Zanshin e Kimé - Energias Sinergéticas - Rui Carmo

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RUI CARMO

ZANSHIN & KIMÉ

ENERGIAS SINERGÉTICAS


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ZANSHIN E KIMÉ COMPLETAÇÃO OU COMPLEMENTAÇÃO

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_______________SUMÁRIO

Prólogo……………………………………………………….7 Do Jutsu ao Do……………………………………………..11 O Kimé………………………………………………….......15 Massa, Peso e Força…………………………………..18 Aceleração, Desaceleração e Tensão Articular….....20 Potência, Penetração e Pressão……………………....23 O Zanshin…………………………………………………..25 Ambiente Controlado………………………………...29 Mente Remanescente…………………………………30 Mente Calma e Fluída………………………………..31 Imersão da Mente……………………………………..33 O Kimé e o Zanshin……………………………………….35 As Sinergias……………………………………………38 O Kimé complementa o Zanshin…………………....41 O Zanshin completa o Kimé…………………………43 5


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_______________PRÓLOGO

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ais que um trabalho, vejo este texto como um ensaio, um estudo sobre a minha própria pratica do Karaté.

Acredito que a minha verdade não é a verdade

de todos os outros, por isso, este ensaio deve ser encarado com um espirito crítico e de abertura. Eu próprio espero no futuro poder olhar para ele de forma a comprovar que estou errado. Só desta forma podemos avançar e evoluir na prática, olhando sempre para o Karaté-Do como se da primeira vez se tratasse.

Rui Carmo

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_________DO JUTSU AO DO

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A

o longo dos tempos o Karaté tem sofrido inúmeras mutações devido em muito à sua própria natureza humana.

Durante várias décadas, senão centenas de anos o

Karaté foi sendo praticado como Jutsu, como um conjunto de técnicas agregadas e compiladas entre si de forma a promover a boa forma física e a capacidade de defesa dos seus praticantes, mas como tudo, ao longo deste tempo e através da intervenção de muitas personalidades, a prática foi evoluindo e mutando em algo diferente. Antes uma prática autóctone e fechada em si mesma, começa agora a ser ensinada massivamente por toda a ilha, levando vários dos seus mestres a migrarem de Okinawa para o Japão, para assim poderem disseminar ainda mais o seu conhecimento. É nesta altura, que devido à grande influência do ainda Japão imperial, dos seus costumes e artes, que pela mão de Gichin Funakoshi, o Karaté começa cada vez mais a incorporar o espirito do Budo. Desta forma, o Karaté de Okinawa começa a ser o karaté do Japão, o Jutsu dá lugar ao Do. Mais do que simples técnica como havia sendo praticado, o agora Karaté-Do ganha outra profundidade, outro significado, um caminho que a par 13


com outras práticas do Budo nos ensina a estar e percorrer a Vida de uma forma diferente e elevada. Com esta transformação vários conceitos passam a ser estudados, transferidos de outras artes e desenvolvidos. A partir daqui e para sempre o Karaté-Do passa a ser arte. Mesmo após a morte de Funakoshi, Egami, então presidente da NKS, começa a acreditar que a essência da prática se começa a desviar do desejo de O-sensei. Após tanto esforço e dedicação de Funakoshi em direccionar a arte para o Budo, foi a sua morte e posterior introdução da competição, que permitiu que alguns começassem a deturpar o verdadeiro propósito do Karaté-Do. Foi por esta razão que Egami, em completo desacordo com esta visão, enfatiza ainda mais o espirito do Budo na sua prática, alterando-a ainda mais. Este eliminou técnicas que achava não terem real efectividade, introduziu novos conceitos e maneiras de praticar. Egami acreditava que o Karaté-Do era uma arte viva, não estática, que evoluía e que não se prendia a dogmas auto-impostos. Hoje cada vez mais vemos um real afastamento do Karaté ao seu verdadeiro propósito, lentamente a arte começa a transformar-se em desporto e com esta mudança também a filosofia, os conceitos e a própria transcendência se começam a perder.

