
35 minute read
Choque tecnológico
Como e quando fazer uso de fungicidas e da melhor tecnologia na cana-deaçúcar podem resultar em ganhos de produtividade e retorno econômico, em um cenário brasileiro marcado pela evolução de doenças fúngicas como ferrugem alaranjada, podridão vermelha, mancha parda e mancha anelar
Acana é um cultivo agrícola muito importante para o Brasil e o restante do mundo. A área colhida na safra 2018/19, no Brasil, gira ao redor de 10,123 milhões de hectares, com produção de 620,41 milhões de toneladas e produtividade de 72,23t/ha e ATR (açúcar total recuperável) de 140,6kg/ha. Para cada tonelada de cana em média no Brasil, estima-se uma produção de até 80 litros de álcool de primeira geração. As lavouras de cana são a segunda no uso de defensivos agrícolas no País, ficando atrás apenas da soja. Na cultura, ênfase tem sido dada ao melhoramento genético de clones e variedades superiores e não existe a tradição ou o costume de se utilizar fungicidas foliares ou no tratamento da soqueira ou pós corte durante a brotação.
Em outros cultivos a prática é bem difundida, com amplos benefícios aos agricultores, garantindo a produtividade. As doenças importantes são manejadas, principalmente, pela utilização de variedades resistentes, roguing (erradicação de plantas doentes no viveiro de cana), mudas sadias e tratadas, escolha do clone mais adaptado ao local de plantio etc. O controle biológico é bastante utilizado no manejo de insetos – pragas, inseticidas, além de herbicidas e nematicidas. Nenhuma ênfase tem sido dada pelos órgãos de pesquisa no uso de fungicidas quanto à manutenção da área foliar sadia, tonelada de cana por hectare (TCH) e efeitos benéficos na manutenção da área foliar sadia e reflexos na qualidade da fotossíntese, acúmulo de fotoassimilados, brix, teor de sacarose e até o rendimento industrial.
Os programas de melhoramento de cana priorizam o desenvolvimento de materiais genéticos com resistência satisfatória aos agentes causais de doenças viróticas (mosaico e amarelinho), bacterianas (raquitismo e escaldadura) e fúngicas (carvão e ferrugem marrom). Na década de 1980 foi constatada no Brasil a ferrugem marrom (Puccinia melanocephala) e em 2009 o fungo Puccinia kuehnii (Figura 1), agente causal da ferrugem alaranjada. Recentemente tem se observado também a evolução da mancha anelar da cana (Leptosphaeria sacchari) (Figura 2) e a podridão vermelha ou antracnose (Colletotrichum falcatum) (Figuras 3 e 4), estria bacteriana e outras (Figuras 2 e 5).
A podridão vermelha aumenta as perdas
Figura 1 - Esporulação de Puccinia khuenii (ferrugem alaranjada) em folhas de clone suscetível

Figura 2 - Perda de área foliar em cana pela severidade de mancha anelar e estria bacteriana em cana-de-açúcar



Figura 3 - Sintomas da podridão vermelha em cana-de-açúcar

pela inversão da sacarose na usina, reduzindo o rendimento do caldo ou mosto de cana. Embora a resistência genética seja a principal tática de controle, existem variedades que, apesar de apresentarem boas características agronômicas e industriais (produtividade e boa resistência a outras pragas etc.), permitem o desenvolvimento de algumas doenças, comprometendo a área foliar (Figuras 5 e 6). Os danos podem ser elevados pela redução da área foliar sadia, fotossíntese e acúmulo de sacarose nos colmos, ou seja, perda de produtividade por hectare (TCH) (Figura 6).
O manejo integrado de doenças (MID) é uma ferramenta importante para manejo das principais doenças que ocorrem na cultura, incluindo a tomada de decisão para uso de fungicidas no momento correto e na dose/resposta adequada para cada situação ou clone cultivado. As interações entre fungicidas e controle de doenças são múltiplas, desde resposta de clones, efeitos fisiológicos e efeito na produtividade de cana (Figuras 6 e 7).
Existem fungicidas registrados e com eficiência satisfatória contra todos os agentes causais fúngicos na cultura que tornam viável a sua utilização. Experimentos têm comprovado essa eficácia em vários ambientes, cultivares e condições climáticas. As culturas de grãos, como soja, trigo, feijoeiro e milho, que utilizam fungicidas, vêm apresentando constante aumento de produtividade e retorno ao agricultor. É necessário um choque tecnológico na cana-de-açúcar.
Existem diversas inovações sendo disponibilizadas, como o material de propagação: utilização de mudas no lugar dos toletes etc. A vinhaça, que era um problema, hoje é solução para a oferta de potássio e outros nutrientes para os cultivos. Entre estas novas tecnologias, a utilização de fungicidas deve ser analisada com muita atenção e sem preconceitos ou tabus. Se em quase todos os demais cultivos é uma ferramenta importante e, em alguns casos, indispensável, pode ser bastante útil nesta nova fase de cultivo da cana no Brasil.
Certamente, com o surgimento de novos produtos comerciais e formulações de fungicidas cada vez mais apropriadas, melhorias na tecnologia de aplicação, posicionamento adequado do produto durante o ciclo da cultura e condições ambientais tornam-se fundamentais na produção de
Fotos Fernando Cezar Juliatti

Figura 5 - Produção de cana, ocorrência de doenças e seu reflexo na produtividade

Figura 6 - Aspectos fisiológicos da resposta de cana e suas interações múltiplas em relação ao uso de fungicidas

