PERFIL
CRIADOR DA PORTA DOS DESESPERADOS, REI DO IÉ-IÉ E DO GLU-GLU, SERGINHO VOLTA À TV COM UM REALITY NO MULTISHOW. E GARANTE QUE NUNCA SAI DO PERSONAGEM — OU NUNCA É O PERSONAGEM — SÓ HUMORISTA O TEMPO TODO
POR Bruno Mateus E SABRINA ABREU FOTOS CARLOS HAUCK
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MALANDRO É MALANDRO
Ainda criança, antes de ser expulso de quatro colégios, ele era bom em redação — “ganhava todos os concursos”. Uma vez, escreveu sobre um menino que queria trabalhar na TV, teve a oportunidade de ir ao programa do Chacrinha, se destacou e ficou famoso. O texto se mostrou profético, “só que, em vez de com o Chacrinha, a chance veio com Silvio Santos”, conta Sérgio Mallandro, lembrando a participação, no início dos anos 1980, no programa Cidade contra cidade, quando sua espontaneidade rendeu o convite para estrear na TV. No ano seguinte, isso aconteceu de novo: Antônio Calmon, diretor de Menino do Rio (1982), o convidou para participar da produção, porque era o amigo extrovertido de André di Biase, ator principal do longa. “Sempre disseram que eu deveria trabalhar na televisão”, diz. O primeiro a despertar a vontade de Sérgio, aos 16 anos, foi outro ícone do meio: Chico Anysio. Eles se conheceram porque o rapaz trabalhava no local onde seria gravado um comercial com o personagem Coalhada — o jogador de futebol estrábico. Quando viu o adolescente se movimentar no estúdio, o humorista consagrado não teve dúvidas e fez um teste com ele em frente às câmeras. “Disse que eu era comunicativo, um talento, tinha jeito para a coisa. Acabei participando do comercial.” Na década de 1990, num reencontro entre os dois, Serginho foi convidado a participar da Escolinha do Professor Raimundo. Mas não interpretando um personagem. “O conselho do Chico foi: seja você mesmo, não mude, que vai dar certo. As pessoas gostam de você.” Vinte anos depois, o conselho continua sendo levado a sério. Serginho afirma que é sempre o mesmo, diante das câmeras ou longe delas. Serve para papéis no cinema, como o Bob de Lua de cristal, para sua participação em realities, como A fazenda, para o dia a dia com a família — que acaba de passar para a frente das câmeras, com o reality Vida de Mallandro, do Multishow. Na conversa depois de apresentar seu stand-up em BH, ele emenda as respostas com falas do texto apresentado horas antes. Solta um monte de ié-ié, salcifufu, glu-glu e ráaa, intercalados entre as frases e, muitas vezes, seguidos do tão característico abre e fecha das mãos, à altura do rosto. Confunde os entrevistados. Quem estaria à nossa frente: Sérgio Mallandro ou Sérgio Cavalcanti? A resposta tem tom de piada: “Não sei quem é o Cavalcanti, me esqueço dele. Se me chamam por esse nome no hospital, por exemplo, nem atendo”, garante, enquanto os entrevistadores continuam na dúvida.
BRUNO: VOCÊ AGORA ENCHE TEATROS COM SEUS SHOWS, RECEBE HOMENAGEM DE UNIVERSITÁRIOS. DE PERSONAGEM TRASH VOCÊ SE TRANSFORMOU EM ÍCONE CULT?
FIZ MUITA FESTA trash em São Paulo, participei de várias festas anos 1980, tenho uma banda, a Salcifufu, que canta músicas dos anos 1980, com fantasias de Sidney Magal, Gretchen. Cantamos ao vivo músicas da Blitz, RPM, Mamonas, é uma banda bem legal. E eu já vinha fazendo shows para os universitários, sou patrono de várias faculdades, sou patrono aqui na UFMG. SABRINA: VOCÊ SE LEMBRA DE QUANDO COMEÇARAM ESSES CONVITES?
A PRIMEIRA VEZ que me toquei disso foi no Largo São Francisco [faculdade de direito da USP]. Fui convidado para fazer uma palestra há uns cinco anos. Falei para o cara que me chamou: “Marca lá no dia 20”. Chegava no dia 15, eu falava: “Não vai dar para ir, brother”. Eu estava meio grilado, pedia para marcar dia 30, chegava dia 25 eu falava que não ia dar, até que o cara falou: “Tá grilado com o que? Os caras só querem te ver, eles gostam de você”. No dia que eu fui, a sorte é que eu tinha uma câmera dentro do carro: os caras vieram me pegar dentro do carro: “Hey, hey, hey, o Mallandro é nosso rei”. Eu tenho essa filmagem, entrando no Largo São Francisco lotado, aquela homenagem toda. Fiquei emocionado, os moleques cantando minhas músicas. Depois de 10 dias, pedi para o produtor ir lá saber o que eles tinham achado da minha ida. Pô, todo mundo falando: “Sérgio Mallandro é nosso ícone, é nosso mestre”. Fiquei muito emocionado, não sabia que eu representava tudo isso para esses universitários. Dali em diante, fui chamado para fazer show na [Faculdade] Casper Líbero, fizeram uma puta de uma homenagem para mim. Depois fui para várias faculdades no Brasil todo, fazendo shows para universitários. 75,