das publicações5. Aqui entendia-se quase sempre os Açores, mas muitas vezes associava-se as 1 . Cf. Urs Bitterli, Los"Selvajes" y los "civilizados". El Encuentro de Europa y Ultramar, México, 1981. 2 . Cf. Antoni Maczak, Viajes y viajeros en la Europa Moderna, Barcelona,1996; 3 . William D. Phillips, JR, Africa and the Atlantic Islands Meet the Garden of Eden. Christopher Columbu's view of America, in Journal of World History, vol.3, nº2, 1992, pp.149-164; Henri Baudet, Paradise on Earth, Londres, 1965.. 4 . Sobre este tema temos estensa bibliografia para as Canárias: Antonio Cabrera Perera, Las Islas Canarias en el Mundo Clássico, Islas Canarias, 1988; Soray Jorge Godoy, Las Navegaciones por la Costa Atlántica Africana y las Islas Canarias en la Antiguidad, Canarias, 1996; Marcos Martinez, Canarias en la Mitologia, S. C. Tenerife, 1992; IDEM, Las Islas Canarias de la Antiguidad al Renacimiento. Nuevos Aspectos, S. C.Tenerife, 1996; F. Diez de Velasco, Realidad y Mito, S. C. Tenerife, 1997. 5 . Victor Morales Lezcano, Los Ingleses en Canarias. Libro de Viajes e Historias de Vida, Las Palmas de Gran Canaria, 1986, p.124