Agro Magazine ed.3

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EDIÇÃO 03 OESTE DA BAHIA MAIO/2012 R$ 9,99

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EXPORTAÇÃO EM DOBRO

Tecon Salvador investe R$ 240 milhões em equipamentos, tecnologia, pessoal; dobra a capacidade operacional do terminal e se prepara para receber as maiores embarcações do mundo

OUZA EDITORA

ARTIGOS

A PRÁTICA COLONIAL DO ABATE CLANDESTINO A ALTERNATIVA SUSTENTÁVEL DO CONTROLE BIOLÓGICO INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA REVOLUCIONA PRODUÇÃO NO CAMPO FILÉ DE TILÁPIA: COOPERATIVA DE PESCADO DE BARRA DÁ EXEMPLO

REVISTA

SECRETÁRIO DE AGRICULTURA EDUARDO SALLES DESTACA IMPORTÂNCIA DO AGRONEGÓCIO E INFRAESTRUTURA DE APOIO AOS PRODUTORES


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CAPA: RODRIGO TAGLIARO

EDITORIAL

ESSÊNCIA INALTERADA

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Bahia Farm Show chega a sua 9ª edição consolidada como uma das cinco maiores feiras de tecnologia agrícola do país. O complexo ocupa hoje apenas 10% de área total de abrangência, o que possibilita para os próximos anos um incremento de até 40% em expansão de estandes, parceiros e investidores. Para esta edição, realizada entre os dias 29 de maio e 2 de junho em Luís Eduardo Magalhães, nem mesmo a estiagem que castiga o estado e já é responsável por perdas significativas de produtividade, em especial nas culturas de soja e algodão, no Oeste, será empecilho para os negócios praticados durante a feira. Afinal, são eles que a movimentam. Os quatro bancos oficiais da feira - Banco do Nordeste, Desenbahia, Banco do Brasil e Bradesco - endossam o otimismo dos organizadores, motivados pelos bons preços das commodities e pela redução da taxa de juros. Os bancos disponibilizarão linhas do FNE, Pronaf/Agricultura Familiar e as linhas com recursos do BNDES (PSI Rural, Moderinfra e Moderagro), além dos financiamentos com recursos obrigatórios e próprios. Todos dizem esperar ultrapassar o volume de 2011 nos financiamentos. O agricultor do Oeste é inquieto quando se trata de tecnologia. Foi o uso estratégico delas, ao longo das últimas décadas, que permitiu ao cerrado baiano passar de uma região desacreditada para um dos grandes polos produtores do Brasil, líder em produtividade de soja, milho e algodão. A tecnologia, segundo o presidente da Aiba, Walter Horita, amorteceu os impactos da seca recente pela qual a região passou. Por essa razão, não há melhor vitrine para o produtor rural conferir e adquirir as novidades tecnológicas que a Bahia Farm Show. Boa leitura!

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TERMINAL EM EXPANSÃO

Tecon Salvador investe em equipamento e tecnologia e dobra capacidade de exportação

10 Coluna Helmuth Kieckhöfer

Abate clandestino (parte 2) 12 Entrevista Eduardo Salles, secretário de Agricultura do Estado 23 Empreendimento Cooperativa de pescado dá exemplo 26 Café Associação luta pelo reconhecimento internacional do grão negro produzido no Oeste 28 Agropecuária Sistema integrado de lavoura-pecuária revoluciona produção no campo 31 Seca Bahia sofre com pior estiagem em 47 anos 32 Fertilizantes Simpósio descute uso de adubos sintéticos 34 AgroAgenda Eventos voltados para a área em todo o país

Envie sua SUGESTÃO de reportagem para sousa.cfelix@gmail.com e antonroos@gmail.com Editor/Diretor de redação: Cícero Félix (DRT-PB 2725/99) (77)

9131.2243 e 9906.4554 sousa.cfelix@gmail.com

Ouza Editora Ltda.

Redação: Anton Roos, Cátia Andreia Dörr e Thiara Reges

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Consultoria técnica: Leonardo Costa dos Santos Comercial: Ana Paola (77) 9191.9400 / Anton Roos (77) 9971.7341 (Luís Eduardo Magalhães) Rosa Tunes (77) 9804.6408 / 9161.3797 (Santa Maria da Vitória Bom Jesus da Lapa) Anne Stella (77) 9123.3307 (Barreiras)

Av. Clériston Andrade, 1.111 - Sala 16 Centro - Barreiras (BA OUZA EDITORA

Revisão: Rônei Rocha e Aderlan Messias Impressão: Coronário Editora e Gráfica Tiragem: 4 mil exemplares

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AGRONOTAS ANTON ROOS

EXPORTAÇÃO: MILHO É PROTAGONISTA DA SAFRA 2011/12 NA REGIÃO OESTE

Walter Horita: “Você não pode parar de investir por causa de uma única safra” O presidente da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Walter Horita, confia que a edição 2012 do Bahia Farm Show vá pelo menos repetir os números da edição anterior, quando o volume de negócios superou a marca de R$ 570 milhões. “Os agricultores da região têm paixão pelo que fazem e não vão parar de investir em suas propriedades por causa de uma única safra. O investimento de hoje vai garantir as safras futuras”, disse em entrevista coletiva com os veículos de imprensa da região oeste, na terça-feira, 15 de maio, no Hotel Saint Louis em Luís Eduardo Magalhães. “Quem movimenta a feira são os produtores da região e não os de fora. Todos os contatos e cotações sobre preços de máquinas e novas linhas de crédito são feitos com antecedência. Existe planejamento em todas as etapas da produção”, explica Horita, sinalizando que a aparente queda de produtividade provocada pela má distribuição das chuvas principalmente entre janeiro e fevereiro na região não serão empecilho para o sucesso da feira, que este ano chega a sua nona edição.

A queda de produtividade da soja e algodão na região oeste fez do milho o grande protagonista da safra 2011/12. Este ano, o cereal produzido nas propriedades rurais da região será exportado pela primeira vez através do porto de Ilhéus. As operações com as tradings foram articuladas pela Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), que vê na exportação uma maneira de sustentar os preços ao produtor, na medida em que tira o excedente do mercado interno. Nos últimos anos, os produtores do cerrado baiano tiveram sérios problemas de remuneração, pois os preços do milho estavam sempre abaixo do preço mínimo estipulado pelo Governo Federal. A situação resultou em uma retração da área plantada, o que acaba sendo prejudicial já que a rotação de culturas, sistema que depende da participação do milho na matriz, é essencial para a sustentabilidade econômica e ambiental da região. Na safra 2011/12, a área plantada com milho no Oeste da Bahia cresceu 60%, impulsionada pelo preço da commodity que subiu, depois de anos de depreciação contínua. Com a boa safra no Brasil, que teve incremento de 15%, o receio dos produtores rurais é que os preços caiam abaixo do mínimo, que é de R$20,10 para esta safra. Assim, a exportação se tornou uma ótima opção para evitar o problema. “Com os preços da commodity em alta no mercado internacional e o câmbio favorável para a exportação, os primeiros embarques já estão balizando os preços no mercado doméstico”, explica o presidente da Aiba, Walter Horita. Quatro navios já foram negociados e um quinto está em fase final de tratativas. Esses primeiros lotes foram formados através de um pool de produtores coordenado pela Associação. O Oeste já tem tradição em exportar a soja e o algodão, cuja produção é 50%, em média, destinada ao mercado internacional. A região Oeste da Bahia é líder nacional em produtividade de milho. Enquanto no mundo se produz, em média, 86 sacas por hectare de milho, no Oeste colhem-se 155 sacas por hectare.

Livro sobre Agricultura de Precisão disponível para download Foi disponibilizada para download gratuito a obra “Agricultura de Precisão – Um novo olhar”, editado pelo pesquisador da Embrapa Instrumentação, baseada em São Carlos/SP, Ricardo Inamasu. O livro reúne 58 trabalhos apresentados na convenção da Rede de Agricultura de Precisão, realizada em novembro de 2011. Participam da Rede de Agricultura de Precisão cerca de 200 pesquisadores oriundos de 20 unidades da Embrapa, das cinco regiões brasileiras. A rede conta com apoio de mais de 50 parceiros de empresas, instituições de pesquisa e extensão, universidades além de produtores rurais e cooperativas. “O objetivo é difundir a agricultura de precisão no país, fundamentando o conhecimento por meio de trabalhos científicos e desenvolver tecnologias para que a agricultura brasileira seja cada vez mais competitiva e sustentável”, afirma o pesquisador. Link: www.macroprograma1.cnptia.embrapa.br/redeap2/publicacoes/publicacoes-da-rede-ap/capitulos

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REPRODUÇÃO

BNB apresenta opções de crédito para produtores de todos os portes na Bahia Farm Show O Banco do Nordeste do Brasil (BNB) espera aportar R$ 150 milhões de recursos em financiamentos, contemplando todos os produtos disponíveis e atendendo aos produtores de todos os portes na edição 2012 do Bahia Farm Show, entre os dias 29 de maio e 02 de junho. Em comparação a 2010, o volume de negócios apurados pelo banco em 2011 foi 20% maior. De acordo com o gerente geral da agência do BNB em Luís Eduardo Magalhães, Francisco Carlos Gomes da Silva, o banco vai levar para a feira linhas de crédito com juros e prazos diferenciados, para atender às necessidades dos mais variados

Nova variedade de sementes Oilema: garantia mínima de 95% de germinação Licenciada da Monsoy, empresa da Monsanto que produz e comercializa sementes certificadas de soja, a Sementes Oilema, fundada em 1998 e sediada em Luís Eduardo Magalhães, sempre se pautou pela produção de sementes de alta qualidade buscando a inovação para ajudar o produtor a aumentar sua produtividade. Pioneira no Brasil na comercialização da primeira semente totalmente pronta para o plantio (Oilema Supreme) e da primeira semente com rastreabilidade online, a empresa iniciou a produção fornecendo sementes para o plantio de 10 mil hectares e hoje produz sementes que germinam em mais de 300 mil hectares, nos estados da Bahia, Piuai, Maranhão, Tocantins e Mato Grosso. A nova variedade de sementes apresenta garantia mínima de 95% de germinação. “As sementes são tratadas com inseticida, fungicidas, inoculadas e polimerizadas, além de serem criteriosamente embaladas em embalagens de 200 mil sementes, que permitem o plantio de um hectare de lavoura de alto rendimento”, explica o engenheiro agrônomo Paulo Levinski, gerente comercial da empresa. A tecnologia da rastreabilidade online possibilita ao produtor o acesso a todos os dados do controle interno de qualidade da semente, tais como vigor (envelhecimento acelerado, teste de tetrazolio); germinação (em papel e emergência em canteiro com ou sem tratamento); PMS; tratamentos químicos, além das datas em que esses testes foram feitos. “Na prática, essa ferramenta propicia ao produtor fazer ajustes na regulagem fina de semeadura, com base no potencial específico de emergência de cada lote de sementes que recebeu em sua fazenda”, afirma Levinski.

