Ensina-me a te amar - Jack holmer

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por

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13.03.2013 - 19.05.2013 MUSEU DA GRAVURA CIDADE DE CURITIBA (SOLAR DO BARテグ)


F I C H A T É C N I C A

Produção

Ana Rocha Igor Dantas Produção Crítica

Diana Domingues Luiz A. Salgado Assistente de Produção

Helton Kwiecien Projeto Gráfico

Jaime Silveira Revisão

Davi Pessoa Carneiro Assistente de Programação

Marcos Frankowicz Fotógrafo

Rafael Dabul Assessoria de Imprensa

Heros Mussi Schwinden Montagem

Equipe Montagem Curitiba Museu da Gravura Cidade de Curitiba Coordenação Ana González Assessoria Administrativa Sandra E. dos Santos Assessoria de Produção Joseane Baratto Agradecimentos Escola Municipal Prefeito Omar Sabbag e sua Equipe de Robótica CyberRex, Georgia Natal, Willian Santos, Gustavo Lopes, Feito Chocolate; Jack Holmer e Marli Escavron de Castro Holmer, Camille Holmer, Marianne Holmer, Clara Sanchez Holmer e Nair de Oliveira Santos, que me ensinaram a Amar.




S U M Á R I O Ensina-me a te amar – Jack Holmer

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Imagens

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Humanização das tecnologias por humanóides afetivos: rumo à terceira interatividade

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Luiz A. Salgado

Diana Domingues



Ensina-me a te amar – Jack Holmer Luiz A. Salgado As linguagens tecnológicas digitais possibilitam um novo meio de produção

artística: o controle e manipulação de programas, computadores e diversos

dispositivos que permitem a conexão/interação entre espaços físicos e virtuais. O artista cientista se apropria destes meios buscando transgredir os limites entre o

homem e a máquina, trazendo novos questionamentos sobre a condição humana nas suas inter-relações sociais e políticas, e fundamentalmente afetivas.

A linguagem artística desenvolvida por Jack Holmer está conectada a

estas questões, parte de pontos diversos, porém sempre demonstrando atenta observação aos acontecimentos tecnológicos e as possibilidades que estes

abrem à sua prática criativa. Porém observa-se que estes aparatos, dispositivos e programas servem principalmente à sua intenção de abordar questões humanas: afetividades acima de tudo. “Ensina-me a te amar”, “Seres de luz” e “Planetárias” mostra-nos isto.

Estas afetividades aparecem destacadas através do modo como o artista

propõe a relação entre homem e a máquina, ou seja, a forma como ocorre a

interação, o contato e a troca entre eles. Estas interações muito adequadas à cultura tecnológica atual reflete outra tendência: a humanização destas

tecnologias, em outras palavras, a adoção das máquinas como objetos de estima.

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Desta forma a mostra apresenta três trabalhos distintos, mas que mesmo nas

diferenças guardam aspectos em comum que definem a coerência do artista. Robótica, programação, instalação.

Ensina-me a te amar O planeta está povoado. Eu, Robô. Cutie. K- 456. Nexus-6. Rachael. Waldo.

CYSP: são diversos autômatos de origens variadas: da literatura e do cinema,

bem como também de outras manifestações artísticas que surgiram a partir dos anos 50, isto, em paralelo ao uso científico e comercial destas máquinas,

ajudaram a formar um imaginário robótico, uma cultura robótica. Agora pensamos e compartilhamos nossas vidas com essas “criaturas” automatizadas.

As criaturas de Jack Holmer adaptadas neste ambiente são robôs

criados para responderem à presença humana através de indicações luminosas e

abraços afetuosos. Trata-se de troca, portanto de comunicação homem-máquina.

Os dois robôs, um em pé outro ajoelhado em uma das pernas, se

apresentam aos visitantes envoltos em ambiente preparado: sala escura e

espaço livre para aproximação e observação. De aparência os robôs se mostram

luminosos envoltos em pele/espuma/textura boa de ver e de tocar. O corpo não se apresenta totalmente revestido, espaços permitem que partes da estrutura e do mecanismo sejam vistas, o coração, entretanto, aparece como luz. A luminosidade

advinda dos robôs no ambiente escuro cria uma atmosfera amigável que convida

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a aproximação. Os robôs preparados para “sentir” presença através do som, luz e toque respondem carinhosamente com luzes e abraços. A detecção da presença,

o modo como ocorrem e a resposta a estes estímulos são processados por programas desenvolvidos pelo artista.

Cabe ressaltar que Jack não está interessado no design estereotipado do

robô metalizado, transgride nesse aspecto buscando qualidades mais humanas concentrando-se nos aspectos que aproximem a obra do visitante.

Seres de luz Trata-se de uma instalação com os famosos Tamagotchis - os “bichinhos

virtuais” dos anos 90 - em nova versão já que JH realizou mostra deste trabalho pela primeira vez em 2009.

Tamagotchi é um dispositivo/brinquedo eletrônico que simula as

necessidades biológicas e afetivas de um ser humano, o mais dramático é que

um descuido na alimentação e nos cuidados com o brinquedo e ele morre, ou seja, deixa de funcionar.

A instalação montada cuidadosamente nas paredes que fazem canto da

sala apresenta 300 Tamagotchis distribuídos/pendurados/alinhados aparentando

composição visual equilibrada. Os bichinhos virtuais em diferentes alturas

convidam os visitantes à interação, caso contrário estes seres deixam de existir. A instalação é uma comunidade de brinquedos que dependem da afetividade e

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atenção dos visitantes. Esta relação resgata sentimentos dos interagentes que

sensíveis às necessidades dos muitos seres/brinquedos os adotam. A metáfora à vida humana fica ainda mais evidente quando se observa que os seres mais

afastados dos visitantes pela altura onde estão situados são os menos escolhidos para adoção que, por consequência, são os primeiros a deixar de funcionar, ou melhor, os excluídos são os primeiros a morrer.

Planetárias A criação de programas tem sido praticada por artistas de todos os lugares

do planeta. Diferentemente do uso de softwares de mercado a programação abre novas possibilidades para a criação artística, ao modelar linguagens de

programação o artista desloca-se para o processo de construção não somente no que diz respeito ao produto final, mas manipula a própria linguagem determinando novas propostas no fazer artístico.