Variedade 1° RB966928 2° RB867515 3° CTC4 4° RB92579 5° RB855156 6° CTC9001 7° RB855453 8° RB975201 9° CV7870 10° SP83-2847 11° IAC91-1099 12° CTC9002 13° CTC9003 14° CTC20 15° CV6654 16° SP80-3280 17° IACSP95-5000 18° RB928064 19° SP79-1011 20° SP78-4764
Outras Total Área (ha) 103,468 98,041 72,964 61,581 23,073 18,865 12,597 11,922 11,797 11,195 8,562 7,831 7,380 6,785 6,376 6,353 6,077 5,982 5,177 4,863 114,919 605,807 % 17% 16% 12% 10% 4% 3% 2% 2% 2% 2% 2% 1% 1% 1% 1% 1% 1% 1% 1% 1% 19% 100% Plantio Figura 7 - Tabela com os 20 clones mais plantados no Brasil. Safra 2017-2018
Variedade
1° RB867515 2° RB966928 3° RB92579 4° CTC4 5° RB855156 6° RB855453 7° SP81-3250 8° SP83-2847 9° CTC15 10° RB855536 11° SP80-1842 12° CTC2 13° RB835054 14° SP80-1816 15° IACSP95-5000 15° SP80-3280 17° CTC20 18° SP79-1011 19° RB965902 20° CTC9001
Outras Total Área (ha) 1.250,023 608,006 491,753 235,267 233,575 207,566 178,386 137,604 106,848 101,530 72,280 70,763 65,552 58,507 55,700 50,262 42,223 37,020 35,849 31,453 983,863 5.053,842 % 25% 12% 10% 5% 5% 4% 4% 3% 2% 2% 1% 1% 1% 1% 1% 1% 1% 1% 1% 1% 19% 100% Cultivo
Figura 8 - Clones mais plantados no Brasil até o ano de 2019
cana no Brasil e somente assim será possível obter avanços significativos no cultivo. A Tabela 1 apresenta os resultados da avaliação da ferrugem alaranjada, a mancha anelar e a podridão vermelha na cultura da cana-de- -açúcar safra 2018-2019.
Em 2017-18 a área plantada de cana-de- -açúcar recebia a seguinte distribuição, conforme os clones mais utilizados (Figuras 7, 8 e 9)
Os dez clones mais plantados estão apresentados na Figura 7. Todos os clones assinados apresentam uma ou mais patologias, reduzindo a sua área foliar se fazendo necessário o uso de fungicidas foliares.
A resposta aos fungicidas em cana-de- -açúcar tem sido estudada com o uso de drones, com câmeras multiespectrais e com leituras na faixa do infravermelho e as respostas múltiplas em inúmeras variáveis apresentadas nas Figuras 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18 e 19.
Figura 9 - Clones em expansão no Brasil e no Sudeste


Figura 10 - Variáveis e componentes envolvidos na resposta de clones de cana-de-açúcar aos fungicidas. Clone SP81-3250 (segundo corte). Primeira aplicação 7 meses após o corte e mudas oriundas do sistema Plene. Segunda aplicação 30 dias após a primeira aplicação. Usina Aroeira. Tupaciguara. MG
Figura 11 - Resposta morfológica de RB867515 a duas aplicações de fungicidas no pós-corte (corte da soqueira) e durante o desenvolvimento vegetativo (5 folhas expandidas). Clone SP81-3250 (segundo corte). Usina Aroeira. Primeira aplicação 7 meses após o corte e mudas oriundas do sistema Plene. Segunda aplicação 30 dias após a primeira aplicação. Tupaciguara. MG


Figura 12 - Altura e número de colmos no Clone SP81-3250 (segundo corte). Usina Aroeira. Tupaciguara. MG. Primeira aplicação 7 meses após o corte e mudas oriundas do sistema Plene. Segunda aplicação 30 dias após a primeira aplicação
Figura 13 - Porcentagem de área foliar viva ou ativa (no dia da pulverização foliar e 30 dias depois. Clone SP81-3250 (segundo corte). Usina Aroeira. Tupaciguara. MG. Primeira aplicação 7 meses após o corte e mudas oriundas do sistema Plene. Segunda aplicação 30 dias após a primeira aplicação


Figura 14 - Porcentagem de folhas ativas até 60 dias após a aplicação dos fungicidas no clone. Clone SP81-3250 (segundo corte). Usina Aroeira. Tupaciguara. MG. Primeira aplicação 7 meses após o corte e mudas oriundas do sistema Plene. Segunda aplicação 30 dias após a primeira aplicação
N° Trat. 1 2 3 4 5 i.a. Testemunha azoxystrobina + ciproconazol-0,5l (5apl)¹ azoxystrobina + ciproconazol-0,5l (3apl)¹ azoxystrobina + ciproconazol-1,0l (5apl)¹ azoxystrobina + ciproconazol-1,0l (3apl)¹ CV (%) AACPD da % de mancha parda 640,25a 155,75b 23,00b 48,00b 33,50b 74,51
AACPD da % de ferrugem alaranjada 600,00a 12,25b 18,25b 0,00b 85,50b 81,79 AACPD da % de mancha anelar 1005,50a 352,75b 439,25b 288,75b 444,25b 39,95 AACPD da % de podridão vermelha e fase vegetativa 384,25a 91,50b 51,50b 50,00b 16,00b 58,50 % de severidade de podridão vermelha na colheita 18,75a 8,75b 10,00b 3,75b 8,50b 52,31
ID (%)² 14,00a 2,00b 2,75b 0,88b 2,52b 90,97 % Controle ABOTT (ID) - 86,00 80,36 93,75 82,00 THC (Tonelada de cana por ha) 61,30b 71,66a 65,32ab 73,66a 66,62ab 17,61 % de incidência de podridão vermelha na colheita 70,00a 22,50b 32,50b 17,50b 32,50b 32,99 Tabela 1 - Avaliação da severidade de doenças e reflexos na produtividade de cana no clone SP81-3250, safra 2018-2019, em Uberlândia - MG
Figura 15 - Resposta na área abaixo da curva de Progresso da doença (AACPD) de cana-de-açúcar, clone após duas aplicações de fungicidas. Clone SP81-3250 (segundo corte). Primeira aplicação 7 meses após o corte e mudas oriundas do sistema Plene. Segunda aplicação 30 dias após a primeira aplicação


