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Que felizmente ou infelizmente sempre o

Podemos perceber já no título o emprego do artigo definido “o”. Drummond especifica e determina de modo particular o substantivo “medo”. Mas não é um medo qualquer. É um medo generalizado.

Na primeira estrofe - “nascemos no escuro” chama-nos a atenção. Nesse verso, a escuridão se liga à ideia de ausência de vida, de esperança, de luz, enfim.

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Podemos perceber também o efeito da repetição da palavra “medo”, na segunda estrofe, em que a palavra aparece quatro vezes demonstrando que o medo está marcadamente presente em tudo.

E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios Vadeamos.

Somos apenas uns homens E a natureza traiu-nos. Há as árvores, as fábricas, Doenças galopantes, fomes.

Na segunda e terceira estrofes, Drummond esclarece aspectos capitalistas, como o consumo e a indústria - “vestimos”, “fábricas” - e suas consequências, paralelamente à Segunda Grande Guerra, que ainda estava acontecendo, como “doenças” e “fomes”. O autor utiliza “fomes” (no plural), em que podem ser englobadas as fomes de comida, de dignidade e de liberdade.

Para o poeta, até então comunista, o medo representava uma arma utilizada pelo sistema capitalista e pelos ditadores para o controle social, já que estávamos em plena Ditadura do Estado Novo.

No verso “de medo, vermelhos rios vadeamos”, “vermelhos rios” remete-nos ao sangue, o sangue dos mortos pela ditadura, que ‘vadeamos’. Vadear significa transportar pela margem mais rasa - passamos por cima desse sangue por medo.

A proposta final do poema parece-nos pessimista porque o poeta imagina um futuro ainda comandado pelo medo, herança de pais para filhos. Em todo o poema, há um tom irônico, quase sarcástico, pois o autor faz uma apologia do medo quando, na verdade, o ideal seria todos se livrarem dele.

Por fim, as duas últimas estrofes dão continuidade ao sentimento de medo. Ao olhar para frente, Drummond diz que o medo já está cristalizado nos mais velhos e que seus ‘herdeiros’ também já estão cristalizados, erguendo seus muros de medo, até as estrelas.

Ao terminar com o verbo “dançando” (no gerúndio) – impera uma continuidade, uma sucessão. Sugere, portanto, que não será essa a geração que viverá sem estar baseada no medo, mas ainda virão outras. As “outras vidas”, os “outros poemas”, que não mais dançarão “o baile do medo”.

Ao comparar os dois poemas, podemos perceber que a situação do medo impera em ambos. O amor aparece inacessível ao coração do homem, soterrado pelo medo. Veja que Drummond elege flores amarelas porque elas simbolizam o desespero. O poeta insiste no tema “medo” porque, sobretudo na época da ditadura militar, o homem viveu sob um verdadeiro regime de terror, cujas consequências são ainda sentidas.

Figura 02 - Soldados americanos – Segunda Guerra Mundial Modernismo segunda fase - poesia - Carlos Drummond de Andrade 

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