Coleção 10 V - Livro 9 - Português - Professor

Page 31

Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Podemos perceber já no título o emprego do artigo definido “o”. Drummond especifica e determina de modo particular o substantivo “medo”. Mas não é um medo qualquer. É um medo generalizado.

Para o poeta, até então comunista, o medo representava uma arma utilizada pelo sistema capitalista e pelos ditadores para o controle social, já que estávamos em plena Ditadura do Estado Novo.

Na primeira estrofe - “nascemos no escuro” chama-nos a atenção. Nesse verso, a escuridão se liga à ideia de ausência de vida, de esperança, de luz, enfim.

No verso “de medo, vermelhos rios vadeamos”, “vermelhos rios” remete-nos ao sangue, o sangue dos mortos pela ditadura, que ‘vadeamos’. Vadear significa transportar pela margem mais rasa - passamos por cima desse sangue por medo.

E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios Vadeamos. Somos apenas uns homens E a natureza traiu-nos. Há as árvores, as fábricas, Doenças galopantes, fomes.

Fonte: Wikimedia Commons

Na segunda e terceira estrofes, Drummond esclarece aspectos capitalistas, como o consumo e a indústria - “vestimos”, “fábricas” - e suas consequências, paralelamente à Segunda Grande Guerra, que ainda estava acontecendo, como “doenças” e “fomes”. O autor utiliza “fomes” (no plural), em que podem ser englobadas as fomes de comida, de dignidade e de liberdade.

A proposta final do poema parece-nos pessimista porque o poeta imagina um futuro ainda comandado pelo medo, herança de pais para filhos. Em todo o poema, há um tom irônico, quase sarcástico, pois o autor faz uma apologia do medo quando, na verdade, o ideal seria todos se livrarem dele. Por fim, as duas últimas estrofes dão continuidade ao sentimento de medo. Ao olhar para frente, Drummond diz que o medo já está cristalizado nos mais velhos e que seus ‘herdeiros’ também já estão cristalizados, erguendo seus muros de medo, até as estrelas. Ao terminar com o verbo “dançando” (no gerúndio) – impera uma continuidade, uma sucessão. Sugere, portanto, que não será essa a geração que viverá sem estar baseada no medo, mas ainda virão outras. As “outras vidas”, os “outros poemas”, que não mais dançarão “o baile do medo”. Ao comparar os dois poemas, podemos perceber que a situação do medo impera em ambos. O amor aparece inacessível ao coração do homem, soterrado pelo medo. Veja que Drummond elege flores amarelas porque elas simbolizam o desespero. O poeta insiste no tema “medo” porque, sobretudo na época da ditadura militar, o homem viveu sob um verdadeiro regime de terror, cujas consequências são ainda sentidas. Figura 02 - Soldados americanos – Segunda Guerra Mundial

637

B13  Modernismo segunda fase - poesia - Carlos Drummond de Andrade

Podemos perceber também o efeito da repetição da palavra “medo”, na segunda estrofe, em que a palavra aparece quatro vezes demonstrando que o medo está marcadamente presente em tudo.


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook

Articles inside

Que felizmente ou infelizmente sempre o

2min
page 31

presente e esquece de aprender

1min
page 30

Não sei por que essa gente vira a cara pro

3min
page 29

Com uns ralos fios de cabelo sobre a testa

2min
page 27

que não para de crescer

2min
page 28

mais démodé

2min
page 26

Pois ser eternamente adolescente nada é

2min
page 25

E quando eu esquecer meu próprio nome

4min
page 23

Pra poder aproveitar

4min
page 22

Eu quero pôr Rita Pavone

1min
page 19

Eu quero que a sirene soe

4min
page 17

No ringtone do meu celular

3min
page 20

Eu quero que a panela de pressão pressione

3min
page 15

E que a pia comece a pingar

2min
page 16

No meio da sala de estar

1min
page 14

Eu quero que o tapete voe

3min
page 13

dizendo que agora é pra valer

3min
page 6

aprendendo a esquecer

3min
page 8

Os outros vão morrendo e a gente

2min
page 7

E dizer venha pra o que vai acontecer

3min
page 12

caindo pra cabeça aparecer

1min
page 4

Como será que deve ser envelhecer

1min
page 10

Os filhos vão crescendo e o tempo vai

2min
page 5

Eu quero é viver pra ver qual é

3min
page 11
Issuu converts static files into: digital portfolios, online yearbooks, online catalogs, digital photo albums and more. Sign up and create your flipbook.