Uma prosa apaixonada

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Virginia Woolf Uma prosa apaixonada

Organização e tradução

Tomaz Tadeu

Posfácios

Roxanne Covelo

Emily Kopley

Virginia Woolf

Uma prosa apaixonada

ORGANIZAÇÃO E TRADUÇÃO

Tomaz Tadeu

POSFÁCIOS

Roxanne Covelo

Emily Kopley

7 Apresentação Tomaz Tadeu I. A poesia da prosa 15 “Uma prosa apaixonada” 29 Carta a um jovem poeta 53 Música de rua II. A poesia e a prosa 65 Artesania 77 A poesia, a ficção e o futuro 97 Os poetas (In “As fases da ficção”)

III. Prosas poéticas

115 As ondas (prelúdios)

135 O tempo passa Posfácios

165

De Quincey nos ensaios de Virginia: a poesia da prosa e o gênero autobiográfico

Roxanne Covelo

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Virginia Woolf: entre a poesia e a prosa

Emily Kopley

Apresentação

Tomaz Tadeu

“Poesia é poesia e prosa é prosa” – é o refrão que Virginia atribui, no ensaio “Uma prosa apaixonada”, aos que se comprazem em traçar os limites dos diferentes gêneros literários. Mas, excetuando-se certas características convencionais, gráficas – como, por exemplo, a lineação (quebrada, em pontos arbitrários, na poesia; contínua, na prosa); a métrica (outrora própria da poesia e inexistente na prosa); a rima (vista como essencial na poesia do passado; condenada como defeito na prosa); e a voz (monofônica na poesia; polifônica, em geral, na prosa) –, a distinção entre a prosa literária e a poesia se estreita consideravelmente.

No fundo, a diferença essencial é entre a escrita literária e a escrita instrumental. É nessa diferença que poesia e prosa se igualam. E aplicar o adjetivo “poético” à prosa literária em geral e ao romance em particular não significa dizer que a prosa tenha usurpado uma característica que seria monopólio da poesia, mas apenas que a segunda se distingue, tanto quanto a primeira, por seus aspectos formais. Em suma, a ênfase na forma (ritmo, cadência, repetição sonora, jogos sintáticos) é o que distingue o texto literário (poesia, ficção, ensaio) do texto comum, da prosa descritiva, informativa, utilitária.

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A diferença entre os dois gêneros, poesia e ficção, em termos de poeticidade, se assim podemos dizer, é mais uma diferença de densidade e volume do que de natureza. Num, o poético é concentrado, nativo, onipresente; noutro, o poético é rarefeito, adventício, infrequente. Num, o poético é a substância; noutro, o complemento. Num, o poético é abrangente; noutro, é seletivo. E uma poesia pode ser muito pouco poética, enquanto um texto em prosa pode ser intensamente poético.

Virginia não escreveu poesia, no seu sentido estrito. Mas sua ficção, ao menos desde Mrs Dalloway, está plena de poesia, de poeticidade. E alcança o auge em As ondas, não apenas nos noves prelúdios, repletos de pura poesia, que antecedem seus nove capítulos, mas ao longo de todo o livro. E a relação entre os dois gêneros, poesia e ficção, é um tema que preocupou a crítica literária que Virginia foi ao longo de toda sua vida adulta.

A presente antologia reúne alguns dos ensaios em que Virginia abordou o tema da poesia e, sobretudo, da relação entre a ficção poética e a poesia propriamente dita. No ensaio que abre o livro, “‘Uma prosa apaixonada’”, ela destaca algumas passagens da obra em prosa do ensaísta britânico Thomas De Quincey como exemplos de uma “prosa poética”. Impossível não desconfiar que Virginia está, com isso, sugerindo indiretamente que apaixonada, ou poética, é também sua própria prosa. E, de fato, muitas das observações que ela faz sobre a obra de De Quincey se aplicam à sua própria escrita, tanto a ensaística quanto a de ficção.

Talvez se pudesse dizer sobre ela o que ela disse sobre De Quincey: é por sua poesia que a lemos, e não por

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sua prosa. Mas não; é pelas duas, que não passam de uma: a sua escrita como um todo.

No segundo texto, uma carta fictícia a um “jovem poeta”, Virginia destaca e analisa trechos de poemas de alguns jovens da época: W. H. Auden, Cecil Day Lewis, Stephen Spender e John Lehmann – o John do título, então trabalhando para o casal Woolf em sua pequena editora, a Hogarth Press, e de quem partiu a ideia da carta, prontamente aceita por Virginia. No ensaio, Virginia faz uma dura crítica do tipo de poesia praticada pelos jovens poetas, alguns dos quais (Auden e Spender, sobretudo) se destacaram, depois, como os melhores de sua geração. John Lehmann, em seu livro de memórias, Thrown to the Woolfs [Atirado aos lobos] (p. 30), assim descreve, retrospectivamente, a recepção do ensaio: “Quando foi publicado, o ensaio ‘Carta a um jovem poeta’, apesar das muitas passagens de excelente conselho, causou certa dose de desalento, ou até mesmo de indignação, entre os jovens poetas. O ensaio criticava nosso trabalho, embora ela tivesse expressado sua crítica com urbanidade bem-humorada, mas, pensávamos nós, com uma falta um tanto surpreendente de compreensão e justeza”. No terceiro ensaio, “Música de rua”, Virginia centrase na noção de ritmo tal como expressada nas melodias dos músicos de rua de Londres. Embora a própria Virginia não tivesse essa crônica em alta conta, ela é importante por expressar o que ela entendia, nessa fase da vida, por “ritmo”, este intrincado e polivalente conceito, ao menos no terreno da escrita literária, seja prosa ou poesia. E se seu entendimento da noção de ritmo, conforme explicitado nesse texto, é precário, podemos

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perdoar-lhe o pecadilho pelo legado da prosa ritmada que permeia sua ficção e a maioria de seus ensaios.

