Extra

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Bauru, 22 de abril de 2013

3º termo - Jornalismo/FAAC - Unesp

Tomate por passagem Não foi apenas o alto preço do tomate que assustou, o da passagem de ônibus em Bauru também vai subir Gabriela Lima

Q

uem já reclamava do aumento da tarifa de ônibus que ocorreu no ano passado, agora tem que se preparar para outra onda de aumento. O prefeito Rodrigo Agostinho recebeu uma proposta da Associação das Empresas do Transporte Coletivo Urbano de Bauru (Transurb) sobre o reajuste nas passagens. O cidadão que utiliza o transporte público de Bauru e paga em dinheiro não vai mais gastar R$2,60 a cada viagem,

mas R$2,93. Já aqueles que utilizam o cartão, agora vão pagar R$ 2,71. A integração passará a custar R$0,72 na cidade paulista. Os estudantes também não ficam de fora. Eles vão pagar R$2,03 por cada passagem, o que corresponde a 70% do total da tarifa comum. Em entrevista, a assessoria de comunicação da Empresa Municipal do Desenvolvimento Urbano (Emdurb), esclareceu os motivos para o aumento da passagem. Segundo a assessoria, “o aumento ocorre uma vez ao ano para Latuff modificado

que haja o equilíbrio econômico e financeiro do sistema. Esta periodicidade está especificada no contrato de concessão firmado entre empresas do transporte coletivo e prefeitura municipal.” No dia 28 de março, Pedro Valentim, presidente do Conselho de Usuários do Transporte Coletivo de Bauru, realizou uma reunião para discutir a planilha e os valores apontados. Essa planilha contava com os motivos para o aumento do preço da passagem, e segundo a entrevista, “ são considerados o custo do combustível, pneus, veículos, mão de obra, número de passageiros, etc.”. Nos últimos meses, o preço do combustível teve um aumento de 13% e em contrapartida, o número de usuários do transporte público diminuiu 3,93%. A notícia do aumento da tarifa não deixou nada contente os usuários do transporte. Para mostrar a insatisfação com a medida e tentar mudar as decisões, várias pessoas se uniram virtualmente com o slogan #RevogueJá. Cada vez que o prefeito Rodrigo Agostinho entra na sua página do Facebook,

se depara com várias publicações que mostram a insatisfação de quem tem os ônibus como meio de transporte. Para a tristeza de quem utiliza ônibus em Bauru, o aumento da tarifa está confirmado para a partir do dia 5 de maio. Jeremias de Mello é usuário diário do transporte público de Bauru, assim como sua filha. Sobre o assunto, Jeremias comenta: “considero o aumento anual correto. Só não concordo que o aumento do preço seja decidido só pelo prefeito. A decisão deveria passar também pela Câmara Municipal e pelo Conselho de usuários”. Jeremias também participou de manifestações contra o aumento e opinou sobre o assunto: “Só participei [em movimentações] pelas redes sociais. O movimento precisa ter apoio dos vereadores, sindicatos e comunidade. Não percebi resultado: A gestão municipal (prefeito) parece não dar muita importância, pois ele tem poder e está legalmente embasado e assessorado. Precisamos apenas incluir a comunidade na decisão sobre o valor/ preço do transporte coletivo em Bauru”.

Quando a direção fica em segundo plano Heloise Montini

A

sagem, cuidar dos passageiros. Parece que nada disso é avaliado na hora de reestruturar as funções no transporte. Há poucos ônibus e muitos usuários, há poucas linhas e muitos bairros. Há má qualidade, como os ônibus com elevador para cadeirantes sem funcionar ou com bancos quebrados. A qualidade cai, os ônibus ficam cada dia mais velhos, mas o preço pago pelo usuário aumenta, desproporcionalmente ao reajuste salarial. E é sobre os motoristas que caem

todas as reclamações. Eles são colocados em linhas que desconhecem e têm que chegar ao destino no horário marcado. Se cada um que entrasse no ônibus fizesse o exercício de se colocar no lugar do motorista, o dia seria mais leve e tolerável para todos que dependem de um transporte onde a qualidade é inversamente proporcional ao preço. (Informações obtidas através de depoimentos de motoristas de ônibus e passageiros da cidade de Bauru) Amanda Fonseca

poderia cobrar de todos e seguir o caminho em segurança. Mas não, o que aconteceu foi que o tempo para se fazer a linha permaneceu o mesmo, abrindo espaço para eventuais acidentes. Além do risco que a empresa impôs aos funcionários e passageiros, e do salario pequeno, o motorista tem sobre sua cabeça a ameaça de que terá que pagar por danos nos veículos. O estresse já é grande pela profissão em si, mas piora quando um passageiro destrata o motorista, transformando o dia em desentendimentos seguidos, num verdadeiro efeito cascata. O motorista tem que tomar cuidado com o trânsito, tem que fazer o trabalho do cobrador e o horário de trabalho varia de acordo com a linha. Os problemas são diversos, mostrando a falta de preocupação da empresa em relação à segurança, já que há assaltos, bagunça, passageiros que pegam carona, pulam a roleta. Ele não pode, além de dirigir e cobrar a pas-

