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Opinião A polarização que nos afeta

Arthur Acosta Baldin

No livro “Cartas de um diabo a seu aprendiz” ( omas Nelson Brasil, 2017), publicado pela primeira vez em 1942, C. S. Lewis escreve: “Ambas as igrejas, no entanto, têm um ponto em comum – são igrejas partidárias. Acho que eu o alertei anteriormente de que, se você não consegue fazer com que o seu paciente que longe da igreja, você deverá ao menos fazê-lo car profundamente ligado a algum grupo dentro dela”. Esta passagem situa-se na carta 16 de Festusio (diabo) ao seu sobrinho Vermille (aprendiz).

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Este livro, apesar de ter sido publicado em uma época conturbada do século XX, com a ascensão de regimes nefastos para a humanidade, como o nazismo e o comunismo, ilustra um problema muito atual: a polarização que vivemos, fenômeno mundial que afetou a sociedade e a Igreja, fazendo com que éis deixem de enxergar o que é essencial, que é o corpo místico de Cristo, e acabem dando mais relevância a questões secundárias, a grupos que podem ter uma motivação muito mais partidária do que espiritual.

Neste sentido, é necessário recorrer a uma fala do Papa Francisco na qual ele faz menção aos 25 anos da queda do Muro de Berlim: “Rezemos a m de que, com a ajuda do Senhor e a colaboração de todos os homens de boa vontade, se difunda sempre mais uma cultura do encontro, capaz de derrubar todos os muros que ainda dividem o mundo, e não mais aconteça que pessoas inocentes sejam perseguidas e até mesmo mortas por causa de seu credo e de sua religião. Onde há um muro, há fechamento de coração! Precisamos de pontes, não de muros!” (Angelus de 9 de novembro de 2014).

Esta mensagem, proferida pelo Papa, tem um caráter sociopolítico evidente, e, também, um caráter espiritual. Se o corpo místico de Cristo conta com a comunhão dos santos, essas pontes se referem não apenas ao contexto histórico do Muro de Berlim, mas também ao fato de que a Igreja é uma família e temos que saber nos conectar ao outro, independentemente da sua forma de pensar ou agir – dando relevância para a espiritualidade da Santa Igreja e deixando de lado opiniões pessoais, que muito interessam a cada indivíduo, mas pouco enriquecem a formação dos cristãos.

Quando Festusio, personagem das “Cartas de um diabo ao seu aprendiz”, faz referência a um grupo, ele revela o lado mais dissimulado do diabo, pois que a ciência. A ciência faz maravilhas, mas ela se adquire por meios humanos, e produz efeitos que permanecem nos limites humanos. A oração, por sua vez, é uma força sobrenatural, cuja e cácia vem de Deus, dos méritos in nitos de Cristo, da graça atual que nos leva a rezar; é uma força espiritual mais poderosa que todas as forças naturais tomadas juntas. Ela pode nos alcançar aquilo que só Deus pode dar: a graça da contrição, da caridade perfeita e da vida eterna, que é o próprio m do governo divino, e a manifestação última de sua bondade ” (Garrigou-Lagrange). Rezemos, então, com renovada devoção e amor: “Faça-se, Senhor, a vossa sapientíssima e amorosíssima Vontade. Amém.” sabe que tais grupos, apesar de terem um viés religioso, acabam se a rmando pelas a nidades políticas. Fazem com que pessoas entendam a Igreja a partir de um caráter humano e não divino. Assim, muitos acabam se aproximando da Igreja por interesses sociais e não espirituais.

Também vale trazer a passagem de um livro publicado por Diogo Chiuso, “O que restou da política” (Editora Noétika, 2022). No capítulo “A Sociedade do Espetáculo”, ele observa que a polarização chegou a um ponto em que a ideologia de um indivíduo se tornou uma crença inquestionável, ideia que parece bem factível e realista para os dias atuais. No entanto, também é válido a inversão do que é apresentado por Chiuso: quando a crença vira mera ideologia, corrobora o que foi explicitado por Festusio. Se não conseguir afastar o indivíduo de Deus, propõe o diabo, aproxime-o de um grupo com viés político dentro da Igreja, pois este corre o risco de se deslumbrar por questões políticas e deixar de escanteio os verdadeiros valores espirituais.

Infelizmente, isso não está apresentado apenas no conto de C. S. Lewis, mas é um perigo que ronda a todos nós, membros da Igreja, seja padre, seja leigo, religioso ou ministro...

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