REPRODUÇÃO

Paulo Levinski, Sementes Oilema

tipos de clientes. “Os produtos são formatados de maneira que satisfaçam as demandas de produtores de todos os portes. Além de disponibilidade de financiamentos para máquinas, implementos e acessórios, ofereceremos várias outras opções, como linhas de crédito para custeios, comercialização e investimentos de longo prazo”, diz o gerente geral. O BNB é o gestor exclusivo dos recursos do Fundo Constitucional para Financiamento do Nordeste (FNE). A política de atuação do banco também dá ênfase o apoio aos agricultores do Programa de Apoio à Agricultura Familiar (Pronaf).

Imagem área da edição 2012 da feira

AGRISHOW FECHA ACORDO DE INTERCÂMBIO COM ARGENTINA O presidente da edição 2012 da Agrishow, Maurílio Biagi Filho, assinou um termo de cooperação com Emília Williams, representante da EXPOAGRO Argentina. O acordo, segundo Biagi é o primeiro passo para a internacionalização da feira, que este ano chegou a sua 19ª edição. “Teremos um estande na feira argentina e a EXPOAGRO terá um estande em nosso próximo evento”, disse, na coletiva de encerramento no dia 04 de maio. Entre as três maiores feiras do setor de agronegócios em todo o mundo, e já tem data definida para

2013. O evento acontecerá de 29 de abril a 03 de maio. O volume de negócios praticado na 19ª AGRISHOW (Feira Internacional da Tecnologia Agrícola em Ação) superou as expectativas dos organizadores, atingindo a casa dos 2,15 bilhões de reais. Cerca de 152.000 visitantes compradores estiveram na feira realizada anualmente em Ribeirão Preto, interior de São Paulo conferindo as ofertas de produtos com as mais modernas tecnologias e soluções para pequenas, médias e grandes propriedades.

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AGRONOTAS Fundação MT promove segunda edição de Encontro Técnico

“ASSOCIAR AGRICULTURA À DESTRUIÇÃO DE MATAS É DEPLORÁVEL”, DIZ PROFESSOR E PESQUISADOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Após a aprovação do texto do novo Código Florestal Brasileiro no Congresso Nacional intensificou-se uma campanha desmedida nas redes sociais, exigindo que a presidente Dilma Rousseff assuma uma postura de veto ao texto. Em artigo, Marcos Favas Neves, professor titular de planejamento e estratégia na FEA/USP Campus Ribeirão Preto e coordenador científico do Markestrat, crítica essa postura e a falta de conhecimento daqueles que defendem o veto. Confira trecho do texto: “Associar a agricultura e o desenvolvimento do agro à destruição de matas foi uma deplorável mas vencedora estratégia, que maculou a imagem nacional e internacional do principal setor econômico do país, responsável por US$ 100 bilhões em exportações. O Código Florestal é similar a um processo de planejamento para uma organização. Após ampla discussão, o processo termina, aprova-se e coloca-se em marcha.

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Agora é sancionar, implementar e iniciar os debates para corrigir e continuamente aprimorar. Aos que aderiram à inovadora campanha “Veta Dilma” na empolgação das mídias sociais, opiniões de artistas, intelectuais, empresários e ONG’s, fica o aprendizado de sempre ler, estudar e perguntar sobre o assunto a quem é do ramo, antes de aderir à onda, para depois não se arrepender do ímpeto. Ver a vergonha que hoje passam os apocalípticos do aquecimento global. Deve-se vetar os que desrespeitam quem acorda cedo e enfrenta todas as adversidades para plantar, produzir, industrializar e colocar comida boa e barata nas mesas dos brasileiros e que financiam, com os alimentos exportados para as mesas estrangeiras, as importações dos equipamento digitais usados na campanha. O agro não precisa derrubar uma árvore sequer para triplicar a produção de alimentos”.

Pesquisadores da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso, Fundação MT estarão em Luís Eduardo Magalhães no dia 05 de junho para apresentar as informações da safra 2011/12. O II Encontro Técnico acontecerá no auditório do Hotel Saint Louis. Superar obstáculos: desafio contínuo é o tema do evento. “A atividade no campo é muito dinâmica e exige de cada profissional uma postura de compromisso e responsabilidade diante das adversidades. Ter informação para enfrentar os entraves é a principal ferramenta para quem quer ter excelentes resultados de produtividade”, afirma Fabiano Siqueri, pesquisador e gestor de Marketing e Relacionamento da Fundação MT. Na programação, a discussão de temas como clima, doenças, pragas, cultivares e mercado são alguns dos temas a serem apresentados no evento.


PESQUISAS DIVULGAÇÃO

Na primeira imagem, o inseto predador; na segunda, cigarrinha combatida com o fungo Metarhizium anisopliae

&FITOSSANIDADE

Controle biológico: alternativa de agricultura sustentável por ELCIO BARILI

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preocupação da humanidade com o meio ambiente cresceu muito nos anos 90, principalmente após a “ECO92”, Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Na agricultura não foi diferente, principalmente aquela praticada durante muitos anos no Brasil e considerada como uma agricultura predatória e danosa ao meio ambiente. Como toda atividade que envolve o meio ambiente a agricultura sustentável, termo que define as ações humanas que visam suprir as necessidades atuais dos seres humanos, sem comprometer os recursos naturais está diretamente relacionada ao desenvolvimento econômico e material sem agredir o meio ambiente e usando os recursos naturais de forma inteligente. Acompanhando estes parâmetros, a agricultura do Oeste baiano, tendo por base os municípios listados pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) para incentivo a atividades econômicas ambientalmente sustentáveis no bioma Cerrado como Barreiras com (235.390 ha), Formosa do Rio Preto (402.095 ha), LEM (221.847 ha) e São Desidério (475.101 ha) de áreas com culturas

agrícolas anuais, objetiva o alcance da sustentabilidade na agricultura. Alternativa para que esse objetivo seja alcançado é uma técnica moderna e menos agressiva que a utilização de defensivos agrícolas: o uso de microrganismos no controle de pragas nas lavouras, chamado controle biológico, que ocorre naturalmente nos ecossistemas. Através dos tempos, o homem descobriu como manipular ou manejar esses inimigos naturais para uso na agricultura, daí surgiu o Controle Biológico Aplicado como uma biotecnologia baseada na utilização de recursos genéticos microbianos, insetos predadores e parasitoides para o controle de pragas, especialmente os insetos e ácaros fitófagos, nos sistemas de produção agrícola. No século III, os chineses se valeram da predação de formigas (Oecophylla smaragdina)

Elcio Barili é biológo elcio@elonatural.com

para o controle de pragas de citros, marcando o início da história do uso do controle biológico de pragas agrícolas. Todavia, somente no século XX é que o controle biológico passou a ser objeto de pesquisas constantes para sua implantação de forma mais presente e intensiva nos ecossistemas agrícolas. O controle biológico se utiliza de microrganismos como os fungos Trichoderma spp., Metarhizium anisopliae, Beauveria bassianai e Paecilomyces lilacinuns, encontrados de várias formas para sua aplicação no mercado, sendo estes bactérias e vírus disponibilizados por algumas empresas situadas na região Oeste da Bahia. Esta técnica se utiliza de inimigos naturais, ou seja, o microrganismo usado para o controle é lançado no agroecossistema visando reduzir a população da praga presente. Este inimigo natural funciona como um defensivo agrícola, com a vantagem de ser biológico. No Brasil existem vários casos de sucesso usando o controle biológico, tais como para o controle da lagarta-da-soja e do mandarováda-mandioca, cigarrinhas-das-pastagens, cigarrinha-da-cana, percevejo-de-renda-daseringueira, cupins, lagartas, broca-da-cana, pulgões-do-trigo, percevejos-da-soja, traçado-tomateiro, minador-dos-citros, cochonilhada-mandioca e nematoide. No Oeste baiano, muitas propriedades rurais já utilizam o controle biológico, usando principalmente algumas espécies de fungos para esse fim, aplicados como um método complementar aos agrotóxicos no manejo integrado de pragas. Todavia, a tendência é aumentar consideravelmente a prática do controle biológico na região, atendendo às demandas mundiais pela utilização de práticas agrícolas menos agressivas ao meio ambiente, uma vez que em comparação ao controle químico, o controle biológico tem as seguintes vantagens: protege a biodiversidade, maior especificidade e, portanto, com menor risco de atingir organismos nãoalvos, não deixa resíduos tóxicos em alimentos, água e solo e diminui o custo do produtor, uma vez que tende a ser mais barato que os agrotóxicos. No entanto, ainda há muito que fazer para garantir que toda a área agricultável do Oeste baiano seja coberta pelas práticas e princípios da sustentabilidade na agricultura aplicando o controle biológico em grande escala de forma a proporcionar um rendimento maior e colheitas mais abundantes e saudáveis. MAI/2012

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PRODUÇÃO E CONSUMO

por HELMUTH KIECKHÖFER

Abate clandestino:

uma prática do Brasil colonial

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Helmuth Kieckhöfer é médico veterinário e doutor pela Universidade de Hannover (Alemanha)

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PARTE 2

ando sequência a abordagem iniciada na edição passada, passamos a discussão do abate clandestino no país e na região, falando dos prejuízos causados por esta prática, primeiramente à saúde pública, uma vez a população ficar vulnerável e exposta a um grande risco de doenças transmitidas pela carne clandestina. Outro fator relevante é a sonegação fiscal. Os municípios deixam de recolher uma quantia significativa de impostos que poderiam ser aplicados no desenvolvimento regional e transformados em benefícios da população. A gravidade da prática ilegal também causa enormes prejuízos ao meio ambiente. Um bovino adulto gera mais de 95 kg de dejetos sólidos e líquidos. Quando estes dejetos são lançados em rios e córregos, sem tratamento, causam um impacto ao meio ambiente, de tal forma, que podem modificar a fauna e flora da região. A ilegalidade do abate clandestino atinge cifras assustadoras. Existe uma estimativa que em 2010 foram abatidos 977 mil bovinos clandestinamente, o que representa 45,6% de todo o abate de bovinos no Estado da Bahia. Mesmo que estes números relativos sejam contestados, com alguns percentuais para cima ou para baixo, a situação é muito preocupante. Estes dados são válidos apenas para bovinos, pois quando se analisa a cadeia produtiva da carne ovina e caprina estes números são mais assustadores ainda. Estima-se que 90% dos ovinos e caprinos são abatidos clandestinamente no Estado da Bahia. Dados do IBGE (2011) mostram que o rebanho de ovinos da Bahia é de 2.679.200 cabeças e o percentual do abate com Serviço de Inspeção Federal (SIF) em relação ao rebanho foi de apenas 2,4% no mesmo ano. Os dados do SIF apontam piora nos últimos dois anos para o abate de ovinos inspecionado. Em 2008, o Estado da Bahia abateu 20,4 mil ovinos e em 2009 e 2010, respectivamente 5,8 mil e 3 mil ovinos. Enquanto o rebanho ovino aumenta no Estado, o abate com SIF diminui. Um serviço informatizado poderia dar maior suporte nas informações e assim seria possível estimar o abate clandestino de outras espécies como caprinos, suínos e aves.