Amanda Fonseca

rotina é exaustiva e o trabalho é estressante. Passar horas sentado em um banco de ônibus, dirigindo, tendo que encarar o reflexo do sol, escapar de buracos, enxergar através de uma forte cortina de chuva, enfrentar um trânsito hostil e ainda aguentar desrespeito de um público que nem sempre valoriza a importância do motorista do ônibus, tudo isso por um salário vergonhoso. Nada é conversado com o motorista e em nenhuma mudança é questionada a posição do trabalhador, apenas lhe é imposta. Os cobradores foram tirados e ficou ao encargo do motorista cobrar. Tudo para reduzir o custo e aumentar a lucratividade. Mas e a segurança? Todos conhecem a importância de se manter o foco no trânsito a fim de evitar acidentes e, ainda assim, a empresa diz que o motorista tem que ter a capacidade de dirigir, cobrar e evitar qualquer tipo de dano. Se o tempo para se chegar ao destino tivesse aumentado, o motorista

A realidade que poucos veem e parecem não querer ver


Social Diagramação: Heloise Montini e Mariana Caires

Jorn. Resp.: Angelo Sottovia MTB: 12870

Mariana Caires Mariana Caires

Tudo junto e concentrado

Durante quase 60 anos, o transporte público de Bauru foi comandado por uma única empresa Amanda Fonseca

Assim, as vencedoras dos lotes foram Kuba Turismo e a filial da Transportes Urbanos Araçatuba, a chamada Cidade Sem Limites. Segundo Tidei, houve também a criação de uma Câmara de Compensação, pois os preços oferecidos pelas empresas no processo de licitação estavam abaixo do valor de mercado. Uma delas ganhou o lote oferecendo um valor de R$0,43 por passagem e a outra R$0,45. O preço da passagem na época era R$0,50. Para manter a concorrência justa, a Câmara de Compensação recolhia a diferença entre o preço praticado e o preço que fora oferecido na concessão. Em dezembro de 1996, foi consolidada a quebra do monopólio e novas linhas foram criadas para que as duas novas empresas operassem. Porém a ECCB continuou com 88% das linhas já existentes e a Kuba e Cidade Sem Limites só puderam pegar 25% dos usuários, sob alegação de evitar o prejuízo da antiga dona do transporte público. Nas eleições de 1997, Antônio Izzo Filho assumiu

novamente a prefeitura. Em 1998 foi acionário de outras empresas de transcassado e um ano depois preso por des- porte urbano atuantes em Bauru. Tal vio de verba federal em um projeto ha- fato caracterizaria um novo monopólio. bitacional e por aceitar propina de uma das responsáveis pelo transporte público municipal, além de permitir que as LUCAS VILELA empresas negociassem entre si trocas de (Estudante, 17 anos) linhas sem o conhecimento público. No ano de 2000, foi decretada a falência da “Além de caro, o Empresa Circular Cidade de Bauru e as transporte público de outras duas concessionárias tiveram que Bauru tem frota assumir as linhas operadas pela Circular. pequena e é O poder e o controle hoje Três empresas são responsáveis pelos ônibus na cidade: a Baurutrans, a Cidade Sem Limites e a Grande Bauru. Existem suspeitas de que a antiga Kuba, hoje Baurutrans CN Transportes Gerais, foi comprada por Nenê Constantino, o “rei do transporte terrestre”.Ele seria o dono da Reunidas, Andorinhas, Transportes Urbanos Araçatuba, entre outras, e da Gol Linhas Aéreas. Constantino também manteria o controle

lotado em horários de pico”

Quanto gasta: Por dia: R$7,20 Por mês: R$144,00 Quanto passará a gastar: Por dia: R$ 8,12 Por mês: R$ 162,40 Trajeto: casa - escola - casa - Unesp - casa média de 80 viagens por mês.

ELÍDIA DA SILVA (Dona de casa, 58 anos) “Os horários e o preço do nosso transporte público me parecem justos” Trajeto: Não tem trajeto definido, média de 8 viagens por semana. Quanto gasta: Por mês: R$ 20,80 Quanto gastará: Por mês: R$ 23,44

Mariana Caires

“Os ônibus aqui são menos confortáveis. Na França, os horários de ônibus são escritos em cada ponto. No Brasil, parece que não há horários. Os ônibus chegam quando eles querem, a espera pode ser de uma hora! Na França são no máximo 10 minutos entre cada ônibus. No Brasil tenho que pagar pela integração. Por exemplo, na França quando você paga um ingresso de ônibus, você pode usar isso durante 1 hora. Se você muda de ônibus durante esta hora, voce não vai pagar nada. No Brasil, cada vez que você pegar um ônibus, tem que pagar, mesmo tendo pago 15 minutos antes. Os preços entre os dois países são similares”

Mariana Caires

FLORIAN LEU (Estudante intercambista francês, 21 anos)

Mariana Caires

F

ioravante Tedesco fundou a Empresa Circular Cidade de Bauru (ECCB) em 1939. Dois anos mais tarde, no contexto da Segunda Guerra Mundial, alguns problemas começaram a atrapalhar o negócio. A escassez de peças, pneus, gasolina e óleo fez com que a empresa fosse vendida para o dono de uma oficina mecânica, Alexandre Quaggio. A família Quaggio tornou-se então proprietária da única empresa de transporte público bauruense e deteve todo o poder do setor até 1996, quando houve a quebra de monopólio. Esta teve início em 1993, com eleição de Antônio Tidei Lima para prefeito. Tidei afirma que um dos fatores para tal decisão estava relacionado às dificuldades da empresa em atender as demandas da população, que já passava de 250 mil habitantes. O processo de licitação ocorreu com a abertura de dois lotes para concessão, sendo que a ECCB foi impedida de participar por conter débitos com o INSS.


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