Figura 16 - Produtividade de cana-de-açúcar (TCH) por ha no clone SP81-3250 (segundo corte). Primeira aplicação 7 meses após o corte e mudas oriundas do sistema Plene. Segunda aplicação 30 dias após a primeira aplicação
CONSIDERAÇÕES IMPORTANTES 1) A resposta aos fungicidas nos sistemas de produção de cana é uma ferramenta importante, mesmo aplicando após o corte da soqueira para reduzir o inóculo inicial de fungos necrotróficos como o da mancha anelar e da podridão vermelha que mais reduzem a sanidade e a produtividade do canavial; 2) O fungicida ciproconazol + azoxytrobina foi eficiente no controle da podridão vermelha (Colletotrichum falcatum) nas doses de 0,5 e 1L/ha; 3) As pulverizações devem ser iniciadas após o início das brotações para melhorar a emergência e a infecção inicial, o que impac
ta diretamente na produção (TCH)-t/ha; 4) Em clone suscetível como SP813250, o uso de fungicidas pode ser realizado entre três e cinco pulverizações com aplicações mensais; 5) A doença impacta ou reduz em até 12t/ha se o controle não for realizado na fase vegetativa ou formação do colmo; 6) Cada aplicação do fungicida azoxystrobina + ciproconazol aumentou em média 2,5t/ha de cana; 7) Ocorreu uma redução da severidade de ferrugem alaranjada, mancha parda e mancha anelar, melhorando a sanidade geral do canavial; 8) A aplicação de fungicida a partir do início das brotações apresenta uma van
tagem econômica com retorno líquido de até R$ 700,00 por hectare. C


Fernando Cezar Juliatti e Pedro Augusto Ferreira Faria Medeiros, UFU/Lamip/Iciag Breno Cezar Marinho Juliatti e
Fernanda Cristina Juliatti,
JuliAgro - B,G & P.Ltda
Daine Anderlei Frangiosi, Fazenda Estância Cruzeiro Irmãos Frangiosi Isabela Gonçalves de Fátima e Márcio Gonçalves de Andrade Neto, Openeen Bioscience Marcela Eduarda Santos de Matos e Vinycius Naves Melo, Lamip/Iciag/UFU Marcos Matheus Nakamura de Jesus, Syngenta Victor Hugo Santana Silveira, Syngenta/GTEC Cana

Figura 17 - Transpiração e carbono acumulado pelo uso de câmera multiespectral em diferentes fungicidas usados em campo no clone SP81-3250 (segundo corte). Primeira aplicação 7 meses após o corte e mudas oriundas do sistema Plene. Segunda aplicação 30 dias após a primeira aplicação (30 daa). As áreas verdes correspondem aos melhores tratamentos na fixação de carbono (ProriXtra- Azoxistrobina + ciproconazol, Nativo – trifloxistrobina + tebuconazol e Evos- Azoxistrobina + Flutriafol) Figura 18 - Índice de vegetação (por câmera multiespectral – Red Edge). As áreas verdes correspondem aos melhores fungicidas (ProriXtra- Azoxistrobina + ciproconazol, Nativo – trifloxistrobina + tebuconazol e Evos- Azoxistrobina + Flutriafol), em duas aplicações 7 meses após o segundo corte) Figura 19 - Índice de área foliar verde (GLI) (por câmera multiespectral – Red Edge). As áreas verdes correspondem aos melhores fungicidas (ProriXtra- Azoxistrobina + ciproconazol, Nativo – trifloxistrobina + tebuconazol e Evos- Azoxistrobina + Flutriafol), em duas aplicações 7 meses após o segundo corte)
Qualidade certificada