Planetárias é o título da obra que simula o modo de reprodução

de planárias. Ao receber a interação os vermes virtuais se alimentam e se reproduzem. O ambiente que se apresenta nas telas se desenvolve sem controle apenas motivado pelas ações interativas do público.

A exposição destes três trabalhos partindo da reedição dos Seres de

luz são importantes para entender o percurso que o artista tem percorrido e a

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coerência dos seus fundamentos. A interação através de uma atitude afetiva

tem sido constante, os visitantes adotam as obras e estas se completam quando recebem esse contato. Nos robôs os abraços percebidos e retribuídos, nos Seres

de Luz os cuidados via interface dos Tamagotchi, nas Planetárias o sistema se altera quando sofre interação.

Os três trabalhos de forma alguma são ilustrações um do outro, são muito

diferentes, porém estas diferenças estão alicerçadas em questões importantes para o artista: a afetividade humana. Funcionam, portanto, como obras que se

complementam. Estas obras mostradas juntas propiciam muitas reflexões sobre as tecnologias atuais, sobre a cultura que se desenvolve nesse ambiente, e

os desdobramentos que causam em todos os setores da sociedade humana. As extensões da percepção e do trabalho humano através das tecnologias, já

de longe apontadas, causam agora possibilidades cada vez mais acessíveis e personalizadas permitindo que deficiências e problemas humanos possam ser compensados pela domesticação da tecnologia.

Fundamentalmente “Ensina-me a te amar” caracteriza-se por um

processo diferenciado e complexo com múltiplas importâncias. Destaca-se a transgressão das linguagens e aparatos e a criação artística isenta dos deslumbres tecnológicos.

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Seres de luz, 2009-2013 DimensĂľes variĂĄveis

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Ensina-me a te Amar, 2013 1,80m x 1m x 1m

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Planetรกrias, 2012-2013 Software Art

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Humanização das tecnologias por humanoides afetivos: rumo à terceira interatividade 1

Diana Domingues “We must humanize technology before it dehumanizes us” Oliver Sack, neurologista e escritor2

Jack Holmer com seus humanoides entra para a história da arte robótica, em

2013, ao lado de outros artistas que mesclam artes, ciência, engenharia, estética e que, principalmente, estão focados na humanização das tecnologias. Em seus

aspectos técnicos, Jack realiza atividades em projetos que seguem instruções,

etapas, protocolos, comparados à fabricação e montagem de máquinas e sistemas, deixando de ser um artista somente movido por “inspirações” e desígnios

poéticos, ou seja, qualidades e habilidades do fazer artístico. Em sua produção

atual, com seus humanoides e com seus ambientes de vida artificial, Jack lida

com a noção de sistemas complexos, regidos por conceitos e leis científicas a

partir da lógica e dos algoritmos, ultrapassando as respostas previsíveis da arte interativa de primeira geração. Nesse tipo de arte, tenta-se simular o biológico e o comportamento humano, assim como fenômenos naturais, incluindo a vida

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de plantas e comunidades biológicas, querendo fazer valer o “vir a ser” dos

fenômenos vitais, e a arte tecnológica ganha o estatuto do pós-humano e do pósbiológico (Domingues, 1997).

Os projetos artísticos da exposição “Ensina-me a te amar” aproximam Jack

Holmer da comunidade de artistas-engenheiros, que, na visão de teóricos da

software art, tal como o arqueólogo da mídia Erkki Huhtamo (2003), desenvolvem

ou adaptam hardware e escrevem programas especulativos para projetos específicos em que os “modos de uso” de computadores e interfaces os qualificam como Arte, no momento em que incorporam a licença poética que carrega a voz do artista. O código, no entanto, não é arte (Domingues, Reategui, 2009), e o

hardware está em todas as prateleiras e gavetas para uso de todos. Papel, tela e tintas também não garantem a realização de um trabalho artístico. Porém, como o

artista pode transmitir um gesto artístico aos programas e ao hardware utilizados? A estranha magia da arte e o velho papel de artista-demiurgo com seu poder de criar objetos-fetiches se reafirmam com as tecnologias.

Holmer, por sua vez, quer nos ensinar a amar esses humanoides, abraçando-

os e cuidando deles como pequenas criaturas3.

Realização utópica, idealista, mas extremamente contemporânea, a

exposição de Holmer dialoga com a filosofia de centros tecnológicos avançados,

em posturas, como, por exemplo, a de Frank Moss (2011), Diretor do MIT Media Lab (2005-2010), que nos fala das pessoas daqueles laboratórios como sendo: os feiticeiros e seus aprendizes, em livro que traz o mesmo título. Aborda

questões que sintonizam e ressoam em nosso conceito de Arte no Século XXI e a Humanização das Tecnologias (Domingues, 1997), quando ainda havia no Brasil

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uma visão muito tecnicista da arte e da tecnologia. Nossa hipótese foi confirmada, e as tecnologias estão sendo humanizadas através de pesquisas nos Laboratórios de Centros avançados de tecnologia.

Os desafios assumidos pelos cientistas dos Media Labs no MIT, narrados

no livro The Sorcerers and Their Apprentices: How the Digital Magicians of the MIT Media Lab Are Creating the Innovative Technologies That Will Transform Our Lives (Moss 2011), deixam claro que a cultura da criatividade e da inovação tecnológica alavancou mudanças nas ciências biológicas, físicas e sociais por uma série de inventos que se instalaram no cotidiano, transformando a vida de

todos. Moss chama esses inventores de mágicos digitais e ressalta que os Media Labs são espaços sem paredes entre as disciplinas, sem limites para desafios e riscos para a pesquisa, onde se trabalha divertindo-se, aprendendo e ensinando, e onde atuam pessoas talentosas movidas pela paixão. O autor narra histórias

fascinantes dos vários laboratórios, sendo seu foco principal os modos como as tecnologias alteram o conceito de corpo, no campo da saúde, a aprendizagem e as formas de controlar a economia, assim como a capacidade de criar algo compartilhado por todos, sempre movidos pela criatividade em seus laboratórios,

reinventando, desse modo, a existência. Cientistas da computação, engenheiros,

biólogos, físicos, médicos, designers, sociólogos, bailarinos, psicólogos, artistas, linguistas, filósofos, e outros profissionais envolvidos com tecnologias criativas em posturas inovadoras, compartilham a paixão pela criação. Vivem em ambientes

antidisciplinares, numa metodologia de botton-up, seguindo o conceito de serendipity, como laboratório de ideias que se organizam livre e randomicamente,

lidando com tecnologias criativas de forma inovadora. Em nosso projeto, adotamos

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o tema de Reengenharia da Vida4, para tratar de pesquisas de natureza similar.