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____________________O KIMÉ

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Q

ualquer técnica, quando praticada deve ter em conta a sua real efectividade. De que vale treinar movimentos sem que estes cumpram o seu real

propósito? Uma defesa deverá sempre, quando bem executada, desviar um ataque, tal como por sua vez, um ataque deverá sempre conseguir penetrar uma defesa. Para isso o Kimé deverá ser usado de forma a que este prossuposto seja alcançado, permitindo-nos assim um treino mais verdadeiro e capaz de por à prova a técnica do seu executante. Mas poderemos então dizer que a compreensão do Kimé acaba aqui? Será o Kimé uma simples contracção no final de uma qualquer técnica? Quanto maior a força muscular, melhor o Kimé a sua efectividade? Acredito que, mais do que o “Snap” final da técnica, caracterizado pelo som do estalar do Gi (pura estética), Kimé é na verdade uma total transferência de energia entre dois pontos (corpóreos ou não), executada no menor espaço de tempo e com a maior eficácia possível. Para tal, e para que o kimé seja real, a aplicação correcta deste conceito deverá ter em conta vários aspectos: 17


MASSA, PESO E FORÇA Devemos compreender que tudo o que existe no plano físico é dotado de uma determinada massa, ou seja, massa é a quantidade de matéria contida num determinado objecto ou corpo. Devido à acção da força da gravidade que constantemente “puxa” essa massa para o centro da terra, esta passa a ter um peso. Assim podemos dizer que para uma mesma massa, o peso poderá ser variável em função das forças a ele aplicadas. Podemos de uma forma simplista, mas facilmente compreensível para o tema a desenvolver, afirmar que a quantidade de força gerada se obtém através da seguinte equação: F=ma. Desta forma e assumindo que m designa a massa do nosso corpo, e que a, a aceleração aplicada a este, quanto maior a aceleração ou quanto maior a massa do corpo, maior a força gerada. Por outras palavras: -Um corpo com grande massa e pouca aceleração irá gerar a mesma força que um corpo de pouca massa e grande aceleração. Para obtermos um kimé correcto, devemos considerar como massa a totalidade do nosso corpo e não apenas o membro que irá finalizar a técnica. Quanto maior a massa utilizada maior o kimé. O peso da massa total do nosso corpo será sempre maior que o peso da massa do nosso braço ou perna isolados portanto,

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devemos conseguir aplicar todo o peso do nosso corpo no final da tĂŠcnica.

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ACELERAÇÃO, DESACELERAÇÃO E TENSÃO ARTICULAR Como variável da força, a aceleração é aquela que mais facilmente consegue ser alterada e assim através da sua modificação também a força gerada é aumentada ou diminuída. Para acelerarmos o corpo, devemos dar a máxima importância à posição. Esta deverá ser estável, através da correcta distribuição do peso do corpo, e pesada através do direccionamento do Hara. Igual importância deverá ser dada ao deslocamento do corpo. Este deverá ser repentino, de velocidade exponencial e articularmente sequencial, tendo em atenção que o mesmo poderá ter ou não ter, deslocamento de pernas (Ashi). Partindo do pressuposto que qualquer técnica efectuada, de pernas ou de braços começará sempre com um ponto de contacto com o solo, é desta que primariamente se deve retirar energia, empurrando o chão e direccionando a força sequencialmente por todas as articulações que se encontrem no caminho, entre o chão e o ponto onde a técnica será aplicada. Por exemplo, na aplicação de um Gyaku-Tsuky em Zenkutsu-Dachi, a perna de trás deverá empurrar o solo fazendo com que a força gerada percorra as articulações do pé, joelho, anca, cotovelo, pulso e Seiken. Desta forma e de modo a que esta transferência seja natural, o corpo deverá estar descontraído e sem tensão não 20