A importância da pesquisa e a sua evolução no Brasil em busca de segurança em vestimentas para aplicadores de agroquímicos
Passa ao largo de parte da sociedade a relevância de normas técnicas aplicáveis a equipamentos e produtos. Apesar de esforços da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e da International Standartization Organization (ISO), pouco se dá conta no Brasil de que a normatização beneficia cadeias produtivas e a classe trabalhadora. No setor agrícola, especificamente no trabalho com agroquímicos, a normatização está no centro de uma história de sucesso sobre segurança no trabalho rural. Com as primeiras aplicações de defensivos, na década de 1940, surgiram a preocupação com a segurança do trabalhador e a oferta de produtos atualmente chamados de EPIs (equipamentos de proteção individual). Até então, EPIs agrícolas constituíam adaptações de modelos industriais. Feitos com materiais pesados, nada confortáveis, levavam pouca segurança ao campo.
Em 1977, quando não houvera ainda avanço na confecção de EPIs, a Lei 6514 obrigou o fornecimento destes produtos. Determinou ainda que os equipamentos fossem vendidos mediante Certificado de Aprovação (CA) do Ministério do Trabalho. Somente em 1990, técnicos da Fundacentro, fundação ligada ao Ministério do Trabalho, passaram a estudar EPIs para a agricultura.
Chegaram, à época, as primeiras vestimentas de algodão com hidrorrepelente, base de vários modelos produzidos atualmente. Contudo, a ausência de normas técnicas ainda facilitava vendas de EPIs ineficazes para agroquímicos. Bastava uma Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) do fabricante para obter o CA do Ministério do Trabalho.
No início dos anos de 1990, o Centro de Engenharia e Automação (CEA), do Instituto Agronômico (IAC), órgão da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do estado de São Paulo, mediou uma demanda entre o Ministério do Trabalho e uma agroindústria,
com o objetivo de verificar a qualidade de EPIs agrícolas. Na busca por normas que sustentassem o estudo, a surpresa: foram identificadas poucas normas americanas ASTM, aplicáveis a riscos químicos. Uma destas, selecionada, implicou reprovação das nove vestimentas analisadas. Esse fato também trouxe à luz uma questão central: tais produtos não tinham qualidade ou a norma era inadequada?
Em 2004, frente à persistência da dúvida, o Comitê Brasileiro de Equipamentos de Proteção Individual (CB-32), coordenado pela Associação da Indústria de Material de Segurança e Proteção ao Trabalho (Animaseg) instituiu a Comissão de Estudos de Luvas e Vestimentas de Proteção para Riscos Químicos (CE-32:006.03). Formado por fabricantes de EPIs e pelo CEA/IAC, o grupo aprofundou estudos quanto a normas que embasassem análises sobre a qualidade de vestimentas.
Chegou-se, inicialmente, à norma ISO DIS 16602, que estava em desenvolvimento especificamente para risco químico. Desdobramentos desse trabalho resultaram em mais uma questão-chave: frente a uma eventual publicação da ISO 16602, e sua conversão em lei, haveria sequer um EPI brasileiro capaz de atender às exigências da norma? Foi em busca de respostas efetivas para essas questões que ganhou vida e estrutura tecnológica o Programa IAC de Qualidade de Equipamentos de Proteção Individual na Agricultura (IAC-Quepia). O Quepia concluiu, ainda na fase inicial do programa, que a norma ISO 16602 não era compatível a EPIs para agroquímicos. A constatação veio após a análise de 52 materiais diferentes, tecidos e não tecidos, dos quais 75% foram reprovados. No tocante aos 25% aprovados, permaneceu a indagação sobre se havia segurança neste resultado, ou seja, se estes seriam representativos para avaliações de qualidade envolvendo produtos químicos similares a agroquímicos. Quepia e ABNT passaram a investigar, então, outra norma em desenvolvimento, a ISO 27065, específica para defensivos, que começou a ser elaborada em 2008 e foi publicada em 2011.
Pouco antes, em 2009, o Ministério do Trabalho publicou a Portaria 121, extinguindo o CA por responsabilidade e adotando normas de qualidade para to
Ensaio com Equipamento de Proteção Individual para aplicação de agroquímicos

dos os EPIs. Em relação a vestimentas de proteção para risco químico geral e com agroquímicos, esta portaria estabelecia o uso da ISO 16602. Entre 2010 e 2011, apoiado no trabalho do Quepia e da ABNT, o Ministério do Trabalho publicou duas novas Portarias (184 e 185), para modificar a 121. Essas decisões estabeleceram que a norma ISO 16602 é aplicável somente a vestimentas para risco químico em geral. Já a ISO 27065, ainda em fase de estudos à época, passou a nortear a qualidade de EPI para agroquímicos. Ambas deliberações fizeram do Brasil o primeiro país a contar com normas de qualidade da ISO para vestimentas de proteção para o trabalho com defensivos.
Outro avanço da pesquisa veio em 2017, quando ABNT e Quepia participaram com destaque do processo de revisão da ISO 27065. Para se ter ideia da importância do Brasil nesse trabalho, vale lembrar que a substância utilizada nos testes até então era um agroquímico comercializado somente nos EUA. Este produto foi substituído por um líquido teste não tóxico, desenvolvido a partir de um corante. O trabalho inicial e a validação dessa nova substância foram integralmente realizados no laboratório avançado do Quepia em Jundiaí, em colaboração com técnicos e pesquisadores dos EUA e da Alemanha. O líquido-teste é atualmente a base das avaliações de qualidade da ISO 27065. Hoje perto de completar 15 anos, o Programa IAC-Quepia contabiliza dezenas de contribuições ao setor produtivo de EPIs e ao trabalhado rural. Com o aprimoramento das certificações de qualidade do Quepia, a aprovação a EPI agrícolas fabricados no País saltou de 49%, em
2011, para 81%. A normatização amparada na pesquisa entrelaçou fabricantes, governo e so
ciedade e tornou mais seguro o trabalho rural. Urge estender o conceito da normatização a outros setores produtivos, sobretudo àqueles nos quais a inovação é ainda emergente. No próprio agronegócio há inúmeras oportunidades para aprimoramento de produtos e tecno
logias. Boa parte delas está no radar do Quepia e também de outros programas do CEA/IAC,
como a Unidade de Referência em Tecnologia e Segurança na Aplicação de Agrotóxicos e o “Adjuvantes da Pulverização”.
Hamilton Humberto Ramos e Viviane Corrêa Aguiar Ramos, Centro de Eng. e Automação do Instituto Agronômico Secretaria de Agric. e Abast. do Estado de São Paulo

Genoma sequenciado
Fungo Metarhizium rileyi, que possui excelente ação de controle natural em lagartas em soja, milho e algodão, tem potencial de utilização como bioinseticida alargado a partir do sequenciamento genético
Àsemelhança dos seres humanos, populações de lagartas podem ser afetadas por agentes de controle natural em diversas culturas de importância econômica. Entre estes agentes, possivelmente um dos que apresentam o melhor efeito é o fungo Metarhizium rileyi. Esta espécie causa epizootias (a infecção e mortalidade das populações de lagartas com elevada prevalência é chamada de epizootia, analogamente a epidemias em populações humanas), comumente conhecida por doença- -branca. Seu nome deve-se ao fato que, uma vez que o inseto é morto pelo fungo, apresenta um aspecto branco, tendo em vista que toda a superfície da lagarta é tomada pelo crescimento mice
lial (Figura 1). Posteriormente, na presença de umidade superior a 80%, o fungo forma esporos conferindo à lagarta a cor verde- -claro, característica deste fungo. Esses esporos são as “sementes” que iniciam um novo processo de infecção em outras lagartas. O fungo pode permanecer no solo na forma vegetativa ou formando pequenos esclerócios (que são estruturas de sobrevivência), fechando assim seu ciclo vital.
Até 2014 essa espécie era conhecida pelo nome científico Nomuraea rileyi, quando foi então transferida para o gênero Metarhizium por Kepler e outros autores.
No Brasil, esse patógeno infecta a lagarta-da-soja (Anticarsia