Estes números interferem e desequilibram a saúde financeira da indústria da carne, que legalmente constituída, precisa operar de forma correta, tanto nos aspectos sociais, econômicos e ambientais. A indústria inspecionada pelo Serviço de Inspeção Estadual (SIE) e SIF, é auditada constantemente e mantém um médico veterinário que é responsável pela fiscalização da saúde dos animais que chegam ao frigorífico. Esta fiscalização rigorosa garante a produção de carne com qualidade, condenando os animais doentes e enviando as carcaças com alterações patológicas para a fabricação de farinha de carne. A indústria frigorífica tem a responsabilidade de colocar alimento seguro na mesa do consumidor, porém as despesas operacionais são muito elevadas. O setor emprega um grande contingente de mão de obra e tem elevadas despesas com energia elétrica e transporte. O crescente aumento do abate clandestino significa um retrocesso, pois aumenta a concorrência desonesta, aumenta a ociosidade da indústria, mostrando que podemos estar perto de um colapso no parque industrial da carne no Estado da Bahia.


Quais são os órgãos responsáveis pela fiscalização do local, transporte, comercialização e sonegação do abate clandestino? Muitos problemas da clandestinidade vão além das tradicionais explicações baseadas no hábito do consumidor em comprar a carne quente, oriunda de animais recém-abatidos. Uma delas diz respeito a capacidade de cumprimento das leis e normas estabelecidas, derivado de problemas de moral e idoneidade de alguns proprietários de açougues e feiras que mantém este sistema ativo e o outro está diretamente relacionado à falta de infraestrutura do sistema público em manter uma fiscalização efetiva e duradoura. Também é de conhecimento de todos, que o pecuarista se aproveita do sistema. Ao vender os seus animais de descarte na frente da porteira da chácara, sítio ou fazenda, tem plena consciência de que eles estão sendo conduzidos para o abate clandestino. Quem compactua com este sistema, também é cúmplice. A fiscalização compete a vários órgãos como: Ministério Público, por intermédio das promotorias e o Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Defesa do Consumidor (CEACON), Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB) ligado a Secretaria da Agricultura do Estado, Prefeituras Municipais através da Agência de Vigilância Municipal, Secretaria da Agricultura e do Meio Ambiente, Polícia Rodoviária Federal, Policia Militar e Rodoviária Estadual, Polícia Civil, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), PROCON, Secretaria da Fazenda dos Municípios e Estado, entre outros.

Um mecanismo muito eficiente e que funciona em muitos países, é a participação efetiva da sociedade, que se torna um importante instrumento de fiscalização. A sensibilização da população para a gravidade do problema vai permitir um maior número de denúncias, revelando os locais de abate clandestinos e os respectivos pontos de venda.

Mas afinal, existe solução para o problema? Sim, porém não podemos mudar facilmente a cultura de um povo atrelada a seus hábitos e costumes. O que podemos é educá-los para que esses hábitos e costumes os levem a mudanças que impliquem na melhoria da qualidade de vida e a preservação da saúde. Portanto, a educação sanitária é o ponto de partida para solucionar o problema. A Secretaria de Educação poderia inserir no calendário letivo, um programa de educação sanitária para todas as escolas do Estado da Bahia. Este programa seria desenvolvido na forma de palestras, atividades e trabalhos, denominada de “Semana da Saúde e Educação Sanitária”, premiando os alunos que apresentarem os melhores trabalhos. A indústria da carne teria a obrigação de apoiar e financiar parte do evento. Quanto ao impacto econômico e social que envolve o pequeno produtor, poderia ser solucionado através da constituição de cooperativas. No sistema de cooperativa, o volume pequeno de produção é fortalecido pela soma de todos os produtores. Existem entidades como o SEBRAE, que auxiliam e orientam os produtores a constituírem cooperativas. Porém, é necessário que exista um maior interesse coletivo dos produtores, que pode ser incentivado pelos sindicatos rurais e apoiado pelos órgãos governamentais. Também seria extremamente necessário e urgente aumentar a capacidade de recursos humanos nas regiões emergenciais que precisam de maior fiscalização. Para isto, é necessário oferecer a devida infraestrutura para realizar o serviço. Às vezes, o órgão dispõe do veículo, mas não do combustível. Neste sentido, os prefeitos municipais poderiam dar maior apoio e agir com maior rigor. Em alguns municípios, principalmente por questões sociais, os prefeitos se isentam de atitudes punitivas. Esta postura gera grande constrangimento para a ADAB, pois logo após a apreensão de carne clandestina, os açougueiros recorrem aos prefeitos para solicitar um relaxamento da fiscalização. Para finalizar, é necessário um controle rigoroso e informatizado dos certificados que são emitidos para o transporte de animais vivos e os seus subprodutos. Se não houver mais dúvidas sobre a procedência dos animais e os seus subprodutos e qual o seu verdadeiro destino, será muito mais fácil fiscalizar toda a cadeia da carne no Estado da Bahia. É fundamental fiscalizar os estabelecimentos que comercializam carnes e derivados e exigir a nota fiscal. Desta forma, poderemos saber de onde vem a carne que consumimos na Bahia.

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ENTREVISTA

EXPECTATIVA DE RECORDE NAS

EXPORTAÇÕES

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e janeiro a abril deste ano, a participação da Bahia na exportação de produtos foi superior a US$ 3,3 bilhões, o que representa um aumento de 16,94% no comparativo com o ano de 2011, números expressivos ante as dificuldades de escoamento da produção pelas rodovias, a impossibilidade de navegação nas águas do Rio São Francisco e os impasses na construção da Ferrovia Oeste / Leste. Em entrevista a Agro Magazine, o Secretário de Agricultura do Estado da Bahia, Eduardo Salles, destaca a participação do agronegócio na economia estadual, ressaltando as propostas de melhoria na infraestrutura de apoio aos produtores. meses de 2012 (janeiro a abril) já estamos acumulando valores de US$ 1,154 bilhão, 8% superior ao que foi exportado no mesmo período do ano passado.

por REDAÇÃO

Qual a importância do agronegócio na pauta de exportações da Bahia? A participação do agronegócio em 2011, representou 43% do total exportado pelo Estado que foi de US$ 11,01 bilhões. Isso equivale a quase metade da exportações, mostrando que o agronegócio baiano mantém importante destaque na pauta de exportações baianas. Já no cenário nacional, a Bahia está entre os sete maiores agroexportadores do país (SP, PR, RS, MT, MG, SC), respectivamente. Mesmo com a valorização do real frente ao dólar, o agronegócio baiano acumulou mais um recorde na sua Balança Comercial em 2011, ano bastante promissor e de recuperação para o setor agrícola, depois do ‘estouro’ da crise internacional. Com resultados históricos nas principais variáveis: as agroexportações geraram divisas em torno de US$ 4,68 bilhões, beneficiadas pela valorização das cotações das commodities agrícolas que seguiram firmes no mercado internacional. O baixo valor relativo do dólar costuma estimular as importações; em 2011, estas ficaram em torno de US$ 682 milhões, registrando um crescimento de 15,5% em relação aos valores do ano anterior. A participação do agronegócio nessa variável é mínima, atingindo 8,7% do total importado pelo Estado somando US$ 7,7 bilhões. Estes resultados contribuíram para um superávit comercial agrícola de US$ 4 bilhões, que representa um crescimento de 27,2% em relação a 2010. A expectativa para esse ano é de novo recorde nas exportações do agronegócio do Estado, considerando que nos 4 primeiros

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Como o senhor avalia os esforços comerciais do Tecon Salvador para a retenção da carga de algodão, fruta e café? É sempre muito positivo todos os esforços para que os produtos baianos possam ser exportados pelos portos e aeroportos do nosso Estado. Todos os investimentos públicos e privados no sentido de melhorar o escoamento da produção estadual, tanto para o mercado interno, como externo (como é o caso) são bem-vindos e muito aguardados. Os gargalos na infraestrutura logística de modo geral precisam ser vencidos no Brasil todo, na Bahia não é diferente. No entanto, as obras estruturantes que estão em andamento no Estado e os investimentos de empresas privadas, como o TECON sinalizam que estamos atentos ao crescimento da nossa produção e que é preciso acompanhar esse aumento com investimentos em modernos modais para garantir agilidade no comércio exterior. Em 2011, a Bahia deu um grande passo com a conteinerização da soja. O senhor acredita que essa nova alternativa irá impulsionar a participação de produtores e/ou cooperativas no comércio exterior? À medida que os resultados forem sendo divulgados e provarmos na ponta do lápis que é uma alternativa econômica, certamente os produtores poderão se organizar e em conjunto experimentar a conteinerização. Os custos de escoamento ainda são altos para o nosso produtor, e à medida que


Eduardo Salles

ANTON ROOS

Secretรกrio de Agricultura do Estado da Bahia

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iniciativas como esta forem dando certo, naturalmente vão acontecer adesões a essa modalidade. Essa é uma tendência no mundo todo, uma opção moderna que proporciona benefícios como redução no custo do frete e maior facilidade para rastrear a mercadoria. Essa operação traz boas vantagens, tanto aos produtores, quanto aos compradores, pois cria a possibilidade de realizar exportação em lotes parcelados, não sendo necessário fechar vendas de grandes volumes. Além de facilitar a logística de distribuição, pode proporcionar embarques semanais já que não há exigência de carga mínima para a operação em contêiner, que pode ser concluída em até 12 horas. Isso amplia as opções de negócios, amplia o acesso a mercados alternativos. Qual a importância para o estado do escoamento da carga baiana pelo Terminal de Salvador? O Porto de Salvador tem expressiva participação no comércio exterior, movimentando mais de 5 milhões de toneladas de carga por ano. De tudo que o Estado exportou em 2011, para os mais de 140 países que comercializaram nossos produtos o equivalente a 11 bilhões de dólares, 94,2% saíram por via marítima, 3,1% por transporte aéreo e 1,7% por rodovias. No entanto, nem todo esse volume, que sai pelo modal marítimo, sai pelos portos baianos, felizmente são só 26% que vão para outros Estados. Os três portos baianos movimentaram em torno de US$ 7,6 bilhões no último ano, sendo que o Porto de Salvador lidera com US$ 3,8 bi, seguido do Porto de Aratu US$ 3,6 bi e US$ 173 mi pelo Porto de Ilhéus. A Bahia é o segundo maior produtor nacional de algodão, que tem hoje a maior produtividade do mundo. Em 2011, embarques de algodão foram realizados. Quais foram os principais pontos positivos da operação? Até 2010, apenas 1% da produção baiana de algodão era exportado pela Bahia. As estatísticas mostram que o escoamento ainda é feito, majoritariamente, por Paranaguá e Santos, porém, em 2011 chegamos à exportar 755 containers de algodão, alcançando aproximadamente 10% do volume exportado. Sem dúvidas, é um avanço significativo e importante para a cadeia produtiva do algodão o que reflete positivamente na receita gerada para o Estado da Bahia e também uma economia para o bolso dos produtores. A Seagri, recentemente promoveu um encontro do Terminal de Contêineres de Salvador com representantes, associações, cooperativas e produtores de café no 13º Agrocafé. Quais as vantagens de proporcionar essa relação entre cliente e prestador de serviço? Esse relacionamento, essa aproximação é importantíssima. Mostra que os ‘players’ da exportação percebem a importância do setor agrícola, e tem todo o interesse em entender e buscar soluções e alternativas para que os nossos produtores possam exportar pelos portos baianos, economizando com a logística de mandar seus produtos para os portos do sudeste