Entretanto, Jack Holmer não atua em um grupo de pesquisa dessa natureza,

o que seria uma situação ainda mais propicia para sua produção. Mas seu local

de trabalho, laboratório/ateliê responde as suas inquietações e desejos desde que

era criança, assim como responde as suas curiosidades e paixões para reinventar

seus sonhos, enquanto lida com materiais e tecnologias: o artista mistura coisas de ateliê de moda, de design e de artes. Compra bichinhos, pequenos aparatos

do dia a dia, plásticos, lã, espuma, peças mecânicas, componentes eletrônicos, lâmpadas, roupas, chaves, ferramentas, colas, linhas, adereços, realizando

bricolagens de pedaços da vida juntamente com pedaços de objetos para re-desorganizar corpos e ambientes.

Como são os robôs humanoides de Jack Holmer?

São corpos mecânicos dotados de dispositivos que se somam a componentes

eletrônicos, mesmo que ainda não sejam dotados de programação em inteligência

artificial, como os desenvolvidos no mais avançado estágio do estado artístico com

tecnologias de sistemas inteligentes e robótica, que nos últimos anos começaram a ser regidos por sistemas afetivos, que exemplificaremos mais adiante. Na sua proposta, os robôs da série: “Ensina-me a te amar”:

Têm o exterior de espuma e o interior composto de luzes,

sensores, motores e elementos eletrônicos... Os “robôs” precisam ser abraçados pelo público e respondem a estímulos

que derivam de seus sensores, espalhados pelo corpo robótico.

O abraço “maquínico”, então, é correspondido dentro de

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variáveis do sistema computacional. Por serem antropomórficos eles já convidam à interação, e quando esta não existe, um sistema de hibernação é ativado.

Em sua configuração, os robôs humanoides assumem o estilo clássico de

figuras humanas, que, segundo seu depoimento, não definem o gênero, sendo

robôs androides homem ou mulher, pois as ginóides são somente formas femininas. Em diálogo com a arte robótica de Leonardo da Vinci, Jack traz evidentes lições de anatomia, seguindo os cânones e proporções de corpo perfeito.

Sabe-se que Leonardo da Vinci, no século XV, por volta de 1495, teria criado

robôs que refletiam estudos sobre anatomia, voltados aos cânones de proporções

do corpo humano, de acordo com as descrições do homem Vitruviano. Mas

eram esculturas que se moviam como robôs que executavam atos próprios dos

humanos, logo superavam a concepção das esculturas clássicas estáticas, que se deslocavam sobre rodas. Mas o robô humanoide de Leonardo era um soldado,

e entre as muitas histórias existe outra sobre um robô que era um leão mecânico capaz de andar, que, ao final de sua performance, dava flores, como o teria feito diante de um rei da França, num gesto diplomático. Assim, seria um robô cordial, colocando os robôs de Leonardo na linha dos atuais, que lidam com atitudes e comportamentos humanos de sociabilidade, superando o destino primeiro de atos

e de tarefas no trabalho cotidiano dos autômatas. Atos cordiais de amizade, para revelar sentimentos humanos, constituem o estado de sociabilidade buscado nas pesquisas de robótica e de afetividade que veremos a seguir.

Os robôs humanoides de Holmer, portanto, remontam à figura do autômato

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humanoide de Leonardo somente em sua estrutura física. Sendo que o guerreiro,

vestido com uma armadura medieval, era capaz de alguns movimentos semelhantes aos dos humanos: manobrava seus braços, andava por uma série de roldanas e cabos, sentava-se, movia o pescoço, e era um autômato

concebido para “combater de forma correta”. Mas, ao contrário, Holmer não edita

comportamentos bélicos, preferindo criar um humanoide que age com o intuito de “ensinar a amar”. Incorpora signos luminosos ao corpo robótico, traduzindo

energias na relação com o outro e transferindo sons corporais como sinais de vida.

Seus comportamentos ganham traços da moderna engenharia contemporânea, e pelo abraço carinhoso que contacta, assume uma estética enativa afetiva.

Seriam esses robôs uma mescla dos robôs de Leonardo da Vinci? “Leão de

amor”? Guerreiro de Paz? Um portador de energias e de luz para enfrentar os desafios do mundo atual?

Da arte islâmica e dos autômatas aos robôs inteligentes, afetivos e biológicos Se adotarmos um olhar retrospectivo, ainda mais remoto, por exemplo,

remontando ao Renascimento, encontraremos referência para os robôs de

Jack Holmer, e sobre as figuras humanas precisamos retroceder ainda mais, para encontrarmos na Arte Islâmica a noção de automação trazida por Gunalan

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Nadarajan (2009). A História da Arte, no campo da escultura, na ciência, no

domínio da robótica e dos sistemas automatizados, revelam que autômatos e

automação são conceitos tecnológicos da história árabe, que são pertinentes

para pensarmos a arte tecnológica atual. Segundo Gunalan, o livro de Al-Jaziri, O Livro dos Dispositivos Mecânicos Engenhosos, de 1206, que trata da automação islâmica, traz uma compilação metódica do conhecimento atual sobre mecânica,

dispositivos e sobre os conceitos de autômato e automação. São relatadas técnicas de seus predecessores árabes e não árabes que foram assimiladas. E

como o próprio Al-Jazari era extremamente criativo, pois trabalhou com vários

dispositivos mecânicos e hidráulicos, que mais tarde se juntaram a motores a vapor e motores internos de combustão, abriu caminho para o controle automático

e outras máquinas. Fica evidente, portanto, que estudiosos do Renascimento, tal como Leonardo da Vinci, continuaram o trabalho de culturas mais antigas realizado por estudiosos medievais do Islam.