Figura 1 - Fungo formado sobre a superfície do tegumento da lagarta, fase vegetativa branca

gemmatalis), as lagartas falsas-medideiras (Chrysodeixis includens, Rachiplusia nu e Trichopluisa ni), o curuquerê-do- -algodoeiro (Alabama argillacea), entre outras espécies, ocasionando elevada mortalidade, que pode ser próxima a 100% nos indivíduos de uma determinada área. Casos com menor prevalência têm sido observados na lagarta do cartucho-do-milho, Spodoptera frugiperda, e em Helicoverpa armigera.

A incidência de M. rileyi diminuiu a partir da década de 2000, provavelmente em decorrência do aumento do uso generalizado de fungicidas na cultura da soja para o controle da ferrugem-asiática, doença que foi detectada no Brasil em 2001.
Metarhizium rileyi tem distribuição mundial, portanto, apesar da ausência de variabilidade morfológica é possível detectar elevada variabilidade genética entre isolados de diferentes locais. Essa variabilidade pode resultar na expressão de características diferentes, como sua agressividade, a capacidade de multiplicar-se e/ou sua capacidade de sobreviver a diferentes condições ambientais. Portanto, a diferenciação dessas cepas é de fundamental importância para desenvolver bioinseticidas com maiores possibilidades de sucesso no controle de pragas.
Uma vez que a diferenciação das cepas com base em caracteres micro e macromorfológicos não é possível, a alternativa remanescente é a utilização de ferramentas moleculares obtidas a partir do conhecimento do seu genoma.
Esse fungo tem potencial para ser utilizado como bioinseticida microbiano. Estudos realizados em condições de campo indicam que pode ser utilizado com eficiências variáveis, entre 40% e 100% de controle, dependentes da qualidade do material produzido, das condições ambientais, da suscetibilidade e do comportamento da praga-alvo.
O conhecimento da sequência genômica permitirá diferenciar raças e realizar estudos comparativos entre as mesmas,
Figura 2 - Microfotografia da estrutura reprodutiva de Metarhizium rileyi que lembra a forma de pau-de-boliche, disposta em forma verticilada em torno da hifa, utilizada na identificação da espécie

determinando a variabilidade genética e loca
lizando regiões no genoma que permitam a diferenciação entre elas. Portanto, o sequencia
mento do genoma de M. rileyi permitirá o desenvolvimento de ferramentas que facilitarão
a caracterização e a identificação de diferentes cepas do fungo.
Também será possível a comparação entre genomas com outras espécies já conhe
cidas para, por homologia, reconhecer genes associados com características de interesse,
como fatores de virulência, capacidade de esporulação, tolerância a fungicidas, taxa de crescimento e outros parâmetros de interesse, além de contribuir nos estudos de transforma
ção genética. Uma perspectiva para melhorar a eficiência
de fungos patógenos de insetos como agentes de controle biológico consiste na utilização de
edição genética ou transformação genética. Assim, por exemplo, a transformação gené
tica de outras espécies de fungos causadores de doenças em insetos tem auxiliado no apri
moramento do controle de algumas pragas, como é o caso do fungo Metarhizium pingsha
ense, melhorado geneticamente para controle de pernilongos transmissores de malária em Burkina Faso, África, país onde a doença é endêmica. Esse fungo modificado geneticamente
apresenta maior virulência, ou seja, mata mais rapidamente, e as fêmeas de pernilongo infec
tadas reduzem significativamente o número de ovos depositados. C
Daniel R. Sosa-Gómez e Eliseu Binneck,
Embrapa Soja Claudia Lopez Lastra, CEPAVE