permitindo que haja qualquer desperdício energético com contracções desnecessárias. Assim compreendendo o valor da aceleração, também nos devemos concentrar na desaceleração que deverá ser abrupta e no correcto timing, ou seja, no momento exacto anterior ao da finalização da técnica, para que desta forma toda a força gerada seja rapidamente concentrada e transferida. Para isso contamos com o chicotear da anca, travando abruptamente o seu movimento, mas deixando fluir os demais. Com o esvaziar repentino e completo dos pulmões, contraindo a parte abdominal, zona dos glúteos e do dedo mindinho, criando nem que por breves instantes um monobloco capaz de uma transferência total de energia sem que para isso a mesma retorne para nós no sentido direccionalmente oposto. Para melhor entendermos este conceito podemos imaginar um carro com um condutor sem cinto de segurança, a acelerar, com uma velocidade cada vez maior e que num décimo de segundo é travado caindo a sua velocidade para zero. Assim toda a força criada pela aceleração daquele carro, é transferida para o condutor que sai projectado com toda aquela energia. Mesmo assim e apesar das contracções supra referidas não devemos confundir estas com contracções desnecessárias dos ombros, coxas ou bíceps, que de nada servem. Devemos sempre trocar contracção muscular por tensão e extensão articular (raquet) e desta forma permitir um encaixe da técnica, sem que para isso se 21


sacrifique a velocidade ou a força. Já todos vimos uma bengala articulada de um invisual, quando não utilizada, encontra-se dobrada, mas com uma leve aplicação de força desdobra-se rapidamente, parecendo quase fluida neste processo, até que no final o movimento se finda, ficando a mesma em riste. Assim deve ser entendida aplicação da tensão articular na técnica.

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POTÊNCIA, PRESSÃO E PENETRAÇÃO Aquando do fim da técnica, mesmo com todos os pressupostos correctamente aplicados, podemos mesmo assim não criar uma técnica eficaz pela incapacidade de concentrar ou focar a energia criada. Não devemos isso à falta de força, massa ou velocidade o problema é que a técnica necessita de potência (velocidade da aplicação do kimé), de pressão (área da aplicação do kimé) e de penetração (deslocamento obtido com a aplicação do kimé) para ser eficaz. Para isso devemos compreender que a eficácia de uma técnica se prende com a velocidade que demora a transferência de energia, ou seja, quanto menor o tempo de contacto ou tempo de kimé, maior será a potência gerada, pois, por mais força que a técnica tenha, se o seu tempo de transferência for demasiado longo, esta transformar-se-á num empurrão. Pressão, porque quanto menor for a área de contacto do kimé, mais concentrada será a sua energia. Esta foi uma das razões para Egami, na altura que repensou as técnicas de braço, preferir usar o Nakadaka-ken em detrimento do Sei-ken; a área de embate do primeiro é inferior à do segundo, e desta forma conseguia aumentar a pressão aplicada pela técnica. Penetração, porque quanto maior for o deslocamento obtido pela técnica após o impacto maior será o dano causado pela mesma, assim não devemos pensar em tocar um alvo mas sim trespassá-lo, para que 23


a técnica mesmo após o embate, continue como se nada existisse no seu caminho. Para melhor entendimento, comparemos o lançamento de dois projécteis para podermos aplicar os conceitos explicados: -uma bala redonda de canhão com 1,5kg e uma bala com ponta bicuda de 10g disparada de uma pistola. Ambas disparadas à mesma distância. São as duas portadoras de massa e aceleração. A bala de canhão mais lenta e pesada irá gerar hipoteticamente uma força equivalente à bala da pistola, que apesar de ser mais leve, viaja muito mais rápido. Mas então qual será a mais eficaz? Na minha opinião a bala de pistola, pois apesar de exercer a mesma força que a bala de canhão, devido à sua menor área de pressão no alvo demorará menos tempo a transferir a sua energia pelo que a penetração no alvo será exponencialmente maior.

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_______________O ZANSHIN

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N

o Karaté como na vida os conceitos adquirem um peso significativo e sendo a sua natureza abstracta, tornam-se, através da vivência de

cada um de nós, quase pessoais. Podemos nós explicar o Amor, a Coragem ou o Medo de uma forma concreta e definida? Antes de mais, acredito que tais conceitos terão sempre de ser sentidos na primeira pessoa, por isso, colocando o Zanshin sobre este mesmo prisma, terei de considerar que este é simultaneamente um estado de espirito e uma emoção/sentimento. Assim, o Zanshin não se ensina. Em vez disso, deve ser percepcionado através do próprio treino e com a ajuda do professor. Primeiro, de uma forma mais controlada e esquematizada e mais tarde, com o passar do tempo mais livre e solta, aproximando-se assim cada vez mais de uma aplicação real. Este conhecimento dado a conta-gotas é assim passado porque o Karate-ka deve percorrer esse caminho cada vez mais exigente, sozinho, testando e superando cada vez mais os seus limites físicos e mentais, para que por ele próprio, pelos seus próprios sentimentos e emoções comece a perceber a prática. Este caminho faz-se andando por si próprio e nunca percorrendo o caminho deixado por outros, só 27


assim conceitos como o Zanshin, poderão ser sentidos e verdadeiramente apreendidos. A total dimensão do Zanshin aumenta de acordo com a sua real necessidade de aplicação.