E na longa história dos robôs, impossível de ser traçada aqui, cabe resgatar

alguns posicionamentos mais recentes, como os do cientista Hans Moravec,

que, em seu texto O Robot Universal (1994), faz uma projeção dos circuitos da

vida dos robôs até o ano 2050. Discute acerca de circuitos sensorizados e da capacidade de perceber o mundo, refletindo sobre ele a partir de capacidades

incrementadas por habilidades e decisões cada vez mais autônomas. Moravec

lembra que a “quantidade de atividades humanas absolutamente essenciais que

se desenvolvem fora do corpo e da mente do homem foi crescendo”. Salienta que, desde as primeiras máquinas pensantes, depois da Segunda Guerra Mundial,

pela cibernética e pelos circuitos eletrônicos, para “imitar sistemas nervosos

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elementares”, houve o ganho de autonomia e de inteligência com a Inteligência

Artificial, que “procura duplicar o pensamento racional humano”. Cita o ato de resolver problemas de cálculo e de jogar xadrez nos computadores depois da

guerra5, assim como os robôs que, com a função de ver por telecâmeras e de andar com articulações robóticas, lidam com informações diretamente do mundo real.

Mas essas e outras tarefas de robôs comentadas por Moravec, em programas que raciocinam e que percebem e agem no mundo real, não representam atualmente desafios para corpos robóticos. Na projeção de Moravec, a aprendizagem (2010-

2020) para seus robôs, como “seres” úteis, e para robôs universais de primeira geração, os tornaria “rigidamente escravos de simples programas”. Assim, eles poderiam cortar a carne na cozinha para o estrogonofe, porém seria necessário

implorar aos seus construtores para que os ajustassem. Na “segunda geração dos robôs”, computadores mais potentes seriam capazes de acomodar programas mais flexíveis, para se autorregularem mediante uma espécie de “aprendizagem

condicionada”. Como num “sistema de dor”, uma série de programas e de resolução de problemas, tal como o ato de cortar carne para o estrogonofe, por colisões e

força, com o uso dos braços tudo seria resolvido. Os robôs teriam um “sistema de prazer”, com tipos de forças pertinentes para as tarefas a serem realizadas, com sistemas de dor e de prazer, com a presença de um sinal de prazer que

possa emitir o termo “bom” e uma mensagem de dor com a palavra “mau”, enfim,

simulando emoções humanas. Além disso, teriam “instintos de conhecimento motório-perceptivo do mundo” (propriocepção e cinestesia-kinestesia) para

reconhecer um desnível perigoso, e outras capacidades para realizarem tarefas com capacidades humanas, misturando conhecimento com dados do ambiente.

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Raciocínio e reconhecimento do ambiente seriam capacidades do robô (em 2030-

2040), com capacidades perceptivas e motoras dos seres humanos. No caso, a propriocepção somada à inteligência artificial, com capacidades cognitivas da mente, em pequenas quantidades de informações claras e corretas de seres

humanos, provenientes de sensores robóticos. As previsões de Moravec se realizam hoje e ainda vão mais longe.

Milhões de operações por segundo de potência de cálculo e de soluções ao

problema da inteligência artificial de controle dos robôs por sistemas inteligentes,

ou espertos, (linguagem de inferência lógica), redes neurais artificiais, fuzzy logic, entre outras tecnologias, envolvem especialistas, sobretudo, da informática, bem como do campo da robótica e da percepção e ação no mundo físico. Máquinas com capacidades sensórias para ver, escutar, agir de maneira confiável, com controle de articulações robóticas, que internamente escondem a compreensão e

a execução de ações por pesados cálculos numéricos que podem prever o uso da

estatística, da álgebra vetorial, da geometria analítica e de outros tipos de cálculos matemáticos processados e acelerados em sistemas embarcados, que somam várias tecnologias de hardware e interfaces de software. Capacidades de órgãos

sensoriais são colocadas em robôs: olhos-laser, sensores de EOG, coração e ECG, pele e temperatura, por sensores galvânicos SGR, entre outros tipos de sinais, tentam lidar com os organismos vivos em suas capacidades e habilidades perceptivas, transferindo e dotando de qualidades sinestésicas humanoides,

superando a capacidade motora e de raciocínio das outras gerações de robôs e sistemas automatizados.

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Existem robôs que percebem o ambiente, enfrentam obstáculos na Terra

e fora dela, e também no fundo do mar, pois utilizam dados por visão escópica de câmeras, ou pós-escópica em visão computacional e de leitura de dados,

robôs em satélites, visão computacional e leitura de tags, laser, condutores sonar, sensores de proximidade e teleproximidade, sensores de contato, sensores infravermelho, entre toda uma parafernália tecnológica de sistemas embarcados

em corpos, satélites e sondas. Todos eles constroem sistemas sensoriais

baseados nas capacidades biológicas. Há também os robôs que veem e leem dados tridimensionais, com reconhecimento espacial, podendo segurar, entregar, cortar, colar, conduzir objetos e até mesmo cuidar de corpos doentes.

Você pode ser levado à mesa da sala operatória pelo robô que está a serviço

do cirurgião, ou ele mesmo é quem está de serviço. O robô cirurgião abrirá sua coluna. E se for um humanoide de Holmer ainda lhe dará um abraço.

Moravec, nas suas projeções do robô universal, imagina ainda como seriam

os robôs até 2050, dizendo até mesmo que poderemos ser confundidos com os nossos velhos amigos “biológicos”. Pois com a ajuda das máquinas, poderemos mudar os programas mentais, retardar a chegada do tédio, (para quem o tem), incrementar a memória, entre outras mudanças.

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Muito cedo, os seus amigos se lamentarão que você se tornou mais parecido com as máquinas do que com o indivíduo biológico humano que era uma vez. Porém, esta é a vida.