Falhas caras
Na cultura do milho, geralmente a compensação de plantas vizinhas às falhas existe, mas não na proporção que se pode imaginar. Em alguns casos há vantagem econômica em realizar o replantio
Oestabelecimento do estande (número de plantas/ha) ideal na lavoura é fator decisivo na obtenção de altas produtividades. O objetivo desse artigo é demonstrar ao produtor a importância do estande ideal, com o mínimo de falhas possível e, quem sabe, em função da porcentagem de falhas, ajudá-lo a tomar a decisão em fazer ou não o replantio. Pois a compensação em produção pelas plantas sobreviventes e próximas às falhas é limitada. Portanto, todos os cuidados no planejamento, nas ações antes, durante e após a semeadura são fundamentais para o sucesso da sua safra.
Os fatores que afetam o estande da lavoura do milho foram organizados em quatro grupos. O primeiro está relacionado à escolha da semente, que deve ser adquirida de fonte idônea e com garantias de qualidade, pois, partindo de sementes sem qualidade genética e tecnológica, todos os demais investimentos serão em vão. O segundo grupo envolve o planejamento da semeadura: o preparo do leito de plantio, tanto nos sistemas convencionais (com preparo do solo), como no plantio direto; monitoramento de pragas de solo mesmo antes da dessecação; dessecação antecipada e controle de pragas se necessário; manejo das plantas tigueras; cuidados com as sementes no transporte e armazenamento antes do plantio; manutenção e regulagem das máquinas (quanto à uniformidade de distribuição e profundidade de sementes e adubos) e velocidade de plantio adequada às condições de semeadura. No terceiro grupo estão fatores ambientais como temperatura, precipitação e umidade do solo, antes e após a semeadura, sendo que sobre estes fatores, principalmente nas lavouras de sequeiro, o produtor não tem muito controle. O quarto grupo está relacionado aos cuidados na condução da lavoura, durante a germinação e o estabelecimento da cultura, quanto à incidência de pragas que podem causar morte de plântulas.
Merecem destaque, como fator de redução de estande nas lavouras, as espécies-praga que atacam o milho, antes, durante e logo após a germinação. Mesmo antes da dessecação e/ou semeadura, várias espécies de insetos-praga podem estar presentes na área. Algumas espécies como larva-arame e peludinha podem atacar as sementes, destruindo o embrião, o que causa falha na germinação. As falhas podem, ainda, ser causadas por danos nas plântulas, logo após a emergência, devido ao ataque de percevejos e lagartas. Ainda podem ocorrer os corós, que atacam as raízes, levando até mesmo plantas mais desenvolvidas à morte. Embora a maioria dessas espécies tenha ocorrência esporádica, algumas, como o percevejo barriga-verde, têm sido recorrentes no milho safrinha. Assim, plantas com sintomas severos de danos do percevejo, como o perfilhamento de plantas, resultarão em falhas de estande. Portanto, o monitoramento antes da dessecação é fundamental para decidir se é necessário incluir um inseticida nessa pulverização. Posteriormente ao plantio, o monitoramento durante e logo após a germinação também é necessário para garantir a sobrevivência das plantas e preservar o estande planejado.
Nos grupos identificados anteriormente não foram incluídas as chamadas plantas dominadas. São plantas que desde o início já têm o desenvolvimento retardado, mas continuam competindo e ocupando o espaço físico na linha de plantio e se tornam improdutivas por vários outros fatores. Neste caso, como essas plantas competem com as plantas normais por um período de tempo, espera-se pouca ou nenhuma compensação de produtividade pelas plantas vizinhas. Nesse texto não se pretende esgotar o tema sobre a presença de falhas nas linhas de plantio, mas apenas chamar a atenção para os principais fatores e apresentar alguns dados que possam contribuir para a tomada de decisão quanto às condições de semeadura e estratégias para mitigar possíveis perdas na produção ou, ainda, na tomada de decisão do replantio devido ao número excessivo de falhas.
Embora se dê muito valor à qualidade genética das sementes, promovendo grandes eventos a cada lançamento de um novo híbrido ou variedade, a tecnologia de produção, de armazenamento e a comercialização dessas sementes são igualmente importantes para se obter altas produtividades. Tanto as características genéticas quanto as qualidades fisiológicas, físicas e sanitárias das sementes afetam o potencial produtivo da lavoura. Para uma semente ser considerada de alta qualidade, não basta ter pureza, sanidade e alta taxa de germinação, deve também se desenvolver com vigor, com uniformidade e crescimento acelerado da plântula, em condições normais de campo. Resultados científicos mostraram que plântulas de milho com dez dias de atraso na emergência terão uma defasagem de duas folhas no seu estádio de desenvolvimento e, provavelmente, não produzirão espigas e cairão na categoria de plantas dominadas.

Regina Sugayama
Figura 1 - Ilustração dos arranjos de plantas (Y) e falhas (0) utilizados no ensaio para avaliar a compensação das plantas de milho sobreviventes e vizinhas (referência) às falhas

Figura 2 - Porcentagem de perdas na produção final do milho devido às falhas em relação ao estande sem falhas