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do país. Todos os esforços para manter o escoamento da carga baiana pelos portos da Bahia são positivos. Porém, precisamos buscar sempre diminuir o custo logístico que fica sempre na conta do produtor agrícola. É necessário que os players da logística invistam, modernizem-se, qualifiquem-se e ofereçam serviços de qualidade em que os dois lados possam ganhar. Acompanhamos as excursões da Seagri ao continente asiático, principalmente à China, que hoje se consagra como um mercado promissor. A expansão do terminal de contêineres de Salvador facilita a atração de novos investimentos para o estado? Sem dúvida que sim. O continente asiático nos interessa muito, tem crescido muito e temos feito as aproximações com o Japão, Coreia do Sul, e principalmente China (onde instalamos um Escritório de Negócios em Pequim, em parceria com a Apex Brasil). Todos esses países têm interesses em produtos do agribusiness brasileiro e baiano. Foi muito positivo para o governo da Bahia e os empresários asiáticos, quando o Tecon anunciou a nova rota marítima Bahia – Ásia. Este é um exemplo de parceira importante entre o governo e a iniciativa privada que uniram esforços para buscar novos mercados, prover o porto com infraestrutura, garantindo acessibilidade marítima com a dragagem do canal de acesso e ampliação do terminal que agora permite a operação de embarcações de grande calado e acessibilidade terrestre com as obras da Via Expresso Baía de Todos-os-Santos, que irá aumentar a competitividade dos produtos baianos. Aos poucos, as restrições operacionais vão ficando para trás com novos investimentos e na aposta da Bahia como grande produtor e exportador de produtos agropecuários. De que forma projetos como a ferrovia Oeste/Leste, Porto Sul e a hidrovia do São Francisco poderão contribuir no escoamento da produção e no desenvolvimento da agricultura na Bahia? O Estado está estrategicamente localizado em relação aos principais mercados do mundo, permite um fácil acesso a

Todos os investimentos públicos e privados são bemvindos e muito aguardados. Os gargalos na infraestrutura logística de modo geral precisam ser vencidos no Brasil todo. Na Bahia não é diferente


ENTREVISTA todos os principais centros de atividades econômicas através de estradas que interligam toda a Bahia e esta ao resto do país. O sistema ferroviário é constituído por três troncos principais com uma extensão total de 1.900 km, dispõe ainda de três portos, Salvador, Aratu e Ilhéus, dois aeroportos internacionais Salvador e Porto Seguro e sete de porte nacional: Ilhéus, Canavieiras, Caravelas, Valença, Lençóis, Juazeiro e Paulo Afonso. Sabemos que possuímos gargalos e precisamos ampliar, modernizar e abrir novas alternativas; é por isso que o Governo abraçou a maior obra de infraestrutura do Estado dos últimos 60 anos. Certamente os novos investimentos previstos para ampliar e melhorar a infraestrutura, a exemplo da FIOL – Ferrovia de Integração Oeste /Leste, que estará integrada ao Complexo Porto Sul e o investimento na Via Expresso (em Salvador), permitirão melhores e mais econômicas opções de escoamento da produção agrícola que cresce a cada ano, com safras recordes. A Fiol é uma obra histórica, vai ligar o litoral ao cerrado passando pelo sertão baiano numa extensão de 1.026 km, um investimento de R$ 7 bilhões, criando 20 mil empregos. Já está em construção o primeiro trecho que vai de Ilhéus, no litoral, até Caetité (grande polo de produção de minérios), logo serão iniciados o segundo e o terceiro tronco que vai até Barreiras no Oeste (maior polo graneleiro do Estado e um dos que mais crescem no Brasil, por ela serão escoados a soja, algodão, milho, café etc). De Barreiras ela segue para o Estado do Tocantins onde se liga a Ferrovia Norte-Sul, ampliando as possibilidades de escoamento e criando novo ciclo de desenvolvimento por onde passar. A Bahia é o maior produtor de guaraná do Brasil, e grande parte da produção é para abastecimento do mercado interno, principalmente Manaus. Acredita que a cabotagem é mais atrativa que o transporte rodoviário? A questão do nosso guaraná é o que mais nos incomoda. O Estado é realmente o maior produtor do Brasil, e nós não temos uma fábrica para processar e agregar valor ao produto. O que ocorre é que os produtores vendem o guaraná ao preço de R$ 10,00 o quilo, daí então o produto segue para Salvador onde é embarcado em navios para Belém e depois em barcos para Manaus, chegando finalmente a Maués, onde existe planta industrial. O guaraná é processado e vendido a R$23,00. Transformado em xarope, o produto volta para a Bahia como se fosse produzido no Amazonas. O dinheiro que deveria ir para o bolso do produtor acaba ficando na logística. Estamos trabalhando para agregar valor a essa cadeia produtiva, tentando atrair uma indústria para o Estado. Com relação à cabotagem, esse modelo de transporte é certamente o mais atrativo para essa questão do guaraná realizado entre os portos brasileiros de Salvador, Belém e Manaus, uma grande distância para ser percorrida por rodovias e pela inexistência de malha ferroviária que possa ligar as duas regiões. No entanto, ainda gostaria de ver esse comércio ser vencido, vendo os dois lados ganhando o lado industrial e o lado produtivo. Vamos trabalhar para tornar esses dois atores parceiros!

Ano passado, a Bahia extinguiu a zona tampão consolidando o certificado de zona livre de febre aftosa. É possível que o Estado se destaque em âmbito nacional como grande exportador de carne? A certificação de Zona Livre de Febre Aftosa com vacinação, foi concedida pela Organização Internacional de Epizootias (OIE), em maio de 2001, o que credenciou o Estado como um potencial polo exportador de carne bovina. Esse fato favoreceu a atração de investimentos e de novas plantas industriais frigoríficas, tais como, BERTIM - Itapetinga, que recebeu certificação do Ministério da Agricultura para exportar carnes para o Chile e Oriente Médio, além de outras, que estão se instalando no Estado. A Bahia vem acompanhando o avanço do país no cenário internacional, e tem se destacado como importante polo de produção agropecuária, ocupando hoje a primeira posição no Nordeste (detendo 40% do rebanho de bovinos da região) e a 6ª posição no ranking nacional, com 10.790 milhões de cabeças, havendo maior concentração no Extremo Sul e Sudoeste do Estado. Temos todas as condições de abrigar novas plantas frigoríficas adequadas à exportação de carnes haja vista que a Bahia, através da ADAB, dispões de um dos mais respeitados serviços de inspeção sanitária que garante a qualidade dos produtos para o mercado interno e externo, estamos trabalhando constantemente para isso! Quais ações a Seagri está implementando para a inserção de outras culturas, como charuto e produtos da agricultura familiar, no mercado externo? Montamos na Superintendência de Atração de Investimentos um núcleo internacional para pensar e organizar ações voltadas à promoção internacional e com isso participamos de feiras internacionais, montamos missões institucionais e empresariais com o objetivo de atrair novos investimentos e promover os produtos do agribusiness baiano como o fumo, frutas, café , vinho, algodão, cachaça, chocolate etc. Já fomos à China, Itália, França, Nova Zelândia, Portugal, Coreia do Sul, Emirados Arábes e México com a intenção de mostrar nossos produtos e a qualidade deles muitas vezes certificadas em concursos nacionais e internacionais. A principal ação foi a instalação do Escritório de Negócios da Bahia em Pequim na China que funciona nas dependências do CN Pequim da Apex Brasil, é o ‘pé’ da Bahia na Ásia, o que demonstra aos investidores nosso interesse em estar perto, facilitando as informações, dando agilidade no atendimento e nos encaminhamentos para a melhor tomada de decisão do empresário em vir para a Bahia com seu investimento. Com o trabalho de promoção internacional para atração de agroinvestimentos, a Bahia despertou o interesse de outros países, que enviaram representantes ao Estado para visita de aproximação e contato com a SEAGRI. Recebemos visitas dos Embaixadores da Nova Zelândia, Cuba e Rússia, diversas delegações da China, reflexo das Missões da Bahia àquele país e outros representantes e empresários da Itália, Coreia do Sul, França, Rússia, Holanda, México etc. Essa ação internacional ainda renderá muitos frutos para a Bahia!

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Soluções em Defensivos, Sementes, Nutrição e Comercialização O

lhando além da porteira em busca das soluções certas para melhorar a produção e comercialização das lavouras de seus clientes, a Uniagro, empresa fundada em 2006, com sede em Luís Eduardo Magalhães, dispõe de uma ampla linha de insumos e serviços agrícolas da mais alta qualidade e tecnologia.

Desde o ano passado a empresa está em um novo e moderno escritório, além de dois depósitos com área total de 1.500 m2 para o armazenamento adequado dos insumos comercializados entre seus clientes. Isto tudo, seguindo o padrão ambiental exigido pela lei, da linha de sementes, defensivos agrícolas e adubos foliares. “A Uniagro tem como principal objetivo manter a plena satisfação dos seus clientes, a qual considera a locomotiva para o crescimento conquistado e o crescimento futuro”, explica Paulo Augusto Gondim, um dos sócios da empresa. Desta aposta em um atendimento diferenciado brota a certeza que a Uniagro, ao longo dos últimos seis anos, vêm contribuindo para a produtividade e sustentabilidade do agronegócio praticado no Oeste baiano. A linha de nutrição da Uniagro confirma essa tendência. “Possuímos soluções em nutrição de plantas, com uma linha de produtos diferenciada e específica para cada cultura. Contamos também com uma equipe técnica para assessorar o produtor desde a amostragem de solo até o momento da colheita. Desenvolvemos um trabalho com vários produtores da região e estamos sempre de braços abertos para analisarmos, juntos, a melhor alternativa para a lavoura”, comenta Wallas Moreira de Queiroz, Especialista em Nutrição & Fisiologia Vegetal. A Uniagro possui sementes de gramíneas da Matsuda (incrustadas e tratadas com fungicidas) para realização de sistema santa fé e de implantação de pastagens,

PRODUTOS Defensivos

Sementes

Foliares

Nufarm Arysta Nortox Ouro Fino Sipcan

Agroeste Aurora Matsuda

Arysta Biolchim Oxiquímica

livres de Nematoides, Mofo-Branco e ervas daninhas, além de variedades de Semente de Milho Agroeste (Monsanto ) com elevado teto produtivo . Em dezembro de 2010, a Uniagro iniciou uma parceria com a Unibarter, empresa de consultoria e assessoria de comercialização de commodities agrícolas, o que alavancou ainda mais seu leque de serviços. Dispondo de contratos com grandes multinacionais de defensivos agrícolas e revendas de insumos em vários estados brasileiros, a Unibarter tem como especialidade a comercialização desses insumos através do Barter, ou seja, a troca de insumos por commodity. Na Bahia, além das operações de Barter estruturadas com a Uniagro, a Unibarter oferece assessoria personalizada para contratação de seguro de preço para soja, milho, algodão, café e câmbio para produtores rurais. Em contrapartida, a alta volatilidade de preços no mercado de commodities resultantes dos fatores de demanda, oferta, econômicos e políticos trazem a necessidade de um melhor planejamento de todos os envolvidos na cadeia do agronegócio. Sendo assim, tanto a Uniagro, como a Unibarter estão atentas e buscam, cada vez mais, atender a necessidade dos produtores para gerenciar todos os possíveis riscos inerentes ao negócio. Seja da “porteira para dentro” como da “porteira para fora”.