Hans Moravec

Entre ciência, arte e ficção científica, um contato regenerador de Holmer com outros pares da história Com Isaac Asimov, cientista engenheiro e escritor de ficção científica, Jack Holmer tem muitos pontos de contato, sobretudo, em relação aos aspectos comportamentais de seus robôs. Em seu livro, que se tornou clássico: “Eu, Robô”, Asimov ficou conhecido por imprimir à vida dos robôs traços da vida real, mais do que por funções de trabalho, pelo humor e pelas características humanas de comportamentos e de enigmas de personalidade, assim como por meio de condutas que oscilam igualmente como as dos humanos, e não no que diz respeito às tarefas equilibradas próprias de atitudes mecanizadas das máquinas. Estariam os robôs assumindo dimensões humanas?! Os robôs de Asimov são extremamente contemporâneos e poderiam ser resultado dos laboratórios de Centros Avançados de Pesquisa da Carnegie Mellon, em Pittsburgh, ou no Massachusetts Institute of Technology, em Cambridge. Parafusos, fios, pedaços de metal, engrenagens, peças mecânicas, dispositivos eletrônicos e, ainda, a enorme pesquisa em engenharia de materiais e da engenharia de biomateriais, somada a sistemas inteligentes que dotam robôs de comportamento

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e de autonomia, tornando os robôs do final do século XX e os do século XXI, gradativamente, semelhantes aos humanos. O que mais aproxima, entretanto, Jack Holmer de Asimov é que seus humanoides são destinados a viver em ambientes sociais, como criações surpreendentemente humanas, e, além disso, são personalidades carinhosas. Veja-se: Robbie, de Asimov, é uma jovem de 18 anos, que cuida de crianças em seu papel de babá; ela é muda e extremamente amável em suas relações. O Sr. Stephen Byerley, que possui um cargo público, manifesta condutas de um robô positrônico (com inteligência artificial que surpreende qualquer manual de robótica por sua personalidade humana em seu cargo). Os robôs dotados com “Cérebro positrônico”, hoje, correspondem aos que funcionam por inteligência artificial, e possuem “circuitos cerebrais” artificiais que produzem e eliminam posítrons, partícula descoberta na época em que o autor criava suas primeiras histórias6. Outra aproximação em pesquisas robóticas se dá com Norman White7 e suas criaturas de personalidade marcante, que se baseiam nas relações entre os humanos, como o Helpless robot, dos anos 1987-1996, que pede ajuda às pessoas, lembrando o comportamento de mendigos, mas que se torna gradativamente mais exigente na medida em que recebe ajuda dos outros. Comporta-se como um ser humano, fala cerca de 512 frases e demonstra “emoções” que vão desde tédio, frustração, arrogância e superestimulação. Em 1988, em colaboração com Laura Kikauka, White apresentou Fuckin’ Robots simulando cenas de sexo baseado em movimento e respiração. Um macho e uma fêmea, com seus órgãos genitais, fazem sexo publicamente e emitem muitos sons. Norman White é também pioneiro de projetos de telecomunicações e de robótica com outros artistas canadenses, tal

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como Doug Back. Em 1986, criaram uma ligação entre duas cidades diferentes por um braço-de-ferro, usando a força-transmissão motorizada de sistemas interligados por um link de dados por telefone. No domínio da robótica e da telepresença, Ken Goldberg, engenheiro e artista, também teve o gesto carinhoso de cuidar de um jardim com seu Robot in the Garden, braço robótico que permite plantar flores e cuidar do jardim remotamente. Escreveu um livro com o mesmo nome Robot in The Garden, em que desenvolve uma teoria e uma teleepistemologia da tele robótica ou do estudo dos conhecimentos adquiridos à distância. Aqui estão incluídas as tecnologias que nos permitem conhecer à distância através de dispositivos robóticos como o telescópio, o telefone , a televisão, e pela www recebemos o conhecimento à distância por telerrobôs, ou robôs controlados remotamente, que também permitem a ação à distância. São os robôs de missões tele espaciais e aqueles dotados de visão computacional de mísseis telerobóticos. Os controles que usamos para os aparelhos em nossa vida diária são extensões de nossos sentidos e funcionam como dispositivos robóticos, e em certos casos são panópticos, tais como olhos, ou, ainda, bocas e mãos que auxiliam em momentos de vigilância. Ao usarmos controles remotos na porta da garagem, com alarme de carro, com televisão ou em outra situação LIGADA EM CÂMERAS QUE VIGILAM OS AMBIENTES, ou POR DISPOSITIVOS COLOCADOS nos satélites como nossos olhos no céu, ou AINDA POR DISPOSITIVOS ACOPLADOS no celular, como se nossos olhos estivessem na mão, nosso sistema biológico vive processos de extrusão e de acoplamento com o ambiente. Milhares de câmeras e robôs estão agora acessíveis online. E somos cuidados e vigiados por toda parte8.

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Em minha produção de web arte, no Projeto robótico em BioArte, ligado a problemas da vida, na relação do animal com o humano, foi criado um robô com corpo de cobra que podia ser incorporado à distância, usando as teclas de direção, que podem visitar um serpentário remoto, dar água para cobras vivas, viver com elas. Trata-se de INSN(H)AK(R)ES, onde a ideia era viver entre cobras, partilhando o corpo de alguém em um ambiente remoto, no caso, o de um robô. Ainda em 1998, esse convite podia ser atendido, na participação do evento robótico9, ocorrendo a ampliação do campo sensório-perceptivo com as tecnologias. E, em 1998, a rede foi usada para telepresença e telerrobótica com sensoriamento no espaço físico remoto, propondo a partilha do corpo de uma cobra/robô que vivia num serpentário. Participantes remotos, conectados ao site, deslocavam-se no mesmo espaço físico das cobras vivas, quando incorporavam o corpo da cobra/robô, que se chamava Ângela; ela tinha uma webcâmara e transmitia imagens do ambiente. Corpos humanos em escala planetária que agiam colaborativamente e que contribuíam para a vida natural do ambiente ecológico.