O estabelecimento final do estande por sementes vigorosas constitui a base para obtenção de plantas com alto grau de tolerância aos estresses e obtenção de alta produtividade. A uniformidade de germinação e desenvolvimento inicial já é um bom indicativo do potencial produtivo daquela lavoura. Portanto, para garantir o sucesso de sua lavoura, não se deve limitar a decisão da escolha da semente apenas com base no preço, mas principalmente com base em informações sobre todas as características da semente que se está adquirindo. A lucratividade é resultado da relação do custo de produção com a produtividade obtida. Portanto, uma pequena economia na semente pode resultar em redução significativa no resultado final.
Em geral, cada planta de milho só produz uma espiga, assim, a produtividade da lavoura fica altamente dependente da densidade de plantas produtivas por unidade de área. Como as plantas respondem à competição entre elas, não se observam diferenças significativas entre intervalos próximos de densidade de plantio, pois as plantas estarão uniformemente distribuídas. Entretanto, quando ocorrem falhas, o nível de competição entre plantas, na mesma linha, é diferente e a redução em produtividade torna-se significativa. É necessário considerar que sempre haverá redução do estande durante o desenvolvimento da lavoura e uma perda de 5% a 8% tem sido considerada normal. Essa perda se torna cada vez mais significativa quanto maior for o potencial produtivo da lavoura, em função da tecnologia e/ou investimentos realizados. Portanto, o ideal é perda zero de estande. Sabe-se que os híbridos dentados, por apresentarem maior flexibilidade no crescimento das espigas que os híbridos duros, tendem a compensar mais a variação da densidade de plantas com espigas maiores. Assim, em função do nível de investimento na lavoura, todas essas considerações devem ser ponderadas.
Independentemente das causas das falhas, elas sempre vão promover perdas na produção final. Entretanto, as plantas vizinhas às falhas acabam sofrendo menos competição por luz, água, nutrientes, entre outros fatores. Assim, podem produzir um pouco mais que as demais plantas (sob competição plena na densidade de plantio utilizada) e compensar parte das perdas devido às falhas. A compensação das plantas sobreviventes e vizinhas às falhas é bem conhecida pelos produtores. No caso específico do milho, as plantas que perdem precocemente a competição das plantas vizinhas geralmente produzem uma espiga maior ou mesmo duas ou mais espigas, compensando parte da perda pela morte de uma ou mais plantas na sua vizinhança. A expectativa de uma compensação expressiva alivia a pressão sobre os produtores em investirem mais no estabelecimento das lavouras com as melhores opções de sementes, plantio e manejo fitossanitário inicial da cultura.
Atualmente, com os novos recursos digitais, como imagens aéreas obtidas por drones, veículos aéreos não tripulados (Vants) ou satélites, tem sido bem mais fácil obter informações frequentes, fiéis e gerais das lavouras. As imagens permitem avaliar a uniformidade da lavoura ou identificar reboleiras de plantas com padrões de tamanho e coloração diferentes. Isso pode indicar falhas no plantio, na emergência das plantas, distúrbios fisiológicos, deficiências nutricionais e incidências de pragas, doenças e/ou plantas daninhas. Mesmo quando não é possível fazer o diagnóstico com base nas imagens, mas só a indicação dos pontos da lavoura a serem amostrados, já facilita e aumenta significativamente a precisão e diminui o custo do monitoramento. Para identificar áreas com falhas na lavoura, essas imagens são bastante eficientes, principalmente se observadas periodicamente para avaliar a evolução da lavoura. Entretanto, o diagnóstico preciso das causas das perdas de plantas ainda demanda observações e investigação in loco.
O monitoramento por imagem, embora muito eficiente para detectar determinados problemas na lavoura, ainda não é suficiente para diagnosticar vários desafios no campo. Por exemplo, em algumas doenças sistêmicas, cujos patógenos são transmitidos por insetos-vetores, os sintomas só se manifestam depois de algum tempo, podendo levar a planta à morte. Essas doenças, como os enfezamentos (causados por mollicutes) e as viroses no milho, quando são observados os sintomas, já não há mais como mitigar as perdas. Nesse caso, o monitoramento do vetor (cigarrinha-do- -milho) deve ser realizado visualmente ou com armadilhas, toman
do amostras em pontos aleatórios e, se necessário, tomar medidas de controle para preservar a sanidade das plantas. Portanto, o monitoramento convencional ainda continua sendo necessário em muitos casos para a condução das lavouras de milho para altas produtividades.
Embora se conheça bem a capacidade das plantas de milho sobreviventes próximas a falhas compensarem as perdas, não há publicação quantificando essa compensação em condições de campo. A perda inicial de plantas, pelos diferentes fatores discutidos anteriormente, é muito comum no início de desenvolvimento do milho e um dos desafios do produtor é a tomada de decisão em fazer ou não o replantio devido à quantidade de falhas. Evidentemente, essa decisão envolve a perda de boa parte da adubação, do custo da semente, da operação de semeadura, retardamento do ciclo etc. Dependendo da porcentagem de falha, talvez não seja econômico esse replantio, considerando todos esses custos adicionais. Portanto, qualquer indicação desse nível de equivalência (custo de replantio equivalente ao valor da perda em produtividade devido às falhas) pode ser de extrema utilidade na tomada dessa decisão.
Um trabalho conduzido na Embrapa Milho e Sorgo, para corrigir a perda de estande, em área experimental, quantificou com razoável precisão a capacidade compensatória das plantas de milho sob diferentes níveis de competição devido às falhas. Com base nesse trabalho é possível inferir o nível de compensação das plantas de milho em função da menor competitividade entre as plantas próximas às falhas. Na Figura 1 estão ilustrados os tratamentos estudados pela simulação de falhas para avaliar individualmente as plantas sob diferentes níveis de competição na linha de plantio. Foram utilizados dez tratamentos distribuídos em dois grupos, com falhas uni e bilaterais. O primeiro grupo, com uma, duas e três falhas, apenas de um lado da planta-referência,