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AMBIENTE CONTROLADO Idealmente um Karate-ka deve ser capaz de mesmo num ambiente hostil e imprevisível controlar qualquer situação, transformando a desvantagem em vantagem, mesmo não tendo controlo possível sobre as acções e pensamentos dos outros. É o Zanshin que nos permite atingir esse objectivo, para isso a mente deve estar calma e serena mas nunca inerte, a nossa concentração deverá ser completa e total mas desfocada, a noção espacial aumentada através da percepção sensorial e extrasensorial, criando assim um círculo vital imaginário de 360º em seu redor, não permanecendo encarcerado pelos limites do próprio corpo. Assim desta forma enquanto individuo deixamos de existir para nos mesclarmos no próprio ambiente em redor sem que para tal exista qualquer sentimento antagónico ou ideia pré-concebida. Só quando nada esperamos é que conseguimos realmente receber o que nos dão.

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MENTE REMANESCENTE Do japonês e numa tradução literal, Zanshin quer dizer “mente remanescente”. Para muitos, é um estado de concentração, para outros o manter do foco após a concretização de uma técnica, para outros ainda a absorção total de uma acção desempenhada. Zanshin é tudo isto e muito mais. Antes de tudo devemos compreender que este conceito não é exclusivo ao Karaté e nem sequer às artes marciais, ele faz parte da psique humana e por isso é inato a cada um de nós. As artes marciais apenas exploram, controlam e aumentam a sua capacidade. A minha experiencia diz-me que Zanshin é o que remanesce em nós após serem retirados todos os aspectos do nosso ego e personalidade pondo de parte todos os sentimentos e emoções, defeitos e qualidades, costumes e crenças, como qualquer outro preconceito, ficando assim apenas a nossa essência, o nosso “eu” mais livre que existe e actua sem que para isso nós tenhamos sequer a percepção que ele lá está. É no controlo desde despojamento mental que reside o verdeiro Zanshin.

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MENTE CALMA E FLUIDA Imaginemos um lago isolado, numa linda paisagem, com a sua água calma, sem agitação, reflectindo como um espelho o céu que se encontra por cima de si. Tal como esta água, a mente deve estar assim, aparentemente calma e serena, mas por baixo da superfície, a borbulhar de vida e movimento, desta forma qualquer agitação ou turbulência alheia por mais ténue que seja será claramente denunciada pela ondulação que fará na sua superfície. Como podemos nós distinguir a ondulação que faz uma folha ao cair no lago se água onde ela cai ondula como numa tempestade? Assim a mente deve ser como esta água, desta maneira conseguirá captar todos os estímulos físicos, mentais e emocionais que se encontrem a sua volta, não os obstruindo ou negando mas em vez disso aceitandoos como seus. Durante a minha prática de Karaté, compreendi também que o que aprendemos nem sempre pode ser aplicado da mesma forma, pois as variáveis presentes nas nossas acções são inimagináveis. Por isso, a forma e técnica que eu uso com um oponente pode ser completamente díspar da que eu uso com outro. Assim, também a mente deve estar vazia para que flua e se molde consoante a sua real necessidade, alterando a sua 31


forma para assim conseguir ser um só com o oponente, passar a ser o próprio oponente. Só desta forma conseguirá estar constantemente preparada. Como água, a mente não deverá ter forma, mas adaptar-se ao ambiente onde se encontra e a rodeia. Se colocarmos água num copo, esta passa a ter a forma de um copo, quando numa taça a água passa a ser a própria taça. Por isso devemos ser fluidos e vazios. Devemos ser água.