Robôs com inteligência, autonomia e afetividade No domínio dos robôs com inteligência, autonomia e afetividade, Holmer, ao apresentar seu projeto, localiza pesquisas de Centros avançados em IA, Inteligência Artificial, como as de Rodney Brooks, pesquisador do MIT (Massachusetts Institute of Technology), que trabalha em projetos de robôs desde 1993, criando robôs

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como o COG10, que tratam de comportamentos e processos de aprendizagem humana. Segundo esses teóricos da robótica do Grupo do MIT, os robôs existem não para substituirem os seres humanos, mas para ampliação e suplementação perceptiva dos humanos. Alguns possuem capacidade cognitiva implantada, conforme pesquisas de Rodney Brooks, a partir de estudos de Papert, de Minsky e de computação afetiva de Rosalind Picard, que resultaram em tese de PhD de Cynthia Breazel e do Personal Robots Group, que apoiam o Boston Medical Center em estudos de Medicina e Inovação. As versões sociáveis dos robôs autônomos do grupo do MIT, que estão na origem dos robôs para executar tarefas em ambientes, como, por exemplo, nas aplicações domésticas, na agricultura, saúde, indústria e outras, em suas versões mais recentes atendem atividades sociais no cotidiano e na comunicação. Também se destinam a aplicações na área da saúde, do entretenimento e de outros fins, com forte capacidade de se comunicar através de gestos, olhares, expressões faciais, voz, visão computacional e outros sentidos humanos simulados, inseridos no corpo robótico. Esses robôs criados com determinadas capacidades humanas são destinados a lidarem com aspectos sociais: Kismet, baseia-se na expressão e comunicação com as crianças11. Entre as programações com sistemas inteligentes estão as RNA, redes neurais artificiais que simulam os cérebros humanos com suas camadas de neurônios e que podem ser treinadas para aprenderem algumas funções e para realizarem tarefas executadas por humanos. Essas programações dotam os softwares de capacidades de auto-organização e de graus de autonomia somados a dados fisiológicos. Pesquisas desta natureza, que buscam dotar os robôs de afetividade/emoções,

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são realizadas em ambientes transdisciplinares com profunda colaboração de antropólogos, psicólogos, artistas, médicos, contadores de histórias, progamadores e outros profissionais, baseando-se em teorias, leis e processos que regem o funcionamento da mente, do comportamento e das relações com o ambiente. Podemos destacar teorias de filósofos, como a de Daniel Dennet (1993), da ciência cognitiva, de Damasio (1996), e as pesquisas de laboratório no MIT de Brooks sobre comportamentos autônomos (inteligentes) em relação aos comportamentos afetivos e emocionais (Picard, 1998). Cabe também localizar mais detidamente como a história da arte robótica e de corpos dotados de sistemas inteligentes e afetivos nos coloca numa reavaliação crítica de noções clássicas de humanoide e de autômato a partir de conceitos da ciência da complexidade e de sistemas vivos, de sistemas inteligentes, de sistemas enativos afetivos e, ainda, em termos de pesquisas com biomateriais. Essa também é a proposta do LART junto ao MIT/CNPq, voltada à “Reengenharia da vida e ex panded sensorium”, com sistemas enativos, para existência humana próstética, no ramo da robótica, mas com tecnologias incorporadas, acopladas ao corpo e ao ambiente. São ampliadas as capacidades perceptivas humanas com a ação de sistemas enativos12, no continuum de zonas simbióticas entre o corpo e seus sinais biológicos vinculados a dados fisiológicos, processamento de sinais e propriedades híbridas do mundo físico.

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Afetividade, enatividade e fisiologia: rumo à terceira cibernética, terceira interatividade e naturalização das tecnologias por estados afetivos Raciocinar, perceber e agir, simulando leis da mente e leis de comportamento, hoje, são comportamentos ampliados por uma base computacional evolutiva e autopoiética que adapta o comportamento do robô ao mundo físico. E, ainda, movimentos no interior de si, compreendendo como o ambiente afeta seu comportamento, criando uma lógica afetiva de afetar e ser afetado (Spinoza). Pela intensidade biológica dos sinais, ativada por sensores fisiológicos de biofeedback, a geração de corpos robóticos de interatividade afetiva, aquela que se move pela autopoiesis do afeto, gera humanoides ou animais. Em nossas análises, atribuímos o conceito de sistemas enativos, pois ocorre o acoplamento estrutural corpo/ambiente pela enação, em mútua relação com o ambiente incorporado (Varela). Ou seja, os sistemas interativos são ampliados por qualidades estéticas de um sentir próprio dos sistemas enativos, que incluem os sinais vitais de todos os sentidos do corpo em ação. São questões que ecoam nas teorias de James Gibson com sua ecological perception (1979). Tomemos, aqui, a visão de Brian Massumi, segundo Eric Shouse, para que se possa entender a comunicação afetiva e a relação com o ambiente: AFFECT/AFFECTION. Neither word denotes a personal feeling (sentiment in Deleuze and Guattai). L’affect (Spinoza’s affectus) is an ability to affect and be affected. It is a prepersonal intensity

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corresponding to the passage from one experiential state of the body to another and implying an augmentation or diminution in that body’s capacity to act. L’affection (Spinoza’s affection) is each such state considered as an encounter between the affected body and a second, affecting, body … (Massumi, Plateaus xvi) In: Feeling, Emotion, Affectiion13 É no quadro teórico do pós-biológico que se torna pertinente a contribuição mais recente de Edmond Couchot (2012) e seu conceito seminal de “naturalização das tecnologias”, a saber: a arte e a estética não são mais tratadas como algo transcendental, pois estão próximas dos processos naturais e biológicos. Couchot propõe a ciência cognitiva e as teorias da percepção para analisar a Arte, com autores como Merleau-Ponty, Varela, Maturana, Noë, Clark, Gregory Bateson, entre outros, ligados ao paradigma enacionista na relação com o ambiente. Propõe o uso de tecnologias da primeira cibernética e seus modelos autorreguladores, que correspondem aos autômatos, para a segunda cibernética e segunda interatividade, com processos que são dotados de autonomia e graus de “inteligência”, tais como os circuitos de redes neurais artificiais, em autopoiesis, ligados à auto-organização e às Redes Neurais Artificiais em base de comportamentos biológicos. De nossa parte, no LART, Laboratório de Pesquisa em Arte e Tecnociência (LART), na FGA, Gama, Universidade de Brasília, seguimos o mesmo viés conceitual, considerando um sistema enativo afetivo com implicação do biológico, por sinais biológicos, fazendo parte ativa do funcionamento do sistema, em estados