e no outro grupo, uma, duas e três falhas de cada lado (A e B), além de suas respectivas combinações, sempre em relação às plantas- -referência, ou seja, aquelas vizinhas às falhas. Esses tratamentos foram utilizados em dois híbridos e em dois anos de estudo.
Em geral, se observou que a compensação média das plantas-referência, para todos os tipos de falhas simuladas, foi de aproximadamente 23%, o que corresponde a uma perda média de 77% em relação à lavoura sem falhas (Figura 2). Assim, cada 1% de falhas no estande da lavoura resulta em 0,77% (77/100) de perda na produção final de grãos. Portanto, não adianta o produtor se iludir que o milho compensa essa perda de estande, pois essa capacidade de compensação é limitada. À medida que se aumenta o número de falhas, realmente a compensação de cada planta-referência sobrevivente vai aumentando, mas como essa compensação média é cerca de 23% da produção da planta perdida, a produtividade total da lavoura vai se reduzindo proporcionalmente. Por exemplo, uma lavoura com 10% de falhas produzirá cerca de 92% do seu potencial. Se
o investimento na lavoura foi para obter uma produtividade de 200 sacas de milho/ha, com as falhas produzirá apenas 184 sacas, ou seja, uma perda de 16 sacas/ha.
Considerando as estimativas de perda devido às falhas, qual seria o limiar entre fazer ou não o replantio em função dos custos dessa operação e da porcentagem de falhas na lavoura? Obviamente, esse limiar varia de lavoura para lavoura, dependendo basicamente dos custos de replantio e da produtividade esperada, que é função dos investimentos em manejo cultural, das tecnologias utilizadas, das condições de solo e do ambiente. Como exemplo, considerando o custo de sementes = R$ 700,00/ha e os demais custos de replantio em R$ 500,00/ha, isso totaliza R$ 1.200,00/ha. Considerando, ainda, um preço médio (mercado futuro do milho na data da redação desse artigo) de R$ 50,00/saca, o custo de replantio equivale a 24 sacas de milho (R$ 1.200,00/R$ 50,00) e a produção com as falhas corresponderia a 88% da produção esperada, ou seja, 12% de perdas. Se para cada 1% de falha corresponde 0,77% de perda na produção (média das perdas – Figura 2), dividindo-se 12/0,77 encontra-se a porcentagem de falhas correspondente a esse custo, ou seja 15,6%. Portanto, para esses dados simulados, a observação de qualquer porcentagem de falhas acima de 15,6% é econômico replantar, e abaixo desse valor não compensaria o replantio. Esse cálculo foi como exemplo e para cada situação será necessário estimar a porcentagem de falhas, pois apesar de possíveis diferenças em função das densidades de plantio utilizadas em cada lavoura, as variáveis como produção, preço de comercialização esperado e o custo de replantio devem ser diferentes para cada caso. Esse cálculo pode ainda ser útil na previsão de safra do produtor em função do estande/falhas que obteve na sua lavoura. Na Tabela 1 está estimada a equivalência entre o custo de replantio e a porcentagem de falhas para lavouras com base em valores médios para diferentes níveis de tecnologia utilizada e produtividade esperada.
Para estimar a porcentagem de falhas na lavoura é necessário fazer uma amostragem representativa da área. Como discutido anteriormente, as imagens obtidas através de drones, Vants ou satélites podem facilitar a identificação das áreas mais afetadas, economizando uma amostragem da área total da lavoura, mas a quantificação das falhas demanda avaliação in loco. O tamanho ideal dessa amostra depen
Tabela 1 - Estimativas de limiar de falhas para diferentes níveis tecnológicos considerando o preço de sementes e outros para o replantio Produção (sacas/ha) planejada 60 70 80 90 100 110 120 130 140 150 160 170 180 190 200 Valor da produção sem falhas 3.000,00 3.500,00 4.000,00 4.500,00 5.000,00 5.500,00 6.000,00 6.500,00 7.000,00 7.500,00 8.000,00 8.500,00 9.000,00 9.500,00 10.000,00 Custo estimado de replantio (%) 26,7 22,9 20,0 17,8 16,0 18,2 16,7 15,4 14,3 13,3 15,0 14,1 13,3 12,6 12,0 Valor da produção com falhas 2.450,00 2.950,00 3.450,00 3.950,00 4.450,00 4.750,00 5.250,00 5.750,00 6.250,00 6.750,00 7.050,00 7.550,00 8.050,00 8.550,00 9.050,00
Limiar entre custo de replantio e % de falhas* 34,6 29,7 26,1 23,1 20,8 23,6 21,6 20,0 18,6 17,3 19,5 18,3 17,3 16,4 15,6 Baixa tecnologia (R$ 300,00 + R$ 500,00 = R$ 800,00)/ha (média 18,4) Média tecnologia (R$ 500,00 + R$ 500,00 = R$ 1.000,00)/ha (média 15,2) Alta tecnologia (R$ 700,00 + R$ 500,00 = R$ 1.200,00)/ha (média 13,4)
*Porcentagem de perdas de estande devido às falhas que provocam perdas na produtividade equivalentes ao custo aproximado de replantio.
de da uniformidade de ocorrência dessas falhas na área. Em geral, se considera razoável uma amostra de 10% do total a ser avaliado. Entretanto, nem sempre se utilizam os parâmetros ideais. Para o monitoramento da incidência de pragas na cultura do milho se tem adotado a avaliação de dez pontos de amostragem para cada 100ha. Nesses pontos são tomadas cinco amostras aleatórias de 10m de linha, contando-se o número total de plantas e as falhas observadas. A porcentagem de falhas na amostra pode ser calculada multiplicando o número de falhas por 100 e dividindo o resultado pelo número total de plantas esperadas na amostra (nº de falhas mais o de plantas), ou seja: % falhas = 100 x nº falhas/nº total (plantas + falhas). Fazendo-se a média das amostras em cada ponto e entre todos os pontos, se tem uma estimativa final da porcentagem de falhas na gleba considerada.
Os resultados discutidos aqui se basearam apenas na compensação da perda de estande pela planta-referência (principal) e não foi considerada a compensação via perfilhamento. Em geral, o perfilhamento do milho é considerado uma característica indesejável, pois geralmente é improdutivo e rouba energia da planta principal, reduzindo sua produtividade. Um ou mais perfilhos comumente se formam quando o colmo principal é danificado ou morto por diferentes fato
res que afetam a cultura no início de seu desenvolvimento, como, por exemplo, granizo, geadas, insetos-praga, vento, pneus de trator etc. Em alguns híbridos, se o perfilhamento ocorrer cedo, esses perfilhos poderão desenvolver e produzir espigas que irão contribuir com a produtividade final.
Finalmente, chega-se à conclusão de que, na cultura do milho, geralmente a compensação de plantas vizinhas às falhas existe, mas não na proporção que se pode imaginar. Todos os cuidados na obtenção do estande ideal da lavoura do milho é altamente relevante na obtenção de altas produtividades. Portanto, tomar todos os cuidados para o estabelecimento da cultura, com a densidade ideal de plantas, é essencial para se obter alta produtividade. Esses cuidados iniciam-se pelo planejamento antecipado, aquisição, transporte e armazenamento das sementes, bem como nas operações de plantio e tratos culturais durante a emergência das plântulas. Para a tomada de decisão, em fazer ou não o replantio, além de se considerar a porcentagem de falhas deve-se, ainda, ponderar o efeito da nova data de plantio na produção esperada. C
José Magid Waquil UFSJ-Campus de Sete Lagoas
Antônio Carlos de Oliveira
Embrapa Milho e Sorgo