INFORME PUBLICITÁRIO

TORPED Organomineral

UNIAGRO Av. Luís Eduardo Magalhães Qd 01 Lotes 15 e 16 Vereda Tropical - Luis Eduardo Magalhães (BA) Telefone: (77) 3628-5288

UNIBARTER www.unibarter.com.br


RODRIGO TAGLIARO

CAPA

TERMINAL EM

EXPANSÃO

TECON SALVADOR INVESTE R$ 240 MILHÕES NA COMPRA DE EQUIPAMENTOS, TECNOLOGIA E CAPACITAÇÃO, DOBRA A CAPACIDADE OPERACIONAL DO TERMINAL E SE PREPARA PARA RECEBER AS MAIORES EMBARCAÇÕES DO MUNDO

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rrendado em 2000 em uma concessão de 25 anos renováveis por igual período, o Tecon Salvador, operado pelo “Grupo Wilson, Sons” já investiu cerca de R$ 240 milhões na compra de equipamentos, tecnologia e capacitação profissional. Em 2010, após o aditivo ao contrato com a Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba) iniciou sua expansão. 44 mil m² de área foram adquiridos e estão sendo pavimentados, totalizando 118 mil m² de pátio e, atualmente com os 2 berços, o terminal está apto a operar 2 navios simultaneamente. Com os novos investimentos, o terminal dobra sua capacidade e já está preparado para receber as maiores embarcações do mundo. No último dia 30 de março, os novos equipamentos construídos na China e entregues em dezembro de 2011 entraram em operação, são três portêineres Super Post-panamax e seis RTGs. Além dos novos equipamentos, o terminal aumentará o número de tomadas para contêineres reefer para 684. Estas implantações fazem parte do investimento de R$ 180 milhões na ampliação da capacidade operacional do Tecon Salvador. O cais Água de Meninos atualmente opera com 3 portêineres Super-Post Panamax, tem 377 metros de berço e com a dragagem concluída, aguarda a homologação do calado de 15 metros. O cais de ligação, equipado com 3 portêineres Panamax, possui berço com 240 metros de comprimento e calado de 12 metros, tornando-se o cais

preferencial para cabotagem. O modal, que vem recebendo grandes investimentos do terminal, apresenta grande potencial de crescimento no país, e além de ter o custo mais baixo que o transporte rodoviário, é uma alternativa sustentável e mais segura. Os grandes investimentos no terminal já atraíram o interesse de novos armadores. A NYK Lines, já confirmou o início das operações para este mês do serviço ANS com escala direta para a costa leste dos Estados Unidos. O destino foi responsável por grande parte das exportações realizadas através do Porto de Salvador no ano passado, correspondendo a 28% do volume. De acordo com o terminal, armadores estão em negociação com o departamento comercial para incluir Salvador em novos serviços diretos para o norte da Europa, com o objetivo de transportar as frutas do Vale do São Francisco, e escalas para o Extremo Oriente, principal comprador do algodão e grãos produzidos no oeste da Bahia. “Nos próximos meses teremos um terminal completo, moderno e operacionalmente ágil. Com os novos equipamentos a produtividade do terminal aumentará em 40% em relação ao ano passado, e com o fim das obras nossa capacidade mais que dobrará. Estamos avançando junto à economia baiana, e temos capacidade de absorver toda a demanda do estado em importações, exportações e cabotagem”. Afirma Demir Lourenço Junior, diretor executivo do terminal.”

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CAPA

O Porto de Salvador sofreu nas últimas décadas com a fuga de cargas baianas para outros portos do país. Em 2000 este cenário começou a mudar, quando a Wilson, Sons venceu a licitação para o arrendamento do Tecon Salvador. As ações começaram de imediato e o terminal já acumula 637% de crescimento de movimentação desde o início das operações. Ao longo dos últimos anos, o Tecon vem realizando ações e eventos nos principais polos produtores para reforçar com os embarcadores as vantagens das exportações pelo porto da capital baiana, e continua seus esforços em 2012. A Bahia, segundo maior produtor de algodão do país, exportava até 2010 sua safra através de portos de outros estados, principalmente em razão da falta de linhas marítimas direto para o continente asiático, principal importador. Para solucionar este gargalo, o Tecon Salvador aumentou os esforços comerciais para atrair novos serviços. As iniciativas obtiveram resultados positivos e em maio de 2011 foi inaugurado um novo serviço marítimo para atender a demanda. Outra commodity que está no radar da equipe comercial é a exportação de frutas cultivadas no vale do São Francisco, um dos principais polos produtores do Brasil. Segundo Patrícia Iglesias, gerente comercial do Tecon Salvador, um constante trabalho é realizado com os armadores e exportadores para maximizar o escoamento da produção pelo porto baiano. “Em 2011, estivemos presente mais uma vez na Feira Nacional da Agricultura Irrigada (Fenagri), evento de agronegócio mais importante da região e em 2012 também confirmamos presença. Estamos investindo em estrutura para receber essas cargas, ao final das obras, serão mais de 650 tomadas, e o Tecon Salvador se destacará como a melhor opção de exportação.” Afirma. Com o objetivo de aumentar significativamente o escoamento do café baiano, que, das 40 mil toneladas produzidas, mais de 50% é exportada via outros portos. O terminal vem realizando encontros técnicos com produtores, no intuito de entender, desenvolver atividades e interagir de forma mais eficaz nas necessidades específicas da área 20

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HECKEL JUNIOR

Investimentos para atrair cargas baianas

Demir Lourenço Junior e Patrícia Iglesias receberam o Secretário da Agricultura da Bahia e Engenheiro Agrônomo, Eduardo Salles (centro)

e, com isso, vem colhendo resultados positivos neste segmento. Em março desse ano, Demir Lourenço Junior e Patrícia Iglesias receberam o Secretário da Agricultura da Bahia e também Engenheiro Agrônomo, Eduardo Salles, participaram juntos de uma reunião com produtores e representantes de cooperativas e associações no 13º Simpósio Nacional do Agronegócio Café (Agrocafé). A finalidade do encontro consistia em desenvolver estratégias com o objetivo de ampliar as exportações do insumo pelo Porto de Salvador. Para suportar a demanda e oferecer serviços interligados ao negócio, o Tecon Salvador implantou uma estrutura que contempla armazém e maquinário próprio para o recebimento, estocagem e estufagem do grão. A ação constava no escopo do projeto de ampliação e modernização do terminal. Outro ponto favorável a Salvador é de ordem logística e financeira. A proximidade com o porto traz vantagens competitivas aos produtores, como redução do tempo de trânsito, menor custo do frete rodoviário, além de diminuir os riscos de acidentes, roubo de carga e avarias.


FOTOS: RODRIGO TAGLIARO

CABOTAGEM No segmento de cabotagem, o Tecon já trabalha junto aos armadores para atrair para o modal marítimo parte das mercadorias que são transportadas por rodovias. A operação traz várias vantagens como redução de custos, maior segurança e diminuição da emissão de dióxido de carbono. “Estamos investindo para apresentar às empresas vantagens financeiras, mas ainda há uma grande resistência. Equipamos o cais de ligação e a partir de junho ele atua preferencialmente para cabotagem. Atualmente o modal representa 35% das movimentações do terminal.”conclui Demir.

NOVOS NEGÓCIOS Há cerca de um ano, o terminal iniciou operações de conteinerização de commodities tradicionalmente exportadas por navios graneleiros. A primeira força de trabalho se concentrou em atrair a soja, e em agosto de 2011, os primeiros embarques teste do grão foram escoados por Salvador. Os principal ponto positivo é a possibilidade da segregação e rastreabilidade dos grãos não transgênicos, assegurando a entrega de soja 99,5% livre de contaminação transgênica. Outra vantagem da operação é a possibilidade de atender o mercado varejista, que possui demandas menores e optam por maior frequência, reduzindo os investimentos em estoque e limitando o envolvimento de intermediários. O oeste do estado, conhecida pela produção e exportação de soja, algodão e café, começa a exportar também o milho. A região, que é o maior produtor nacional e principal pólo abastecedor da commodity para o mercado interno, terá, pela primeira vez, seu excedente destinado ao mercado internacional. De acordo com Patrícia, o mercado para commodities conteinerizadas é bastante amplo e tem crescido muito. “Há uma nova demanda a ser estudada. Na safra deste ano, houve um aumento de 60% de área plantada e um crescimento no preço do produto. Colhem-se mais sacas de milho no oeste do estado que a média mundial, e com o câmbio favorável à exportação, o milho produzido na Bahia inevitavelmente será destinado às exportações. Para acompanhar e prever as mudanças do mercado estruturamos o setor de Inteligência de Mercado a fim de observar e analisar o setor com o propósito de apresentar soluções ágeis e rentáveis à esses produtores. Cotações para o escoamento destas carga através de contêiner já vem sendo desenvolvidas”.

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EMPREENDIMENTO

C.FÉLIX

FOME DE DESENVOLVIMENTO COOPERATIVA EM BARRA ESTABELECE META DE PRODUÇÃO DE TILÁPIA E DÁ EXEMPLO DE COMPETÊNCIA, PLANEJAMENTO E DEDICAÇÃO por C.FÉLIX

Atualmente, Barra Pescado produz 3,5 toneladas. A meta é chegar a 11 até o final de 2013, explica o técnico do projeto João Batista

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Rio Grande nasce em São Desidério, no Oeste, e sai em ziguezague até Barra, no Médio São Francisco baiano. Considerado um dos maiores afluentes da margem esquerda do “Velho Chico”, antes de se misturar às águas que vêm banhando Bom Jesus da Lapa e Ibotirama o Rio Grande se espalha e forma lagoas. São berçários naturais povoados por socós, garças, tucunarés, matrinxãs, pacus e, principalmente, por tilápias criadas em tanquesrede pela Barra Pescado (Cooperativa dos Piscicultores, Pescadores e dos Produtores Rurais da Agricultura Familiar de Barra). Dali saem, em média, 3,5 toneladas por mês dos cerca de 150 tanques. Mas é pouco. A meta é chegar a 11 toneladas até o final de 2013 com alguns ajustes técnicos e a ativação de mais tanques, que deve totalizar 220. “Hoje, o peixe não está dando nem pra abastecer Barra”, conta Walter Rodrigues dos Santos, 37 anos, filho e neto de pescador. Ele é um dos fundadores e presidente da cooperativa. “Do jeito que o peixe do rio está escasso, não tem pra onde correr: pra que o peixe do rio não acabe, é criar outro peixe. A gente se preocupa com isso”, decla-

ra Santos, demonstrando estar atento a duas questões: ambiental (esgotamento da capacidade de pesca no rios e oceanos) e legal (proibição da pesca na época da reprodução e outras restrições, como a pesca de arrasto, com tarrafa). “Se a gente vir alguém pescando assim na lagoa, denuncia. Num pode não”. A Barra Pescado reúne 28 cooperados, entre aquicultores e pescadores. Mas muito mais gente é beneficiada pela cooperativa, principalmente depois que ela acrescentou na razão social “produtores rurais da agricultura familiar”. Assim, outras associações puderam também comercializar seus produtos com a prefeitura, através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). O governo federal exige que 30% dos recursos transferidos para o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) sejam utilizados na aquisição de gêneros alimentícios da agricultura familiar, do empreendedor familiar rural ou de suas organizações. O detalhe é que o vendedor é obrigado a emitir documento fiscal. A mudança no nome da cooperativa foi providencial para todos. O filé da tilápia vai estar na merenda escolar novamente este ano. MAI/2012