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de enação (Varela,2003), ou mútua influência com dados e com o ambiente. (Dados biológicos, dados computacionais e qualidades híbridas do mundo físico se misturam num continuum biocíbrido). Sinais biológicos de corpos, plantas, animais/ sinais fisiológicos/ambiente/dados montam um sistema em estados de autopoiesis. O sistema é regido/afetado pelo biológico, ou seja, o que antes não ocorria. E a interatividade, na intensidade dos sinais vitais e afetivos, por incorporar o biológico, passa a ser chamada de enatividade. Pode-se, assim, pensar na passagem para a terceira cibernética e para a terceira interatividade pela naturalização da tecnologia e dos estados afetivos? Verifica-se que com tecnologias de sensores fisiológicos e de processamento de sinais pode ser validado o conceito spinozista de affecto: o corpo afeta e é afetado pelo ambiente em seu sentido físico, temporal e espacial, e no caso das tecnologias de expansão do sensório, em sinais de corpos (performances) por robôs com sensores. Um corpo spinozista com sensores de EOG, EEG, SGR, e dados fisiológicos trocados com o ambiente que afetam o corpo, que, por sua vez, afeta os sensores, assim como a intensidade do calor, do fluxo cardíaco, do fluxo respiratório auferido, enviando e recebendo, trocando energias e sinais com o ambiente através de um sistema enativo afetivo. Robôs com kinestesia, ou com sensores de movimento, que agem reconhecendo ambientes (propriocepção por cinestesia, esquemas corporais de movimento), ampliados em seu comportamento por sinais, calor da pele, batimento cardíaco, fluxo cardíaco, respiração, músculos em EMG. As ações dos humanos com sistemas enativos, processando e conferindo os afetos por sinais sonoros traduzidos em dados, por data sonification e data visualization, que geram mapas vivos, geografias afetivas, narrativas de corpos humanoides em seus afetos, numa

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ecological perception. A proposta dos BEAS (Biocybrid Enactive Affective Systems), como sistemas biocíbridos enativos afetivos no LART, se encaminha, portanto, para a terceira cibernética e para a terceira interatividade, fundamentadas na teoria da autopoiesis e da naturalização das tecnologias. Corpos são afetados nas ações com o ambiente (enações) e trocam sinais fisiológicos, em estados vitais. São investigações em Bioarte que implicam em pesquisas da Engenharia Biomédica, que abriga o Grupo do LART. Entretanto, outras pesquisas em Bioarte, no campo da robótica e genética, apontadas pela pesquisadora Louise Poissant, são classificadas como robôs semivivos. O exemplo dado é o hydrot (hibrido e robô), modelo inventado por Steve Potter, que combina elementos eletrônicos e biológicos, usando neurônios de ratos ligados a chips. É um corpo feito de silício e de metal que ganha vida. Com Fish & chips, os artistas do Grupo Symbiotica, na Austrália14, utilizam música para estimular a atividade elétrica de células de peixe, numa placa com cultura de células, e um chip de silicone que controla um braço robótico que sabe desenhar15. Mas todos esses inventos tão bizarros da BIOART, que misturam carne e metal, já foram pensados em outras culturas, como nos vários dispositivos flebotômicos (sangria) que Al-Jaziri construiu, que incorporavam elementos biológicos em suas operações automatizadas e que envolviam a sensibilidade e o estado psicológico do paciente na transfusão do sangue tirado (al-mafsud). Cabe, portanto, comentar nossa relação com as pesquisas da engenharia biomédica e nos colocar na História da Arte como “novos Leonardos”, com práticas criativas inovadoras, ligando artistas pioneiros a artistas estabelecidos (Malina,

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2009), aos quais se atribui a capacidade de colaborar para formas contemporâneas de arte, fundidas no ambiente científico. Esse comprometimento é mais forte com a comunicação ubíqua e móvel de tecnologias acopladas aos nossos corpos, levadas a todo lugar por sua portabilidade. Dispositivos enativos nos religam ao ambiente, e nos tornamos humanoides tecnologizados, assim como corpos dotados de dispositivos prostéticos, em ação no ambiente, em computação ubíqua, em todos os lugares, usando tablets, celulares, roupas, óculos, jóias, sapatos, relógios, com interfaces transparentes (Weiser, 1995), em tecnologias móveis e locativas (Rheingold, 2002). Portamos smarth fones, bluetooth, câmeras, sensores e nos conectamos a dados, porque “Cyberspace is everywhere” (Gibson, 2007). Com dispositivos móveis, cada vez mais, as pessoas vivem como narrativas biocíbridas em vida misturadas às tecnologias. Atos do cotidiano se constituem em performances como living narratives, construindo geografias afetivas que rastreiam, mapeiam e narram os modos de vida tecnologicamente modificada. O ambiente com humanos e com dispositivos enativos afetivos nos aproxima de Al Jaziri e dos islâmicos. Esse existir sensorizado, robotizado, que “não deriva dos ritmos contínuos e regulares da performance automatizada, mas da comoção imprevisível e, portanto, irregular de movimentos”, dos afetos entendidos como modos e intensidades de afetar e ser afetado pelo ambiente. Para gerar esses sistemas, como nas práticas colaborativas próprias das sociedades islâmicas, onde não havia separação entre os fazeres, o Projeto em Arte e TecnoCiência soma artistas/engenheiros e pesquisadores da engenharia, matemática, robótica, física, antropologia, ciência da computação, em trânsitos de saberes, com questionamentos comuns que nos possibilitam traçar os