O ensaio que abre a segunda seção, “Artesania” (Craftmanship, no original), escrito para um programa de rádio, ou seja, para um público mais amplo, condensa algumas de suas melhores ideias sobre o poder e a força da linguagem. São sua instabilidade, sua ambiguidade, sua multiplicidade que permitem, para além de sua utilidade prática, instrumental, funcional, as invenções que chamamos de literárias, a prosa e a poesia, indiferentemente. A leveza dessa fala, dessa escrita, é ilusória. Ela é mais profunda do que parece.

Na sequência, “A poesia, a ficção e o futuro” parece sintetizar tudo que Virginia pensava sobre a relação entre a prosa e a poesia. E, embora ela não utilize a expressão “prosa poética” é isso que está no centro desse ensaio que é, ao mesmo tempo, uma síntese da relação histórica entre a poesia e a prosa e um manifesto a favor de uma prosa poética: “o romance ou a variedade de romance que será escrito nos tempos vindouros assumirá alguns dos atributos da poesia” (p. 89).

Por fim, o último texto dessa parte é a seção final de um dos mais longos ensaios de Virginia, “As fases da ficção”. Após percorrer, com algum detalhe, a história da literatura inglesa de ficção, sem deixar de considerar algumas poucas obras de ficção escritas em outras línguas, dividida em estágios, com títulos de sua autoria, ela termina o ensaio com a seção “Os poetas”, ou seja, os autores de ficção que ela caracteriza como poetas:

Laurence Sterne, Tolstói (pela poesia de situação, em contraste com a poesia de linguagem), Emily Brontë, Marcel Proust, entre outros.

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A terceira parte reproduz textos já publicados em tradução pela Autêntica Editora. Impossível não pensar, quando se fala na prosa poética de Virginia, nos prelúdios de As ondas e em “O tempo passa”, a seção central de Ao farol. A versão desse último texto aqui reproduzida é a do livro O tempo passa (Autêntica, 2ª edição, 2016).

A coletânea termina com os ensaios de Roxanne Covelo e Emily Kopley. O texto de Roxanne se centra na relação entre a prosa poética de Virginia Woolf e a escrita de Thomas De Quincey. O ensaio de Emily, um excerto resumido do livro de sua autoria, Virginia Woolf and Poetry (Oxford University Press, 2021), discute, em profundidade, a questão da prosa poética, a que Virginia celebrou e a que ela própria produziu.

Podemos dizer, sobre a prosa inspirada de Virginia, o que Rhoda diz sobre o concerto musical que ela assiste em As ondas: “A doçura deste conteúdo transbordando desce pelas paredes de minha mente, e liberta a compreensão. [...] O oblongo fora posto sobre o quadrado; a espiral está no topo”.

Ao gozo, pois, e ao prazer da prosa – da prosa apaixonada de Virginia.

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Copyright da tradução © 2023 Tomaz Tadeu

Copyright desta edição @ 2023 Autêntica Editora

O texto de Roxanne Covelo, originalmente publicado em Journal of Modern Literature, v. 41, n. 4 (Summer 2018), pp. 31-47, com o título "Thomas De Quincey in the Essays of Virginia Woolf: 'Prose Poetry' and the Autobiographic Mode", foi impresso aqui com permissão da Indiana University Press.

O ensaio de Emily Kopley é uma síntese, redigida pela autora, de seções extraídas do livro Virginia Woolf and Poetry (Oxford University Press, 2021), aqui publicada com a devida autorização da editora.

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editoras responsáveis

Rejane Dias

Cecília Martins

revisão

Cecília Martins

projeto gráfico

Diogo Droschi

diagramação

Waldênia Alvarenga

imagem de capa

Interior with Artist’s Daughter, pintura de Vanessa Bell, c. 1935-36, The Charleston Trust. © Bell, Vanessa / AUTVIS, Brasil, 2023

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Woolf, Virginia, 1882-1941

Uma prosa apaixonada / Virginia Woolf ; organização e tradução Tomaz Tadeu ; posfácios Roxanne Covelo, Emily Kopley. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Editora, 2023. -- (Mimo)

ISBN 978-65-5928-288-3

1. Antologia 2. Ensaios ingleses 3. Prosa poética I. Tadeu, Tomaz. II. Covelo, Roxanne. III. Kopley, EMily. IV. Título. V. Série.

23-153646

Belo Horizonte

Índice para catálogo sistemático:

1. Ensaios : Literatura inglesa 824

Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129

São Paulo

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