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EMPREENDIMENTO

A COOPERATIVA A cooperativa foi criada em 2007 para dar continuidade a um projeto piloto com 12 tanques-rede que vinha sendo desenvolvido por um grupo de 60 pescadores e auxiliado pelo Sebrae, prefeitura de Barra, Bahia Pesca (Seagri) e Codevasf. A produção chegou a ser vendida para a Conab (instituição vinculada ao Ministério da Agricultura), através do Programa de Aquisição de Alimento (PAA), mas logo o número de participantes caiu para 17. O Sebrae continuou com as consultorias e elaborou um projeto para captação de recursos junto ao Banco do Brasil. Com o projeto aprovado e financiamento garantido, a cooperativa foi fundada. O prédio foi construído e equipamentos, três barcos motorizados, 220 tanques-rede, câmara frigorífica e computadores adquiridos. No início, o filé de tilápia era pouco aceito no mercado barrense e a cooperativa teve que reduzir a produção, explica o técnico agrícola João Batista. “A gente tá fazendo algumas mudanças, alguns ajustes necessários e fundamentais. Tivemos algumas dificuldades e problemas com fornecedores de alevinos. A mortalidade teve alta”, explica. A cooperativa chegou a perder 30% com a mortalidade entre o transporte e a aclimatação (8 dias) do alevino. Hoje, a perda chega no máximo 10%. Em geral fica em torno de 5%. Por mês, a cooperativa compra 30 mil alevinos (R$ 75,00 cada milheiro), que rende 22 toneladas de peixe. Até chegar ao peso médio de 800g para o abate, (geralmente feito pelo choque térmico com gelo e água para estender o rigor mortis), a cooperativa tem um custo estimado de R$ 3,10 por quilo. É um processo que dura seis meses, período no qual a tilápia passa por três tanques-rede com malhas de 5mm, 10mm e 19mm. A tilapicultura em tanques-rede foi uma das melhores alternativas para gerar emprego e renda e aproveitar os recursos naturais da região de Barra. “Nós somos privilegiados aqui. A lagoa oferece todas as condições técnicas para a produção do peixe”, explica Batista. Para se chegar à lagoa é preciso atravessar o Rio Grande e navegar por 1,5 km por um estreito canal até chegar ao criatório, que tem cerca de 350 mil peixes entre “mamando e caducando”. A cooperativa tem licença ambiental provisória, renovada frequentemente. “De vez em quando chega fiscalização pra ver como está: se tem lixo, sacolas, se a ração é correta. Só se pode usar a flutuante. Se não for, polui”, relata Santos.

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FOTOS: C.FÉLIX

Acima, Walter Rodrigues dos Santos, presidente da Barra Pescado, ressalta que a lagoa do Rio Grande, considerada um ‘berçário natural’, tem as condições ideais para criação da tilápia


SAIBA MAIS A tilápia tem origem africana, foi introduzida no Brasil na década de 1940 e tida como uma praga em meados 1970, conforme estudo setorial do Sebrae-CE de 2009. Com sabor suave e agradável, ela acabou conquistando o paladar, mostrando sua versatilidade na cozinha e se tornou a espécie mais cultivada no território nacional. De 1995 para 2010, a produção de tilápia passou de 30 mil para 155 mil no país. O panorama da aquicultura no Brasil apresentado em boletim de 2010 pelo Ministério da Pesca mostra que a produção continental tem crescido mais do que a marinha. Em 2008, a continental representava 77,2% do total, contra 22,8% da marinha. Em 2010, os números foram atualizados para 82,3% e 17,7%, respectivamente, acentuando a diferença entre uma produção e outra e refletindo o crescimento de investimentos na produção do pescado em cativeiro, em especial na tilápia.

No início, o mercado resistiu ao filé de tilápia. Depois, conquistou o paladar do consumidor e hoje já está até na merenda escolar

“A lagoa é praticamente um berçário natural. Tem todo padrão: profundidade, circulação de água (correnteza), oxigênio, temperatura. Eu diria que os pontos mais importantes são o oxigênio e a temperatura. O oxigênio depende da circulação da água. E aqui a gente não tem esse problema. Agora, se colocasse os tanques no meio do Rio Grande o primeiro problema era o alto índice de mortalidade. A correnteza demais estressa o peixe. A tilápia é muito sensível ao estresse”, explica Batista. No entanto, apesar de todas essas condições favoráveis, a lagoa apresenta um fenômeno que prejudica a produção do pescado duas vezes ao ano: em maio e agosto. Nesse período, a temperatura da água varia muito e a mortalidade aumenta, variando entre 10% e 15% no ciclo todo. Nos demais meses do ano a situação é estável. O faturamento bruto mensal da cooperativa é de R$ 22 mil. Cada cooperado tira R$ 250, valor que pode chegar até R$ 400, dependendo do mês. Não é muito, mas já é uma renda. Também não é um trabalho fixo. Cada sócio trabalha 9 dias por mês e nos plantões. Ou seja, sobra muito tempo para todo mundo desenvolver outras atividades. A divisão é feita após a retirada de reserva para o pagamento do empréstimo. Restam ainda três parcelas anuais de R$ 50 mil para cessar a dívida. Com isso, a renda de cada deve chegar a R$ 700. “Se a gente já tirasse 8,5 toneladas por mês dava pra tirar essa média. Por semana tiramos 800kg. Isso deveria ser por dia. A câmara frigorífica tem capacidade para 1,5 mil quilos. Por dia, dá pra processar mil quilos. Então o que produzimos é pouco. O projeto foi elaborado para produzir 12 toneladas mensais. E isso está dentro do nosso plano de ação. E não é um sonho. É uma meta”, enfatiza Batista. Mas, aumentar a produção e não ter comprador não adianta nada. Um dos maiores entraves para o crescimento da cooperativa é a aquisição do selo de inspeção, que avalia a qualidade da produção de alimento e chancela sua comercialização em supermercados, por exemplo, e exportação para outros estados e países. Há muita burocracia e o Ministério da Agricultura é mais exigente quando o estabelecimento está em área urbana, reclama Batista. “Pra se conseguir uma estrutura do tamanho da nossa, é preciso algo em torno de R$ 200 mil. O que precisamos é reformar, adequar a cooperativa. O que travou foi a falta de recursos. A gente já recorreu a Codevasf – que é um grande parceiro nosso! – para fazer um projeto descritivo, com planta e tal. O projeto está lá há um ano e não foi concluído. Vamos ter que pagar a um engenheiro pra fazer. Porque quando tem um edital, qualquer chamada pública, a gente entra. Em outubro do ano passado perdemos um edital de chamada de uma entidades sem fins lucrativos e não-reembolsável no valor de R$ 250 mil. O nosso projeto casa certinho com o que o edital pedia. O cara ligou ainda mas o projeto não estava pronto”. Apesar da falta do selo, aos poucos a cooperativa vem ganhando musculatura. Em 2009, conseguiu um caminhão baú através da Fundação Banco do Brasil. Na época, eles incentivavam a cadeia produtiva do caju (no Piauí), do mel (também no Piauí e agora aqui na Bahia) e do artesanato. A partir de um encontro de piscicultores da região realizado pela cooperativa em 2008, os técnicos da fundação acabaram conhecendo o projeto e firmando o convênio para a compra do caminhão. “O convênio vai até 2014. Não é reembolsável, mas a gente presta contas através de relatórios e, vez por outra, vem o pessoal do banco monitorar o projeto. O baú foi um benefício e tanto. A falta de transporte – e adequado! – era um problemão. Já tá surtindo efeito. O consumo da tilápia aumentou. A aceitação no mercado era de 8%, apenas. Hoje já é de 30%. Agora só falta o selo”, diz Batista. MAI/2012

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CAFÉ CÁTIA ANDREIA DÖRR

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VALOR FECHANDO QUASE DUAS DÉCADAS DO INÍCIO DA PRODUÇÃO DE CAFÉ NO CERRADO BAIANO, ENTIDADE TRABALHA PARA TORNAR O GRÃO NEGRO DA REGIÃO RECONHECIDO MUNDIALMENTE por CÁTIA ANDREIA DÖRR

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esponsável, hoje, por 12% do mercado internacional da bebida, o café brasileiro movimentou somente no ano de 2011 quase U$$ 9 bilhões nas exportações do agronegócio. Para a safra 2012/13, que iniciou no mês de abril e atinge o pico de colheita em junho, o setor calcula uma colheita aproximada de 50 milhões de sacas. Ainda que recente, a produção da commodity no cerrado baiano registra um acréscimo de 100 mil sacas, comparada a colheita passada. De acordo com dados da Associação dos Cafeicultores do Oeste Baiano (Abacafé) a área total chega a 15.532 hectares em cultivo. Levantamento técnico aponta para uma produção de 569.089 sacas, o que representa a média regional de 43 sc/ha em uma área produtiva de 13.234 hectares. “Atualmente, a produção de café é comercializada sob o patamar médio de R$ 360, 00 a saca”, conta o diretor executivo da entidade, Ivanir Maia. O estudo indica que o município de Barreiras possui a maior área de cultivo com 5.306 hectares, seguido de Luís Eduardo Magalhães (4.285 ha), São Desidério (3.415ha) e 2.526 hectares em Cocos. Diferentes da maioria das culturas, o café, a partir do seu oitavo ano de produção passa pelo processo de renovação. “No 8º, 9º ano de produção a planta do café necessita de uma intervenção, ou seja, uma poda drástica ou leve, o que faz com a planta reduza o seu ciclo produtivo, voltando em seu estágio normal no ano seguinte. Por isso, o número de área de cultivo não será o mesmo de produção”, esclarece Ivanir. Nesta safra, do total da área, 1.030 hectares estão em fase de formação e 1.268 em processo de renovação. 26

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INDICAÇÃO GEOGRÁFICA Assim como a Indicação Geográfica (IG) dos vinhos do Vale dos Vinhedos, localizado na região da serra gaúcha, a Abacafé tem atuado junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) no registro do café da região oeste da Bahia (Convênio 755097/2010). O registro emitido pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), órgão responsável pela concessão, reconhece a reputação, o valor e a identidade própria da origem, além de distinguir o produto em relação aos seus similares disponíveis no mercado. Entre os itens avaliados, estão as características naturais, como solo, vegetação, clima e humanas (história e o modo de preparo). Com característica aromática levemente frutada e floral, com excelente doçura e acidez, o café arábica é o único produzido na região, responsável por um quarto da produção do Estado da Bahia. Cultivado sob condições de clima com temperaturas médias que variam entre 22 e 26 ºC, e sem riscos de geadas, nem interrupções no desenvolvimento do cafezal durante o ano, o arábica é reconhecido pelo sabor agradável.