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problemas da vida e da consciência de tempo-espaço, bem como as tecnologias de senciência na relação com o contexto. No campo da Wearable Art, ou da computação vestível, lembramos o artista precursor, Steve Mann, com seus dispositivos vestíveis, referendados no Manifesto Cyborg de Donna Haraway (1991), que traz as dimensões socioculturais do póshumano pelo agir com próteses acopladas a seu corpo, num misto de Cyborg e Fyborg em mesclas diárias do biológico e do tecnológico. Na mesma linha de performance de corpos robotizados, encontra-se a Stelarc próteses e telepróteses, ou seja, seu conhecido e histórico “terceiro braço”, e mais recentemente a “terceira orelha”, com engenharia de órgãos e implante de Bluetooth, para ampliar sua capacidade perceptiva16. É importante observar que as noções atuais de ciência e de tecnologia são significativamente baseadas nas velhas ontologias. Mas em ontologias criativas, numa relação ontoespacial do ser em relação com o ambiente, do ser em ação, pelo princípio da enação em comportamentos emergentes. Assim, não nos distanciamos ou nos diferenciamos de princípios da arte islâmica, na visão de Al-Jaziri e da automação, como interconexão de todas as coisas existentes, em que a busca pelo conhecimento é uma contemplação e uma descoberta da unidade essencial das coisas. Coincidimos com Gunalan Narandajan (2009) e a retomada da arte islâmica ao observar também que a programação criativa desses dispositivos não resulta de uma intenção de engenharia para atingir níveis maiores de controle, mas como um meio de mostrar os modos sofisticados de operação sobre a natureza do mundo e como esses processos podem ser voltados a assegurar uma expressão visceralmente agradável e mais humana da existência.

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Falar em lógica, previsibilidade, equilíbrio em nossos tempos pós-cartesianos (Damasio, 1996) é não aceitar a imprevisibilidade, a autopoiesis, a autonomia dos sistemas que se auto-organizam ao modo dos sistemas biológicos. A vida foge de nosso controle pela enação e pelas estéticas afetivas entre os humanos e o seu ambiente, sendo regida por comportamentos emergentes. Falar da vida, dos humanos e de seus processos tecnologicamente dependentes é, portanto, aceitar a naturalização das tecnologias pelos acoplamentos diários com dispositivos de todo tipo, na era pós-desktop (Domingues e Lucena, 2011), quando pela computação ubíqua e móvel nos transformamos, ao usar interfaces transparentes e calmas (Weiser, 1995) em humanos prostetizados com capacidade ampliada de sensações. Para Moravec, o robô totalmente inteligente, dotado de capacidades de replicar o DNA cultural, no campo da Memética, traz capacidades comportamentais humanas, assim como hábitos sociais, e está livre de nossas limitações biológicas. Será que o robô pode nos ensinar a amar? O desejo de Jack Holmer de Humanizar as Tecnologias traduz uma postura extremamente atual e o coloca ao lado de cientistas e pensadores de renome no cenário da Arte e da Ciência, bem como no caminho da naturalização das tecnologias (Couchot, 2012) e das estéticas afetivas (Domingues, 2013), e este é um outro capítulo de toda essa história. Sem dúvida, as tecnologias têm ainda muito o que apreender. E Holmer, em sua exposição, propõe que os robôs nos ensinem a amar. Vida e amor são sempre uma estranha relação e uma mútua influência homem/ambiente. Através dos acoplamentos estruturais de sistemas enativos, das tecnologias afetivas e dos sensores fisiológicos, nos atos do cotidiano, lidamos com as ações do corpo, das narrativas e dos fenômenos vitais de seus afetos, que a razão desconhece.

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Citações Este ensaio integra a produção da Diana Domingues como pesquisadora Visitante Nacional Sênior Capes na Universidade de Brasília. FGA/GAMA e como pesquisadora PQ nível 1 B CNPq no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica. Projetos recentes se inserem no Program MIT International Science and Technology Initiatives, MIT-Brazil Seed Fund/CNPq, e ainda em cooperação com o OCAD CIVDDD Ontario, Canadá. [dgdomingues@gmail.com] 1

In: MOSS, Frank. The Sorcerers and their Apprentices: How the Digital Magicians of the MIT Media Lab Are Creating the Innovative Technologies That Will Transform Our Lives. PUB Random House: GROUP, 2011. 2

3

Ver texto específico sobre Planetárias e Seres de Luz.

Cooperação Bilateral do LART MIT/CNPq/UnB, no Program MIT International Science and Technology Initiatives com o Projeto: Reengineering Life: Creative Technologies for the Expanded Sensorium. 4

5 Veja

mais sobre Robótica e IA. http://www.slideshare.net/engrafael/robtica-e-ia, disponível em 18 de abril de 2012.

O conceito de Cérebro positrônico dos livros de Isaac Asimov aparece muito na indústria cinematográfica como, por exemplo, em Star Trek, e no filme “O Homem Bicentenário”. 6

7

http://www.artandsciencejournal.com/post/19130445892/norman-white

8

http://goldberg.berkeley.edu/art/tele/

Uma equipe transdisciplinar do grupo de pesquisa Artecno – Novas Tecnologias nas Artes Visuais/ CNPq, que incluía artistas, biólogos, pessoal da informática e da automação, foi responsável pelo projeto. 9

10 11

http://www.ai.mit.edu/projects/humanoid-robotics-group/cog/ http://robotic.media.mit.edu/pdfs/other/Breazeal-Brooks-03.pdf

“Instead of explicit conscious control by means of interfaces a focus on settings that allow participation by embodied action, that is, enactive systems”(KAIPAINEN; RAVAJA; TIKKA et al. 2011, p. 435) 12

13

Eric Shouse, Feeling, Emotion, Affec, Issue 6, Dec 2005.

14

http://www.syntheticaesthetics.org/residents/iwasaki-catts/Bioart

POISSANT Louise. Arts et Sciences, Les Biotechnologies et le bioart. In: DAUBNER, Ernestine et POISSANT Louise, BIOART Transformation du Vivant, Presses de l’Université du Québec, Québec, 2012, p. 29. 15

16

http://stelarc.org/?catID=20242

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Oficina realizada na escola Omar Sabbag, Curitiba, 2013

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13.03.2013 - 19.05.2013 MUSEU DA GRAVURA CIDADE DE CURITIBA (SOLAR DO BARÃO)

PROJETO REALIZADO COM O APOIO DA PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA, FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA, FUNDO MUNICIPAL DA CULTURA – PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA

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