TROCANDO EM MIÚDOS: O QUE DIZ O USUÁRIO(*) I. Visões e representações da metrópole A importância de se levantar as representações sociais que os usuários de transporte coletivo têm da metrópole reside no fato de que essas representações interagem também com as dos serviços de transporte coletivo. Segundo a visão de Georg Simmel, a metrópole pode ser considerada como a sede da economia monetária. É a circulação do dinheiro que permite entender as transformações econômicas, sociais e políticas que mudaram o homem de maneira decisiva, processo que passou pela intensificação dos fluxos de mercado, pela industrialização e pela modernidade. A circulação da economia monetária possibilita as trocas de mercadorias e estas, os deslocamentos de pessoas no espaço. A circulação, assim se coloca no centro das formas como os contatos se realizam pelos habitantes da metrópole. Outra leitura da cidade se insere na perspectiva de Michel Foucault, que a vê como um “circuito integrado normalizador”. Este circuito, do qual fazem parte as instituições sociais de caráter coletivo, tem por finalidade criar regras e disciplinar os indivíduos na utilização do espaço coletivo e na circulação de pessoas. Os equipamentos coletivos existentes na cidade exercem papel de “contenção” os quais o próprio autor denominou de “equipamentos de normalização”. A normalização do Estado, de um lado, e a resistência da sociedade a essa normalização, de outro, abrem um campo de contendas, de natureza política no qual Estado e cidadãos e cidadãos entre si disputam a oportunidade do exercício de seus poderes no uso cotidiano da cidade. Essas duas ideias centrais de cidade como espaço de circulação de dinheiro, de comunicação, de trocas e de relações de poder nos auxiliam a compreender o discurso dos usuários de transporte coletivo que participaram da fase qualitativa da última pesquisa “Imagem dos Transportes na Região Metropolitana de São Paulo”, executada pela Toledo & Associados, sob a coordenação da ANTP e com o patrocínio da CPTM, EMTU, Metrô, Setpesp, SPTrans e SPUrbanuss, entidades responsáveis pelo transporte coletivo na metrópole de São Paulo. Os resultados das discussões em grupo realizadas em agosto e setembro de 2010, com 3 grupos femininos e 3 grupos masculinos de usuários habituais de: a) trem e ônibus municipais; b) metrô e ônibus municipais; e c) ônibus metropolitanos e ônibus municipais, forneceram a base para o presente trabalho. A primeira perspectiva para a qual as verbalizações dos pesquisados apontam é a visão da metrópole como “terra das oportunidades e da variedade”. Relatam a grande oferta de empregos, bons salários, educação, cultura, acesso a bens e serviços, facilidades de deslocamento por meio do transporte coletivo e também opções de lazer, especialmente na noite paulistana. __________ (*) Texto elaborado por Christina Maria De Marchiori Borges (SPTrans), Cristina Freitas (Metrô) e Denise Daud (Metrô) com a colaboração dos demais membros da Comissão Técnica Pesquisa de Opinião e do GT Pesquisa de Imagem dos Transportes da ANTP - Carlos Alberto Panella (EMTU), Emilia Hiroi (Metrô), Hélcio Raymundo (Setpesp), João Carlos de Campos Leme (CPTM), Rogerio Belda (ANTP) e Wagner Palma (SPUrbanuss).
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