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AGROPECUÁRIA

SINERGIA NA

PRODUÇÃO SISTEMA DE INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA ADOTADO NO OESTE VERTICALIZA A PRODUÇÃO DE CEREAIS COM A CARNE BOVINA E CONTRIBUI NA REDUÇÃO DO DESMATAMENTO

por CÁTIA ANDREIA DÖRR

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FOTOS: COLABORAÇÃO INGBERT DÖWICH

dotado de forma espontânea no sul do Brasil, o Sistema Integração Lavoura-Pecuária (ILP) chama atenção pelas vantagens que apresenta com a exploração econômica do solo durante o ano todo, favorecendo o aumenta na oferta de grãos, de carne e de leite a um custo mais baixo devido a sinergia entre a lavoura e a pastagem. Para o engenheiro agrônomo e Presidente da Associação de Plantio Direto no Cerrado, Ingbert Döwich, o volume insuficiente de chuvas da região oeste da Bahia para o cultivo de grãos somou para a implantação do Sistema, em meados de 2002, quando produtores adeptos ao Plantio Direto, vislumbraram na integração um

incremento de receita em seus empreendimentos sem prejuízo da qualidade do Plantio. Porém, com o baixo valor de mercado da arroba do boi gordo, os crescentes bons preços dos cereais e a falta de plantas frigoríficas para abate dos animais, muitos produtores começaram a se desestimular a prosseguir com o sistema. “Atualmente, o sistema vem sendo adotado por produtores pecuaristas visando reformar pastagens degradadas com produção de grãos e mesmo a produção de grãos como alternativa de renda ao pecuarista”, comenta Döwich. De acordo com o especialista, o principal objetivo da ILP está na verticalização da produção, ou seja, produzir cereais ou fibra associado a carne em uma mesma área. “Se considerarmos as áreas como um todo, o agricultor adota a ILP como fonte de renda adicional ao seu negócio, ou seja, uma safrinha de carne sem irrigação. Assim, verticaliza a produção otimizando o uso da terra sob seu

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BENEFÍCIOS E IMPLANTAÇÃO Uma das vantagens da Integração Lavoura-Pecuária (ILP) está na mitigação do desmatamento e na alta capacidade de sequestro de gases de efeito estufa. É possível produzir carne e leite nas áreas de soja, milho e algodão sem necessidade de desmatar novas áreas de cerrado BENEFÍCIOS DO SISTEMA DE INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA & Maior produção de forragem na seca; & Fornecimento de nutrientes para a pastagem; & Facilita a troca de espécie forrageira; & Aumento da produtividade da pastagem; & Redução nos custos de implantação da pastagem; & Possibilita expandir a produção de grãos sem a necessidade de novas derrubadas de floresta; & Aumento da renda com a atividade rural; & Reduz a compactação do solo; & Promove o controle da erosão; & Quebra os ciclos de pragas e doenças; & Aumento da matéria orgânica no solo; & Redução no assoreamento dos cursos d’água;

domínio, reciclando nutrientes aplicados nas culturas principais e quebrando ciclo de pragas e doenças”, destaca o especialista. Para ele, a grande vantagem da ILP também está na mitigação do desmatamento e na alta capacidade de sequestro de gases de efeito estufa. “Podemos produzir carne e leite nas áreas de soja, milho e algodão sem necessidade de desmatar novas áreas de cerrado”, enfatiza. Ainda, segundo o engenheiro agrônomo, no vale, o pecuarista adota o sistema como forma econômica de amortizar os custos da reforma das pastagens degradadas, a produção de grãos para comercialização ou suplementação alimentar ou mesmo a produção de silagem para engorda de gado de corte ou produção de leite. “Neste caso, a cultura mais utilizada é o sorgo, devido sua alta tolerância a veranicos e custo relativamente baixo de semeadura”, complementa. Sobre os impactos do sistema da Integração Lavoura-Pecuária na produção de bovinos, Ingbert, que há 11 anos estuda o sistema no Oeste baiano, explica que é possível elevar a lotação de animais de 0,5 UA (unidade animal = 450 kg) para 1,5 a 2,5 UA, dependendo da época do ano e da forrageira implantada no sistema. “Áreas de milho consorciadas com braquiárias chegam a receber 3,0 UA de junho a setembro (época em que os animais então prontos para abate). Se houver alguma complementação com proteinado, esses animais chegam a ganhar 1.260 g/dia. Sempre que conseguirmos acima de 700g/dia os animais abatidos irão apresentar boa cobertura de gordura em suas carcaças. Por outro lado, nas áreas de sorgo consorciadas com braquiária, essa lotação fica em torno de 2,0 UA, com bom ganho de peso dos animais, que quando complementados atingem 1.165g/ dia. Outro aspecto interessante é o menor consumo de suplemento mineral dos animais, pois a forragem é mais equilibrada do que aquela das pastagens tradicionais”, complementa.

COMO IMPLANTAR UM PROJETO DE INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA

PASSO 1

Fazer diagnóstico da propriedade

PASSO 2

Elaborar planejamento

PASSO 3

Elaborar projeto

PASSO 4

Implantar, acompanhar e avaliar

FONTE: INTEGRAÇÃO LAVOURA PECUARIA: CARTILHA DO PRODUTOR. SDC - BRASÍLIA, ABRIL 2007

PIONEIRA NO SISTEMA Há oito anos os irmãos Regis e Clóvis Ceolin implantaram o Sistema Interação Lavoura-Pecuária na propriedade de 10.000 hectares, localizada no município de São Desidério. Atualmente, 1/3 da área de plantio da Fazenda Santo Antônio, pioneira do Sistema no oeste da Bahia são destinadas para a ILP. Neste ano, com a área de milho consorciado, a família pretende engordar de 8 a 10.000 cabeças de gado de corte, além da implantação de um novo manejo. “Este ano estamos experimentando um novo sistema, de não levar o gado a pastagem e sim trazer a pastagem a ele, por meio de corte da matéria no campo e confecção de rolos de feno, ofertados no confinamento”, conta Ceolin. Os bons resultados atingidos após a implantação da ILP iniciaram com uma pequena quantidade de gado de cria, relata o pecuarista. “Iniciamos com umas 600 cabeças, num espaço de 300 ha de pastagem permanente, em uma área de plantio de 6.000 ha de lavoura. Foi aí que vimos a oportunidade da ILP, usando a reserva de lavoura de milho consorciado com brachiaria”, explica o produtor. No início, o grande desafio era a inexperiência com o sistema e a dúvida sobre seu sucesso. Hoje, Regis não tem receio em afirmar que o método se paga por si próprio. “Temos observado inúmeras vantagens na lavoura, como o controle de ervas daninhas, controle do mofo branco, reciclagem de nutrientes do solo e aumento de matéria orgânica, sem falar na oportunidade de se fazer uma safra do boi, agregando uma nova e importante receita a propriedade sem necessitar de uma área específica para a produção bovina”, destaca o pecuarista, que intercala a boa produtividade com a rotação de cultura, com a soja, milho consorciado com braquiária (ruziziensis ou piatã) e algodão. MAI/2012

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SECA

ESTIAGEM DISTRIBUIÇÃO IRREGULAR OS BONS ÍNDICES DE CHUVA ATÉ DEZEMBRO NÃO FORAM SUFICIENTES PARA GARANTIR UMA PRODUÇÃO AGRÍCOLA DA REGIÃO. A BAHIA PASSA AGORA PELA PIOR SECA DAS ÚLTIMAS QUATRO DÉCADAS

por ANTON ROOS

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seca na Bahia, pior das últimas quatro décadas já fez com que 239 municípios do interior decretassem situação de emergência. De acordo com um balanço feito pelo governo do estado, aproximadamente 2,7 milhões de pessoas foram afetadas. O impacto negativo da estiagem afetou diretamente a produção agrícola, independente se para os pequenos agricultores de cidades do semiárido ou nas grandes propriedades rurais produtores de soja, milho e algodão da região oeste da Bahia. “A estiagem está sendo muito severa. A distribuição das chuvas foi muito irregular. Entre novembro e janeiro, as chuvas mantiveram as médias, mas o problema foi que depois de fevereiro tivemos pouca chuva”, avaliou Walter Horita, presidente da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba). A falta de chuva deve provocar perdas entre 10% e 15% na produção de soja e algodão na região. Em Irecê, noroeste do estado, quase toda produção de milho, feijão, sorgo e mamona no fim de 2011 foi perdida. As áreas de exploração agrícola mais recentes, localizadas na região de transição entre a caatinga e o cerrado da Bahia, são as que estão sofrendo mais severamente os efeitos da estiagem. Baianópolis, Cocos, Correntina e Jaborandi são alguns dos municípios mais atingidos. Nessas áreas, a média de perda chega até 80% na produção da soja. A oleaginosa é geralmente a primeira cultura introduzida nas áreas recém-abertas de cerrado e, por isso, reflete em maior grau o problema. “Se pensarmos no total cultivado na região Oeste, isso não representa muito. Essas localidades somam cerca de 70 mil hectares, o que não dá nem 5% de toda área de cultivo da região”, explica Horita.

A área plantada com soja na região somou 1,15 milhão de hectares na safra atual (2011/12), um aumento de 9,5% ante os 1,05 milhão da temporada anterior. Mas a produtividade deve cair para 47 sacas por hectare, um recuo de 16% sobre as 56 sacas do período 2010/11. Com isso, a produção da oleaginosa no oeste baiano, que foi de 3,5 milhões de toneladas no ano passado, deve recuar 7,1% e somar 3,25 milhões de toneladas. “É preciso que se diga que estes números são comparados à safra anterior, que foi recorde de produtividade nas três culturas. Isso é uma demonstração de que a aplicação de alta tecnologia na agricultura é um grande mitigador de risco climático”, completou o presidente da Aiba. Segundo o Instituto Somar, até o final de maio não havia previsão de chuva significativa para as regiões mais afetada pela estiagem no Oeste baiano. As precipitações que ocorreram no período, em especial em Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, não foram suficientes para acabar com o problema. MEDIDA DE CONTENÇÃO Com intuito de minimizar os impactos da seca no estado, o governo da Bahia fechou parcerias com o governo federal e empresas privadas para a abertura de poços artesianos, inclusive recuperando os já existentes e fazendo a manutenção daqueles que não estão com a estrutura ideal. Também está em construção um novo sistema de captação de água destinada especialmente aos 247 municípios afetados pela seca. Segundo Salvador Brito, coordenador da Defesa Civil, o governo inaugurou uma adutora do projeto de Água do Sertão que já está em funcionamento, abastecendo o município de Cícero Dantas e outras cidades. Estão em construção mais duas adutoras, que devem estar prontas até o final do ano e beneficiarão os municípios de Guanambi e Caetité, no sudoeste, onde as perdas nas lavouras de algodão ultrapassaram os 70%. Outro recurso emergencial é a distribuição de água por meio de carros-pipas, também utilizados para distribuição de cestas básicas às pessoas ameaçadas de risco de segurança alimentar. Brito disse que há municípios nos quais até 100% da safra e do rebanho podem se perder em decorrência da falta de água. “Os criadores estão perdendo seu rebanho e outros estão vendendo a qualquer preço para não deixar morrer. O governo também está ajudando no abastecimento da ração, mas não é suficiente”. MAI/2012