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IMERSÃO DA MENTE Devemos compreender que o Zanshin é uma parte que define em muito a pratica de um Karate-ka, podemos treinar anos e anos sem nunca compreender ou atingir este estado mental, desta forma seremos mais pobres de espirito e passaremos ao lado do verdadeiro Karaté, pois até no Shoto Niju Kun vemos a importância que é dada a este aspecto quando O’sensei dizia que espirito era mais importante que a técnica, que devíamos deixar a mente livre e transformarmo-nos consoante o adversário, por isto todas estas percepções, indicam que este é o caminho a ser tomado, que devemos considerar o Zanshin como algo que nos transcende e que através de todos os conceitos que tentei explicar nos concede a oportunidade de compreender que devemos estar alerta e

conscientes

do

ambiente

que

nos

rodeia,

completamente presentes em todas as acções praticadas, quer seja uma técnica de Karaté, quer seja uma qualquer acção do quotidiano. Ao estarmos completamente imersos na mesma, percebermos que não existem momentos banais, que todos os momentos se tornam especiais e únicos, e desta forma apercebendo-nos da nossa finitude, compreendemos que todos os momentos devem ser vividos como se só o “aqui” e o “agora” existisse, colocando toda a nossa vida e crer no mais simples dos gestos. 33


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_____O KIMÉ E O ZANSHIN

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N

o cosmos tudo tende para o zero. Acredita-se que o universo nasceu

dum evento a que se deu o nome de Big Bang.

Antes nada existia e depois, através um desequilíbrio energético inexplicável, deu-se uma explosão que criou e expandiu o universo à velocidade da luz. No universo como na vida, tudo nasce do nada e ao nada retorna, e como tal, a própria vida tende a equilibrar-se de forma a estar em constante harmonia, por isso qualquer tentativa de quebrar esse equilíbrio mais tarde ou mais cedo é compensado pelas forças que nos regem. Assim no Karaté devemos procurar manter o nosso equilíbrio permanecendo em harmonia constante com tudo o que nos rodeia e que connosco interage. Aquando da quebra desse equilíbrio, somos nós, pelo próprio entendimento que temos da vida, que temos o dever de aplicar essa compensação. O

Karaté-ka

será

ele

próprio

o

agente

equalizador da harmonia vital.

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AS SINERGIAS Compreendendo que a própria vida tende para a harmonia, acredito que é o Zanshin que equilibra e anula a mente, espelhando o ambiente e fluindo com ele, sentindo cada momento como o mais importante e assim desta maneira dotando-nos de uma nulidade energética que não pendendo para lado algum simplesmente existe. Desta forma, aquando de qualquer quebra neste equilíbrio é nosso dever através do kimé colocar todo o nosso esforço no retorno a este estado. Na atmosfera, quando a pressão se encontra equilibrada, o ar apresenta-se inerte, apesar de não o sentirmos, ele está presente. É só quando ocorre uma alteração na pressão atmosférica que esse equilíbrio se quebra. Assim o ar passa a ser vento. Passamos a sentir o ar, pois este corre da alta para baixa a baixa pressão, soprando que até que o equilíbrio seja novamente restabelecido. O vento só aparece estritamente na mesma proporção da diferença de pressões. Quanto maior esta diferença, maior a intensidade do vento. Devemos entender o Zanshin como o ar que nos rodeia e nos dá vida e o Kimé como o vento que nos atinge e nos empurra para trás. A energia, como o vento, correrá sempre em função do desequilíbrio criado, assim devemos perceber que o Zanshin é energeticamente nulo, e o Kimé, poderá 38


ser positivo ou negativo em função do desequilíbrio criado, desta forma sempre que a harmonia for quebrada positivamente, o Zanshin através do Kimé irá actuar negativamente, quando desequilibrada negativamente, o Zanshin através do kimé actuará de forma positiva. Quando em frente a um adversário estando em Zanshin, devemos percepcionar a sua acção mental, de tal forma que a qualquer quebra deste, a nossa técnica actuará sempre instintivamente (Mushin) em reacção antecipada, ligando directamente o Zanshin ao Kimé aplicado, de forma que no correcto timing, o oponente nada possa fazer senão ser derrotado. Assim no Karaté, não existe primeiro ataque. Aquando da quebra de harmonia, é o Zanshin através de um Kimé Activo que voltará a retomar o equilíbrio do meio. Quando em frente a um adversário, uma quebra nossa permitir um ataque do adversário, será o Zanshin, através de um Kimé Receptivo nos volta a colocar em pé, alheios ao nosso próprio corpo. Duma forma ou de outra, o Zanshin na sua nulidade deve transparecer o sentimento de Fudoshin, onde ganhando ou perdendo, a noção de Zanshin deverá ser sempre mantida não transparecendo qualquer emoção ou alteração mental, independente do esforço, dor ou situação anímica. Após transmitir a minha própria noção de Zanshin e de Kimé, da sua interacção abstracta com o ambiente envolvente, posso finalmente dar a minha 39