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FERTILIZANTES

SAÍDA ESTÁ NOS FERTILIZANTES SIMPÓSIO REALIZADO EM LUÍS EDUARDO MAGALHÃES LEVANTA DEBATE SOBRE USO ADEQUADO DOS ADUBOS SINTÉTICOS COMO FORMA DE AUMENTAR A PRODUTIVIDADE

por ANTON ROOS

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s fertilizantes, diferente do que pensam os defensores mais xiitas do meio ambiente, não são um veneno para o solo. Embora a palavra tenha ganhado conotação pejorativa, sua utilização é de fundamental importância para o aumento da produtividade nas lavouras de todo país. Foi justamente com o propósito de disseminar as boas práticas no uso de fertilizantes, que o Internation Plant Nutrition Institue (IPNI) do Brasil, seValter Casarin, diretor do IPNI: “As diado em Sorocaba (SP), promoveu, entre pessoas, de modo geral, não sabem os dias 15 e 16 de maio, simpósio sobre o que para termos um aumento da tema em Luís Eduardo Magalhães. produção, precisamos do uso de Sem fins lucrativos, o IPNI se dedica à fertilizantes. É a função deles” gestão responsável dos nutrientes primários – Nitrogênio (N), Fósforo (P) e Potássio (P) –, secundários e micronutrientes. O instituto tem escritórios na América Latina, do Norte, China, Índia e Sudeste Asiático. “Precisamos olhar mais para o interior, onde estão as fronteiras agrícolas. Isso nos ajudará a obter mais conhecimento prático daquilo que acontece no campo. Às vezes a gente acumula muito conhecimento acadêmico e deixa a prática de lado”, explica Valter Casarin, engenheiro agrônomo, diretor adjunto do órgão, ressaltando a importância de trabalhos como este, desenvolvidos pelo IPNI país afora. Antes de Luís Eduardo, o simpósio sobre boas práticas no uso de fertilizantes passou por Sorriso (MT) e Maringá (PR). A manutenção de um sistema produtivo adequado, a partir da aplicação de técnicas pode auxiliar a classe produtora a aumentar a ação dos insumos agrícolas. “É possível aperfeiçoar os recursos, os produtos, as tecnologias que estão aí para contribuir com o produtor que quer plantar e colher de forma sustentável e rentável. Isso é possível, basta que o produtor tenha em mãos as ferramentas e informações corretas”, defende Casarin. “Quando

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olhamos para o índice de aproveitamento médio de nutrientes pela agricultura brasileira, é possível verificar que estamos em um patamar muito superior a países onde a agricultura é até mais desenvolvida”, comemora. A título de exemplificação, na Bahia, o índice de aproveitamento de Nitrogênio (N), por exemplo, é de 71,8%. O que os produtores rurais precisam é aliar produção com uso adequado dos fertilizantes. Isso inclui utilizar a quantidade e qualidade certa dos insumos na lavoura, manejar o solo corretamente e fazer uso eficiente dos adubos com respeito ao meio ambiente e às pessoas. “Os fertilizantes respondem por 40 a 60% da produção atual e global de alimentos. Isso representa uma enorme contribuição para a sociedade” observa. “O caminho para a correção do solo está nos fertilizantes”, complementa. No entanto, um dos grandes entraves, segundo o diretor do IPNI, diz respeito à relação entre nutrientes e fertilizantes e a falta de conhecimento de parte da opinião pública a respeito do uso correto destes materiais. “Quando se fala em aplicação de nutrientes no solo, a opinião pública adora; porém, quando é o contrário a crítica é sempre muito feroz”, conta. Em muitas regiões do país, a população acredita que a soja, o leite ou o feijão saiam de dentro dos supermercados e não do campo como de fato, do trabalho rural. “As pessoas, de um modo geral, não sabem que para termos um aumento da produção, precisamos do uso de fertilizantes. É a função deles”, explica, lembrando que caso semelhante acontece com a adubação mineral e orgânica, no que se refere ao uso de química para adubação. O engenheiro cita estudo encomendando pelo American Journal of Clinical Nutrition, que concluiu não haver evidências que os alimentos produzidos organicamente são nutricionalmente superiores aos alimentos produzidos do modo convencional, ou com uso de fertilizantes. Na África e na Índia onde a utilização de fertilizantes é muito baixa, a produção é menor, o que agrava o problema da fome, uma vez a população nesses países aumenta gradativamente. Na Europa, explicou Valter, a produção aumenta, enquanto a população permanece estável. “A fome do mundo, no futuro próximo, vai se concentrar na África e na Índia”, aponta, lembrando estudo que atesta que até 2050 haverão 9 bilhões de habitantes no mundo e esse é o considerado como o teto no que se refere a possibilidade de produção alimentar do planeta. Muitos alimentos para as plantas podem ser encontrados no solo, mas, geralmente, em quantidades insuficientes para sustentar as altas produtividades das culturas. Solo e condições climáticas podem também limitar a absorção de nutrientes pela planta nas fases fundamentais de crescimento.


&OPINIÃO

Agronegócio e (TI) Tecnologia da Informação, a união que dá certo por ELCIO BARILI

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om o aumento da competitividade no campo e o dinamismo do agronegócio, as empresas do setor agrícola vêm sendo forçadas a buscar mais eficiência e constantes aumentos de produtividade, tendo a necessidade de uma gestão mais apurada, de informações rápidas e precisas para tomadas de decisão. Porém, poucas investiram e investem em tecnologia da informação e em técnicas de gestão. No entanto, as rigorosas exigências relativas à qualidade por parte dos mercados importadores, bem como a chegada ao mercado brasileiro de companhias multinacionais, que têm uso intensivo de TI, são fatores que estão contribuindo para que se comece a investir mais em tecnologia no campo. Dependendo de onde se olhe, a resposta pode variar de “uso intensivo de sistemas de última geração” a “desconhecimento quase completo sobre TI” – e não há exagero nessas afirmações. Existem dois mundos que coexistem no campo brasileiro. É a própria lógica dos negócios que começa também a empurrar os empreendedores do campo para a informática. Como nas commodities agrícolas todos vendem pelo mesmo preço, leva vantagem quem tiver uma produção mais barata e eficiente. Por isso, controle orçamentário, custeio e planejamento de compras ganham importância. As empresas mais agressivas do setor estão investindo em gestão e aí a Tecnologia da Informação tem um papel fundamental no processo de concorrência. Porém, as mudanças ocorrem lentamente e ainda esbarram em muitos pontos de resistência. Na terra em que se plantando tudo dá, a tecnologia da informação ainda não conseguiu brotar com força, mas finalmente começa a encontrar terreno fértil. Uma das tendências mais marcantes na área de tecnologia de informação nos últimos anos é representada pelos produtos ERP – (Enterprise Resource Planning). Esses produtos se caracterizam por um conjunto de subsistemas integrados, capazes de suprir as necessidades de informação e de automatizar os diversos processos empresariais, desde a entrada de um pedido de um cliente, até sua expedição, incluindo o planejamento dos recursos financeiros, materiais e humanos para sua produção. No caso específico do setor agroindustrial, apenas as grandes empresas se beneficiam dessa integração sistêmica, ficando as pequenas e médias empresas com acesso limitado principalmente devido aos elevados custos de aquisição de um sistema completo. Porém, hoje em dia, podemos dizer que, o médio e pequeno agricultor, tem ao seu dispor inúmeras ferramentas acessíveis ao seu processo de negócio. Temos, portanto, um cenário em que a tecnologia da informação existe como um fator que, embora não seja essencial, certamente pode fornecer um grande diferencial a favor das entidades que a utilizam. E, com a crescente e constante evolução das tecnologias, tais como: de transmissão de dados, sistemas de informação e mão de obra especializada, vem se tornando cada vez mais uma realidade e uma possibilidade a ser considerada por aqueles que desejam se manter competitivos dentro do agronegócio.

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AGROAGENDA Agro em Minas

O Parque de Exposições da Gameleira, em Belo Horizonte, será sede da oitava edição da Superagro Minas, entre os dias 03 e 10 de junho. O evento é uma promoção do Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) e Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), junto com a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) e Sebrae-MG. O objetivo é divulgar o potencial do Estado na atração de novos investimentos empresariais e fomentar a prospecção e realização de negócios pelos agentes do setor. Participam criadores, produtores rurais e as empresas que apresentam máquinas, equipamentos, produtos, insumos e novas tecnologias de apoio a diferentes segmentos da produção rural. A expectativa deste ano é superar os principais indicadores da edição anterior que somou R$ 5,8 milhões no faturamento com os leilões realizados durante a Exposição Estadual Agropecuária. Mais informações: www.superagro2012.com.br

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VI Congresso Brasileiro de Soja

Cadeia produtiva da carne

Entre os dias 11 e 15 de junho, São Paulo sedia a 18ª edição da Feira Internacional da Cadeia Produtiva da Carne (FEICORTE 2012). Este é o maior evento indoor da cadeia pecuária de corte do mundo, destacandose como principal vitrine do setor, referência em qualidade, pesquisa, tecnologia, equipamentos, produtos e serviços. Em 2012, o Centro de Exposições Imigrantes espera a visita de mais de 25 mil pessoas, entre pecuaristas, profissionais, estudantes e demais interessados. São esperados mais de 4.000 animais de 20 raças entre bovinos, caprinos e ovinos. Mais informações www.feicorte.com.br

A Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja) realiza entre os dias 11 e 14 de junho, no Centro de Eventos Pantanal em Cuiabá/MT, a sexta edição do Congresso Brasileiro de Soja, sob o tema “Soja: fator de integração nacional e desenvolvimento sustentável”. Durante o evento serão discutidos assuntos como cenários de insumos agrícolas; mudanças climáticas; manejo de pragas, doenças e plantas daninhas; melhoramento genético; armazenagem de grãos, integração lavoura-pecuária e floresta; produtividade com sustentabilidade. Mais informações: www.cnpso.embrapa.br/cbsoja/

Encontro técnico do Algodão

O Fundeagro e a Fundação BA, em parceria com a Abapa realizam nos dias 29 e 30 de junho em Luís Eduardo Magalhães, a edição 2012 do Encontro Técnico do Algodão de 2012 tradicional evento do calendário agrícola da região. A abertura acontecerá na noite da sexta-feira, com palestra promovida pela Abapa, ainda sem um palestrante definido. No sábado, no Centro de Treinamento Parceiros da Tecnologia, acontece o Dia de Campo do Algodão promovido pela Fundação BA.


MAGAZINE A força da produção do campo em um espaço fértil de ideias.

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9191.9400 / Anton Roos (77) 9971.7341 BARREIRAS: Anne Stella (77) 9123.3307 / Cícero Félix (77) 9131.2243 / 9906.4554 SANTA MARIA DA VITÓRIA BOM JESUS DA LAPA: Rosa Tunes (77) 9804.6408 / 9161.3797 LUÍS EDUARDO MAGALHÃES: Ana Paula (77)



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