opinião sobre o tema do ensaio: -“Zanshin e Kimé são dois aspectos fundamentais do Karaté. Estes completamse ou complementam-se?” O Zanshin completa o Kimé, por sua vez o Kimé complementa o Zanshin.

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O KIMÉ COMPLEMENTA O ZANSHIN Devemos entender o Zanshin como algo completo por si só, como um copo cheio de água, onde a água é todo o nosso ser mental. O kimé será então o complemento que fará transbordar essa água, a passagem da técnica do estado mental para o físico. Para isso a mente não se deve prender com o físico, nem o físico com a mente. Esta separação consegue-se de duas formas: 1- Com a repetição do treino físico da técnica, de tal forma, que a aplicação da técnica deixa de ser pensada para ser intuída. Um condutor experiente conduz, não pensa que tem de carregar no pedal X e depois colocar a mudança Y, simplesmente conduz de tal forma automática que por vezes não se apercebe que está a conduzir. Assim, a técnica sendo automática (Mushin) cria espaço para a mente estar liberta. 2Com os treinos exigentes, é através do aspecto físico que nos começamos a aperceber do lado mental que nos sustenta, pois é no completo desgaste físico que nascem as primeiras noções do “mental”.

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Assim, numa primeira fase é o físico que nos dá a conhecer o mental. Atingimos a percepção de Zanshin através do Kimé.

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O ZANSHIN COMPLETA O KIMÉ Quando Funakoshi dizia que "devemos imaginar as nossas mãos e pés como espadas", penso que estaria a explicar esta interacção. A espada não empurra o adversário, trespassa-o tornando-se mortal. Tal como a espada, devemos crer que as nossas mãos e pés, são capazes de furar o oponente, trespassando-o. É o Zanshin através da sua presença e atributos (já explicados neste estudo), que imprime na técnica tamanha certeza e confiança. A sua decisão final só poderá ter um desfecho: a morte. Assim, tendo a percepção deste derradeiro desfecho a aplicação do verdadeiro kimé fará com que a técnica seja sempre a derradeira, sem espaço para qualquer incerteza ou dúvida com prejuízo do oponente terminar com a nossa vida. O kimé só é verdadeiramente kimé quando completado pelo Zanshin. Podemos entender isto, olhando para o passado. Os Samurais, quando combatiam entre si, corpo-a-corpo, em

duelos

conceitos.

programados Os

combates

usariam

estes

começariam

mesmos

sempre

em

harmonia e equilíbrio energético, e os dois combatentes ficariam em Zanshin, frente a frente, em constante estudo, alterando a sua noção de tempo e espaço, equilibrando-se energeticamente entre si e o ambiente á sua volta. Qualquer um dos dois, perceberia que 43


qualquer acção mental ou física desencadearia uma reacção oposta de tal forma decidida e antecipada que terminaria num instante com a sua vida. Desta forma, era imperativo que o equilíbrio nunca fosse quebrado e enquanto o mesmo assim continuasse a paz seria mantida. Assim, devemos perguntar se o Do não estará intrinsecamente ligado a estes dois conceitos que se cruzam e entrecruza criando nos seus equilíbrios e desequilíbrios o próprio Karaté-Do. Desta forma, a minha conclusão é que o Zanshin completa do Kimé e o Kimé complementa o Zanshin, e que desta sinergia que percorre transversalmente todos os aspectos do Karaté, nasce realmente o “caminho” certo. O caminho da não-violência, da não existência de conflito. O caminho do amor, paz e harmonia.

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